sábado, 6 de abril de 2019


O exorcismo e descarrego final do autoritarismo 1964 virão do retumbante fracasso total do desgoverno bolsonarista. O aumento do desemprego, a desestruturação social do poder aquisitivo, o desmonte da saúde, a deforma da previdência, o descontrole da deseducação no MEC, o descarte da cultura, o desmoronamento da justiça com o juiz politiqueiro, o descrédito dos torturadores, a destruição dos direitos humanos dos excluídos e periféricos, a desnacionalização e privatização entreguista, todas essas desesperadas medidas promovem a desmoralização e deserção dos seus apoiadores no PSL, nas forças armadas, no sistema judicial, na grande mídia, no empresariado, na classe média troglodita, nos pastores de extrema-direita, nas hordas bolsonazistas. Todo apoio anterior se desmancha com incrível rapidez depois de 100 dias de um desgoverno horroroso, desestruturador, decrépito e sem destino. Bolsonaro será o ato final, o epílogo da desconstrução, derrota e decepção definitiva da ditadura de 1964. A extrema-direita será desprezada, descontada e descartada depois disso tudo.

Rco


Em uma sociedade moderna a ciência e a universidade possuem importante papel social ao fazerem a triagem entre verdade e mentira. No campo das ciências sociais e das humanidades as críticas das definições, formas e conteúdos são igualmente decisivos. 31 de março de 1964 foi golpe de uma parte reacionária da sociedade contra a democracia. O nazismo é de direita e sempre foi. Temer foi um dos chefes do golpe de 2016 contra a presidenta eleita Dilma e foi preso porque é culpado. Aécio Neves nunca foi preso porque apresenta capitais sociais e políticos familiares elitizados, já Lula se tornou um preso político e sem nenhuma evidência documental de crime comprovada porque é o chefe da oposição popular ao mesmo golpe. O sistema judicial e policial, o sistema socialmente real e existente no Brasil, é derivado das antigas Ordenações Filipinas, baseado em diferenças significativas entre "nobres", "peões" e "escravizados", "raça, cor e gênero", de modo que podemos entender como um helicóptero com quase meia tonelada de cocaína terá um tratamento diferenciado do jovem, negro, trabalhador de baixa renda e baixa escolaridade, morador de favelas da periferia. O papel da universidade e das ciências sociais, o papel das suas plurais comunidades científicas, é o debate sobre a verdade social e política, um intenso campo de lutas sociais e políticas. Quem reconhece a verdade e denuncia a mentira sobre a existência de golpes, de nazismos de esquerda, de terra plana, os antievolucionistas, as modernas fake news, velhas ideologias de extrema-direita, é a triagem e autoridade crítica da universidade. Não é o político, o militar, o religioso, o jurista, o jornalista, o astrólogo, o senso comum, quem definirá a verdade científica das teses, mas as bancas de professores doutores, profissionais de décadas de estudos, leituras, debates e ciência. Daí entendemos as rasas tentativas de ataques da direita ideológica anticientífica contra a universidade, contra os seus currículos, contra seus professores e cientistas, por parte de tipos analfabetos, sem diplomas, sem certificação de qualidade universitária, sem doutorado e sem critérios de excelência acadêmica, critérios para enfrentarem o duro combate cotidiano pela construção dialética, em constante mudança e transformação, das verdades sociais e políticas em metamorfose...

Ricardo Costa de Oliveira

A Mulher Monstro


A peça teatral mais discutida no Festival de Teatro de Curitiba desse ano é "A Mulher Monstro". A peça foi vetada pela Prefeitura de Curitiba e será apresentada em livre espaço público, nas Ruínas de São Francisco, de 4 a 7 de abril, 19 horas. Não existe fascismo e autoritarismo sem a conversão de mulheres "normais" em bestas fascistas. Todos nós conhecemos mulheres com limitada cultura e educação, que se metamorfosearam em "mulheres monstros". "Conges" de muitas falsas autoridades golpistas por aí, eram advogadas, gerentes de marketing, pastoras, policiais, pensionistas das forças armadas, pequenas lojistas, empresárias do agronegócio latifundiário, médicas, socialites, a lista é longa e extensa na deformação de um pensamento se trogloditizando, espumando ódio irracional na luta de classes, espelhos de confusões mentais e ideológicas na defesa ensandecida de seus pretensos privilégios e vantagens sociais. Falsa religiosidade cristã, intolerância, hipocrisia e peçonha. Como todo o resto do conjunto do bolsonarismo não é prova de força social, moral, de hegemonia cultural e política, mas prova de desespero e falência existencial porque sabem que o seu velho mundo de falcatruas e enganações pode desmoronar. Vale a pena.

