sábado, 2 de abril de 2016

"Sobre os Sindicatos, o momento atual e os erros de Trotsky"

Lenin: 
16.01.2016

Camaradas: antes de tudo, devo pedir desculpas por haver infringido o regulamento, pois para participar das discussões teria de ter ouvido, naturalmente, o informe, o co-informe e os debates. Infelizmente, meu estado de saúde não mo permitiu. Mas ontem tive oportunidade de ler os documentos mais importantes impressos e de preparar minhas observações. Logicamente, a infração do regulamento a que me referi, implica em certos inconvenientes para vocês: é possível que faça repetições por não saber o que os outros disseram e não responda o que deveria ser respondido. Mas não pude fazer de outro modo.

Meu material básico é o folheto do camarada Trotsky: Sobre o Papel e as Tarefas dos Sindicatos. Comparando este folheto com as teses que ele apresentou no Comitê Central, e lendo-o com atenção, assombra-me a quantidade de erros teóricos e de inexatidões flagrantes que contém. Ao iniciar uma grande discussão no seio do Partido sobre este problema, como pôde preparar uma coisa tão infeliz em vez de apresentar algo mais pensado? Assinalarei, brevemente, os pontos fundamentais nos quais, em minha opinião, há erros teóricos essenciais.

Os sindicatos são uma organização industrial, não só historicamente necessária, mas também historicamente inevitável, que nas condições da ditadura do proletariado engloba quase a totalidade dos operários da indústria. Esta é a ideia fundamental, mas o camarada Trotsky esquece-a constantemente, não parte dela, não a valoriza. O próprio tema proposto por ele: “Papel e Tarefas dos Sindicatos” é excessivamente amplo.

Do que foi dito, conclui-se que em toda a atividade da ditadura do proletariado o papel dos sindicatos é essencial ao máximo. Mas qual é este papel? Passando à discussão deste problema, um dos problemas teóricos mais importantes, chego à conclusão de que o papel dos sindicatos é de extraordinária peculiaridade. De um lado, ao abarcar, ao conter nas fileiras da organização a totalidade dos operários industriais, os sindicatos são uma organização da classe dirigente, dominante, governante, da classe que exerce a ditadura, da classe que aplica a coerção estatal. Mas não é uma organização estatal, não é uma organização coercitiva, é uma organização educadora, uma organização que atrai e instrui, é uma escola, escola de governo, escola de administração, escola de comunismo. É uma escola de tipo completamente desconhecido, pois nos sindicatos não há mestres e alunos, mas certa combinação extraordinariamente original daquilo que ficou do capitalismo, e que não podia deixar de ficar, e do que realizam em seu seio os destacamentos revolucionários avançados, isto é, a vanguarda revolucionária do proletariado. Pois bem, falar do papel dos sindicatos, sem levar em conta estas verdades, significa chegar inevitavelmente a uma série de erros.

Pelo lugar que ocupam no sistema da ditadura do proletariado, os sindicatos estão situados, se é justo dizer assim, entre o Partido e o poder do Estado. Na transição para o socialismo é inevitável a ditadura do proletariado, mas esta ditadura não é exercida pela organização que contém a totalidade dos operários industriais. Por quê? Podemos ler isso nas teses do II Congresso da Internacional Comunista sobre o papel do partido político em geral. Sobre isto não vou deter-me aqui. A questão é que o Partido, se assim se pode dizer, recolhe em seu seio a vanguarda do proletariado, e esta vanguarda exerce a ditadura do proletariado. E sem contar com uma base como os sindicatos não se pode exercer a ditadura, as tarefas estatais não podem ser cumpridas. Mas é preciso realizar estas funções através de uma série de instituições especiais de novo tipo, a saber: através do aparelho dos sovietes. Em que consiste a peculiaridade desta situação no que se refere às conclusões práticas? Como criam os sindicatos o vínculo da vanguarda com as massas; os sindicatos, através do seu trabalho diário, convencem as massas, as massas da única classe capaz de conduzir-nos do capitalismo ao comunismo. Isto de um lado.

De outro, os sindicatos são uma “reserva de forças” do poder do Estado. Isso são os sindicatos no período da transição do capitalismo ao comunismo. Geralmente não se pode realizar essa transição sem que a única classe educada pelo capitalismo para a grande produção e a única que está desligada dos interesses do pequeno proprietário exerça a sua hegemonia. Mas não se pode levar a cabo a ditadura do proletariado através da organização que engloba a totalidade dele. Pois o proletariado ainda está tão dividido, tão rebaixado, tão corrompido em alguns lugares (precisamente pelo imperialismo em certos países), não só na Rússia, um dos países capitalistas mais atrasados, como também nos demais países capitalistas, que a organização integral do proletariado não pode exercer diretamente a ditadura deste. A ditadura só pode ser exercida pela vanguarda, que concentra em suas fileiras a energia revolucionária da classe. Temos, pois, algo assim como uma série de rodas dentadas. Tal é o mecanismo da própria base da ditadura do proletariado, da própria essência da transição do capitalismo ao comunismo. Disto já se pode concluir que, quando o camarada Trotsky, ao se referir na primeira tese à “confusão ideológica”, fala de uma crise especialmente e precisamente dos sindicatos, há no fundo desta afirmação alguma coisa errada do ponto de vista dos princípios. Falando de crise, só o podemos fazer depois de analisar o momento político. Quem tem “confusão ideológica” é precisamente Trotsky, porque ele e não outro, na questão fundamental relativa ao papel dos sindicatos, do ponto de vista da transição do capitalismo ao comunismo, não percebeu, não levou em conta que nesse caso estamos em face de um complexo sistema de várias engrenagens e não pode haver um sistema simples, dada a impossibilidade de exercer a ditadura do proletariado através da organização que abarca a sua totalidade. Não se pode realizar a ditadura sem várias “correias de transmissão”, que vão da vanguarda às massas da classe avançada, e destas às massas trabalhadoras. Na Rússia, as massas trabalhadoras são camponesas; em outros países não existem tais massas, mas mesmo nos países mais adiantados há uma massa não proletária ou não puramente proletária. É esta efetivamente a razão da “confusão ideológica”. Trotsky em vão responsabiliza os outros por ela.

Quando examino o papel dos sindicatos na produção, comprovo que Trotsky incorre no erro fundamental de sempre falar deste problema “em princípio”, de falar do “princípio geral”. Em todas as suas teses, Trotsky parte do ponto de vista do “princípio geral”. Já neste sentido, a formulação é radicalmente errada. Isto sem dizer que já o IX Congresso do Partido falou bastante sobre o papel dos sindicatos na produção, falou mais do que era necessário. E sem dizer que ele, Trotsky, reproduz em suas próprias teses umas afirmações perfeitamente claras de Lozovski e Tomski, dos quais se utiliza para fazê-los desempenhar o papel de “saco de pancadas”, como se diz em alemão, ou de objeto em que exercita seus dotes polêmicos. Não há divergências de princípio, e foram escolhidos para isso, por azar, Tomski e Lozovski, que escreveram coisas citadas pelo próprio Trotsky. Nelas nada encontraremos de sério no terreno das divergências de princípio, por muito interesse que tenhamos em encontrá-las. Em geral, o erro gigantesco, o erro de princípio, consiste em que o camarada Trotsky arrasta o Partido e o poder soviético para trás, formulando agora a questão “no terreno dos princípios”. Felizmente passamos dos princípios ao trabalho prático, positivo. No Smolni(2), falamos sobre os princípios, e, inegavelmente, mais do que era preciso. Agora, passados três anos, sobre todos os pontos do problema da produção, sobre toda uma série de elementos integrantes deste problema, existem decretos, mas os decretos são coisas tão infelizes que, depois de assiná-los, nós mesmos os lançamos ao esquecimento e não os cumprimos. E depois, arbitrariamente, divaga-se sobre os princípios, inventam-se divergências de princípio. Mais adiante, assinalarei um decreto que se refere ao problema do papel dos sindicatos na produção, decreto que todos esquecemos, e eu também, do que me arrependo.

As divergências efetivas que existem não se referem de modo algum a questões relativas aos princípios gerais, salvo as que enumerei. Eu tinha o dever de salientar essas minhas “divergências” com o camarada Trotsky, que acabo de enumerar, pois ao escolher um tema tão amplo, como Papel e Tarefas dos Sindicatos, o camarada Trotsky, em minha opinião, incorreu em diversos erros acerca da própria essência da questão relativa à ditadura do proletariado. Mas, pondo isso de lado, é justo perguntar qual a razão por que não conseguimos em nosso trabalho a seriedade de que tanto necessitamos. Isto se deve à divergência sobre os métodos de abordar as massas, de ganhar as massas, de nos ligarmos às massas. Nisto consiste a essência da questão. Nisto reside justamente a peculiaridade dos sindicatos como instituições criadas no capitalismo, inevitáveis na transição do capitalismo ao comunismo e discutíveis quanto ao futuro. Está longe esse futuro que os sindicatos serão uma interrogação; nossos netos terão que enfrentar isso. Mas agora trata-se de como abordar as massas, de como ganhá-las, de como ligarmos a elas, de como garantir a boa marcha das complicadas correias de transmissão do trabalho (do trabalho destinado a exercer a ditadura do proletariado). Observem que, quando falo das complicadas correias de transmissão do trabalho, não penso no aparelho dos sovietes. O que se deve dizer sobre a complexidade das correias de transmissão, constitui um capítulo à parte. No momento, só falo em abstrato e do ponto de vista dos princípios sobre a relação entre as classes na sociedade capitalista; nela há proletariado, há massas trabalhadoras não proletárias, há a pequena burguesia e há a burguesia. Deste ponto de vista, mesmo que não houvesse burocratismo no aparelho do poder soviético, já temos uma extraordinária complexidade de correias de transmissão, em virtude do que foi criado pelo capitalismo. E nisto é preciso pensar sobretudo quando surge o problema da dificuldade da “tarefa” dos sindicatos. Repito, a divergência efetiva não consiste de modo algum no que pensa o camarada Trotsky, mas no problema de como ganhar as massas, no problema de como abordá-las, de como nos ligarmos com elas. Devo dizer que se estudássemos detalhada e minuciosamente, embora em pequenas proporções, a nossa própria prática, a nossa experiência, evitaríamos inúmeras “divergências” e erros de princípios supérfluos de que está cheio o folheto do camarada Trotsky. Por exemplo, há teses inteiras no folheto consagradas à polêmica sobre o “trade-unionismo soviético”. Inventou-se um novo espantalho, como se fossem poucos os existentes! E quem o inventou? O camarada Riazanov. Conheço o camarada Riazanov há vinte e tantos anos. Vocês o conhecem há menos tempo do que eu, mas o conhecem tanto quanto eu em relação às suas atividades. Sabem muito bem que entre os lados fortes que ele possui não está o de saber avaliar as palavras de ordem. E por que vamos apresentar nas teses como “trade-unionismo soviético” aquilo que o camarada Riazanov disse em certa ocasião tão inoportunamente? Isto é sério? Se for assim, então teremos “trade-unionismo soviético”, “posição soviética contrária ao tratado de paz” e não outras tantas coisas parecidas. Não há um único assunto em que não se possa colocar um “ismo” soviético. (Riazanov: “antibrestismo soviético”) Sim, absolutamente certo, “antibrestismo soviético”.

Incorrendo entretanto nesta falta de seriedade, o camarada Trotsky, por sua vez, comete um novo erro. Conclui ele que a defesa dos interesses materiais e espirituais da classe operária não é da incumbência dos sindicatos em um Estado operário. Isto é um erro. O camarada Trotsky fala de “Estado operário”. Permitam-me dizer que isto é pura abstração. Compreende-se que em 1917 escrevêssemos sobre o Estado operário, mas agora comete-se um erro evidente quando se diz: Para que e ante de quem defender a classe operária, se não há burguesia e o Estado é operário? Não se trata de um Estado completamente operário, aí está o x da questão. É nisto realmente que reside um dos erros fundamentais do camarada Trotsky. Agora que passamos dos princípios gerais ao exame prático e aos decretos, querem arrastar-nos para trás, desviando-nos do trabalho prático e positivo. Isto não é admissível. Em nosso país, o Estado não é, na realidade, operário, e sim operário e camponês. Isto em primeiro lugar. E daí decorrem muitas coisas. (Bukharin: Que Estado? Operário e Camponês?). E, embora o camarada Bukharin grite lá de trás: “Que Estado? Operário e Camponês?”, não lhe responderei isto. Quem quiser, pode lembrar-se do Congresso dos Sovietes que acaba de se realizar e nele encontrará a resposta.

Porém há mais alguma coisa. No programa de nosso Partido — documento que o autor do "O ABC do Comunismo" conhece muito bem — já assinalamos que nosso Estado é operário com uma deformação burocrática. Tivemos que pendurar-lhe — como diria eu? — esta lamentável etiqueta, ou coisa parecida. É esta a realidade do período de transição. Pois bem, será que diante desse tipo de Estado, que praticamente se consolidou, nada têm os sindicatos a defender? Pode-se dispensá-los na defesa dos interesses materiais e espirituais do proletariado organizado em sua totalidade? Esta seria uma opinião completamente errada do ponto de vista teórico. Isto nos levaria às regiões da abstração ou de um ideai que alcançaremos no fim de quinze ou vinte anos, embora eu não esteja seguro de que o alcançaremos precisamente neste prazo. Temos diante de nós uma realidade que conhecemos bem, se não perdemos a cabeça, se não nos deixamos levar por especulações pretensamente intelectuais, ou por raciocínios abstratos, ou por alguma coisa que às vezes parece “teoria”, mas que na realidade é um erro, uma falsa apreciação das particularidades do período de transição. Nosso Estado de hoje é tal que o proletariado organizado em sua totalidade deve defender-se, e nós devemos utilizar estas organizações operárias para defender os operários em face de seu Estado e para que os operários defendam nosso Estado. Uma e outra defesa são realizadas através de uma combinação original de nossas medidas estatais e de nosso acordo e “entrelaçamento” com nossos sindicatos.

Desse entrelaçamento falarei mais adiante. Mas esta palavra já demonstra por si que inventar aqui um inimigo personificado pelo “trade-unionismo soviético” equivale a cometer um erro. Pois o conceito de “entrelaçamento” significa que há em presença coisas diferentes que ainda é preciso entrelaçar; o conceito de “entrelaçamento” subentende a necessidade de saber utilizar as medidas do poder estatal para defender diante deste poder estatal os interesses materiais e espirituais do proletariado organizado em sua totalidade. Porém, quando em lugar de entrelaçamento tenhamos articulação e fusão, então nos reuniremos num congresso em que faremos um exame positivo da experiência prática, e não de “divergências” de princípio ou de raciocínio teóricos abstratos. Também é infeliz a tentativa de descobrir divergências de princípios com o camarada Tomski e o camarada Lozovski, que são apresentados pelo camarada Trotsky como “burocratas” sindicais (mais adiante direi em qual das partes em choque há tendências burocráticas). Sabemos muito bem que se o camarada Riazanov tem as vezes a pequena debilidade de inventar sem necessidade uma palavra de ordem, e quase uma palavra de ordem de princípio, o camarada Tomski não tem este defeito, apesar dos muitos de que padece. Por isso, parece-me que iniciar um combate com o camarada Tomski sobre os princípios (como faz o camarada Trotsky) é passar do limite. Isto, na verdade, assombra-me. Houve um tempo em que todos nós demos muitos tropeções no que se refere às divergências fracionais, teóricas e de outros tipos (mas, é claro, também fizemos alguma coisa de útil), e parece que desde então superamos isso. Já é hora de passar da invenção e dos exageros sobre divergências de princípio para um trabalho prático. Nunca ouvi dizer que em Tomski predomine o teórico, que Tomski pretenda ostentar o título de teórico; talvez isso seja um defeito seu, isso já é outra questão. Mas Tomski, integrado como está com o movimento sindical, tem que refletir, consciente ou inconscientemente (isso já é outra questão, eu não digo que o faça sempre conscientemente), dada a sua situação, tem que refletir este complicado período de transição, e se quando alguma coisa dói nas massas e elas próprias não sabem o que lhes dói e ele também não o sabe (aplausos e risos), se então ele esbraveja, afirmo que isto é um mérito e não defeito. Estou absolutamente convencido de que podem ser encontrados em Tomski muitos erros teóricos parciais. É todos nós, se nos sentamos em torno de uma mesma mesa e escrevemos atentamente uma resolução ou umas teses, nelas introduziremos emendas, ou talvez não as introduzamos, pois o trabalho de produção é mais interessante do que a correção de divergências teóricas de pouca importância.

