terça-feira, 9 de abril de 2019

GRITO MUDO...





Passo... deixo-te a vez.
Quem sabe teu grito
consiga, modo infinito,
ecoar pelas paredes dos quartos
das casas e das coisas entrincheiradas
em nossos próprios interiores?

A felicidade talvez seja mais vibrante
no exato instante,
em que o nosso senso pensa, modo intenso,
que ela não existe.
E aí o que persiste?
Simplesmente aquela vontade
de mirar as flores multicores,
dos jardins fadados a desaparecer.

Um grito mudo...
uma solidão pernóstica
dando vazão a uma ilógica
vontade de fazer-ser não perceber.

Um grito mudo
que representa o tudo
do imenso nada,
onde a grande maioria
- no que se faz abrumado dia -
sonha, chora e vive...

Josemir Tadeu Souza    

 13 de setembro de 2011 09:41



VIESTE




Vieste qual trovão em noite escura
Iluminando a senda em alto brado
Aonde havia o medo emoldurado
Cenário que deveras nos tortura

Chegaste num rompante e da loucura
Do amor se fez um tempo anunciado
Em glória e pesadelo gozo e enfado
Doçura se inundando em amargura.

Assim ao te sentir tão inconstante
O sonho se desfez no mesmo instante
Em que se torna viva esta saudade

E sendo-te fiel, porém nem tanto
Agora em meio à luz e ao desencanto
Diverso sentimento já me invade.
Marcos Loures

XAMÃ




Meu corpo indizível acordou mais cedo hoje,
querendo fazer o caminho das rosas
apesar de tocar os espinhos....
... Lancei meu olhar à terra em transe
onde jaz matança,extinçao,sêca ...
Amanheci procurando na solidão sem mágoa,
e atraves de minha limitada visão ,
algo que me unisse de volta à origem de tudo....
Aquele que enxerga no escuro
voando em espaçonaves imaginárias
para universos internos,sem mêdo,
aquele que me enfeiçou com seu sonho,
foi ele quem me abriu a porta para a comunicação.
Agora vagueio por bosques internos entregando-me ao ofício
de conhecer outros mundos e ancestrais deleites...
Meus rituais não sao os da pagelança,nem de passagens:
sou aprendiz das trevas e da luz,da troca de palavras e miragens...
Ando buscando contato com os minerais,animais,vegetais
e,apesar de duvidarem da minha sanidade,quero mais!
Procurando unguentos benfazejos que saem de meus porões
e buscam vida numa frágil folha de papel,
virei tambem especialista do invisível.
E,partindo do pressuposto de que na vida nada nos é dado
tudo é aprendido,
busquei no longiquo país do imaginário
nas mandalas de luz
nas rodas de fogo
nos rituais de iniciação
na tristeza e na dor
na paixão,alegria e na contemplação
o elo que me devolverá à natureza.
Suspeito que jamais serei uma xamã,
mas parece que virei poeta...

MARCIA TIGANI_


SETEMBRO 2011


DOR




O olhar marcado
Sobrevoava o horizonte
Abria-se fissuras
De sangue
No coração.
Espinhos atravessavam-se
No peito
Tensão...
O brilho radiante
Do sol já não mais
O invadia
A tristeza, insistia.
Ela, logo ela,
Que via a vida
Com paixão
Descontrolou-se
Emudeceu.
E, num suspiro profundo,
Um sussurro a implorar de coração:
- Cante-me, cante-me
Mais uma vez...
Somente uma vez...
Nossa última canção.

Nara Freitas



Todo poeta é um ser itinerante, ele paira sobre vários estilos, vários galhos, atravessa rios, mares, pontes..seja lá o que for..sempre se encaixa...dá um jeito e se submete...à escrita é claro..a escrita poetizada, poetizante, refinada e claro..BELA! 


Giselle Serejo.

