terça-feira, 15 de abril de 2014

Estamos entrando na semana santa católica e vale lembrar, para cristãos e não-cristãos, um ensinamento de Jesus aos seus discípulos: "onde está o teu tesouro, lá também está teu coração".
Jesus era um cabra porreta e atual em muitas de suas reflexões. De fato, há que escolher, como tesouro, a solidariedade ou o culto ao dinheiro, pois a acumulação desmedida deste, como vemos em nossa sociedade capitalista, com uma extrema minoria de bilionários e uma extrema maioria de miseráveis, depende da cisão de todos os laços de humanidade.

Antonio Castelo Branco Machado 

Estética da Desaparição

de Paul Virilio:


“'Quando funciona, está obsoleto!' É esse o paradoxo do Ocidente, insuficientemente questionado e convertido no lema de Lorde Mountbatten durante a última guerra, quando ele dirigia a pesquisa britânica em matéria de armamentos. Trata-se aqui da concorrência, da competição entre as diversas máquinas de guerra fabricadas por nações inimigas. Quando uma máquina funciona, logo deixa de ser uma 'surpresa' para o adversário e, com isso, perde sua eficácia, isto é, sua qualidade dominante de acidente. Mas, como sempre, no domínio técnico, a guerra é o melhor modelo. A máquina, por ter sido trazida ao mundo, já não faz parte da ausência; funciona e, no instante em que funciona, deixa de fazer parte daquilo que virá. Fica ultrapassada. Daí a necessidade do recorde de velocidade; esse recorde aproximará a máquina técnica de um sem-fim imaginário, visto que ninguém conhece os limites das altas velocidades."

Via-Láctea - XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


- in 'Via-Láctea - XIII’, 1888. Olavo Bilac. Antologia: Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 37-55: Via-Láctea. (Coleção a obra-prima de cada autor).

Cogito


eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


- Torquato Neto, em "Os cem melhores poemas brasileiros do século", [seleção e organização Ítalo Moriconi]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 269. 

Se você abrir teu casaco,
Terei que dar o dobro de amor.

Se você vestir o chapéu redondo e branco,
Terei que exagerar meu sangue.

Da sala onde você faz amor,
terão que tirar todos os móveis

todas as árvores, todas as montanhas, todos os oceanos.
O mundo é estreito demais.


*Yehuda Amichai (1924-2000). Versões elaboradas em cima das traduzidas do hebraico ao inglês por Chana Bloch e Stephen Mitchell (Selected Poetry of Yehuda Amichai, New York, Harper & Row). fonte: blog Sibila

domingo, 13 de abril de 2014

PAIXÃO


um sol cego na sombra
miragem da imagem
areia
ar
crer por crer
viver de morrer
quem alcança esse fim?


( Ronald Polito, do livro VAGA)

Par les temps, je cours à l'expression
Chaque émotion ressentie me donne envie
D'exprimer les non-dits
Et que justice soit faite

Dans nos pauvres vies endormies.

