Certa manhã de domingo , eu caminhava pela rua Stanton quando vi uma galinha poucos metros adiante de mim.Como eu andava mais rápido do que ela, fui me aproximando gradualmente. Pouco antes da 18 Avenida , eu já estava bem perto do animal. a galinha entrou à direita na 18. Na quarta casa, ela fez uma curva na calçada ,subiu aos pulos os degraus da escada da frente de uma casa e bateu com o bico na porta de metal.Depois de alguns instantes , a porta se abriu e a galinha entrou .
Linda Elegant, de Portland, Oregon.
História extraída do livro "Achei que meu pai fosse Deus ", organizado por Paul Auster
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domingo, 17 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
Espaços em branco
E por mais que seja pequena, toda e qualquer possibilidade
permanece. Até um movimento reduzido à aparente ausência de movimento. Um movimento,
por exemplo, tão mínimo quanto a própria respiração, o movimento que o corpo
faz quando inala o ar. Num livro de Peter Freuchen que eu li uma vez, o famoso
explorador do Ártico descreve como ficou preso numa nevasca no norte da
Groenlândia. Sozinho, com os mantimentos chegando ao fim, ele decidiu construir
um iglu e esperar que a tormenta passasse. Muitos dias se passaram. Com medo,
acima de tudo, de ser atacado por lobos - pois ele os ouvia se esgueirar
famintos sobre o teto do iglu - ele periodicamente saía e cantava a plenos
pulmões para espantá-los. Mas o vento soprava furioso, e por mais que cantasse
alto, a única coisa que ele ouvia era o vento. Mas se esse era um grande
problema, o problema do iglu era muito maior. Pois Freuchen começou a perceber
que as paredes de seu minúsculo abrigo estavam gradualmente se fechando sobre
ele. Por causa das condições particulares do tempo lá fora, a respiração dele
estava literalmente congelando nas paredes, e com cada exalação, as paredes
ficavam mais espessas, o iglu ficava menor, até que por fim mal havia espaço
para o corpo dele. É certamente coisa assustadora, a ideia de que a sua
respiração possa trancar você num caixão de gelo, e para mim é
consideravelmente mais convincente, digamos, O poço e o pêndulo, de Poe. Pois
neste caso é o próprio homem que é o agente de sua destruição, e mais ainda, o
instrumento daquela destruição é exatamente aquilo de que ele necessita para se
manter vivo. Pois é certo que um homem não pode viver se não respirar. Curiosamente,
eu não lembro como Freuchen conseguiu escapar dessa dificuldade. Mas é
desnecessário dizer que ele escapou.
Paul Auster
domingo, 14 de abril de 2013
EM MEMÓRIA DE MIM MESMO
Paul Auster
Simplesmente ter-me detido.
Como se pudesse começar
onde minha voz se deteve, eu mesmo
o som de uma palavra
que não posso dizer.
Tanto silêncio
trazido à vida
nesta pensativa carne, neste rítmico
tambor interno de palavras,
tantas palavras
perdidas no vasto mundo
de meu interior, e desse modo ter sabido
que apesar de mim mesmo
estou aqui.
Como se fosse o mundo.
(in "Facing the Music", Paul Auster, Trad. Raul Macedo )
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