Passo agora à “democracia na produção”; isto, a bem dizer, é para Bukharin. Sabemos muito bem que cada pessoa tem pequenas debilidades, até as grandes personalidades padecem de pequenas fraquezas, inclusive Bukharin. Se surge uma expressão artificiosa, imediatamente Bukharin se pronuncia a favor dela. No pleno do Comitê Central, reunido a 7 de setembro, Bukharin escreveu quase com voluptuosidade uma resolução sobre a democracia na produção. E quanto mais penso nesta “democracia na produção”, mais claramente vejo-lhe a falsidade teórica, vejo que lhe faltou meditação. A única coisa que dela resultou foi a confusão. Diante disso, pelo menos em uma assembleia do Partido, é preciso dizer mais uma vez: “Camarada N. I. Bukharin, menos floreios verbais: assim será melhor para você, para a teoria e para a República”. (Aplausos) A produção é sempre necessária. A democracia é uma das categorias exclusivamente da esfera política. Não se pode ser contra o emprego desta expressão em um discurso ou em um artigo. O artigo leva em conta e expressa com todo o destaque uma correlação, e isto basta. Mas quando se converte isto em tese, quando disto se deseja fazer uma palavra de ordem que agrupe “conformados” e divergentes, quando se diz, como faz Trotsky, que o Partido deverá “escolher entre duas tendências”, isto já é completamente estranho. Referir-me-ei em especial a se o Partido deverá “escolher”, e de quem é a culpa de haver-se colocado o Partido na contingência de ter que “escolher”. De vez que a coisa já está formulada assim, devemos dizer: de qualquer modo, escolham menos palavras de ordem teoricamente falsas e que só causam confusão, como a da “democracia na produção”. Nem Trotsky nem Bukharin pensaram com a necessária clareza teórica sobre essa expressão, tanto um como o outro se confundiram. A “democracia na produção” sugere pensamentos que de nenhum modo se enquadram no âmbito de ideias que ambos possuíam. Eles queriam assinalar, fixar mais a atenção na produção, o que ficaria bem em um artigo ou discurso; mas quando o dito se converte em tese e quando o Partido deve escolher, eu afirmo: não escolham isto, porque é uma confusão. A produção é sempre necessária, a democracia nem sempre. A democracia na produção dá lugar a uma série de ideias radicalmente falsas. Recentemente a direção unipessoal era defendida. Não se pode fazer uma mistura, criando o perigo de confundir as pessoas: certas vezes, democracia, outras, direção unipessoal, e outras, ditadura. De nenhum modo é preciso renunciar à ditadura. Ouço que atrás de mim Bukharin grita: “Completamente exato”. (Risos. Aplausos)

Prossigamos. Desde setembro falamos da passagem do sistema de trabalho de choque ao igualitarismo; falamos disto na resolução da conferência geral do Partido, aprovada pelo Comitê Central. A questão é árdua. De uma forma ou de outra é preciso combinar o igualitarismo e o sistema de trabalho de choque, mas estes dois conceitos se excluem mutuamente. No entanto, estudamos um pouco o marxismo, aprendemos como e quando se pode e se deve unir os contrários, e o que é principal: em nossa revolução, há três anos e meio, unimos os contrários praticamente e em muitas ocasiões.

É claro que é preciso abordar o problema com muita prudência e meditação. Porque já nos lamentáveis plenos do CC(3), nos quais se formaram o grupo de sete, o de oito e o famoso “grupo tampão” do camarada Bukharin, falamos destas questões de princípios e determinamos que não é fácil passar do sistema de trabalho de choque ao igualitarismo. E para cumprir este acordo da Conferência de Setembro, devemos trabalhar um pouco, pois estes conceitos opostos podem ser unidos de maneira a resultar numa cacofonia ou de maneira a resultar numa sinfonia. O sistema de trabalho de choque equivale a dar preferência a uma produção, entre todas as necessárias, em virtude de sua maior urgência. Em que deve consistir a preferência? Que proporções deve alcançar? Esta é uma questão difícil, e devo dizer que para resolvê-la não basta a dedicação no cumprimento das tarefas, não basta o heroísmo pessoal de quem talvez reúna muitas qualidades excelentes, mas que valerá mais se ocupar o posto que deve ocupar; é preciso saber abordar um problema tão peculiar como este. Se se coloca a questão do sistema de trabalho de choque e do igualitarismo, a primeira coisa que deve ser feita é abordá-la com grande prudência, e isso é precisamente o que não se observa no trabalho do camarada Trotsky; quanto mais reelabora suas teses iniciais, mais princípios falsos nelas existem. Eis o que lemos em uma de suas últimas teses:

“...Na esfera do consumo, isto é, das condições de existência pessoal dos trabalhadores, é preciso aplicar a linha do igualitarismo. Na esfera da produção, o princípio do sistema de trabalho de choque continuará sendo para nós ainda durante muito tempo o decisivo...” (teses 41, pág. 31 do folheto de Trotsky).

Isto é uma completa confusão teórica. Isto é totalmente errado. O sistema de trabalho de choques implica numa preferência, mas a preferência sem consumo é uma enteléquia. Se há uma preferência em relação a mim e recebo um oitavo de libra de pão, não necessito dessa preferência para nada. A preferência no sistema do trabalho de choque é também preferência no consumo. Sem isto, o sistema de trabalho de choque é um sonho, uma fantasia, mas nós somos materialistas. E os operários são materialistas; se se fala do sistema de trabalho de choque, é preciso dar pão, roupa e carne. Só assim compreendíamos e continuamos compreendendo estes problemas ao discuti-los centenas de vezes, por motivos concretos, no Conselho de Defesa(4), quando um dirigente quer receber mais dizendo: “Minha fábrica é de choque”, e outro replica: “Dê-me mais, porque do contrário os operários de choque de tua fábrica não resistirão e o teu trabalho fracassará”.

Assim, pois, em relação com o igualitarismo e o sistema de trabalho de choque, a questão está colocada na tese de modo radicalmente falso. Além disso, redunda num retrocesso em relação ao que já foi praticamente comprovado e alcançado. Isso não é admissível, e indo por esse caminho não se pode conseguir nada de bom.

Outra questão: a do “entrelaçamento”. O mais certo, nestes momentos, seria não falar de “entrelaçamento”. A palavra é de prata, e o silêncio é de ouro. Por quê? Porque praticamente já nos ocupamos do entrelaçamento; não existe nem um Conselho Econômico provincial de importância, nem uma grande seção do Conselho Superior de Economia Nacional, do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, etc, em que não se tenha realizado praticamente o entrelaçamento. Mas os resultados são bons de todo? Aí, precisamente, está a dificuldade. Estudem a experiência prática de como se efetuou o entrelaçamento e o que se conseguiu com isso. São tantos os decretos em virtude dos quais se aplicou o entrelaçamento, em uma ou outra instituição, que não é possível enumerá-los. Mas ainda não soubemos estudar de modo prático o que resultou disto: o que deu o entrelaçamento em tal ou qual ramo da indústria, quando um membro qualquer de um sindicato provincial passou a ocupar um determinado posto no Conselho Econômico provincial; a que isto conduziu, quantos meses durou este entrelaçamento, etc. Ainda não soubemos estudar com um critério positivo nossa própria experiência prática. Soubemos inventar uma divergência de princípio sobre o entrelaçamento e, além disso, soubemos cometer um erro — nisso somos mestres —, mas não somos capazes de estudar nossa experiência e comprová-la. Pois bem, quando realizarmos congressos dos sovietes, em que, além de seções para o estudo das zonas agrícolas, do ponto de vista de uma ou outra aplicação da lei de melhoria da agricultura, haja seções para o estudo do entrelaçamento, para o estudo dos resultados do entrelaçamento na indústria moageira da província de Sarátov, ou da metalúrgica em Petrogrado, ou da indústria carvoeira no Donbass, etc; quando estas seções, depois de reunir grande quantidade de materiais, declararem: “estudamos isto e outras coisas mais”, então direi: “Sim, começamos a fazer alguma coisa de prático, saímos da infância!” Mas, que haverá de mais lamentável e errado, se depois de estar três anos aplicando o entrelaçamento, apresentam-nos umas “teses” em que se inventam divergências de princípio sobre o assunto? Empreendemos o caminho do entrelaçamento e não duvido que o empreendemos com acerto, mas ainda não estudamos devidamente os resultados de nossa experiência. Por isso, a única tática inteligente sobre o problema do entrelaçamento é a de ficar calado.

É preciso estudar a experiência prática. Assinei decretos e dispositivos onde estão contidas indicações sobre entrelaçamentos práticos, e a prática é cem vezes mais importante do que qualquer teoria. Por isso, quando se diz: “Vamos falar de “entrelaçamento” respondo: “Vamos estudar o que fizemos”. Não há dúvida de que cometemos muitos erros. Também é possível que grande parte de nossos decretos deva ser modificada. Concordo com isto, e não sinto a menor predileção pelos decretos. Mas então apresentem propostas práticas: é preciso refazer uma ou outra coisa. Isto será uma formulação positiva da questão. Isto não será um trabalho improdutivo. Isto não levará a cair na mania burocrática de fazer projetos. Quando vejo no folheto de Trotsky o capítulo VI: “Conclusões práticas”, estas conclusões práticas padecem precisamente do referido defeito. Pois nelas afirma-se que devem fazer parte do Conselho Central dos Sindicatos da Rússia e do Presidium do Conselho Superior de Economia Nacional de um terço à metade dos membros que integram ambas as instituições e nas juntas assessoras da metade a dois terços, etc. Por quê? Simplesmente, “de oitiva”. É natural que, frequentemente, se façam precisamente em nossos decretos semelhantes correções “de oitiva”. Mas porque é inevitável que se faça isto nos decretos? Não sou defensor de todos os decretos e não pretendo torná-los melhores do que são na realidade. Há neles, a cada passo, grandezas convencionais tais como metade, um terço dos membros que integram uma e outra instituição, etc, grandezas calculadas a olho. Quando num decreto se diz uma tal coisa, isso significa: experimentai fazê-lo assim, pois balancearemos imediatamente os resultados de vossa “experiência”. Logo esclareceremos o resultado obtido. Quando tenhamos o resultado esclarecido, poderemos progredir. Estamos aplicando o entrelaçamento e o aplicaremos cada vez melhor, pois somos cada vez mais práticos e experientes.

Mas, pelo visto, comecei a enrascar-me na “propaganda dentro da esfera da produção”. É inevitável. Falando do papel dos sindicatos na produção, é preciso tocar necessariamente neste problema.

Passo ao ponto da propaganda, no terreno da produção. É também uma questão prática, que colocamos com um critério prático. Existem instituições estatais para a propaganda no terreno da produção, que já foram criadas(5). Se são boas ou más, não sei, é preciso comprová-las; e de modo algum é necessário escrever “teses” sobre esta questão.

Falando conjuntamente do papel dos sindicatos na produção, no que se refere à democracia nada mais é necessário além do democratismo comum. Artifícios como o da “democracia na produção” são falsos, e nada de útil surgirá deles. Isto em primeiro lugar. Em segundo, a propaganda no terreno da produção. As instituições já estão criadas. As teses de Trotsky falam da propaganda na esfera da produção. Falam em vão, porque as “teses” sobre isto já são uma coisa antiquada. Se a instituição é boa ou má, ainda não o sabemos. Experimentaremos na prática e então falaremos. Vamos estudá-la e pedir pareceres. Suponhamos que se formam no Congresso dez seções compostas de dez membros cada uma: “Tu te ocupaste da propaganda na esfera da produção? Como? Quais os resultados?” Depois de estudar isto, recompensaremos aqueles que alcançaram êxitos e desprezaremos a experiência negativa. Já contamos com uma experiência prática, escassa, pequena, mas temo-la, e, apesar dela, querem fazer-nos voltar atrás, às “teses de princípio”. Mais que “trade-unionismo”, isto é um movimento “reacionário”.

Em terceiro lugar, o sistema de prêmios. Esses são o papel e a tarefa dos sindicatos na produção: a concessão de prêmios em espécie. A coisa começou. A coisa está em marcha. Para isto foram destinados quinhentos mil puds de trigo e já foram distribuídos cento e setenta mil. Não sei se foram bem distribuídos, com justeza. No Conselho de Comissários do Povo informou-se: não se faz bem a distribuição, e em lugar de prêmios verifica-se um aumento do salário; isto foi assinalado tanto pelos dirigentes sindicais, como pelos dirigentes do Comissariado do Povo do Trabalho. Designamos uma comissão para estudar o assunto, mas ela ainda não o fez. Foram distribuídos cento e setenta mil puds de trigo, mas é preciso fazê-lo de maneira que se recompense quem revelou heroísmo, eficiência, talento e grande preocupação como dirigente na esfera da economia, numa palavra, quem haja revelado as qualidades que Trotsky louva. Mas trata-se agora não de entoar loas nas teses, mas de dar pão e carne. Não será melhor que, por exemplo, não se entregue a carne a uma determinada categoria de operários e se a distribua em forma de prêmios a outros, aos operários “de choque”? Não desprezamos este sistema de trabalho de choque. Precisamos dele. Estudaremos seriamente a experiência prática de nossa aplicação desse sistema.

Em quarto lugar, os tribunais disciplinadores. O papel dos sindicatos na produção, a “democracia na produção” — diremos ao camarada Bukharin sem espírito de censurá-lo —, são puras bagatelas se não existem tribunais disciplinadores. Mas em vossas teses isto não é visto. Assim, pois, no terreno dos princípios, no terreno teórico e no terreno prático, surge uma só conclusão a propósito das teses de Trotsky e da posição de Bukharin: é uma pena!

Chego ainda mais a esta conclusão quando considero que não colocais a questão de modo marxista. Não é somente o fato de que nas teses haja uma série de erros teóricos. A análise do “papel e das tarefas dos sindicatos” não é marxista porque não se pode abordar um tema tão vasto sem meditar nas particularidades do momento atual em seu aspecto político. Pois não foi em vão que escrevemos, juntamente com o camarada Bukharin, na resolução do IX Congresso do PC da Rússia sobre os sindicatos, que a política é a expressão mais concentrada da economia.

Analisando o atual momento político, poderíamos dizer que atravessamos um período de transição dentro do período de transição. Toda a ditadura do proletariado é um período de transição, mas agora, temos, como se diz, toda uma série de novos períodos transitórios. Desmobilização do exército, término da guerra, possibilidade de uma trégua pacífica muito mais prolongada do que antes, possibilidade de passar mais firmemente da frente da guerra para a frente do trabalho. Só por isto, somente por isto, muda a atitude da classe proletária em face da classe camponesa. Como muda? Isto é preciso ser examinado com a maior atenção, coisa que não fazeis em vossas teses. E enquanto não o examinarmos assim, é preciso saber esperar. O povo está mais que cansado, toda uma série de reservas que deveriam ser consumidas por algumas indústrias de choque já estão esgotadas, modifica-se a atitude do proletariado em relação aos camponeses. O cansaço da guerra é imenso, as necessidades aumentaram, mas a produção não foi incrementada, ou foi incrementada de maneira insuficiente. Por outro lado, eu indicava, em meu informe ao VIII Congresso dos Sovietes, que aplicamos com acerto e resultado a coerção, quando soubemos baseá-la, antes de tudo, em um trabalho de persuasão. Devo dizer que Trotsky e Bukharin não levaram absolutamente em conta esta importantíssima consideração.

Soubemos colocar todas as novas tarefas da produção sobre uma base devidamente ampla e sólida de trabalho de persuasão? Não, apenas começamos a fazê-lo. Ainda não soubemos atrair as massas. Mas podem as massas passar imediatamente a cumprir estas novas tarefas? Não podem, porque a questão, suponhamos, de que se é preciso acabar com o latifundiário Wrangel e de que para isto é necessário sacrifícios, uma tal questão não requer uma propaganda especial; mas quanto à questão do papel dos sindicatos na produção — se se considera não o problema “de princípio”, não as divagações sobre o “trade-unionismo soviético” e outras ninharias, mas o aspecto prático do problema —, não fomos além de começar a elaborá-la, nada mais fizemos do que criar a instituição para realizar a propaganda na esfera da produção; ainda não temos experiência. Estabelecemos os prêmios em espécie, mas ainda necessitamos de experiência. Criamos os tribunais disciplinadores, mas ainda desconhecemos os seus resultados. E do ponto de vista político, o mais importante é, certamente, a preparação das massas. A questão, sob este ponto de vista, já foi estudada, meditada, balanceada? Absolutamente. E nisto está o erro político radical, profundíssimo e perigoso, porque nesta questão, mais que em qualquer outra, é preciso atuar segundo a regra que diz: “medir sete vezes antes de cortar”; mas puseram-se a cortar sem haver medido uma só vez. Dizem que “o Partido deve escolher entre duas tendências”, mas não mediram ainda uma só vez e passaram a inventar a falsa palavra de ordem da “democracia na produção”.

É preciso compreender o significado desta palavra de ordem sobretudo num momento político em que o burocratismo aparece diante das massas com toda a clareza e quando colocamos na ordem-do-dia a questão relacionada com isto. O camarada Trotsky diz nas teses que, quanto à questão da democracia operária, ao Congresso “não lhe resta mais do que registrar o seu parecer unânime”. Isto é falso. Não basta registrar; registrar significa sancionar o que foi bem balanceado e medido, enquanto que a questão da democracia na produção ainda está muito longe de haver sido balanceada a fundo, não está experimentada, não está comprovada. Pensai na interpretação que as massas podem dar, quando se proclama a palavra de ordem da “democracia na produção”.

“Nós, homens médios, homens da massa, dizemos que é preciso renovar, que é preciso corrigir, que é preciso derrubar os burocratas, e tu tratas de desorientar-nos dizendo que nos dediquemos à produção, que destaquemos a democracia nos êxitos da produção; mas eu não quero trabalhar com este pessoal burocrático das administrações, das direções gerais, etc, mas com outro pessoal.” Não deixastes que as massas falassem, assimilassem e pensassem, não deixastes que o Partido adquirisse nova experiência, e já sentis pressa, exagerais o tom e criais fórmulas que são falsas do ponto de vista teórico. E como não serão acentuados estes erros pelos executores excessivamente zelosos! Um dirigente político não responde apenas pelo modo como dirige, mas também por aquilo que fazem os dirigidos por ele. Isto, às vezes, ele não o sabe, e frequentemente não o quer saber, mas a responsabilidade recai sobre ele.

Passo agora a tratar dos plenos do Comitê Central, de novembro (dia 9) e dezembro (dia 7), que expressaram todos estes erros não como postulados lógicos, como premissas, como raciocínios teóricos, mas na ação. No Comitê Central fez-se uma mistura e uma confusão; era a primeira vez que tal coisa ocorria na história de nosso Partido, durante a revolução, e isto era preciso. A questão reside em que se deu uma divisão, surgiu o grupo “tampão” de Bukharin, Preobrajenski e Serebriakov, o grupo que mais prejuízo causou e que mais embrulhou as coisas.