Polina Efimova

Incompreensível para as massas




Entre escritor
e leitor
posta-se o intermediário,
e o gosto
do intermediário
é bastante intermédio.
Medíocre
mesnada
de medianeiros médios
pulula
na crítica
e nos hebdomadários.
Aonde
galopando
chega teu pensamento,
um deles
considera tudo
sonolento:
– Sou homem
de outra têmpera! Perdão,
lembra-me agora
um verso
de Nadson…
O operário
Não tolera
linhas breves.
E com tal
mediador
ainda se entende Assiéiev
Sinais de pontuação?
São marcas de nascença!
O senhor
corta os versos
toma muitas licenças.
Továrich Maiacóvski,
porque não escreve iambos?
Vinte copeques
por linha
eu lhe garanto, a mais.
E narra
não sei quantas
lendas medievais,
e fala quatro horas
longas como anos.
O mestre lamentável
repete
um só refrão:
– Camponês
e operário
não vos compreenderão.
O peso da consciência
pulveriza
o autor.
Mas voltemos agora
ao conspícuo censor:
Campones só viu
há tempo
antes da guerra,
na datcha,
ao comprar
mocotós de vitela.
Operários?
Viu menos.
Deu com dois
uma vez
por ocasião da cheia,
dois pontos
numa ponte
contemplando o terreno,
vendo a água subir
e a fusão das geleiras.
Em muitos milhões
para servir de lastro
colheu dois exemplares
o nosso criticastro.
Isto não lhe faz mossa -
é tudo a mesma massa…
Gente – de carne e osso!!
E à hora do chá
expende
sua sentença:
– A classe
operária?
Conheço-a como a palma!
Por trás
do seu silêncio,
posso ler-lhe na alma -
Nem dor
nem decadência.
Que autores
então
há de ler essa classe?
Só Gógol,
só os clássicos.
Camponeses?
Também.
O quadro não se altera.
Lembra-me e agora -
a datcha, a primavera…
Este palrar
de literatos
muitas vezes passa
entre nós
por convívio com a massa.
E impige
modelos
pré-revolucionários
da arte do pincel,
do cinzel,
do vocábulo.
E para a massa
flutuam
dádivas de letrados -
lírios,
delírios,
trinos dulcificados.
Aos pávidos
poetas
aqui vai meu aparte:
Chega
de chuchotar
versos para os pobres.
A classe condutora,
também ela pode
compreender a arte.
Logo:
que se eleve
a cultura do povo!
Uma só,
para todos.
O livro bom
é claro
e necessário
a vós,
a mim,
ao camponês

e ao operário.

Vladimir Maiakóvski
Tradução: Augusto e Haroldo de Campos

COLETA DE DADOS



(alguns momentos antes)
toda semente hesita
por duas vidas
ponteiros giram
porque não há retorno
entre arco e alvo
uma flecha de deslize
uma pálpebra uma nuvem
um oriente um atol
cada palavra sem papel
viver seria um jeito de desistir

(de Ronald Polito, do livro INTERVALOS)

ODE AO BURGUÊS



Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos;
E gemem sangue de alguns milréis fracos
Para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
E tocam o "Printemps" com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
Cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

Mário de Andrade
"Somos assim: sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram".


Dostoiévski em Os Irmãos Karamazov

ZERO GRAU


aqui --
casa quarto cadeira
aqui --
é possível deter
o mecanismo dos relógios
um a um
aqui --
depois das montanhas está o mar
depois do mar
não há nada
não se aproxima o céu
nem mesmo há
terra à vista
aqui
( Ronald Polito. do livro INTERVALOS)
"E de novo o povoado ficou quase deserto de homens. E outra vez as mulheres se puseram a esperar. E em certas noites, sentada junto do fogo ou à mesa, após o jantar, Ana Terra lembrava-se de coisas de sua vida passada. E quando um novo inverno chegou e o minuano começou a soprar, ela o recebeu como a um velho amigo resmungão que gemendo cruzava por seu rancho sem parar e seguia campo afora. Ana Terra estava de tal maneira habituada ao vento que até parecia entender o que ele dizia, nas noites de ventania ela pensava principalmente em sepulturas e naqueles que tinham ido para o outro mundo. Era como se eles chegassem um por um e ficassem ao redor dela, contando casos e perguntando pelos vivos. Era por isso que muito mais tarde, sendo já mulher feita, Bibiana ouvia a avó dizer quando ventava: "Noite de vento, noite dos mortos..."
Érico Veríssimo 
 "Qualquer um que procure pelo pensamento do autor nas palavras e pensamentos dos seus personagens está procurando no lugar errado. Procurar pelos “pensamentos” de um autor é violar a riqueza da mistura que é a característica mais essencial de um romance. O pensamento mais importante de um romancista é o pensamento que faz dele um romancista. O pensamento do romancista não está nos comentários feitos pelos seus personagens ou mesmo na sua introspecção, mas sim nas situações que ele inventa para os seus personagens, na justaposição desses personagens e nas ramificações realistas do conjunto que ele cria (…) A ferramenta com a qual o romancista pensa é a escrupulosidade do seu estilo. Em todas essas coisas está concentrada a magnitude que seu pensamento pode alcançar. O romance, então, é, em si mesmo, seu mundo mental. Um romancista não é uma pequena parte na grande engrenagem do pensamento humano. Ele é uma pequena parte na grande engrenagem da chamada literatura de ficção. Fim."

