sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O teu rosto é tão familiar para mim
Como se você vivesse comigo.
Longe, na rua e em casa
Eu vejo o teu fino perfil.
Os teus passos vêm atrás de mim
Onde quer que eu vá, você está lá,
Não é fácil pra você parar
De andar atrás de mim à noite?
Você não se esgueira ao meu lado
Mal eu espreito pela porta
Meio feita de ar e invisível,
Semelhante às visões do sono?
Eu frequentemente penso, se você não
No meio do cemitério, atrás da eira,
Sentou-se, silenciosa, sobre um túmulo
Envolta em seu lenço de algodão?
Eu fui me aproximando – você se sentou,
Eu cheguei perto – você se afastou,
Desceu em direção ao rio, e começou a cantar...
À tua voz os sinos
Responderam com o toque do carrilhão
E eu chorei, e esperei timidamente
Mas sob o som do carrilhão
Tua doce voz silenciou...
Mais um instante, mas não há resposta
O lenço surge momentaneamente além do rio...
Mas sei amargamente que em algum lugar
Ainda nos veremos novamente.

Aleksandr Blok

~em russo~

Твое лицо мне так знакомо,
Как будто ты жила со мной.
В гостях, на улице и дома
Я вижу тонкий профиль твой.
Твои шаги звенят за мною,
Куда я ни войду, ты там,
Не ты ли легкою стопою
За мною ходишь по ночам?
Не ты ль проскальзываешь мимо,
Едва лишь в двери загляну,
Полувоздушна и незрима,
Подобна виденному сну?
Я часто думаю, не ты ли
Среди погоста, за гумном,
Сидела, молча на могиле
В платочке ситцевом своем?
Я приближался - ты сидела,
Я подошел - ты отошла,
Спустилась к речке и запела...
На голос твой колокола
Откликнулись вечерним звоном...
И плакал я, и робко ждал...
Но за вечерним перезвоном
Твой милый голос затихал...
Еще мгновенье - нет ответа,
Платок мелькает за рекой...
Но знаю горестно, что где-то
Еще увидимся с тобой.


Александр Блок
Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.

Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.


Eugénio de Andrade

SONETO XVIII



Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.


William Shakespeare
"O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. [...] As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro."


----Willian Faulkner

Flores


De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos
verdes e os discos de cristal que enegrecem como
bronze ao sol -,vejo a digital abrir-se sobre um
tapete de filigranas de prata, de olhos e de cabe-
leiras.
Peças de ouro amarelo espalhadas sobre a ágata,
pilastras de um cetim branco e de finas varas de
rubis rodeiam a rosa d'água.
Como um deus de enormes olhos azuis e de formas
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de
mármores a multidão das rosas fortes e jovens.


- Arthur Rimbaud, in: Iluminações [Tradução de Lêdo Ivo].
Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Heterónimo de Fernando Pessoa

NOVA POÉTICA



Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelhecem sem maldade.


[Manuel Bandeira, poema escrito em 1948]

El endecasílabo


Hay quietud en tu alma,
las palabras, piensas,
vienen del silencio
y amaneces siempre hecho poema.
De día es tu secreto,
escribirás de noche:

"morir así, sin haber hecho nada"

Julio Herrera y Reissig.
9 de enero de 1875 en Montevideo. Murió en 1910.
''Nós não podemos apontar a uma única solução definitiva de nenhum dos problemas que nos confrontam - políticos, econômicos, sociais ou morais, isto é, não temos que fazer com a conduta da vida. Nós somos novatos imóveis, e por essa razão podemos melhorar. Derivar a esperança do progresso é a tolice final, a última palavra na pobreza do espírito e mesquinhez da mente. Não há nenhuma necessidade ficar desanimado pelo fato que nós não podemos ainda ter uma solução definitiva de nossos problemas, um descanso - lugar além do que nós não necessitamos tentar ir.''

- Peter Brian Medawar.
'Quando o pecado se atreve a avançar, ele é proibido pela polícia. Quando se esconde, recebe um alvará.''

--Karl Kraus, e seus aforismos.

A lógica da pesquisa científica.

''(...) Acredito que a teoria — pelo menos alguma teoria ou expectativa rudimentar — vem sempre primeiro; que precede sempre a observação: e que o papel fundamental das observações e dos testes experimentais é mostrar que algumas das nossas teorias são falsas e, assim, estimular-nos a produzir outras melhores.
Conseqüentemente, afirmo que não partimos de observações, mas sempre de problemas — de problemas práticos ou de uma teoria que caiu em dificuldades. Uma vez que defrontemos um problema, podemos começar a trabalhar nele. Podemos fazê-lo por meio de tentativas de duas espécies: podemos prosseguir tentando primeiro supor ou conjecturar uma solução para o nosso problema; e podemos depois tentar criticar a nossa suposição, habitualmente fraca. Às vezes, uma suposição ou uma conjectura podem suportar por certo tempo a nossa crítica e os nossos testes experimentais. Mas, via de regra, logo descobrimos que as nossas conjecturas podem ser refutadas ou que não resolvem o nosso problema ou que só o solucionam em parte; e verificamos que mesmo as melhores soluções — aquelas capazes de resistir à crítica mais severa das mentes mais brilhantes e engenhosas — logo dão origem a novas dificuldades, a novos problemas. Assim, podemos dizer que o crescimento do conhecimento avança de velhos problemas para novos problemas, por meio de conjecturas e refutações.''