4 de setembro de 2011 12:56

OS SINOS




QUEM
NÃO
TEM
BENS

BEM
NÃO
TEM
NÃO

TEM
NÃO
TEM

NÃO
TEM
NÃO

Waldo Motta   


 27 de agosto de 2011 21:01

CANÇÃO DO MIGRANTE



Tenho saudades da terra onde nasci
Dos seus rios , vales e montanhas
Da minha casa e do meu povo
Do cheiro do cacau e das pedras preciosas

Por terras estranhas estou a vagar
Aqui encontrei meu amor, sofro minhas dores
São quase quatro décadas longe de ti
Guardo na memória cada lembrança do passado

O quê seria de mim, sem suas raízes
O quê será de mim, com tantas saudades
O quê será de ti minha amada Macarani
Sem o retorno de seu filho pródigo

(Manoel Hélio)

DESOBJETO OU A ANTIMATÉRIA





No meio do quintal acima do varal tinha um belo pente,
O pente no quintal se esforçava para não ser belo pehte.
Estava próximo de ser apenas folha dentada for formigas.
Junto com caramujos, todos oa sapos e as suas queridas.
Bactérias e o tempo roeram sua vísceras e esse estrupício.
Mas quem pode afirmar que o pente é um organismo vivo?

Faltrava ao pente coluna vertebral, costelas e uma medula.
Não se poderia dizer que o objeto era um pente ou medusa.
Grampos deram local a cachos de cores meio vede musgo.
Cães e moribundos aproveitavam e mijavam no lusco fusco.
Parecia que o pente perdera sua personalidade e desobjeto.
Nem as carolas sentiam falta de um calafrio, tesão ou afeto.

O poeta destro deparou com a cena e viu o estágio terminal.
O pente nem se quisesse poderia passar como objeto tal.
Já estava incorporado ao universo como partícula, átomo.
Ou então dizem os poetas rio, osso, montanhas, ou lagarto.


Eduardo Ribeiro Toledo             

 20 de agosto de 2011 16:20

Tábula





Falo,
minha arte
comunica

Não quero preencher teus olhos
com místicas magas
mitológicas sereias
belas fadas

Nem quero
formular ritos
de um mosto mortal

Dito o escrito
em lama de vulcão
magma sonoro
terra candente
tal o turbilhão de águas primordiais
que anteviu a geração de tudo pela palavra

Venho romper teus tímpanos
vazar teu solo
encontrar o irrequieto centro
de teu desejo
convocar-te à paz nenhuma

Esta lábia
pronuncitada
baboseiras não baba

Pousa bálsamo versado
de um doce nardo

É verbo retado
transgressor de meus acomodados:
– ah! isso não tem jeito,
é sempre assim mesmo!

Eis meu dote
que dôo com graça

Sou nomeado favo monteiro
rico protetor e guerreiro
noviluminário do oeste

E antes que torne a mim:

– Aleijado, até aqui, não rasteje!

Fabio Freire       

20 de agosto de 2011 13:57

sábado, 6 de abril de 2019


O exorcismo e descarrego final do autoritarismo 1964 virão do retumbante fracasso total do desgoverno bolsonarista. O aumento do desemprego, a desestruturação social do poder aquisitivo, o desmonte da saúde, a deforma da previdência, o descontrole da deseducação no MEC, o descarte da cultura, o desmoronamento da justiça com o juiz politiqueiro, o descrédito dos torturadores, a destruição dos direitos humanos dos excluídos e periféricos, a desnacionalização e privatização entreguista, todas essas desesperadas medidas promovem a desmoralização e deserção dos seus apoiadores no PSL, nas forças armadas, no sistema judicial, na grande mídia, no empresariado, na classe média troglodita, nos pastores de extrema-direita, nas hordas bolsonazistas. Todo apoio anterior se desmancha com incrível rapidez depois de 100 dias de um desgoverno horroroso, desestruturador, decrépito e sem destino. Bolsonaro será o ato final, o epílogo da desconstrução, derrota e decepção definitiva da ditadura de 1964. A extrema-direita será desprezada, descontada e descartada depois disso tudo.