Ricardo Costa de Oliveira

As ciências sociais têm sim o poder de análise e previsibilidade


As ciências sociais têm sim o poder de análise e previsibilidade, como qualquer ciência ! Escrevi o livro "Na Teia do Nepotismo" em 2012. Notícia de hoje comprovando o que escrevemos há anos - "A teia de parentes e amigos enredados na Quadro Negro. Quando se lê com atenção a lista de réus e demais implicados na Operação Quadro Negro e nas outras conduzidas pelo Ministério Público Federal e pelo Gaeco descobre-se a existência de variados graus de proximidade entre eles. Do exame, surge uma intrincada teia de sócios, amigos, parentes e subordinados que agem de maneira coordenada, cada um cumprindo papeis específicos com maior ou menor importância...Veja-se a lista dos já declarados réus da Quadro Negro: Beto Richa, Fernanda Richa, Luiz Abi Antoun, Ezequias Moreira, Jorge Atherino, Rafael Wawryniuk, João Gilberto Cominese Freire, Eduardo Lopes de Souza e Maurício Fanini. Quase todos eles são réus duas vezes na mesma ação penal, acusados ora por por corrupção e lavagem de dinheiro, ora por organização criminosa e obstrução de justiça"
Ricardo Costa de Oliveira

tchutchuca


Para quem acompanha os debates na CCJ da Câmara há vários anos ficou a impressão da covardia e principalmente ausência da bancada governista, se é que existe, depois das inquirições. O espetáculo dos ministros do Bozo "apanhando" no Congresso é o que há de mais constrangedor e oposicionista. O confisco das aposentadorias está para o governo Bolsonaro o que o confisco das poupanças esteve para o governo Collor, uma ameaça de pá de cal precoce. Querendo ou não querendo, concordando ou não com o termo tchutchuca, Zeca Dirceu passou a ser nacionalmente conhecido e consagrado como o deputado lacrador que detonou Guedes, uma técnica antes utilizada pela direita para um mundo de redes sociais, twitters e zaps, agora usada inversamente. As referências e citações ao nome de Zeca Dirceu bombaram ontem e o hipocorístico "pegou" e "colou" na sofrível imagem de Guedes. Qualquer criança do antigo pré-primário sabia que uma reação intempestiva só beneficiará e ampliará o efeito do apelido.

Ricardo Costa de Oliveira

A virada na avaliação negativa de Bolsonaro


Podemos verificar a virada na avaliação negativa de Bolsonaro pelas pesquisas de opinião e também pelo sentimento das conversas nas ruas. Quando as pessoas simples começam a criticá-lo nos supermercados, estacionamentos, postos de combustíveis, locais públicos, é sinal que finalmente a onda de direita está em acelerado refluxo na direção contrária. O termômetro do cotidiano nas ruas. Uma das melhores definições foi a de um senhor que conheço e cumprimento há muitos anos. Nas eleições era um bolsonarista convicto alegando que tínhamos que colocá-lo lá porque os outros não resolveriam. Agora reclamou do roubo das aposentadorias e lembrou uma coisa que nós mal lembrávamos. O que decretou a falência mesmo da ditadura militar no governo Figueiredo foi a alta do preço do feijão, justamente o que acontece agora com a subida dos preços do feijão, 20% de aumento, ao lado da contínua subida dos combustíveis e a sensação do Bozo como um déjà vu, definitivamente instalado na imensa rejeição de um Figueiredo, Sarney, Collor, FHC nos finais de mandatos. Agora está gostoso criticar e falar mal do desgoverno bolsonaresco, torna-se uma conversa popular, um tema em que quase todos concordam e socializam na falta de outros assuntos. Que mudança da tensão eleitoral quando se iludiam com a farsa bolsonarista e estavam cegos e mesmo agressivos. Agora é seguro começar uma conversa com pessoas que não tenhamos intimidade malhando o desgoverno e sua penca de péssimos ministros, o papelão de um Moro fracassado, um Guedes, o colombiano do cai não cai, e rola mais apoio e concordância ao criticarmos os ilegítimos na presidência, do que ao falarmos do clima ou do último resultado esportivo ! Falar mal dos Bozos virou tema reconhecido por todos, assunto corriqueiro, banal e quase consensual.

