segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A MOÇA MOSTRAVA A COXA

Carlos Drummond de Andrade

A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
á visão dos seios claros,
qua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o maximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-dalva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...
Qualquer dia | José Afonso

No Inverno bato o queixo
Sem mantas na manhã fria
No Inverno bato o queixo
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno aperto o cinto
Enquanto o vento assobia
No Inverno aperto o cinto
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno vou pôr lume
Lenha verde não ardia
No Inverno vou pôr lume
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno penso muito
Oh que coisas eu já via
No Inverno penso muito
Qualquer dia
Qualquer dia

No Inverno ganhei ódio
E juro que o não queria
No Inverno ganhei ódio
Qualquer dia

Qualquer dia

domingo, 26 de janeiro de 2014

Se sentir membro de uma nação , não significa ser lacaio de um Estado; uma nação é a tua identidade social, teu idioma e cultura; um Estado é uma instituição de poder, cuja autoridade na maioria das vezes não tem nenhum vínculo de fato com a nação, senão usurpar. Quanto a pátria é onde sentimos a nacionalidade, configurada em um espaço geográfico ou tribal.
Podemos ter mais de uma nacionalidade (em tese eu tenho duas) e por conseguinte duas pátrias; talvez adotar outra, estrangeira, sendo um meteco nesse ou naquele lugar, porém, assim como meus pais são únicos, a minha pátria (ou minhas pátrias) são únicas. Quanto ao Estado, ele não me significa nada, cuja entidade concreta foi um mal necessário durante um determinado processo da história, e já cumpriu seu papel , e merece ser minimizado até extinção; a esse Leviatã, resistirei contra ele enquanto eu existir, o quero morto e empalhado, até porque sou um patriota.


Tullio Sartini

XLII


Que a tenhas não é todo o meu tormento,
E diga-se que a amei de amor profundo;
Mas ela ter-te é a mágoa que lamento,
Perda de amor que toca no mais fundo.
Mas vos perdoo, amáveis ofensores:
Amaste-a por saberes quanto a amo;
E ela me trai, te dando os seus favores,
Em nome deste amor que te proclamo.
Se te perder, ganho no amor depois;
Mas se a perder, o ganho é teu pois ficam
Um ao lado do outro e perco os dois:
Por minha causa ambos me crucificam.
Mas por sermos tu e eu um só, me inflama
Pensar que a mim somente é que ela ama.


- William Shakespeare, em "Os melhores sonetos" – [Tradução: Ivo Barroso] - Ed. Nova Fronteira - Saraiva de Bolso.

Crisis in Ukraine: A catalyst for long-overdue change?


