sábado, 9 de novembro de 2013

Mamíferos

“Por que você fracassou no amor? Sem dúvida você encontrou uma pessoa com a qual teria podido juntar os trapos, uma moça ou um cara meio malucos. Foi há muito tempo. Você já bebia, mas não era a mesma coisa. Você os esperava em bares ardentes, em noites dilatadas. Eles apareciam com atrasos maravilhosos. Você não suportava que eles dormissem, e como era verão e eles tinham vinte anos, você os acordava. A vida era uma alvorada ininterrupta. Era uma moça alta ou um cara meio violento que desapareciam de vez em quando. Claro, você amou outros, e sem dúvida mais duradouramente. Você não quer estabelecer uma hierarquia das pessoas que amou. Você teve instantes gloriosos entre vinte e trinta anos, e acredita que não terá mais.

(...)

Oh, vamos aos bares intermináveis que não julgam ninguém!

(...)

...andava cada vez mais devagar na rua com seus pés gangrenados.

(...)

Enquanto não vem a velhice ou um hipotético juízo final, nós o aconselhamos vivamente a continuar com toda serenidade essa vida feita de álcool, fumo, café e angústia borbulhante.

(...)

O que é uma crise de angústia? Uma crise de angústia clássica dura cerca de duas horas. A gente acha que vai morrer. Não há perigo. Se você tiver duas ou três por semana, porém, vai pensar em se suicidar. A angústia afeta um número crescente de indivíduos, mas, felizmente, nem todos chegam à crise. O álcool é um excelente ansiolítico, depois se torna um ansiógeno. É um fator agravante num sujeito já ansioso. Há muitos motivos para ser ansioso: os genes, a educação, a vida moderna, conflitos internos insolúveis etc. O ar que você respira, os barulhos que você ouve, as cenas que você vê todos os dias, tudo isso é carregado de tensão. Sua carne absorve uma massa crescente de sinais alarmantes. São os sintomas do mundo. O mundo do qual você faz parte não vai nada bem. É burro, agressivo e hostil.

(...)

Há quem viva somente de sensações e para as sensações [...]. Na realidade, eles foram tapeados pela vida e, como apenas intuem isso, caem sempre numa profunda tristeza em que não resta outro recurso senão aturdir-se, mentindo miseravelmente para si mesmos.

(...)

A busca da sensação implica um egoísmo que me aterroriza. É evidente que isso não me impede de amar, mas faz os seres amados parecerem simples ocasiões para gozar ou sofrer, e me leva a esquecer por completo que existem por si mesmos. Vivemos no meio de fantasmas. Sonhamos em vez de viver.

(...)

Com o passar das semanas, foi evitando-a cada vez mais.

(...)

Depois se evitaram totalmente.

(...)

A vida no leva a crer hoje em dia que podemos os separar das pessoas e amar em profusão. Claro que é mentira. Amar é excepcional. Não amar é a regra. Aceitar essa regra devia proporcionar um início de felicidade.
No entanto, vivemos nos queixando e quem aceita essa regra é acusado de complacência. Olhe à sua volta: os sofrimentos afetivos se multiplicam, os clubes de encontros se enriquecem. Eles mantém a ilusão do encontro no coração daqueles e daquelas cuja vida social não contribui para os encontros. Quem não tem dificuldade na ridícula arte da abordagem sabe que o problema não está aí: multiplicam-se os encontros e, quanto mais eles se multiplicam, menos o satisfazem. Os corações circulam de cama em cama como notas de dinheiro sem validade. Vocês, casais que preparam em silêncio o que acreditam ser a grande salvação – a separação –, que pensam que o amor, o verdadeiro amor, prolifera em torno de vocês como corpos num catálogo, cujas páginas somente seu cônjuge lhe impede de virar, não se enganem: em torno de vocês reina o terrível mercado da ausência de amor.

(...)

