domingo, 22 de setembro de 2013

Lyube



O mar azul, somente o mar além da popa
O mar azul, e longe o caminho de casa
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas está a nossa costa pátria

Cochicham as ondas e suspiram e rugem
Mas elas são estranhas, então não entendem, não entendem
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas nos amam e esperam

Espera Sebastopol, espera Kamtchatka, espera Kronstadt
Acredita e espera a terra em seus filhos da pátria
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas as esposas deles não dormem

E nós voltaremos, nós, é claro, chegaremos nadando
E sorriremos, e os filhos aconchegaremos ao peito
Lá além das névoas eternas e bêbadas
Lá além das névoas uma canção cantaremos até o fim

~em russo~

Там, За Туманами
~Любэ

Синее море, только море за кормой
Синее море и далек он путь домой
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами берег наш родной

Шепчутся волны и вздыхают и ревут
Но не поймут они чудные, не поймут
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами любят нас и ждут

Ждет севастополь, ждет Камчатка, ждет Кронштадт
Верит и ждет земля родных своих ребят
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами жены их не спят

И мы вернемся, мы, конечно, доплывем
И улыбнемся, и детей к груди прижмем
Там за туманами вечными пьяными
Там за туманами песню допоем

p.s.: Segundo informações de um amigo meu, essa canção foi composta em homenagem às vítimas no submarino Kursk, que naufragou em 12 de agosto de 2000


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ENTRE SONO E SONHOS

Entre mim e o que em mim 
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além, 
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
 — Esse rio sem fim.

 Fernando Pessoa



O RIO DE MINHA ALDEIA


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


Fernando Pessoa, por: Alberto Caeiro

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Corpo a corpo com a linguagem

"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz."


- Ferreira Gullar, em artigo "Corpo a corpo com a linguagem", publicado em 1999.

Un populu
mittitilu a catina
spughiatilu
attuppatici a vucca
è ancora libiru.

Livatici u travagghiu
u passaportu
a tavula unni mancia
u lettu unni dormi,
è ancora riccu.

Un populu
diventa poviru e servu
quannu ci arrubbanu a lingua
addutata di patri:
è persu pi sempri.

Diventa poviru e servu
quannu i paroli non figghianu paroli
e si mancianu tra d’iddi.
Mi nn’addugnu ora,
mentri accordu la chitarra du dialettu
ca perdi na corda lu jornu.

Mentre arripezzu
a tila camuluta
ca tissiru i nostri avi
cu lana di pecuri siciliani.

E sugnu poviru:
haiu i dinari
e non li pozzu spènniri;
i giuelli
e non li pozzu rigalari;
u cantu
nta gaggia
cu l’ali tagghiati.

Un poviru
c’addatta nte minni strippi
da matri putativa,
chi u chiama figghiu
pi nciuria.

Nuàtri l’avevamu a matri,
nni l’arrubbaru;
aveva i minni a funtana di latti
e ci vìppiru tutti,
ora ci sputanu.

Nni ristò a vuci d’idda,
a cadenza,
a nota vascia
du sonu e du lamentu:
chissi non nni ponnu rubari.

Non nni ponnu rubari,
ma ristamu poviri
e orfani u stissu.
______________

Un popolo
Mettetegli la catena
Spogliatelo
Chiudetegli la bocca
È ancora libero.

Levategli il lavoro
Il passaporto
Il tavolo dove mangia
Il letto dove dorme
È ancora ricco.

Un popolo
Diventa povero e servo
Quando gli rubano la lingua
Datagli dal padre
È perso per sempre

Diventa povero e servo
Quando le parole non creano parole
E si mangiano tra loro
Me ne accorgo ora
Mentre accorgo la chitarra del dialetto
Che perde una corda al giorno

Mentre rammendo
la tela rovinata
che hanno tessuto i nostri avi
con lana di pecore siciliane

E sono povero:
ho i soldi
e non li posso spendere;
i gioielli
e non li posso regalare;
il canto
in gabbia
con le ali tagliate

Un povero
Che ciuccia nel seno vuoto
Di madre putativa
Che lo chiama figlio
Per soprannome.