January 23, 2014 Stanislav Tkachenko, special to Russian Beyond The Headlines

Ukrainian President Viktor Yanukovich set off a fresh crisis in his country in fall 2013, when he rejected a trade deal offered by the European Union in favor of closer ties with Russia.
Thousands of Ukrainian citizens took to the streets in protest, and clashes with riot police resulted in injuries.
What are we to make of these events?
Understanding the choice before Ukraine and the motives of Yanukovich and Russian President Vladimir Putin requires a nuanced appreciation of the economic history of the post-Soviet landscape.
 Ukraine: What's behind the protests
Opinion: What's behind the protests in Ukraine
The break-up of a single economy that resulted from the collapse of the USSR had harsh economic consequences that are still playing out in the region.
In the 1990s, Russia’s economy contracted 40 percent, and Ukraine’s economy fell as much as 60 percent. The Soviet economic system was destroyed, and new types of co-operation between countries are only just beginning to emerge. This is by no means an easy process.
In the Soviet era, Ukraine was the most economically and technologically advanced republic in the USSR. But as a sovereign state today, Ukraine is one of Europe’s poorest countries.
The EU and the U.S. began to compete with Russia for influence over Kiev soon after the breakup of the Soviet Union. But their actions lack strategic vision and are currently not backed by economic resources.
Not so long ago, Ukraine was the third largest recipient of U.S. aid, after Israel and Egypt. The EU too has implemented numerous reform assistance programs for Ukraine.
But the scale of that support was far from meeting Ukraine’s needs. The 2008 crisis had a devastating effect on its economy.
A $16.4 billion agreement with the IMF signed in November 2008, and a follow-up $15.1 billion agreement in August 2010 were only able to slow down the country’s slide into an economic abyss.
 Vox Pop: What is the future of Russian-Ukrainian relations?
Vox Pop: What is the future of Russian-Ukrainian relations?
There were also difficult social consequences, showing the country’s leadership that the path of ultraliberal reforms would be dangerous for social stability. It was at that period of uncertainty that Russia joined in the politico-economic rivalry over Ukraine.
When inviting Kiev to sign an association agreement in November 2013, the European Union in effect agreed that the task of improving Ukraine’s situation lay fully on the Ukrainian authorities and people. The EU, after all, had its own financial and economic crisis to deal with first.
Kiev had expected Brussels to come up with a modern version of the Marshall Plan, and those expectations were dashed. In effect, Ukraine was being invited to join a Eurocentric model as one of its periphery states.
By contrast, Russian leaders believe that becoming “a second-rate European country” is not what Ukraine deserves. The Kremlin is offering Ukraine a more attractive short-term development path as a partner in the Moscow-led integration bloc called the Eurasian Union.
The aid package that Russia offered to Ukraine in December 2013 (a $15 billion loan; a considerable price cut on Russian gas; joint technological projects) prevented a default and provided some breathing room to develop plans for saving the Ukrainian economy.
Champions of integration within the Eurasian Union say one should not overestimate the destructive consequences of the collapse of the unified Soviet economy.
Much of the shared Soviet legacy has indeed been preserved. For instance, Russia and Ukraine still have massive trade in goods and services ($55.5 billion in 2012), visa-free travel and free movement of labor, an integrated gas transportation and power system and military-industrial cooperation.
Russia still has its naval base in the Crimea, Ukraine. In political economics, relations like these are termed “interdependence” and they are an important condition for economic integration.
But it is doubtful whether the model proposed by Russia will remain sustainable in the long term. Experts are well aware that the effective functioning of a modern state depends on such institutions as strong property rights and market sophistication.
Related:
Russia to invest $15 bln in Ukrainian government securities - Putin
Russians aware of loan to Ukraine, say it can preserve friendship - poll
A divided Ukraine: Between Russia and the EU
Property rights protection in Russia is poor, institutions of the required quality have not yet been created and the country’s authorities are not doing anything to create them. What the Russian economy needs is not micromanagement from the Kremlin, but reforms that could ensure the operation of the economic institutions of a modern state.
If Russia’s next move after involving Ukraine in a process of reintegration is to carry out the kinds of radical institutional reforms that economists have been urging for the past 10 years, then the protests in Kiev’s Independence Square and the unexpected rapprochement between Russia and Ukraine could have long-term positive consequences for both countries.
Russia and Ukraine are united in that their future prosperity lies in developing European-type democratic societies. Yet Russia also aspires to become an independent center of gravity in world politics. Its current efforts are aimed at attracting Ukraine into its own integration project, which runs counter to the interests of the EU and the U.S.
The need to deepen cooperation with Ukraine within an integration project will hopefully spur reforms both in Russia and Ukraine, leading to the creation of a window of opportunity for a real modernization of the politico-economic system in both countries.
But in the meantime, Russia is unlikely to adopt a policy that reconciles itself to passively watching Ukraine develop as a peripheral member of the European Union.
Leaders of the countries that once constituted the Soviet Union share certain similarities in their worldview. One is that they tend to downplay the concept of ”values” as a motivating factor for national policy, preferring instead to focus on “interests,” both national and personal.
Ukraine’s economic lifeline: What's in it for Russia? Ukraine’s economic lifeline: What's in it for Russia?
Russian leaders are convinced that international relations within the Commonwealth of Independent States (as the loose-knit organization of former Soviet states is known) is a zero-sum game territory. That means every defeat suffered by a partner from outside the region translates into a victory for Russia. Such outsiders would include the U.S. and China, as well as the EU.
Any attempt to understand the economic consequences of the current events around Ukraine without taking into account this worldview of the regional elites is bound to fail.