Não paramos de amar os que um dia amamos. Mas de pessoa em pessoa, de peça em peça, gostaríamos de acreditar que pouco a pouco montamos um puzzle e que certo dia um rosto aparecerá. E não precisaremos mais procurar. No entanto, em termos de imagem total só temos a última, e ela não apaga as precedentes. Nenhuma figura é esquecida, nenhuma nos retém. É o que faz nossa vida não ser uma sucessão de fracassos, mas uma construção incerta inteiramente destinada ao amor.
Guerras são travadas, solidão contra solidão. Feridos enfrentam outros feridos, e o amor é a causa. O que recriminamos ao outro não é o fato de compartilhar conosco o mesmo ferimento, é o de ele ter encontrado os mesmos remédios. O amor é quando cada um acredita que o outro encontrou um remédio diferente, que vai curá-lo. mas na maior parte do tempo lutamos contra seres que se parecem demais conosco, que sofrem tanto quanto a gente, e nisso são invencíveis.”


 (Pierre Mérot – Mamíferos)

The State and Revolution

"We are in favor of a democratic republic as the best form of state for the proletariat under capitalism. But we have no right to forget that wage slavery is the lot of the people even in the most democratic bourgeois republic." 

 Lenin

Espaços em branco

E por mais que seja pequena, toda e qualquer possibilidade permanece. Até um movimento reduzido à aparente ausência de movimento. Um movimento, por exemplo, tão mínimo quanto a própria respiração, o movimento que o corpo faz quando inala o ar. Num livro de Peter Freuchen que eu li uma vez, o famoso explorador do Ártico descreve como ficou preso numa nevasca no norte da Groenlândia. Sozinho, com os mantimentos chegando ao fim, ele decidiu construir um iglu e esperar que a tormenta passasse. Muitos dias se passaram. Com medo, acima de tudo, de ser atacado por lobos - pois ele os ouvia se esgueirar famintos sobre o teto do iglu - ele periodicamente saía e cantava a plenos pulmões para espantá-los. Mas o vento soprava furioso, e por mais que cantasse alto, a única coisa que ele ouvia era o vento. Mas se esse era um grande problema, o problema do iglu era muito maior. Pois Freuchen começou a perceber que as paredes de seu minúsculo abrigo estavam gradualmente se fechando sobre ele. Por causa das condições particulares do tempo lá fora, a respiração dele estava literalmente congelando nas paredes, e com cada exalação, as paredes ficavam mais espessas, o iglu ficava menor, até que por fim mal havia espaço para o corpo dele. É certamente coisa assustadora, a ideia de que a sua respiração possa trancar você num caixão de gelo, e para mim é consideravelmente mais convincente, digamos, O poço e o pêndulo, de Poe. Pois neste caso é o próprio homem que é o agente de sua destruição, e mais ainda, o instrumento daquela destruição é exatamente aquilo de que ele necessita para se manter vivo. Pois é certo que um homem não pode viver se não respirar. Curiosamente, eu não lembro como Freuchen conseguiu escapar dessa dificuldade. Mas é desnecessário dizer que ele escapou.


Paul Auster

Karl Marx: Sobre o trabalho assalariado



"(...) o operário assalariado só está autorizado a trabalhar para manter a sua própria vida, isto é, a viver, uma vez que trabalha grátis durante um certo tempo para o capitalista (e, portanto, também, para aqueles que, com ele, embolsam a mais-valia); (...) todo o sistema de produção capitalista gira em torno do prolongamento deste trabalho gratuito, alongando a jornada de trabalho ou desenvolvendo a produtividade, ou seja, acentuando a tensão da força de trabalho (...) portanto, o sistema de trabalho assalariado é um sistema de escravidão, uma escravidão que se torna mais dura à medida que se desenvolvem as forças sociais produtivas de trabalho, quer o operário esteja melhor ou pior remunerado."

Karl Marx

Crítica ao Programa de Gotha

Londres, Inglaterra, 1875

Tempos-juncos


Na margem do lago,
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.


 Velmir Khlebnikov, poeta e dramaturgo ligado ao movimento futurista.
1908 ou 1909

(Tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman).

 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Priscila Lira traz o céu que o Rio Amazonas reflete.

