terça-feira, 5 de novembro de 2013
domingo, 3 de novembro de 2013
Nicolau II
Em 2 de novembro de 1894, Nikolai Aleksandrovich Romanov sobe
ao trono para se tornar Nicolau II, o último imperador da Rússia, título que
acumulou com o de Rei da Polônia e o de Grão-Duque da Finlândia. A coroação se
deu um dia após a morte de seu pai, Alexandre III, falecido em decorrência de
uma nefrite crônica. Durante seu reinado, Nicolau II viu a Rússia Imperial
passar da condição de um dos maiores países do mundo para uma situação de
desastre econômico e militar. Seu governo chegou ao fim com a Revolução Russa
de 1917, quando em 15 de março ele abdicou e renunciou em seu nome e em nome de
seu herdeiro, passando o trono para seu irmão, o Grão-Duque Miguel Romanov.
Nicolau II foi executado pelos bolcheviques em 1918, junto com toda a sua
família. Mais tarde, a sua mulher, Imperatriz Aleksandra, e seus filhos seriam
canonizados como mártires pela Igreja Ortodoxa Russa, enquanto Nicolau II foi
considerado São Nicolau, o Portador da Paz.
Assinatura
Entre lágrimas de crocodilo
o homem com gestos de lava
que aponta o local do crime
todas as manhãs
e eu despido de rosas
subo a escada de caracol da morte
para ir deixar na tua pele a assinatura bárbara
com a caligrafia trémula todas as manhãs
e todas as noites de terror
entre a música dos astros
António José Forte/
Uma Faca nos Dentes
Página 91
Declaração*
Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-lo
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado
António José Forte/
Uma Faca nos Dentes
página 55
AS PORRADAS DE NIETZSCHE NA PRIVATIZAÇÃO E NO INDIVIDUALISMO ESTREITO E BURGUÊS -
“...A nenhuma das medidas executadas por um governo será
garantida continuidade...Ninguém sentirá para com uma lei nenhuma obrigação
maior que a de se inclinar momentaneamente à força que a sustenta: as pessoas,
então, imediatamente porão mãos à obra para subverte-la com uma nova força, a
criação de nova maioria. Por fim –pode-se dizê-lo com certeza—a resolução de
por fim ao conceito de estado, de abolir a distinção entre particular e público.
As companhias particulares gradualmente absorverão a tarefa do estado: mesmo o
mais resistente resíduo do que antes foi função do governo (por exemplo, suas
atividades destinadas a proteger o indivíduo do indivíduo) será, com o
decorrer do tempo, tratado por contratantes particulares.”
(trecho de Humano, Demasiadamente Humano, de Nietzsche. É
impressionante a atualidade dessas palavras, dirigidas a um público de leitores
europeus do fim da década de 1870 e não da década atual.)
A estrutura das revoluções científicas
" Ainda nos resta perguntar como terminam as revoluções
científicas. No entanto, antes de fazê-lo, parece necessário realizar uma
última tentativa no sentido de reforçar a convicção do leitor quanto à sua
existência e natureza. "
-Thomas S. Kuhn; A estrutura das revoluções científicas.
ODOACRO
Odoacro (cerca de 434 - 493), rei da tribo germânica dos
hérulos, Filho de Edeco, príncipe da corte de Átila rei dos Hunos ,nasceu perto
do Rio Danúbio, em território que hoje é parte da Alemanha. Ao depor o
imperador Rômulo Augusto, em 476, pôs fim ao Império Romano do Ocidente e se
tornou o primeiro dos reis bárbaros de Roma.
Odoacro foi Rei dos Hérulos entre 476 e 493. Pertencia a uma
tribo germânica, mas, depois desta ter sido destruída pelos Ostrogodos,
coloca-se ao serviço dos Romanos.
Em 469 se pôs a serviço dos romanos como chefe de um exército
de mercenários germânicos de estirpe hérula.
Tornou-se um dos chefes da guarda germânica do imperador.
Participou numa revolta que colocou no trono Rómulo Augústulo, em 475. Como os
soldados germânicos não obtiveram as terras que lhes haviam sido prometidas,
Odoacro enceta uma nova revolta que provocou a queda de Rómulo , entregou as
insígnias imperiais a Zenão, imperador do Oriente, declarando-se governador de
Itália em 476. Este golpe de Estado marcou o final do Império do Ocidente.
