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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Solilóquio do indivíduo


 Nicanor Parra 

Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi na rocha
(ali gravei algumas figuras).
Logo busquei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que procurar-me alimentos,
buscar peixes, pássaros, buscar lenha
(já me preocuparia com os demais assuntos).
Fazer uma fogueira,
lenha, lenha, onde encontrar um pouco de lenha,
algo de lenha para fazer uma fogueira,
eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo me perguntei,
fui a um abismo cheio de ar;
respondeu-me uma voz:
eu sou o Indivíduo.
Depois tratei de mudar-me a outra rocha,
ali também gravei figuras,
gravei um rio, búfalos,
gravei uma serpente,
eu sou o Indivíduo.
Porém não. Aborreci-me das coisas que fazia,
o fogo me incomodava,
queria ver mais,
eu sou o Indivíduo.
Desci a um vale regado por um rio,
ali encontrei o que necessitava,
encontrei um povo selvagem,
uma tribo,
eu sou o Indivíduo.
Vi que ali se faziam algumas coisas,
figuras gravavam nas rochas,
faziam fogo, também faziam fogo!,
eu sou o Indivíduo.
Perguntaram-me de onde vinha.
Respondi que sim, que não tinha planos determinados,
respondi que não, que daí em diante.
Bem.
Tomei então um pedaço de pedra que encontrei num rio
e comecei a trabalhar com ela,
comecei a poli-la,
dela fiz uma parte de minha vida.
Porém isto é demasiado longo.
Cortei algumas árvores para navegar,
buscava peixes,
buscava diferentes coisas
(eu sou o Indivíduo).
Até que principiei a aborrecer-me novamente.
As tempestades aborrecem,
os trovões, os relâmpagos,
eu sou o Indivíduo.
Bem. Pus-me a pensar um pouco,
perguntas estúpidas vinham-me à cabeça,
falsos problemas.
Então comecei a vagar por alguns bosques.
Cheguei a uma árvore e a outra árvore,
cheguei a uma fonte,
a uma fossa onde se viam alguns ratos:
aqui venho eu, falei então,
haveis visto por aqui uma tribo,
um povo selvagem que faz fogo?
Deste modo me desloquei para o oeste
acompanhado por outros seres,
ou melhor bem só.
Para ver há que crer, me diziam,
eu sou o Indivíduo.
Formas via na escuridão,
nuvens talvez,
talvez via nuvens, via relâmpagos;
em tudo isto tinham passado já vários dias,
eu me sentia morrer;
inventei algumas máquinas,
construí relógios,
armas, veículos,
eu sou o Indivíduo.
Apenas tinha tempo para enterrar meus mortos,
apenas tinha tempo para semear,
eu sou o Indivíduo.
Anos mais tarde concebi algumas coisas,
algumas formas,
cruzei as fronteiras
e permaneci fixo numa espécie de nicho,
numa barca que navegou quarenta dias,
quarenta noites,
eu sou o Indivíduo.
Depois vieram algumas secas,
vieram algumas guerras,
tipos de cor entraram no vale,
mas eu devia seguir adiante,
devia produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
produzi tanagras,
deu a luz a livros de mil páginas,
inchou-se a minha cara,
construí um fonógrafo,
a máquina de coser,
começaram a aparecer os primeiros automóveis,
eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
árvores segregava!,
porém eu segregava ferramentas,
móveis, úteis de escritório,
eu sou o Indivíduo.
Se edificaram também cidades,
rotas,
instituições religiosas passaram de moda,
buscavam sorte, buscavam felicidade,
eu sou o Indivíduo.
Depois me dediquei melhor a viajar,
a praticar, a praticar idiomas,
idiomas,
eu sou o Indivíduo.
Olhei por uma fechadura,
sim, olhei, que digo, olhei,
para sair da dúvida olhei,
por trás de uma cortinas,
eu sou o Indivíduo.
Bem.
Melhor é talvez que torne a esse vale,
a essa rocha que me serviu de lar,
e comece a gravar de novo,
detrás para adiante gravar
o mundo ao revés.
Porém não: a vida não tem sentido.

(Tradução de Carlos Nejar)


domingo, 28 de janeiro de 2018

Me retracto de todo lo dicho



Antes de despedirme
Tengo derecho a un último deseo:
Generoso lector
quema este libro
No representa lo que quise decir
A pesar de que fue escrito con sangre
No representa lo que quise decir.