Stanislav Tkachenko is an associate professor of International Relations at St. Petersburg State University.

Da coluna do Celso Nascimento


Olho vivo

Contas a Deus 1

Existem as organizações não governamentais (ONGs) sérias, que recebem recursos públicos e prestam bons serviços à população. Ao fim de cada projeto, prestam contas que atestam a regularidade da aplicação do dinheiro e, com isso, se habilitam à renovação de seus contratos de cooperação com o poder público. Outras, não procedem assim. Mas há também as “Ings” (Indivíduos Não Governamentais) – na verdade pessoas que conseguem registros como ONGs, mas se servem delas para abocanhar recursos públicos e usá-los em proveito próprio.

Contas a Deus 2


Parece-se com a categoria de “Ing” o sujeito que semanas atrás procurou o prefeito Gustavo Fruet para pleitear a continuidade dos supostos “serviços” que prestava em colaboração com a prefeitura em troca, lógico, de generosa retribuição financeira. O prefeito ouviu o pedido e mandou a assessoria buscar o histórico do convênio com a entidade que o fulano dizia representar. Já de cara, Fruet negou a renovação, com uma boa justificativa: “O senhor não presta contas da aplicação do dinheiro!”, disse-lhe. Para seu espanto, ouviu do interlocutor um protesto de indignação: “Como não??? Eu presto contas a Deus!!!” Embora não seja ateu, Fruet despachou o “Ing” do gabinete sem renovar o convênio.

25/01/2014

VIOLÊNCIA IMORAL DA FALTA DA POLÍTICA

 Ocorre quando o espaço público inexiste e é preenchido, segundo emblematicamente concluiu FRANCIS WOLFF em sua palestra "O esquecimento da política ou o desejo de outras políticas" **, por questões "marginais" a ele, no exato sentido em que as crenças que tais questões carregam provocam deslocamentos teóricos que revigoram o esquecimento da política.

Tais questões se inserem em campos ou domínios - segundo Wolff, o do território de si, o do reino de Deus, o da economia, o do tecnicismo e o do "tudo é moral", os quais dão ocasião a manifestações nas quais a violência é a moeda de troca para se passar de um campo a outro de modo incansável e improducente.

** integrada ao ciclo de pronunciamentos proferidos n' "O esquecimento da política, cultura e pensamento em tempos de incerteza", organizado pelo filósofo e jornalista Adauto Novaes, no segundo semestre de 2006 em Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro e o qual tive o prazer de acompanhar, ao vivo e a cores. Veja aqui como foi feita a organização das palestras à ocasião:


Como comentou Marcos Antonio:


"Talvez seja o desejo de Política simplesmente pois, após todo o arremedo de política pregado através do séc. XX, já parece difícil alguém dizer o que é política com algum sentido real. Cai assim a Política na mesma vala-comum da Filosofia que, por nunca ninguém saber o que é, grassam ambos os conceitos nas mãos de oportunistas de plantão. Alguns até de certa forma reconhecidos e aceitos por uma maioria delirante. O que falta é realidade mesmo."