Tomou para si o título de Patrício e iniciou a árdua tarefa de organizar o
país.
Começou por anexar a Sicília e procurou proteger o Norte da
península com uma política de boa vizinhança com os Visigodos da Gália e com a
ocupação da Dalmácia.
Zenão I de Bizâncio, preocupado com os recentes sucessos do
rei germânico Odoacro, estimulou Teodorico o Grande, rei dos ostrogodos, a
invadir a Península Itálica. Teodorico derrotou Odoacro em Aquileia (488) ,
Verona (489) e no Rio Adda (490), depois de um cerco de 3 anos a Ravenna,
Teodorico e Odoacro assinaram um acordo que garantiu a supremacia de ambos. Um
banquete foi organizado para celebrar o tratado. Foi nesse banquete que
Teodorico matou Odoacro com as próprias mãos.
Fontes:http://historia10alfandega.blogspot.com.br/2011/08/biografia-odoacro-herulo.html
Não te Arrependas
Não te arrependas, Amada, porque a mim tão depressa te
deste!
Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes e
vis!
Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce pra anos o peito.
Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam o sangue.
Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.
Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe agradou?
Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.
Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante pra a corrente nocturna.
Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar água ao Tibre, e o Deus dela se apossa.
Assim Marte gerou os seus filhos! — Uma loba amamenta
Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.
Johann
Wolfgang von Goethe, in "Elegias Romanas"
Tradução de Paulo Quintela
“A grande conquista
do governo Lula foi a criação de empregos e a elevação do poder aquisitivo dos
pobres. Esses foram ganhos dentro das relações do mercado. Mas sem avanços
correspondentes nas esferas da vida em que as relações de commodities não
deveriam ter lugar, o risco é realmente gerar uma sociedade de consumo em que,
como nos Estados Unidos, aumentar a prosperidade não é, na verdade, empecilho
para aumentar, ainda mais rapidamente, a desigualdade. No Brasil, que ainda
continua perto do recorde mundial de má distribuição de renda, só uma reforma
radical da estrutura tributária, da administração pública e do sistema político
pode frear esse perigo. É necessário um Estado que esteja verdadeiramente sob o
controle de seus cidadãos, que seja capaz de oferecer serviços honestos, justos
e construtivos para eles."
PERRY ANDERSON
O SENSACIONAL DEBATE ENTRE ŽIŽEK E O SAPO GONZALO
“Tudo foi preparado e em pouco tempo, lá estavam os dois
‘contendores’, diante de um auditório lotado de estudantes, ‘blogueiros’,
anarco-skatistas, blequebloques, beiçudos capiléticos e alguns radicais de
nosso tempo. Até o cantor e campositor Caetano Veloso se encontrava no local,
aproveitando uma folga entre dois shows que faria na cidade. ‘Esse Zizeque é
muito porreta, minha nêga!’, disse à barraqueira oficial dos artistas unidos
pela censura, Paula Lavigne, sentada a seu lado...”
Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo: http://wp.me/pB9tZ-23S
She was
young and beautiful too,
A madonna
for no man`s taking,
As bright
as the sheen on the tranguil stream.
My heart
was the nearer to breaking!
So carefree
she was, as the faraway blue
A swan
between sleeping and waking;
Who knows,
but perhaps there was sadness too.
My heart
was the nearer to breaking!
But as she
sang softly of love that is true,
My soul was
in sympathy,
But passion
was the nearer to breaking!
Alexander Blok (1880-1921)
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Zelimkhan Guzhmazukayev
After the February
Revolution in Russia in 1905 the Tsarist police attempted to nip revolutionary
activities in the bud with cruel repression, and the effects were felt in
Chechnya, too. On 10 October 1905 the police shot into the crowd during a
strike at the industrial plant in Grozny, killing 17 people. A week later
Abreke Zelimkhan held up a passenger train near Kadi-Yurt Station and had the
same number of men shot.