Recordai a história da Seção Política Geral do Comissariado do Povo das Vias de Comunicação(6) e a do Comitê Central do Sindicato do Transporte(7). Na resolução do I Congresso do PC de Toda a Rússia, em abril de 1920, dizia-se que a Seção Política Geral do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação era criada na qualidade de instituição “temporária”, e que “no prazo mais curto possível era necessário passar à normalização da situação. Em setembro, lia-se: “Passemos a uma situação normal”(8). Em novembro (dia 9) o pleno se reuniu e Trotsky apresentou suas teses, suas divagações sobre o trade-unionismo. Por mais excelentes que fossem algumas de suas frases com respeito à propaganda na esfera da produção, era preciso dizer que tudo aquilo não vinha ao acaso, não tinha sentido prático, constituía um passo atrás e não era possível nos ocuparmos disso no Comitê Central do Partido. Bukharin disse: “Isto está muito bem”. Pode ser que estivesse muito bem, mas isso não era uma resposta. Depois de acalorados debates foi aprovada uma resolução por dez votos contra quatro, em que se dizia, em forma correta e cordial, que o próprio Comitê Central do Sindicato do Transporte “já havia colocado na ordem-do-dia” a necessidade de “reforçar e desenvolver os métodos da democracia proletária dentro do sindicato”. Dizia-se que o Comitê Central do Sindicato de Transporte devia “tomar parte ativa no trabalho geral do Conselho Central dos Sindicatos da Rússia, fazendo parte dele com os mesmos direitos que os demais sindicatos”.

Qual era a ideia fundamental desta resolução do CC? É clara:

“Camaradas do Comitê Central do Sindicato do Transporte: cumpri os acordos do Congresso e do CC do Partido não de um modo formal, mas concretamente, para ajudar com vosso trabalho todos os sindicatos, para que não fique nem o rastro do burocratismo, de preferência, de vaidades, como a manifestada pelos que dizem: Somos melhores que vós, temos mais que vós, recebemos mais ajuda”.
Depois disto passamos ao trabalho prático. Quando já estava constituída a comissão e se publicara a lista de seus componentes, Trotsky retirou-se dela, impediu o seu funcionamento, não quis colaborar com ela. Por quê? Só havia uma razão: Lutovinov só costuma jogar na oposição. É certo. E Osinski também. Isto é um jogo desagradável, digo conscientemente. Mas isto, por acaso, era um motivo? Osinski organizou perfeitamente a campanha de sementes. Era preciso trabalhar com ele, apesar de sua “campanha oposicionista”, e um comportamento como esse, de fazer fracassar a comissão, é burocrático, não soviético, não socialista, desatinado e politicamente funesto. No momento em que é necessário estabelecer um limite claro entre os elementos sãos e os elementos nocivos da “oposição”, esse comportamento é três vezes desatinado e politicamente funesto. Quando Osinski desencadeia a “campanha oposicionista”, digo-lhe: “é uma campanha funesta”; mas quando desenvolve a campanha de sementes, é preciso felicitá-lo. Nunca negarei que Lutovinov comete um erro com sua “campanha oposicionista”, da mesma maneira que Ischenko e Shliapnikov, mas isto não é motivo para fazer a comissão fracassar.

Qual o significado exato desta comissão? Significava a passagem das divagações com pretensões intelectuais sobre divergências sem substância para um trabalho prático. Propaganda na esfera da produção, prêmios, tribunais disciplinadores: disso é que se devia falar, nisso tinha que trabalhar a comissão. Mas foi então que o camarada Bukharin, chefe do “grupo tampão, com Preobrajenski e Serebriakov, vendo a perigosa divisão surgida no CC do Partido, pôs-se a criar um tampão, um tal tampão que não encontro um termo parlamentar para qualificá-lo. Se eu soubesse fazer caricaturas como o camarada Bukharin, mostraria o camarada Bukharin com um balde de petróleo, jogando o líquido no fogo, e poria esta legenda: “O petróleo do tampão”. O camarada Bukharin quis criar alguma coisa; não há dúvida de que o seu desejo era o mais sincero e “tamponador” possível. Mas não redundou em um tampão, redundou em que não levou em conta o momento político, e, por conseguinte, incorreu em erros teóricos.

Havia necessidade de levar todos esses debates a uma ampla discussão, de ocupar-se de semelhante ninharia e desperdiçar semanas tão preciosas para nós nas vésperas do Congresso do Partido? Durante esse tempo poderíamos ter elaborado e estudado a questão dos prêmios, dos tribunais disciplinadores e do entrelaçamento. Teríamos resolvido estas questões com um sentido prático na comissão do CC do Partido. Se o camarada Bukharin queria criar um tampão e não desejava encontrar-se na situação da pessoa que se enganou de porta, teria que haver dito e insistido que o camarada Trotsky não abandonasse a comissão. Se houvesse dito e feito isto, teríamos empreendido um caminho positivo e haveríamos esclarecido, nesta comissão, como deve ser na realidade a direção unipessoal, como deve ser a democracia, quais são os que devem ser designados para os cargos, etc.

Prossigamos. Em dezembro (Pleno do dia 7) deu-se o choque com os dirigentes do transporte fluvial e marítimo, que veio agravar o conflito, e como resultado disso no Comitê Central do Partido reuniram-se oito votos contra os nossos sete. O camarada Bukharin escreveu apressadamente a parte “teórica” da resolução do pleno de dezembro, tratando de “apaziguar” e de fazer funcionar o “tampão”, mas é claro que depois do fracasso da comissão não podia resultar disso nada de proveitoso.

É preciso recordar que um dirigente político não responde apenas por sua política, mas também pelo que fazem os que são dirigidos por ele.

Muito bem, em que consistiu o erro da Seção Política Geral do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação e do Comitê Central do Sindicato dos Transportes? Não consistiu absolutamente em haver aplicado a coerção; ao contrário, nisto reside o seu mérito. Seu erro foi não saber passar, em tempo e sem conflitos, segundo exigia o IX Congresso do PCR, para um trabalho sindical normal, foi não saber adaptar-se, como devia, aos sindicatos, foi não saber ajudá-los, estabelecendo com eles relações em pé de igualdade. Há uma valiosa experiência dos tempos da guerra civil: heroísmo, grande zelo no cumprimento das tarefas, etc. É um aspecto negativo na experiência dos piores elementos dessa mesma época de guerra: o burocratismo, a vaidade. As teses de Trotsky, apesar de sua consciência e de sua vontade, não defendem o melhor aspecto da experiência dos tempos de guerra, mas seu aspecto mais negativo. É preciso relembrar que um dirigente político não responde apenas por sua política, como também por aquilo que os seus dirigidos façam.

A última coisa que queria dizer-lhe, e de que ontem tive que me criticar, é que passei por alto nas teses do camarada Rudzutak. Rudzutak tem o defeito de não saber falar alto, de maneira persuasiva e com beleza. É fácil não prestar atenção, não se inteirar do que ele diz. Ontem, ao não poder assistir à reunião, repassei meus papéis e encontrei entre eles uma folha editada a propósito da V Conferência de Sindicatos de Toda a Rússia, reunida de 2 a 6 de novembro de 1920. Esta folha tem como título: As Tarefas dos Sindicatos na Produção. Vou lê-las, o texto não é muito grande:

À V Conferência de Sindicatos de Toda a Rússia
As tarefas dos sindicatos na produção
Teses do informe do camarada Rudzutak
Imediatamente após a Revolução de Outubro, os sindicatos tornaram-se quase os únicos organismos que, ao lado da aplicação do controle operário, podiam e deviam assumir a tarefa de organizar e dirigir a produção. No primeiro período do poder soviético, o aparelho estatal de direção da economia nacional ainda não estava organizado, e a sabotagem dos donos das empresas e do pessoal técnico superior colocou com premência, ante a classe operária, as tarefas de manter a indústria e de restabelecer o funcionamento normal de todo o aparelho econômico do país.
No período seguinte de trabalho do Conselho Superior de Economia Nacional, quando uma parte considerável deste trabalho se reduzia à liquidação das empresas privadas e à organização da direção destas pelo Estado, os sindicatos realizaram este trabalho junto e conjuntamente com os organismos estatais de direção econômica.
A debilidade dos organismos estatais não só explicava, mas, além disso, justificava semelhante paralelismo; historicamente, esse paralelismo estava justificado por haver-se estabelecido um completo contacto entre os sindicatos e os organismos de direção econômica.
A direção dos organismos econômicos do Estado e a dominação gradual por estes do aparelho da produção, direção e coordenação das diferentes partes deste aparelho, tudo isso fez com que passasse para os referidos organismos o centro de gravidade do trabalho de direção da indústria e de elaboração do programa de produção. Em virtude disso, o trabalho dos sindicatos na esfera da organização da produção se reduziu à participação na formação de juntas assessoras das direções gerais, departamentos centrais e administrações das fábricas.
Atualmente, voltamos novamente a abordar de cheio a questão relativa ao estabelecimento da mais estreita ligação entre os organismos econômicos da República soviética e os sindicatos, quando é necessário a todo custo utilizar racionalmente cada unidade de trabalho e incorporar todos os trabalhadores a uma participação consciente no processo de produção; quando o aparelho estatal da direção econômica, ao crescer e complicar-se paulatinamente, converteu-se em uma máquina burocrática desproporcional, enorme em comparação com a própria produção, e quando impulsiona inevitavelmente os sindicatos a tomarem parte direta na organização da produção, não só através da representação pessoal nos organismos econômicos, senão como tal organização em seu conjunto.
Se o Conselho Superior de Economia Nacional focaliza a fixação do programa geral de produção partindo dos elementos materiais de produção existentes (matéria-prima, combustível, estado da maquinaria, etc), os sindicatos devem encarar este problema do ponto de vista da organização do trabalho com vistas às tarefas de produção e à utilização racional deste. Por isso, o programa geral de produção, por partes e em seu conjunto, deve ser traçado com a participação clara dos sindicatos a fim de combinar do modo mais conveniente o aproveitamento dos recursos materiais da produção e do trabalho.
A implantação de uma efetiva disciplina de trabalho e a luta eficaz contra os casos de deserção do trabalho, etc, só são concebíveis com a participação consciente de todos os produtores no cumprimento das tarefas. Os métodos burocráticos e as ordens de cima não conseguem isto, ou melhor, é necessário que cada trabalhador compreenda a necessidade e a conveniência das tarefas a serem cumpridas na produção; é necessário que cada produtor não somente participe no cumprimento das tarefas indicadas de cima, mas que tome parte, conscientemente, na correção de todas as deficiências técnicas e de organização, na esfera da produção.
As tarefas dos sindicatos nesse terreno são enormes. Eles devem ensinar os seus membros, em cada oficina e em cada fábrica, a descobrir e levar em conta todos os defeitos no aproveitamento da mão-de-obra, derivados de uma utilização desacertada dos meios técnicos ou de um trabalho administrativo deficiente. A soma da experiência das diferentes empresas e da produção deve ser utilizada para uma luta decidida contra a papelada, a negligência e o burocratismo.
Para assinalar, especialmente, a importância destas tarefas de produção, do ponto de vista da organização, devem os sindicatos ocupar um posto determinado no trabalho corrente. As seções econômicas, que em virtude de um acordo do III Congresso de Toda a Rússia estão sendo organizadas anexas aos sindicatos, ao desenvolver o seu trabalho devem deixar claro e determinar paulatinamente o caráter de todo o trabalho sindical. Assim, por exemplo, nas atuais condições sociais, quando toda a produção encaminha-se para satisfazer as necessidades dos próprios trabalhadores, as quotas de salários e os prêmios devem manter a mais estreita conexão e dependência com o grau do cumprimento do plano de produção. O sistema de prêmios em espécie e o pagamento de uma parte do salário em espécie devem converter-se gradualmente em um sistema de abastecimento dos operários em função do nível alcançado pela produtividade do trabalho.
Esta forma de encarar o trabalho dos sindicatos, deve, de um lado, pôr fim à existência de organismos paralelos (seções políticas, etc) e, de outro, restabelecer a estreita conexão das massas com os organismos de direção econômica.
Depois do II Congresso, os sindicatos não conseguiram aplicar em grau considerável o seu programa no que se refere à sua participação na edificação da economia nacional, devido, de um lado, às condições próprias do tempo de guerra, e, de outro, em consequência de sua debilidade orgânica e por estarem desligados do trabalho dirigente e prático dos organismos econômicos.
Por isso, os sindicatos devem propor as seguintes tarefas práticas imediatas: a) participação mais ativa na solução dos problemas da produção e da direção; b) participação direta, conjuntamente com os correspondentes organismos econômicos, na constituição de organismos competentes de direção; c) estudo minucioso e influência dos diferentes tipos de direção na produção; d) participação obrigatória na elaboração e no estabelecimento dos planos econômicos e dos programas de produção; e) organização do trabalho em relação com o grau de urgência das tarefas econômicas; f) desenvolvimento de uma ampla organização da agitação e propaganda na esfera da produção.
É necessário que as seções econômicas anexas aos sindicatos e às organizações sindicais se convertam efetivamente em poderosos meios que atuem com rapidez para assegurar a participação sistemática dos sindicatos na organização da produção.
Com o objetivo de regulamentar o abastecimento material dos operários, é necessário que os sindicatos transfiram sua influência para os organismos de distribuição do Comissariado do Povo de Abastecimento, tanto locais como central, tornando efetivos a participação prática e eficiente e o controle em todos os organismos de distribuição, dando especial atenção à atividade das comissões de abastecimento operário centrais e provinciais.
Uma vez que o chamado "sistema de trabalho de choque”, devido à compreensão estreita por parte das diferentes direções gerais, departamentos centrais, etc, já adquiriram o mais desordenado caráter, é preciso que os sindicatos se mobilizem em toda parte em defesa da aplicação efetiva do referido sistema de trabalho na economia e da revisão do sistema vigente de determinação do trabalho de choque em relação com a importância da respectiva produção, tendo em conta os recursos materiais existentes no país.
É necessário concentrar, especialmente, a atenção no chamado grupo-modelo de empresas, fazendo com que sejam verdadeiramente modelo mediante a criação de uma direção competente, a observação da disciplina de trabalho e o trabalho de organização sindical.
Em virtude da organização do trabalho, além de estabelecer um sistema regular de tarifas de salários e de revisar em todos os aspectos as normas de rendimento, é preciso que os sindicatos tomem firmemente em suas mãos a luta contra os diferentes casos de deserção do trabalho (ausência injustificada ao trabalho, falta de pontualidade, etc). Os tribunais disciplinadores, aos quais até agora não se dedicou a devida atenção, devem ser transformados em um meio eficaz de luta contra a infração da disciplina proletária no trabalho.
O cumprimento das tarefas enumeradas, bem como a elaboração de um plano prático de propaganda na esfera da produção e de diversas medidas para melhorar a situação econômica dos operários, devem recair sobre as seções econômicas. Por isso, é necessário recomendar à seção econômica do Conselho Central dos Sindicatos da Rússia que convoque com brevidade uma conferência de seções econômicas de toda a Rússia para examinar as questões práticas da edificação econômica em conexão com o trabalho dos organismos econômicos do Estado.

Espero que agora compreendereis por que tive de censurar-me. Isto, sim, é uma plataforma, cem vezes melhor do que o que escreveu o camarada Trotsky, depois de haver pensado muito, e do que o que escreveu o camarada Bukharin (resolução do pleno de 7 de dezembro), sem haver pensado nada. Todos nós, membros do Comitê Central, que não trabalhamos durante muitos anos no movimento sindical, teríamos que aprender com o camarada Rudzutak, e o camarada Trotsky e o camarada Bukharin também teriam que aprender com ele. Os sindicatos adotaram esta plataforma.

Todos nós esquecemos os tribunais disciplinadores, mas “a democracia na produção” sem prêmios em espécie e sem tribunais disciplinadores é puro palavrório.

Comparo as teses de Rudzutak com as teses que Trotsky apresentou no Comitê Central. No final da quinta tese, leio:

“...é necessário levar a cabo agora mesmo a reorganização dos sindicatos, isto é, sobretudo a seleção do pessoal dirigente, partindo precisamente deste ponto de vista...”

Isso é verdadeiramente burocracia! Trotsky e Krestinski selecionando o “pessoal dirigente” dos sindicatos!

Aí tendes, mais uma vez, a explicação do erro do Comitê Central do Sindicato do Transporte. Mas seu erro não consiste em haver aplicado a coerção; nisto consiste o seu mérito. O erro consiste em não haver sabido abordar as tarefas gerais de todos os sindicatos, em não haver o próprio Comitê Central do Sindicato do Transporte sabido passar, e ajudar todos os sindicatos a passarem a uma aplicação mais acertada, rápida e eficaz dos tribunais disciplinadores de honra. Quando li o que se diz dos tribunais disciplinadores nas teses do camarada Rudzutak, pensei: certamente há um decreto sobre isto. E, efetivamente, há um decreto. A “Disposição sobre os tribunais disciplinadores operários de honra” foi ditada a 14 de novembro de 1919 (Código de leis, n.° 537).

Nestes tribunais corresponde aos sindicatos um papel da maior importância. Eu não sei se estes tribunais são bons, nem se o seu funcionamento é eficaz, nem se atuam em todos os casos. Se estudássemos nossa própria experiência prática, seria um milhão de vezes mais útil do que tudo aquilo que os camaradas Trotsky e Bukharin escreveram.

Termino. Resumindo, devo dizer que levar estas divergências a uma ampla discussão no Partido e ao congresso do Partido é um erro tremendo. É um erro do ponto de vista político. Na comissão, e somente na comissão, haveríamos procedido a um exame prático e dado passos adiante, mas agora marchamos para trás, e durante várias semanas marcharemos para trás, para teses teóricas abstratas, em lugar de abordar a tarefa com um critério realista. No que toca a mim, isto me repugna ao máximo e de boa vontade afastar-me-ia independentemente de meu estado de saúde; estou disposto a retirar-me para qualquer parte.