Mi situación no puede ser más triste
Fui derrotado por mi propia sombra:
Las palabras se vengaron de mí.

Perdóname lector
Amistoso lector
Que no me pueda despedir de ti
Con un abrazo fiel:
Me despido de ti
con una triste sonrisa forzada.

Puede que yo no sea más que eso
pero oye mi última palabra:
Me retracto de todo lo dicho.
Con la mayor amargura del mundo
Me retracto de todo lo que he dicho.

 DE NICANOR PARRA


Biblioteca Digital Ciudad Seva

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Es olvido



Nicanor Parra

Juro que no recuerdo ni su nombre,
mas moriré llamándola María,
no por simple capricho de poeta:
por su aspecto de plaza de provincia.
¡Tiempos aquellos!, yo un espantapájaros,
ella una joven pálida y sombría.
Al volver una tarde del Liceo
supe de la su muerte inmerecida,
nueva que me causó tal desengaño
que derramé una lágrima al oírla.
Una lágrima, sí, ¡quién lo creyera!,
y eso que soy persona de energía.
Si he de conceder crédito a lo dicho
por la gente que trajo la noticia
debo creer, sin vacilar un punto,
que murió con mi nombre en las pupilas,
hecho que me sorprende, porque nunca
fue para mí otra cosa que una amiga.
Nunca tuve con ella más que simples
relaciones de estricta cortesía,
nada más que palabras y palabras
y una que otra mención de golondrinas.
La conocí en mi pueblo (de mi pueblo
sólo queda un puñado de cenizas),
pero jamás vi en ella otro destino
que el de una joven triste y pensativa.
Tanto fue así que hasta llegué a tratarla
con el celeste nombre de María,
circunstancia que prueba claramente
la exactitud central de mi doctrina.
Puede ser que una vez la haya besado,
¡quién es el que no besa a sus amigas!,
pero tened presente que lo hice
sin darme cuenta bien de lo que hacía.
No negaré, eso sí, que me gustaba
su inmaterial y vaga compañía
que era como el espíritu sereno
que a las flores domésticas anima.
Yo no puedo ocultar de ningún modo
la importancia que tuvo su sonrisa
ni desvirtuar el favorable influjo
que hasta en las mismas piedras ejercía.
Agreguemos, aún, que de la noche
fueron sus ojos fuente fidedigna.
Mas, a pesar de todo, es necesario
que comprendan que yo no la quería
sino con ese vago sentimiento
con que a un pariente enfermo se designa.
Sin embargo sucede, sin embargo,
lo que a esta fecha aún me maravilla,
ese inaudito y singular ejemplo
de morir con mi nombre en las pupilas,
ella, múltiple rosa inmaculada,
ella que era una lámpara legítima.
Tiene razón, mucha razón, la gente
que se pasa quejando noche y día
de que el mundo traidor en que vivimos
vale menos que rueda detenida:
mucho más honorable es una tumba,
vale más una hoja enmohecida,
nada es verdad, aquí nada perdura,
ni el color del cristal con que se mira.

Hoy es un día azul de primavera,
creo que moriré de poesía,
de esa famosa joven melancólica
no recuerdo ni el nombre que tenía.
Sólo sé que pasó por este mundo
como una paloma fugitiva:
la olvidé sin quererlo, lentamente,
como todas las cosas de la vida.


21 Nov 2012


Biblioteca Digital Ciudad Seva

Cartas a una desconocida


Nicanor Parra

Cuando pasen los años, cuando pasen
los años y el aire haya cavado un foso
entre tu alma y la mía; cuando pasen los años
y yo sólo sea un hombre que amó,
un ser que se detuvo un instante frente a tus labios,
un pobre hombre cansado de andar por los jardines,
¿dónde estarás tú? ¡Dónde

estarás, oh hija de mis besos!

sábado, 6 de setembro de 2014

El Hombre Imaginario


El hombre imaginario
vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario
De los muros que son imaginarios
penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios
Todas las tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios
Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario
Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar

el corazón del hombre imaginario

Nicanor Parra

sexta-feira, 6 de junho de 2014

MANCHAS NA PAREDE


(Nicanor Parra)

Antes que caia a noite total
Estudaremos as manchas na parede:
Umas parecem plantas
Outras simulam animais mitológicos.
Hipogrifos,
dragões,
salamandras.
Mas as mais misteriosas de todas
São as que parecem explosões atômicas.
No cinematógrafo da parede
A alma vê o que o corpo não vê:
Homens ajoelhados
Mães com seus filhos nos braços
Monumentos equestres
Sacerdotes que erguem a hóstia:
Órgãos genitais que se reúnem.
Mas as mais extraordinárias de todas
São
sem sombra de dúvida
As que parecem explosões atômicas.