Zelimkhan Guzhmazukayev
was born in Khara-choy near Vedeno in 1872. After a dispute involving his
brother’s bride led to the death of a man in his family, Zelimkhan was required
by the code of clan revenge to kill a man from the other family. Although peace
was restored between the two families and there was no evidence of any crime,
Zelimkhan, his father and his two brothers were sentenced by the Russian
administration. Zelimkhan escaped from prison. One brother died in custody. The
other returned from banishment only to be sentenced unjustly yet again, and
fled to the mountains. Other relatives and villagers were banished without
legal justification. In 1906 Zelimkhan killed Lieutenant-Colonel Dobrovolski,
the district official in Vedeno who was responsible for these decisions,
followed in 1908 by Colonel Galaev, who had banished over 500 innocent Chechens
to the Russian North.
As he was unable to
live a life in peace, Zelimkhan became an abreke (lone resistance fighter),
wreaking vengeance Robin Hood style on the arrogant Russian governors.
On 1909 the Tsarist
powers placed a reward of 5,000 roubles on his head. But all efforts to capture
him were in vain. Zelimkhan attacked Grozny Station in January 1910 and made
off with 18,000 roubles. In response to the pogrom in Gudermes he warned the
Cossack ataman (leader) Ferbizki that he would raid the bank in Kizlyar at 12
noon on 9 April. He 27 attacked punctually and all Chechnya mocked the Tsar’s
police for their failure to stop him. Zelimkhan distributed the proceeds among
the poor and needy.
In September 1910
Prince Andronnikov, the highest-ranking official in the Nazran region, set off
with a strong division on a penal expedition to catch Zelimkhan. He lured the
troops into am ambush by a bridge and personally took the lives of Prince
Andronnikov and First Lieutenant Afanasyev, wounding the Dagestani Staff
Captain Dayaghev.
Zelimkhan was a legend
in his own lifetime, and occasionally others sought to jump on the bandwagon.
One of these fake Zelimkhans is said to have taken a bull from a farmer by
claiming “I am Zelimkhan!”. By chance the real Zelimkhan came along, brought
the bull back and handed it over to the farmer together with an ear, saying:
“The man who took your bull is one-eared Zelimkhan. I am the true Zelimkhan for
I have, as you see, two ears.”
On a number of
occasions Zelimkhan slipped through troops laying siege. Badly wounded by a
shot in the back from a traitor, he hid in a house in Shali, but it was
surrounded on 27 September 1913 and after a long struggle he was killed. His
capturers proudly had their photograph taken with him. The inhabitants of
Grozny and Vedeno were forced to pay 100,000 roubles in reparation for the
damage caused by Zelimkhan and his companions.
All as before: against
the dining-room windows
Beats the scattered
windswept snow,
And I have not changed
either,
But a man came to me.
I asked: “What do you
want?”
He replied: “To be with
you in Hell.”
I laughed: “Oh, you’ll
foredoom
Us both to disaster.”
But lifting his dry
hand
He lightly touched the
flowers:
“Tell me how men kiss
you,
Tell me how you kiss
men.”
And his lusterless eyes
Did not move from my
ring.
Not a single muscle
quivered
On his radiantly evil
face.
Oh, I know: his delight
Is the tense and
passionate knowledge
That he needs nothing,
That I can refuse him
nothing.
"
— Anna Akhmatova
(1889-1966) - The Guest, January 1, 1914
"Last night I was
in the Kingdom of Shadows, If you only knew how strange it is to be there. It
is a world without sound, without colour. Everything there—the earth, the
trees, the people, the water and the air—is dipped in monotonous grey. Grey
rays of sun across the grey sky, grey eyes in grey faces, and the leaves of the
trees are ashen grey. It is not life but its shadow, it is not motion but its
soundless spectre. And all this is in a strange silence where no rumble of
wheels is heard, no sound of footsteps or of speech. Nothing. Not a single note
of the intricate symphony that always accompanies the movements of
people."