-- Karl Popper; A lógica da pesquisa científica.
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".


-----Ayn Rand

Una cena de Nochebuena


Guy de Maupassant

No sé exactamente el año. Llevaba todo un mes cazando por aquellos lugares con un brío impetuoso y una alegría salvaje, con ese ardor que se tiene para las pasiones nuevas. Me hallaba en Normandía, en casa de un pariente soltero, Jules de Banneville; y éramos solamente nosotros dos, una doncella, un doméstico y el guarda del castillo señorial. Este castillo, viejo edificio grisáceo rodeado de pinos, en cuyo interior había unas largas avenidas de castaños azotados por el viento, parecía abandonado desde hacía siglos. Un mobiliario antiguo era lo único que contenían aquellos salones siempre cerrados, donde antaño unos personajes, cuyos retratos se veían colgados en un corredor tan desapacible como las avenidas, recibían ceremoniosamente a los nobles vecinos.

Pero nosotros nos habíamos refugiado en la cocina, único rincón habitable de la mansión, una inmensa cocina, cuyas paredes, perdidas en las tinieblas, se iluminaban cuando se arrojaba un nuevo haz de leña en la amplia chimenea. Todas las noches, después de despabilar una dulce modorra ante el fuego, y una vez que de nuestras botas se había evaporado la humedad, subíamos a nuestra habitación, mientras que los podencos, allí mismo, como sonámbulos, soñando escenas de caza, lanzaban ladridos amortiguados.

La habitación era la única pieza del castillo que se había techado y enyesado completamente, a causa de los ratones. Pero la habían dejado sin muebles, blanqueada de cal, y, en las paredes, solamente colgaban unas escopetas, varios látigos y algunos cuernos de caza. Colocadas en los dos rincones de esta choza siberiana había dos camas, en las cuales nos deslizábamos tiritando.

Frente al castillo, a una legua de distancia, el acantilado caía a pico sobre el mar; y, noche y día, los poderosos vientos del océano arrancaban suspiros de los recios árboles encorvados, gemidos al techo y a las veletas, y hacían rechinar todo el venerable edificio, invadido por el viento que entraba por entre sus tejas sueltas, sus chimeneas grandes como abismos y sus ventanas, que no cerraban ya.

* * *

Aquel día había helado de una manera horrible. Al llegar la noche nos sentamos a la mesa, ante el gran fuego de la alta chimenea, donde asaban un lomo de liebre y dos perdices, que olían muy bien. Mi primo levantó la cabeza, y dijo:

-No hará calor cuando nos acostemos.

Indiferente, repliqué:

-No, pero tendremos patos en los estanques mañana por la mañana.

La sirvienta, que ponía nuestros cubiertos en un extremo de la mesa y los de los domésticos en el otro, preguntó:

-¿Saben los señores que esta noche es Nochebuena?

Seguramente no nos habíamos enterado, pues apenas mirábamos el calendario. Mi compañero contestó:

-Entonces esta noche es la misa del gallo. ¡Y por eso las campanas han estado sonando todo el día!

La sirvienta replicó:

-Sí y no, señor; también han tocado porque ha muerto Fournel padre.

Fournel padre, anciano pastor, era una celebridad del país. Tenía ochenta y seis años de edad, y nunca había estado enfermo hasta el momento en que, un mes antes, había cogido un frío al caerse dentro de una charca en una noche oscura. Al día siguiente se había quedado en cama, y desde entonces estaba agonizando. Mi primo se volvió hacia mí:

-Si quieres -dijo-, iremos dentro de un rato a ver a esas pobres gentes.

Quería hablar de la familia del viejo, de su nieto. que tenía cincuenta y ocho años de edad, y de su nieta política, que era un año más joven. La generación intermedia no existía ya desde hacía mucho tiempo. Vivían en un miserable chamizo, a la entrada de la aldea, a la derecha. Pero no sé por qué esta idea de la Nochebuena, en medio de nuestra soledad, nos dio ganas de charlar. A solas los dos, nos contábamos antiguas historias de Nochebuena, aventuras de esta noche loca, los pasados lances amorosos y los despertares del día siguiente, acompañados de otra persona, con sus sorpresas imprevistas, y el asombro de los descubrimientos.

De esta manera, nuestra cena duró mucho tiempo, fumando numerosas pipas; y embriagados por esas alegrías de los solitarios, alegrías contagiosas que nacen de repente entre dos amigos íntimos, hablamos sin parar, rebuscando en nuestros propios casos para comunicarnos esos recuerdos confidenciales del corazón que se escapan en las horas de efusión.

