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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, .............
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
"Mário Quintana"


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Carta

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas  com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim ,
Aí de ti , ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.

Mário Quintana

domingo, 27 de janeiro de 2013



Coisas que andam no ar
“Foi uma coisa que me passou pela cabeça”, costuma-se dizer. E agrada-me esta expressão. Uma coisa que nos passa pela cabeça me parece muita mais universal e portanto mais verdadeira do que uma coisa que nos saem da cabeça.

- Mario Quintana, in: Da Preguiça como Método de Trabalho, 1987.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Não mandes contra essas moças de capas de revistas: um corpo bonito pertence aos olhos do mundo. _____Mario Quintana - Da preguiça ao método de trabalho

sábado, 9 de junho de 2012

Soneto XVIII

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meu cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de Vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada

Aves da noite! Asas de horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca.

Mario Quintana

domingo, 7 de agosto de 2011

ESCADAS

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror !
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica...
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E 'sabes' que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...
 
Mário Quintana

ARQUITETURA FUNCIONAL

Para Fernando Corona e Antonieta Barone




Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas.
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas.
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma... tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje !
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não tem porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho ?
O sonho é sempre um hospede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas ?)
É preciso ocultá-lo das outras pessoas da casa.
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras cousas...)
E as casa novas não tem ao menos aqueles longos,
intermináveis corredores
Que a lua vinha às vezes assombrar !




Mário Quintana


Fonte: Revista Viver Cidades

Envelhecer

Antes todos os caminhos iam
Agora todos os caminhos vêm
A casa acolhedora, os livros poucos
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mário Quintana

terça-feira, 21 de junho de 2011

Vida

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta feira...

Quando se vê, já terminou o ano...

quando se vê, passaram-se 50 anos!



Agora, é tarde demais para ser reprovado...

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo

caminho, a casca dourada e inútil das horas..

Dessa forma eu digo:



Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta

de tempo, a única falta que terá, será desse tempo

que infelizmente não voltará mais.


Mário Quintana

domingo, 30 de janeiro de 2011

Presença ...

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento

das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale

sutilmente, no ar, a trevo machucado,

a folhas de alecrim desde há muito guardadas

não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela

e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista

que nunca te pareces com o teu retrato...

E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

Mario Quintana

segunda-feira, 5 de julho de 2010

ESCADAS

Poesias


ESCADAS




Escadas de caracol



Sempre



São misteriosas; conturbam...



Quando as desce, a gente



Se desparafusa...



Quando a gente as sobe



Se parafusa



– o peito



estreito –



o teto descendo



Descendo descendo como nas histórias de imortal horror !



Mas de que jeito,



Mas como pode ser.



Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?



Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica...



Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos



edifícios públicos



Para ser assassinado...



Porém não fiques tão eufórico,



– nem tudo são rosas:



Há,



No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,



Passos que vêm subindo degrau por degrau em



direção ao teu quarto



E 'sabes' que é um fantasma chamejante e fosfóreo



– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !



O melhor



Mesmo



É fechar os olhos



E pensar numa outra coisa...



Pensa, pensa



– o quanto antes !



Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres



– escurinho dos teus primeiros aconchegos...



Pensa em cascatas de risos



Escada a baixo



De crianças deixando a escola...



Pensa na escada do poema



Que tu



comigo



vem descendo



agora...



(Hoje em dia todas as escadas são para descer)



Mas não ! Este poema não é



Nenhum



Abrigo



Antiaéreo...



Ah, tu querias que eu te embalasse !?



Eu estava, apenas, explorando uns abismos...



Mário Quintana