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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019


Mais um ano que deixei uma enxurrada de preconceitos (qualquer ideia que recebemos sem a devida análise). E foi com gosto! Agora é se preparar para os novos preconceitos que virão e aqueles de que não me dei conta ainda. E isso não é nada fácil. Não é fácil detectar e também não é fácil superar dependendo do nível de preconceitos das pessoas com quem você convive. Se não quiser ser escravo de ideias falsas, estude. Não há outro jeito.

Thiago Melo

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Cortella e Karnal sobre ética




Circula há algum tempo na internet um vídeo em que Mário Sérgio Cortella fala sobre ética, e intitulam o vídeo como sendo uma definição de ética. O que ele diz é muito mais uma posição ética do que uma definição de ética. Ética (ou filosofia moral) é a investigação sobre as normas para que uma ação seja correta. Quando Cortella diz que ética é “um conjunto de princípios e valores sobre o que eu devo, posso e quero” ele já está dando uma reposta ao problema de saber o que é certo fazer. Pois ele admite que há princípios (existe filósofos que discordam) e admite que é o equilíbrio entre as normas, a liberdade e a vontade. Isso vai além da mera definição da área de conhecimento.

Recentemente, Leandro Karnal disse que ética é respeitar a todos, não só quem tem poder. Isso também já é uma resposta ao problema. Há teorias éticas que não aceitam isso.

O trabalho filosófico em ética consiste também em fazer o que Cortella e Karnal estão tentando fazer. Mas é importante ter essas considerações que fiz em mente porque a ética é uma área em aberto, não tendo ainda uma resposta definitiva sobre seu problema principal: o que é uma ação correta?

 Thiago Melo



A misoginia, as minorias e o desrespeito



O número de pessoas que vejo indignadas com o desrespeito às mulheres, aos negros e as demais chamadas minorias vem crescendo. Isso poderia ser uma grande notícia. Mas a quantidade destas mesmas pessoas que também desrespeitam está aumentando. Percebo através de jornais, redes sociais e meu convívio social. Vejo pessoas indignadas com o machismo e elas próprias não respeitam o professor, o colega de trabalho, o colega de sala, o que está em posição social diferente, aquele que pensa diferente etc. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que reafirmam seus preconceitos também aumentam. O número de pessoas que reafirmam o machismo, por exemplo, está aumentando.

A explicação para isso está no respeito seletivo. Não dá para escolher as pessoas que você quer respeitar. Muito menos, se você escolhe não respeitar alguém simplesmente por essa pessoa estar fazendo seu trabalho, como é o caso de desrespeito a professores. Isso porque quando o respeito ao próximo vira algo arbitrário, o grupo maior vai ganhar. Se existe mais machistas que feministas, os machistas vão ganhar. E não se pode depois alegar injustiça, pois o respeito foi consensualmente arbitrário. Ambos os lados aceitaram respeitar quem eles acham que deve. Aí ninguém pode determinar quem deve ser respeitado, a não ser o grupo maior ou mais forte.

Você esperneando ou não, o mundo nem sempre segue as nossas normas. Muito menos, se não conseguimos convencer a maioria. E escolhendo quem vamos respeitar, não conseguiremos. Não abra mão de respeitar o próximo. Esse caminho é mais seguro para o respeito a todos os tipos de pessoas.




Thiago Melo

Por que algumas pessoas insistem que uma ideia filosófica depende muito da biografia do filósofo?
Muitos professores de filosofia insistem que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos que as conceberam. No entanto, a justificação desta insistência não apresentam. Esta falta de justificativa é a primeira pista para entender a posição que tomam.

Quando não apresentamos justificativas de nossas posições, as pessoas interessadas no assunto vão procurar pontos que possam justificar as posições apresentadas. Fazemos uma retrospectiva da memória que temos da pessoa. Sua história pessoal, as relações que tivemos com ela, se for o caso, o tipo de trabalho que faz etc. Aí, se, por exemplo, a pessoa defende a liberação do uso de drogas, levamos em conta se ele é um usuário, se ela em algum outro momento conversou sobre o assunto, se ela é de esquerda etc. Enfim, procuramos razões para ela defender a ideia que defende na sua biografia. É isso que um historiador da filosofia faz quando filósofos não apresentam razões ou boas razões para as ideias que defende: ele vai procurar na biografia do filósofo. Não é por acaso, portanto, que os professores que mais insistem na importância da biografia de um filósofo são aqueles que estudam ideias filosóficas que não são bem justificadas.

Seguindo esta linha, constatamos que as pessoas que sustentam que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos dão como já dado definitivamente que as ideias filosóficas são subjetivas. Isso significa que as ideias filosóficas dependem muito do sujeito que as concebem. Se alguém defende que a definição de conhecimento é X, ela defende isso devido, fortemente ou exclusivamente, a seus interesses pessoais. Assim, as ideias filosóficas, antes de ser sobre o mundo, são sobre as pessoas que as concebem. Por exemplo, Platão defendeu que a definição de conhecimento é X porque é desejo dele que a definição seja essa, não porque ela de fato é essa. Nessa situação, faz todo sentido considerar a biografia de um filósofo como indispensável para entender suas ideias.

Já com relação às ideias de outras áreas de conhecimento, pensam que são objetivas ou possuem graus de objetividade que as filosóficas não possuem. Por isso, não veem dificuldades em ensinar e analisar uma ideia da física ou da matemática independente da biografia do autor.

O problema é que não é definitiva ainda a posição de que as ideias filosóficas são subjetivas e as ideias das ciências naturais e da matemática são objetivas. Este é um problema filosófico em aberto. Muitos filósofos, inclusive eu, defendem que as ideias filosóficas são mais objetivas. Outros são céticos, ou seja, não tomam posição sobre o assunto. Enfim, a resposta para este problema ainda está sendo investigada. E não há uma resposta definitiva ainda.