La doncella, que se había ido un buen rato antes, volvió:

-Voy a la misa, señor.

-¡Ya!

-Son las once y cuarto.

-¿Y si fuésemos también a la iglesia? -me preguntó Jules-; esta misa de Nochebuena es muy curiosa en el campo.

Acepté, y nos fuimos, envueltos en nuestras pieles de caza. Un filo agudo pinchaba el rostro y hacía saltar las lágrimas en los ojos. El aire crudo entraba de golpe en los pulmones y secaba la garganta. El cielo profundo, limpio y duro, estaba tachonado de estrellas, que parecían pálidas por la helada; brillaban no como si fuesen unos astros de fuego, sino de cristal, como unas cristalizaciones brillantes. A lo lejos, sobre la tierra de acero, seca y retumbante, resonaban los chanclos de los campesinos; y por todo el horizonte, las campanitas de los pueblos tañían, lanzaban sus sones penetrantes, como friolentos también, en la vasta noche helada.

En el campo no dormía nada. Los gallos, engañados por esos ruidos, cantaban; y cuando se pasaba por delante de los establos, se sentía rebullir a los animales, turbados por esos rumores de vida. Al aproximarse a la aldea, Jules se acordó de repente de los Fournel.

-¡Aquí está su choza! -dijo-. ¡Entremos!

Aporreó largo tiempo en vano. Entonces una vecina, que salía de casa para ir a la iglesia, al vernos, dijo:

-Están en misa, señores; han ido a rezar por el padre.

-Los veremos al salir -dijo mi primo.

La luna, en su ocaso, perfilaba a ras del horizonte su forma de hoz en medio de una siembra infinita de granos de luz, arrojados a puñados en el espacio. Y por la campiña negra, unas lucecitas temblorosas se encaminaban desde todas las partes hacia el puntiagudo campanario, que repicaba sin descanso. Entre los patios de las granjas, salpicadas de árboles, en medio de las llanuras sombrías, esas lucecitas daban pequeños saltos, a medio metro del suelo. Eran farolillos de cuerno que llevaban los campesinos para alumbrarse en la noche, caminando delante de sus mujeres, tocadas con un gorro blanco y envueltas en largos mantos negros, y seguidas de rapazuelos medio dormidos y cogidos de la mano.

Por la puerta abierta de la iglesia se divisaba el coro iluminado. Una guirnalda de velas de sebo, de las más baratas, daba una vuelta completa alrededor de la nave de la iglesia; y en el suelo, en una capilla, a la izquierda, un gran niño Jesús, sobre paja verdadera, en medio de ramas de abeto, enseñaba su desnudez sonrosada y amanerada.

La misa había comenzado. Los hombres, agachados, y las mujeres, de rodillas, rezaban. Estas gentes sencillas, reanimadas por la noche fría, contemplaban muy conmovidas la imagen torpemente pintada, y juntaban las manos tan cándidamente convencidas como intimidadas por el humilde esplendor de esta representación pueril. El aire helado hacía palpitar las llamas. Jules me dijo:

-¡Salgamos, se está mejor fuera!

Y por el camino abierto, mientras que los toscos campesinos se prosternaban y tiritaban de frío devotamente, nos pusimos a charlar otra vez de nuestros recuerdos, y durante tan largo rato, que había terminado la misa cuando llegábamos a la aldea.

Un hilo de luz se veía bajo la puerta de los Fournel.

-Velan al muerto -dijo mi primo-. Entremos en casa de esta pobre gente, eso les agradará.

Agonizaban unos tizones en la chimenea. La pieza, negra, cubierta de un barniz de suciedad y con sus vigas carcomidas y ennegrecidas por el tiempo, estaba llena de un olor sofocante a morcillas asadas en una parrilla. En el centro de la gran mesa, debajo de la cual el arcón del pan alzaba su tapa abombada como un vientre, una vela, en una palmatoria de hierro retorcido, desenroscaba hasta el techo el humo acre de su pabilo. Y los dos Fournel, el marido y la esposa, cenaban a solas.

Taciturnos, con un aire afligido y sus caras de campesinos embrutecidos, comían gravemente sin decir una palabra. En un solo plato, colocado entre los dos, un gran trozo de morcilla despedía un olor pestilente. De cuando en cuando arrancaban un pedazo con la punta del cuchillo, lo aplastaban en el pan, que comían a bocados y después lo masticaban lentamente.
Cuando el vaso del marido estaba vacío, la mujer, cogiendo la cántara de sidra, se lo llenaba.

Al entrar nosotros, se levantaron, nos hicieron sentar, nos ofrecieron que “hiciésemos como ellos”, y, ante nuestra negativa, siguieron comiendo. Al cabo de unos minutos de silencio, mi primo preguntó:

-Pero, Anthime, ¿el abuelo de ustedes ha muerto?

-Sí, mi buen señor, ha muerto ya.

Tomó el silencio. La mujer, por cortesía, despabiló la vela. Entonces, por decir algo, añadió:

-Era muy viejo ya...