— Maxim Gorky
(1868-1936) on viewing a screening of the Lumiere CInematograph in 1896, his
review was published in the newspaper ‘Nizhegorodsky Listok’ under the pen name
of I. M. Pacatus
"You were the
first to demonstrate beyond question by your experience that man is man
everywhere, that is, a kind, sociable being with whom communication can and
should be established through kindness and truth, not guns and spirits. I do
not know what contribution your collections and discoveries will make to the
science for which you serve, but your experience of contacting the primitive
peoples will make an epoch in the science for which I serve i. e. the science
which teaches how human beings should live with one another."
— Leo Tolstoy
(1828-1910) in a letter to Nikolai Miklukho-Maklai, September 1886
The sun would fail in
the observant height,
In clear air, the
shining stars would vanish,
The world would sink
into a smoke lavish,
And thunders – into
silence of the night, –
On the sad moon,
invisible and black –
In its dark deeps –
would rise the awful fire,
And by the tracks, lost
in the Lethe’s mire,
Life would be gone
without coming back, –
A dust would lie
instead of all these grasses,
All nightingales would cut
their loving plea,
All wars and funs would
melt like snow masses, –
With a deep sigh, would
flee a spirit trustless,
It’d be the same – to
be or not to be –
Sooner than I might
cease remembering thee.
"
— Konstantin Balmont
(1867-1942)
"In order to
educate man to a new longing, everyday familiar objects must be shown to him
with totally unexpected perspectives and in unexpected situations. New objects
should be depicted from different sides in order to provide a complete
impression of the object."
— Aleksandr Rodchenko
(1891-1956)
The sense of your
bidding is unclear:
to pray, to curse, is
it, to fight
you bid me, inscrutable
genius?
The spring slackens,
niggard, meager,
and Benozzo Gozzoli’s
courier
dozes in the drowsy
thickets.
Hills are dark with
honeyed cloud.
Look: I do not touch
lithe strings.
Your gaze, prophetically
flying,
is clenched, gushes no
winged streams,
and beckons by no May
road, trying
to outstrip Hermes in
his flight.
Hobbled horses do not
neigh,
Aging warriors sprawl
in disarray…
Hold your palms open
wide!
Risen spring is bright,
but groves of darkness
are not given
to leap for joy having
leapt from dreams.
The groom names not the
hour,
be not guiled to tarry,
hark through ice the
clarion voice,
your flax is drenched
with chrism,
and, bidding goodbye to
numb laze,
free, in love, you will
rise.
"
— Mikhail Kuzmin
(1872-1936)
"Out of frayed
sackcloth - breasts of filthy cataracts,
Like raw potatoes,
branched with rooted blue veins.
What shall we trade?
Salt? How much do you want?
There’s a dead child’s
hat still here.
In the marketplace, a
surveyor dozes like a white skull-
A homeless dog sniffs
him as he would an old cadaver.
What shall we trade?
Bread? How much do you bid?
A pack of dogs in the
street tears a heap of rusted brains into bits.
And birds in the air
flap like scattered black hats-
A disheveled tuft of
wind keeps trying them on-
Is there a deal? Wind?
What do you bid for a windmill?
There, across the
foothills, they aimlessly quarrel over eagles’ wings.
Making a trade? Wind?
What do you bid?"
— Peretz Markish
(1895-1952)
"O efeito de um
livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita
coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o
lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para
quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte
reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no
molhado".
Antonio Candido
"São precisamente as realizações mais frágeis da arte
aquelas que se referem ao sentimento imediato da vida, ao passo que as mais
poderosas, de acordo com sua verdade, referem-se a uma esfera aparentada ao
mítico: "o poetificado". A vida é, em geral, o
"poetificado" dos poemas - assim se poderia dizer; no entanto, quanto
mais diretamente o poeta procura converter a unidade da vida em unidade
artística sem transformá-la, mais ele se revela inepto. Estamos acostumados a
ver a inépcia defendida, e mesmo reivindicada, como "sentimento imediato
da vida", "calor humano', "sensibilidade"."
Walter Benjamin
*Procura da Poesia
Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não
contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à
efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto
à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
*Escritos sobre mito e linguagem (Editora 34, 2011).
Poetas
seresteiros e
prostitutas tem algo incomum
todos
durante a execução de suas ‘obras’
suportam
comedidamente
a dor
ainda que esta
seja
lancinante
Jeronimo
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
Memórias do Cárcere
"Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer
com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e
transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de
idéias obliteradas."