Wonka .Primeira Terça feira do penúltimo mês do ano 13 do segundo milênio.

Um homem que dorme

"Você tem tudo a aprender, tudo aquilo que não se aprende: a solidão, a indiferença, a paciência, o silêncio.

(...)

Dorme com os olhos arregalados como os idiotas.

(...)

Livre como uma vaca, como uma ostra, como um rato!

(...)

Os vulcões misericordiosos não se debruçaram sobre você.

(...)

Chegar ao fundo, nada quer dizer. Nem ao fundo do desespero, nem do ódio, nem da decadência etílica, nem da solidão orgulhosa.

(...)

Você nada aprendeu, a não ser que a solidão nada ensina, que a indiferença nada ensina: era um engodo, uma ilusão fascinante e enganadora. Você estava só e eis tudo e queria proteger-se; que entre o mundo e você as pontes estejam para sempre rompidas. Mas você é tão pouca coisa e o mundo é uma palavra tão grande: você jamais fez outra coisa a não ser vagar por uma cidade grande, a não ser caminhar ao longo de alguns quilómetros de fachadas, de parques e de cais.

(...)

"Não. Você não é mais o dono anônimo do mundo, aquele sobre o qual a história não tinha influência, aquele que não sentia a chuva cair, que não percebia a noite chegar. Você não é mais o inacessível, o límpido, o transparente. Você tem medo, espera. Você espera..." 


(Georges Perec - Um homem que dorme)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O Brasil como problema

"...Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas."

- Darcy Ribeiro, 1995.
‘Os mascates da liberdade não sabem chorar e não sabem soluçar. Amam com seus cérebros e odeiam com seus genitais.” 
“O desejo de se fundir com outro organismo no abraço genital é tão forte no organismo encouraçado como no não encouraçado. No encouraçado ele será até mais violento porque a satisfação total está bloqueada. Enquanto a Vida simplesmente ama, a vida encouraçada fode.” (Wilhelm Reich -1897-1957)
“O modelo cívico brasileiro é herdado da escravidão, tanto o modelo cívico cultural como o modelo cívico político. A escravidão marcou o território, marcou os espíritos e marca ainda hoje as relações sociais deste país.”

- Milton Santos

domingo, 3 de novembro de 2013

Nicolau II

Em 2 de novembro de 1894, Nikolai Aleksandrovich Romanov sobe ao trono para se tornar Nicolau II, o último imperador da Rússia, título que acumulou com o de Rei da Polônia e o de Grão-Duque da Finlândia. A coroação se deu um dia após a morte de seu pai, Alexandre III, falecido em decorrência de uma nefrite crônica. Durante seu reinado, Nicolau II viu a Rússia Imperial passar da condição de um dos maiores países do mundo para uma situação de desastre econômico e militar. Seu governo chegou ao fim com a Revolução Russa de 1917, quando em 15 de março ele abdicou e renunciou em seu nome e em nome de seu herdeiro, passando o trono para seu irmão, o Grão-Duque Miguel Romanov. Nicolau II foi executado pelos bolcheviques em 1918, junto com toda a sua família. Mais tarde, a sua mulher, Imperatriz Aleksandra, e seus filhos seriam canonizados como mártires pela Igreja Ortodoxa Russa, enquanto Nicolau II foi considerado São Nicolau, o Portador da Paz.


Assinatura

Entre lágrimas de crocodilo
o homem com gestos de lava
que aponta o local do crime
todas as manhãs
e eu despido de rosas
subo a escada de caracol da morte
para ir deixar na tua pele a assinatura bárbara
com a caligrafia trémula todas as manhãs
e todas as noites de terror
entre a música dos astros

António José Forte/
Uma Faca nos Dentes
Página 91


Declaração*

Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-lo
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado

António José Forte/
Uma Faca nos Dentes
página 55




AS PORRADAS DE NIETZSCHE NA PRIVATIZAÇÃO E NO INDIVIDUALISMO ESTREITO E BURGUÊS -

“...A nenhuma das medidas executadas por um governo será garantida continuidade...Ninguém sentirá para com uma lei nenhuma obrigação maior que a de se inclinar momentaneamente à força que a sustenta: as pessoas, então, imediatamente porão mãos à obra para subverte-la com uma nova força, a criação de nova maioria. Por fim –pode-se dizê-lo com certeza—a resolução de por fim ao conceito de estado, de abolir a distinção entre particular e público. As companhias particulares gradualmente absorverão a tarefa do estado: mesmo o mais resistente resíduo do que antes foi função do governo (por exemplo, suas atividades destinadas a proteger o indivíduo do indivíduo) será, com o decorrer do tempo, tratado por contratantes particulares.”



(trecho de Humano, Demasiadamente Humano, de Nietzsche. É impressionante a atualidade dessas palavras, dirigidas a um público de leitores europeus do fim da década de 1870 e não da década atual.)

A estrutura das revoluções científicas

" Ainda nos resta perguntar como terminam as revoluções científicas. No entanto, antes de fazê-lo, parece necessário realizar uma última tentativa no sentido de reforçar a convicção do leitor quanto à sua existência e natureza. "


-Thomas S. Kuhn; A estrutura das revoluções científicas.

ODOACRO


Odoacro (cerca de 434 - 493), rei da tribo germânica dos hérulos, Filho de Edeco, príncipe da corte de Átila rei dos Hunos ,nasceu perto do Rio Danúbio, em território que hoje é parte da Alemanha. Ao depor o imperador Rômulo Augusto, em 476, pôs fim ao Império Romano do Ocidente e se tornou o primeiro dos reis bárbaros de Roma.
Odoacro foi Rei dos Hérulos entre 476 e 493. Pertencia a uma tribo germânica, mas, depois desta ter sido destruída pelos Ostrogodos, coloca-se ao serviço dos Romanos.
Em 469 se pôs a serviço dos romanos como chefe de um exército de mercenários germânicos de estirpe hérula.
Tornou-se um dos chefes da guarda germânica do imperador. Participou numa revolta que colocou no trono Rómulo Augústulo, em 475. Como os soldados germânicos não obtiveram as terras que lhes haviam sido prometidas, Odoacro enceta uma nova revolta que provocou a queda de Rómulo , entregou as insígnias imperiais a Zenão, imperador do Oriente, declarando-se governador de Itália em 476. Este golpe de Estado marcou o final do Império do Ocidente. Tomou para si o título de Patrício e iniciou a árdua tarefa de organizar o país.
Começou por anexar a Sicília e procurou proteger o Norte da península com uma política de boa vizinhança com os Visigodos da Gália e com a ocupação da Dalmácia.
Zenão I de Bizâncio, preocupado com os recentes sucessos do rei germânico Odoacro, estimulou Teodorico o Grande, rei dos ostrogodos, a invadir a Península Itálica. Teodorico derrotou Odoacro em Aquileia (488) , Verona (489) e no Rio Adda (490), depois de um cerco de 3 anos a Ravenna, Teodorico e Odoacro assinaram um acordo que garantiu a supremacia de ambos. Um banquete foi organizado para celebrar o tratado. Foi nesse banquete que Teodorico matou Odoacro com as próprias mãos.
Fontes:http://historia10alfandega.blogspot.com.br/2011/08/biografia-odoacro-herulo.html




Hejus Ben Hur - Colaborador História Agora

Não te Arrependas



Não te arrependas, Amada, porque a mim tão depressa te deste!
Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes e vis!
Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce pra anos o peito.
Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam o sangue.
Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.
Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe agradou?
Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.
Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante pra a corrente nocturna.
Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar água ao Tibre, e o Deus dela se apossa.
Assim Marte gerou os seus filhos! — Uma loba amamenta
Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Elegias Romanas"