No mínimo, portanto, as razões que um subjetivista filosófico tem para considerar a biografia de um filósofo são as mesmas que um objetivista ou um cético tem para não considerar. Caso o subjetivista ache que ele tem razões melhores, é preciso apresentar. Apenas expressar uma posição é expor uma mera opinião. E acho que há consenso de que o ensino de filosofia não é o ensino de meras opiniões. Pois seria a disseminação de preconceitos, de ideias sem a devida avaliação crítica.




Por que argumentos circulares são falaciosos?
Uma das maiores dificuldades que enfrentei em sala de aula foi a de convencer os alunos que a falácia da circularidade em argumentos é mesmo uma falácia. Por mais exemplos que você use para mostrar que tais raciocínios não funcionam, sempre ainda fica a dúvida de saber onde está o erro. Os alunos questionam: “E daí? Ainda sim é uma justificativa”. Isso acontece porque nós professores pressupomos que os alunos conseguem reconhecer diretamente que a circularidade argumentativa é um erro - por isso, nos contentamos com exemplos. Mas nem nós professores conseguimos reconhecer diretamente. Para reconhecer a circularidade argumentativa, precisamos dos conceitos de cogência e de justificação última.

A falácia da circularidade acontece quando procuramos justificar uma ideia com outra de mesma força cognitiva. Por exemplo, a proposição “Todos os acontecimentos naturais são regulares” possui a mesma força cognitiva que a proposição “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares. Veja a formulação de um argumento envolvendo estas ideias:

 Observamos que os acontecimentos naturais são regulares.

 Logo, todos acontecimentos naturais são regulares.

O que justifica a ideia “Os acontecimentos naturais são regulares” não pode ser a ideia “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares”. Isso decorre do fato de que a observação que os acontecimentos naturais são regulares não garante que os acontecimentos são regulares. Pode acontecer de nossa observação ser falha. Podemos falhar, por exemplo, em não constatar que a regularidade vale para alguns acontecimentos naturais e não vale para outros. Nesse caso, não se segue que todos os acontecimentos naturais são regulares. Só alguns são regulares. Aí, não podemos nos convencer da verdade da ideia que usamos para justificar, isto é, da verdade da premissa. Tal fato envolve os dois conceitos já mencionados: cogência e justificação última.

Em raciocínios cogentes, pretendemos justificar a conclusão com base nas premissas. Isso significa que as premissas devem ser mais confiáveis ou mais fortes do que a conclusão, já que é a partir das premissas que procuro garantir a verdade da conclusão. Isso acontecendo, o argumento é cogente. Se a premissa não for mais confiável do que a conclusão, não conseguimos garantir por meio do argumento a verdade da conclusão. No raciocínio formulado acima, a ideia expressa na premissa possui a mesma força cognitiva da ideia expressa na conclusão. Logo, não consegue-se garantir a verdade da conclusão através da premissa. As duas ideias precisam igualmente de uma justificação para acreditar na verdade delas.

No fim das contas, a circularidade é uma falácia porque a premissa não é uma justificativa última, ainda permanece a necessidade de mais uma justificação. No exemplo que estou usando, ainda permanece a dúvida de saber o que justifica a ideia de que os acontecimentos naturais são regulares. Isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre sua função de justificar* a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa* para a conclusão, mas não há.

*Comentando sobre este texto no Facebook, Desidério Murcho me lembrou de um ponto muito importante para este assunto. É o da distinção entre justificação e justificação adequada. Como disse ele, “Uma justificação má é ainda uma justificação”. No entanto, não é uma justificação adequada. Os argumentos circulares possuem justificação mas não justificação adequada. Então, aproveito para corrigir o final do texto: isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre a função de justificar adequadamente a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa adequada para a conclusão, mas não há.




O que seria melhor?
Às vezes me pergunto se não seria melhor viver uma vida profissional confortável e acadêmica do que essa vida, por um lado, degradante e, por outro lado, desafiadora que vivo na escola pública. Ao ler artigos de alguns professores universitários brasileiros e de grandes nomes estrangeiros como Victor Goldschmidt e Gilles-Gaston Granger, vejo que não. Viver sem saber bem o que está pensando e dizendo, mesmo no maior conforto de Paris, seria uma frustração grave para mim. Uma frustração semelhante a de um engenheiro civil incapaz de construir um prédio minimamente estável. Prefiro viver como Sócrates.

Thiago Melo, professor de filosofia

A censura aos professores do ensino básico



Há um mantra no debate sobre o ensino básico brasileiro de que toda a sociedade deve participar dessa discussão. Clamam por todo tipo de opinião para superarmos os problemas da educação. Vou defender neste texto que esse tipo de ideia é o grande obstáculo para as soluções necessárias, pois acaba por eliminar do debate o principal autor: o professor da educação básica.

A variedade de instituições, órgãos e profissionais que participam do debate para a melhoria da educação brasileira é única no mundo. Participam o Banco Mundial, Unicef, ONGs, empresas, empreendedores, pastores, padres, socialites, banqueiros, professores universitários etc. Muita gente querendo dar seu pitaco. É neste “grande debate” que o professor escolar perde a vez, já que ele é muito desvalorizado por toda a sociedade, não só pelos políticos. Essa desvalorização pode ser vista na ausência dos professores secundaristas na mídia. Peço ao leitor para tentar lembrar ou pesquisar algum colunista de jornal ou revista de grande circulação que seja professor de escolar. Eu não conheço. Alguém lembra se algum professor da educação básica já ocupou o centro do programa Roda Viva, da TV Cultura? Nunca vi sequer participarem da bancada. Em reportagens sobre educação, dificilmente um professor do ensino básica é ouvido para dar opinião e apresentar propostas. Na imensa maioria das vezes, só é ouvido para relatar violências e coisas do tipo. A apresentação de propostas só é concedida para membros de ONGs, celebridades, professores universitários, políticos, psicólogos e os ditos especialistas.