Monica Castro

MUJERES


Juan Gelman

decir que esa mujer era dos mujeres es decir poquito
debía tener unas 12,397 mujeres en su mujer /
era difícil saber con quién trataba uno
en ese pueblo de mujeres / ejemplo:

yacíamos en un lecho de amor /
ella era un alba de algas fosforescentes /
cuando la fui a abrazar
se convirtió en singapur llena de perros que aullaban / recuerdo
cuando se apareció envuelta en rosas de aghadir /
parecía una constelación en la tierra /
parecía que la cruz del sur había bajado a la tierra /
esa mujer brillaba como la luna de su voz derecha /

como el sol que se ponía en su voz /
en las rosas estaban escritos todos los nombres de esa mujer menos uno /
y cuando se dio vuelta / su nuca era el plan económico /
tenía miles de cifras y la balanza de muertes favorable a la dictadura militar / o sea

nunca sabía uno adónde iba a parar esa mujer /
yo estaba ligeramente desconcertado / una noche
le golpié el hombro para ver con quién era
y vi en sus ojos desiertos un camello / a veces

esa mujer era la banda municipal de mi pueblo /
tocaba dulces valses hasta que el trombón empezaba a desafinar /
y los demás desafinaban con él /
esa mujer tenía la memoria desafinada /

usté podía amarla hasta el delirio /
hacerle crecer días del sexo tembloroso /
hacerla volar como pajarito de sábana /
al día siguiente se despertaba hablando de malevíc /

la memoria le andaba como un reloj con rabia /
a las tres de la tarde se acordaba del mulo
que le pateó la infancia una noche del ser /
ellaba mucho esa mujer y era una banda municipal /

la devoraron todos los fantasmas que pudo
alimentar con sus miles de mujeres /
y era una banda municipal desafinada
yéndose por las sombras de la placita de mi pueblo /

yo / compañeros / una noche como ésta que
nos empapan los rostros que a lo mejor morimos /
monté en el camellito que esperaba en sus ojos
y me fui de las costas tibias de esa mujer /

callado como un niño bajo los gordos buitres
que me comen de todo / menos el pensamiento
de cuando ella se unía como un ramo

de dulzura y lo tiraba en la tarde /

DISPERSÃO




Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pêna de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n´alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...


. . . . . . . . . . . . . . .

Mário de Sá-Carneiro

Dont let ana off the hook for tht offensive ad

 I agree that Japanese are making mistakes trying to imitate Western style in many things and doing good businesses making Japanese people buy foreign things or things that look foreign. Some Japanese have Xenophobia as my Japanese History teacher said, but most of them love Western things even they make a joke and pretend to continue very Japanese and sometimes really being very Japanese. But they really want to globalize Japan in many ways.

What do you think? I think that if you can't laugh at your funny differences you are being racist too. I see only funny things in the adds. Even that odd smile is very Japanese: I guess it just means the opposite of what he is saying being polite to the one that wants to change the Japanese image. We foreigners know very well that everybody thinks "Japanese are all the same". They are not and they know it and they know we think in the way we think. I just think that Japanese are wrong in the way of becoming globalized: they do not need to change (most of them really think they need). It is a thing that they don't seem to understand I can't figure out why. Maybe because they think they will or are not accepted in the way they are. But in my point of view, they are so respectful with other people's religion an don't make any comment regarding any different thinking style even they do not agree. They can absorb all cultures very well. They just don't like extremisms what I think is a good thing: "to walk the middle path" is an old and clever proverb. They think you have to have a philosophy of life but can't be brain washed (maybe because of the hard learning (according to many Japanese) that their God, the Emperor, was a simple human man, with the World War II). It is understanding the differences and accepting them that we will become globalized. Changing only something that is against human rights or hurts or is out of common sense like no equal rights under the law to woman and to man everywhere in the planet for example.



sábado, 25 de janeiro de 2014

Consumismo

Tenho bronca dessa expressão "consumismo". Em minha formação, aprendi (e ainda hoje acredito) que o grande problema da humanidade é que a enorme maioria não consome o suficiente para viver dignamente. Resumir isso ao desejo de um garoto pobre de ter um tênis de grife ou um celular top é um reducionismo escroto. Negar aos despossuídos o direito de sonhar com a posse de uma pequeníssima parte das riquezas que eles produzem, vêem mas são impedidos de ter, é de um pedantismo cruel. Isso no caso de nossos companheiros, claro. Quanto aos aquinhoados, a tese do "consumismo" lhes é muito útil.



