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sábado, 23 de abril de 2016

Este poema de amor não é lamento
nem tristeza distante, nem saudade,
nem queixume traído nem o lento
perpassar da paixão ou pranto que há de

transformar-se em dorido pensamento,
em tortura querida ou em piedade
ou simplesmente em mito, doce invento,
e exaltada visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
e doce face (intérmina e tranquila)
da eterna bem-amada que eu procuro;

mas tão real, tão presente criatura
que é preciso não vê-la nem possuí-la
mas procura-la nesse vale obscuro.

Jorge de Lima


sábado, 6 de setembro de 2014

Canto I - Fundação da Ilha


I
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.
Nobre apenas de memórias,
vai lembrado de seus dias,
dias que são histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.
Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vária mastreação,
mastros que apontam caminhos
a países de outros vinhos.
Esta é a ébria embarcação.
Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.
- Jorge de Lima, em "Invenção de Orfeu". Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 27.
http://www.elfikurten.com.br/2014/03/jorge-de-lima.html

sábado, 20 de abril de 2013



Não procureis qualquer nexo naquilo
que os poetas pronunciam acordados,
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.

No meio dos desertos habitados
só eles é que entendem o sigilo
dos que no mundo vivem sem asilo
parecendo com eles renegados.

Eles possuem, porém, milhões de antenas
distribuídas por todos os seus poros
aonde aportam do mundo suas penas.

São os que gritam quando tudo cala,
são os que vibram de si estranhos coros
para a fala de Deus que é sua fala.

“Neles ...nos 78 sonetos do Livro de Sonetos se compraz o autor em conceitos,metáforas e expressões de surpreendente barroquismo, barroquismo que o poeta levará à mais desabusada, e às vezes abstrusa eclosão no seu livro mais recente,Invenção de Orfeu (1952), longo poema em dez cantos, de técnicas e faturas extremamente variadas e cujo sentido profundo ainda não foi devidamente esclarecido
pela crítica e talvez não o seja nunca, pois é evidente haver nele grande carga de subconsciente a par de certas vivênvias puramente verbais. Como quer que seja, é obra poderosa, onde deparamos fragmentos de alta beleza, que são em si pequenos poemas completos." 

(Manuel Bandeira em Apresentação da Poesia Brasileira,1958)

terça-feira, 16 de abril de 2013


Rubens Jardim

 "Como todo país de cultura rala, o Brasil parece ter pressa em enterrar os seus poetas. A uns sepulta, ainda vivos, na indiferença pela sua obra; a outros, depois de mortos, no pronto esquecimento do pouco que se leu deles. Quando falo de poetas, não estou evidentemente me referindo à chusma de rabiscadores de papel que usurpam o título por sua conta e risco. Refiro-me aos happy few --se cabe o adjetivo otimista-- cuja marca de fábrica ficou reconhecivelmente gravada no registrode patentes de poesia brasileira. Jorge de Lima pertence a essa seleta minoria. No ano passado, por ocasião do primeiro centenário do seu nascimento, o que ainda resta da nossa destroçada imprensa literária voltou a se ocupar dele, após tê-lo esquecido durante tantos anos.Tanto quanto sei, faz tempo que a poesia e a prosa de ficção de Jorge de Lima estão ausentes das livrarias. Pelo menos em edições acessíveis,visto a edição Aguilar de sua obra completa --por sinal há anos fora de catálogo--estar longe de fazer jus ao qualificativo. Felizmente, tal descaso editorial acaba de ser remediado em parte. Isso graças à publicação, pela Global, da coletânea Os Melhores Poemas de Jorge de Lima, na série dirigida por Edla Van Steen." (José Paulo Paes. O Estado de São Paulo, 6/08/1994)

LAMPADA MARINHA
As noites ficarão imensas.
A tristeza das coisas será cada vez mais profundas.
Agora passeias nos jardins intemporais.
E aqui, as noites serão imensas
e a solidão do mundo terá uma estatura infinita.
Vejo-te desaparecendo, como arrastada por linhas divergentes,
desfazendo-te misteriosamente como uma sombra na tarde.
Bruxuleias muito longe, lâmpada marinha,
sob a última ventania que te varreu da terra.
As noites ficarão imensas, oh, ficarão imensas!
Imóvel, jazes entretanto, recostada e serena
e tudo ainda está em ti, a mesma boca amarga,
os mesmos olhos imprecisos, os mesmos cabelos
de teus inúmeros retratos.
E através dessa inimaginável quietude serena
desdobra-se a tua meninice e ainda guardas as mãos translúcidas
da primeira comunhão, os lábios tímidos de noiva quase impúbere
e a sequência fotográfica de quando ampliaste os teus seios
e teu ventre e tua alma para conter um filho.
Ah, as noites serão imensas,
e a tristeza das coisas encherá o mundo!
Agora frequentas os tempos infinitos e ilimitados de Deus.
Mas ainda repousas teu corpo na última noite que te arrastou da vida.
São os mesmos seios, a mesma fronte, a mesma boca desmaiada,
a mesma sequência de retratos que se interrompeu enfim.
Não há um só pedaço de carne nem um membro sequer que te pertença mais:
Deus te raptou em tua totalidade.
E enquanto tudo em ti parou para nós,
tu és a dançarina que ele arrebatou dos homens e absorveu em Si.
E as noites ficarão imensas e mais tristes.