Su nieta política, de cincuenta y siete años, continuó:

-Sí, su tiempo habla terminado; ya nada tenía que hacer aquí.

De repente, me entraron ganas de ver el cadáver de ese centenario, y les rogué que me lo enseñasen. Los dos campesinos, plácidos hasta entonces, se conmovieron bruscamente. Sus ojos inquietos se interrogaron, y no respondieron. Mi primo, viendo su turbación, insistió. Entonces el hombre, con aire desconfiado y cazurro,  preguntó:

-¿Y de qué les servirá eso?

-De nada -dijo Jules-, pero eso se hace siempre. ¿Por qué no quieren enseñarlo?

El campesino se encogió de hombros:

-¡Oh, yo, yo sí quiero! Sólo que a estas horas es penoso.

Mil suposiciones nos pasaban por la mente. Y como los nietos del muerto no se movían, y permanecían frente a frente, con los ojos bajos, con esa cara de palo de las gentes descontentas, que parece decir: “Márchense”, mi primo le habló con autoridad:

-Vamos, Anthime, levántense y condúzcannos a su habitación.

Pero el hombre, que había tomado su resolución, respondió con gesto enfurruñado:

-Ésa es la pena, señor, no ha podido estar allí.

-Pero entonces, ¿dónde está?

La mujer atajó a su marido:

-Se lo voy a decir: lo hemos puesto hasta mañana en el arcón, porque no teníamos ningún sitio.

Y retirando el plato de morcilla, levantó la tapa de su mesa, se inclinó con la vela para iluminar el interior del gran cofre abierto, en cuyo fondo distinguimos una cosa gris, una especie de paquete largo del que salía por una punta una cabeza descarnada, con unos cabellos blancos desgreñados, y por la otra, dos pies desnudos.

Era el viejo, muy enjuto, con los ojos cerrados, enrollado en una manta de pastor, durmiendo allí su último sueño en medio de unos mendrugos de pan casi tan viejos como él. ¡Y habían cenado allí, encima del muerto! Jules, indignado y temblando de cólera, gritó:

-¿Por qué no lo han dejado en su cama? ¡ Palurdos!

Entonces la mujer se puso a lloriquear, y en seguida:

-Se lo voy a decir, mi buen señor; no tenemos más que una cama en la casa. Antes nos acostábamos con él, puesto que sólo éramos tres. Desde que cayó enfermo, nos acostamos en el suelo; y es muy duro, mi buen señor, en este tiempo. Pues bien, cuando murió, en seguida nos hemos dicho: “Puesto que no sufre ya, ¿de qué le sirve dejarlo en la cama? Podemos muy bien ponerle en el arcón hasta mañana”; pues ¡no podíamos dormir con el muerto, mis buenos señores!...

Mi primo, exasperado, salió bruscamente dando un portazo, y yo le seguí riendo nerviosamente entre lágrimas.

FIN


Biblioteca Digital Ciudad Seva

Los tres reyes magos


Rubén Darío

- IV -

-Yo soy Gaspar. Aquí traigo el incienso.
Vengo a decir: La vida es pura y bella.
Existe Dios. El amor es inmenso.
¡Todo lo sé por la divina Estrella!

-Yo soy Melchor. Mi mirra aroma todo.
Existe Dios. Él es la luz del día.
La blanca flor tiene sus pies en lodo.
¡Y en el placer hay la melancolía!

-Soy Baltasar. Traigo el oro. Aseguro
que existe Dios. Él es el grande y fuerte.
Todo lo sé por el lucero puro
que brilla en la diadema de la Muerte.

-Gaspar, Melchor y Baltasar, callaos.
Triunfa el amor y a su fiesta os convida.
¡Cristo resurge, hace la luz del caos
y tiene la corona de la Vida!



Biblioteca Digital Ciudad Seva

Macbeth

“Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz.
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
E vazia de significado”.


Macbeth, Ato 5, Cena 5

Snow

Snow

All going to the whiteness, earthly,
As an unmoving immense wall,
There pours a snow, becoming denser,
And shields us from daylight at all.

Not giving to its move attention,
How slow is its heavy stream –
It seems, the force of gravitation
Directs it to the earthly realm.

Behind this shroud of the whiteness,
Towns are hidden and green woods,
Behind this whiteness of the silence,
There are the voices, rings and hoots.

Behind this curtain, white and giant,
Lies winter in the sunny lights,
Behind this mental whitened bound
Our universe, eternal, lies.

Then let all be in it in rightness:
Wide rivers’ floods and birds returns,
The cannonades of July’s thunders,
The noisy rain, the noiseless snows.

Konstanin Vanshenkin (1925-2012)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueña del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.

Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.