O resultado dessa espécie de censura é o desconhecimento das demandas necessárias para resolver os problemas da educação básica. Isso porque quem dita as ações educacionais não sabe nada ou quase nada do que acontece na escola e em suas salas de aula. Desconhecem, por exemplo, que a escola pública brasileira é administrada para diminuir ao máximo o trabalho de pedagogos, diretores e funcionários de secretarias de educação. E a melhor maneira de se fazer isso é jogar todas as responsabilidades para o professor. Se o aluno tira nota ruim, é mais fácil culpar o professor do que conversar com o aluno e seus pais. Imagine se os pedagogos tivessem de conversar com mais de 50% dos alunos e pais sobre notas ruins. Haja reuniões! É bem mais fácil o professor dar provas mais fáceis. Se o aluno comete indisciplinas em sala de aula, é mais fácil pressionar o professor para suportar o comportamento do aluno do que tentar discipliná-lo. Pois o diretor vai ter de marcar reunião com os pais do aluno, que podem ser muito desrespeitosos. Isso dá trabalho. Como dá trabalho também suspender alunos com indisciplinas graves. Dizem que a secretaria pode “pegar no pé”. Em todas essas situações, o ensino é deixado de lado para dar lugar a outros interesses. Aí, podem contratar os melhores professores do mundo que não darão jeito. Podem comprar tablets, diminuir as disciplinas, implantar métodos de ensino revolucionários que não vai adiantar.

É preciso que o professor escolar seja o condutor maior do ensino básico brasileiro. O autor da aula é o professor. Ele é quem mais tem contato com o aluno no tratamento do conteúdo apresentado. Assim, é ele que tem mais propriedade para apontar as dificuldades de aprendizado dos alunos e propor as medidas adequadas para garantir o aprendizado do conteúdo. Mas o que se vê são outros profissionais e cidadãos ditando as ações educacionais. E, na maior parte das vezes, falam sobre o que não sabem (conteúdo) e sobre o que não veem (atividades dos alunos).

Antes de mais nada, é preciso permitir que o professor exija que o estudante estude. Se o professor não pode cobrar leitura, exercícios e disciplina, não consegue expor conteúdos e orientar os alunos. Nessa situação, o professor não exerce sua função e o estudante não exerce a dele.

Vejam que nem sua função básica a educação brasileira consegue executar. A sociedade quer colocar banco de couro em carro sem chassi. E termina por conseguir duas coisas: permitir todo tipo de maus-tratos para com o professor dentro da escola, com professores sendo sistematicamente desrespeitados e agredidos verbalmente pelos alunos, como também cotidianamente assediados moralmente por pedagogos e diretores; e deformar o intelecto e a moral dos alunos. Os alunos saem da escola analfabetos funcionais e marginais das regras e leis da sociedade.

Thiago Melo
in O básico da realidade



Texto originalmente publicado no jornal Gazeta do Povo: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/a-censura-aos-professores-da-educacao-basica-ejbhpsmsu2c930nf2v7g8n5fy