Philip Roth

MUDA


silêncio sem fim
um grito em um estojo
-- para não esquecer --
entre suspiros afora
rumores de golpes
-- ruídos

Ronald Polito. do livro VAGA
Nuestro pasado aún está por llegar...
Nuestro pasado aún está por llegar
preludio de un futuro ultramarino,
tú te fuiste tan lejos y al marchar
dijiste: "Nos vemos en el camino"
Deambulamos por mares y países
seducidos por los cantos de sirena,
pero no llegó hasta Ítaca Ulises
y Penélope descosía sus cadenas.
Porque nosotros, bien lo sabes tú,
nos alimentamos de ciudades,
desde Varsovia hasta el Perú
anclamos el corazón en mil lugares.
Cuando era invierno en Mar del Norte
transcurría el verano en Valparaíso, *
yo cruzaba la aduana sin pasaporte
y tú te olvidabas de pedir permiso.
Aunque siempre nos quedará un tren
con destino a las estrellas de Bagdad,
un reencuentro y un beso en el andén
tras más de cien años de soledad...

Aitor Cuervo, poema de 2011 corregido y aumentado en 2014.

* Guiño a Ángel González.

Os desafios do socialismo no século XXI

"A prática é a base do conhecimento, no entanto, é a teoria que generaliza a experiência, revela as leis objetivas em atuação e dá ao homem a consciência da necessidade."

(João Amazonas, in Os desafios do socialismo no século XXI)

ABAIXO A ARTE, VIVA A VIDA!

"Dentre os que estão hoje presentes neste teatro, ninguém vai se vangloriar perante seus conhecidos pelo fato que seu filho, filha ou sobrinha sabem coser bem umas botas ou preparar comida gostosa, mas se vangloriam em toda parte se eles sabem, no dia dos anos de alguém, escrever duas coluninhas de versos num álbum ou desenhar a cabeça de um gatinho.
O primeiro (coser umas botas, preparar comida) era considerado 'trabalho comum', e disto se ocupava o operário.
O segundo se chamava 'criação artística' e disto se ocupavam os eleitos, os 'intelectuais'.(…)"

(foi publicado em O Casulo como resumo da palestra "Abaixo a arte, viva a vida!" de Vladímir Maiakóvski, 16 de janeiro de 1924; tradução de Boris Schnaiderman. Fotos encontrei na internet: o poeta na multidão e ele com Lili Brik, em 1926)

Cientista político afirma que Primeira Guerra teve caráter de alerta


Em entrevista, Herfried Münkler, professor de Ciências Políticas da Universidade Humboldt de Berlim, reflete sobre a importância de se pensar hoje sobre a Primeira Guerra Mundial.

Autor do volume Der Grosse Krieg: Die Welt 1914 - 1918 (A Grande Guerra: O Mundo entre 1914 e 1918), o cientista político Herfried Münkler fala à Deutsche Welle sobre a memória da Primeira Guerra, o papel desempenhado pela Alemanha no contexto do conflito armado e as lições que a Guerra deixou.
Münkler é um dos mais importantes especialistas alemães que se dedicaram a uma análise profunda da Primeira Guerra Mundial e do significado do conflito para a história posterior da humanidade.
Deutsche Welle: Desde o início de 2014 a mídia tem lembrado a eclosão da Primeira Guerra Mundial, há 100 anos. A razão disso é realmente o centenário da Guerra ou estamos vivenciando uma nova forma de elaboração da história?
Herfried Münkler: Uma coisa não exclui a outra. Muitas vezes essas comemorações são uma oportunidade de se debruçar com calma e de maneira mais profunda sobre um tema. E isso mostra que a "Grande Guerra", como os britânicos, franceses e italianos chamam o conflito, deu o tom da violência que assolaria o século 20. É possível aprender muito estudando sobre a guerra, sobretudo sobre o que não se deve fazer. Penso que este tenha sido realmente um grande acontecimento, ao qual a Europa deve se deter para avaliar o que aconteceu de errado no século 20, e fazer melhor no século 21.
Na Alemanha, chamamos essa guerra que aconteceu entre 1914 e 1918 de "Primeira Guerra Mundial". Por que o título do seu livro é "A Grande Guerra"?