Noi ce l’abbiamo la madre
non ce l’hanno rubata;
aveva il seno pieno di latte come una fontana
e ci hanno bevuto tutti
ora ci sputano.

C’è rimasta la sua voce
la cadenza
una nota bassa
del suono del lamento:
questi non ce li possono rubare

Non ve li possono rubare
ma restiamo poveri

e orfani lo stesso.


Ignazio Buttitta__________________
(Bagheria, 19 settembre 1899 – Bagheria, 5 aprile 1997)

Pasión del movimiento,
la tierra es tu caballo.
Cabálgala. Domínala.
Y brotará en su casco
su piel de vida y muerte,
de sombra y luz, piafando.
Asciende. Rueda. Vuela,
creador de alba y mayo.
Galopa.
MIGUEL HERNANDEZ
The latter days of fall are often cursed,
But as for me, kind reader, she is precious
In all her quiet beauty, mellow glow.
Thus might a child, disfavored in its family,
Draw my regard. To tell you honestly,
Of all the times of year, I cherish her alone.
She's full of worth; and I, a humble lover,
Have found in her peculiar charms.


Alexander Pushkin (1799-1837)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A escritora recita poemas




Semana literária SESC e feira do livro 


Lavoura arcaica

“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”
 

- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.






Um outro Poema de Amor


No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"







Amor como em Casa


Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Pastores da Noite

“E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.”


- Jorge Amado

RELAÇÃO ÍNTIMA

 «Todos os impulsos, as emoções, as manifestações de vontades imagináveis, todas estas contingências da alma humana lançadas pela razão na imensidade negativa da noção de «sentimento», podem ser expressas por meio da multidão infinita das melodias possíveis, mas sempre exclusivamente na generalidade da forma pura, sem a substância, sempre somente como coisa em si, e não como aparência, de algum modo como a alma da aparência, incorporalmente. Esta relação íntima, que existe entre a música e a verdadeira essência de todas as coisas, explica-nos também por que, quando com pretexto de uma cena, de uma ação, de um evento, de um ambiente qualquer, ressoa uma música adequada, esta parece revelar-nos a significação mais secreta e afirmar-se como o mais exato e mais luminoso dos comentários; compreendemos igualmente como é que aquele que se abandona sem reservas à impressão produzida por uma sinfonia julga ver desenrolar-se perante os seus olhos todos os acontecimentos imagináveis da vida e do mundo.»

Nietzsche, 1872
in A Origem da Tragédia
Guimarães Editores, p.130

ESTUDO DO OBJETO


Uma lição de poesia - de Zbigniew Herbert

1
o mais belo
é o objeto que não existe
ele não serve para carregar água
nem para preservar as cinzas de um herói
não foi acalentado por Antígona
nem nele um rato se afogou
de orifício, nenhum resquício
pois é completamente aberto
visto
de todos os lados,
quase não é
antevisto
os feixes de todas as suas linhas
confluem num jato de luz
nem
cegueira
nem
morte
podem roubar o objeto que não existe

2
marque o lugar onde ficava
o objeto
que não existe
com um quadrado negro
ele será
um mero réquiem pela bela ausência
vigoroso lamento
aprisionado
num quadrilátero

3
agora
todo o espaço
dilata-se como um oceano
um furacão fustiga
o veleiro negro
a asa de uma nevasca
circunda o quadrado negro
e a ilha submerge
sob a disseminação salina

4
o que se tem agora
é espaço vazio
mais belo que o objeto
mais belo que o lugar que ele deixa
é o antemundo
um paraíso branco
de possibilidades
lá você pode entrar
gritar
vertical-horizontal
relâmpagos perpendiculares
golpeiam o horizonte nu
podemos parar aqui
de todo modo você já criou o mundo