domingo, 1 de outubro de 2017

O que as melhores escolas públicas têm em comum


As escolas públicas com melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são as federais e as militares. Também entram neste grupo algumas escolas técnicas estaduais, como a ETESP em São Paulo. O que essas escolas têm em comum é pouco explorado no atual debate sobre o ensino médio (até mesmo porque aqueles que têm mais propriedade sobre o assunto, os professores do ensino básico, são excluídos do debate). São três coisas que essas escolas possuem em comum: elas são autarquias, seus professores possuem autonomia pedagógica e a remuneração destes profissionais são justas. Vou tentar mostrar aqui que a ausência destas três coisas é o maior problema do ensino básico brasileiro.
Ano passado, uma das salas em que eu lecionava tinha mais de 40 alunos. É comum uma sala com mais de 40 alunos nas escolas públicas estaduais. Mas essa especificamente era frequentada por uma quantidade enorme de alunos indisciplinados. Considerando também o enorme degaste que era trabalhar nesta turma (para alunos e professores), o resultado foi uma aprendizagem ruim. Era consenso entre professores, equipe pedagógica, pais e os próprios alunos que o melhor era dividir a sala. Após uma reunião com os pais, fizemos um pedido à Secretaria de Educação do Estado (PR) para dividir a turma. A resposta foi negativa. Entraves burocráticos como esse na administração de uma escola não se reduz à questões pedagógicas. Os entraves se estendem à logística, à manutenção física e ao departamento pessoal. Já o grupo das melhores, são autarquias. Elas possuem autonomia administrativa, e estão livres de vários entraves burocráticos que prejudicam a escola. Até autonomia para fazer prova para seleção de alunos elas possuem. Em qualquer boa instituição pública no mundo, o grau de autonomia administrativa é muito maior que o da maioria das escolas estaduais no Brasil. Isso por uma razão simples: quem melhor sabe o que deve ser feito é quem está no dia a dia da administração. Mesmo que muitas vezes toma-se medidas equivocadas, as chances de quem está de fora errar é muito maior. O resultado está aí para todos verem. A maior parte das escolas públicas do Brasil não são autarquias e são ruins.
A autonomia pedagógica dos professores também é bem maior no grupo das melhores. Até mesmo nos colégios militares, diferente do que se pensa, a autoridade do professor (autor da aula) é respeitada. Nestas escolas, o respeito à capacidade profissional do professor e ao fato dos professores serem os autores da aula oferece muito mais condições de ensino. É o professor que mais tem contato com o aluno no tratamento do conteúdo apresentado. Assim, é ele que tem mais propriedade para apontar as dificuldades de aprendizado dos alunos e propor as medidas adequadas para garantir o aprendizado do conteúdo. Mas, atualmente, é quem está fora da sala de aula que mais dita as ações a serem tomadas. Na maioria das escolas estaduais, pais, pedagogos e direção pressionam muito em relação as ações a serem tomadas. Nos pressionam sobre a maneira como as provas devem ser feitas, sobre a quantidade de avaliações a serem feitas (há escolas que exigem até seis avaliações bimestrais) e sobre o que deve ser feito com aluno indisciplinado e agressor. Neste último caso, mais precisamente, nos pressionam a não fazer nada. Pois tomar medidas disciplinares dá trabalho. É muito importante para qualquer profissional a orientação de colegas. Mas não é isso que acontece. O que acontece é pressão mesmo. Pressão de quem não tem a capacidade devida, de quem quer evitar trabalho e de quem não vê outra coisa além de sua ideologia pedagógica - vou dar nome aos bois: a ideologia que o professor é um opressor.
Quer queira ou não, uma remuneração justa também é uma característica das boas escolas. O salário base em início de carreira no grupo das melhores, para 40h de trabalho, fica em torno de 3.400 à 5.000 reais. Nas escolas públicas estaduais, a média é de aproximadamente 2.700 reais. Essa média chega a este valor por que alguns Estados, como MT, MS e DF, pagam por volta de 3.800. Mas a maioria dos estados pagam abaixo da média. No grupo das melhores, além disso, há o reconhecimento financeiro devido de mestrado e de doutorado e também há vale-alimentação. No caso das escolas estaduais, em alguns Estados não há pagamento de vale-alimentação, como também não há reconhecimento financeiro de mestrado e de doutorado, como é o caso do Paraná, onde leciono (aqui há um mestrado reconhecido que é oferecido pelo Estado. Mas é preciso esperar uma década em média para conseguir vaga. Se fez mestrado em outro lugar, na UFPR, por exemplo, não é reconhecido). Para além da obviedade de que uma remuneração justa é importante para qualquer trabalho, chamo a atenção para o nível de profissional que ela atrai. Salário bons atraem melhores profissionais e salários ruins espantam os melhores profissionais. Há mais duas questões relacionadas ao salário que são importantes. Primeiro, o grupo das melhores concedem mais horas-atividades (tempo para preparar aulas, fazer e corrigir avaliações e etc.) que a maioria das escolas estaduais. Há estados que nem cumprem o mínimo exigido por lei, que é 33% de hora-atividade. O que significa que boa parte do trabalho é de graça. Segundo, a garantia de 40h de trabalho nas escolas estaduais é parcial. A maioria dos concursos públicos são para 20h. Isso provoca a cada ano um corre corre para conseguir aulas, e alcançar as 40h, sendo comum não conseguir.
Vale lembrar mais uma vez, que tais pontos são ignorados nas discussões e nas medidas políticas sobre o ensino básico, inclusive na atual reforma do ensino médio proposta pelo Governo Federal. No horizonte, até podem ter em contas essas ideias, mas com o interesse repugnante de entregar, depois de precarizar de vez, para as ONGs que atualmente ditam o ensino básico brasileiro e esta reforma do ensino médio (Instituto Ayrton Senna, Fundação Lemann, Fundação Itaú Social e Movimento Todos pela Educação).

Thiago Melo



Crítica Autônoma

Por que algumas pessoas insistem que uma ideia filosófica depende muito da biografia do filósofo?


Muitos professores de filosofia insistem que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos que as conceberam. No entanto, a justificação desta insistência não apresentam. Esta falta de justificativa é a primeira pista para entender a posição que tomam.
Quando não apresentamos justificativas de nossas posições, as pessoas interessadas no assunto vão procurar pontos que possam justificar as posições apresentadas. Fazemos uma retrospectiva da memória que temos da pessoa. Sua história pessoal, as relações que tivemos com ela, se for o caso, o tipo de trabalho que faz etc. Aí, se, por exemplo, a pessoa defende a liberação do uso de drogas, levamos em conta se ele é um usuário, se ela em algum outro momento conversou sobre o assunto, se ela é de esquerda etc. Enfim, procuramos razões para ela defender a ideia que defende na sua biografia. É isso que um historiador da filosofia faz quando filósofos não apresentam razões ou boas razões para as ideias que defende: ele vai procurar na biografia do filósofo. Não é por acaso, portanto, que os professores que mais insistem na importância da biografia de um filósofo são aqueles que estudam ideias filosóficas que não são bem justificadas.
Seguindo esta linha, constatamos que as pessoas que sustentam que o ensino e a análise de ideias filosóficas não podem ser feitos sem levar em conta a vida pessoal e profissional dos filósofos dão como já dado definitivamente que as ideias filosóficas são subjetivas. Isso significa que as ideias filosóficas dependem muito do sujeito que as concebem. Se alguém defende que a definição de conhecimento é X, ela defende isso devido, fortemente ou exclusivamente, a seus interesses pessoais. Assim, as ideias filosóficas, antes de ser sobre o mundo, são sobre as pessoas que as concebem. Por exemplo, Platão defendeu que a definição de conhecimento é X porque é desejo dele que a definição seja essa, não porque ela de fato é essa. Nessa situação, faz todo sentido considerar a biografia de um filósofo como indispensável para entender suas ideias.
Já com relação às ideias de outras áreas de conhecimento, pensam que são objetivas ou possuem graus de objetividade que as filosóficas não possuem. Por isso, não veem dificuldades em ensinar e analisar uma ideia da física ou da matemática independente da biografia do autor.
O problema é que não é definitiva ainda a posição de que as ideias filosóficas são subjetivas e as ideias das ciências naturais e da matemática são objetivas. Este é um problema filosófico em aberto. Muitos filósofos, inclusive eu, defendem que as ideias filosóficas são mais objetivas. Outros são céticos, ou seja, não tomam posição sobre o assunto. Enfim, a resposta para este problema ainda está sendo investigada. E não há uma resposta definitiva ainda.
No mínimo, portanto, as razões que um subjetivista filosófico tem para considerar a biografia de um filósofo são as mesmas que um objetivista ou um cético tem para não considerar. Caso o subjetivista ache que ele tem razões melhores, é preciso apresentar. Apenas expressar uma posição é expor uma mera opinião. E acho que há consenso de que o ensino de filosofia não é o ensino de meras opiniões. Pois seria a disseminação de preconceitos, de ideias sem a devida avaliação crítica.
Thiago Melo

Crítica Autônoma


Por que argumentos circulares são falaciosos?