O conceito "Grande Guerra" tem, a princípio, algo estranho. E tem também um caráter de alerta, pelo menos para os ouvidos alemães. Pois foi a Guerra que, como guerra europeia, determinou o século 20. É possível dizer: sem esta guerra, não teria havido a Segunda Guerra Mundial, possivelmente também não teria havido o nazismo, nem o stalinismo, nem a tomada de poder bolchevique em Petrogrado [hoje São Petersburgo]. Ou seja, teria sido um século totalmente diferente. De forma que o termo "Grande Guerra" é adequado.
Se a Primeira Guerra Mundial teve esse efeito de alerta para todo o século 20 que se seguiu, por que ela é tão pouco presente na elaboração do passado alemão? Pelo menos muito menos que a Segunda Guerra Mundial.
É preciso diferenciar: nos países vizinhos da Europa Ocidental, como Itália, França e Reino Unido, a Primeira Guerra Mundial está muito presente como a Grande Guerra. Isso tem a ver com o fato de que as perdas humanas causadas por esta guerra foram maiores para estes países do que as da Segunda Guerra.
Na Alemanha isso é diferente, pois a Segunda Guerra Mundial estava atrelada a deslocamentos forçados, às destruições causadas pelos bombardeios, aos crimes praticados pelos alemães e à culpa alemã. Quanto mais você se locomove rumo ao Leste Europeu, mais presente é a Segunda Guerra Mundial na memória. É possível falar de um abismo entre Leste e Oeste na cultura da memória na Europa.
Um século depois da eclosão da Guerra, ressurge o debate sobre a culpa pelo conflito. O livro Os Sonâmbulos, do historiador australiano Christopher Clark, desencadeou esta discussão. Ele revida a tese, aceita há tempos, de que a culpa teria sido somente dos alemães, apontando como as grandes potências estavam inaptas a evitar a Guerra que começou nos Bálcãs. Qual é sua posição nesse debate sobre a culpa pela Guerra? Esse debate leva a algum lugar?
Não acho que o conceito de culpa seja útil neste contexto. Trata-se de um conceito moral ou talvez jurídico, formulado no artigo 231 do Tratado de Versalhes, segundo o qual toda a culpa é creditada à Alemanha. Mas esta é uma discussão que não precisamos levar adiante hoje em dia. Ou seja, faz mais sentido falar sobre a responsabilidade e voltar os olhos para as estimativas e decisões incorretas daquele momento. Isso é o que acredito ser útil hoje para aprender alguma coisa 100 anos depois da Guerra.
Qual foi o papel do Império Alemão naquela época na Europa Central?
A Alemanha não compreendeu seu papel peculiar de centro geopolítico. Não se pode dizer que não teria acontecido uma guerra aqui ou outra acolá no século 20, mas teria sido possível localizar essas guerras. O que os alemães fizeram foi reunir diversos caldeirões de conflito, ou seja, o conflito manifesto nos Bálcãs, com o conflito latente, mas de forma alguma agudo em torno da Alsácia-Lorena, e também o conflito em torno do controle do Mar do Norte. Isso foi uma burrice política óbvia.
O senhor diz que não se deve perder a periferia de vista. Devemos nos preocupar atualmente com o que acontece na Crimeia? Pode eclodir lá uma nova guerra mundial, 100 anos depois da Primeira?

Precisamos nos preocupar, mas não por causa da ameaça de uma guerra, mas pelas tensões políticas e pelas consequências das sanções econômicas. Mas principalmente porque fica claro aqui que o poder militar ainda é um fator determinante da política europeia – naturalmente apenas na periferia. O governo alemão não deixou o conflito acontecer, mas se envolveu em suas diversas etapas várias vezes como mediador – e isso não porque tenha relevância militar, mas apenas por causa de seu peso econômico e político.
No seu livro, o senhor aponta também a Ásia como região de conflito em potencial. O senhor chega a comparar a China de hoje com o Império Alemão da época.
Digno de nota é o fato de a China ser um país tão grande e tão forte, sobretudo economicamente, embora não se sinta reconhecida do ponto de vista político. Essa é uma situação que se assemelha em muitos aspectos ao Império Alemão de 1914. Pode-se dizer: muita coisa que deu errado na Europa de 1914 poderia também dar errado na China hoje. Ou seja, os políticos e estadistas chineses deveriam analisar detalhadamente a história que precedeu a Primeira Guerra Mundial e a Crise de Julho [desencadeada pelo atentado contra o casal herdeiro da coroa austríaca] a fim de não cometerem os mesmos erros de então.
Ressurgiu na Alemanha a discussão a respeito de uma participação mais intensa do país nas missões militares europeias. Como o senhor vê isso, tendo em vista nosso próprio passado? Fica bem para a Alemanha participar destas missões exatamente por causa do seu passado? Ou não?
Invertemos a pergunta: Fica bem para a Alemanha, tendo em vista seu passado, ficar de fora de tudo e, aos olhos dos vizinhos europeus, parecer covarde ou oportunista? Os outros puxam o carro em que os alemães seguem sentados e vão ficando cada vez mais gordos e se deliciando. Ou seja, acredito que esse papel especial, que tanto a Alemanha Ocidental quanto a extinta Alemanha Oriental desempenharam ,e com razão, precisa definitivamente acabar 25 anos depois da Queda do Muro de Berlim. Precisamos ser um povo, uma nação como as outras. Não precisamos nos destacar, mas não devemos fugir da raia quando somos requisitados.