Conclusões: nas teses de Trotsky e Bukharin há toda uma série de erros teóricos. Uma série de inexatidões de princípio. Politicamente, toda a análise da questão equivale a uma absoluta falta de tato. As “teses” do camarada Trotsky são uma coisa nefasta no sentido político. Sua política, em suma, é uma política de limitação burocrática dos sindicatos. Estou seguro de que o congresso de nosso Partido condenará e rechaçará esta política (calorosos e prolongados aplausos).

NOTAS
(1) O discurso Sobre os Sindicatos, no Momento Atual e os Erros de Trotsky foi a primeira intervenção de Lênin diante do ativo do Partido na discussão relativa ao papel e às tarefas dos sindicatos. Trotsky foi o promotor da discussão e da luta contra Lênin e contra o Partido. Depois de Trotsky, intervieram também outros grupos anti-Partido. Na discussão sobre os sindicatos, os Trotskystas e todos os demais oposicionistas foram derrotados. As organizações do Partido cerraram fileiras em torno de Lênin e se solidarizaram com a plataforma leninista.
(2) Smolni: edifício do antigo Instituto do mesmo nome em Petrogrado, residência do governo soviético antes de sua transferência para Moscou, em março de 1918.
(3) Refere-se aos plenos do CC de novembro e dezembro de 1920. Vejam-se os textos de suas resoluções nos números 255 e 281 de Pravda, de 13 de novembro e 14 de dezembro, e a informação do n.° 26 de Izvestia do CC do PCR, de 20 de dezembro do mesmo ano.
(4) O Conselho de Defesa foi criado pelo Comitê Executivo Central de Toda a Rússia a 30 de novembro de 1918, para dirigir todo o trabalho de defesa na frente e na retaguarda. Lênin foi designado presidente. Liquidadas as frentes principais, o Conselho de Defesa foi transformado em abril de 1920 em Conselho de Trabalho e da Defesa. Depois de terminada a guerra civil, por aprovação do VIII Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia (1920), o Conselho de Trabalho e de Defesa passou a funcionar como uma comissão do Conselho de Comissários do Povo e perdurou até fins de 1936.
(5) Refere-se ao birô de toda a Rússia para a propaganda na esfera da produção, anexo ao Conselho Central dos Sindicatos da Rússia.
(6) A Seção Política Geral do Comissariado do Povo das Vias de Comunicação foi instituída em fevereiro de 1919, por decisão do Comitê Executivo Central de Toda a Rússia, e reorganizada em janeiro de 1920, como Direção Política Central do referido Comissariado, na qualidade de organismo temporário para a direção do trabalho do Partido e político entre os operários e empregados em transporte. Em dezembro de 1920, foi dissolvida por decisão do CC do PC(b) da Rússia.
(7) O Comitê Central do Sindicato Unificado de Trabalhadores do Transporte Ferroviário, Fluvial e Marítimo foi criado em setembro de 1920. Os Trotskystas, que nos fins de 1920 e começos de 1921 figuravam na direção deste Comitê, atuaram nos sindicatos com métodos coercitivos e autoritários, lançando os operários sem partido contra o Partido, e desencadearam um trabalho divisionista entre a classe operária. A atuação dos Trotskystas foi desmascarada e condenada pelo Comitê Central do Partido. O I Congresso de Operários do Transporte de Toda a Rússia, reunido em março de 1921, expulsou os Trotskystas da direção do Comitê Central do referido sindicato unificado.
(8) Veja-se Izvestia do CC do PCR, n.° 26, pág. 2, resolução do pleno de setembro do CC, ponto 3: “O CC é de opinião que atualmente melhorou consideravelmente a grave situação dos sindicatos do transporte que motivou a criação da Seção Política Geral do Comissariado do Povo de Vias de Comunicação e da Direção Política Geral do Transporte Pluvial e Marítimo(9), recursos temporários para garantir a boa marcha do trabalho. Por isso, agora se pode e se deve iniciar o trabalho tendente a incluir estas organizações no sindicato como organismos ajustados ao aparelho sindical e fundidos com ele”.
(9) A Direção Política Geral do Transporte Fluvial e Marítimo, anexa ao Comissariado do Povo de Vias de Comunicação, foi constituída em abril de 1920 como organismo dependente da Seção Política Geral deste Comissariado e dissolvida em dezembro de 1920.


Discurso de Lenin na sessão conjunta de delegados ao VIII Congresso dos Sovietes
e de membros do Conselho Central dos Sindicatos da Rússia e
do Conselho de Sindicatos de Moscou militantes do PC(b) da Rússia,
em 30 de dezembro de 1920.

TEMAS:
Marxismo-leninismo

Lênin

"Criticar o chauvinismo Han"

Mao:
30.12.2015


Em alguns lugares, as relações entre nacionalidades estão longe do saudável. Para os comunistas, isso é uma situação intolerável. Devemos ir até a raiz do problema e criticar as ideias chauvinistas Han que existem de forma forte entre vários membros e quadros, a saber: as ideias reacionárias da classe latifundiária e da burguesia, ou das ideias características do Kuomintang, que se manifestam nas relações entre nacionalidades. Erros a esse respeito devem ser corrigidos de imediato. Delegações levadas a cabo por camaradas que são familiarizados com nossa política de nacionalidades e simpáticos aos nossos compatriotas pertencentes a minorias nacionais que ainda sofrem discriminação devem ser enviados a visitar as áreas onde residem minorias nacionais, traçar grandes esforços no processo de investigação e estudo e ajudar o Partido e organizações do governo nas localidades a descobrir e solucionar os problemas. As visitas não devem se tornar um “observar de flores sob seu cavalo”.

A julgar pela gama de informações que temos, o Comitê Central coloca que onde quer que hajam minorias nacionais, a regra geral é que existem problemas que demandam solução, e em alguns casos, problemas bastante sérios. Na aparência, tudo é tranquilo, mas na realidade existem vários problemas graves. O que veio à tona em vários locais, nos últimos dois ou três anos demonstra que o chauvinismo Han existe em quase todo lugar. Será muito perigoso se não conseguimos dar a oportuna educação e de forma resoluta, superar o chauvinismo Han no Partido e entre o povo. O problema nas relações entre nacionalidades que se revelam no Partido e entre o povo em muitos lugares tem a ver com a existência do chauvinismo Han a um nível grave, e não apenas de resquícios dele. Em outras palavras, as ideias burguesas dominam as mentes destes camaradas e as pessoas que não tiveram uma educação marxista e não compreenderam a política de nacionalidades do Comitê Central. Portanto, a educação deve ser levada a cabo assiduamente para que este problema seja resolvido passo a passo. Indo além, os jornais devem publicar mais artigos a respeito de fatos específicos a fim de criticar abertamente o chauvinismo Han e educar os membros do Partido e o povo.

por Mao Tsé-Tung, em 16 de março de 1953

Tradução: Gabriel Duccini

TEMAS:
Marxismo-leninismo

Mao Tsé-Tung

"Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo"

Engels:
24.12.2015

A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade. Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção, uns como inimigos do gênero humano, os outros como inimigos do governo, da religião, da família, da ordem social. E, apesar de todas as perseguições, e mesmo diretamente servidos por elas, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado.

Conseqüentemente, se o Sr. Professor A. Menger, no seu “Direito ao Produto Integral do Trabalho”, se espanta de que, sob os imperadores romanos, tendo em vista a colossal centralização das riquezas e os sofrimentos infinitos da classe trabalhadora, composta essencialmente de escravos, “o socialismo não tenha sido implantado depois da queda do Império romano ocidental”, é porque precisamente não vê que esse “socialismo”, na medida em que era possível na época, existia efetivamente e chegava ao poder. . . com o cristianismo. Só que o cristianismo, como tinha fatalmente de ser, considerando as condições históricas, não queria a transformação social neste mundo, mas no Além, no céu, na vida eterna depois da morte, no millenium eminente.

Já na Idade Média o paralelismo dos dois fenômenos se impõe, quando dos primeiros levantamentos dos camponeses oprimidos e, sobretudo, dos plebeus das cidades. Esses levantamentos, tal como todos os movimentos de massas na Idade Média, tiveram necessariamente uma máscara religiosa; aparecem como restaurações do cristianismo primitivo em conseqüência de uma degenerescência crescente, mas atrás da exaltação religiosa escondem-se, regularmente, interesses muito positivos deste mundo.

Isso transparecia de uma maneira grandiosa na organização dos taboritas da Boêmia sob João Zizka, de gloriosa memória. Mas este traço presiste através de toda a Idade Média, até que desaparece pouco a pouco, depois da guerra dos camponeses na Alemanha, para reaparecer entre os operários comunistas depois de 1830. Os comunistas revolucionários franceses, tal como Weitling e os seus aderentes, afirmavam-se ligados ao cristianismo primitivo muito antes de Renan ter dito:

Se quiserem fazer uma idéia das primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.

O homem de letras francês que, graças a uma exploração da crítica bíblica alemã, sem exemplo mesmo no jornalismo moderno, confeccionou o seu romance sobre a história da Igreja, “As Origens do Cristianismo”, não sabia tudo o que havia de verdade na sua frase. Eu queria ver o antigo internacionalista capaz de ler, por exemplo, a segunda “Epístola aos Coríntios”, atribuída a Paulo, sem que, pelo menos num ponto, antigas feridas não reabrissem nele.

A “Epístola” inteira, a partir do VIII capítulo, ecoa da eterna queixa demasiado bem conhecida: “As cotizações não entram.” Por volta de 1865, quantos, entre os mais zelosos propagandistas, não teriam apertado a mão do autor desta carta, quem quer que ele fosse, com uma simpática inteligência, murmurando-lhe ao ouvido: “Então, irmão, também isso te aconteceu a ti!” Também nós teríamos muito a dizer acerca disso — também na nossa associação pululam os coríntios —, essas cotizações que não apareciam, que, inalcançáveis, giravam diante dos nossos olhos de Tântalo, eis o que constituía os famosos milhões da Internacional.

Uma das nossas melhores fontes sobre os primeiros cristãos é Luciano de Samosata, o Voltaire da antigüidade clássica, que mantinha a mesma atitude cética em relação a todas as espécies de superstições religiosas e que, portanto, não tinha motivos — nem por crença pagã nem por política — para tratar os cristãos diferentemente de qualquer outra associação religiosa. Pelo contrário, acusa a todos da sua superstição, tanto aos adoradores de Júpiter como aos adoradores de Cristo: do seu ponto de vista rasamente racionalista, um gênero de superstição é tão inepto como o outro. Esta testemunha, de qualquer maneira imparcial, conta, entre outras coisas, a biografia de um aventureiro, Peregrinus, que se chamava na realidade Proteu de Parium sobre o Helesponto. O dito Peregrinus começou na sua juventude, na Armênia, por um adultério. Foi apanhado em flagrante delito e linchado segundo o costume do país. Felizmente conseguiu escapar, estrangulou Parium, o seu velho pai, e teve de fugir.

Foi por essa época que se fez instruir na admirável religião dos cristãos, contactando na Palestina com alguns dos seus padres e escribas. Que vos hei-de dizer acerca disso? Esse homem depressa lhes fez ver que eles não passavam de crianças; profeta, tiasarco, chefe de assembléia, tudo ele foi sozinho, interpretando os seus livros, explicando-os, compondo-os por iniciativa própria. Por isso muita gente o olhava como a um deus, um legislador, um pontífice, igual a esse que é honrado na Palestina, onde foi posto numa cruz por ter introduzido esse novo culto entre os homens. Proteu, tendo por este motivo sido detido, foi posto na prisão. Desde o momento que foi posto a ferros, os cristãos, considerando-se como presos nele, tudo fizeram para o libertar; mas, não o conseguindo, renderam-lhe pelo menos toda a espécie de honras com um zelo e uma dedicação infatigáveis. Desde a manhã, viam-se à volta da prisão uma multidão de mulheres velhas, de viúvas, de órfãos. Os principais chefes da seita passavam a noite junto dele, depois de terem corrompido os carcereiros: para lá levavam as suas refeições e liam os seus livros santos; e o virtuoso Peregrinus, ele ainda se chamava assim, era por eles tratado de novo Sócrates. Não é tudo; várias cidades da Ásia lhe enviaram deputados em nome de cristãos, para lhe prestar assistência, lhe servirem de apoio, de advogados e de consoladores. Era inacreditável a dedicação em tais ocorrências; para tudo dizer, nada lhes custava. Desse modo Peregrinus, sob o pretexto da sua prisão, viu chegarem grandes quantidades de dinheiro e acumulou muito. Esses infelizes acreditam que são imortais e que viverão eternamente; em conseqüência, desprezam os suplícios e entregam-se voluntariamente à morte. O seu primeiro legislador ainda os convenceu de que eles são todos irmãos. Desde que mudaram de culto, renunciaram aos deuses gregos e adoram o sofista crucificado de quem seguem as leis. Desprezam igualmente todos os bens e põem-nos em comum, pela fé completa que têm nas suas palavras. De forma que, se aparece entre eles um impostor, um patife decidido, ele não terá dificuldade em enriquecer rapidamente, rindo-se por trás da sua simplicidade. Contudo, Peregrinus depressa foi libertado pelo governador da Síria.

Depois de outras aventuras, diz-se:

Peregrinus retomou, pois, a sua vida errante, acompanhado nas suas vagabundagens por um grupo de cristãos que lhe servem de satélites e lhe subvencionam abundantemente as suas necessidades. Ele fez-se assim alimentar durante algum tempo. Mas depois, tendo violado alguns dos seus preceitos (tinham-no visto comer carne proibida), foi abandonado pelo seu cortejo e reduzido à pobreza.

Quantas recordações de juventude acordam em mim ao ler esta passagem de Luciano. Eis primeiro o “profeta Albrecht”, que por volta de 1840 e durante alguns anos tornava pouco seguras — à letra — as comunidades comunistas de Weittling na Suíça. Era um homem grande e forte, que percorria a Suíça a pé, à procura de um auditório para o seu novo evangelho da libertação do mundo. No fim de contas, parece ter sido um trapalhão bastante inofensivo e morreu cedo. Eis o seu sucessor, menos inofensivo, o “Dr.” Jorge Kuhlmann de Holstein, que aproveitou o tempo em que Weittling esteve na prisão para converter os comunistas da Suíça francesa ao seu próprio evangelho e que, por um tempo, o conseguiu tão bem que conquistou até o mais espiritual e ao mesmo tempo o mais boêmio de todos eles, August Becker. Depressa Kuhlmann dava conferências que foram publicadas em Gênova em 1845 sob o título: “O Novo Mundo ou o Reino do Espírito Sobre a Terra. Anunciação”. E na introdução, redigida, segundo toda a probabilidade, por Becker, lê-se.

Faltava um homem na boca de quem todos os nossos sofrimentos, todas as nossas esperanças e todas as nossas aspirações, numa palavra, tudo o que agita mais profundamente o nosso tempo, encontrasse uma voz... Esse homem que a nossa época esperava, apareceu. É o Dr. Jorge Kuhlmann de Holstein. Ele surgiu com a doutrina do novo mundo ou do reino do espírito na realidade.

Será necessário dizer que essa doutrina do novo mundo não passava do mais banal sentimentalismo, traduzido em fraseologia semibíblica à Lamennais e debitada com arrogância de profeta? O que não impedia os bons discípulos de Weittling de andarem com atenções para com esse charlatão, tal como os cristãos da Ásia tinham feito em relação a Peregrinus. Eles, que, de ordinário, eram arquidemocratas e igualitários, a ponto de alimentarem desconfianças inextinguíveis para com todo o mestre-escola, todo o jornalista, todos aqueles que não eram operários manuais, como se eles fossem outros tantos “sábios” procurando explorá-los, eles deixaram-se persuadir por esse Kuhlmann, com os seus atavios de melodrama, de que, no “novo mundo”, o mais sábio, id est Kuhlmann, regulamentaria a repartição dos prazeres e que, portanto, já no velho mundo, os discípulos deviam fornecer alqueires de prazeres ao mais sábio e contentarem-se com migalhas. E Peregrinus-Kuhlmann viveu na alegria e na abundância... enquanto isso durou. Na verdade tal não durou muito; o descontentamento crescente dos céticos e dos incrédulos, as ameaças de perseguição do governo, puseram fim ao reino do espírito em Lausanne; Kuhlmann desapareceu.

Exemplos análogos virão às dezenas à memória daqueles que conheceram por experiência o começo do movimento operário na Europa. Na hora atual, casos tão extremos tornaram-se impossíveis, pelo menos nos grandes centros; mas em localidades perdidas, em que o movimento conquista um terreno virgem, um qualquer Peregrinus deste tipo poderia ainda conseguir um sucesso momentâneo e relativo. E, tal como em todos os países aflui para o partido operário toda a gente que já nada tem a esperar do mundo oficial, ou que nele se queimou — tal como os adversários da vacinação, os vegetarianos, os antivivecionistas, os partidários da medicina dos simples, os pregadores das congregações dissidentes a quem as ovelhas fugiram, os autores de novas teorias acerca da origem do mundo, os inventores falhados ou infelizes, as vítimas de reais ou imaginárias irregularidades a quem a burocracia chama “refilões inúteis”, os honestos imbecis e os desonestos impostores —, o mesmo acontecia com o cristianismo. Todos os elementos que o processo de dissolução do antigo mundo tinha atirado, sucessivamente, para o círculo de atração do cristianismo, o único elemento que resistia a essa dissolução — precisamente porque se tratava de um produto especial — e que, portanto, subsistia e crescia, enquanto que os outros elementos não passavam de moscas efêmeras. Todas as exaltações, extravagâncias, loucuras ou golpes sujos que foram tentados em relação às jovens comunidades cristãs, todas, temporariamente e em certas localidades, encontraram ouvidos atentos e crentes dóceis. E, tal como os comunistas das nossas primeiras comunidades, os primeiros cristãos eram de uma credulidade espantosa em relação a tudo que parecia convir à sua doutrina, de modo que não podemos saber realmente se, dos numerosos escritos que Peregrinus compôs para a cristandade, não haverá, aqui e ali, qualquer fragmento que tenha escapado para o nosso novo Testamento.