- Graciliano Ramos, em "Memórias do Cárcere", cap.
5, 1953
Geografia da Fome
“Não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados,
roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos na sua pele, que a fome
aniquila a vida dos sertanejos, mas também atuando sobre o seu espírito, sobre
sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de
desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana
como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela
imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam, e o
homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode
parecer a mais desconcertante.”
- Josué de Castro, In Geografia da Fome.
Memorial de Maria Moura
“O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos
castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembranças que
vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que
fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom
cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir
nada disso por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te
persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu
azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças.”
- Rachel de Queiroz, in "Memorial de Maria Moura".
Reflexões sobre o Romance-rio
"Todo mundo tem pressa. A vida se tornou tão múltipla,
tão estonteamente tentacular, que o homem, no afan de tudo gozar, de tudo
aprender, de tudo penetrar - procura a síntese, sofre da mania do comprimido,
vive assombrado pelo relógio, a procurar o máximo de prazer e de experiência no
mínimo de tempo. No meio de toda essa balbúrdia a que já nos vamos habituando,
há um fenômeno muito curioso que desafia o nosso espírito de análise. É o que o
século da pressa, da síntese, da falta de repouso para a leitura - o
romance-rio, o romance caudaloso, o romance camalhaço ressurge a melhor
maneira."
- Erico Verissimo, em “Reflexões sobre o Romance-rio”.
Revista do Globo, 213, 1937. p 17.
Livre
Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.
Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.
Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.
Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.
- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.
Dom Casmurro
"- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o
barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando
não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo
baixo e dos mesmos comprimários." in Dom Casmurro - Machado de Assis
"Catei os próprios vermes dos livros, para que me
dissessem o que havia nos textos roídos por eles.- Meu senhor, respondeu-me um
longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos:
nós roemos.Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem
passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio
sobre os textos roídos, fosse ainda um modo de roer o roído."
- Machado de Assis, in: "Dom Casmurro", 26ª ed.
São Paulo: Ática, 1992. p. 117.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Nikolái Bujarin
Político, economista y
filósofo marxista revolucionario ruso. Fue apresado varias veces y participó
activamente en la Revolución de Octubre (1917). Además, se opuso a la
colectivización agrícola forzada.
Fue detenido y ejecutado por su oposición a la política de
Stalin, acusado durante la Gran Purga de una supuesta conspiración para
ejecutar un golpe de Estado armado contra el gobierno de Stalin.
Nuestro sol matutino de cada día
Bei Dao (Beijing, 1949)
Los frágiles brazos de la hierba sostienen el Sol
Gente de diferente color de piel se encamina hacia ti
Convergen en rayos de luz; tu voz de campana
Sacude la nieve acumulada en la cúspide hasta derramarla
Profundo es el temblor del miedo y el pesar de las arrugas
El espíritu no puede otra vez ocultarse tras una pantalla
El libro abre ventanas; da libertad a las parvadas para
volar en círculos
El viejo árbol ha dejado de roncar, ya no echa nuevos brotes
Atar las ágiles pantorrillas del hijo
Pocas mujeres vuelven desde una ducha lejana
Bajar las estrellas y la interminable luz de la Luna
Cada persona tiene la libertad de su nombre
Cada quien su propia voz, su amor, su deseo
Ponerse de pie en la pesadilla del témpano
Al amanecer se derrite, permanece en la oscuridad
Cada persona lleva su propia sombra
Se vuelve pesado el recuerdo bajo sus pies
Al irse poco a poco desaparece
Todos los brazos se unen en el horizonte
Cada historia tiene un nuevo principio
Pues entonces comencemos
Versiones del chino de Alejandro Pescador
domingo, 27 de outubro de 2013
Exercícios de fé | Dominical
i.
Preciso que Deus me guie até o seu paiol
e que do alto dos ocasos
brilhe a pedra fundamental
onde me lavo
em fogo, estrela
bruta e ampla -
crer que meus pés caminham
até a próxima explosão.
ii.
Todo domingo. Uma confissão
de que todo domingo
é uma fraude
sem missais.
iii.