Ricardo Costa de Oliveira

Ler um romance





Acompanhamos essas histórias como se observássemos uma paisagem e, transformando-a em pintura com os olhos da mente, deixamos que ela nos influencie

Um romance é uma segunda vida. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam cores e complexidades de nossa vida e são cheios de pessoas, rostos e objetos que julgamos reconhecer. Assim como no sonho, quando lemos um romance, às vezes ficamos tão impressionados com a natureza extraordinária das coisas que nele encontramos que esquecemos onde estamos e nos vemos no meio dos acontecimentos e das pessoas imaginárias que contemplamos. Em tais ocasiões, achamos o mundo fictício que descobrimose apreciamos mais real que o mundo real. O fato de essa segunda vida nos parecer mais real que a realidade muitas vezes indica que substituímos a realidade pelo romance. Ou no mínimo o confundimos com a vida real. Mas nunca lamentamos essa ilusão, essa ingenuidade. Ao contrário, assim como em alguns sonhos, queremos que o romance que estamos lendo prossiga e esperamos que essa segunda vida continue evocando em nós uma sensação consistente de realidade e autenticidade. Apesar do que sabemos sobre a ficção, ficamos irritados e aborrecidos se um romance deixa de sustentar a ilusão de que é, na verdade, a vida real.

Sonhamos supondo que o sonho é real; essa é a definição de sonho. Do mesmo modo, lemos um romance supondo que ele é real – mas no fundo sabemos muito bem que não é assim. Esse paradoxo se deve à natureza do romance. Comecemos por enfatizar que a arte do romance conta com nossa capacidade de acreditar ao mesmo tempo em estados contraditórios.

Leio romances há quarenta anos. Sei que podemos adotar muitas posturas em relação ao romance, que existem muitas maneiras de engajar alma e mente nele, tratando-o com leviandade ou seriamente. Da mesma forma, aprendi pela experiência que há muitos modos de ler um romance. Às vezes, lemos logicamente; às vezes, com os olhos; às vezes, com a imaginação; às vezes, com uma pequena parte do cérebro; às vezes, como queremos; às vezes, como o livro quer; e, às vezes, com todas as fibras de nosso ser. Houve uma época, em minha juventude, na qual me dediquei por completo aos romances, lendo-os com atenção – até com êxtase. Naquele tempo, dos 18 aos 30 anos (1970 a1982), eu queria descrever o que me passava pela cabeça e pela alma da mesma forma como um pintor retrata com precisão e clareza uma paisagem vívida, complexa, animada, cheia de montanhas, planícies, rochedos, bosques e rios.

O que ocorre em nossa cabeça, e em nossa alma, quando lemos um romance? Em que essas sensações interiores diferem do que sentimos quando vemos um filme, contemplamos um quadro ou escutamos um poema, mesmo um poema épico? De quando em quando, um romance pode proporcionar os mesmos prazeres que uma biografia, um filme, um poema, um quadro ou um conto de fadas. No entanto, o efeito singular e verdadeiro dessa arte é fundamentalmente diferente do de outros gêneros literários, do filme e do quadro. E talvez eu possa começar a mostrar essa diferença falando sobre as coisas que eu fazia e as complexas imagens que surgiam dentro de mim quando eu lia romances apaixonadamente em minha juventude.