ALTA NOITE QUANDO ESCREVEIS



Alta noite, quando escrevei um poema qualquer
sem sentirdes o que escreveis,
olhai vossa mão --que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe.
Olhai a luz que de momento a momento
sai entre os seus dedos recurvos.
Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate
e a faz deslizar sobre o papel estreito,
com o clamor silencioso da sabedoria,
com a suavidade do Céu
ou com a dureza do Inferno!
Se não credes, tocai com a outra mão inativa
as chagas da mão que escreve.

AS PALAVRAS RESSUSCITARÃO
As palavras envelheceram dentro dos homens
separadas em ilhas,
as palavras se mumificaram na boca dos legisladores;
as palavras apodreceram nas promessas dos tiranos;
as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos.
E o Verbo de Deus é uno mesmo com a profanação dos homens de Babel,
mesmo com a profanação dos homens de hoje.
E, por acaso, a palavra imortal há de adoecer?
E, por acaso, as grandes palavras semitas podem desaparecer?
E, por acaso, o poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?
Para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez aos homens do
continente?
E, não foi ele apontado para restituir-lhe a sua essência
e reconstituir o seu conteúdo mágico?
Acaso o poeta não prevê a comunhão das línguas
quando o homem reconquistar os atributos perdidos com a Queda,
e quando se desfizerem as nações instaladas depois de Babel?
Quando toda a confusão for desfeita,
o poeta não falará, do ponto em que se encontrar,
a todos os homens da terra, numa só língua -- a linguagem do
Espírito.
Se por acaso viveis mergulhados no momento e no limite,
não me compreendereis, irmão!
(poemas do livro A Túnica Inconsútil, de Jorge de Lima-1893-1953)



COMENTÁRIOS SOBRE JORGE DE LIMA
"Com exceção de Manuel Bandeira é Jorge de Lima o único poeta contemporâneo
do Brasil cuja obra acompanha e evidencia todas as fases de evolução da poesia brasileira moderna". (Otto Maria Carpeaux, Introdução da Obra Poética de Jorge de Lima,1958)
" Não sei se Invenção de Orfeu ficará como um soberbo monumento isolado, ou se engendrará uma posteridade de poetas. O trabalho de exegese do livro terá que ser
lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição e não apenas com um frio aparelhamento analítico. Nada terão a
dizer de positivo certos críticos que abordam um texto de poesia como se tivessem de produzir uma ficha de estatística."

 (Murilo Mendes, Os trabalhos do poeta, A Manhã, Rio de Janeiro,24/07/1952)


sábado, 13 de abril de 2013

O NOME DA MUSA




Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida,
nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de
sibila, nem de terras,
nem de astros, nem de flores.
Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés
e influir nas coisas oscilantes.
Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas
sei que não é o vento que bole, mas tu que passas com os cabelos soltos.
Amo contemplar-te nos cardumes das medusas que vão para os mares boreais,
ou no bando das gaivotas e dos pássaros revoando
sobre as terras geladas.
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida.
O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos,
nos areias movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar,
no ar lavado que sucede as grandes borrascas,
na palavra dos anacoretas que te viram sonhando
e morreram quando despertaram,
no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu.
Em todos esses movimentos há apenas sílabas do teu nome secular
que coisas primitivas escutaram e não transmitiram às gerações.
Esperemos, amigo, que searas gratuitas nasçam de novo,
e os animais da criação se reconciliem sob o mesmo arco-iris:
então ouvireis o nome da que não chamo Eva,
nem lhe dou nenhum nome de mulher nascida.
 
(poema de Jorge de Lima, de A Túnica Inconsútil, livro onde o verso é gradualmente
substituído pelo versículo em imitações perfeitamente voluntárias e perceptíveis
da Bíblia --conforme notou e anotou Mário de Andrade.)