Preciso que o deus venha
áspero, desesperançado
nuns olhos de Clarice.
iv.
Que se redescubra o fogo.
Roberta Tostes Daniel
Вечерняя песня (Слушай Ленинград)
Музыка: В.Соловьев-Седой
Слова: А.Чуркин
Город над вольной Невой,
Город нашей славы трудовой
Слушай, Ленинград,
Я тебе спою
Задушевную песню мою
Здесь проходила, друзья,
Юность комсомольская моя.
За родимый край
С песни молодой
Шли ровесники рядом со мной
С этой поры огневой
Где-бы вы не встретились со мной,
Старые друзья,
В вас я узнаю
Беспокойную юность свою
Песня летит над Невой,
Засыпает город дорогой,
В парках и садах
Липы шелестят,
Доброй ночи, родной Ленинград.
Песни о городах
Lavoura arcaica
"O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o
tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo
só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo
também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me
levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade
de um julgamento mais áspero, eu estou louco!"
- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.
Pastores da Noite
“E, se não fôssemos nós, pontais ao
crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas
estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria
ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e
ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração
noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de
silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.”
- Jorge Amado
- Jorge Amado
sábado, 26 de outubro de 2013
De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas,
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.
De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.
A que balanço de onda vais buscar
A linha serpentina dos quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.
De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.
(José Saramago)
O vinho
As redondezas do vinho. As asperezas do vinho.
As veleidades do vinho. As veludezas do vinho.
As calorias do vinho. Os labirintos do vinho.
As branquidades do vinho. As verdolências do vinho.
As rosaledas do vinho. As inverdades do vinho.
As bordalesas do vinho. As borgonhesas do vinho.
As fluidezas do vinho. As espessuras do vinho.
Os jaguardentes do vinho. As águas duras do vinho.
As florisbelas do vinho. As florisfeias do vinho.
Os operários do vinho. As excelências do vinho .
As sonolências do vinho. Os maremotos do vinho.
- Murilo Mendes, em "Convergência". São Paulo:
Duas Cidades, 1970.
A HISTÓRIA MUDA, O INIMIGO MUDA - CINEMA:
A propaganda política e ideológica entendida como fenômeno
da sociedade e da cultura de massas, consolidou-se nas décadas de 1920-1940,
com o avanço tecnológico dos meios de comunicação. A primeira metade do século
XX foi marcada pela ascensão e consolidação dos regimes que utilizaram os meios
de comunicação de massas como instrumentos de propaganda política... e de
controle da opinião pública. Ficando evidente antes, durante e depois da
segunda guerra.
As ameaças feitas por Kim Jong-il, 30, á Coréia do Sul e aos
Estados Unidos fazem da republica norte coreana o novo inimigo histórico nas
telas de cinema americano.
Na sexta-feira dia 05 de abril estreou nos cinemas do Brasil
o filme “Invasão à Casa Branca”. Nele mostra um terrorista norte-coreano
tomando de assalto a Casa Branca, lá ele mantém o presidente americano (Aaron
Eckhart) como refém.
NAZISTAS – 1938 até hoje:
Filmes: “Casablanca”(1942), “Os Doze Condenados” (1967), “Os
Caçadores da Arca Perdida”(1981), “A lista de Schindler” (1993)
Mesmo com a derrota de Hitler, os nazistas nunca saíram das
telas do cinema, apenas foi adaptado a novas ondas estéticas.
SOVIÉTICOS – 1940-70 e 1980 até hoje:
Filmes: “Moscou Contra 007” (1963), “Caçada ao Outubro
Vermelho” (1990), “Rocky IV” (1985), “Duro de Matar: Um Bom Dia para Morrer”
(2013)
Misteriosos e capazes de ameaçar o poderio militar e
cientifico dos americanos. Após a dissolução da URSS, viraram terroristas.
TRAFICANTES – 1985 - 1990:
Filmes: “Máquina Mortífera”(1987), “Tango & Cash”
(1989), “Os Bons Companheiros” (1990)
O então Presidente Ronald Reagan declarou guerra as drogas,
Hollywood foi atrás de vilões interessados em lucrar com psicoativos.