Tradução de Paulo Quintela
 “A grande conquista do governo Lula foi a criação de empregos e a elevação do poder aquisitivo dos pobres. Esses foram ganhos dentro das relações do mercado. Mas sem avanços correspondentes nas esferas da vida em que as relações de commodities não deveriam ter lugar, o risco é realmente gerar uma sociedade de consumo em que, como nos Estados Unidos, aumentar a prosperidade não é, na verdade, empecilho para aumentar, ainda mais rapidamente, a desigualdade. No Brasil, que ainda continua perto do recorde mundial de má distribuição de renda, só uma reforma radical da estrutura tributária, da administração pública e do sistema político pode frear esse perigo. É necessário um Estado que esteja verdadeiramente sob o controle de seus cidadãos, que seja capaz de oferecer serviços honestos, justos e construtivos para eles."
PERRY ANDERSON

O SENSACIONAL DEBATE ENTRE ŽIŽEK E O SAPO GONZALO



“Tudo foi preparado e em pouco tempo, lá estavam os dois ‘contendores’, diante de um auditório lotado de estudantes, ‘blogueiros’, anarco-skatistas, blequebloques, beiçudos capiléticos e alguns radicais de nosso tempo. Até o cantor e campositor Caetano Veloso se encontrava no local, aproveitando uma folga entre dois shows que faria na cidade. ‘Esse Zizeque é muito porreta, minha nêga!’, disse à barraqueira oficial dos artistas unidos pela censura, Paula Lavigne, sentada a seu lado...”

Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo: http://wp.me/pB9tZ-23S


She was young and beautiful too,
A madonna for no man`s taking,
As bright as the sheen on the tranguil stream.
My heart was the nearer to breaking!

So carefree she was, as the faraway blue
A swan between sleeping and waking;
Who knows, but perhaps there was sadness too.
My heart was the nearer to breaking!

But as she sang softly of love that is true,
My soul was in sympathy,
But passion was the nearer to breaking!


Alexander Blok (1880-1921)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Zelimkhan Guzhmazukayev

After the February Revolution in Russia in 1905 the Tsarist police attempted to nip revolutionary activities in the bud with cruel repression, and the effects were felt in Chechnya, too. On 10 October 1905 the police shot into the crowd during a strike at the industrial plant in Grozny, killing 17 people. A week later Abreke Zelimkhan held up a passenger train near Kadi-Yurt Station and had the same number of men shot.

Zelimkhan Guzhmazukayev was born in Khara-choy near Vedeno in 1872. After a dispute involving his brother’s bride led to the death of a man in his family, Zelimkhan was required by the code of clan revenge to kill a man from the other family. Although peace was restored between the two families and there was no evidence of any crime, Zelimkhan, his father and his two brothers were sentenced by the Russian administration. Zelimkhan escaped from prison. One brother died in custody. The other returned from banishment only to be sentenced unjustly yet again, and fled to the mountains. Other relatives and villagers were banished without legal justification. In 1906 Zelimkhan killed Lieutenant-Colonel Dobrovolski, the district official in Vedeno who was responsible for these decisions, followed in 1908 by Colonel Galaev, who had banished over 500 innocent Chechens to the Russian North.

As he was unable to live a life in peace, Zelimkhan became an abreke (lone resistance fighter), wreaking vengeance Robin Hood style on the arrogant Russian governors.

On 1909 the Tsarist powers placed a reward of 5,000 roubles on his head. But all efforts to capture him were in vain. Zelimkhan attacked Grozny Station in January 1910 and made off with 18,000 roubles. In response to the pogrom in Gudermes he warned the Cossack ataman (leader) Ferbizki that he would raid the bank in Kizlyar at 12 noon on 9 April. He 27 attacked punctually and all Chechnya mocked the Tsar’s police for their failure to stop him. Zelimkhan distributed the proceeds among the poor and needy.

In September 1910 Prince Andronnikov, the highest-ranking official in the Nazran region, set off with a strong division on a penal expedition to catch Zelimkhan. He lured the troops into am ambush by a bridge and personally took the lives of Prince Andronnikov and First Lieutenant Afanasyev, wounding the Dagestani Staff Captain Dayaghev.