Roberto Elias Salomão
 

A Insustentável Leveza do Ser

só as perguntas mais ingénuas são verdadeiramente sérias. são perguntas que não têm resposta. uma pergunta que não tem resposta é uma barreira que não pode atravessar-se. dito de outra forma: são precisamente as perguntas que não têm resposta que determinam as possibilidades do ser humano, são as que traçam as fronteiras da existência do homem.


Milan Kundera, in A Insustentável Leveza do Ser

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra -- invento para ti a música, a loucura
e o mar.


Herberto Helder
Uma estrela feroz queima a fronte de apolo.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.


Herberto Helder

O Encontro Marcado

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas
múltiplas experiências. Ele pretende, nessa
época, conformar a realidade com suas mãos,
servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o
mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.
Acontece, entretanto, que nascemos para o
encontro com o outro, e não o seu domínio.
Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua
libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na
sua total e gratuita inutilidade. O começo da
sabedoria consiste em perceber que temos e
teremos as mãos vazias, na medida em que
tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o
mundo. Neste momento, a solidão nos
atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa
vida, e a face do outro nos contempla como um
enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se
percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o
preço do encontro, do possível encontro com o
outro. A construção de tal possibilidade passa
a ser, desde então, o trabalho do homem que
merece o seu nome.”


- de uma carta de Hélio Pellegrino, (in O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, editora Record, 79ª edição, 2005, SP/RJ).
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.


Herberto Helder
Affonso Romano Santanna
TRECHO:
...........................

"O que eu queria
era ver
Nietzsche
Kant
Heidegger
Shopenhauer
maturarem
- ali no agreste.

O que eu queria
era ver
o nada
nascer
do nada
e crescer
ali onde cedo se aprende
a não ser nada
e obedecer, ali
onde o homem não tem essência
só fome, e a aparência é a carência
do proprio ser.

Queria ver filosofar
era ali
no Catolé do Rocha e Nanuque
ali onde mulher derruba boi a muque
e enfrenta com o homem
os torneios da própria fome"
............................


( etc,etc,etc) 

A Sociedade não mudará por decreto ou por vontade política, não mudará por força judicial, policial ou militar, ela não será transformada pelo tempo, pela espera ou pela paciência, não, a sociedade vai mudar por reclamar de si própria, e nem por vangloriar as conquistas alheias (gozar copau dozotro).
A sociedade não é um bolo assando, massa disforme e borbulhante que endurece conforme passa o tempo num ambiente controlado.


Como vai mudar então? Escreva sua receita

Daniel Jorge Habib

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Eu não posso mais negar
Uma estranha luz um dia
Entrou por meus olhos e boca
Por meu sexo
Por meus poros

Eu não posso mais estancar
Esta força que aflora
Do meio de minha barriga

Em gestos desconexos vou vivendo
Sob os tapetes da sala
Atrás dos móveis, entre as louças
Sempre está luz a me deixar comovida

Eu não posso mais cobrir
Com cimento
Esta força que insiste em jorrar
Por meus olhos
Perplexos

Eu tenho medo da morte
Eu tenho paixão pela vida
A vida é o que vibra
Em minha voz


(Poema inédito, de Viviane Mose)

Longe

Onde é que eu fui parar?
Aonde é esse aqui?
Não dá mais pra voltar
Por que eu fiquei tão longe?
Longe...

Onde é esse lugar?
Aonde está você?
Não pega celular
E a terra está tão longe
Longe...