PABLO NERUDA

domingo, 5 de janeiro de 2014

“O problema difícil é criar valores. O homem se justifica pelos valores que tem. A sociedade se aglutina a partir da comunidade de valores. Numa sociedade determinada se criam valores novos e isso é um mistério para nós. Vejamos no plano da estética. Há períodos de criação de valores, como foi o século de Péricles, o século de Leonardo. Períodos em que a humanidade cria valores excepcionais, estéticos, e há outros longos períodos em que ela não cria quase nada. Isso nos escapa, mas nos mostra que potencialmente o homem é capaz de fazer tais coisas. Nada indica que ele tenha perdido a faculdade de criar novos valores, abrir novos horizontes, criar uma civilização nova.”

- Celso Furtado



Aí você percebe que está tudo errado quando você entra em uma livraria e percebe que os livros que as pessoas deveriam estar lendo estão em pequenos estandes, por preços de sebo e os livros que deveriam estar em uma seção esquecida estão sendo cobiçados por pessoas que vão adorar colocar eles no instagram e mostrar como são intelectuais por isso. Sinto que a literatura está começando a se alienar tanto como a televisão, produzindo por dinheiro, para uma geração que não quer pensar, melhor, só apenas quer mostrar que pensa. Por favor, me chamem de ignorante, que eu estou errado, e me dêem bons argumentos, porque isso é muito melhor que imaginar esse futuro insano que eu estou visualizando

Diego Bozza

'venenos de deus, remédios do diabo'

- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti.

[mia couto, 'venenos de deus, remédios do diabo']
"Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares."



sábado, 4 de janeiro de 2014

Grande Sertão: veredas

Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra."


- João Guimarães Rosa, in Grande Sertão: veredas

Sebo



na vitrine da livraria
best-sellers à mancheia
e o mendigo que refletia

Paulo de Toledo


(in: 51 Mendicantos)

O homem revoltado

“A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível. Mas seu ímpeto cego reivindica a ordem no meio do caos e a unidade no próprio seio daquilo que foge e desaparece. A revolta clama, ela exige, ela quer que o escândalo termine e que se fixe finalmente aquilo que até então se escrevia sem trégua sobre o mar. Sua preocupação é transformar. (…) Que é um homem revoltado? Um homem que diz não. Mas, se ele recusa, não renuncia: é também um homem que diz sim, desde o seu primeiro movimento. Um escravo, que recebeu ordens durante toda a sua vida, julga subitamente inaceitável um novo comando''

---Albert Camus; O homem revoltado.´

VÍCIO NA FALA


Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados


Oswald de Andrade

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Olor de fábulas ladinas...

Como alguém que se belisca pra verificar se acordado sonha
Compulsivo você ladainha o dito por Plutarco
De que 'nascer é penetrar em uma pátria estranha'


[Wally Sailormoon | Nomadismos]

EU

Florbela Espanca


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Ler mais:
http://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=212

Publicado por Fidelizarte Lda

Lavoura arcaica

“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”

- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.


http://www.elfikurten.com.br/2013/05/raduan-nassar-tradicao-e-vanguarda.html

Corvo Negro



Corvo negro, por que você rodopia
Sobre a minha cabeça?
Você não obterá a presa,
Corvo negro, eu não sou teu!
Você não obterá a presa,
Corvo negro, eu não sou teu!

Por que você estica as garras
Sobre a minha cabeça?
Ou você aspira à presa para si?
Corvo negro, eu não sou teu!

Voe para a minha terra,
Diga para a minha mãezinha,
Diga-lhe, meu querido,
Que pela pátria eu caí.

Leve o lenço ensanguentado
Para a minha doce amada
Diga a ela que ela está livre,
Eu me casei com outra.

Uma flecha incandescente coroou-nos*
Em meio à batalha fatal.
Vejo que a minha morte está chegando, -
Corvo negro, eu sou todo seu!
Vejo que a minha morte está chegando, -
Corvo negro, eu sou todo seu!

~em russo~

Черный ворон

Черный ворон, что ты вьешься
Над моею головой?
Ты добычи не добьешься,
Черный ворон, я не твой!
Ты добычи не добьешься,
Черный ворон, я не твой!

Что ж ты когти распускаешь
Над моею головой?
Иль добычу себе чаешь?
Черный ворон, я не твой!

Полети в мою сторонку,
Скажи маменьке моей,
Ей скажи, моей любезной,
Что за родину я пал.

Отнеси платок кровавый
К милой любушке моей.
Ей скажи — она свободна,
Я женился на другой.

