domingo, 7 de setembro de 2014

o suporte da música


o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas
vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência
dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando
por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.


Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"
A Embaixada norte-americana adotou um perfil muito discreto nas eleições, mas isso não deve se confundir com o fato de estarem alheios ao que acontece. Quando o Aécio fica fora do jogo, os Estados Unidos se inclinam para a Marina, por pragmatismo e porque ela representa o oposto ao PT. Além disso, é alguém sem quadros próprios e, segundo dizem, tem bons contatos nos Estados Unidos, e que demonstrou estar aberta para desmontar o Estado, reduzir sua capacidade e autonomia internacional. Interessa aos Estados Unidos que o Mercosul sejam desmontado e que projetos da era tucana sejam retomados, não nos enganemos: nestas eleições, está em jogo a retomada do processo privatizador, parcial ou total, da Petrobras, do Banco do Brasil e do BNDES'

de Samuel Pinheiro Guimarães, via Carta Maior 

onda política ou maremoto



Não se trata de nenhuma singularidade extraordinária do nome de Marina Silva, mas qualquer um surfaria na mesma "onda política" ou "maremoto". Caso fosse um Joaquim Barbosa, um empresário vivo qualquer como José Ermírio de Moraes (no melhor estilo Piñera do Chile), um Sílvio Santos, um médico rico qualquer (menos o tal Abdelmassih) e mesmo um Tiririca ou Bozo, desde que assumissem e reunissem as mínimas características para ocupar o mesmo lugar contra o governo redistributivista do PT e receber o sincero, carinhoso apoio dos mais ricos, dos velhinhos do Clube Militar (que apoiaram a tortura na ditadura também corrupta), dos pastores evangélicos neopentecostais milionários, dos tradicionais membros sensíveis da classe média-alta udenista-lacerdista e principalmente ganhar o apoio da base social mais popular dos jovens da "classe C" (incluindo os populares "coxinhas" de junho de 2013). Marina é util porque foi pobre, periférica, do Partido Revolucionário Comunista e é ambientalista para se adaptar a todos os ambientes neoliberais do capital financeiro com Neca do Banco Itaú. A onda não precisa de partido político ou instituições. O motor formador e promovedor da "onda política" é a mídia brasileira dominante. Segmentos da mídia no Brasil formam um dos principais pilares da classe dominante tradicional, trata-se de uma mídia oligárquica e familiar enraizada nos privilégios do passado. Muitas famílias da mídia estão nas listas das famílias mais ricas do Brasil desde a ditadura e a maioria dos bons jornalistas tem que aceitar ou driblar o padrão editorial conservador para preservarem os seus empregos. Bons jornalistas precisam de "autonomia" profissional. Algumas TVs, rádios, revistas e os jornais brasileiros representam a voz, os interesses políticos de seus donos e formam o principal partido de oposição, com muita ideologia e manipulação informativa (nenhuma novidade aí). Parte da mídia brasileira é murdochiana. Para obterem e inventarem qualquer notícia ou factoide eleitoral é um completo vale tudo com Cachoeiras, réus presos e qualquer ilicitude disponível, que fariam de Murdoch apenas um jornalista amador de província. Deve-se debater se as regulações e leis existentes nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa Ocidental já teriam impactos modernizadores neste setor e será uma agenda política inevitável para o pós-onda, seja em 2015 ou em 2019.
Ricardo Costa de Oliveira

sábado, 6 de setembro de 2014

Canção de Muito Longe

De Mario Quintana.

Foi por cau-sa-do-bar-quei-ro
E todas as noites, sob o velho céu arqueado de bugigangas,
A mesma canção jubilosa se erguia.
A canoooavirou
Quemfez elavirar? uma voz perguntava.
Os luares extáticos...
A noite parada...
Foi por causa do barqueiro,

Que não soube remar.

El Hombre Imaginario


El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario
De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios
Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios
Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario
Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar

el corazón del hombre imaginario

Nicanor Parra

Moscow - what a giant.


М.И. Цветаева. "Москва! Какой огромный...". Стихотворение. Автограф в тетради. Ф.1190. Оп.2. Ед.хр.1. РГАЛИ

Marina Tsvetaeva 'Moscow - what a giant...'. Poem. Autograph. F.1190. Ind.2. Folder 1. RGALI

Москва! Какой огромный
Странноприимный дом!
Всяк на Руси — бездомный.
Мы все к тебе придём.
Клеймо позорит плечи,
За голенищем — нож.
Издалека -далече —
Ты всё же позовёшь.
На каторжные клейма,
На всякую болесть —
Младенец Пантелеймон
У нас, целитель, есть.
А вон за тою дверцей,
Куда народ валит, —
Там Иверское сердце,
Червонное, горит.
И льётся аллилуйя
На смуглые поля.
— Я в грудь тебя целую,
Московская земля!
1916
Из цикла «Стихи о Москве»
Moscow - what a giant
And strangely-mannered home!
In Russia all are homeless.
We all to you will come.
A knife behind a boot-leg,
A shoulder brand in shame.
From far away us all
You will call all the same.
Upon the penal brandings,
On every kind of ill -
A baby Panteleimon
We have, O man who heals,
And there behind that door,
Where all the people pour -
There the fine golden heart
Is burning of Iver.
And "Halleluiah" pours
Upon the fields grown tan.
I kiss you in the bosom,
O the Moscow land!
translated by Ilya Shambat

‪#‎Tsvetaeva_rgali

fonte : Russian State Archive of Literature and Art

Cogito


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
- Torquato Neto, em "Os cem melhores poemas brasileiros do século", [seleção e organização Ítalo Moriconi]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 269.

trecho "Morte e Vida Severina".