Uma das maiores dificuldades que enfrentei em sala de aula foi a de convencer os alunos que a falácia da circularidade em argumentos é mesmo uma falácia. Por mais exemplos que você use para mostrar que tais raciocínios não funcionam, sempre ainda fica a dúvida de saber onde está o erro. Os alunos questionam: “E daí? Ainda sim é uma justificativa”. Isso acontece porque nós professores pressupomos que os alunos conseguem reconhecer diretamente que a circularidade argumentativa é um erro - por isso, nos contentamos com exemplos. Mas nem nós professores conseguimos reconhecer diretamente. Para reconhecer a circularidade argumentativa, precisamos dos conceitos de cogência e de justificação última.
A falácia da circularidade acontece quando procuramos justificar uma ideia com outra de mesma força cognitiva. Por exemplo, a proposição “Todos os acontecimentos naturais são regulares” possui a mesma força cognitiva que a proposição “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares. Veja a formulação de um argumento envolvendo estas ideias:
 Observamos que os acontecimentos naturais são regulares.
 Logo, todos acontecimentos naturais são regulares.
O que justifica a ideia “Os acontecimentos naturais são regulares” não pode ser a ideia “Observamos que os acontecimentos naturais são regulares”. Isso decorre do fato de que a observação que os acontecimentos naturais são regulares não garante que os acontecimentos são regulares. Pode acontecer de nossa observação ser falha. Podemos falhar, por exemplo, em não constatar que a regularidade vale para alguns acontecimentos naturais e não vale para outros. Nesse caso, não se segue que todos os acontecimentos naturais são regulares. Só alguns são regulares. Aí, não podemos nos convencer da verdade da ideia que usamos para justificar, isto é, da verdade da premissa. Tal fato envolve os dois conceitos já mencionados: cogência e justificação última.
Em raciocínios cogentes, pretendemos justificar a conclusão com base nas premissas. Isso significa que as premissas devem ser mais confiáveis ou mais fortes do que a conclusão, já que é a partir das premissas que procuro garantir a verdade da conclusão. Isso acontecendo, o argumento é cogente. Se a premissa não for mais confiável do que a conclusão, não conseguimos garantir por meio do argumento a verdade da conclusão. No raciocínio formulado acima, a ideia expressa na premissa possui a mesma força cognitiva da ideia expressa na conclusão. Logo, não consegue-se garantir a verdade da conclusão através da premissa. As duas ideias precisam igualmente de uma justificação para acreditar na verdade delas.
No fim das contas, a circularidade é uma falácia porque a premissa não é uma justificativa última, ainda permanece a necessidade de mais uma justificação. No exemplo que estou usando, ainda permanece a dúvida de saber o que justifica a ideia de que os acontecimentos naturais são regulares. Isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre sua função de justificar* a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa* para a conclusão, mas não há.
*Comentando sobre este texto no Facebook, Desidério Murcho me lembrou de um ponto muito importante para este assunto. É o da distinção entre justificação e justificação adequada. Como disse ele, “Uma justificação má é ainda uma justificação”. No entanto, não é uma justificação adequada. Os argumentos circulares possuem justificação mas não justificação adequada. Então, aproveito para corrigir o final do texto: isso quer dizer que a premissa nem sequer cumpre a função de justificar adequadamente a conclusão. Portanto, o argumento é falacioso. Parece haver uma justificativa adequada para a conclusão, mas não há.

Thiago Melo

Crítica Autônoma



A misoginia, as minorias e o desrespeito


O número de pessoas que vejo indignadas com o desrespeito às mulheres, aos negros e as demais chamadas minorias vem crescendo. Isso poderia ser uma grande notícia. Mas a quantidade destas mesmas pessoas que também desrespeitam está aumentando. Percebo através de jornais, redes sociais e meu convívio social. Vejo pessoas indignadas com o machismo e elas próprias não respeitam o professor, o colega de trabalho, o colega de sala, o que está em posição social diferente, aquele que pensa diferente etc. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que reafirmam seus preconceitos também aumentam. O número de pessoas que reafirmam o machismo, por exemplo, está aumentando.
A explicação para isso está no respeito seletivo. Não dá para escolher as pessoas que você quer respeitar. Muito menos, se você escolhe não respeitar alguém simplesmente por essa pessoa estar fazendo seu trabalho, como é o caso de desrespeito a professores. Isso porque quando o respeito ao próximo vira algo arbitrário, o grupo maior vai ganhar. Se existe mais machistas que feministas, os machistas vão ganhar. E não se pode depois alegar injustiça, pois o respeito foi consensualmente arbitrário. Ambos os lados aceitaram respeitar quem eles acham que deve. Aí ninguém pode determinar quem deve ser respeitado, a não ser o grupo maior ou mais forte.
Você esperneando ou não, o mundo nem sempre segue as nossas normas. Muito menos, se não conseguimos convencer a maioria. E escolhendo quem vamos respeitar, não conseguiremos. Não abra mão de respeitar o próximo. Esse caminho é mais seguro para o respeito a todos os tipos de pessoas.