Калена стрела венчала
Нас средь битвы роковой.
Вижу, смерть моя приходит, —
Черный ворон, весь я твой!
Вижу, смерть моя приходит, —
Черный ворон, весь я твой...

~~~~

*"Uma flecha incandescente coroou-nos" = Na cerimônia de casamento cristã ortodoxa (a religião predominante na Rússia), o sacerdote coroa os noivos no momento de casá-los. No caso em questão, ele quer dizer que a flecha "casou-o" com a Morte, que seria a "outra" referida na estrofe anterior.

http://www.youtube.com/watch?v=02auog110xY
Tu que vives e passas, sem saber
O que é a vida nem porque é, que ignoras
Todos os fins e que, pensando, choras
Sobre o mistério do teu próprio Ser,

Não sofras mais à espera das auroras
Da suprema verdade a aparecer:
A verdade das coisas é o prazer
Que elas nos possam dar à flor das horas...

Essa outra que desejas, se ela existe,
Deve ser muito fria e quase triste,
Sem a graça encantada da incerteza...

Vê que a Vida afinal, — sombras, vaidades —
É bela, é louca e bela, e que a Beleza
___________R. De Leoni; Luz Mediterrânea

É a mais generosa das verdades...
Nós, incautos e efêmeros passantes,
Vaidosas sombras desorientadas,
Sem mesmo olhar o rumo das passadas,
— Vamos andando para fins distantes...

Então, sutis, envolvem-nos ciladas
De pequenos acasos inconstantes,
Que vão desviando, a todos os instantes,
A linha leviana das estradas...

Um dia, todo o fim a que chegamos,
Vem de um nada fortuito, entretecido
Nas surpresas das horas em que vamos...

Para adiante! Ó ingênuos peregrinos!
Foi sempre por um passo distraído
Que começaram todos os destinos...

____________________Raul De Leoni


Esta noite sonhei - não é literatura - esta noite sonhei que não estava a sonhar. E afirmo que os pesadelos, mesmo para os mais assombrados de nós, apenas são ausências de pesadelo. A girar no vazio, o nosso espírito não poderia fazer-se à ideia de nunca mais girar. E na família dos nossos pensamentos, dos nossos amores, dos nossos ódios, é perpétua a história daquele homem que comia os filhos numa época de fome, para lhes preservar um pai.

____________________René Crevel

De um fantasma



Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.



Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...



Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...

E da matéria cósmica que tem

Tantos e variadíssimos estados

Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!


_________________Raul De Leoni. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Habitar o tempo

(João Cabral de Melo Neto)

Habitar o tempo
Para não matar seu tempo, imaginou:
vivê-lo enquanto ele ocorre, ao vivo;
no instante finíssimo em que ocorre,
em ponta de agulha e porém acessível;
viver seu tempo: para o que ir viver
num deserto literal ou de alpendres;
em ermos, que não distraiam de viver
a agulha de um só instante, plenamente.
Plenamente: vivendo-o de dentro dele;
habitá-lo, na agulha de cada instante,
em cada agulha instante: e habitar nele
tudo o que habitar cede ao habitante.

E de volta de ir habitar seu tempo:
ele corre vazio, o tal tempo ao vivo;
e como além de vazio, transparente,
o instante a habitar passa invisível.

Portanto: para não matá-lo, matá-lo;
matar o tempo, enchendo-o de coisas;
em vez do deserto, ir viver nas ruas
onde o enchem e o matam as pessoas;
pois como o tempo ocorre transparente
e só ganha corpo e cor com seu miolo
(o que não passou do que lhe passou),

para habitá-lo: só no passado, morto.
À sombra das cerejeiras em flor
ninguém
é estrangeiro


Kobayashi Issa
Surgidos do escuro,
Somem na moita, na noite:
Amores de um gato.

Issa


Tradução: Décio Pignatari
Lago, pingos, tiros:
Quá-quá-quá dos patos patos
Por enquanto vivos.

Issa


Tradução: Décio Pignatari
Meu cachorro velho
Ouvindo com interesse
O canto do verme.

Issa


Esperança — Ano Novo


(Mario Quintana)

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
"Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio..."

(Mario Quintana)
Tudo na vida está em esquecer o dia que passa. Não importa que hoje seja qualquer coisa triste, um cedro, areias, raízes, ou asa de anjo caída no charco. O navio que passou além da barra já não lembra a barra. Pode-se ver nele as estranhas águas que vai sulcar e as estranhas gentes que o esperam em portos estranhos!... Hoje corre um rio de teus olhos, carregando limos e morcegos. Mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim e que há uma certeza, firme e bela, que nem olhos vesgos podem negar. Que hoje é o dia de amanhã.


Autor: Fernando Namora
"Para mim, o problema da felicidade é subordinado àquilo que chamo de 'o problema da poesia da vida'. Ou seja, a vida, ao meu ver, é polarizada entre a prosa - ou seja, as coisas que fazemos por obrigação, que não nos interessam, para sobreviver – e a poesia – o que nos faz florescer, o que nos faz amar, comunicar, e é isso que é importante."


Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês

domingo, 29 de dezembro de 2013

