sábado, 6 de julho de 2013

Europas Schande

Das neue politische Gedicht "Europas Schande" von Günter Grass hier in voller Länge.


Dem Chaos nah, weil dem Markt nicht gerecht,
bist fern Du dem Land, das die Wiege Dir lieh.

Was mit der Seele gesucht, gefunden Dir galt,
wird abgetan nun, unter Schrottwert taxiert.

Als Schuldner nackt an den Pranger gestellt, leidet ein Land,
dem Dank zu schulden Dir Redensart war.

Zur Armut verurteiltes Land, dessen Reichtum
gepflegt Museen schmückt: von Dir gehütete Beute.

Die mit der Waffen Gewalt das inselgesegnete Land
heimgesucht, trugen zur Uniform Hölderlin im Tornister.

Kaum noch geduldetes Land, dessen Obristen von Dir
einst als Bündnispartner geduldet wurden.

Rechtloses Land, dem der Rechthaber Macht
den Gürtel enger und enger schnallt.

Dir trotzend trägt Antigone Schwarz und landesweit
kleidet Trauer das Volk, dessen Gast Du gewesen.

Außer Landes jedoch hat dem Krösus verwandtes Gefolge
alles, was gülden glänzt gehortet in Deinen Tresoren.

Sauf endlich, sauf! schreien der Kommissare Claqueure,
doch zornig gibt Sokrates Dir den Becher randvoll zurück.

Verfluchen im Chor, was eigen Dir ist, werden die Götter,
deren Olymp zu enteignen Dein Wille verlangt.

Geistlos verkümmern wirst Du ohne das Land,
dessen Geist Dich, Europa, erdachte.


A vergonha da Europa

Embora próxima ao caos, não para agradar o mercado,  longe estás da terra que foi seu berço.

Que com a alma você buscou e acreditou encontrar

Hoje o desejas, pior do que lixo valorizado.

Nu no pelourinho do devedor sofre uma nação para quem das graças era mais que natural.

País condenado a ser pobre, cuja riqueza

adorna cuidados museus botin por você vigiado

Os que invadiram com armas esta terra bendita de ilhas levavam, com seu uniforme,  Hölderlin na mochila.

País tolerado e justo, cujos coronéis

toleraste um dia como parceiros.

País sem lei que o poder, que está sempre certo, aperta o cinto cada vez mais.

Desafiando-te, veste-se de negro Antígona, e todo o país veste luto hoje o povo cujo hospede eras.

Mas, fora do país, o namoro de parentes de Creso acumulou em suas câmeras tudo que dourava reluzente

Beba de uma vez, baby! grita o clack dos comissários, mas com raiva Sócrates retorna seu copo transborda.

Amaldiçoaram os deuses em coro aquilo que pertence a você, mas sem a sua permissão não pode ser expropriado o Olympus.


Sem esse país vais murchar, Europa, desprovida do espírito que te concebeu.


terça-feira, 2 de julho de 2013

El ser


“El ser que espero no es real. El otro viene allí donde yo lo espero, allí donde yo lo he creado ya. Y si no viene lo alucino: la espera es un delirio.”


— Roland Barthes

segunda-feira, 1 de julho de 2013

As utopias



Utopias
são facas
de dois
gumes:

Num dia
dão flores,
noutro
são estrume.

Na travessia
do deserto
as utopias
são miragens.

Mas como
se alimentar
de paisagens?

As utopias
mobilizam.
E a longo prazo
paralisam.

Utopias
são ambíguas:
podem aliviar
no presente
as fadigas,
mas no futuro
levam a um muro
sem saída.

Mais que
dilema
bigume:
estrela
e negrume,
trampolim
e tapume
ou fênix
implume,
nenhuma
imagem
as utopias
resume.

As utopias
são facas
de três gumes.

Affonso Romano de Sant'Anna; in: Intervalos amorosos e outros poemas escolhidos


cidadão e consumidor



""Quando se confundem cidadão e consumidor, a educação, a moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas pessoais e não como direitos sociais. Até mesmo a política passa a ser uma função do consumo. Essa segunda natureza vai tomando lugar sempre maior em cada indivíduo, o lugar do cidadão vai ficando menor, e até mesmo a vontade de se tornar cidadão por inteiro se reduz."
Milton Santos - geógrafo e professor na USP.