Thiago Melo

Crítica Autônoma

Cortella e Karnal sobre ética



Circula há algum tempo na internet um vídeo em que Mário Sérgio Cortella fala sobre ética, e intitulam o vídeo como sendo uma definição de ética. O que ele diz é muito mais uma posição ética do que uma definição de ética. Ética (ou filosofia moral) é a investigação sobre as normas para que uma ação seja correta. Quando Cortella diz que ética é “um conjunto de princípios e valores sobre o que eu devo, posso e quero” ele já está dando uma reposta ao problema de saber o que é certo fazer. Pois ele admite que há princípios (existe filósofos que discordam) e admite que é o equilíbrio entre as normas, a liberdade e a vontade. Isso vai além da mera definição da área de conhecimento.
Recentemente, Leandro Karnal disse que ética é respeitar a todos, não só quem tem poder. Isso também já é uma resposta ao problema. Há teorias éticas que não aceitam isso.
O trabalho filosófico em ética consiste também em fazer o que Cortella e Karnal estão tentando fazer. Mas é importante ter essas considerações que fiz em mente porque a ética é uma área em aberto, não tendo ainda uma resposta definitiva sobre seu problema principal: o que é uma ação correta?


Thiago Melo

Crítica Autônoma

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A censura aos professores da educação básica



Há um mantra no debate educacional do Brasil de que toda a sociedade deve participar dessa discussão. Clamam por todo tipo de opinião para superarmos os problemas da educação. Vou defender neste texto que esse tipo de ideia é o grande obstáculo para as soluções necessárias, pois acaba por eliminar do debate o principal ator: o professor da educação básica.

A variedade de instituições, órgãos e profissionais que participam do debate para a melhoria da educação brasileira é única no mundo. Participam o Banco Mundial, Unicef, ONGs, empresas, empreendedores, pastores, padres, socialites, banqueiros, professores universitários etc. Muita gente querendo dar seu pitaco. É neste “grande debate” que o professor secundarista perde a vez, já que ele é muito desvalorizado por toda a sociedade, não só pelos políticos. Essa desvalorização pode ser vista na ausência dos professores secundaristas na mídia. Peço ao leitor para tentar lembrar ou pesquisar algum colunista de jornal ou revista de grande circulação que seja professor de escola pública. Eu não conheço. Alguém lembra se algum professor da educação básica já ocupou o centro do programa Roda Viva, da TV Cultura? Nunca vi sequer participarem da bancada. Em reportagens sobre educação, dificilmente um professor da educação básica é ouvido para dar opinião e apresentar propostas. Na imensa maioria das vezes, só é ouvido para relatar violências e coisas do tipo. A apresentação de propostas só é concedida para membros de ONGs, celebridades, professores universitários, políticos, psicólogos e os ditos especialistas.

O resultado dessa espécie de censura é o desconhecimento das demandas necessárias para resolver os problemas da educação básica. Isso porque quem dita as ações educacionais não sabe nada ou quase nada do que acontece na escola e em suas salas de aula. Desconhecem, por exemplo, que a escola pública brasileira é administrada para diminuir ao máximo o trabalho de pedagogos, diretores e funcionários de secretarias de educação. E a melhor maneira de se fazer isso é jogar todas as responsabilidades para o professor. Se o aluno tira nota ruim, é mais fácil culpar o professor do que conversar com o aluno e seus pais. Imagine se os pedagogos tivessem de conversar com mais de 50% dos alunos e pais sobre notas ruins. Haja reuniões! É bem mais fácil o professor dar provas mais fáceis. Se o aluno comete indisciplinas em sala de aula, é mais fácil pressionar o professor para suportar o comportamento do aluno do que tentar discipliná-lo. Pois o diretor vai ter de marcar reunião com os pais do aluno, que podem ser muito desrespeitosos. Isso dá trabalho. Como dá trabalho também suspender alunos com indisciplinas graves. Dizem que a secretaria pode “pegar no pé”. Em todas essas situações, o ensino é deixado de lado para dar lugar a outros interesses. Aí, podem contratar os melhores professores do mundo que não darão jeito. Podem comprar tablets, diminuir as disciplinas, implantar métodos de ensino revolucionários que não vai adiantar.

É preciso que o professor secundarista seja o condutor maior da educação básica brasileira. O autor da aula é o professor. Ele é o quem mais tem contato com o aluno no tratamento do conteúdo apresentado. Assim, é ele que tem mais propriedade para apontar as dificuldades de aprendizado dos alunos e propor as medidas adequadas para garantir o aprendizado do conteúdo. Mas o que se vê são outros profissionais e cidadãos ditando as ações educacionais. E, na maior parte das vezes, falam sobre o que não sabem (conteúdo) e sobre o que não veem (atividades dos alunos).

Antes de mais nada, é preciso permitir que o professor exija que o estudante estude. Se o professor não pode cobrar leitura, exercícios e disciplina, não consegue expor conteúdos e orientar os alunos. Nessa situação, o professor não exerce sua função e o estudante não exerce a dele. Vejam que nem sua função básica a educação brasileira consegue executar. A sociedade quer colocar banco de couro em carro sem chassi. E termina por conseguir duas coisas: permitir todo tipo de maus-tratos para com o professor dentro da escola, com professores sendo sistematicamente desrespeitados e agredidos verbalmente pelos alunos, como também cotidianamente assediados moralmente por pedagogos e diretores; e deformar o intelecto e a moral dos alunos. Os alunos saem da escola analfabetos funcionais e marginais das regras e leis da sociedade.

 THIAGO MELO, professor de Filosofia da rede estadual de ensino  [28/01/2015] [22h07]

Gazeta do Povo 15 de Agosto de 2017


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

De maneira geral, homens héteros têm poucas amigas héteros solteiras. Isso tem razões históricas devido ao tratamento inferior e desrespeitoso que os homens prestavam e prestam às mulheres. Entre outras coisas, isso causou o seguinte comportamento nas mulheres héteros: você impressiona ou é pretendido para casamento, ou você não serve pra nenhum outro tipo de relação mais íntima. Já os "príncipes" têm mais amigas que os demais. Comparado com que fizemos e fazemos com as mulheres, isso não é nada. É quase um "bem feito!" para boa parte dos homens. Mas superar tal comportamento é mais um auxílio em direção a igualdade de gênero.