Herfried Münkler é professor de Ciências Políticas na Universidade Humboldt de Berlim.
É autor de A Grande Guerra: O mundo entre 1914 e 1918. Editora Rowohlt, 2013.

DW.DE


SEU NOME



(numa fração de segundo)
passou
entre os dedos
uma palavra e
dois silêncios
a presença
de uma ausência.


Ronald Polito. do livro INTERVALOS

sábado, 5 de abril de 2014

ESTUPRO E EXBICIONISMO

Sergio Gonçalves
·

Haverá gente com competência para dissertar sobre o tema. Não a tenho, tenho dúvidas. Aprendi pouco, muito pouco, no meu curso de "Medicina legal". Entendo que o estuprador é um doente mental, o que não perdoa ou mesmo minimiza a estupidez do crime. Mas é importante tomar isso em conta: um doente mental não será inibido por medidas policiais ou por punições legais. A compulsão existirá sempre - e, é óbvio, não é provocada por qualquer forma de estímulo externo: não é a exposição de uma bunda ou de um par de peitos que provoca isso. Necessariamente, esses tarados não podem viver em sociedade. O que fazer com eles? Há alguma forma de recuperação? Não acredito.
O Exibicionismo é outra forma de desvio de comportamento, de consequências muitissimo menores. Nos homens ela sempre toma a forma de exibição dos órgãos genitais, às escondidas, ação comum aos impotentes sexuais, que só encontram satisfação sexual nisso.Nas mulheres, há dificuldade muito maior para identificação do que possa ser considerado desvio sexual e o que seja vaidade.
Porém, é preciso ter coragem para contestar a validade das imagens que estão sendo usadas para contestar o estupradores. Mostrar a bunda e os peitos jamais justificará o crime de estupro, mesmo porque não é a causa. Apenas é a vulgarização da mulher, é o convite a gracejos, a "passadas" de mãos. O argumento do "o corpo é meu" é hipócrita. Condenar o estupro com fotos do tipo exposto é marketing pornográfico.

Lutar contra o estupro é muito sério, não é piada de popozuda.

Incongruências curitibanas ou - porque estou começando a odiar Curitiba.