Rco


Em uma sociedade moderna a ciência e a universidade possuem importante papel social ao fazerem a triagem entre verdade e mentira. No campo das ciências sociais e das humanidades as críticas das definições, formas e conteúdos são igualmente decisivos. 31 de março de 1964 foi golpe de uma parte reacionária da sociedade contra a democracia. O nazismo é de direita e sempre foi. Temer foi um dos chefes do golpe de 2016 contra a presidenta eleita Dilma e foi preso porque é culpado. Aécio Neves nunca foi preso porque apresenta capitais sociais e políticos familiares elitizados, já Lula se tornou um preso político e sem nenhuma evidência documental de crime comprovada porque é o chefe da oposição popular ao mesmo golpe. O sistema judicial e policial, o sistema socialmente real e existente no Brasil, é derivado das antigas Ordenações Filipinas, baseado em diferenças significativas entre "nobres", "peões" e "escravizados", "raça, cor e gênero", de modo que podemos entender como um helicóptero com quase meia tonelada de cocaína terá um tratamento diferenciado do jovem, negro, trabalhador de baixa renda e baixa escolaridade, morador de favelas da periferia. O papel da universidade e das ciências sociais, o papel das suas plurais comunidades científicas, é o debate sobre a verdade social e política, um intenso campo de lutas sociais e políticas. Quem reconhece a verdade e denuncia a mentira sobre a existência de golpes, de nazismos de esquerda, de terra plana, os antievolucionistas, as modernas fake news, velhas ideologias de extrema-direita, é a triagem e autoridade crítica da universidade. Não é o político, o militar, o religioso, o jurista, o jornalista, o astrólogo, o senso comum, quem definirá a verdade científica das teses, mas as bancas de professores doutores, profissionais de décadas de estudos, leituras, debates e ciência. Daí entendemos as rasas tentativas de ataques da direita ideológica anticientífica contra a universidade, contra os seus currículos, contra seus professores e cientistas, por parte de tipos analfabetos, sem diplomas, sem certificação de qualidade universitária, sem doutorado e sem critérios de excelência acadêmica, critérios para enfrentarem o duro combate cotidiano pela construção dialética, em constante mudança e transformação, das verdades sociais e políticas em metamorfose...

Ricardo Costa de Oliveira

A Mulher Monstro


A peça teatral mais discutida no Festival de Teatro de Curitiba desse ano é "A Mulher Monstro". A peça foi vetada pela Prefeitura de Curitiba e será apresentada em livre espaço público, nas Ruínas de São Francisco, de 4 a 7 de abril, 19 horas. Não existe fascismo e autoritarismo sem a conversão de mulheres "normais" em bestas fascistas. Todos nós conhecemos mulheres com limitada cultura e educação, que se metamorfosearam em "mulheres monstros". "Conges" de muitas falsas autoridades golpistas por aí, eram advogadas, gerentes de marketing, pastoras, policiais, pensionistas das forças armadas, pequenas lojistas, empresárias do agronegócio latifundiário, médicas, socialites, a lista é longa e extensa na deformação de um pensamento se trogloditizando, espumando ódio irracional na luta de classes, espelhos de confusões mentais e ideológicas na defesa ensandecida de seus pretensos privilégios e vantagens sociais. Falsa religiosidade cristã, intolerância, hipocrisia e peçonha. Como todo o resto do conjunto do bolsonarismo não é prova de força social, moral, de hegemonia cultural e política, mas prova de desespero e falência existencial porque sabem que o seu velho mundo de falcatruas e enganações pode desmoronar. Vale a pena.