Cómo brindan los rusos


29 de diciembre de 2013 Alexéi Mijéiev, para Rusia Hoy

El brindis es uno de los atributos omnipresentes en las mesas rusas. En ocasiones oficiales se pronuncian en serio, pero en una fiesta entre amigos a menudo adquieren un matiz irónico.

Existe la creencia de que los rusos, cuando beben, se dicen: Na zdorovie! (¡Salud!). Esto no es del todo cierto. Cuando los rusos alzan sus copas suelen decir: Vashe zdorovie! (¡A su salud!) o Tvoió zdorovie! (¡A tu salud!). Aunque esto no es un brindis en el sentido estricto de la palabra. El brindis tradicional tiene una estructura más extensa: en la primera parte se cuenta una pequeña historia y en la segunda se saca una conclusión cómica o paradójica, tras lo cual se invita a beber.

El protagonista de la comedia soviética de los años 60 Kavkazskaya plénnitsa (La prisionera del Cáucaso), el joven experto en folclore Shurik, viaja al Cáucaso para recoger relatos, leyendas y brindis locales, y cada caucásico que se encuentra por el camino le propone que escriba su brindis.
Por ejemplo: “Mi bisabuelo dice: tengo el deseo de comprar una casa, pero no tengo la posibilidad; tengo la posibilidad de comprar una cabra, pero no tengo el deseo. ¡De modo que bebamos para que nuestros deseos coincidan con nuestras posibilidades!”.

Cada brindis va acompañado de un vaso a rebosar de vino, ¡y es que “un brindis sin vino es como una boda sin novia”! Generalmente, estos largos brindis terminan así: “Y cuando toda la bandada comenzó a migrar al sur para pasar el invierno, un pequeño pero orgulloso pájaro dijo: 'Yo volaré directamente al sol'. Comenzó a volar cada vez más alto, pero de tanto subir se quemó un ala y cayó en picado hasta el fondo de un profundo desfiladero. ¡De modo que bebamos para que ninguno de nosotros, no importa lo alto que vuele, jamás se separe de la bandada!”, tras lo cual Shurik, totalmente borracho, comienza a llorar.

“¿Qué te pasa, amigo?”, le preguntan sus anfitriones preocupados. “¡Me da lástima del pájaro!”, responde Shurik entre lágrimas. Y esta frase, “lástima del pájaro”, se ha convertido en un dicho popular para mitigar el patetismo excesivo en una situación concreta.

En los banquetes rituales generalmente se proponen varios brindis estándar. En un aniversario el primer brindis se pronuncia en honor a la persona que cumple años (con deseos de salud, éxitos y una larga vida), y el segundo brindis en honor a sus padres.

En una boda, el primer brindis es: “¡Que los novios sean felices!”, y más adelante, durante todo el banquete, una y otra vez se grita Gorko! (¡Amargo!). Este brindis tan breve significa (en broma) que la comida que les han servido está amarga. Para hacer que sea más dulce, los novios se levantan y se dan un largo beso, y los invitados cuentan su duración a coro: “Uno, dos, tres, cuatro, cinco…”, tras lo cual, cuando finaliza el beso, todos alzan su copa.

En las comidas de exequias, la primera parte del brindis contiene generalmente un recuerdo de algún momento conmovedor y memorable de la vida del difunto, y el brindis acaba con las palabras “eterno recuerdo” o “que descanse en paz”. Generalmente, cuando se bebe por las personas difuntas (no sólo en los funerales) no se hacen chocar los vasos.

Las comidas que no tienen un motivo en particular, organizadas únicamente por pasar el tiempo en compañía, también tienen algunos brindis estándar. En el primer brindis se suele decir Za vstrechu! (¡Por la velada!) o So svidanitsem! (¡Por el encuentro!). Para que la gente se libere todavía más, vuelven a beber rápidamente, diciendo: “¡Entre el primero y el segundo, el descanso es breve!”. Las siguientes rondas van acompañadas de breves comentarios como “¡Allá vamos!”, “¡A por ello!”.

Blog: la lengua rusa en doble sentido 

En algún momento hacia la mitad de la fiesta surge el brindis “¡Por las bellas damas!” (Variante: “¡Por las bellas damas aquí presentes!”). En ese momento, alguien suele comentar que los verdaderos hombres deben beber por las damas de pie, - tras lo cual, todos los hombres beben sus copas de pie (y de un trago).
Antiguamente se consideraba de buen gusto (y especial gallardía) beber después de cada brindis todo el vaso de golpe, aunque en la actualidad en las fiestas rusas se considera más bien de mal gusto. No obstante, si hay algún vaso a medias antes de cada brindis se rellena hasta arriba, a esto se le llama “refrescar el vaso”.
Otra fórmula estándar de brindar es la fórmula irónica Za sbychu mecht! (¡Por que los sueños se cumplan!). Literalmente implica el deseo de que se cumplan los sueños, pero su extraña construcción, que no cumple las leyes sintácticas, es una parodia de los lemas propagandísticos soviéticos.

Tras la adaptación a finales de los años 80 de la novela de Mijaíl Bulgákov Corazón de perro, adquirió gran popularidad el absurdo brindis pronunciado por su protagonista, Sharikov: “¡Deseo que todo!”. Esta fórmula incompleta y sin sentido pone de manifiesto el carácter ritual de los brindis.