Susan Blum Moura...Todos os dias pego (pelo menos duas vezes, outras vezes quatro vezes ao dia) o Expresso Centenário -Campo Comprido.. direção Capão da Imbuia para Campo Comprido. TODAS as vezes fico no tubo e percebo vários expressos (uns 3 ou 4) que vão somente até a Rui Barbosa (como Pinhais- Rui Barbosa ou Centenário- Rui Barbosa, passarem praticamente vazios) e só então passa o Centenário-Campo Comprido SEMPRE lotado ou superlotado. TODAS as vezes reclamo na URBS (156) e a resposta sempre é a mesma: O espaço no ônibus está dentro dos padrões de seis pessoas por metro quadrado. SEMPRE digo que está muito mais que isso, mas nunca me escutam. Peço que os fiscais vejam e anotem os ônibus "vazios" que são 3 ou 4 para cada UM do Campo Comprido... mas eles dizem que os fiscais apenas fiscalizam o HORÁRIO do ônibus... OK...
TODOS os dias vejo Expresso quebrado. a resposta deles sempre é a mesma: superlotação.
Curitibano vai aguentando, ganhando câncer, stress.. mas nunca reclama (156 já chegou a me dizer: "só a senhora reclama deste ônibus".)
Mas agora que estou cuidando de minha mãe percebi outro absurdo:
Tubo Silva Jardim mais que entupido. Fila de pessoas do lado de fora pegando chuva.. e todos aguardando que ônibus?? SANTA CANDIDA. Acontece que passa UM Pinheiirinho.. (vazio, com poucas dezenas de pessoas sentadas e muitas dezenas de bancos vazios), um segundo Pinheirinho,,, um terceiro Pinheirinho (todos sempre vazios) até que eu não aguento.. pego o quarto Pinheirinho e vou até a Rui Barbosa para PAGAR o segundo ônibus que me traga para casa...
O que é isso??
Burrice dos que trabalham com transporte ou esperteza para ganhar mais dinheiro??
Não entendo!
TODOS os tubos pelos quais eu passo sempre a mesma coisa: lotados, com filas de pessoas na chuva e eram apenas quatro e meia da tarde.. imagina na hora do rush.
Este é um dos motivos que estão me fazendo odiar Curitiba..
O transporte de Curitiba já FOI bom.. Hoje ele é pior até que muitas cidades do interior do Paraná. Não é o melhor do Paraná. Não é o melhor do Sul.
Não é o melhor do Brasil
VERGONHA!
Os governos e prefeituras anteriores acabaram com Curitiba!
VERGONHA!
Tenho que ver idosos, grávidas e outras pessoas com necessidades ter que aguentar esta situação!
VERGONHA!


Marlyn Tows lamentavel e desgastante...tempo perdido mesmo..

Susan Blum Moura RPC , Jornais, televisão, etc.. vejam o que está acontecendo... DENUNCIEM.
Passageiros, tirem fotos, filmem, reclamem... divulguem, compartilhem.. vamos fazer algo.. porque assim não dá.. o preço é caro... eles ganham muito e quem sofre é o povo.


Daniel Oliveira verdade, to pegando o busão diariamente e ta punk,

Suely Furukita... acho que quem "planeja" toda essa bagunça não anda de ônibus... é com certeza nunca andou!

Sandra Nodari... Susan Blum Moura o nosso grande problema é que não reclamamos nos canais certos. Reclamamos em conversas apenas. Poucas pessoas ligam pro 156, menos ainda enviam emails para o site - acho até que fui melhor atendida sempre que postei e assinei a reclamação no Portal 156. Quando você liga, o atendente é quem registra, traduzindo sua fala. Concordo, vamos filmar, fotografar, denunciar.

Thamyres Pedroso.... Já morei no Pinheirinho e te digo, é um dos ônibus que mais lota em horários de pico, inclusive acho difícil até achar ele vazio. Agora o Centenário tem um adendo: furtos e roubos quase todos os dias nos horários de pico. Além de não ter estrutura e conforto, não tem segurança. Fora o Universidade Positivo, que tem filas quilométricas e os motoristas ficam com o ônibus parado, até os alunos subirem quase no teto e quando a gente pede pra ele fechar as portas porque não cabe mais gente, ele responde: liga no 156 e pede mais carro. E o pior de tudo, é que nós vemos o estacionamento da Universidade Positivo quase lotado todos os dias, mas os alunos são egoístas demais pra oferecerem uma carona até o terminal ou qualquer outro lugar. Naquele grupo de Carona Solidária, quem ofereceu uma carona? Dá pra contar nos dedos de uma mão e é capaz de sobrar ainda.

Susan Blum Moura Olha que mando quase toda semana pro 156 - http://www.central156.org.br/
Central de Atendimento e Informações - 156 - Prefeitura Municipal de Curitiba
www.central156.org.br

Susan Blum Moura antes eu ligava... já teve vezes que mandei todo DIA...

Daniel Oliveira hj eu ouvi o Fruet na rádio, o discurso dele sobre o transp coletivo me pareceu razoável (pros níveis da canalha brasileira), falou com dados técnicos, não foi demagogo nem messiânico, mostrou pés-no-chão, e falou em sistema coletivo e público q atenda, funcione e evolua, vamos ver...