II

A crítica bíblica alemã, até agora a única base científica do nosso conhecimento da história do cristianismo primitivo, seguiu uma dupla tendência.

Uma dessas tendências é representada pela escola de Tubingue, à qual, em sentido lato, pertence também D. F. Strauss. Ela vai tão longe no exame crítico quanto uma escola teológica poderia ir. Admite que os quatro Evangelhos não são comunicações de testemunhas oculares, mas arranjos ulteriores de escritos perdidos, e que, no máximo, quatro das Epístolas atribuídas a S. Paulo são autênticas etc. Ela afasta da narração histórica, como inadmissíveis, todos os milagres e todas as contradições; do que resta, ela “procura salvar tudo o que pode ser salvo” e, por aí, transparece claramente o seu caráter de escola teológica. E é graças a essa escola que Renan, o qual, em grande parte, se apóia nela, pôde, aplicando o mesmo método, operar ainda muitos outros “salvamentos”. Além de numerosas exposições mais que duvidosas do Novo Testamento, ele quer ainda impor-nos uma quantidade de lendas de mártires como historicamente autenticadas. Em todo o caso, tudo o que a escola de Tubingue rejeita do Novo Testamento como apócrifo, ou como não sendo histórico, pode ser considerado como definitivamente afastado pela ciência.

A outra tendência é representada por um único homem: Bruno Bauer. O seu grande mérito é ter, impiedosamente, criticado os Evangelhos e as Epístolas apostólicas, ter sido o primeiro a encarar seriamente o exame dos elementos não só judaicos e greco-alexandrinos, mas também gregos e greco-romanos que permitiram ao cristianismo tornar-se uma religião universal. A lenda do cristianismo nascido integralmente do judaísmo, partindo da Palestina para conquistar o mundo com uma dogmática e uma ética traçadas nas suas grandes linhas, tornou-se impossível depois de Bruno Bauer; a partir de então ela pode, no máximo, continuar a vegetar nas faculdades teológicas e no espírito de quem quer “conservar a religião para o povo”, mesmo à custa da ciência. Na formação do cristianismo, tal como foi elevado à categoria de religião de Estado por Constantino, a Escola de Philon de Alexandria e a filosofia vulgar greco-romana — platônica e sobretudo estóica — desempenharam importante papel. Essa contribuição está longe de ter sido estabelecida nos detalhes, mas o fato está demonstrado, e tal deve-se, sobretudo, a Bruno Bauer; ele lançou as bases da prova de que o cristianismo não foi importado de fora, da Judéia, e imposto ao mundo greco-romano, mas que é, pelo menos na forma que adquiriu como religião universal, o mais autêntico produto desse mundo. Naturalmente que, nesse trabalho, Bauer exagerou bastante, como acontece a todos que combatem preconceitos inveterados. Na intenção de determinar, mesmo do ponto de vista literário, a influência de Philon, e sobretudo de Sêneca, sobre o cristianismo nascente, e de representar formalmente os autores do Novo Testamento como plagiários desses filósofos, é obrigado a retardar o aparecimento da nova religião em meio século, a rejeitar as narrativas de historiadores romanos que a isso se opõem e, em geral, a tomar graves liberdades com a história conhecida. Segundo ele, o cristianismo como tal só aparece sob os imperadores Flavianos, a literatura do Novo Testamento só sob Adriano, Antonino e Marco Aurélio. Portanto, Bauer faz desaparecer todo o fundo histórico para as narrativas do Novo Testamento relativas a Jesus e aos seus discípulos; resolvem-se em lendas em que as fases de desenvolvimento interno e os conflitos morais das primeiras comunidades são transpostos e atribuídos a personagens mais ou menos fictícias. Não são a Galiléia nem Jerusalém, segundo Bauer, os lugares de nascimento da nova religião, mas sim Alexandria e Roma.

Assim, se no resíduo, que não contesta, da história e da literatura do Novo Testamento, a escola de Tubingue nos oferece o extremo máximo do que a ciência pode, ainda nos nossos dias, aceitar como estando sujeito a controvérsia, Bruno Bauer representa o máximo de contestação que ela se pode permitir. A verdade situa-se entre estes extremos. Que esta, com os nossos meios atuais, seja suscetível de ser determinada, eis o que parece bem problemático. Novas descobertas, como em Roma, no Oriente e sobretudo no Egito, darão um contributo muito mais decisivo do que toda a crítica.

Ora, existe no Novo Testamento um único livro de que é possível, com margem de alguns meses, fixar a data da redação; ele deve ter sido escrito entre junho de 67 e janeiro ou abril de 68; é um livro que, por conseqüência, pertence aos mais longínquos tempos cristãos, que reflete as idéias dessa época com a mais ingênua sinceridade e na língua idiomática que lhe corresponde; que, de início, é, na minha opinião, muito mais importante para determinar o que foi realmente o cristianismo primitivo que todo o resto do Novo Testamento, muito posterior em data na sua redação atual. Esse livro é o que se chama o apocalipse de João; e como, ainda por cima, esse livro, em aparência o mais obscuro de toda a Bíblia, se tornou hoje, graças à crítica alemã, o mais compreensível e o mais transparente de todos, proponho-me falar dele aos nossos leitores.

Basta uma olhadela sobre esse livro para nos apercebermos do estado de exaltação não só do autor mas também do “meio” em que vivia. O nosso “Apocalipse” não é o único da sua espécie e do seu tempo. Do ano 164 antes da nossa era, data do primeiro que chegou até nós — o livro de Daniel —, até cerca de 250 da nossa era, data aproximativa do “Carmen” de “Comodiano, Renan não conta menos de 15 “Apocalipses” clássicos chegados até nós, sem falar das imitações ulteriores. (Cito Renan porque o seu livro é o mais acessível e o mais conhecido fora dos círculos dos especialistas.) Foi uma época em que, em Roma e na Grécia, e muito mais ainda na Ásia Menor, na Síria e no Egito, uma mistura absolutamente casual das mais crassas superstições dos mais diversos povos era aceita sem exame e completada por piedosas fraudes e por um charlatanismo direto, em que os milagres, os êxtases, as visões, a adivinhação, a alquimia, a cabala e outras bruxarias ocultas ocupavam o primeiro lugar. Foi nessa atmosfera que o cristianismo primitivo nasceu, e ainda numa classe mais do que qualquer outra acessível a essas quimeras. Assim, os gnósticos cristãos do Egito, como o provam, entre outras coisas, o papiro de Leyde, dedicaram-se, no século II da época cristã, fortemente à alquimia, e incorporaram noções de alquimia nas suas doutrinas. E os “mathe matici” caldeus e judeus que, segundo Tácito, foram por duas vezes, sob Cláudio e ainda sob Vittelius, expulsos de Roma por magia, as únicas “astúcias” de geometria a que se dedicavam eram aquelas que encontraremos em pleno no “Apocalipse” de João.

A isto acrescenta-se que todos os apocalipses se julgam no direito de enganar os seus leitores. Não só são, geralmente, escritos por outras pessoas — na maioria mais recentes — diferentes dos pretensos autores, por exemplo o livro de Daniel, o livro de Enoch, os “Apocalipses” de Esdras, de Baruch, de Juda etc., os livros sibilinos, como no fundo não profetizam senão coisas conhecidas há muito tempo e perfeitamente conhecidas do verdadeiro autor. Foi assim que no ano de 164, pouco tempo antes da morte de Antiochus Epifano, o autor do livro de Daniel, que era suposto viver na época de Nabucodonosor, fez predizer a Daniel a subida e o declínio da hegemonia da Pérsia e da Macedônia, e o começo do Império mundial de Roma, para preparar os seus leitores, por essa prova dos seus dons proféticos, a aceitar a sua profecia final: que o povo de Israel ultrapassará todos os seus sofrimentos e será, enfim, vitorioso. Assim, se o “Apocalipse” de João fosse realmente obra do autor pretendido, constituiria a única exceção na literatura apocalíptica.

O João que se propõe para autor era em todo o caso um homem muito considerado entre os cristãos da Ásia Menor. O tom das cartas às sete Igrejas é disso garantia. Poderia pois admitir-se que fosse o apóstolo João cuja existência histórica, se não é absolutamente atestada, é pelo menos muito possível. E se esse apóstolo fosse efetivamente o autor, não se poderia pretender melhor para a nossa tese. Seria a melhor prova de que o cristianismo desse livro é o verdadeiro cristianismo primitivo. Está provado, diga-se de passagem, que o “Apocalipse” não é do mesmo autor do Evangelho ou das três “Epístolas” atribuídas a João.

O “Apocalipse” compõe-se de uma série de visões. Na primeira, o Cristo aparece, vestido de padre, caminhando entre sete castiçais de ouro, que representam as sete Igrejas da Ásia e dita a “João” cartas aos sete “anjos” dessas Igrejas da Ásia. Desde o início, a diferença manifesta-se gritante entre este cristianismo e a religião universal de Constantino formulada pelo concílio de Nicéia. A Trindade não só é desconhecida como constitui uma impossibilidade. No lugar do Espírito Santo, único ulterior, encontramos os “sete espíritos de Deus” extraídos pelos rabinos de Isaías, XI, dois; Jesus Cristo é o filho de Deus, o primeiro e o último, o alfa e o ômega, mas de modo nenhum Deus ou igual a Deus: pelo contrário, ele é “o começo da criação de Deus”, portanto uma emanação de Deus existente de toda a eternidade, mas subordinada, análoga aos sete espíritos acima mencionados. No capítulo XV, 3, os mártires, no céu, “cantam o cântico de Moisés, o servidor de Deus, e o cântico do cordeiro” para a glorificação de Deus. Jesus Cristo aparece, pois, aqui, não somente como subordinado a Deus, mas, de certa maneira, colocado no mesmo plano que Moisés. Jesus Cristo foi crucificado em Jerusalém (XI, 8), mas ressuscitou (1, 5, 18); é o “cordeiro” que foi sacrificado pelos pecados do mundo e com o sangue do qual os fiéis de todos os povos e de todas as línguas são perdoados por Deus. Encontramos aqui a concepção fundamental que permitiu ao cristianismo realizar-se como religião universal. A noção de que os deuses, ofendidos pelas ações dos homens, podiam ser acalmados por sacrifícios, era uma idéia comum a todas as religiões dos Semitas e dos Europeus; a primeira idéia revolucionária fundamental do cristianismo (extraída da escola de Philon) era que, pelo único grande sacrifício voluntário de um mediador, os pecados de todos os tempos de todos os homens eram expiados de uma vez para sempre. . . para os fiéis. De tal modo que desaparecia a necessidade de qualquer sacrifício ulterior e, portanto, a base de numerosas cerimônias religiosas. Ora, a libertação de cerimônias que entravavam ou proibiam o comércio com homens de crenças diferentes era a condição primeira de uma religião universal. E, contudo, o hábito dos sacrifícios estava tão enraizado nos hábitos populares que o catolicismo — que retomou tantos costumes pagãos — julgou útil considerá-lo, introduzindo pelo menos o simbólico sacrifício da missa. Por outro lado, nenhum vestígio, no nosso livro, do dogma do pecado original.

O que sobretudo caracteriza estas cartas, bem como o livro inteiro, é que nunca, nem em parte alguma, vem à idéia do autor designar-se, a ele e aos seus correligionários, de outra maneira senão como. . . Judeus. Aos sectários de Esmirna e de Filadélfia, contra os quais se ergue, ele acusa: “Eles dizem-se Judeus, mas não o são, pertencem sim a uma sinagoga de Satã”; e, dos de Pérgamo, diz:

Estão ligados a Balaam, que ensinava a Balak a criar toda a espécie de dificuldades aos filhos de Israel, para que eles comessem carnes sacrificadas aos ídolos e para que se dedicassem à impudícia.

Não encontramos, pois, aqui, cristãos conscientes, mas pessoas que se consideram Judeus: o seu judaísmo, sem dúvida, é uma nova fase do desenvolvimento do antigo: é precisamente por isso que é o único verdadeiro. É por isso que, quando da aparição dos santos diante do trono de Deus, vêm em primeiro lugar 144.000 Judeus, 12.000 de cada tribo, é só depois a inumerável multidão de pagãos convertidos a esse judaísmo renovado. O nosso autor, no ano 69 da nossa era, estava bem longe de pensar que representava uma fase completamente nova da evolução religiosa, destinada a tornar-se um dos elementos mais revolucionários na história do espírito humano.

Vemos, pois, que o cristianismo de então, que não tinha ainda consciência de si, estava a mil léguas da religião universal, dogmaticamente desenhada pelo concílio de Nicéia; impossível reconhecer esse nesta. Nem a dogmática, nem a ética do cristianismo ulterior, se encontram; em compensação, há o sentimento de que se está em luta com toda a gente e se sairá vencedor dessa luta; um ardor belicoso e uma certeza de vencer que desapareceram completamente nos cristãos dos nossos dias e não se reencontra senão no outro pólo da sociedade, entre os socialistas.

De fato, a luta contra um mundo que inicialmente levou a melhor e a luta simultânea dos inovadores entre si são comuns aos dois; aos cristãos primitivos e aos socialistas. Os dois grandes movimentos não são feitos por chefes e profetas — ainda que os profetas não faltem, quer num, quer no outro —, são movimentos de massas. E todo o movimento de massas é no começo necessariamente confuso; confuso porque todo o pensamento de massas se move, primeiro, em contradições, porque lhe falta clareza e coerência; confuso ainda precisamente por causa do papel que, nos começos, nele desempenham os profetas. Esta confusão manifesta-se na formação de numerosas seitas que se combatem entre si pelo menos com tanto empenho como o que dedicam ao comum inimigo exterior. Isto passava-se assim no cristianismo primitivo; passa-se da mesma maneira nos começos do movimento socialista, por mais aflitivo que isso seja para as honestas pessoas bem intencionadas que pregavam a união, quando a união não era possível.

Será que, por exemplo, a coesão da Internacional era devida a um dogma unitário? De forma nenhuma. Encontravam-se lá comunistas segundo a tradição francesa anterior a 1848, que, por sua vez, representavam cambiantes diferentes; comunistas da escola de Weittling; outros ainda pertencendo à liga regenerada dos comunistas; proudhonianos, que eram o elemento preponderante na França e na Bélgica; blanquistas; o Partido Operário Alemão; enfim, anarquistas bakouninistas, que, por momentos, dominaram na Espanha e na Itália; e estes eram só os grupos principais. A partir da fundação da Internacional, foi preciso um bom quarto de século para que se efetuasse definitivamente e por todo o lado a separação com os anarquistas, e se estabelecesse um acordo pelo menos acerca dos pontos de vista econômicos mais genéricos. E isso com os nossos meios de comunicação, os caminhos de ferro, os telégrafos, as monstruosas cidades industriais, a imprensa e as reuniões populares organizadas.

A mesma divisão em inumeráveis seitas entre os primeiros cristãos, divisão que era justamente o meio de organizar a discussão e de obter a unidade ulterior. Constatamo-la já nesse livro, indubitavelmente o mais antigo documento cristão, e o nosso autor condena-a com a mesma atitude implacável que emprega em relação ao mundo dos pecadores não cristãos. Eis primeiro os Nicolaites, em Éfeso, em Pérgamo; aqueles que se dizem Judeus mas que são a sinagoga de Satã, em Esmirna e Filadélfia; os aderentes da doutrina do falso profeta, chamado Balaam em Pérgamo; aqueles que dizem ser profetas mas que não o são, em Éfeso; enfim os partidários da falsa profetisa, chamada Jezabel, em Tiátira. Nada de mais preciso nos é dito acerca destas seitas; só dos sucessores de Balaam e de Jezabel se diz que comem carne sacrificada aos ídolos e que se entregam à impudícia.

Tentou-se imaginar que essas cinco seitas eram de cristãos paulinianos e todas essas cartas como sendo dirigidas contra Paulo, o falso apóstolo, o pretenso Balaam e “Nicolas”. Os argumentos, aliás dificilmente sustentáveis, encontram-se reunidos em Renan. “São Paulo” (Paris, 1869, páginas 303-305-367-370). Todos acabam por explicar as nossas cartas pelos “Atos dos Apóstolos” e pelas “Epístolas” ditas de Paulo, escritos que, pelo menos na sua redação atual, são sessenta anos posteriores ao “Apocalipse” e cujos dados a elas relativos são, pois, mais que duvidosos e que, além disso, se contradizem absolutamente entre si. Mas o que resolve a questão é que de modo algum o nosso autor se lembraria de dar a uma única e mesma seita cinco designações diferentes: duas só para a de Éfeso (falsos apóstolos e nicolaites), duas igualmente para Pérgamo (os balaamitas e os nicolaites), e ainda designando-as expressamente em cada caso como duas seitas diferentes. Contudo, nós não pensamos negar que entre essas seitas se pudessem encontrar elementos que hoje se considerariam como seitas paulinianas.