Uno de los personajes de otra película soviética, Lluvia de julio,  pronuncia en su brindis la frase “¡Que vaya bien!”. “¿Significa eso ‘Hasta la vista’?”, le pregunta sorprendida la mujer que se sienta a su lado. “No, - responde él. – Significa solamente ‘¡que vaya bien!’” (El juego de palabras consiste en que la fórmula “¡Que vaya bien!” se utiliza realmente como una forma de despedida).


Y en la última invitación a beber para los huéspedes que se disponen a irse a casa se dice Na pososhok! (literalmente “¡Para el bastón!”, significa “para el camino”). Antiguamente los viajeros iban a pie apoyándose en un bastón al que se llamaba posoj, y con la expresión “para el posohok” (forma diminutiva de “posoj”) se desea un buen viaje.

Movimentos de Tubarão



Do mesmo jeito que um tubarão não pode deixar de se
movimentar se não morre
Assim é você pelo chão
Dorme nadando de costas
Cuspindo teus dentes
Deslizando como assombração
Não posso fazer nada por você, a não ser que você se levante
O que você precisa é de um bolso cheio de grilos
Para te trazer de volta à terra


- poema de Sam Shepard, A Lua do Falcão

Año nuevo


Rubén Darío




A las doce de la noche por las puertas de la gloria
y al fulgor de perla y oro de una luz extraterrestre,
sale en hombros de cuatro ángeles, y en su silla gestatoria,
San Silvestre.

Más hermoso que un rey mago, lleva puesta la tiara,
de que son bellos diamantes Sirio, Arturo y Orión;
y el anillo de su diestra, hecho cual si fuese para
Salomón.

Sus pies cubren los joyeles de la Osa adamantina,
y su capa raras piedras de una ilustre Visapur;
y colgada sobre el pecho resplandece la divina
Cruz del Sur.

Va el pontífice hacia Oriente ¿va a encontrar el áureo barco
donde al brillo de la aurora viene en triunfo el rey Enero?
Ya la aljaba de Diciembre se fue toda por el arco
del Arquero.

A la orilla del abismo misterioso de lo Eterno
el inmenso Sagitario no se cansa de flechar;
le sustenta el frío Polo, lo corona el blanco Invierno,
y le cubre los riñones el vellón azul del mar.
Cada flecha que dispara, cada flecha es una hora;
doce aljibas, cada año, para él trae el rey Enero;
en la sombra se destaca la figura vencedora
del Arquero.

Alredor de la figura del gigante se oye el vuelo
misterioso y fugitivo de las almas que se van,
y el ruido con que pasa por la bóveda del cielo
con sus alas membranosas el murciélago Satán.
San Silvestre bajo el palio de un zodiaco de virtudes,
del celeste Vaticano se detiene en los umbrales
mientras himnos y motetes canta un coro de laúdes
Inmortales.

Reza el santo y pontifica; y al mirar que viene el barco
donde en triunfo llega Enero,
ante Dios bendice al mundo; y su brazo abarca el arco
y el Arquero.
Volver a Poemas de Rubén Darío





Biblioteca Digital Ciudad Seva
Quente e doce e sutil: o corpo antes do amor.
Fresca, doce e dúctil: a carne da sedução.
Volúvel e violenta e metafísica: a forma do rosto.
Doce e lasso e sutil: o corpo depois do amor.


Baudrillard, Cool memories.

Os Ombros Suportam o Mundo



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

RECEITA DE ANO NOVO



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

AMANTE DA ALGAZARRA


Wall Salomão

Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.




Waly Dias Salomão (Jequié, Bahia, 1943 - Rio de Janeiro 2003).
Havia um homem que escrevia em fragmentos até o próprio nome. Assinava com metade da caneta, com metade da tinta e escrevia metade das letras. Mas havia outro homem, porque há sempre dois homens. Era um homem que escrevia em fragmentos que se multiplicavam como se entre eles estivesse a operação multiplicação.
Há quem escreva como num testamento: é uma linguagem que separa e deixa apenas parte a cada um. E há depois quem escreva com mão de agricultor: deixa mais do que acabou de deixar.
Ver duas vezes no mesmo dia um cego é torturar um cego. Porque o cego nesse dia nem uma vez te viu.

Gonçalo M. Tavares

em Biblioteca.
"Éramos seis, cinco mulheres e um homem. Eu, a única branca, de cabelos lisos, claros. Mas ser branca e bonita só me ajudou a ser puta. quer dizer, nem sei se uma puta branca é melhor que uma puta mulata, comercialmente falando. Já me disseram que eu fui ser puta porque quis. Eu tinha doze anos."


A Grande Arte, de Rubem Fonseca.
"Um julgamento parece uma peça de teatro porque ambos começam e terminam com o autor do ato, não com a vítima. Um julgamento-espetáculo, mais ainda do que um julgamento comum, precisa de um roteiro limitado e bem definido daquilo que foi feito e de como foi feito. No centro de um julgamento só pode estar aquele que fez algo -- nesse sentido é que ele é comparável ao heroi de uma peça de teatro -- e se ele sofre, deve sofrer pelo que fez, não pelo que os outros sofreram. Ninguém sabia disso melhor do que o juiz-presidente, diante de cujos olhos o julgamento começou a degenerar num espetáculo sangrento." (Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém,)