Valeria Zamparo Por favor, não fique assim. Experimente andar nos ônibus de Brasília e você vai achar o transporte público curitibano um paraíso.

Sandra Maria Martins Susan Blum Moura esse e muitos outros motivos me trouxeram onde estou.
 Sei que não é a solução para você nem para outras tantas pessoas, mas tudo o que você falou é verdade. Está insuportável!

Geraldo Magela Cardoso Magela os tubos são indigestos e as pessoas mal educadas.. n esperam vc sair.. olham sempre pro umbigo..e vão empurrando a gente.

Thadeu Peronne UMA VERGONHA !
Juli ErTao Juliana Erthal O preço da "fama".

Marcelo Chella É verdade que o transporte coletivo em certos lugares é bem pior (no Rio tem ônibus despencando de viaduto todo mês), mas não dá pra nivelar por baixo e achar que se não tá pior tá bom. O transporte de Curitiba não vale os 2,70 de hj, e muito menos o aumento que vem aí (depois da eleição, é claro).

Susan Blum Moura Os ônibus são velhos, chove dentro, tem baratas (já tirei fotos delas), vivem quebrando, tem assalto, tem "homens" que se aproveitam, enfim.. temos que mudar. Não culpo o Fruet. Acho que ele está fazendo "milagres" visto o rombo que recebeu. Mas já se sabe que os tubos NÃO servem! Não cabem todos, é muito frio no inverno, um inferno no verão, os cobradores não têm banheiro, não tem condições mínimas... já passou da hora de termos metrô aqui em Curitiba...

Regiani Baumbach Lendo essa tua história me deu um alívio tão, tão, tão grande por não morar mais em Curitiba... E aqui onde moro são só elogios a Ctba. E eu digo: vai morar lá pra ver como as coisas são de verdade!

Susan Blum Moura Marylene Fraulob, eu AMO Curitiba. Mas a minha paciência está se esgotando, pois reclamo dos ônibus desde 2005 e não vejo mudanças para melhor, só para pior. Além disso a idade vai avançando e o incômodo também aumenta. Thamyres Pedroso, concordo com vc em gênero, número e grau. Os ônibus Positivo também estão insuportáveis. Também acho que não custa oferecerem carona nos pontos dentro da U.P. para levarem ao menos para o Terminal Campo Comprido... mas... o pior é que os alunos ditos "universitários" não têm cidadania. Desde que entrem no ônibus, não ligam se há espaço no fundo do ônibus ou se poderiam ceder mais lugares... ficam nas portas e não arredam pé.

 Regiani eu AMO esta cidade, mas fico com pena em ver como ela está ficando violenta, com transporte ruim, com saúde pública terrível, enfim.. queria MUITO mudar tudo isso.. Sei que a cidade tem um potencial enorme... que tem um povo maravilhoso (não todos, lógico). E que a arte pode crescer muito aqui. Não quero desistir desta cidade. Mas o cansaço está me vencendo...

Testamento

Testamento - Alda Lara
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara nasceu em Benguela, Angola, 09 junho de 1930. Viveu em Portugal desde a adolescência, onde frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Faleceu em Cambambe, Angola, em 30 de janeiro de 1962.

Ariete


Nel pigro moto dei cieli
la stagione si mostra: al vento nuova,
al mandorlo che schiara
piani d'ombra aerei
nuvoli d'ombre e biade:
e ricompone le sepolte voci
dei greti, dei fossati,
dei giorni di grazia favolosi.
Ogni erba dirama,
e un'ansia prende le remote acque
di gelidi lauri ignudi iddii pagani;
ed ecco salgono dal fondo fra le ghiaie
e capovolte dormono celesti.

Salvatore Quasimodo. Acque e terre (1920-1929) in Tutte le poesie.

A maioria dos livros didáticos não são didáticos!