O barão nas árvores

Para conservar os livros, Cosme construiu em diversas ocasiões algo semelhante a bibliotecas pênseis, protegidas da chuva e dos roedores, mas mudava-a constantemente de lugar, segundo estudos e os gostos do momento, pois ele considerava os livros um pouco como pássaros e não queria vê-los parados ou engaiolados, senão entristeciam.Na mais maciça daquelas estantes aéreas alinhava os tomos da Enciclopédia, de Diderot e D'Alembert, á medida que lhe chegavam de um livreiro de Livorno. E mesmo que, nos últimos tempos, à força de estar em meio aos livros ficara com a cabeça meio nas nuvens, cada vez menos interessado pelo mundo ao redor, agora, a leitura da Enciclopédia, certos belíssimos verbetes como Abeille, Arbre, Bois, Jardin faziam-no redescobrir todas as coisas em torno como novas. Dentre os livros que encomendava começaram a figurar também manuais de artes e ofícios, por exemplo, a arboricultura, e não via a hora de aplicar os novos conhecimentos.


 De Italo Calvino.

OS PROTESTOS PRECISAM SE FOCAR NA CRÍTICA AO CAPITALISMO



“As manifestações atuais são relevantes, mas não estão atacando a estrutura. É revelador que as pessoas destinem seus impulsos de agressividade e de ódio à arena política estatal, mas quase nunca ao campo econômico e ao próprio sistema capitalista. Por exemplo, ao criticar o transporte público, voltamos os olhos para o papel do Estado, mas esquecemos das empresas e dos empresários que operam as máquinas do transporte público. As pessoas estão mirando um horizonte de conquistas imediatas, talvez porque compreendam os limites da política e dos governantes. No mais das vezes, os manifestantes querem riscar do mapa as estruturas políticas impostas, mas, sem propor alternativas, tendem a substituí-las por estruturas similares. No fim, com o estoque de utopias que temos agora, se nos fosse dada a possibilidade de reescrever essa história, escreveríamos o mesmo que já lemos antes. Não temos tinta nas mãos para escrever coisas novas nessas páginas.”

Alysson Leandro Mascaro, autor de “Estado e forma política”, em entrevista para o jornal O Estado de São Paulo: http://goo.gl/Yitfv

O ebook de "Estado e forma política" já está disponível: http://bit.ly/14mqRZ4


Estado

 “[...] o Estado nunca enfrenta a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior.”

- Henry David Thoreau

domingo, 30 de junho de 2013

O Espírito de Liberdade

“O homem transfere para o ídolo suas paixões e qualidades. Quanto mais se empobrece, tanto maior e mais forte se torna o ídolo. Este é a forma alienada da experiência que o homem tem de si mesmo. Ao cultuar o ídolo, o homem cultua a si mesmo. Mas esse ‘eu’ é um aspecto parcial, limitado, do homem: sua inteligência, sua força física, sua energia, fama etc. identificando-se com um aspecto parcial de si mesmo, o homem limita-se a tal aspecto; perde sua totalidade de ser humano e deixa de crescer. É dependente do ídolo, já que somente na submissão a ele encontra a sombra, embora não a substância de si mesmo.” 
(Erich Fromm, “O Espírito de Liberdade”)


Discurso de posse, em 1994

"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes.
Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.
Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo".

(Discurso de posse, em 1994)
Nelson Mandela

Adorável, irmãos, adorável


Como no terrível Terek os cossacos expulsaram,
Os cossacos expulsaram 40 mil cavaleiros.
E cobriram os campos, e cobriram as praias,
Centenas de pessoas picadas e feridas a tiro.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

O nosso atamã sabe quem escolhe
"Esquadrão, montar", mas esqueceram de mim
Eles permanecem animados na ação dos cossacos
Me deixaram no chão empoeirado e ardente.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

E a primeira bala, e a primeira bala
A primeira bala feriu o cavalo na pata.
E a segunda bala, a segunda bala,
A segunda bala me feriu no coração.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

A minha esposa vai lamentar um tempo, e então casar-se com outro
Casar com meu camarada, esquecer de mim
Apenas lamento pela liberdade no campo amplo
Apenas lamento por meu sabre afiado e por meu cavalo pardo.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

E minhas tranças castanhas, e meus olhos brilhantes,
A grama, as ervas e o absinto logo irão cobrir.
E meus ossos brancos, e meu coração valente,
Os gaviões e os corvos espalharão pela estepe.

Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.
Adorável, irmãos, adorável
Adorável, irmãos, é viver
Com nosso atamã não iremos lamentar.

~em russo~

Любо, братцы, любо

Как на грозный Терек выгнали казаки,
Выгнали казаки сорок тысяч лошадей.
И покрылось поле и покрылся берег,
Сотнями порубленных, пострелянных людей.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

Атаман наш знает кого выбирает,
"Эскадрон, по коням", да забыли про меня.
Им осталась воля да казачья доля,
Мне осталась пыльная, горючая земля.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

А первая пуля, а первая пуля,
А первая пяля в ногу ранила коня.
А вторая пуля, а вторая пуля,
А вторая пуля в сердце ранила меня.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

Жинка погорюет, выйдет за другого.
За мого товарища, забудет про меня.
Жалко только волюшки во широком полюшке,
жалко сабли вострой да буланного коня.

Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.
Любо, братцы, любо,
любо, братцы, жить
С нашим атаманом не приходится тужить.

Кудри мои русые, очи мои светлые,
Травами, бурьяном, да полынью зарастут.
Кости мои белые, сердце мое смелое,
Коршуны да вороны по степи разнесут


RETORNELLO


Nunca mais retornemos ao jardim
como rosas ou lírios ou alegres girassóis
nem como ave celebrando no cipreste
o renascimento infinito da plumagem
em forma de uma flor qualquer.

Soldados armados de ventos uivantes
passariam por lá como nuvens explosivas
e arrastariam nossas almas renascidas
para a invernada dos espinhos.

Retornemos ao jardim em forma
de esperanças e sonhos e quimeras
porque os ventos ceifariam apenas
nossas flores...
Mas não saberiam como levar
as nossas primaveras...

Julis Calderón

(Numa lembrança de Che Guevara)

Vida


Para um destino incerto caminhamos,
Tontos de luz, dentro de um sonho vão;
E finalmente, a gloria que alcançamos
Nem chega a ser uma desilusão!

Levanta-se da sombra, entre altos ramos,
Como um fumo a subir, lento, do chão,
A distancia que tanto procuramos,
E os nossos braços nunca atingirão.

Mas um dia, perdidos, hesitante,
A alma vencida e farta, as mãos tateantes,
De repente, paramos de lutar;

E ao nosso olhar, cansado de amargura,
As montanhas têm muito mais altura,
O céu mais astros, e mais água o mar!


- Ronald de Carvalho, no livro “Poemas e Sonetos”, 1919.

O pântano


Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!...
Mas, para mim que a Natureza escuto,
Este pântano é o túmulo absoluto,
De todas as grandezas começantes!

Larvas desconhecidas de gigantes
Sobre o seu leito de peçonha e luto
Dormem tranqüilamente o sono bruto
Dos superorganismos ainda infantes!

Em sua estagnação arde uma raça,
Tragicamente, à espera de quem passa
Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta...

E eu sinto a angústia dessa raça ardente
Condenada a esperar perpetuamente
No universo esmagado da água morta!


- Augusto dos Anjos, in "Eu e outras poesias". 42ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Cárcere das Almas


Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...


- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.
Tira-me a luz dos olhos: continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos, continuarei a ouvir-te
E embora sem pés caminharei para ti
E já sem boca poderei ainda convocar-te.
Arranca-me os braços: continuarei abraçando-te
Com o meu coração como com a mão
Arranca-me o coração: ficará o cérebro
E se o cérebro me incendiares também por fim
Hei-de então levar-te no meu sangue.

---

“Gosta de rosas? Parece-me agora que todas as rosas do mundo florescem para ti e graças a ti – e que apenas uma generosa renúncia tua permite à Primavera mantê-las e fingir que são delas”



-Rilke a Lou Andreas Salomé, Correspondência.

Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


- Manuel Bandeira, no livro "Libertinagem e Estrela da Manhã". 14ª ed., Editora Nova Fronteira, 2000, pág. 32-33.
Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho,
batendo forte à tua porta na noite extensa,
é porque te ouço respirar, da tua presença
sei: estás na sala, sozinho.
Se de algo precisares, não há ninguém ali
que possa te trazer um gole d’água sequer.
Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer.
Estou bem perto de ti.

Entre nós há apenas um muro, coisa pouca,
por mero acaso aliás;
bem pode ser que um grito da tua ou minha boca —
e eis que se desfaz
sem só rumor ou ruído.

Com imagens tuas o muro foi construído.

Diante de ti tuas imagens são como nomes.
E quando um dia dentro de mim esteja acesa
a luz com que te conhece minha profundeza,
será, nas molduras, brilho que se esbanja e some.

E os meus sentidos, que um torpor célere consome,
estão sem pátria, exilados da tua grandeza.


Rilke | O livro de Horas | Trad. José Paulo Paes
Tu, escuridão da qual descendo
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.

já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências…

e pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim…

Acredito nas noites.

Trad. Geir Campos

*

Tu, obscuridade de onde emana
meu ser, amo-te mais do que à chama
que o mundo reduz
ao círculo da sua luz:
ali dentro, resplandece;
fora dali, ser nenhum a reconhece.