Nos dois passos em que se entra em pormenores, a acusação limita-se ao consumo de carnes sacrificadas aos ídolos e à impudícia, os dois pontos sobre os quais os Judeus — tanto os antigos como os Judeus cristãos — estavam em perpétua disputa com os pagãos convertidos. Carne oriunda dos sacrifícios pagãos era não só servida nos festins, em que recusar os pratos apresentados poderia parecer incoveniente e até perigoso, mas era também vendida nos mercados públicos, em que não era praticamente possível distinguir se era Koscher ou não. Por impudícia, os mesmos Judeus não entendiam apenas o comércio sexual fora do casamento, mas também o casamento entre parentes de graus proibidos pela lei judaica, ou ainda entre Judeus e pagãos, e é este o significado que geralmente é dado à palavra nos “Atos dos Apóstolos” (XV, 20 e 29). Mas o nosso João tem uma opinião própria mesmo no que dizia respeito ao comércio sexual entre os Judeus ortodoxos. Ele diz (XIC, 4) dos 144.000 Judeus celestes: “São aqueles que não se mancharam com mulheres, porque são virgens.” E, de fato, no céu do nosso João não existe uma única mulher. Ele pertencia, pois, a essa tendência que se manifesta igualmente noutros escritos do cristianismo primitivo e considera pecado o comércio sexual em geral. Se, além disso, considerarmos o fato de ele chamar a Roma a grande prostituída, com a qual os reis da Terra se entregaram à impudícia e foram embriagados pelo vinho da sua impudícia — e os seus mercadores enriqueceram pelo poder do seu luxo —, é-nos impossível considerar a palavra, nas cartas, no sentido estrito que a apologética teológica lhe queria atribuir, com o único fito de extrair uma confirmação para outras passagens do Novo Testamento. Muito pelo contrário. Essas passagens das cartas indicam claramente um fenômeno comum a todas as épocas profundamente perturbadas, isto é, que, ao mesmo tempo que se abalam todas as barreiras, procura-se relaxar os limites tradicionais do comércio sexual. Nos primeiros séculos cristãos, igualmente, ao lado do ascetismo que mortifica a carne, manifesta-se muitas vezes a tendência para estender a liberdade cristã às relações, mais ou menos livres, entre homens e mulheres. A mesma coisa aconteceu no movimento socialista moderno.

Que santa indignação não provocou, depois de 1830, na Alemanha de então — essa “piedosa nursery”, como lhe chama Heine — a reabilitação da carne são-simoniana! As mais intensamente indignadas foram as ordens aristocráticas que dominavam na época (nessa época não havia ainda classes entre nós) e que, tanto em Berlim como nas suas propriedades de campo, não sabiam viver sem uma reabilitação sempre reiterada da sua carne. Que diriam essas boas pessoas se tivessem conhecido Fourier, que oferece para a carne a perspectiva de muito mais alegrias!

Uma vez ultrapassado o utopismo, essas extravagâncias cederam lugar a noções mais racionais e, na realidade, bem mais radicais, e, desde que a Alemanha, da “piedosa nursery” de Heine que era, se tornou o centro do movimento socialista, toda a gente se ri da indignação hipócrita do piedoso mundo aristocrático.

É tudo, quanto ao conteúdo dogmático das cartas. Quanto ao resto, elas excitam os camaradas à propaganda enérgica, à orgulhosa e corajosa confissão da sua fé face aos adversários, à luta sem tréguas contra o inimigo de fora e de dentro; e, sob esse aspecto, elas poderiam também ter sido escritas por um entusiasta da Internacional, por menos profeta que ele fosse.

III

As cartas são apenas a introdução ao verdadeiro tema da comunicação do nosso João às sete Igrejas da Ásia Menor e, através delas, a toda a comunidade judaica reformada do ano 69, donde, mais tarde, saiu a cristandade. E então entramos no santuário mais íntimo do cristianismo primitivo.

Entre que tipo de gente se recrutavam os primeiros cristãos? Principalmente entre os “laboriosos e os fatigados”, pertencendo às mais baixas camadas do povo; tal como convém a um elemento revolucionário. E de quem se compunham essas camadas? Nas cidades, de homens livres decadentes — gente de toda a espécie, semelhantes aos “mean whites” dos Estados esclavagistas do Sul, aos aventureiros e aos vagabundos europeus das cidades marítimas coloniais e chinesas, depois de libertos — e sobretudo de escravos; nos latifundia da Itália, da Sicília e da África, de escravos; nos distritos rurais das províncias, de pequenos camponeses cada vez mais dependentes pelas suas dívidas. Não existia de modo algum uma via de emancipação comum para tantos elementos diversos. Para todos, o paraíso perdido situava-se no passado; para o homem livre desiludido, era a “polis”, cidade e Estado ao mesmo tempo, de quem os seus antepassados haviam sido outrora cidadãos livres; para os escravos prisioneiros de guerra, a era da liberdade antes da sujeição e do cativeiro; para o pequeno camponês, a sociedade gentílica e a comunidade do solo destruídas. Tudo isso, a mão de ferro niveladora do Romano conquistador havia deitado abaixo. O agrupamento social mais consistente que a Antigüidade tinha sabido criar era a tribo e a confederação de tribos aparentadas, agrupamento baseado, entre os Bárbaros, nas linhas de consagüinidade, entre os Gregos e os Italiotas, fundadores de cidades, sobre a “polis”, que compreendia uma ou várias tribos aparentadas. Filipe e Alexandre deram à península helênica a unidade política, mas dela não resultou a formação de uma nação grega. As nações só se tornaram possíveis depois da queda do Império Romano. Este pôs termo, de uma vez para sempre, aos pequenos agrupamentos; a força militar, a jurisdição romana, o aparelho de percepção de impostos, deslocaram completamente a organização interior tradicional. À perda da independência e da organização original acrescentou-se a pilhagem pelas autoridades civis e militares, que começavam por despojar os vencidos dos seus tesouros para depois lhes emprestarem de novo com taxas de usura, para que eles pudessem pagar novas exações. O peso dos impostos e a necessidade de dinheiro que daí resultava, em regiões em que a economia natural reinava exclusivamente ou de maneira preponderante, colocava cada vez mais os camponeses na dependência dos usurários, introduzindo uma grande desproporção de fortuna. Enriquecia os ricos e empobrecia completamente os pobres. E toda a resistência das pequenas tribos isoladas ou das cidades ao gigantesco poder de Roma era sem esperança. Que remédio para isso, que refúgio para os vencidos, os oprimidos, os empobrecidos, que saída comum para esses grupos humanos diversos, de interesses divergentes ou mesmo opostos? Era contudo preciso encontrar uma, era preciso que um único grande movimento revolucionário os envolvesse a todos.

Essa saída encontrou-se; mas não neste mundo. E, no estado de coisas de então, só a religião podia proporcioná-la. Descobriu-se um novo mundo. A existência da alma depois da morte do corpo tinha-se tornado, pouco a pouco, um artigo de fé reconhecido em todo o mundo romano. Além disso, um modo de sofrimento e de recompensa para a alma do morto, segundo as ações cometidas em vida, era por toda a parte progressivamente admitido. Quando às recompensas, na verdade, isso soava um pouco falso; a Antigüidade era demasiado espontaneamente materialista para não considerar infinitamente mais preciosa a vida real do que a vida no reino das sombras; para os Gregos, a imortalidade era mesmo considerada uma infelicidade. Apareceu o cristianismo, que levou a sério os sofrimentos e as recompensas no outro mundo e criou o céu e o inferno; assim estava encontrada a via por onde conduzir os laboriosos e os desiludidos deste vale de lágrimas para o paraíso eterno. De fato, era preciso a esperança de uma recompensa no Além para conseguir elevar a renúncia ao mundo e o ascetismo da escola estóica de Philon à categoria de princípio ético fundamental de uma nova religião universal, capaz de arrastar as massas oprimidas.

Contudo, a morte não abre de imediato esse paraíso celeste aos fiéis. Veremos que o reino de Deus, de que a nova Jerusalém é a capital, não se conquista nem se abre senão depois de ardentes lutas contra as potências infernais. Ora, os primeiros cristãos consideravam essas lutas como iminentes. Desde o começo, o nosso João designa o seu livro como a revelação “de coisas que devem acontecer em breve”; pouco depois, no versículo três, ele diz: “Feliz aquele que lê e aqueles que escutam as palavras da profecia, porque o tempo está próximo”; à comunidade de Filadélfia, Jesus Cristo faz escrever: “Virei em breve”, e, no último capítulo, o anjo diz que revelou a João “as coisas que devem acontecer em breve” e ordena-lhe: “Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo”, e Jesus Cristo diz por duas vezes, versículos 12 e 30: “Virei em breve”. Veremos em seguida quanto essa vinda era esperada para breve.

As visões apocalípticas que o autor faz passar sob os nossos olhos são todas, e quase sempre palavra por palavra, extraídas de modelos anteriores. Em parte dos profetas clássicos do Antigo Testamento, sobretudo de Ezequiel, em parte dos apocalipses judaicos posteriores, compostos segundo o protótipo do livro de Daniel, e sobretudo do livro de Enoch, já redigido, pelo menos em parte, nessa época. Os críticos já demonstraram, até os mínimos detalhes, de onde o nosso João tirou cada imagem, cada prognóstico sinistro, cada chaga inflligida à humanidade incrédula, em suma, o conjunto de materiais do seu livro; de forma que ele manifesta uma pobreza de espírito pouco comum, mas ainda é o próprio a proporcionar-nos a prova de que, as suas pretensas visões e êxtases, ele não as viveu, nem mesmo em imaginação, tal como as descreve.

Eis, em algumas palavras, a marcha das aparições. Primeiro, João vê Deus sentado sobre o seu trono, um livro selado com sete selos na mão; diante dele está o cordeiro (Jesus) degolado, mas de novo vivo, que é considerado digno de abrir os selos. A abertura dos selos é acompanhada de toda a espécie de sinais e de prodígios ameaçadores. Ao quinto selo João apercebe, sob o altar de Deus, as almas dos mártires de Cristo que foram mortos por causa da palavra de Deus:

Eles gritaram com voz forte: Até quando, mestre santo e venerável, continuarás a adiar o julgamento e a vingança do nosso sangue sobre os habitantes da terra?

Nesta altura, é dada a cada um uma veste branca e dizem-lhes que esperem ainda um pouco até que esteja completo o número de mártires que devem morrer. Ainda então não se fala da “religião do amor”, do “amai aqueles que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem” etc. . . . Aqui prega-se abertamente a vingança, a sã, a honesta vingança a exercer sobre os perseguidores dos cristãos. Isso prolonga-se ao longo de todo o livro. Quanto mais se aproxima a crise, mais as chagas e os julgamentos chovem densamente do céu, e mais o nosso João sente alegria ao anunciar que a maioria dos homens continua a não se arrepender e a recusar fazer penitência pelos seus pecados; que novos flagelos de Deus devem cair sobre eles; que Cristo deve governá-los com uma vara de ferro e pisar o vinho no lagar da cólera de Deus todo poderoso; mas que, apesar de tudo, os maus continuam a ter o coração endurecido. É o sentimento natural, afastado de toda a hipocrisia, de que se está em luta, e que “na guerra como na guerra”. Na abertura do sétimo selo, aparecem sete anjos com trombetas: sempre que um anjo toca a trombeta, produzem-se novos sinais de terror. Depois do sétimo toque de trombeta, sete novos anjos surgem em cena trazendo as sete cóleras de Deus, que são lançadas sobre a terra, e de novo chovem flagelos e julgamentos, no essencial uma fatigante repetição do que já acontecera inúmeras vezes. Depois, surge a mulher, Babilônia, a grande prostituída, vestida de púrpura e de escarlate, sentada sobre as águas, bêbada do sangue dos santos e do sangue dos mártires de Jesus; é a grande cidade sobre as sete colinas que tem a realeza sobre os reis da terra. Está sentada sobre um animal que tem sete cabeças e dez cornos. As sete cabeças são sete montanhas, são também sete “reis”. Desses reis, cinco passaram; um existe, o sétimo virá, e, depois dele, um dos cinco primeiros voltará, o qual estava ferido de morte mas curou-se. Este reinará sobre a terra quarenta e dois meses ou três anos e meio (a metade de uma semana de anos de sete anos), perseguirá os fiéis até a morte e fará triunfar a impiedade. Em seguida, trava-se uma grande batalha decisiva, os santos e os mártires são vingados pela destruição da grande prostituta Babilônia e todos os seus partidários, quer dizer, a grande maioria dos homens; o diabo é precipitado no abismo e aí é agrilhoado durante mil anos, durante os quais reina Cristo com os mártires ressuscitados. Quando os mil anos tiverem sido cumpridos, o diabo é libertado: segue-se uma última batalha dos espíritos na qual ele é definitivamente vencido. Há uma segunda ressurreição, os restantes mortos ressuscitam e comparecem diante do trono de Deus (não do de Cristo, reparem bem) e os fiéis entram num novo céu, numa nova Terra e numa nova Jerusalém para a vida eterna. Tal como toda esta construção é erguida com materiais quase exclusivamente judeus e pré-cristãos, também inclui quase exclusivamente concepções puramente judaicas. Desde que as coisas começaram a correr mal para o povo de Israel, a partir do momento em que ficou tributário da Assíria e da Babilônia, desde a destruição dos dois reinos de Israel e de Judá, até à sua submissão pelos Seleucidas, isto é, de Isaías até Daniel, sempre existiu, nas horas da adversidade, a profecia de um salvador providencial. No capítulo XII, I, de Daniel encontra-se a profecia da descida de Miguel, o anjo-da-guarda dos Judeus, que os libertará da sua grande angústia: “Muitos mortos ressuscitarão; haverá uma espécie de julgamento final e aqueles que ensinaram a justiça à multidão brilharão como estrelas, para sempre e perpetuamente”. De cristão, apenas a forma como se insiste na iminência do reino de Jesus Cristo e na felicidade dos fiéis ressuscitados, particularmente dos mártires.

É à crítica alemã, e sobretudo a Ewald, Lucke e Ferdinand Benary que devemos a interpretação desta profecia, no que respeita aos acontecimentos da época. Graças a Renan, ela penetrou noutros meios para lá dos círculos teológicos. A grande prostituída, Babilônia, significa, como vimos, a cidade das sete colinas, Roma. Do animal sobre o qual ela está sentada, diz-se, XVII, nove, 11:

As sete cabeças são sete montanhas sobre as quais a mulher está sentada. São também sete reis: cinco caíram, um existe, o outro ainda não veio, e, quando vier, ficará pouco tempo. E o animal que estava, e que já não está, é um oitavo rei, e pertence ao número dos sete, e caminha para a perdição.

O animal é, pois, a dominação mundial de Roma, representada sucessivamente por sete imperadores, um dos quais foi ferido de morte e deixou de reinar, mas que se curou, e voltará, para cumprir, como oitavo rei, o reino da blasfêmia e da rebelião contra Deus.

E foi-lhe ordenado que fizesse a guerra aos santos e os vencesse. E foi-lhe dada autoridade sobre todas as tribos, todos os povos, todas as línguas e todas as nações, e todos os habitantes da Terra o adorarão, aqueles cujo nome não foi escrito desde a fundação do mundo no livro da vida do cordeiro que foi imolado. E ela fez com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, recebessem uma marca sobre a mão direita ou sobre a fronte e com que ninguém pudesse comprar ou vender sem ter a marca, o nome do animal ou o número do seu nome. É esta a sabedoria. Que quem tem inteligência calcule o número do animal. Porque é um número de homem e o seu número é 666 (XIII, sete-18).

Constatemos apenas que o boicote é mencionado aqui como uma medida a empregar pelo poderio romano contra os cristãos — que ele é, pois, manifestamente uma invenção do diabo — e passemos à questão de sabermos quem é esse imperador romano que já reinou, que foi ferido de morte e que volta como o oitavo da série para ser o Anticristo.

Depois de Augusto, o primeiro, temos: dois, Tibério; três, Calígula; quatro, Cláudio; cinco, Nero; seis, Galba. “Cinco caíram, um existe”. Portanto Nero já caiu. Galba existe. Galba reinou de 9 de junho de 68 até 15 de janeiro de 69. Mas, assim que ele subiu ao trono, as legiões do Reno sublevaram-se sob Vitellius, enquanto, noutras províncias, outros generais preparavam levantamentos militares. Mesmo em Roma, os pretorianos sublevaram-se, mataram Galba e proclamaram Otão imperador.

Daqui resulta que o nosso “Apocalipse” foi escrito sob Galba, naturalmente para o fim do seu reinado, ou mais tarde, durante os três meses (até 15 de abril de 69) do reinado de Otão, o sétimo. Mas quem é o oitavo, que foi e não é? O número 666 é a chave.

Entre os Semitas — os Caldeus e os Judeus — desta época, uma arte mágica estava em voga, baseada num duplo significado das letras. Desde cerca de trezentos anos antes da nossa era, as letras hebraicas eram também empregues como números: a=1, b=2, c=3, d=4, e assim sucessivamente. Ora, os adivinhos cabalistas adicionavam os valores numéricos das letras de um nome, e com a ajuda da soma dos algarismos obtida, por exemplo formando palavras ou combinações de palavras de um igual valor numérico que permitiam extrair conclusões sobre o futuro de quem tinha o nome, procuravam fazer profecias. De forma idêntica exprimiam-se palavras secretas nessa língua numérica. Dava-se a esta arte um nome grego, “ghematriah”, geometria; os Caldeus, que a exerciam como profissão, e a quem Tácito chamava “mathemaci”, foram expulsos de Roma sob Cláudio, e de novo sob Vitellius, provavelmente por “delito grave”.

Foi precisamente por meio desta matemática que foi produzido o número 666. Por detrás dele, esconde-se o nome de um dos primeiros cinco imperadores romanos. Ora, Ireneu, no fim do século II, além do número 666, conhecia a variante 616, que datava também de uma época em que o enigma dos algarismos era ainda conhecido. Se a solução responder igualmente aos dois números, a prova está feita.