A maioria dos livros didáticos não são didáticos!
Diana Abreu Uma linguagem inacessível , cópia literal dos textos acadêmicos!
Claudio Roberto Molina Sanches alguns livros didáticos do ensino fundamental para o aluno é como se estivessem lendo aquele texto dos trafelnos, não comunica nada, da gestalt: Era uma vez dois trafelnos: Mirimi e Gissitar. "Os dois trafelnos eporavam longe das perlogas. Um masto, porém, um dos trafelnos, Mirimi, felnou que ramalia rizar e aror uma perloga. Gissitar regou muito. Ele rurbia que Mirimi não rizaria mais da perloga. Gissitar felnou, felnou, regou, regou, mas nada. Mirimi estava leruado: ramalia rizar e aror uma perloga. No masto do fabeti, Mirimi rizou muito lonto. No meio do fabeti, proceu Gissitar e os dois rizavam ateli. Gissitar não ramalia clenar Mirimi"
Claudio Roberto Molina Sanches será que o aluno tem essa sensação de estar lendo algo que parece que nada comunica?          
Aline Carissimi  duro é que ainda existem práticas docentes que solicitam dos estudantes cópias dos livros.  Claudio Roberto Molina Sanches radicalizou, mas pode ser verdade, é claro. E ainda inclui-se o analfabetismo funcional.
Claudio Roberto Molina Sanches ... Esses dias meu afilhado tinha 30 pgs para estudar para uma prova de ciências: "tinha que mostrar a vocês a linguagem que o texto utilizava, o tema era: os quilópodes e os diplópodes... eu não conseguia entender aquilo, fui buscar textos na internet para auxiliar...é impressionante algumas coisas...por esse fato que lembrei desse texto da gestalt: os trafelnos.
Aline Carissimi Perfeito Molina Claudio Roberto Molina Sanches!!!!
Claudia Moreira Se pensarmos que há muitos professores sem formação específica, o quadro fica mais grave, porque muitas vezes nem ele entende o livro. Porque um livro de linguagem incompatível com a idade, nas mãos de um bom professor, pode acabar por se constituir numa boa ferramenta, afinal.             
Alessandra Nacur Principalmente vejo que os livros do ciclo I, por serem de alfabetização, são bastante poluídos visualmente e com uma linguagem, às vezes, inacessível à criança.
Eyrimar Fabiano Bortot talvez que ocorre no Brasil é que todos sem perceber elegem um autor ou estilo ou pedagogo a ser seguido e tentam aperfeiçoar no sentido deste, e acabando exagerando muitas vezes em nome de um estilo, escola ou algo do gênero. É um fenômeno que não percebemos... claro isso não é conclusivo, mas é algo que tenho percebido. adorei a postagem Diana bem crítica.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

"Poder é toda chance, seja ela qual for, de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra a relutância dos outros".
Max Weber
"As pessoas raramente reconhecem as oportunidades da vida, porque muitas vezes elas estão disfarçadas de trabalho".
Max Weber

Contribuição à Crítica da Economia Política

"O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos, pode formular-se, resumidamente, assim: na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transtorna mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura. Quando se consideram tais transformações, convém distinguir sempre a transformação material das condições econômicas de produção - que podem ser verificadas fielmente com a ajuda das ciências físicas e naturais - e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas sob as quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até ao fim. Do mesmo modo que não se julga o indivíduo pela ideia que faz de si mesmo, tampouco se pode julgar uma tal época de transformação pela consciência que ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade. Eis porque a humanidade não se propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir".

 (Karl Marx)

Comentários reais

Senhor, enferruja meus garfos e medalhas, estraga estes molares
enlouquece meu barbeiro, os servos
sejam mortos em suas camas de madeira, mas livra-me do Diabo.
Com seu cheiro de cachaça e os cabelos enlameados
se aproxima de minha casa, já o surpreendi
caído entre os vasos de gerânios, enrugado e nu.
Estou um pouco gordo, Senhor, espero teus rigores, mas não tantos.
Envelheci nas batalhas, os ídolos morreram.
Agora espanta o Diabo, leva estes gerânios e meu coração.

Faça-se a paz, amém.
(Antonio Cisneros - de Comentários reais, 1964)

V - Da Assumpção


Ara angaturamete
oa yandebo cori
peneí taperori
Tupã ci reó rece.
Um grande dia
desponta hoje para nós.
Eia pois, alegrai-vos
com a morte da mãe de Deus.
De poraçubacatuape
naxerecoiroí yepe
de maendua meme
xe rece xerançupape.
Em tua caridade
não me desprezes.
Lembra-te sempre
de mim, que te amo.

Trecho de uma peça de teatro de José de Anchieta, em tupi-guarani, datada de 1587.