5
oriente-se
pelo olho interior
não se renda
a murmúrios sussurros estalidos
é o mundo não criado
impresso nos portões da paisagem
anjos ofertam
chumaços rosados das nuvens
por toda parte árvores implantam
filamentos verdes desalinhados
reis celebram a púrpura
e comandam trompetistas
auricolores
até a baleia pede um retrato
oriente-se pelo olho interior
nada aceite além

6
extraia
da sombra do objeto
que não existe
do espaço polar
das inflexíveis quimeras do olho interno
uma cadeira
bela e inútil
como uma catedral no deserto
ponha sobre a cadeira
uma toalha de mesa amarrotada
adicione à ideia de ordem
a ideia de aventura
que seja uma confissão de fé
diante do vertical em combate com o horizontal
que seja
mais silenciosa que anjos
mais orgulhosa que reis
mais verdadeira que uma baleia
que tenha a face das últimas coisas
pedimos que a cadeira desvele
as dimensões do olho interno
a íris da necessidade
a pupila da morte

Tradução: Rogério Bettoni

"Pacto de Sangue"

"Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.

Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.

Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!

A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos."

(Ruy Cinatti -  da obra "Timor amor")

sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas um vício

Bufões transvestidos de poetas
burocráticos arrogantes,
pedantes pregoeiros
vós sois os porta-flâmulas
brandindo insígnias desbotadas.
Ser poeta não é um título de glória.
Apenas um vício natural.
Um fardo que por medo
amarramos mal.

(...)

Mas há quem

Potius mori quam fiedari*
eis o sentido ilibado
da vida que me transmites
em mensagens cifradas.
Mas há quem não compreenda
e prefira o mundo
assim como é: imerso na imundície.


*antes morrer que macular-se

(...)

Mortais

Não possuímos a cognição
da futuração.
Nossa previsão é limitada.
Quanto ao livre-arbítrio
faço algumas exceções.
Não há bifurcação, mas
percurso obrigatório.

(...)

A conjetura de que o mundo
seja uma burla, nem mesmo assim
resolve o puzzle fundamental.
Se queres a minha opinião
a única via de saída é a ilusão,
porque a vida supera a cada dia
os limites que impõe.

(...)

É com a tentativa desastrosa
de explicar todos os significados possíveis
que o fino declamador acaba naufragando
nas praias supersabidas do banal.

O que poderá importar a um inepto ouvinte
ser um éon decaído* ou um homem
que por medo acabou ficando mudo.


*alusão à gnose e ao neoplatonismo

(...)

poemas de Eugenio Montale, do Diário Póstumo
trad. Ivo Barroso



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


(Sophia de Melo Breyner Andresen)
Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Miguel Torga
agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


valter hugo mãe

A NEVE E O AMOR

Neste dia de calor ardente, estou esperando a neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem aboca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como
[o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve.

Lêdo Ivo | Mormaço
"As mais severas críticas à vida moderna têm a imperiosa necessidade de recorrer ao modernismo, para nos mostrar em que ponto estamos e a partir de que ponto podemos começar a mudar nossas circunstâncias e a nós mesmos. Em busca de um ponto de partida, retornei a um dos primeiros e grandes modernistas, Karl Marx. Voltei a ele não tanto por suas respostas, mas por suas perguntas. O que de mais valioso ele nos tem a oferecer, hoje, não é um caminho que permita sair das contradições da vida moderna, e sim um caminho mais seguro e mais profundo que nos coloque exatamente no cerne dessas contradições. Ele sabia que o caminho para além das contradições teria de ser procurado através da modernidade, não fora dela. Ele sabia que precisamos começar do ponto onde estamos: psiquicamente nus, despidos de qualquer halo religioso, estético ou moral, e de véus sentimentais, devolvidos à nossa vontade e energia individuais, forçados a explorar aos demais e a nós mesmos para sobreviver; e mesmo assim, a despeito de tudo, reunidos pelas mesmas forças que nos separam, vagamente cônscios de tudo o que poderemos realizar juntos, prontos a nos distendermos na direção de novas possibilidades humanas, a desenvolver identidades e fronteiras comuns que podem ajudar-nos a manter-nos juntos, enquanto o selvagem ar moderno explode em calor e frio através de todos nós.”