TRAÍDORES DA PÁTRIA – 1990 – 2000:
Filmes: “Duro de Matar 2” (1990), “A Rocha” (1996), “O
Suspeito da Rua Arlington” (1999)
Terroristas como “Unabomber” e o ataque a Oklahoma City, em
1995, mostram que o inimigo não tem sotaque estrangeiro e não mora em outro
território.
ÁRABES – 1992 – 2012:
Filmes: “True Lies” (1994), “Nova York Sitiada” (1998),
“Syriana” (2005), “A Hora mais Escura” (2012)
Antes de 2001, eram os inimigos bidimensionais. Após o 11 de
setembro, evitou estereótipos que causassem fúria nos radicais islâmicos.
NORTE-COREANOS – 2010 – hoje:
Filmes: “Salt” (2010), “Amanhecer Violento” (2012), “G.I.
Joe – Retalição” (2013), “Invasão a Casa Branca” (2013)
Os dois últimos lideres fazem ameaças constantes a Coréia do
Sul, Japão e aos EUA.
Kacá Patricio – Equipe História Agora
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Fonte: Questões & Debates, Curitiba, n. 38, p. 101-131,
2003. Editora UFPR, Jornal Folha de São Paulo.
MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO
“O papel de Engels na elaboração do conceito de ‘modo de
produção asiático’ foi bem menor do que o de Marx. No Anti-Dühring (1878),
Engels reafirmou a necessidade de organização das obras de irrigação no Oriente
como elemento que explica o surgimento dos Estados despóticos. Ele via no
despotismo oriental a mais primitiva forma de Estado, por basear-se na mais
elementar das formas de renda: a renda em trabalho. O livro mencionava também
que as comunidades aldeãs da Índia haviam evoluído da propriedade comunal
tribal ao parcelamento da terra e ao surgimento de diferenças de riqueza entre
os indivíduos, devido à distribuição desigual do produto das trocas
intercomunitárias. [...] Engels sugeria a existência de dois caminhos
históricos para o surgimento do Estado: o que conduz ao despotismo oriental, no
qual se mantêm a existência das comunidades tribais e pela evolução das forças
produtivas, levando ao desenvolvimento do escravismo.”
CARDOSO, Ciro Flamarion S. in: Sociedades do Antigo Oriente
próximo, p. 15, 16.
Robson Bertasso,
Administração História Agora.
CARDOSO, Ciro Flamarion S. Sociedades do antigo Oriente
próximo. São Paulo: Ática, 1986. 93 p.
PARA O MAURÍCIO TRAGTENBERG
mineiro era meu avô
o mouro morreu de silicose
meu pai, andaluz carpinteiro
de pulmonar enfisema
aló irma, cambiei, pois ligo não
agora sei, juro ema, sobre o rancor
então vamos tragar afeto, doçuras
mamãe diz tergüel, ouçam o fonema
administrando bem a auto sugestão
podemos tomar lcd brasileiro
sem susto, talvez plasma
aí o buraco menor é que abala
dá vontade
mas e a impotência
diante dos lábios cínicos
e do can ivete?
em extrema dieta
os abduzidos sussurram
tem muito mau
há lito no espaço
LUIZ FERNANDO VENEGAS
(trecho do Aeronave Chega Birutas Tremulam - 2014)
Ironia sentimental
Coaxar dos sapos, quando a noite é calma,
sem jardins simbolistas, nem repuxos cantantes,
nem rosas místicas na sombra, nem dor em verso...
Coaxar dos sapos, longamente,
quando o céu palpita na moldura da janela,
num mistério doce, num mistério infinito,
e em cada estrela há um lábio, um lábio puro que treme,
e um segredo na luz que palpita, palpita...
- Augusto Meyer, em “Coração verde”, Porto Alegre: Globo,
1926.
Sinto a vida calefar
pelos poros. Não posso conter o apelo de minha anatomia.
Sou o veículo frágil das
hipóteses desconexas, das crenças céticas, dos hermetismos confessos.
Sou corpo que não cabe em
recipientes.
Sou o títere das
articulações engessadas.
Sou eu mesmo o meu
próprio simulacro.
Autor: Ézio Deda
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