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sábado, 11 de janeiro de 2014

AO ANOITECER O MEU CORAÇÃO



Ao anoitecer ouve-se o grito dos morcegos,
Dois morzelos saltam no prado,
O ácer rubro sussurra.
Ao viandante surge-lhe a pequena tasca à beira do caminho.
Que bem sabem vinho novo e nozes,
Que bom: cambalear bêbado no bosque que escurece.
Pelos ramos negros soam sinos doridos,
Caem na cara gotas de orvalho.

Georg Trakl
Tradução: Paulo Quintela

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Melancolia

Sombras azuladas. Oh olhos de mágoas
Que me olham longamente ao deslizar
guitarras nos jardins a acompanhar
o outono e a dissolver-se em escuras águas
Duras trevas da morte construídas
por mãos nínficas , rublos seios sugados
por podres lábios, e os cabelos molhados
do jovem nas águas enegrecidas.

Georg Trakl

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

DE PROFUNDIS


1 GEORG TRAKL


Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom;ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.

Tradução: Cláudia Cavalcante

sábado, 6 de outubro de 2012

CLAMOR



Sono e morte, as águias da sombra
Esvoaçam noite adentro nesta fronte:
O dourado retrato dos homens
Teriam-no tragado as ondas gélidas
Da eternidade. Em recife horrível
Esfacela-se a carne púrpura
E a voz escura clama
Sobre o mar.
Irmã de irada angústia, mira:
Uma frágil jangada naufraga
Sob estrelas, face
A face da noite que se cala.

(Poema de Trakl traduzido por André Vallias)

RESTO



Ó rever-se em êxtase
No outono tardio.
Rosas amarelas
Desfolham no gradil,
Em lágrima escura
Derrete-se uma grande dor,
Ó irmã!
Tão calmo finda o dourado dia.

(Poema de Trakl traduzido por André Vallias)

EM VENEZA




Silente no quarto noturno
Tremula em prata o candelabro
Ante o sopro canoro
Do solitário;
Rosa enfeitiçante nuvem.

Negra névoa de moscas
Escurece o espaço pétreo
E enrija-se da tortura
Do dourado dia a fronte
Do expatriado.

Inerte anoitece o mar.
Estrela e negra viagem
Esvaneceram no canal.
Criança, teu sorriso doentio
Seguiu-me suave ao sono.

(Poema de Trakl traduzido por André Vallias)

O SONO



Amaldiçoados, veneno escuro,
Sono branco!
Este jardim estranhíssimo
De árvores entardecentes
Fartas de serpentes, falenas,
Aranhas, morcegos.
Forasteiro! Tua sombra perdida
No crepúsculo,
Um obscuro corsário
No mar salgado da tribulação.
Esvoaçam pássaros brancos na aba da noite
Sobre cadentes cidades
De aço.

(Poema de Georg Trakl traduzido por André Vallias)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

‎"Ich sah Viel Städt als flammenraub
Und Greuel auf Greuel häufen die Zeiten"
....
*Eu vi muitas cidades roubadas pelas chamas
E os tempos amontoarem horror sobre horror*
(Georg Trakl)