Fonte  Inimigo Rumor

O SORRISO DO PAPA NOS PREOCUPA


Nicanor Parra

ninguém tem o direito de sorrir
em um mundo tão podre como este
a não ser que tenha pacto com o Diabo
S.S. deveria chorar oceanos
e arrancar os cabelos que lhe restam
diante das câmeras de TV
em vez de sorrir pra um lado e pro outro
como se em Chile estivesse tudo bem
É tudo muito suspeito senhoras e senhores!
S.S. deveria condenar
o ditador em vez de fazer vista grossa
S.S. devia perguntar
por suas ovelhas desaparecidas
S.S. deveria pensar um pouquinho
foi para isso que os Cardeais
o coroaram Rei dos Judeus
não para andar de farra com o lobo
que ria então da Santa Mãe se acha engraçado

mas que não zombe assim de nós

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O Anti-Lázaro


(Nicanor Parra)

Morto não se levante dessa tumba
o que você ganharia ressuscitando?
seria uma façanha
e depois
a rotina de sempre
não lhe convém velho não lhe convém
o orgulho o sangue a avareza
a tirania do desejo sexual
as dores causadas pela mulher
o enigma do tempo
as arbitrariedades do espaço
pense bem morto pense bem
já esqueceu como eram as coisas?
ao menor empecilho você explodia
em xingamentos a torto e a direito
tudo lhe incomodava
você já não aturava
nem a própria sombra por companhia
memória fraca velho memória fraca!
seu coração era um monte de escombros
– estou citando seus próprios escritos –
e não restava nada de sua alma
para que voltar então ao inferno de Dante?
para reprisar toda a comédia?
que divina comédia que nada
fogos de artifício – miragens
isca para ratos gulosos
isso sim seria um disparate
felicidade é isso cadáver felicidade é isso
em seu sepulcro não falta nada
e você pode rir dos peixes coloridos
alô – alô está me ouvindo?
quem não preferiria
o amor da terra
às carícias de uma triste prostituta
ninguém de posse dos 5 sentidos
salvo tenha pacto com o diabo
dorme aí homem dorme aí
sem os aguilhões da dúvida
amo e senhor de seu próprio ataúde
na quietude da noite perfeita
livre da rosa e do espinho
como se nunca tivesse estado desperto
não ressuscite por motivo algum
não tem por que ficar nervoso
como disse o poeta
você tem toda a morte pela frente



domingo, 6 de fevereiro de 2011

Me retracto de todo lo dicho


Antes de despedirme

Tengo derecho a un último deseo:

Generoso lector

quema este libro

No representa 1o que quise decir

A pesar de que fue escrito con sangre

No representa lo que quise decir.



Mi situación no puede ser más triste

Fui derrotado por mi propia sombra:

Las palabras se vengaron de mí.



Perdóname lector

Amistoso lector

Que no me pueda despedir de ti

Con un abrazo fiel:

Me despido de ti

con una triste sonrisa forzada.



Puede que yo no sea más que eso

pero oye mi última palabra:

Me retracto de todo lo dicho.

Con la mayor amargura del mundo

Me retracto de todo lo que he dicho.



Ultranza es una bonita palabra que significa “a todo trance, resueltamente”. Es como decir “a muerte”. O sea, Nicanor Parra es y será mamagallista a muerte.


Nicanor Parra.Chile

Quédate con tu Borges

él te ofrece el recuerdo de una flor amarilla

vista al anochecer

años antes que tú nacieras

interesante puchas que interesante

en cambio yo no te prometo nada

ni dinero ni sexo ni poesía

un yogur es lo + que podría ofrecerte

Nicanor Parra.Chile