 – Marshall Berman (1982)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Глаза - зеркало души!

Os olhos são o espelho da alma!

LEITODEMORTE BLUES



Charles Bukowski 

Se não aguenta o calor, diz ele, saia da
cozinha. sabe quem disse isso?
Harry Truman.

Não 'tou na cozinha, digo eu, eu 'tou no
forno.

meu editor é um cara difícil
às vezes ligo pra ele em momentos de dúvida.

olha, responde ele, você vai acender charutos com notas de dez,
vai pegar uma ruiva num braço e uma loira
no outro.

outras vezes, ele vai dizer: veja bem, acho que vamos contratar o VK
como editor associado. temos que garimpar uns cinco poetas
nalgum canto. (VK é um poeta bem criativo, que acha que eu
apunhalei ele pelas costas de Nova Iorque até a costa norte do Havaí)

Olha aqui, meu garoto, respondo pro meu editor: você fala alemão?
Não, diz ele

Bom, de qualquer modo, digo eu, 'tou precisando duns bons pneus novos,
então, sabe onde consigo um jogo de pneus novos, baratos?
Eu te ligo em meia hora, diz ele, vai estar em casa
daqui a meia hora?
Não tenho um centavo pra sair, digo eu.
E ele: me disseram que você 'tava bebaco na leitura
de poesia no Oregon.
Fofoquinhas, respondo eu. -- ´tava ou não ´tava? -- Não lembro.

Um dia ele me liga: Você não 'tá mais acertando a bola. só entornando
o caneco, e briga com todas essas mulheres...
Sabe que tem um garoto no banco de reservas, não sabe? ele ´tá louco
pra entrar, ele bate de direita e de esquerda, cata todas,
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele consegue rimar, sabe? conhece imagens, símiles, metáforas,
retórica, chistes, assonâncias,
aliterações, métrica, é sim, métrica,
tipo, você sabe --
iambos, troqueus, anapestos, espondeus,
ele domina cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, paradoxo, voz, tom e coalescência...
Putaquepariu, digo eu, desligo e mando uma golada de
uísque escocês. Charlie ainda está vivo,
dizem os jornais. mas decido que em vez de
um jogo de pneus novos preciso de mais
luz nos retrovisores.

trad: Ivan Justen Santana

ALLENDE



Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama
porque el hombre de la paz era una fortaleza

para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar más para seguir matando
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza

para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa
una armada una hueste una brigada
tuvieron que creer que era otro ejército
pero el hombre de la paz era tan sólo un pueblo
y tenía en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios más tanques más rencores
más bombas más aviones más oprobios
porque el hombre del paz era una fortaleza

para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse para siempre a la muerte
matar y matar más para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.

(Mario Benedetti)


En el camino de regreso, caminando sierra arriba, Carlos siguió leyendo. No podía desprenderse de esta historia de horror y de bravura. El personaje central del libro era un hombre que había sabido cumplir su palabra. Al llegar a la aldea, Carlos anunció, eufórico: -¡Por fin tenemos nombre! Y leyó el libro, en voz alta, para todos. La tropezada lectura le ocupó casi una semana. Después, las ciento cincuenta familias votaron. Todas por sí. Con bailares y cantares se selló el bautizo. Ahora tienen cómo llamarse. Esta comunidad lleva el nombre de un hombre digno, que no dudó a la hora de elegir entre la traición y la muerte. -Voy para Salvador Allende dicen, ahora, los caminantes.


Eduardo Galeano .
Memorias Del Fuego

Yo pisaré las calles nuevamente.



Yo pisaré las calles nuevamente 
de lo que fue Santiago ensangrentada 
y en una hermosa plaza liberada 
me detendré a llorar por los ausentes. 

Yo vendré del desierto calcinante 
y saldré de los bosques y los lagos 
y evocaré en un cerro de Santiago 
a mis hermanos que murieron antes. 