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
- João Cabral de Melo Neto, trecho "Morte e Vida Severina".

CANSAÇO


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
9-10-1934

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 64.

Canto I - Fundação da Ilha


I
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.
Nobre apenas de memórias,
vai lembrado de seus dias,
dias que são histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.
Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vária mastreação,
mastros que apontam caminhos
a países de outros vinhos.
Esta é a ébria embarcação.
Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.
- Jorge de Lima, em "Invenção de Orfeu". Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 27.
http://www.elfikurten.com.br/2014/03/jorge-de-lima.html

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Exercícios ao piano


O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num é tudo enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.
Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.

- Rainer Maria Rilke, em "Novos poemas II" (1908). In: CAMPOS, Augusto de (organização e tradução). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013, p. 276-277.


Humilde surdina

Humilde surdina
Deixa falar, deixa falar:
basta o mistério do amor,
minha ternura tão mansa
e o teu jeito de querer.
Nós seremos como os pequenos:
sabem tanto, sem saber.
Voa o olhar no fundo olhar,
mão na mão, o amor pousou.
Tarde boa, morre calma...
Brinca o sino da igrejinha.
Alguém diz palavras velhas
como um sonho que passou.
Meu amor, a vida é grande
quando o olhar encontra o olhar:
mão na mão, o amor chegou.
- Augusto Meyer, em “Poesias (1922-1955)". Rio de Janeiro: Livraria São José, 1957.
http://www.elfikurten.com.br/2013/08/augusto-meyer-o-modernista-lirico-dos.html

É o êxtase langoroso...


Le vent dans la plaine Suspend son haleine.
(Favart)

É o êxtase langoroso,
É o cansaço amoroso,
É todo o bosque a vibrar
Ao enlace das aragens,
São, nas grisalhas ramagens,
Mil vozes a cochichar.
Ó o fino e fresco ciclo!
É chilreio e murmúrio,
Parece esses doces ais
Que a relva móvel suspira...
Dirias, na água que gira,
Rolar de seixos causais.
Essa alma que se lamenta
Nessa queixa sonolenta
Não seria a nossa, ai de nós?
A minha à tua enlaçada,
Exalando a humilde toada
Nesta tarde, a meia-voz?

- Paul Verlaine, em “A Voz dos Botequins e Outros Poemas”. [tradução Guilherme de Almeida]. São Paulo: Editora Hedra, 2010, p. 60-61.


As fontes


Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser
- Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Poesia I", 1944.
http://www.elfikurten.com.br/2014/07/sophia-de-mello-breyner-andresen.html

O Abraço(excerto)

O Abraço(excerto)
Não vês inda, de gosto sufocados,
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
- Meu bem, eu não sou tu?... Tu não és eu?
Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos... -Oh!... e estás tão perto!...
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas... Ah! que faço?...
É ar... Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?... Dize, não és seu, meu peito?...
[...]
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! - É meu!...

José Anastácio da Cunha (1744 // 1787)

As romãs


Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!
Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,
E se o ouro sece cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,
Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitetura.


- Paul Valéry, em "Charmes". (1922)..[tradução Augusto de Campos].

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Templo-Ostentação, plágio capitalista da modernização da fé

ARTIGOS E DEBATES


Publicado em Terça, 02 Setembro 2014 15:59



Por Fábio Py Murta de Almeida

“Nunca vamos entender o que está acontecendo hoje, se não entendermos que o capitalismo é, na realidade, uma religião. E, como disse Walter Benjamin, é a mais feroz de todas as religiões, porque não permite a expiação” (Agamben)

O sucesso da inauguração do Templo de Salomão pode ser visto em número de fiéis, mídias, reportagens e de acessos às suas informações. Com o ato cosmogônico sua liderança construiu mais um passo no seu complexo desenvolvimento estrutural religioso (1). Lembra-se no âmbito das religiões que a cosmogonia visa marcar território, definir fronteiras e propor uma ética reorganizando relações sociais. Uma inauguração de templo é tão importante que define como fiéis devem se comportar intramuros e fora deles. Por isso, faz sentido que a liderança da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) indicasse aos fiéis como deveriam ir às celebrações: a roupa adequada, o cartão de débito, de crédito para creditarem as ofertas, e disponibilizou uma linha de ônibus remunerada para translado.