Ricardo Costa de Oliveira

As ciências sociais têm sim o poder de análise e previsibilidade


As ciências sociais têm sim o poder de análise e previsibilidade, como qualquer ciência ! Escrevi o livro "Na Teia do Nepotismo" em 2012. Notícia de hoje comprovando o que escrevemos há anos - "A teia de parentes e amigos enredados na Quadro Negro. Quando se lê com atenção a lista de réus e demais implicados na Operação Quadro Negro e nas outras conduzidas pelo Ministério Público Federal e pelo Gaeco descobre-se a existência de variados graus de proximidade entre eles. Do exame, surge uma intrincada teia de sócios, amigos, parentes e subordinados que agem de maneira coordenada, cada um cumprindo papeis específicos com maior ou menor importância...Veja-se a lista dos já declarados réus da Quadro Negro: Beto Richa, Fernanda Richa, Luiz Abi Antoun, Ezequias Moreira, Jorge Atherino, Rafael Wawryniuk, João Gilberto Cominese Freire, Eduardo Lopes de Souza e Maurício Fanini. Quase todos eles são réus duas vezes na mesma ação penal, acusados ora por por corrupção e lavagem de dinheiro, ora por organização criminosa e obstrução de justiça"
Ricardo Costa de Oliveira

tchutchuca


Para quem acompanha os debates na CCJ da Câmara há vários anos ficou a impressão da covardia e principalmente ausência da bancada governista, se é que existe, depois das inquirições. O espetáculo dos ministros do Bozo "apanhando" no Congresso é o que há de mais constrangedor e oposicionista. O confisco das aposentadorias está para o governo Bolsonaro o que o confisco das poupanças esteve para o governo Collor, uma ameaça de pá de cal precoce. Querendo ou não querendo, concordando ou não com o termo tchutchuca, Zeca Dirceu passou a ser nacionalmente conhecido e consagrado como o deputado lacrador que detonou Guedes, uma técnica antes utilizada pela direita para um mundo de redes sociais, twitters e zaps, agora usada inversamente. As referências e citações ao nome de Zeca Dirceu bombaram ontem e o hipocorístico "pegou" e "colou" na sofrível imagem de Guedes. Qualquer criança do antigo pré-primário sabia que uma reação intempestiva só beneficiará e ampliará o efeito do apelido.

Ricardo Costa de Oliveira

A virada na avaliação negativa de Bolsonaro


Podemos verificar a virada na avaliação negativa de Bolsonaro pelas pesquisas de opinião e também pelo sentimento das conversas nas ruas. Quando as pessoas simples começam a criticá-lo nos supermercados, estacionamentos, postos de combustíveis, locais públicos, é sinal que finalmente a onda de direita está em acelerado refluxo na direção contrária. O termômetro do cotidiano nas ruas. Uma das melhores definições foi a de um senhor que conheço e cumprimento há muitos anos. Nas eleições era um bolsonarista convicto alegando que tínhamos que colocá-lo lá porque os outros não resolveriam. Agora reclamou do roubo das aposentadorias e lembrou uma coisa que nós mal lembrávamos. O que decretou a falência mesmo da ditadura militar no governo Figueiredo foi a alta do preço do feijão, justamente o que acontece agora com a subida dos preços do feijão, 20% de aumento, ao lado da contínua subida dos combustíveis e a sensação do Bozo como um déjà vu, definitivamente instalado na imensa rejeição de um Figueiredo, Sarney, Collor, FHC nos finais de mandatos. Agora está gostoso criticar e falar mal do desgoverno bolsonaresco, torna-se uma conversa popular, um tema em que quase todos concordam e socializam na falta de outros assuntos. Que mudança da tensão eleitoral quando se iludiam com a farsa bolsonarista e estavam cegos e mesmo agressivos. Agora é seguro começar uma conversa com pessoas que não tenhamos intimidade malhando o desgoverno e sua penca de péssimos ministros, o papelão de um Moro fracassado, um Guedes, o colombiano do cai não cai, e rola mais apoio e concordância ao criticarmos os ilegítimos na presidência, do que ao falarmos do clima ou do último resultado esportivo ! Falar mal dos Bozos virou tema reconhecido por todos, assunto corriqueiro, banal e quase consensual.