Thiago Melo 

sábado, 24 de dezembro de 2016

Quando os bares de rua de Curitiba entram em recesso é porque o ano realmente acabou. Aqui vai minha avaliação de 2016. Foi um ano excelente para o país. Finalmente as pessoas começaram a discutir ideias, já que a situação obrigou muitos a saírem de sua comodidade para não ficarem numa situação ainda pior. É com a discussão de ideias que colocamos nossas posições à prova. Pois coletivamente temos mais chances de perceber as falsidades e os erros. Não custa lembrar que foi com a discussão de ideias que a civilização e a ciência se desenvolveram com força.
A tão sonhada revolução nacional começou. E revoluções não acontecem de maneira tranquila e sem problemas. Elas exigem ainda mais atenção para não tomarmos caminhos errados, como o caminho da supressão dos direitos humanos e da democracia.

Thiago Melo

terça-feira, 15 de novembro de 2016



A exclusão dos professores do ensino básico em QUASE TODAS as políticas educacionais é uma situação semelhante a de que negros e mulheres passaram quando não foram levados em conta nas Constituições nacionais.

Thiago Melo

O que as pessoas desconhecem é que as manifestações políticas escolares no Brasil, em última instância, não são por meras melhorias. As manifestações são causadas por um estado degradante de trabalho e estudo diante de um completo desprezo da sociedade pelo trabalho escolar. É um erro pensar que toda esta situação precária da escola pública não atinge à queima-roupa as pessoas que lá frequentam. É como pensar que um presídio dominado pelo crime só tem o problema de não reabilitar os presidiários, ignorando todos os outros aspectos da vida que qualquer pessoa nestas condições passa, inclusive as pessoas que lá trabalham (ameaça de morte etc.).
ficavam ali enchendo o saco de quem passava pela frente da Praça? O que está acontecendo com o Juiz da Camisa Preta, o Procurador do Power Point e o Boca de Peixe? Quem souber me diga.


Thiago Melo

sábado, 18 de junho de 2016

Tenho um aluno surdo que, quando conversava com ele, parecia que ele estava conversando com outra pessoa, não comigo. Ontem descobri a causa. A intérprete traduzia os conceitos que eu estava apresentando à revelia das definições delimitadas por mim. Por exemplo, ela traduzia premissa (proposição que usamos para justificar a conclusão) por "ocorrido". Isso é um disparate sem igual! Ela justificou a tradução dizendo que era assim que ele entendia, como se meu trabalho de professor consistisse em apenas dar outros nomes para as coisas. Meu trabalho é apresentar novas ideias aos alunos para eles se desfazerem por conta própria os preconceitos que adquirimos ao longo da vida, e, assim, usarem suas ideias com mais precisão e coerência. Negar isso a um aluno com deficiência é uma discriminação grave.

Thiago Melo

segunda-feira, 28 de março de 2016

“Não pretendo te convencer”

Quando argumentamos sobre algo e dizemos que não pretendemos convencer, isso pode significar que estamos conversando fiado. Explicamos ou fundamentamos uma ideia (argumentar) para convencer alguém ou a nós mesmos. Se argumentamos apenas para nós mesmos, devemos fazer isso realmente, e não incomodar os outros. Mas muitas vezes as pessoas dizem que não pretendem convencer sinalizando humildade, querendo dizer que elas próprias não acham seus argumentos fortes. Isso é diferente de dizer que não procurou convencer. É dizer que achas que não conseguiu ou conseguirá convencer.


jan. 28th, 2016

crítica autônoma

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Os problemas da filosofia

Kant considera que o objecto físico, a que chama a ‘coisa em si’, é essencialmente incognoscível; o que pode ser conhecido é o objeto tal como o temos na experiência, a que Kant chama  de “fenômeno”. O fenômeno, sendo um produto de nós e da coisa em si, tem garantidamente aquelas características que se devem a nós, e consequentemente conforma-se garantidamente ao nosso conhecimento a priori. Por isso, não se pode supor que este conhecimento, apesar de se aplicar a toda experiência efectiva e possível, se aplica fora da experiência. Assim, apesar da existência de conhecimento a priori, nada podemos saber sobre a coisa em si ou sobre o que não é objecto da experiência efectiva ou possível. Deste modo, Kant tenta reconciliar e harmonizar as alegações dos racionalistas com os argumentos dos empiristas”.

Bertrand Russel. Os problemas da filosofia. Tradução de Desidério Murcho. Edições 70. 2008, p. 145-146.