"O capitalismo como religião"

Claro que todo o processo de Igreja-Ostentação iria gerar respostas do mercado religioso. Assim, ocorreu uma primeira reação que veio do líder da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, o bispo Rodovalho. Ele lançou aos fiéis o desafio de erguer em Brasília, onde funciona o Espaço Arena, um suntuoso templo com o dobro da capacidade do Templo de Salomão. A Sara Nossa Terra é um segmento religioso que abocanha uma generosa fatia de evangélicos. Tem sua sede na capital do País. Resta saber se o projeto terá fim e se promoverá de fato sua nova cosmogonia no futuro.

Retornando ao ponto iurdiano do Templo-Ostentação. De fato, sua vontade de poder é demonstrada entre suas paredes e adereços. Seus líderes recheiam as celebrações com mensagens religiosas, nas quais, anacronicamente utiliza-se termos de hoje, como “vender” e “comprar”, na antiguidade. Tudo para se acentuar o Cristianismo como parte do capitalismo. Por isso, lembra-se de um escrito de Walter Benjamin, de 1921, com o título de “O Capitalismo como religião" (2). Nele, assume três elementos que aproximam o capitalismo de uma religião, no qual, tomo emprestado entendendo que as agremiações cristãs se impregnaram sobremaneira pelo raciocínio frio do capital. A primeira seria de que seu culto é pragmático. Como ocorre nas comunidades-ostentação quando o fiel tributa o dízimo, a oferta para receber o bem, uma graça, algo material. Dá-se (ou, compra-se) para receber o benefício, um produto. A segunda ideia de Benjamin, sobre o capitalismo como religião, é de que todos seus dias são usados para ostentação como fonte de destilação do poder nas festividades. De fato, os iurdianos celebram diariamente o valor da moeda. Rezam com ela – por ela. E, por fim, a terceira ideia é de que a celebração é culpalizadora, quando na celebração iurdiana o fiel é posto como culpado. Logo, ele deve fazer o sacrifício (monetário) "pedir e darvo-se-á” do fragmento bíblico. No geral, a impressão é de que aos poucos o cristianismo vem se solidificando como “uma religião puramente de culto, desprovida de dogma" (3). Talvez, por isso, em 1921, Benjamin, embevecido do romantismo, assumiu o capitalismo como uma religião. Mas hoje, o projeto iurdiano (e de outras agremiações religiosas) não seria uma demonstração de que a religião cristã se tornou um braço esplendoroso do capitalismo?

Linguagem capitalista

Afinal, o dinheiro, a moeda, a compra, a venda, o mercado são linguagem comum do capitalismo, na qual direciona a ‘via moderna’ do Cristianismo. Olhando as catedrais germânicas do início do século passado, Benjamin aponta um último detalhe que nos remete às Igrejas-Ostentação: “No Ocidente, o capitalismo se desenvolveu como parasita do Cristianismo" (4). Portanto, se percebe que o capital estaria tão implicado no cotidiano cristão-moderno que se reza pelo dinheiro, ou, pela benção material de cada dia. Não é isso? O que trás a percepção inconformada de que cada vez mais o capitalismo torna-se uma nota unívoca da anunciação do mistério cristão. Dado que retira dele, seu trunfo utópico – o sentido expiatório.

Bibliografia:

BENJAMIN, Walter (org.). O capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões, São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Notas:

1 Mircea Eliade, O sagrado e o profano: a essência das religiões, p.43-65.

2 Walter Benjamin, O capitalismo como religião, p.21-25.

3 Op. cit., p.22.

4 Op. cit., p.23.

♦ Fábio Py Murta de Almeida é teólogo, historiador e doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC - RJ). É tanbém articulador do blog fabiopymurtadealmeida.blogspot.com
Caros Amigos


O ofício de viver


Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que pisamos.
Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

- Lêdo Ivo, in "Poesia Completa", 2004.

Casi como el blues

 por Leonard Cohen

Vi alguna gente hambrienta
Hubo asesinato, hubo violación
Sus pueblos estaban ardiendo
Estaban tratando de escapar
No pude encontrar sus miradas
Estaba mirando mis zapatos
Era ácido, era trágico
Era casi como el blues
Tengo que morir un poco
Entre cada pensamiento asesino
Y cuando termino de pensar
Tengo que morir mucho
Está la tortura y está el asesinato
Están todas mis malas reseñas
La guerra, los chicos perdidos
Señor, es casi como el blues
Dejé que mi corazón se congelase
Para mantener alejada la pudrición
Mi padre dice que soy elegido
Mi madre que no lo soy
Escuché su historia
Sobre los gitanos y los judíos
Estaba bien, no era aburrida
Era casi como el blues
No hay Dios en el cielo
Y no hay infierno debajo
Eso dice el gran profesor
De todo lo que hay que saber
Pero tuve la invitación
Que un pecador no puede rechazar
Y es casi como la salvación

Es casi como el blues

As Iluminações


Desabo em ti como um bando de pássaros.
E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.
Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.
Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.

- Lêdo Ivo, in "Um Brasileiro em Paris e O Rei da Europa", 1955.