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sábado, 11 de abril de 2015

A Marca Humana

"O que é que tem, pensei, daqui a não muito tempo nós dois vamos morrer; e ali mesmo na varanda eu e Coleman Silk começamos a dançar foxtrote. Ele conduzia, e eu, na medida do possível, o seguia. Lembrei-me do dia em que ele entrou no meu escritório abruptamente, depois de acertar o enterro de Iris, e enlouquecido de ódio e dor me disse que eu teria de escrever para ele o livro que contaria todos os absurdos inacreditáveis de seu caso, culminando com o assassinato de sua mulher. Quem o visse então jamais imaginaria que um dia ele haveria de recuperar o gosto pela insensatez da existência, que tudo o que nele havia de lúdico e leve não fora destruído e perdido juntamente com sua carreira, sua reputação e sua mulher fortíssima. E se nem me ocorreu a possibilidade de rir e deixá-lo dançar sozinho na varanda, já que era isso o que ele queria, de ficar rindo e me divertindo vendo-o dançar -- se lhe dei a mão e deixei que ele me arrastasse por aquela varanda com chão de pedra, foi talvez por tê-lo visto no dia em que o cadáver de Iris ainda estava quente, porque vira como ele estava naquele dia."

 Philip Roth:

domingo, 13 de abril de 2014

 "Qualquer um que procure pelo pensamento do autor nas palavras e pensamentos dos seus personagens está procurando no lugar errado. Procurar pelos “pensamentos” de um autor é violar a riqueza da mistura que é a característica mais essencial de um romance. O pensamento mais importante de um romancista é o pensamento que faz dele um romancista. O pensamento do romancista não está nos comentários feitos pelos seus personagens ou mesmo na sua introspecção, mas sim nas situações que ele inventa para os seus personagens, na justaposição desses personagens e nas ramificações realistas do conjunto que ele cria (…) A ferramenta com a qual o romancista pensa é a escrupulosidade do seu estilo. Em todas essas coisas está concentrada a magnitude que seu pensamento pode alcançar. O romance, então, é, em si mesmo, seu mundo mental. Um romancista não é uma pequena parte na grande engrenagem do pensamento humano. Ele é uma pequena parte na grande engrenagem da chamada literatura de ficção. Fim."

Philip Roth