Zelimkhan was a legend in his own lifetime, and occasionally others sought to jump on the bandwagon. One of these fake Zelimkhans is said to have taken a bull from a farmer by claiming “I am Zelimkhan!”. By chance the real Zelimkhan came along, brought the bull back and handed it over to the farmer together with an ear, saying: “The man who took your bull is one-eared Zelimkhan. I am the true Zelimkhan for I have, as you see, two ears.”

On a number of occasions Zelimkhan slipped through troops laying siege. Badly wounded by a shot in the back from a traitor, he hid in a house in Shali, but it was surrounded on 27 September 1913 and after a long struggle he was killed. His capturers proudly had their photograph taken with him. The inhabitants of Grozny and Vedeno were forced to pay 100,000 roubles in reparation for the damage caused by Zelimkhan and his companions.

All as before: against the dining-room windows
Beats the scattered windswept snow,
And I have not changed either,
But a man came to me.

I asked: “What do you want?”
He replied: “To be with you in Hell.”
I laughed: “Oh, you’ll foredoom
Us both to disaster.”

But lifting his dry hand
He lightly touched the flowers:
“Tell me how men kiss you,
Tell me how you kiss men.”

And his lusterless eyes
Did not move from my ring.
Not a single muscle quivered
On his radiantly evil face.

Oh, I know: his delight
Is the tense and passionate knowledge
That he needs nothing,
That I can refuse him nothing.

"
— Anna Akhmatova (1889-1966) - The Guest, January 1, 1914


"Last night I was in the Kingdom of Shadows, If you only knew how strange it is to be there. It is a world without sound, without colour. Everything there—the earth, the trees, the people, the water and the air—is dipped in monotonous grey. Grey rays of sun across the grey sky, grey eyes in grey faces, and the leaves of the trees are ashen grey. It is not life but its shadow, it is not motion but its soundless spectre. And all this is in a strange silence where no rumble of wheels is heard, no sound of footsteps or of speech. Nothing. Not a single note of the intricate symphony that always accompanies the movements of people."


— Maxim Gorky (1868-1936) on viewing a screening of the Lumiere CInematograph in 1896, his review was published in the newspaper ‘Nizhegorodsky Listok’ under the pen name of I. M. Pacatus
"You were the first to demonstrate beyond question by your experience that man is man everywhere, that is, a kind, sociable being with whom communication can and should be established through kindness and truth, not guns and spirits. I do not know what contribution your collections and discoveries will make to the science for which you serve, but your experience of contacting the primitive peoples will make an epoch in the science for which I serve i. e. the science which teaches how human beings should live with one another."



— Leo Tolstoy (1828-1910) in a letter to Nikolai Miklukho-Maklai, September 1886

Leon Trotsky.....hunting for cacti in Mexico, 1940


fonte :http://zolotoivek.tumblr.com/
The sun would fail in the observant height,
In clear air, the shining stars would vanish,
The world would sink into a smoke lavish,
And thunders – into silence of the night, –

On the sad moon, invisible and black –
In its dark deeps – would rise the awful fire,
And by the tracks, lost in the Lethe’s mire,
Life would be gone without coming back, –

A dust would lie instead of all these grasses,
All nightingales would cut their loving plea,
All wars and funs would melt like snow masses, –

With a deep sigh, would flee a spirit trustless,
It’d be the same – to be or not to be –
Sooner than I might cease remembering thee.

"

— Konstantin Balmont (1867-1942)

Peasant Child Begging, 1920.

"In order to educate man to a new longing, everyday familiar objects must be shown to him with totally unexpected perspectives and in unexpected situations. New objects should be depicted from different sides in order to provide a complete impression of the object."


— Aleksandr Rodchenko (1891-1956)

familia do povo Nivkh , 1880-90’s



The sense of your bidding is unclear:
to pray, to curse, is it, to fight
you bid me, inscrutable genius?
The spring slackens, niggard, meager,
and Benozzo Gozzoli’s courier
dozes in the drowsy thickets.

Hills are dark with honeyed cloud.
Look: I do not touch lithe strings.
Your gaze, prophetically flying,
is clenched, gushes no winged streams,
and beckons by no May road, trying
to outstrip Hermes in his flight.

