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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O Encontro Marcado

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas
múltiplas experiências. Ele pretende, nessa
época, conformar a realidade com suas mãos,
servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o
mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.
Acontece, entretanto, que nascemos para o
encontro com o outro, e não o seu domínio.
Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua
libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na
sua total e gratuita inutilidade. O começo da
sabedoria consiste em perceber que temos e
teremos as mãos vazias, na medida em que
tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o
mundo. Neste momento, a solidão nos
atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa
vida, e a face do outro nos contempla como um
enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se
percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o
preço do encontro, do possível encontro com o
outro. A construção de tal possibilidade passa
a ser, desde então, o trabalho do homem que
merece o seu nome.”


- de uma carta de Hélio Pellegrino, (in O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, editora Record, 79ª edição, 2005, SP/RJ).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

III - O Escolhido



De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava
sempre começando, a certeza
de que era preciso continuar
e a certeza de que seria
interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho
novo. Fazer da queda um passo
de dança, do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro."

- Fernando Sabino, In "III - O Escolhido", do livro 'O Encontro Marcado'. Editora Record, 79ª edição, 2005, SP/RJ.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A última crônica



“Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem nada mais para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: ‘assim eu quereria o meu último poema’. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.”

Fernando Sabino, em “A última crônica”.