Ricardo Costa de Oliveira

Ler um romance





Acompanhamos essas histórias como se observássemos uma paisagem e, transformando-a em pintura com os olhos da mente, deixamos que ela nos influencie

Um romance é uma segunda vida. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam cores e complexidades de nossa vida e são cheios de pessoas, rostos e objetos que julgamos reconhecer. Assim como no sonho, quando lemos um romance, às vezes ficamos tão impressionados com a natureza extraordinária das coisas que nele encontramos que esquecemos onde estamos e nos vemos no meio dos acontecimentos e das pessoas imaginárias que contemplamos. Em tais ocasiões, achamos o mundo fictício que descobrimose apreciamos mais real que o mundo real. O fato de essa segunda vida nos parecer mais real que a realidade muitas vezes indica que substituímos a realidade pelo romance. Ou no mínimo o confundimos com a vida real. Mas nunca lamentamos essa ilusão, essa ingenuidade. Ao contrário, assim como em alguns sonhos, queremos que o romance que estamos lendo prossiga e esperamos que essa segunda vida continue evocando em nós uma sensação consistente de realidade e autenticidade. Apesar do que sabemos sobre a ficção, ficamos irritados e aborrecidos se um romance deixa de sustentar a ilusão de que é, na verdade, a vida real.

Sonhamos supondo que o sonho é real; essa é a definição de sonho. Do mesmo modo, lemos um romance supondo que ele é real – mas no fundo sabemos muito bem que não é assim. Esse paradoxo se deve à natureza do romance. Comecemos por enfatizar que a arte do romance conta com nossa capacidade de acreditar ao mesmo tempo em estados contraditórios.

Leio romances há quarenta anos. Sei que podemos adotar muitas posturas em relação ao romance, que existem muitas maneiras de engajar alma e mente nele, tratando-o com leviandade ou seriamente. Da mesma forma, aprendi pela experiência que há muitos modos de ler um romance. Às vezes, lemos logicamente; às vezes, com os olhos; às vezes, com a imaginação; às vezes, com uma pequena parte do cérebro; às vezes, como queremos; às vezes, como o livro quer; e, às vezes, com todas as fibras de nosso ser. Houve uma época, em minha juventude, na qual me dediquei por completo aos romances, lendo-os com atenção – até com êxtase. Naquele tempo, dos 18 aos 30 anos (1970 a1982), eu queria descrever o que me passava pela cabeça e pela alma da mesma forma como um pintor retrata com precisão e clareza uma paisagem vívida, complexa, animada, cheia de montanhas, planícies, rochedos, bosques e rios.

O que ocorre em nossa cabeça, e em nossa alma, quando lemos um romance? Em que essas sensações interiores diferem do que sentimos quando vemos um filme, contemplamos um quadro ou escutamos um poema, mesmo um poema épico? De quando em quando, um romance pode proporcionar os mesmos prazeres que uma biografia, um filme, um poema, um quadro ou um conto de fadas. No entanto, o efeito singular e verdadeiro dessa arte é fundamentalmente diferente do de outros gêneros literários, do filme e do quadro. E talvez eu possa começar a mostrar essa diferença falando sobre as coisas que eu fazia e as complexas imagens que surgiam dentro de mim quando eu lia romances apaixonadamente em minha juventude.


 *O texto abaixo, escrito por Orhan Pamuk, foi publicado na edição número 62 da revista Piauí.
Saiba mais


Me destierro



[Poema - Texto completo.]

Miguel de Unamuno

Me destierro a la memoria,
voy a vivir del recuerdo.
Buscadme, si me os pierdo,
en el yermo de la historia,

que es enfermedad la vida
y muero viviendo enfermo.
Me voy, pues, me voy al yermo
donde la muerte me olvida.

Y os llevo conmigo, hermanos,
para poblar mi desierto.
Cuando me creáis más muerto
retemblaré en vuestras manos.

Aquí os dejo mi alma-libro,
hombre-mundo verdadero.
Cuando vibres todo entero,
soy yo, lector, que en ti vibro.

Biblioteca Digital Ciudad Seva


De Caio Fernando Abreu à escritora Hilda Hilst:




29/12/1970

Hildinha,

a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco.

Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu "Inventário". Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre "Lázaro". Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for.

Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.

Fico por aqui, já é muito tarde.

Um grande beijo do teu

Caio.

CONTINUITY GIRL



 (Dominique Fourcade / trad. Paula Glenadel)

verificar bem se de uma tomada à outra eu uso as mesmas meias, a mesma pochette com jeito de coisa fina combinando não sei com quê. ela é intratável. hoje cedo estava furiosa porque eu não estava com a mesma voz. ao mesmo tempo a escrita é uma profissão em que a gente deve se apresentar irreconhecível. e realmente não sei como me virar.

Portugal ao contrário




Como se pode começar
Aquilo que já acabou
Como se pode acabar
Aquilo que não começou
Triste fado o fado nosso
O fado de um povo triste
Que nem a rezar pai-nosso
Evita este alegre despiste
O de ser ex-povo poeta
Porque virou nobre pateta

Ó meu Portugal
Que me dás o dia inteiro
A possibilidade de funeral
E todos os dias de nevoeiro
De afonsos sem qualquer dom
Sem segundos nem penúltimos
Porque agora sobes o tom
De sermos os primeiros dos últimos
Como cantar então a tua glória
Se só na derrota cantas vitória

Deste destino não me livro
De tanto bruxedo e feitiçaria
Narro-te em trovas de um livro
Porque é negra a tua magia
Desfeito dos teus feitos heróicos
Que te dilataram a fé e o império
Agora um punhado de paranóicos
Armados em heróis a sério
Cambada de panascos importantes
Que além do mais são praticantes

Já não acredito em querer
Que um dia vá acreditar
Na fé desse grande crer
Que me possas salvar
E me faças outra vez de novo
Filho de gente que sente
Gente de gente, gente do povo
Do povo de nação valente
E agora vai pior que mal
Numa estupidez imortal

Onde raio estão nossos irmãos
Para onde fugiram nossos amores
A quem dar as nossas mãos
Num país de desertores
Viraram-se todos ao contrário
Fugindo apressados à realidade
Montados neste triste cenário
Sem esperança na saudade
E do amigo ficou o esboço
Do inimigo a apertar o pescoço

Ó Portugal da mensagem
Já sem rosto de Pessoa
De Camões sem linhagem
Sem Porto e sem Lisboa
Virou fantasma o Viriato
Sebastião um morto-vivo
O teu povo no estrelato
Tua pátria um nado-vivo
E já nem o velho do restelo
Te idolatra como camelo

Foste castelos de tantas quinas
De reis e governantes além-mar
E agora hipotecas as salinas
Porque te esquivas ao teu mar
Foste o senhor de tanta guerra
Em busca do além-mundo
E agora enterras a tua terra
Enterrando o machado bem fundo
Que será de ti ó Portugal
Que só de besta se faz bestial

Reina e impera a estupidez
Governa a avidez e a ganância
E de olhos fechados tu não vês
Que a tua prol é ignorância
Que a votar não vota bem
Que a não votar vota mal
Porque o voto vota alguém
Que não te vota Portugal
São votos brancos, votos de chulos
São tudo votos, votos nulos

Canto-te assim o fim do império
Numa poesia de raiva e dor
Que te prova muito a sério
O tanto de tão pouco amor
E que te vê a desmaiar
Em queda tornada coma
Num hospício a tratar
E à venda na vandôma
A Europa desfigura-te o rosto
E o teu vinho sabe a mosto

Ó Portugal moribundo
A afogar-se à beira-mar
Destes mundos ao mundo
Sem o mundo nada te dar
Vais agora de vento em popa
Rumo à morte com certeza
Das migalhas fazes a sopa
Restos cozidos-à-portuguesa
Eis Portugal ao inverso
Lagutrop do meu verso

José Lourenço