Hobbled horses do not neigh,
Aging warriors sprawl in disarray…
Hold your palms open wide!
Risen spring is bright,
but groves of darkness are not given
to leap for joy having leapt from dreams.

The groom names not the hour,
be not guiled to tarry,
hark through ice the clarion voice,
your flax is drenched with chrism,
and, bidding goodbye to numb laze,
free, in love, you will rise.

"
— Mikhail Kuzmin (1872-1936)

Lév Tolstói


"Out of frayed sackcloth - breasts of filthy cataracts,
Like raw potatoes, branched with rooted blue veins.
What shall we trade? Salt? How much do you want?
There’s a dead child’s hat still here.
In the marketplace, a surveyor dozes like a white skull-
A homeless dog sniffs him as he would an old cadaver.
What shall we trade? Bread? How much do you bid?
A pack of dogs in the street tears a heap of rusted brains into bits.
And birds in the air flap like scattered black hats-
A disheveled tuft of wind keeps trying them on-
Is there a deal? Wind? What do you bid for a windmill?
There, across the foothills, they aimlessly quarrel over eagles’ wings.
Making a trade? Wind? What do you bid?"


— Peretz Markish (1895-1952)

Brigada de combate ao fogo- Tonshaevo, Rússia , 1920’s

fonte : http://zolotoivek.tumblr.com/
"O efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado".


Antonio Candido



"São precisamente as realizações mais frágeis da arte aquelas que se referem ao sentimento imediato da vida, ao passo que as mais poderosas, de acordo com sua verdade, referem-se a uma esfera aparentada ao mítico: "o poetificado". A vida é, em geral, o "poetificado" dos poemas - assim se poderia dizer; no entanto, quanto mais diretamente o poeta procura converter a unidade da vida em unidade artística sem transformá-la, mais ele se revela inepto. Estamos acostumados a ver a inépcia defendida, e mesmo reivindicada, como "sentimento imediato da vida", "calor humano', "sensibilidade"."

Walter Benjamin

*Procura da Poesia


Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


*Escritos sobre mito e linguagem (Editora 34, 2011).
Poetas
seresteiros e
prostitutas tem algo incomum

todos
durante a execução de suas ‘obras’
suportam
comedidamente
a dor
ainda que esta
seja
lancinante

Jeronimo
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


Ferreira Gullar

Memórias do Cárcere

"Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de idéias obliteradas."


- Graciliano Ramos, em "Memórias do Cárcere", cap. 5, 1953

Geografia da Fome

“Não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua pele, que a fome aniquila a vida dos sertanejos, mas também atuando sobre o seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam, e o homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode parecer a mais desconcertante.”


- Josué de Castro, In Geografia da Fome.

Memorial de Maria Moura

“O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembranças que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.”


- Rachel de Queiroz, in "Memorial de Maria Moura".

Reflexões sobre o Romance-rio

"Todo mundo tem pressa. A vida se tornou tão múltipla, tão estonteamente tentacular, que o homem, no afan de tudo gozar, de tudo aprender, de tudo penetrar - procura a síntese, sofre da mania do comprimido, vive assombrado pelo relógio, a procurar o máximo de prazer e de experiência no mínimo de tempo. No meio de toda essa balbúrdia a que já nos vamos habituando, há um fenômeno muito curioso que desafia o nosso espírito de análise. É o que o século da pressa, da síntese, da falta de repouso para a leitura - o romance-rio, o romance caudaloso, o romance camalhaço ressurge a melhor maneira."


- Erico Verissimo, em “Reflexões sobre o Romance-rio”. Revista do Globo, 213, 1937. p 17.

Livre


Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.

Dom Casmurro

"- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários." in Dom Casmurro - Machado de Assis
"Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos: nós roemos.Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos, fosse ainda um modo de roer o roído."


- Machado de Assis, in: "Dom Casmurro", 26ª ed. São Paulo: Ática, 1992. p. 117.