Mas na obscuridade tudo se contém:
as formas e as chamas, os animais e eu também,
nela que consorcia
existências e energias —

Pode bem ser que uma força sombria
se mova em minhas cercanias.

É às noites que minha alma se confia.

Trad. José Paulo Paes


Rilke | O livro de Horas
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiar. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.

René


Rilke | "Correspondência Amorosa", Rainer Maria Rilke e Lou Andreas-Salomé | trad. Manuel Alberto, Relógio D'Água Editora.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A Luz nos Pulmões

O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.

Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,

a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro

Jorge Melícias |

Os Povos


Milton Nascimento

Na beira do mundo
Portão de ferro, aldeia morta, multidão
Meu povo, meu povo
Não quis saber do que é novo, nunca mais
Eh! Minha cidade
Aldeia morta, anel de ouro, meu amor
Na beira da vida
A gente torna a se encontrar só

Casa iluminada
Portão de ferro, cadeado, coração
E eu reconquistado
Vou passeando, passeando e morrer
Perto de seus olhos
Anel de ouro, aniversário, meu amor
Em minha cidade
A gente aprende a viver só

Ah, um dia, qualquer dia de calor
É sempre mais um dia de lembrar
A cordilheira de sonhos que a noite apagou

Eh! Minha cidade
Portão de ouro, aldeia morta, solidão
Meu povo, meu povo
Aldeia morta, cadeado, coração
E eu reconquistado
Vou caminhando, caminhando e morrer
Dentro de seus braços
A gente aprende a morrer só
Meu povo, meu povo
Pela cidade a viver só

(via Eduardo Lacerda)

"Estamos a construir uma sociedade de egoístas. Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim. Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo."

José Saramago

 “Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz.”

(Roland Barthes)
Era um país muito engraçado / Não tinha escola, só tinha estádio / Ninguém podia protestar, não/ Porque a PM sentava a mão.
Não grito Fora Dilma porque tenho muito a Temer.
Classe média pacifista não me representa.



Não nos iludamos com a ideologia da paz!
Não gosto de bala de borracha! Joga um Halls.
Seu filho ficou doente? Leva pro estádio.
Petição on-line é o caralho. Saímos do Facebook.


Se não posso liderar não é minha revolução.
Se meu partido não pode participar não é minha revolução.
Se usarem a bandeira do Brasil não é minha revolução.
Se tiver quebra -quebra mesmo que não seja coisa do movimento não é minha revolução.
Se não tiver uma pauta histórica de reivindicação não é minha revolução.
Se não divulgar meu movimento não é minha revolução.
Se criticarem o governo não é minha revolução.
Se atrapalhar a copa não é minha revolução.
Se cantarem o hino nacional não é minha revolução.
Se não tiver UNE, MST, CUT ou qualquer outra repartição pública não é minha revolução.
Se tiver violência mesmo que pontual e localizada não é minha revolução.
Se não tiver o meu coletivo não é minha revolução.
Se não tiver liderança não é minha revolução.
Se não tiver uma petição online não é minha revolução.

Claro que não é a revolução de vocês. Isso é uma revolução, não um cafezinho cazamiga no findi tarde.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Dialogo com Guimarães Rosa



"No sertão, cada homem pode se encontrar ou se perder. As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar."

- João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz - "Dialogo com Guimarães Rosa".

Je suis comme je suis




Jacques Prévert

Je suis faite^comme ça »
Quand j'ai envie de rire
Oui je ris,aux éclats
J'aime celui qui m'aime
Est-ce ma faute à moi
Si ce n'est pas le même
Que j'aime chaque fois
Je suis comme je suis
Je suis faite comme ça
Que voulez-vous de plus
Que voulez-vous de moi
Je suis faite pour plaire
Et n'y puis rien changer
Mes talons sont trop hauts
Ma taille trop cambrée
Mes seins beaucoup trop durs
Et mes yeux trop cernés
Et puis après
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Je suis comme je suis
Je plais à qui je plais
Qu'est-ce que ça peut vous faire
Ce qui m'est arrivé
Oui j'ai aimé quelqu'un
Oui quelqu'un m'a aimée
Comme les enfants qui s'aiment
Simplement savent aimer
Aimer aimer...
Pourquoi me questionner
Je suis là pour vous plaire
Et n'y puis rien changer.


 Littérature et Paroles

Nossa União



O tio Sam queria descansar
E o Brasil tratar do seu café.
Sempre que o mundo quer trabalhar,
Existe um mau elemento de pé.
E quando um louco
Diz que venceu,
Que o mundo é seu.
Quem é que vai-lhe dizer que não é?"

Valdemar Ressureição - Quatro Ases e Um Coringa.