Yo unido al que hizo mucho y poco 
al que quiere la patria liberada 
dispararé de las primeras balas 
más temprano que tarde sin reposo 
retornarán los libros las canciones 
que quemaron las manos asesinas 
renacerá mi pueblo de su ruina 
y pagarán su culpa los traidores. 

Un niño jugará en una alameda 
y cantará con sus amigos nuevos 
y ese canto será el canto del suelo 
a una vida segada en La Moneda. 

Yo pisaré las calles nuevamente 
de lo que fue Santiago ensangrentada 
y en una hermosa plaza liberada 
me detendré a llorar por los ausentes.

Pablo Milanés.


Nós devemos

Nós devemos trazer
nossa própria luz
para a
escuridão.

Ninguém irá fazer
isso por nós.

Como os jovens garotos
que esquiam montanha
abaixo.

Como o cozinheiro
que recebe o seu
pagamento.

Como o cão
que persegue
outro cão.

Nós devemos trazer
nossa pŕopria luz
para a
escuridão.

Ninguém irá fazer
isso por nós.

Como o solitário telefone
de alguém
em algum lugar

Como a grande fera
que estremece com
os próprios pesadelos.

Como a estação final
que entra no foco

Ninguém irá fazer
isso por nós.

(Charles Bukowski - Tradução: f. Koproski)


Deseo



Sólo tu corazón caliente,
y nada más.

Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.

Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.

Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo
de miradas rotas.

Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.

Y tu corazón caliente,
nada más.

Federico García Lorca

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Umbigo dos Limbos



Lá onde outros propõem suas obras, eu não pretendo fazer outra coisa senão mostrar meu espirito.
A vida é de queimar as questões.
Eu não concebo nenhuma obra separada da vida.
Eu não gosto da criação separada. Eu não concebo tampouco o espirito como separado de si próprio. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim mesmo, cada uma das florações glaciais de minha alma interior baba sobre mim.
Eu me reencontro tanto em uma carta escrita para explicar a contração intima de meu ser e a castração insensata de minha vida, quanto em um ensaio que é exterior à mim mesmo, e que se me aparece como uma gravidez indiferente de meu espirito.
Eu sofro porque o Espirito não está na vida e porque a vida não seja o Espirito, eu sofro por causa do Espirito-orgão, do Espirito-tradução, ou do Espirito-intimidação-das-coisas para fazê-las entrar no Espirito.
Este livro, eu o ponho em suspensão na vida, eu quero que ele seja mordido pelas coisas exteriores e, em primeiro lugar, por todos os sobressaltos em cisalhas, todas as cintilações de meu eu por vir.
Todas as páginas se espalham como pedras de gelo no espirito. Que me desculpem minha liberdade absoluta. Eu me recuso a fazer diferenças entre qualquer dos minutos de mim mesmo. Eu não reconheço plano em meu espirito.
É preciso acabar com o Espirito assim como com a literatura. Eu digo que o Espirito e a vida comunicam em todos os graus. Eu gostaria de fazer um Livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e que os levasse lá onde jamais consentiriam em ir, uma porta simplesmente aberta para a realidade.
E isto não é mais prefacio a um livro do que todos os poemas, por exemplo, que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.
Isto não é mais que uma pedra de gelo, também mal engolida.

(Antonin Artaud)


"Para gerenciar uma nuvem é preciso um sistema de monitoramento que controla o seu funcionamento, e este sistema é, por definição, escondido dos usuários. Quanto menor e mais personalizado o item (smartphone) que eu tenho em mãos, e mais fácil de usar, mais sua configuração tem de confiar no trabalho que está sendo feito em outro lugar, num vasto circuito de máquinas que coordena a experiência do usuário. Quanto mais a nossa experiência é espontânea e transparente, mais ela é regulada pela rede invisível controlada por agências estatais e grandes empresas privadas, que seguem suas agendas secretas."

Slavoj Žižek no Blog da Boitempo.

domingo, 8 de setembro de 2013

Sete de Setembro em Curitiba


Possibilidades

"Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade de que a existência tem sua própria razão de ser."

 Wislawa Szymborska