Não passa um carro sequer
Todo comércio fechou
Não tem satélite algum transmitindo
notícias de onde eu estou

Nenhum email chegou
Nem o correio virá
E eu entre quatro paredes sem porta
ou janela pro tempo passar

Dizem que a vida é assim
Cinco sentidos em mim
Dentro de um corpo fechado
no vácuo de um quarto no espaço sem fim

Aonde está você?
Por que é que você foi?
Não quero te esquecer
Mas já fiquei tão longe
Longe...

Não dá mais pra voltar
E eu nem me despedi
Onde é que eu vim parar?
Por que eu fiquei tão longe?
Longe, longe, longe, longe
Longe, longe, longe

Seis, cinco, quatro, três, dois, um.'

 Arnaldo Antunes.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014



L I M E R I C K_4_L I A M



Lil' Boy Liam had a huge lion
And rode the beast roarin' to Wyom'
He strode into town
With a golden crown
With all his toys marchin' behind him!
by Jason Cummins & L. R. Guedes



The Flying Dutchman in front of the Peter and Paul Fortress



II
O segredo voa
Nas volutas
Do hálito do amado .
Estou presa
Da cadeia de seus lábios .
Mas ainda que se abrissem
Para dizer : “És livre”,
Escolheria ser triturada
Entre seus dentes .


(poema de Flávia Savary (1956) poeta carioca, escritora, ilustradora e dramaturga. Trabalha com literatura infanto-juvenil há mais de 30 anos.)

Arkhangelsk 1897-1910


História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao Sol da Onça Caetana

“Eu precisaria de alguém que me ‘ouvisse’, mas que me ouvisse sentindo cada palavra como um tiro ou uma facada. Porque é assim que eu ouço as palavras ligadas a esta história. Cada uma tem seu significado sangrento, no estranho ‘Sertão’ que venho edificando aos poucos, ao som castanho e rouco do meu canto, como um Castelo de pedra erguido a partir do Sertão real.”


- Ariano Suassuna, em “História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão ao Sol da Onça Caetana”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 80.

1897-1910. Тiflis.




V




Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,

a sangue e fogo.

PABLO NERUDA

La escuela de vulva


(Carolee Schneemann, trad. León Félix Batista)

a. Vulva va a la escuela y descubre que ella no existe...
Vulva va a la iglesia y descubre que es obscena
Vulva descifra a Lacan y aBraudrillard y descubre que ella es solo un signo, una significación del vacío, de la ausencia, de lo que no es masculino... (se le entrega un lápiz para que tome nota...)

b. Vulva decodifica la semiótica constructivista feminista y se da cuenta que ella no tiene ningún sentir auténtico; hasta sus sensaciones eróticas han sido construidas por proyecciones patriarcales, imposiciones y condicionamientos...
Vulva lee biología y comprende que ella es una amalgama de proteínas y hormonas, de oxitocinas que gobiernan todos sus deseos...

c. Vulva estudia a Freud y se da cuenta que tendrá que transferir sus orgasmos clitóricos a su vagina...
Vulva lee a Masters y Johnson y comprende que sus orgasmos vaginales no han sido medidos por instrumento alguno y que ella sólo va a experimentar orgasmos en el clítoris...

d. Vulva lee Of our backs y explora lo tribal; entonces suspira por las ásperas barbas de dos días del otro género, sus manos largas y su insistente verga...
Vulva lee a Gramsci y a Marx para examinar los privilegios de su condición cultural...

e. Vulva interpreta los textos del feminismo esencialista y pinta su rostro con su sangre menstrual, aullando cuando hay luna llena...
Vulva reconoce sus símbolos y nombres en los graffiti bajo los caballetes de las ferrovías: raja, tajo, enchilada, conejo, rabo, semilla, coño y tajada...

f. Vulva se desnuda, llena su boca y concha con pintura y brochas, y corre al Cedar Bar a medianoche para espantar los fantasmas de De Kooning, Pollock, Kline...

Vulva aprende a analizar la política preguntando ¿Esto es bueno para vulva?


HOJE



O que menos quero pro meu dia
polidez,boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.


Waly Salomão