Fonte : Melo, Thiago. In Crítica  Autônoma

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Dia da Hipocrisia


Dia 15 de outubro é o famoso dia dos professores. Um dia que é mais comemorado pelos alunos e professores por não ser um dia de trabalho na escola do que por qualquer outra coisa. Um dia que serve mais para a sociedade mandar mensagens de apoio aos professores do que realmente valorizar a profissão. Isso significa que o dia dos professores é mais uma valorização da boca pra fora do que uma valorização efetiva. Pois é mais fácil criar um dia dos professores do que dar estrutura adequada para uma escola, assim como é mais fácil mandar uma mensagem de apoio por ano do que prestar atenção na aula do professor ou realizar as atividades propostas por ele. Daí que o dia 15 de outubro é também o dia da hipocrisia.
Mas qual é causa desta hipocrisia? No Brasil, o professor não é valorizado porque a busca pelo conhecimento não é valorizada. De modo geral, a busca de conhecimento é a busca pelo domínio de conceitos e técnicas mais eficazes para resolver os problemas que nos aparecem, seja eles de ordem conceitual ou de ordem prática. Por exemplo, a busca pelo conhecimento serve: para decidir se a liberdade é mais importante que a igualdade dentro de uma sociedade; para saber se determinada espécie animal pode ser considera em processo de extinção, para decidir se a soja transgênica é mais rentável que a soja orgânica, para decidir se o tempo de um semáforo deve ser maior para pedestres do que para carros e bicicletas, etc. Pode ser entre amigos, pode ser na Assembléia Legislativa ou numa empresa, a busca pelo conhecimento é vista como algo desnecessário e aborrecedor. Assim, sempre que precisamos fazer escolhas, o conhecimento é sempre considerado algo secundário.
Numa roda de conversa entre amigos ou entre colegas de trabalho, muitas vezes em que a conversa tende a ser mais sofisticada e razoável, insatisfações são manifestadas. Isso porque a busca pelo conhecimento é inseparável da critica e controvérsia, de modo que a conversa ou o debate é mais trabalhoso e difícil. Mas a insatisfação não ocorre apenas pela dificuldade, mas também porque é considerada inútil. É comum dizer que tais conversas não “levam à nada”.
Nos gabinetes, câmaras e assembleias políticas, quase todas ações em prol do ensino são condicionadas à falta de urgências em prol de outras áreas. Por exemplo,  só constrói mais salas de aula ou contrata mais professores se não tiver urgências para a Secretaria de Meio Ambiente ou de Minas e Energia. Entre reformar uma escola e doar dinheiro para uma ONG que apoia um político ou governo é óbvio que a ONG tem preferência. Entre manter um ministro competente para o cargo e colocar um companheiro de luta política, a segunda opção é a eleita.
Até mesmo nas escolas a busca pelo conhecimento não é prioridade. Entre escolher se o notebook da escola vai ser usado em sala de aula para os professores utilizarem o data show ou se vai ser usado pela direção, a escolha sempre é para o uso da direção. Este ano em muitas escolas estaduais do Paraná, para citar outro exemplo, a comunidade escolar (inclusive professores) escolheu implantar a sexta aula para readequar o calendário após o período de greve. A justificativa foi as matrículas universitárias dos alunos de terceiro ano e a manutenção das férias, não foi a qualidade do ensino. Se as escolas estaduais não têm condições de ter cinco aulas, devido as péssimas condições de trabalho, tem menos condição ainda de ter seis aulas.
Estes casos mostram também que nós professores e comunidade escolar como um todo não fazemos escolhas melhores que as dos políticos. Muitas vezes é difícil julgar qual caminho tomar, e, no calor das circunstâncias, tendemos a tomar o caminho mais fácil. É assim que subvertemos prioridades. Nem todas as ações dos políticos brasileiros são resultado de má fé. Devido às circunstâncias, como pessoas falíveis e com necessidades particulares, os políticos acabam optando por ações que marginalizam a busca pelo conhecimento, assim como nós também marginalizamos a busca pelo conhecimento.
Ora, se a busca pelo conhecimento não é valorizada, o profissional desta atividade também não será valorizado. Se hoje é inútil utilizar uma máquina de escrever, também é inútil a necessidade de datilógrafos. A questão é que o mundo inteiro valoriza a busca pelo conhecimento, tendo a necessidade de valorizar os profissionais desta área. Mais que um folclore ou devoção religiosa, a valorização dos professores é uma necessidade social. Por isso, não basta tratar o dia do professor como se trata do dia do Papai Noel ou se trata do dia de uma entidade divina. Mais que admirações, devoções e preservação de costume, a profissão docente precisa ter suas funções e seus objetivos respeitados. Quem está disposto a respeitar?

Thiago Melo

Liberalismo, igualitarismo, direita, esquerda, individualismo…



A confusão sobre as perspectivas políticas nunca foi tão grande. É natural que isso ocorra, pois tem surgido na história cada vez mais posições ou matizes de posições já existentes. Tentarei fazer um breve quadro destas posições.

A direita é a perspectiva política que acredita que a natureza humana é ruim. Por essa razão, são conservadores. Dado a nossa natureza, não devemos nos aventurar em novas práticas e valores e devemos tomar os devidos cuidados para evitar que a sociedade vire uma guerra de todos contra todos.

A esquerda é a perspectiva política que acredita que a natureza humana é boa. Em vista disso, são progressistas. Dado a nossa natureza, podemos aceitar novas práticas e valores sem prejuízo para o desenvolvimento da sociedade.

Liberalismo é a perspectiva política que acredita que o valor fundamental de uma sociedade é a liberdade individual. Essa é a liberdade onde se permite a cada pessoa decidir sobre aquilo que diz respeito somente a ela.

Igualitarismo é a perspectiva política que acredita que o valor fundamental de uma sociedade é a igualdade em bens sociais. Essa igualdade é a oportunidade aos bens próprios de uma sociedade (aqueles que só existem dentro e por causa de uma sociedade) para todas as pessoas.
Individualismo é a perspectiva política que defende que os direitos pessoais estão acima dos direitos comuns, como, por exemplo, o direito de não estudar está acima do direito de estudar.
Comunitarismo é a perspectiva política que defende que as práticas e ideais comuns estão acima dos direitos pessoais. Neste caso, os direito à educação pode se encaixar como ideal comum.

Há ainda outras posições, mas estas são hoje as centrais. É importante notar também que as posições citadas não são únicas, ou seja, não há apenas uma concepção de direita ou uma só igualitarista. Há graduação nestas posições, podendo, por exemplo, ser de esquerda mais radical (comunista, que é diferente de comunitarista) ou mais central (socialista). Além do mais, uma vez que não são incompatíveis, pode-se ser um liberalista de esquerda ou um igualitarista de direita; um liberalista de direita individualista ou um liberalista de esquerda comunitarista. O que se deve evitar são inconsistências. Por exemplo, dizer que é um liberalista e não aceitar o aborto sobre qualquer circunstância. Pois estaria violando o princípio liberal.

Referências:

Filosofia moral e política. Paul Smith. Madras.
Filosofia. (Org.) Pedro Galvão. Edições 70.
Introdução à filosofia política. Jonathan Wolf. Gradiva.
Janelas para a filosofia. Desidério Murcho e Aires Almeida. Gradiva.

Justiça. Michael Sandel. Civilização Brasileira.

Thiago Melo

Critica Lógica