Ferdinand Bernary, em Berlim, encontrou essa solução. O nome é Nero. O número fundamenta-se em Neron Kesar, a transcrição hebraica — como o atestam o Talmude e as inscrições palmirianas — do grego “Nérôn Kaisar”, Nero imperador, que tinha, como legenda, a moeda de Nero, cunhada nas províncias do Leste do Império. Assim: n (nun)=50; r(resch)=200; v(vau) por 0=6; n(nun)=50; k(koph)=100; s(samech)=60; e r(resch)=200; total=666. Ora, tomando como base a forma latina, “Nero Caesar” o segundo n(nun)=50 suprime-se, e obtemos 666-50=616, a variante de Ireneu.

Efetivamente, todo o Império Romano, no tempo de Galba, vivia em plena confusão. O próprio Galba, chefiando as legiões de Espanha e da Gália, marchara sobre Roma para expulsar Nero; este fugiu e fez-se matar por um liberto. Mas, contra Galba, não só os pretorianos em Roma mas também os comandantes das províncias conspiravam; por todo o lado surgiram pretendentes ao trono, preparando-se para avançar sobre a capital com as suas legiões. O Império parecia ter caído numa guerra intestina; a sua queda parecia iminente. Para cúmulo, espalhou-se o boato, sobretudo no Oriente, de que Nero não estava morto, mas apenas ferido, que estava refugiado entre os Partas, que atravessaria o Eufrates e surgiria com uma força armada para inaugurar um novo reino de terror ainda mais sangrento. Sobretudo a Acaia e a Ásia foram alarmadas com essas notícias. E, precisamente no momento em que o “Apocalipse” deve ter sido composto, apareceu um falso Nero que se estabeleceu com um partido bastante numeroso na ilha de Citnos (a Térmia moderna), no mar Egeu, perto de Patmos e da Ásia Menor, até que foi morto sob Otão. Nada de espantoso que entre os cristãos, contra quem Nero lançara as primeiras grandes perseguições, se tenha propagado o boato de que ele havia de voltar como Anticristo, que o seu regresso bem como uma nova e mais séria tentativa de exterminação sangrenta da jovem seita seriam o presságio e o prelúdio de Cristo, da grande batalha vitoriosa contra as potências do inferno, do reino dos mil anos a estabelecer “em breve” e cuja chegada certa permitia aos mártires irem alegremente para a morte.

A literatura cristã e de inspiração cristã dos dois primeiros séculos garante, com índices suficientes, que o segredo do número 666 é então conhecido de muitos. Ireneu de certeza que já o não conhecia, mas, por outro lado, sabia, como muitos outros até fins do século II, que o animal do “Apocalipse” era Nero voltando. Depois, este último traço perdeu-se e o nosso “Apocalipse” caiu em poder da interpretação fantástica dos adivinhos ortodoxos; eu próprio ainda conheci pessoas idosas que, segundo os cálculos do velho Johnn Albrecht Bengel, esperavam o fim do mundo e o último julgamento para o ano de 1836; a profecia realizou-se na data anunciada. Só que o julgamento não atingiu o mundo dos pecadores, mas antes os piedosos intérpretes do “Apocalipse”. Porque, nesse ano de 1836, F. Bernary forneceu a chave do número 666 e pôs assim termo a todo esse cálculo divinatório, a essa nova “ghemetriah”.

Do reino celeste reservado aos fiéis, o nosso João apenas nos fornece uma descrição muito superficial. Para a época, a nova Jerusalém é construída segundo um plano bastante grandioso: um quadrado de 12.000 estádios de lado=2227 quilômetros, portanto uma superfície de cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados, mais do que metade dos Estados Unidos da América, construída unicamente em ouro e pedras preciosas. Aí, Deus habita no meio dos seus e ilumina-os, substituindo o Sol; não há já nem morte, nem lamentos, nem sofrimentos; um rio de água viva corre através da cidade, nas suas margens cresce a árvore da vida produzindo doze vezes os seus frutos, dando fruto todos os meses, e as folhas das árvores servem “para a cura dos gentis” (à maneira de um chá medicinal, segundo Renan: “O Anticristo”, p. 542). Aí vivem os santos nos séculos dos séculos.

Era assim que se construía o cristianismo na Ásia Menor, o seu primeiro centro, por volta do ano de 68, segundo o que conhecemos. Nenhum indício de uma Trindade; em seu lugar, o velho Jeová, uno e indivisível, do judaísmo decadente, que, de Deus nacional judeu, se elevou à categoria de Deus único; Deus supremo do céu e da terra onde pretende reinar sobre todos os povos, prometendo a graça aos convertidos e exterminando os rebeldes sem misericórdia, nisso fiel ao antigo “parcere subjectis ac debellare superbos”. Também é esse Deus que preside o último julgamento, e não Jesus Cristo, como nas narrativas ulteriores dos Evangelhos e das Epístolas. Conforme à doutrina persa da emanação, familiar ao judaísmo decadente, o Cristo é o cordeiro, emanado de Deus de toda a eternidade; tal como, embora ocupando um lugar muito inferior, os “sete espíritos de Deus” que devem a sua existência a uma passagem poética mal compreendida (Isaías, XI, dois). Nenhum deles é Deus ou igual a Deus, mas submetido a ele. O cordeiro oferece-se de sua plena vontade como sacrifício expiatório pelos pecados do mundo, e por esse alto feito vê-se expressamente promovido em grau no céu; em todo o livro esse sacrifício voluntário é contado como um ato extraordinário e não como uma ação oriunda necessariamente do mais profundo do seu ser.

É evidente que toda a corte celeste dos antigos, dos querubins, dos anjos e dos santos não falta. Para se constituir em religião, o monoteísmo sempre teve de fazer concessões ao politeísmo, datando do “Zendavesta”. Entre os Judeus, a recaída para os deuses pagãos e sensuais persiste em estado crônico até que, depois do exílio, a corte celeste, à maneira persa, acomoda um pouco melhor a religião à imaginação popular. O próprio cristianismo, mesmo depois de ter substituído o Deus dos Judeus eternamente imutável pelo misterioso Deus trinitário, diferenciado em si mesmo, não conseguiu suplantar o culto dos antigos deuses entre as massas senão pelo culto dos santos. Assim, segundo Fallmerayer, o culto de Júpiter persistiu no Peloponeso, na Maina, na Arcádia, até cerca do século IX. E só a época moderna e o seu protestantismo afastam os santos e encaram, enfim, seriamente, o monoteísmo diferenciado.

O nosso “Apocalipse” também não conhece o dogma do pecado original nem a justificação pela fé. A fé dessas primeiras comunidades belicosas difere completamente da Igreja triunfante posterior; ao lado do sacrifício expiatório do cordeiro, a próxima vinda de Cristo e a iminência do reino milenar constituem o seu conteúdo essencial e ela manifesta-se pela ativa propaganda, pela luta sem tréguas contra o inimigo de fora e de dentro, pela orgulhosa confissão das suas convicções revolucionárias diante dos juízes pagãos, pelo martírio corajosamente suportado na certeza da vitória.

Como vimos, o autor não suspeita ainda que é algo mais que Judeu. Conseqüentemente, nenhuma alusão, em todo o livro, ao batismo; existem também numerosos indícios de que o batismo é uma instituição do segundo período cristão. Os 144.000 Judeus crentes são “selados”, não batizados. Dos santos no céu é dito: “São aqueles que lavaram e embranqueceram as longas vestes no sangue do cordeiro”; nada acerca da água do batismo. Os dois profetas que precedem a aparição do Anticristo (cap. XI) também não batizam e, no capítulo XIX, 10, o testemunho de Jesus não é o batismo mas o espírito de profecia. Teria sido natural em todas estas ocasiões falar do batismo, por pouco que estivesse já instituído. Estamos pois autorizados a concluir com uma quase certeza que o nosso autor não o conhecia e que ele só foi introduzido quando os cristãos se separaram completamente dos Judeus.

O nosso autor é também ignorante acerca do segundo sacramento ulterior — a eucaristia. Se no texto de Lutero o Cristo promete a todos os Tiasirianos que perseveraram na fé a entrada na sua casa e a comunhão com ele, isso constitui uma falsa abordagem do texto. Em grego lê-se “deipneso”, eu cearei (com ele), e a palavra está corretamente traduzida na bíblia inglesa: “I shall sup with him”. A ceia como festim comemorativo não é aqui referida.

O nosso livro, com a data (68 ou 69) atestada de maneira tão particular, é indubitavelmente o mais antigo da literatura cristã no seu conjunto. Nenhum outro é escrito numa língua tão bárbara, em que formigam os hebraísmos, as construções impossíveis, os erros gramaticais. Só os teólogos de profissão, ou outros historiógrafos interessados, continuam a negar que os Evangelhos e os “Atos dos Apóstolos” são arranjos tardios de escritos hoje perdidos e cujo tênue núcleo histórico já não pode ser descoberto sob a luxuriante lenda; mesmo as três ou quatro “Epístolas” apostólicas pretensamente autênticas de Bruno Bauer não representam mais do que escritos de uma época posterior, ou, na melhor das hipóteses, composições mais antigas de autores desconhecidos, retocadas e embelezadas por numerosas adições e interpolações. É muito mais importante para nós possuir com a nossa obra, cujo período de redação se estabelece com a margem de erro de um mês, um livro que nos apresenta o cristianismo sob a sua forma mais rudimentar, sob a forma em que está para a religião de Estado do século IV, constituída na sua dogmática e na sua mitologia pouco mais ou menos como a mitologia ainda vacilante dos Germanos de Tácito está para a mitologia do Edda, plenamente elaborada sob a influência de elementos cristãos e antigos.

O germe da religião universal encontra-se lá, mas contém ainda em estado indiferenciado as mil possibilidades de desenvolvimento que se realizaram nas inumeráveis seitas ulteriores. Se o fragmento mais antigo do processo de elaboração do cristianismo tem para nós um valor muito particular, é porque nos proporciona, na sua integridade, o que o judaísmo — fortemente influenciado por Alexandria — forneceu ao cristianismo. Tudo o que é posterior é acrescento ocidental, greco-romano. Foi necessária a mediação da religião judaica monoteísta para fazer revestir ao monoteísmo erudito da filosofia grega vulgar a forma religiosa sob a qual ele podia chegar às massas. Uma vez essa mediação encontrada, ele só podia tornar-se uma religião universal no mundo greco-romano, continuando a desenvolver-se para finalmente se fundir no fundo de idéias que esse mundo tinha conquistado.

por Friedrich Engels, publicado no Die Neue Zeit, em 1895
TEMAS:

Marxismo-leninismo

"Um Catedrático Liberal Fala de Igualdade"

Lenin: 

25.02.2016

O senhor catedrático liberal Tugán-Baranovski lançou-se em campanha contra o socialismo. Desta vez não abordou a questão sob o ângulo político-econômico, mas sob o ângulo dos raciocínios gerais sobre a igualdade (talvez esses raciocínios gerais tenham parecido ao catedrático mais apropriados para as palestras religioso-filosóficas em que ele usou da palavra?).

“Se considerarmos o socialismo», proclamou o Sr. Tugán, «não como uma teoria económica mas como um ideal de vida, então não há dúvida de que ele está ligado ao ideal da igualdade, mas a igualdade é um conceito... que se não pode deduzir da experiência nem da razão.”

Tal é o raciocínio de um douto liberal, que repete argumentos incrivelmente rebatidos e gastos: a experiência e a razão, diz, testemunham claramente que as pessoas não são iguais, e o socialismo baseia o seu ideal na igualdade. Portanto, como veem, o socialismo é um absurdo, contradiz a experiência e a razão e assim por diante!

O Sr. Tugán repete o velho processo dos reacionários: primeiro deturpar o socialismo, atribuindo-lhe um absurdo, e depois refutar vitoriosamente o absurdo! Quando se diz que a experiência e a razão testemunham que as pessoas não são iguais, entende-se por igualdade a igualdade de capacidades ou a identidade das forças físicas e das capacidades intelectuais das pessoas.

É evidente que nesse sentido as pessoas não são iguais. Nenhum homem sensato e nenhum socialista o esquece. Simplesmente, tal igualdade não tem nenhuma relação com o socialismo. Se o Sr. Tugán de todo em todo não sabe pensar, em todo o caso sabe ler, e se tomasse uma conhecida obra de um dos fundadores do socialismo científico, Friedrich Engels, contra Dühring, o Sr. Tugán poderia ler aí uma explicação especial segundo a qual seria tolice entender por igualdade no domínio económico outra coisa que não seja a supressão das classes. Mas quando os senhores catedráticos se dedicam a refutar o socialismo, nunca se sabe o que mais nos surpreende, se a sua estupidez, se a sua ignorância, se a sua má-fé.

É necessário começar pelos rudimentos, uma vez que tratamos com o Sr. Tugán.

Por igualdade os sociais-democratas entendem, no domínio político, a igualdade de direitos, e no domínio económico, como já foi dito, a supressão das classes. Quanto a estabelecer a igualdade humana no sentido de igualdade das forças e capacidades (físicas e intelectuais), os socialistas nem sequer pensam nisso.

A igualdade de direitos é a reivindicação de direitos políticos iguais para todos os cidadãos do Estado que atingiram uma certa idade e não sofrem de debilidade mental, nem comum nem liberal-professoral. Esta reivindicação foi apresentada pela primeira vez de modo nenhum pelos socialistas, pelo proletariado, mas pela burguesia. A experiência histórica, que todos conhecem, de todos os países do mundo testemunha-o, como se sabe, e o Sr. Tugán poderia muito facilmente sabê-lo se não se referisse à “experiência” exclusivamente com o objectivo de enganar os estudantes e os operários, com o objectivo de agradar aos potentados com o “aniquilamento” do socialismo.

A burguesia apresenta a reivindicação de igualdade de direitos de todos os cidadãos na luta contra os privilégios medievais, feudais, de estado social. Na Rússia, por exemplo, diferentemente da América, da Suíça, etc., ainda hoje se mantêm os privilégios do estado social da nobreza em toda a vida política, nas eleições para o conselho de Estado, nas eleições para a Duma, na administração local, em matéria de impostos e em muitos, muitos outros domínios.

Até o indivíduo menos perspicaz e menos desenvolvido pode compreender que as diferentes pessoas que pertencem ao estado social da nobreza não são iguais quanto às suas capacidades físicas e intelectuais, tal como não são iguais entre si as pessoas que pertencem ao estado social camponês, “sujeito a tributo”, “plebeu”, “inferior” ou “não privilegiado”. Mas quanto aos seus direitos todos os nobres são iguais, e todos os camponeses são iguais quanto à sua falta de direitos.

Compreenderá agora o douto e liberal catedrático Sr. Tugán a diferença entre a igualdade no sentido de igualdade de direitos e a igualdade no sentido de igualdade de forças e capacidades?

Passemos agora à igualdade no sentido económico. Nos Estados Unidos da América, tal como noutros Estados avançados, não há privilégios medievais. Todos os cidadãos são iguais do ponto de vista dos direitos políticos. Mas serão eles iguais quanto à sua situação na produção social?

— Não, Sr. Tugán, não são iguais. Uns possuem a terra, as fábricas, os capitais, e vivem à custa do trabalho não pago dos operários; esses são uma ínfima minoria. Os outros, precisamente a massa imensa da população, não possuem quaisquer meios de produção e vivem apenas da venda da sua força de trabalho; são os proletários.

Nos Estados Unidos da América não há nobres, e o burguês e o proletário têm iguais direitos políticos. Mas eles não são iguais quanto à sua situação de classe: uns, a classe dos capitalistas, possuem os meios de produção e vivem à custa do trabalho não pago dos operários; os outros, a classe dos operários assalariados, dos proletários, não têm meios de produção e vivem da venda no mercado da sua força de trabalho.

Suprimir as classes, significa colocar todos os cidadãos em situação idêntica relativamente aos meios de produção de toda a sociedade, significa que todos os cidadãos têm idêntico acesso ao trabalho baseado nos meios de produção sociais, na terra social, nas fábricas sociais, etc.

Esta explicação daquilo que é o socialismo era necessária para esclarecer o douto catedrático liberal Sr. Tugán, que talvez agora, fazendo um esforço, compreenda que é absurdo esperar a igualdade das forças e capacidades das pessoas na sociedade socialista.

Em suma: quando os socialistas falam de igualdade, entendem sempre por isso a igualdade social, a igualdade da situação social, e de modo nenhum a igualdade das capacidades físicas e intelectuais dos diferentes indivíduos.

O leitor perguntará talvez, perplexo, como é possível que um douto catedrático liberal tenha esquecido estas verdades elementares, conhecidas de qualquer um através de qualquer exposição das concepções do socialismo? A resposta é simples: as particularidades pessoais dos atuais catedráticos são tais que entre eles se podem encontrar mesmo pessoas de uma estupidez tão rara como Tugán. Mas a situação social dos catedráticos na sociedade burguesa é tal que só são admitidos nessas funções aqueles que vendem a ciência ao serviço dos interesses do capital, apenas aqueles que concordam em dizer contra os socialistas as mais incríveis tolices, os mais desavergonhados absurdos e asneiras. A burguesia perdoa tudo isso aos catedráticos desde que eles se ocupem em “aniquilar” o socialismo.


por Lenin, publicado no Put Právdi n° 33, de 11 de Março de 1914

TEMAS:
Marxismo-leninismo

Lênin

"Capital e Tecnologia"

Marx:

14.12.2015

O mundo atual é fortemente marcado pela constante apresentação de novos “milagres” produzidos pelas inovações tecnológicas. O sistema aparece como tendo uma capacidade infinita de resolver problemas humanos pela “criatividade” que suscita. Em texto fundamental e muito pouco conhecido, Marx já apontava como as pesquisas, os próprios pesquisadores e as inovações tecnológicas estão inseridos no processo de acumulação capitalista. Trata-se de um dos clássicos indispensáveis à compreensão de um dos traços mais evidentes da dinâmica do capital hoje.