 *O texto abaixo, escrito por Orhan Pamuk, foi publicado na edição número 62 da revista Piauí.
Saiba mais


Me destierro



[Poema - Texto completo.]

Miguel de Unamuno

Me destierro a la memoria,
voy a vivir del recuerdo.
Buscadme, si me os pierdo,
en el yermo de la historia,

que es enfermedad la vida
y muero viviendo enfermo.
Me voy, pues, me voy al yermo
donde la muerte me olvida.

Y os llevo conmigo, hermanos,
para poblar mi desierto.
Cuando me creáis más muerto
retemblaré en vuestras manos.

Aquí os dejo mi alma-libro,
hombre-mundo verdadero.
Cuando vibres todo entero,
soy yo, lector, que en ti vibro.

Biblioteca Digital Ciudad Seva


De Caio Fernando Abreu à escritora Hilda Hilst:




29/12/1970

Hildinha,

a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco.

Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu "Inventário". Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre "Lázaro". Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for.

Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.

Fico por aqui, já é muito tarde.

Um grande beijo do teu

Caio.

CONTINUITY GIRL



 (Dominique Fourcade / trad. Paula Glenadel)

verificar bem se de uma tomada à outra eu uso as mesmas meias, a mesma pochette com jeito de coisa fina combinando não sei com quê. ela é intratável. hoje cedo estava furiosa porque eu não estava com a mesma voz. ao mesmo tempo a escrita é uma profissão em que a gente deve se apresentar irreconhecível. e realmente não sei como me virar.

Portugal ao contrário




Como se pode começar
Aquilo que já acabou
Como se pode acabar
Aquilo que não começou
Triste fado o fado nosso
O fado de um povo triste
Que nem a rezar pai-nosso
Evita este alegre despiste
O de ser ex-povo poeta
Porque virou nobre pateta

Ó meu Portugal
Que me dás o dia inteiro
A possibilidade de funeral
E todos os dias de nevoeiro
De afonsos sem qualquer dom
Sem segundos nem penúltimos
Porque agora sobes o tom
De sermos os primeiros dos últimos
Como cantar então a tua glória
Se só na derrota cantas vitória

Deste destino não me livro
De tanto bruxedo e feitiçaria
Narro-te em trovas de um livro
Porque é negra a tua magia
Desfeito dos teus feitos heróicos
Que te dilataram a fé e o império
Agora um punhado de paranóicos
Armados em heróis a sério
Cambada de panascos importantes
Que além do mais são praticantes

Já não acredito em querer
Que um dia vá acreditar
Na fé desse grande crer
Que me possas salvar
E me faças outra vez de novo
Filho de gente que sente
Gente de gente, gente do povo
Do povo de nação valente
E agora vai pior que mal
Numa estupidez imortal

Onde raio estão nossos irmãos
Para onde fugiram nossos amores
A quem dar as nossas mãos
Num país de desertores
Viraram-se todos ao contrário
Fugindo apressados à realidade
Montados neste triste cenário
Sem esperança na saudade
E do amigo ficou o esboço
Do inimigo a apertar o pescoço

Ó Portugal da mensagem
Já sem rosto de Pessoa
De Camões sem linhagem
Sem Porto e sem Lisboa
Virou fantasma o Viriato
Sebastião um morto-vivo
O teu povo no estrelato
Tua pátria um nado-vivo
E já nem o velho do restelo
Te idolatra como camelo

Foste castelos de tantas quinas
De reis e governantes além-mar
E agora hipotecas as salinas
Porque te esquivas ao teu mar
Foste o senhor de tanta guerra
Em busca do além-mundo
E agora enterras a tua terra
Enterrando o machado bem fundo
Que será de ti ó Portugal
Que só de besta se faz bestial

Reina e impera a estupidez
Governa a avidez e a ganância
E de olhos fechados tu não vês
Que a tua prol é ignorância
Que a votar não vota bem
Que a não votar vota mal
Porque o voto vota alguém
Que não te vota Portugal
São votos brancos, votos de chulos
São tudo votos, votos nulos

Canto-te assim o fim do império
Numa poesia de raiva e dor
Que te prova muito a sério
O tanto de tão pouco amor
E que te vê a desmaiar
Em queda tornada coma
Num hospício a tratar
E à venda na vandôma
A Europa desfigura-te o rosto
E o teu vinho sabe a mosto

Ó Portugal moribundo
A afogar-se à beira-mar
Destes mundos ao mundo
Sem o mundo nada te dar
Vais agora de vento em popa
Rumo à morte com certeza
Das migalhas fazes a sopa
Restos cozidos-à-portuguesa
Eis Portugal ao inverso
Lagutrop do meu verso

José Lourenço

AS FOTOS DO SEXO


 (Lupe Gómez / trad. Pedro Serra)

A pornografia é a cara cortada das mulheres. É um campo livre, onde todos corremos buscando palavras, paz e sexo. É o título do meu primeiro livro, onde escrevo, protesto e rebento. É abrir o baú guardado da infância e da inocência. É roubar à religião a sua parte falsa. É ir pelo monte, buscando corpos que te amem. É rasgar as cuecas. Sermos putas que sangram muito e de forma muito profunda na noite. Quando amam. Quando lhes escapa o coração da caixa dos sonhos mortos. Pornografia é cuspir na cara violada de um homem. Os homens não entendem este falar nosso e feminino, ou lutam por entender. Eu creio nas fotos do sexo. Como creio na sinceridade da poesia. Palavras brutais carregadas de beleza. Creio que o ser humano nasceu para vencer o medo através do amor e do sexo. Que a história não deixou falar as mulheres e agora deixamos de calar. Tiramos as saias e os sapatos que nos doíam e vamos como vacas pela vida, com os olhos abertos, animais, selvagens e por fim livres, abertas, faladoras, liberadas.

valter hugo mãe

biografia breve (do site do autor): valter hugo mãe nasceu em Saurimo, Angola, no ano de 1971. Licenciado em Direito, pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vive em Vila do Conde. Publicou cinco romances:O filho de mil homens (2011), a máquina de fazer espanhóis (2010) o apocalipse dos trabalhadores (2008), o remorso de baltazar serapião, vencedor do Prémio José Saramago (2006) e o nosso reino (2004). A sua obra poética está revista e reunida no volume contabilidade (Objectiva/Alfaguara, 2010). É autor dos livros para os mais novos: O rosto (Agosto 2010), As mais belas coisas do mundo (Agosto 2010), A verdadeira história dos pássaros (2009) e A história do homem calado (2009). Escreve a crónica Autobiografia imaginária no Jornal de Letras. valter hugo mãe é vocalista do grupo musical Governo e esporadicamente dedica-se às artes plásticas. Letrista dos músicos/projectos Mundo Cão, Paulo Praça, Indignu, Salto, Frei Fado Del’Rei, Blandino e Eliana Castro. Recebeu, em 2009, o troféu Figura do Futuro, atribuído pelo Correio da Manhã. Recebeu, em 2010, a Pena de Camilo Castelo Branco. Em 2010 recebeu a Medalha de Mérito Singular de Vila do Conde.

contra mim bate a esperta difusão

contra mim bate a esperta difusão
do tempo, a extensa confusão do
olhar, a vibrante galeria da
cor: o espaço. durante uma
pequena e qualquer loucura, não
me componho.
se não somos mudos, ficarei
surdo. nestas rochas onde o
sol se desleixa e persegue as
águias que escondem ninhos
secos.
e é quando tento agarrar
o sol que reparo ter
as mãos convexas

valter hugo mãe 


se o vento é a ignição

se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina


valter hugo mãe 

o céu é aquela clareira

o céu é aquela clareira
onde deito os olhos com ténues
cambiantes de cor que quase
gasto nas mãos, e como. como
o céu e aguardo uma
digestão convulsa. enquanto
o aguaceiro seca na terra antes que o
possa beber e deus se
vinga de mim ditando
os versos que escondem
a água ao mundo. já as
fogueiras florindo em volta,
murchando o dia que me
persegue. uma intervenção
divina para me resistir

valter hugo mãe 

estou escondido na cor amarga do fim da tarde

estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento

valter hugo mãe 

A Pequena Revolução de Jacques Prévert


 – José Paulo Paes

Há um poeta imóvel

No meio da rua.
Não é anjo bobo
Que viva de brisa
Nem é canibal
Que coma carne crua.
Não vende gravatas,
Não prega sermão,
Não teme o inferno,
Não reclama o céu.
É um poeta apenas,
Sob seu chapéu.
À sua volta, o trânsito
Escorre, raivoso,
E o semáforo muda,
Célere, os sinais.
Mas o poeta não sai
De seu lugar. Jamais.
Diz um padre: – “É pecador.
Blasfemou, praticou
Fornicação, assalto.
Por castigo ficou
Atado ao asfalto.”
Diz um rico: “É anarquista,
Que mastiga pólvora,
Que bebe cerveja.
E espera a explosão
Da bomba sob a igreja.”
Diz um soldado: “É agente
De potência estrangeira.
Aguarda seus cúmplices,
Ocultos em algum
Lugar desta ladeira.”
Diz um doutor: “É vítima
De mal perigoso.
Está paralítico,
Ou talvez nefrítico,
Ou então leproso.”
Ante notícias
Tão contraditórias,
Há queda na Bolsa,
Pânico na Sé,
Cai o Ministério,
E foge o doutor,
O padre, o soldado,
O rico, o ministro,
O governador.
Sem donos, o povo
Livra-se dos impostos;
Sem padres, o povo
Livra-se da missa;
Sem doutores, o povo
Livra-se da morte.
As ruas se animam
De vozes, de cores,
De passos, pregões,
Abraços, canções.
E, no meio da rua
Sob seu chapéu,
Sob o azul do céu,
O poeta sorri,
Completo,
Feliz.

José Paulo Paes (in "Poesia Completa")



A descoberta do mundo


– Clarice Lispector


O que eu quero contar é tão delicado é tão delicado quanto a própria vida. E eu queria poder usar delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva.
Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em aprender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce , estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo aliás atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesmo, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube coisas que nem eu mesma sei que sei.
As minhas colegas de ginásio sabiam de tudo e inclusive contavam anedotas a respeito. Eu não entendia mas fingia compreender para que elas não me desprezassem e à minha ignorância.
Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência.
Até que um dia, já passados os treze anos, como se só então eu me sentisse madura para receber alguma realidade que me chocasse, contei a uma amiga íntima o meu segredo: que eu era ignorante e fingira de sabida. Ela mal acreditou, tão bem eu havia fingido. Mas terminou sentindo minha sinceridade e ela própria encarregou-se ali mesmo na esquina de me esclarecer o mistério da vida. Só que também ela era um amenina e não soube falar de um modo que não ferisse a minha sensibilidade de então. Fiquei paralisada olhando para ela, misturando perplexidade, terror, indignação, inocência mortalmente ferida. Mentalmente eu gaguejava: mas por quê? Mas por quê? O choque foi tão grande – e por uns meses traumatizante – que ali mesmo na esquina jurei alto que nunca iria me casar.
Embora meses depois esquecesse o juramento e continuasse com meus pequenos namoros.
Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amo. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios.
Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continua intacto. Embora eu saiba que de uma planta brotar um flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.

[Jornal do Brasil - 06/07/1968]

 

A Extraordinária Aventura Vivida por Vladímir Maiakóvski no Verão na Datcha



A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava.
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato.
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
“Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!”
E grito ao sol:
“Parasita!
Você, aí, a flanar pelos ares,
e eu, aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!”
E grito ao sol:
“Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?”
Que mosca me mordeu!
E o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas,
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
“Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!”
Lágrimas na ponta dos olhos
- o calor me fazia desvairar –

eu lhe mostro
o samovar:
“Pois bem,
sente-se, astro!”
Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
E o sol:
“Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!”
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
“Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.”
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar
que tudo o mais vá prá o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.

Vladimir Maiakovski, 1920.

(Tradução de Augusto de Campos)