A aplicação das forças naturais e da ciência
A grande produção (a cooperação em ampla escala e o emprego de máquinas) submete, ante tudo e em grande escala, as forças da natureza – o vento, a água, o vapor, a eletricidade – ao processo direto de produção, transformando-as em agentes do trabalho social. (Nas formas pré-capitalistas da agricultura o trabalho humano não é outra coisa senão uma ajuda do processo natural que, aliás, ele não controla.) Estas forças da natureza, enquanto tais, não custam nada. Não são produto do trabalho humano. A apropriação das mesmas não se produz só com a ajuda das máquinas que, diferentemente, têm um custo, já que estas são produto do trabalho passado. Por isto, somente graças às máquinas, seus proprietários se apropriam das forças da natureza na qualidade de agentes do processo de trabalho.

Já que estes agentes naturais não custam nada, entram no processo de trabalho sem entrar no processo do aumento do valor. Tornam produtivo o trabalho sem aumentar o custo do produto, sem acrescentar o valor da mercadoria. Pelo contrário, diminuem o valor da mercadoria individual, aumentam a massa das mercadorias produzidas no mesmo tempo de trabalho, ao diminuir o valor de cada uma das partes correspondentes dessa massa. Diminui também o valor da força de trabalho, ou seja, se reduz o tempo de trabalho necessário para a produção do salário e aumenta a mais-valia, já que aquelas mercadorias entram na produção da força de trabalho. Neste sentido, o capital mesmo se apropria das forças da natureza, não porque estas aumentem o valor das mercadorias, e sim porque o diminuem, já que entram no processo de trabalho sem entrar no processo do aumento do valor. O uso destas forças da natureza em ampla escala só é possível naqueles lugares em que se podem empregar as máquinas em ampla escala e nos que, por conseguinte, se usa também uma massa de operários correspondentes às mesmas e a cooperação destes operários submetidos ao capital.

O emprego dos agentes naturais – em certa medida, sua incorporação ao capital – coincide com o desenvolvimento da ciência como fator autônomo do processo produtivo. Se o processo produtivo se converte na esfera de aplicação da ciência; a ciência, pelo contrário, se converte em fator, em função, por assim dizer, do processo produtivo. Cada descoberta se converte na base de novas invenções ou de um novo aperfeiçoamento dos modos de produção. O modo capitalista de produção é o primeiro a colocar as ciências naturais a serviço direto do processo de produção, quando o desenvolvimento da produção proporciona, diferentemente, os instrumentos para a conquista teórica da natureza. A ciência logra o reconhecimento de ser um meio para produzir riqueza, um meio de enriquecimento.

Deste modo, os processos produtivos se apresentam pela primeira vez como problemas práticos, que só se podem resolver cientificamente. A experiência e a observação (e as necessidades do processo produtivo) alcançam assim pela primeira vez um nível que permite e torna indispensável o emprego da ciência.

A exploração da ciência e do progresso teórico da humanidade
O capital não cria a ciência e sim a explora apropriando-se dela no processo produtivo. Com isto se produz, simultaneamente, a separação entre a ciência, enquanto ciência aplicada à produção e o trabalho direto, enquanto nas fases anteriores da produção a experiência e o intercâmbio limitado de conhecimentos estavam ligados diretamente ao próprio trabalho; não se desenvolviam tais conhecimentos como força separada e independente da produção e, portanto, não haviam chegado nunca em conjunto além dos limites da tradicional coleção de receitas que existiam desde há muito tempo e que só se desenvolviam muito lenta e gradualmente (estudo empírico de cada um dos artesanatos). O braço e a mente não estavam separados.

Do mesmo modo que por máquina entendemos a “máquina do patrão” e, por sua função, a “função do patrão”, no processo produtivo (na produção), assim é também a situação da ciência que se encarna nesta máquina, nos modos de produção, nos processos químicos, etc. A ciência intervém como força externa, hostil ao trabalho, que o domina e cuja aplicação é, por uma parte, desenvolvimento científico de testemunhos, de observações, de segredos do artesanato adquiridos por vias experimentais, pela análise do processo produtivo e aplicação das ciências naturais ao processo material produtivo; e como tal, se baseia, do mesmo modo, na separação das forças espirituais do processo no que se refere aos conhecimentos, testemunhos e capacidades do operário individual e como a acumulação e o desenvolvimento das condições de produção e sua transformação em capital se baseiam na privação do operário destas condições, na separação do operário em relação às mesmas. Ademais, o trabalho na fábrica ao operário o conhecimento de alguns procedimentos: por isso se revogaram as leis da aprendizagem, enquanto luta do Estado, etc., para que as crianças da fábrica aprendessem pelo menos a ler e a escrever, demonstra que esta aplicação da ciência ao processo de produção coincide com a repressão de todo desenvolvimento intelectual no curso deste processo. Na realidade, apesar disto se constitui um pequeno grupo de operários altamente qualificados; no entanto, o número destes não guarda nenhuma relação com as massas de operários “privados de conhecimentos” (entkenntnisten).

Por outra parte, resultam igualmente evidentes os seguintes fatos: o desenvolvimento das ciências naturais (que formam, aliás, a base de qualquer conhecimento), como de qualquer noção (que se refira ao processo produtivo) ocorre novamente sobre a base da produção capitalista que pela primeira vez lhes proporciona em grande medida — às ciências — os meios materiais de investigação, observação, experimentação. Já que as ciências são utilizadas pelo capital como meio de enriquecimento e se convertem, portanto, em meios de enriquecimento para os homens que se ocupam do desenvolvimento das ciências, os homens de ciência competem entre si no intento de encontrar uma aplicação prática da ciência. De outro lado, a invenção se converte em uma espécie de artesanato. Por isso junto com a produção capitalista se desenvolve, pela primeira vez de maneira consciente, o fator científico em certo nível, se emprega e se constitui em dimensões que não se poderiam conceber em épocas anteriores ...

Somente a produção capitalista transforma o processo produtivo material em aplicação da ciência à produção — em ciência, posta em prática, mas somente submetendo o trabalho ao capital e reprimindo o próprio desenvolvimento intelectual e profissional ...

No séc. XVIII, o progresso no campo das matemáticas, da mecânica, da química e as descobertas na Inglaterra, França, Suíça e Alemanha se produziram quase simultaneamente. Também se produz o mesmo fenômeno por exemplo com as invenções na França. Mas só na Inglaterra se produzia seu emprego em sentido capitalista, já que somente nela se haviam desenvolvido tanto as relações econômicas que tornavam possível a exploração do progresso científico por parte do capital. (Tiveram nisto uma importância decisiva suas relações agrárias e suas possessões coloniais.)...

Examinamos separadamente a mais-valia absoluta e relativa. Na produção capitalista, pelo contrário, ambas estão unidas. E precisamente no desenvolvimento industrial contemporâneo se evidencia que se desenvolvem simultaneamente: a jornada de trabalho se prolonga na medida em que diminui o tempo necessário, graças ao desenvolvimento das forças sociais produtivas de trabalho.

excerto dos Manuscritos de 1861-1863

Karl Marx

Marxismo-leninismo

segunda-feira, 28 de março de 2016

A CRISTO, N.S. CRUCIFICADO.


(Estando o poeta na última hora da sua vida)

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer,
Animoso, constante, firme e inteiro:
Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer;
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso Cordeiro.
Mui grande é o vosso amor e o meu delito;
Porém, pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.


Gregório de Matos
André Castelo Branco Machado 

É possível sim um governo, acobertado pelo silêncio de grandes empresas de comunicação, impedir investigações de esquemas de corrupção. Em SP tá tudo bem escondido, em sigilo e amordaçado.

Isso já ocorreu na esfera federal aqui no Brasil, na época em que o governo apoiado pelos Marinho engavetava tudo e a globo não dava um pio. Eles querem voltar e, para isso, convenceram um monte de gente a sair às ruas "contra a corrupção" e pelo impeachment da presidente eleita.

“Não pretendo te convencer”

Quando argumentamos sobre algo e dizemos que não pretendemos convencer, isso pode significar que estamos conversando fiado. Explicamos ou fundamentamos uma ideia (argumentar) para convencer alguém ou a nós mesmos. Se argumentamos apenas para nós mesmos, devemos fazer isso realmente, e não incomodar os outros. Mas muitas vezes as pessoas dizem que não pretendem convencer sinalizando humildade, querendo dizer que elas próprias não acham seus argumentos fortes. Isso é diferente de dizer que não procurou convencer. É dizer que achas que não conseguiu ou conseguirá convencer.


jan. 28th, 2016

crítica autônoma

sábado, 26 de março de 2016

O Homem — um cadáver adiado


A vida do homem não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de ser vencido.
— Arthur Schopenhauer, in As Dores do Mundo.

Que a vida ensine que tão
ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.
Que o abraço abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo e verbe.
Verde. Como a esperança.
Pois, do jeito que o mundo vai,
dá vontade de apagar e começar tudo de novo...

Artur da Távola
J. Carlos de Assis*
reprodução Em artigo anterior expus os vícios praticados pelos noticiaristas e comentaristas da Globo na cobertura distorcida do noticiário nacional. Agora vou acabar o serviço fazendo uma análise sumária do noticiário internacional. Este é o campo preferido de William Waack, onde, com seus esgares característicos, ele nada de braçadas, ora vocalizando os interesses do Departamento de Estado americano, ora fulminando com a política de integração sul americana iniciada na gestão de Lula e aprofundada no governo Dilma.

As duas mais brilhantes conquistas da diplomacia brasileira há décadas, a construção da Unasul e o apoio decidido à organização dos BRICS, pareceram à Globo um passo insignificante ou nulo para os interesses brasileiros objetivos. Por puro viés ideológico, ela desmereceu o momento político mais positivo da região, em décadas, criado por afinidades democráticas entre os presidentes da América do Sul. E relegou a Arnaldo Jabor a tarefa de caracterizar a Unasul como uma entidade ideológica esquerdista e insignificante.

A motivação óbvia é o descompasso potencial entre Unasul e os interesses norte-americanos, defendidos diligentemente por Jabor, algo que ficou ainda mais explícito com a organização dos BRICS. Neste caso, ao interesse econômico concreto, a diplomacia brasileira adicionou um aspecto adicional geoeconômico e geopolítico, tendo em vista a aproximação política do Brasil com a China e, principalmente, com a Rússia – o grande rival nuclear pós-Guerra Fria dos Estados Unidos no plano mundial. A atitude da Globo aqui não foi principalmente de oposição mas de omissão ou desmerecimento.

Talvez o fato mais significativo em outro nível, a subserviência da Globo à política racista americana pró-Israel e contra os muçulmanos, tenha sido a cobertura pela tevê da iniciativa do Governo Lula no sentido de uma solução para a questão nuclear iraniana. Com prévio conhecimento de Obama, Brasil e Turquia propuseram um caminho ao Irã e aos Estados Unidos para se chegar a um acordo aceitável para as partes. Israel ficou contra, e obrigou os Estados Unidos a voltarem atrás e abortar a iniciativa. Obama se comportou, portanto, como um mau-caráter servil aos belicistas, e o Jornal de Waack tomou o lado dos belicistas.


A Globo regozijou-se com o mau resultado da legítima tentativa do Brasil, como membro temporário do Conselho de Segurança da ONU, de tentar ajudar no encaminhamento pacífico do mais prolongado e difícil conflito no mundo contemporâneo. O comentarista Arnaldo Jabor festejou o que teria sido um monumental fracasso brasileiro, condenando publicamente a interferência de Lula num jogo político que lhe parecia ser destinado exclusivamente aos “grandes”. Não houve uma única referência ao fato de que, pela primeira vez nas negociações dos Estados Unidos (ou, como querem, do “ocidente”) com o Irã, chegou-se muito próximo de um acordo por uma audaciosa e oportuna intervenção brasileira e turca, quebrando o gelo das negociações.

Não posso imaginar nenhuma televisão no mundo que se coloque tão abertamente contra iniciativas diplomáticas abertas de seu país, em especial quando se trata de iniciativas de paz, como a rede Globo. Claro, para Waack e Jabor mais vale uma gracinha na mão que um noticiário responsável voando. A parcialidade em favor da direita anti-palestina de Israel, assim como da direita norte-americana salta à vista. No caso do Irã, assim como foi anteriormente no caso do Iraque, o interesse norte-americano vem descaradamente coberto por um ente de razão chamado “ocidente”, como se houvesse uma real coligação de países ocidentais coordenados pelo hegemon decadente. O que se tem, hoje, na Europa é apenas medo da pressão diplomática e econômica norte-americana.

Não fossem a internet e as redes sociais, jamais saberíamos que o avião derrubado na Ucrânia o foi provavelmente por forças radicais do governo de Kiev, e não pelos insurgentes russófilos; que o assassinato de Allende foi orquestrado pelo Departamento de Estado; que o golpe brasileiro teve o patrocínio direto americano; que a direita belicista israelense sequestrou corações e mentes americanas; que o noticiário vindo dos Estados Unidos está contaminado por uma visão parcial da história mediante o controle direto pelo aparato de informação da notícia distribuída pelas agências.

Os repórteres da Globo enviados para o exterior, com raríssimas exceções – posso citar Renato Machado, com medo de prejudicá-lo no meio da mediocridade e da negatividade -, absorvem a cultura local pela ótica norte-americana, e não pela brasileira. Em matéria de política e de economia o que vale é o que agrada o Tio Sam. Em geral, são mal formados, porque a Globo dá atenção máxima à forma, não ao conteúdo. De qualquer modo, as meninas bonitas da Globo defendem suas promoções seguindo rigorosamente a cartilha de direita extremada da emissora.

Conheci Waack décadas atrás, na cobertura de uma reunião dos Sete Grandes em Bonn, na Alemanha. Na época, a cobertura política tinha total precedência sobre a econômica, pois o neoliberalismo ainda não estava plenamente instalado no mundo. Waack se revelou contente de me entregar a parte econômica da cobertura porque, dizia ele, não sabia nada de economia. Fiz minha parte. Testemunhei o que foi a completa capitulação da França e da Itália socialistas ao credo neoliberal defendido por Reagan e Thatcher no comunicado final. Claro, Waack e a maioria dos jornalistas políticos não tiveram ideia do que estava acontecendo.

Como isso aconteceu em 1985, teria bons motivos para acreditar que, desde então, aprendera alguma coisa de economia. Não é, porém, o que revela nos comentários. Na verdade, ele trava uma tremenda guerra com Jabor, outro fundamentalista da superficialidade, para saber qual dos dois é o mais raivoso, mais insolente, mais anti-nacional. A propósito, Waack fez uma longa pesquisa militar na Alemanha e na Itália para produzir um livro em que pretendeu demonstrar cabalmente que a FEB fez verdadeiro fiasco na Segunda Guerra, e que Monte Castelo foi um vexame. Bons, mesmo, verdadeiros heróis foram os norte-americanos!


*Jornalista, economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política, entre os quais “A Razão de Deus”.

GOLPISTAS NO CURRAL


Como é formada, em sua imensa maioria, por analfabetos políticos com altíssimo déficit de leitura, a direita brasileira tende a se movimentar quase que exclusivamente como manada.
Então, assim como o "kkkkkkk", que lhes serve de sustentação literária tanto para disfarçar preconceitos como para consagrar estultices, o clichê do momento entre a reaçada é o argumento barato do todos-os-corruptos-devem-ser-presos-não-interessa-o-partido.
É como se, de repente, os milhões de eleitores de Aécio Neves tivessem descoberto o Código Penal, mas somente depois de seu líder e salvador da pátria começar a aparecer nas delações como insistente - chato mesmo - receptador de propinas.
Esse movimento ganhou forma nas últimas manifestações de rua, quando a turba com camisas da CBF viralizou nas redes mensagens dando conta de que, ao contrário do PT, não tinha compromisso com "bandidos de estimação".
Isso vindo de uma gente que marchou até Brasília para tirar foto com Eduardo Cunha.
Colocar-se, agora, a favor de prender todos os corruptos, não importa qual o partido, é, antes de tudo, uma maneira cafajeste de fingir que não está apoiando o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff - justo no momento em que as coisas começam a dar errado para os golpistas.
É mentira.
Essa gente abobalhada de verde-e-amarelo nunca foi a favor de prender corruptos, até porque votou sempre neles, movida pela catapora infantil do antipetismo.
Esses neoprobos formam as fileiras da classe média apavorada e iletrada do Brasil, alimentada de ódio pela mídia - esse lixo que depende do golpe para voltar a mamar nas tetas do Estado.
Então, não me venham com essa história, agora, que querem todos os corruptos presos.
Ninguém vai acreditar nessa moralidade tardia de quem, na verdade, está com vergonha de ser apontado como um golpista fracassado, daqui por diante.
Não depois de terem sido tocados pelos corruptos como gado, pelas ruas do País, mugindo palavras de ordem fascistas e ruminando o ódio que lhes foi servido como capim.

(Leandro Fortes)
Em algum momento, todos terão que se sentar e negociar em cima de um plano de salvação nacional. E dando uma saída para os parlamentares que dependem do voto não-ideológico.
Provavelmente a grande moeda de troca será Lula. Ou melhor, a perspectiva Lula para 2018. Obviamente, a decisão exclusiva é do próprio Lula e de sua energia para enfrentar a guerra e tentar consolidar nova maioria.
Seja quais forem os termos do acordo, é importante que o lado responsável da República comece a pensar em saídas. E que os diversos poderes comecem a recolher seus radicais, sob risco de serem atropelados pela própria tropa.

(Luis Nassif)
Carlos Ruggi


Diógenes de Sínope (404 ou 412 a.C. – 323 a.C.) foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. Eventualmente se estabeleceu em Corinto, onde continuou a buscar o ideal cínico da autossuficiência: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, sua vida consistiu duma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta.