sábado, 11 de fevereiro de 2012

AKHNILO

Akhnilo de James Salter



Era fim de agosto. No porto, os barcos estavam imóveis, nenhum mastro se mexia, nenhuma polia retinia. Os restaurantes tinham fechado havia tempo. Um carro ocasional, os faróis brilhantes, cruzava a ponte, vindo de North Haven, ou descia pela Main Street, passando pelas cabines de telefones arrebentados. Na estrada, as discotecas se esvaziavam. Passava das três da manhã.

Fenn acordou no meio da escuridão. Pensou que tinha ouvido alguma coisa, um som baixinho, o ranger de uma mola como a da tela da porta da cozinha. Ficou quieto no calor da cama. A mulher dormia tranquilamente. Esperou. A casa não estava fechada, apesar dos muitos casos de furto ou coisa pior perto da cidade. Ouviu um leve baque. Não se mexeu. Vários minutos passaram. Sem fazer barulho, levantou-se e foi até o vão estreito da porta, de onde alguns degraus levavam à cozinha. Parou ali. Silêncio. Mais um baque e um gemido. Era Birdman caindo de novo no chão.

Lá fora, as árvores pareciam reflexos negros. As estrelas estavam encobertas. As únicas galáxias eram os sons de insetos que preenchiam a noite. Olhou pela janela aberta. Ainda não estava seguro de ter ouvido alguma coisa. Quase podia tocar as folhas da faia imensa que pendia sobre a varanda dos fundos. Por um tempo que lhe pareceu longo, examinou a área de sombra junto ao tronco. Na imobilidade de tudo, sentia-se visível, mas também estranhamente receptivo. Seus olhos vagavam de uma coisa a outra nos fundos da casa, as pálidas colunas coríntias da pérgula do vizinho, a sebe misteriosa, a garagem de soleira carcomida. Nada.

Eddie Fenn era carpinteiro, apesar de ter estudado em Dartmouth e se formado em história. Quase sempre trabalhava sozinho. Tinha trinta e quatro anos. Tinha o cabelo ralo e o sorriso tímido. Nada de muito mais. Havia alguma coisa de apagado nele. Quando era mais jovem, dizia-se que era um talento, mas jamais se aventurara de verdade na vida, ficara perto da costa. A mulher, alta e míope, era de Connecticut. O pai dela tinha sido banqueiro. De Greenwich e Havana, dizia o anúncio fúnebre nos jornais. Ele cuidara da filial de um banco de Nova York por lá, quando ela era criança. Isso quando Havana era uma lenda e os milionários cometiam suicídio depois de fumar o último charuto.

Os anos tinham passado. Fenn olhou para a noite lá fora. Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim. Deixava-se impressionar por aquela vastidão. Pensou em tudo que estava oculto por trás daquilo, os gestos desesperados, os desejos, as surpresas fatais. Naquela tarde, ele vira um tordo bicando alguma coisa perto do limite da grama, pegando, jogando no ar, pegando de novo: um sapo, as patinhas hirtas estiradas em leque. O passarinho voltou a jogá-lo para cima. Os musaranhos cegos caçavam sem descanso por túneis vorazes, as línguas pontudas dos répteis sondavam o ar, sentia-se um abdômen triturado, a passividade das vítimas, o suave estertor do acasalamento. As filhas de Fenn dormiam na sala. Nada está seguro por mais de uma hora.

Parado ali, teve a sensação de que o som se alterava, não sabia bem como. Parecia isolar-se, como se permitisse que algo se destacasse dele, algo de cintilante e remoto. Tentou aos poucos identificar o que estava ouvindo como um grilo, uma cigarra, mas não, era alguma outra coisa, algo de febril e estranho que ganhava mais nitidez. Quanto mais atenção punha em ouvir, mais esquivo parecia o som. Tinha medo de se mover e perdê-lo. Ouviu o pio suave de uma coruja. A escuridão absoluta das árvores pareceu iluminar- se, e com ela também aquela nota singular e estridente.

Sem alarde a noite se abrira. O céu se revelava, as estrelas brilhavam fracamente. A cidade dormia, calçadas desertas, jardins em silêncio. Ao longe, em meio aos pinheiros, via-se a cumeeira de um celeiro. O som vinha de lá. Ainda não conseguia identificá-lo. Precisava chegar mais perto, descer e sair pela porta, mas assim talvez o perdesse, o som podia se calar, em alerta. Teve uma ideia perturbadora, que não pôde deixar de lado: o som estava em alerta. Trêmulo, repetindo-se e repetindo-se por cima dos demais, o som parecia chegar só até ele. O ritmo não era constante. Acelerava, hesitava, continuava. Era menos um grito instintivo e mais uma espécie de sinal, de código, diferente de tudo que ele ouvira antes, não uma série de pulsos curtos e longos,

mas algo de mais intricado, de certo modo quase como uma fala.

A ideia o assustou. As palavras, se é que eram palavras, eram tênues e pungentes, mas ele tremeu como se fossem a senha de um cofre. Sob a janela ficava o telhado da varanda. A inclinação era suave. Parou ali, perfeitamente imóvel, como perdido em pensamentos.

O coração batia com força. O telhado parecia largo feito uma rua. Teria que ir atrás daquilo, esperando não ser visto, movendo-se em silêncio, sem gestos bruscos, parando para sentir se havia alguma mudança no som a que ele estava agora completamente atento. A escuridão não o protegeria. Ele entrava numa noite de incontáveis redes e olhos irrequietos. Não tinha certeza se devia fazer aquilo, se ousava. Uma gota de suor brotou e correu pelo torso nu. Incansável, o chamado persistia. As mãos de Fenn tremiam.

Soltando a tela da janela, ele a baixou com cuidado e a encostou na parede. Movia-se em silêncio, como uma serpente, por cima do telhado de um verde esmaecido. Olhou para baixo. O chão parecia distante. Teria que se pendurar no telhado e se soltar, leve como uma aranha. Ainda via a cumeeira do celeiro. Movia-se na direção da estrela polar, podia sentir. Era quase como se estivesse caindo. O gesto era atordoante, irreversível, e o levaria aonde nada do que possuía poderia protegê-lo, descalço, sozinho.

Ao cair no chão, Fenn sentiu um arrepio pelo corpo todo. Estava para ser redimido. Sua vida não tomara o rumo que ele esperava, mas ele ainda se achava um ser especial, que não pertencia a ninguém. Na verdade, tinha uma ideia romântica do fracasso. Quase fora a sua meta. Esculpia pássaros em madeira, ou tinha esculpido. As ferramentas e os blocos de madeira parcialmente moldados estavam sobre uma mesa no porão. A certa altura, quase se tornara um naturalista. Alguma coisa nele, o silêncio, a disposição a ficar de lado, vinha a calhar. Em vez disso, começou a produzir mobília com um amigo que tinha algum capital, mas o negócio deu errado. Começou a beber. Certa manhã, acordou ao lado do carro, deitado junto aos sulcos de pneu da vereda, a velha senhora que vivia do outro lado da rua afugentando o cachorro. Entrou em casa antes que as filhas o vissem. Estava a um passo, disse o médico, de se tornar um alcoólatra. As palavras o espantaram. Isso fora há muito tempo. A família o salvara, mas não sem custo.

Parou. O chão era firme e seco. Foi até a sebe e cruzou a vereda do vizinho. O som que o trespassava era mais claro agora. Seguindo-o, passou por casas que mal reconhecia pelos fundos, por quintais abandonados em que latas e detritos se escondiam na grama escura, por galpões que ele jamais vira. O terreno começava a descer suavemente, estava se aproximando do celeiro. Podia ouvir a voz, sua voz, ressoando mais para o alto. Vinha de algum lugar do espectral triângulo de madeira que se elevava como a face de uma montanha distante que se aproxima repentinamente de uma curva da estrada. Movia-se vagarosamente em sua direção, com o medo de um explorador. Mais acima, ouvia a corrente tênue que trinava. Aterrorizado com a proximidade, parou e ficou quieto.

De início, ele recordaria mais tarde, não significava nada, era brilhante demais, puro demais para isso. Continuava a ressoar, mais e mais insano. Fenn não conseguia identificar, não conseguia repetir, não conseguia sequer descrever o som. Ganhara volume, pusera todo o resto de lado. Parou de tentar entendê-lo e, em vez disso, deixou que o percorresse, que o invadisse como um canto. Devagar, como um padrão que muda de aparência quando é observado e começa a tomar outra dimensão, o som se alterou inexplicavelmente e expôs seu núcleo real. Começou a reconhecer. Afinal eram palavras. Não tinham sentido nem antecedentes, mas eram sem dúvida uma linguagem, a primeira a se deixar ouvir de uma ordem mais vasta e mais densa que a nossa. Logo acima, na superfície esbranquiçada, desesperado, suplicante, estava o pioneiro sem nome.

Numa espécie de êxtase, Fenn chegou mais perto. Imediatamente percebeu o erro. O som hesitou. Ele fechou os olhos, num espasmo, mas era tarde demais, o som vacilou e parou. A toda a sua volta, as vozes retiniram. A noite estava repleta delas. Virou-se para um lado e para o outro, na esperança de encontrá-la, mas a coisa que ele ouvira já se fora.

Era tarde. O céu começava a ganhar um tom pálido. Fenn estava junto ao celeiro com os fragmentos de um sonho que se tenta recordar a custo: quatro palavras, distintas e inimitáveis, que ele criara. Protegendo-as, concentrando-se nelas com toda a força que tinha, começou a levá-las de volta. O barulho dos insetos parecia mais alto. Tinha medo de que alguma coisa acontecesse, que um cão latisse, que uma luz se acendesse num quarto e o distraísse, que ele afrouxasse a mão. Tinha que voltar sem ver nada, sem ouvir nada, sem pensar. Repetia as palavras consigo enquanto caminhava, os lábios se moviam sem parar. Mal ousava respirar.

Podia ver a casa. Estava cinzenta agora. Não havia luz nas janelas. Tinha que chegar até lá. O som das criaturas noturnas parecia aumentar com raiva e tormento, mas ele estava além disso. Estava fugindo. Percorrera uma distância imensa, estava chegando à sebe. A varanda não estava longe. Subiu no parapeito, a beira do telhado a seu alcance. A calha era firme, ele se ergueu. Sentiu o calor do asfalto quebradiço e esverdeado sob os pés. Passou uma perna pelo peitoril, depois a outra. Estava seguro. Instintivamente, tomou distância da janela. Conseguira. Lá fora, a luz parecia débil e histórica. Uma aurora espectral começou a atravessar as árvores.

De repente, ele ouviu o chão estalar. Alguém estava ali, uma figura à luz suave e sem cor. Era sua mulher, ficou pasmo diante da imagem dela, apertando a camisola de algodão contra o corpo, o rosto simplificado pelo sono. Fez um gesto de alerta.

“O que foi? O que aconteceu?”, ela sussurrou.

Não, ele implorou, balançando a cabeça. Uma palavra se perdera. Não, não. Ela se agitava e desfazia como uma coisa qualquer lançada ao mar. Ele tentava agarrá-la às cegas. Ela o abraçou. Ele se afastou abruptamente. Fechou os olhos.

“Meu bem, o que foi?” Ele estava perturbado, ela sabia. Ele jamais se recuperara por inteiro das dificuldades. Muitas vezes ele acordava no meio da noite, ela o encontrava sentado na cozinha, o rosto velho e cansado.

“Venha para a cama”, ela convidava.

Ele fechava os olhos com firmeza e tapava os ouvidos com as mãos.

“Você está bem?”, ela perguntou.

A devoção dela dissolvia tudo, as palavras estavam caindo por terra. Ele começou a girar em desespero.

“O que foi, o que foi?”, ela exclamou.

A luz vinha de toda parte, avançando pelo gramado. O sussurro sagrado esvanecia. Não tinha um minuto a perder. As mãos coladas à cabeça, correu até a sala atrás de um lápis, com ela correndo atrás, pedindo que lhe dissesse o que havia. Estavam sumindo, só restava uma, inútil sem as outras, e contudo de valor infinito.Enquanto ele escrevia, a mesa se mexeu. Um quadro tremeu na parede. A mulher, segurando os cabelos de lado com uma das mãos, examinava de perto o que ele escrevera. Dena, de camisola, surgira no vão da porta, despertada pelo barulho.

“O que foi?”, ela perguntou.

“Me ajude”, a mãe exclamou.

“Papai, o que foi?”

As mãos das duas estendiam-se para ele. No vidro do quadro, um quadrado brilhante de azul e verde estremecia, a folhagem luminosa das árvores. As vozes incontáveis recuavam, voltando ao silêncio.

“O que foi, o que foi?”, a mulher implorava.

“Papai, por favor!”

Ele balançou a cabeça. Estava quase chorando quando tentou se livrar das duas. De repente, descambou para o chão e ficou sentado ali, e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela.



Tradução: Samuel Titan Jr.



AKHNILO



Um conto de: JAMES SALTER

Do livro: “ÚLTIMA NOITE e outros contos”

Editora: Cia. das Letras



Retrato das raízes de um país triste

Ensaio clássico de Paulo Prado, publicado em 1928, ganha nova edição

“A visão mais pessimista de nossa história”, segundo Alceu de Amoroso Lima. “Triste no desfecho, mas de narrativa amena e pitoresca, empolgando o leitor, da primeira à ultima página”, no dizer de João Ribeiro. “Um livro que vale mais como obra de arte que de pensamento”, para Agripino Grieco. “Livro pré-freudiano, que repete todas as monstruosidades de julgamento do Ocidente sobre a América descoberta”, na definição de Oswald de Andrade. Estas são algumas das dezenas de opiniões que cercaram a fortuna crítica de Retrato do Brasil: Ensaio Sobre a Tristeza Brasileira, de Paulo Prado. Publicado pela primeira vez em 1928, a contrapelo da maré ufanista daqueles anos, ganhou um numero invulgar de leitores e provocou acirrada polêmica entre os críticos da época. Tudo isto o leitor pode conferir nesta oportuna reedição, primorosamente organizada por Carlos Augusto Calil e fartamente documentada, não apenas pelo acesso que o organizador teve aos arquivos pessoais do autor, mas com um sem-número de notas, depoimentos, resenhas e perfis produzidos nos últimos 80 anos.



Todos foram unânimes em discordar da tese central de que o povo brasileiro é um povo triste e, sobretudo, da equação psicológica através da qual Paulo Prado resumia toda a história brasileira: luxúria + cobiça + romantismo = tristeza. Muitos diziam que o autor confundira as coisas, tomando o sintoma de uma crise de identidade como sendo a própria identidade nacional. Talvez pela clareza do seu estilo ou pelo tom pitoresco da sua argumentação ele acabou por fazer a cabeça de muitos pensadores, então ainda jovens na época, como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Jr. – inaugurando uma modalidade de ensaio sobre a identidade nacional que serviria de modelo para aquela tríade de clássicos da década seguinte. Combatendo tanto o ufanismo estéril quanto os determinismos biológicos e raciais que pesavam na compreensão do Brasil, o Retrato pode ser visto como uma espécie de catalisador daquela ansiedade dos modernistas de 1922 em compreender o País de forma intuitiva e rápida.



Mas também representou a síntese mais notável de um debate virtualmente já estabelecido entre a intelectualidade que se voltava para a busca de uma explicação das origens brasileiras. É o caso do pouco conhecido ensaio Melancolias, de Matheus de Albuquerque – publicado em 1915 – com tema e argumentação semelhantes ao ensaio de Prado, embora literariamente inferior a este. Também não havia nada de especificamente brasileiro naquela equação que apontava a tristeza como signo da nacionalidade, pois tal discurso sintético era parte de um conjunto de padrões de comportamento que há muito a cultura ocidental já vinha atribuindo ao universo selvagem e rural, os dois frequentemente assimilados.



Seja como for é sempre compensador ler, ou reler, o Retrato. Como seu grande mestre e inspirador – o historiador Capistrano de Abreu -, Paulo Prado lembrava, em alguns momentos, aqueles moralistas do século 18, ao estilo de Fontenelle – com apenas uma diferença essencial -, o pensador francês viveu numa época de euforia com o progresso, enquanto o ensaísta brasileiro já respirou o oxigênio mental de uma época de forte descrença com o progresso e com a razão iluminista. Há momentos nos quais ele parece mesmo um moralista demodée em pleno século 20, assistindo a uma profunda crise dos valores e de linguagem pública. Lembra ainda Capistrano também na capacidade de citar o documento na hora certa, encaixando – com mão pesadíssima diga-se – trechos de um viajante ou frases diretas retiradas de autos inquisitoriais, quebrando a amenidade da narrativa. Sua caracterização dos portugueses como “um povo já gafado do germe de decadência quando começou a colonizar o Brasil” faz eco daquela ferina definição de Capistrano que dizia que “O Brasil não passava de um Portugal rarefeito e ampliado”. O mais ilustre padrinho dos modernistas paulistas revela-se ainda implacável contra quaisquer regionalismos. Ao tratar da decadência paulista na época da mineração, arremata: “Foi quando os paulistas se barbarizaram de vez: dispersos, escondidos pelas roças, procurando a solidão no seu amuo característico, vivendo de canjica, pinhão e içá torrado”. Conclui que a cidade de Salvador não passava de “um extravagante caravançarai, pitoresco e tropical”, e ao caracterizar o Rio de Janeiro, não deixa por menos, subscrevendo a extravagante descrição de Luccock de que a cidade era uma “das mais imundas associações de homens debaixo dos céus”.



Quanto à discutível equação de Prado para explicar a psicologia nacional, é possível perceber quanto ela serviu de fonte e inspiração para Sérgio Buarque discorrer sobre o significado da cordialidade na história brasileira no seu Raízes do Brasil, publicado em 1936. Por trás da categoria tristeza estava uma sociedade sem grandes mediações, resultando em formas de convívio nas quais predominam a familiaridade, o personalismo e a afetividade, que acabam exportadas para a vida pública e para as estruturas políticas. Seria apenas pela mobilização de tais categorias sentimentais que não apenas o universo social como também o universo religioso ganhavam sentido: note-se que, no conhecido exemplo de Buarque, o Brasil é o único país no qual Santa Tereza de Lisieux vira “Santa Terezinha”. A diferença era que as categorias sentimentais enfeixadas por Buarque na metáfora do homem cordial não eram apenas negativas – como queria Paulo Prado – mas também positivas e, neste caso, tristeza e melancolia, assim como alegria e fuzarca eram faces da mesma moeda. Afinal, como dizia Millôr Fernandes, “a distância entre o riso e a lágrima é apenas o nariz”.



RETRATO DO BRASIL:



ENSAIO SOBRE A TRISTEZA BRASILEIRA



Autor: Paulo Prado



Editora: Companhia das Letras



(400 págs., R$ 49)



* ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP, AUTOR DE, ENTRE OUTROS, Raízes do Riso (COMPANHIA DAS LETRAS)


Elias Thomé Saliba
 – O Estado de S.Paulo

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,

contemplo os teus pés.



Teus pés de osso arqueado,

teus pequenos pés duros.



Eu sei que te sustentam

e que teu doce peso

sobre eles se ergue.



Tua cintura e teus seios,

a duplicada purpura

dos teus mamilos,

a caixa dos teus olhos

que há pouo levantaram voo,

a larga boca de fruta,

tua rubra cabeleira,

pequena torre minha.



Mas se amo os teus pés

é só porque andaram

sobre a terra e sobre

o vento e sobre a água,

até me encontrarem.



Tus pies (Pablo Neruda)



Cuando no puedo mirar tu cara

miro tus pies.

Tus pies de hueso arqueado,

tus pequeños pies duros.

Yo se que to sostienen,

y que tu dulce peso

sobre ellos se levanta.

Tu cintura y tus pechos,

la duplicada pu’rpura

de tus pezones,

la caja de tus ojos

que recien han volado,

tu ancha boca de fruta,

tu cabellera roja,

pequeña torre mía.

Pero no amo tus pies

sino porque anduvieron

sobre la tierra y sobre

el viento y sobre el agua,

hasta que me encontraron.

Pablo Neruda

Ausente

Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,

guarda para si paisagens que desejo sonhar.

Sob pálpebras alvas de tecido sonolento

percebo o claro volume genital do seu olhar.

Desejo amparo de algum sono, quero fugir

do olho molhado, vermelho, recém-acordado,

intumescido de sono e que me espia chorar

Helga Holtz

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Un poco de poesía no le hace mal a nadie

Hay gente que no lee poesía nunca: le revienta, le parece cursi, no la entiende. Son el producto de la mala formación que la escuela peruana –y latinoamericana en general– logra producir tras un proceso horroroso de solemnidad, aderezado con rigurosas dosis de estupidez y amasado en el transcurso de once años sostenidos. Entonces la poesía tiene que ser “trascendente”, “sublime”, “proteica” y todos esos adjetivos que provocan sarcasmo. Hasta que algunos espíritus rebeldes y persistentes descubren en sus adolescencias a algún poeta que los saca de cuadro, Rimbaud, Bukowski, Pavese o Luchito Hernández, y regresan a vislumbrar esa fuerza perturbadora de lo simbólico, escondida detrás de estos signos sobre un papel o pantalla en blanco. La verdad que la poesía es solo un juego con el lenguaje que de muy pequeños nos encanta porque lo vamos descubriendo y poco a poco le vamos perdiendo el interés, a menos que la sigamos cultivando despacio, tranquilamente, evitando la mala hierba, para recuperar la sorpresa ante esas extrañas y perfectas epifanías.



Wislawa Szymborska, la gran poeta polaca y Premio Nobel de Literatura 1996, es una de aquellas personas que tras su aparente bonhomía permiten a cualquier mortal volver sobre la fe en las palabras. Su obra es parca, como su estilo, y sin embargo a través de un riguroso trabajo de constancia y de penetración en las sensibilidades contemporáneas ha forjado una manera diferente de contemplar el mundo y escribirlo. Aquí uno que titula simplemente Agradecimiento: “Debo mucho/ a quienes no amo.// El alivio con que acepto/ que son más queridos por otro. // La alegría de no ser yo/ el lobo de sus ovejas. //Estoy en paz con ellos/ y en libertad con ellos,/y eso el amor ni puede darlo/ ni sabe tomarlo”. Genial.



Szymborska, “¡cómo se pronunciará correctamente!, pero como lo decimos en castellano se percibe tremendamente sonoro”, ha sido un espíritu juguetón y especial. Aprendió castellano para leer a Cervantes “con diccionario” y porque le parecía que el español sonaba “a un latín bellamente estropeado”. Durante sus ratos libres solía realizar pequeños collages de figuras extraídas de revistas de 1920. Por expresa decisión de ella, sus libros de poemas con collages nunca han sido traducidos del polaco. Nunca se movió de Cracovia. Cuando la invitaban a diversos lugares, sobre todo después del Nobel, ella siempre contestaba: “iré cuando sea más joven”. Leyendo sus poemas uno puede deducir que detestaba los círculos literarios, la gente que respira en poesía todo el día, y prefería recluirse en su departamentito de edificios grises y burocráticos de su ciudad para simplemente atisbar la vida: sus poemas nos hablan de los amores-no amores, de las cartas de la hermana, de una bomba puesta en un bar, de los edificios cayendo en Nueva York en setiembre del 2001 o de los desayunos de los obreros del movimiento Solidarinosc. La simpleza de cada una de esas palabras es, en realidad, años de años cincelándolas, controlándolas, domándolas, en uno de los idiomas más complicados de la tierra.



El miércoles 1º de febrero Szymborska murió en Cracovia, acompañada de sus amigos más cercanos, y al parecer de la misma manera tranquila como trascurrieron sus últimos años. De cara a la muerte recordemos este poema sobre la vida: “En esta escuela del mundo/ ni siendo malos alumnos/ repetiremos un año/ un invierno o un verano“

Rocío Silva Santisteban – La República



DISCURSO DE NOIVADO APÓS O JANTAR

Este eu, um recipiente, que

desde que ninguém o abra,

parece compacto, liso

como um ovo Kinder,

quase apetitoso. Somente lá,

no interior, está escuro. Quem sabe

o que estará dentro, à tua espera.

Obsessões, sem dúvida,

hábitos enferrujados,

medos incompreensíveis,

truques em segunda mão,

desejos infantis.

Que tu a desejes ter,

a esta prenda embrulhada,

roça o milagre.

Hans Magnus Enzensberger

UMA CANTIGA COR-DE-TERRA

Outro poema sobre a morte, etc. –

certamente mas e quanto à batata?

Por razões óbvias não é mencionada

por Horácio ou Homero, a batata.

E o que dizer de Rilke e Mallarmé?

Será que não lhes disse nada, a batata?

Muito poucas palavras rimam

com ela, a batata cor-de-terra?

Não é muito preocupada com o céu.

Espera pacientemente, a batata,

até que a arrastemos para a luz

e a atiremos ao fogo. A batata

não se importa, mas será possível

que seja demasiado quente para os poetas, a batata?

Bom, vamos então esperar um pouco

até que a comamos, à batata,

e a cantemos e depois a esqueçamos novamente.

HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda

POR VEZES

Quando conheces alguém

mais inteligente ou mais estúpido do que tu -

não faças caso disso.

As formigas e os deuses,

acredita, sentem o mesmo.

Que exista mais gente na China,

digamos, que em San Marino,

não é uma desgraça.

A maioria das pessoas, sem dúvida, é

mais negra ou mais branca que tu.

Por vezes és um gigante,

qual Gulliver, ou um anão.

Em algum lugar ou outro estás sempre a descobrir

uma beleza ainda mais radiante,

alguém ainda pior.

És medíocre,

felizmente. Aceita-o!

Sete graus centígrados a mais

ou a menos no termómetro -

e estarias além da salvação.


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda

SERMÃO DOMINICAL DE ASTRONOMIA

Quando a conversa se volta para as nossas desgraças –

fome, homicídios, assassinatos, etc. –

Garantido! Uma casa de loucos!

Mas, por favor, permitam-me

ressalvar, sem falsas modéstias

que apesar de tudo

é um planeta bastante favorável

este, no qual nos encontramos,



uma pérgula rosa,

comparado com Neptuno

(menos 212 graus centígrados,

velocidade do vento de mais de 600 mph

e uma pipa de metano

na atmosfera).

Só para que se saiba que noutros lugares

é muito menos confortável.


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
– Poesia & Lda.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Fachadas

FACHADAS



1.



No fim da estrada vejo o poder

e é como uma cebola

com rostos sobrepostos

que caem um a um…



2.



Esvaziam-se os teatros. É meia-noite.

Palavras ardem nas fachadas.

O enigma das cartas sem resposta

afunda-se na fria cintilação


Tomas Tranströmer – Poesia & Lda

Morre aos 88 a poeta e Nobel de Literatura Wislawa Szymborska

A escritora, premiada em 1996, sofria de um câncer de pulmão

A poeta polonesa Wislawa Szymborska, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, morreu ontem, aos 88 anos, em Cracóvia.

Szymborska (pronuncia-se Chembórska), conhecida por ser fumante inveterada, tinha câncer de pulmão e morreu em casa, de acordo com seu assistente pessoal, Michal Rusinek.

Em sua premiação, o comitê do Nobel a qualificou como o “Mozart da poesia”, destacando a elegância de sua linguagem. Szymborska também foi agraciada com o prêmio Goethe, em 1991, e o Herder, em 1995.

A escritora teve sua primeira compilação lançada em português no ano passado pela Companhia das Letras, com o título “Poemas”.


Também em 2011, o presidente polonês Bronislaw Komorowski concedeu a Szymborska a maior distinção do país, o prêmio “Order Orła Białego” (”Águia Branca”), por sua contribuição à cultura nacional.


Em reação à sua morte, o presidente escreveu que ela “inspirou os poloneses por décadas com seu otimismo e com o poder da beleza e a força de sua palavra”.


O primeiro-ministro Radek Sikorski afirmou em seu Twitter que a morte da poeta foi “uma perda irreparável para a cultura polonesa”.


Seus escritos são vistos como uma forte crítica às utopias e tragédias do século 20.


Entre os admiradores de Szymborska, estão o cineasta Woody Allen e o escritor Umberto Eco, que já declarou que ela escrevia “de forma descomplicada sobre as coisas mais importantes”


Fonte: Folha de São Paulo 02/02/2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cinco breves poemas

I



Talvez a juventude apenas seja isto:

sem arrependimento amar sempre os sentidos.



(de Croce e delizia, 1958)



II



Este corpo que aperto (e me aperta)

tem um sabor de estrelas e de lodo.

E eu não sei quem agora me tinge

(profundíssimo jogo) de vermelho

as estrelas.



(de Stranezze, 1976)



III



Era no cinema, onde as portas

se abrem e fecham continuamente.

Àquele rumor ela pensou

que ele voltasse

mas não voltou.



(de Stranezze, 1976)



IV



Fazer do verde prado

um jogo proibido.

Já o tenho tentado.

Sem o ter conseguido.



(de Appunti, 1950)



V



«Poeta exclusivo do amor»

me chamaram. E era talvez certo.

Mas o vento aqui sobre a erva e os rumores

da cidade longínqua

não são eles também amor?

Sob nuvens quentes

não são ainda o som

de um amor que arde

e não mais se afasta?



(de Stranezze, 1976)



Sandro Penna
– Poesia & Lda.






Tradução de David Mourão-Ferreira

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Hilda Hilst

Carta de amor

CARTA DE AMOR

JORGE SOUSA BRAGA






(A Eugénio de Andrade)



Un día de estos

te voy a matar

Una mañana cualquiera en la que estés (como de costumbre)

midiendo el empalme de las flores

allí en el Jardín de San Lázaro

un tiro de pistola y…

No te voy a dar tiempo siquiera a que te fijes en mi rostro

Puedes invocar a Safo, Kavafis o San Juan de la Cruz

a todos los poetas celestiales

que ninguno vendrá en tu ayuda

Comprometidos definitivamente tus planes de eternidad

Adiós pues mares de septiembre y dunas de Fão

Un día de estos te voy a matar…

Una certera bala de polen

justo en el corazón



§



MUJER



Mitad mujer mitad pájaro

Mitad anémona mitad niebla

Mitad agua mitad amargura

Mitad silencio mitad concha

Mitad mañana mitad fuego

Mitad jade mitad tarde

Mitad mujer mitad sueño.



Fonte – Poesia & Lda.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

REGRESSO

Voltei a esse lugar

onde nunca tinha estado.

Do que não foi, nada mudado.

Sobre a mesa (de oleado

aos quadrados) meio vazio

encontrei o mesmo copo

nunca cheio. Tudo

permanece tal e qual

eu o não tinha deixado.

EXPERIÊNCIA

Todos os lugares que vi,

que visitei,

agora sei – estou certo:

nunca lá me encontrei.

CONDIÇÃO

Um homem só,

fechado no seu quarto.

Com todas as suas razões.

Com todos seus erros.

Só, nesse quarto vazio,

e falando. Aos mortos.

PEDRADAS

Também eu tentei falar.

Sem talvez saber a língua.

Todas as frases erradas.

Em resposta: só pedradas.

AMANHECER

Meu amor, nos vapores dum café

ao amanhecer, meu amor que inverno

longo e que calafrio estar à tua espera! Cá

aonde o mármore do sangue é gelo, e sabe

a frescura até o olho, agora no ermo

ruído além da geada eu que elétrico

ouço, abrindo e fechando eternamente

as portas desertas?… Amor, está parado

o meu pulso: e se o copo no fragor

subtil tem um tremor nos dentes, talvez

seja o eco dessas rodas. Mas tu, amor,

não me digas que agora em vez de ti está o sol

brotando, não me digas que daquelas portas,

eu cá, com teus passos, já estou a aguardar pela morte.

Giorgio Caproni – Poesia & Lda.






(de «Il passaggio d’Enea», 1956)

sábado, 28 de janeiro de 2012

Uma atordoante distopia

Ousadias e desencanto marcam ‘A Visita Cruel do Tempo’, de Jennifer Egan





Jennifer, que foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo no ano passado



Manoela Sawitzki – O Estado SP

Para escrever seu quinto livro, a norte-americana Jennifer Egan afirma que se serviu de referências surpreendentemente distintas: Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Pulp Fiction, filme de Quentin Tarantino, e Família Soprano, uma série televisiva de sucesso. O resultado arrebatou o júri do Pulitzer Prize, que deu ao romance A Visita Cruel do Tempo (A Visit From the Goon Squad, no original) o prêmio de melhor ficção de 2011. A obra também recebeu outras premiações importantes, como o National Book Critics Circle, e tem se desdobrado numa profusão de traduções e vendagens substanciosas. Mas dizer isso tudo é somente sublinhar o que o leitor entenderá por si se deixando tragar pelo caleidoscópio humano de Egan.

A escritora ousa e se arrisca ao suspender noções cartesianas de espaço e tempo. Passado e futuro coexistem na alternância aparentemente caótica de episódios. Porções de um período estão contidas no outro, mesmo que sob o viés da contradição. A memória revela a argamassa original, matéria a partir da qual sujeitos são moldados e deformados. É construída assim uma narrativa fragmentada, polifônica, que subverte as fronteiras pacificadoras entre continuidade e descontinuidade de discurso. E há algo de autêntico, franco na forma como as muitas histórias e vozes ali contidas se desvelam e entrelaçam que garante uma unidade singular ao livro. Embora nem sempre o texto se mantenha fluente, o vigor narrativo acaba por se impor. Isto porque Jennifer Egan sabe ousar e se arriscar numa medida rara.

Resumir sem reduzir os saltos e conexões desse exercício de fabulação notável é tarefa inglória. Dividido em duas partes, A e B, compostas por pequenos capítulos, A Visita Cruel do Tempo dá conta de cerca de quatro décadas e mais de duas dezenas de personagens. Valendo-se ora da terceira, ora da primeira pessoa (e conseguindo utilizar a segunda com destreza em um trecho comovente do livro), a narração retrocede e avança por diferentes etapas dessas vidas com cortes precisos. Ao longo de 13 capítulos, coadjuvantes tornam-se protagonistas (e vice-versa). Cada capítulo possui tom próprio, cada época compõe seu elenco.

Começamos com Sasha, ex-assistente de Bennie Salazar, importante executivo da indústria musical americana. Diante do analista, ela discorre sobre um recente episódio envolvendo seu “problema” e a noite de sexo casual com Alex, jovem recém-chegado a Nova York que conheceu pela internet. Seu “problema” é a cleptomania. Na década anterior foi namorada de Drew e melhor amiga de Rob, que tentou o suicídio e parecia não estar de acordo com nada no mundo à sua volta. Bennie, aos 40 e poucos anos, se recupera do divórcio, salpica flocos de ouro em xícaras de café – receita afrodisíaca obtida num livro sobre medicina asteca – e ainda se embaraça com os vexames do passado, desde quando era o péssimo baixista da banda punk Flaming Dildos. Nessa época conheceu Lou, um produtor musical que tenta fugir do impacto da velhice cercando-se de namoradas e esposas muito jovens. Stephanie trai a juventude roqueira tornando-se parceira de tênis de uma loira republicana no Country Club de um bairro esnobe. Enquanto isso, Jules, seu irmão, jornalista especializado em celebridades, condenado à prisão por atacar uma jovem atriz de Hollywood durante uma entrevista, é solto. Músicos fazem sucesso, frequentam o ostracismo, engordam e ensaiam retornos – um deles assumidamente suicida. A assessora de imprensa Dolly é banida dos meios sociais e acaba trabalhando a imagem de um ditador genocida. A menina Alison inventaria o cotidiano da família Blake num diário escrito em PowerPoint. E ainda não estamos perto de abranger uma parte substanciosa da trama. De um safári na África de 1973, a um concerto de rock ao ar livre em uma Nova York futurista, repleta de helicópteros, o fôlego de Jennifer Egan parece inesgotável.

A Visita Cruel do Tempo trata da distopia de uma geração forjada em meio ao cenário musical underground dos anos 70, que chega despreparada à explosão consumista e à tirania do retoque do século 21, e terá que se confrontar com os novos parâmetros da cibercultura. E toma pelas mãos os herdeiros, crianças que crescem sob o impacto desse emaranhado de incertezas e reelaborações. Ao se questionar sobre que tipo de evento simbolizará o mundo novo que se desenha à sua frente, por exemplo, Dolly sabe que a resposta já não está consigo, mas com Lulu, sua filha. “Se existem crianças deve existir futuro, certo?”, quer acreditar Alex.

Entre encontros, separações, vidas perdidas e destinos às vezes magicamente reorganizados, um personagem é onipresente, central e contínuo em sua missão: o tempo. “O tempo é cruel, não é? Vai deixar ele intimidar você?”, pergunta Bennie ao guitarrista aterrorizado, incapaz de voltar ao palcos. “O tempo venceu”, ele responde. O esquadrão que nos impõe sua marcha sempre vencerá.

TRECHO

“Bennie deixou-o descer do carro e lhe deu um forte abraço. Como sempre, Chris se imobilizou em seus braços, mas Bennie nunca sabia dizer se estava aproveitando ou suportando o abraço. Ele recuou e olhou para o filho. O bebê que ele e Stephanie tinham afagado e beijado agora era aquela presença dolorosa, cheia de mistério.”

A VISITA CRUEL DO TEMPO
Autora: Jennifer Egan
Tradução: Fernanda Abreu
Editora: Intrínseca (336 págs., R$ 29; e-book: R$ 19,90)

MANOELA SAWITZKI É AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

Para escapar do cárcere do real

A partir da análise de ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo, ‘A Tentação do Impossível’, de Mario Vargas Llosa, reflete sobre as ambições que norteiam a arte da escrita
28 de janeiro de 2012



Ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa – Justin Lane/EFE – Arquivo



Carlos Granés – O Estado SP

A julgar pela vastidão da obra que deixou, pareceria que a vida de Victor Hugo se consagrou exclusivamente a compor poemas, redigir ensaios, escrever peças de teatro e planejar suas imensas criações literárias. Assim parece porque quem quisesse esgotar sua bibliografia teria de gastar pelo menos dez anos lendo seus romances e as milhares de páginas que foi redigindo com facilidade invejável desde que descobriu sua vocação literária, antes dos 15 anos de idade. O surpreendente é que não foi assim. Victor Hugo também teve tempo para participar dos acontecimentos que marcaram o curso do século 19 francês, e viver grandes aventuras amorosas com mulheres de todas as condições sociais, de damas da alta sociedade até criadas, às quais seduzia ou pagava para satisfazerem seus caprichos eróticos.

Tudo isso e muito mais é contado por Mario Vargas Llosa em A Tentação do Impossível, seu ensaio sobre Os Miseráveis, a obra maior de Victor Hugo e do romantismo francês. Publicado originalmente em 2004, o ensaio de Vargas Llosa é o testemunho de seu fascínio pela cultura francesa e pelas criações literárias caracterizadas pela ambição descomunal, pelo desejo de recriar toda a vida em seus grandes e pequenos detalhes por meio da palavra escrita.

Três ideias fundamentais fazem deste um livro fascinante. A primeira é que Os Miseráveis marca o fim do romance clássico, isto é, aquele em que o narrador participa ativamente da história dando sua opinião sobre os acontecimentos ou explicando ao leitor por que as coisas sucedem tal como sucedem. Esse narrador consciente de si mesmo desaparecerá no romance moderno, inaugurado por Gustave Flaubert com Madame Bovary, no qual ele se fundirá com os eventos narrados para perder o protagonismo humano e ganhar clarividência divina: não o veremos, mas ele estará em todas as partes determinando tudo.

A segunda ideia fundamental diz respeito à maneira como o escritor transforma a realidade em material literário. Nenhum romance digno do nome, mesmo que narre episódios reais, pretende substituir a história vivida. O romancista emprega essa matéria-prima para criar uma realidade autônoma, irreal, fictícia; um cenário no qual poderá explorar não o que ocorreu na realidade, mas os dramas humanos, os dilemas morais, as perguntas fundamentais da vida que o perturbam e obcecam, e que são o tema essencial do romance. Se a história, a sociologia e a antropologia se ocupam dos fatos reais, o conhecimento que o romance projeta tem a ver com os anseios, ilusões, desejos, paixões e frustrações que assaltam homens e mulheres em determinado momento e em determinado lugar. No caso de Os Miseráveis, esse anseio é a perfeição humana, a redenção pelo sofrimento e a luta para alcançar o infinito, para tocar a divindade.

Essa última observação nos remete à terceira ideia cardeal que Vargas Llosa ressalta em A Tentação do Impossível. Inicialmente, Os Miseráveis não foi recebido pelos críticos como a obra imortal que hoje lemos, mas como um livro terrivelmente perigoso, escrito para provocar descontentamento e insatisfação nos leitores. Nada mais delicado, dizia o escritor Alphonse de Lamartine, um desses críticos, que criar um mundo literário povoado de personagens ideais, capazes de se comportar como santos laicos ou heróis justiceiros, porque o contraste entre essa ficção e a imperfeita realidade poderia causar tamanha frustração, tamanha irritação, que despertaria o desejo imperativo de revolta contra a sociedade.

Não é casual o fato de Vargas Llosa ter explorado esse tema na obra de Victor Hugo. Não o é porque entender o papel que tem a ficção na vida humana, entender por que romances são escritos e são lidos, entender esse impulso poderoso que move ele mesmo e outros romancista a desafiar a realidade real antepondo-lhe uma realidade fictícia, foi uma das grandes obsessões do escritor peruano. E a resposta que obtemos a essa interrogação em A Tentação do Impossível é tão sugestiva como a análise pormenorizada que seu autor faz de Os Miseráveis. Criamos ficções porque, por meio delas, saímos do cárcere do real e vivemos as mil vidas que de outra forma não poderíamos viver. Ademais, como antecipou Lamartine, porque no ir e vir da ficção vemos as imperfeições do mundo real e se afina nossa consciência crítica, a ferramenta que impede que as sociedades se paralisem na resignação e na apatia. Aspirar ao impossível, como fazem Victor Hugo e, em maior ou menor grau, todos os grandes criadores de ficção, é um antídoto contra o conformismo e a indolência. Esta é a razão de ser do romance, esta é a razão pela qual há escritores – entre os quais Vargas Llosa – que põem todo seu empenho em se deixar tentar pelo impossível.

Esse ensaio literário, como os muitos outros que Vargas Llosa escreveu ao longo de sua dilatada carreira, é uma chave extremamente útil para entender sua própria concepção de romance e os temas e problemas que lhe interessa abordar em seus projetos narrativos.

Se em 1975, quando publicou um ensaio sobre Flaubert e Madame Bovary intitulado La Orgia Perpetua, ele refletia sobre o desejo individual e a possibilidade de vencer os determinismos sociais, temas que apareceriam em seus romances seguintes, em 2004, ao mergulhar em Os Miseráveis, Vargas Llosa nos revela sua paixão pelas personagens exacerbadas que desafiam a condição humana com condutas extremas e paixões inquebrantáveis. Essas personagens enfeitiçam Vargas Llosa porque, como Flora Tristán, Paul Gauguin ou Roger Casement, protagonistas de O Paraíso na Outra Esquina e O Sonho do Celta, dois de seus últimos romances, não se rendem às exigências da realidade e se empenham em viver, sem se importar com as consequências, de acordo com seus sonhos e ideais. Nesses romances aflora esse traço humano, a possibilidade de viver uma vida iluminada pela ficção ou por princípios morais inquebrantáveis. Com eles, Vargas Llosa explorou as venturas e desventuras que vivem, e os benefícios e tragédias que produzem essas personagens que vão além da realidade tentando transformar o mundo para que se pareça mais com os sonhos e fantasias tecidos pela imaginação. Isto é, o que ocorre quando alguém, cuja finalidade não é escrever romances, se nega a se render à realidade e cai sob o influxo sedutor do impossível. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE LA IMAGINACIÓN – ANTROPOLOGIA DE LOS PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO (CONSEJO SUPERIOR DEINVESTIGACIONES CIENTÍFICAS DE MADRID)

domingo, 22 de janeiro de 2012

O premiado Yu Hua fala de Crônica de Um Vendedor de Sangue e da realidade do país

Sob o signo da política

Filho de médicos, o escritor Yu Hua passou a infância em um hospital e todos os dias via filas de camponeses que vendiam sangue para complementar sua escassa renda e sustentar suas famílias nos turbulentos anos do regime maoista.

Dessa visão saiu o personagem principal de Crônica de Um Vendedor de Sangue, Xu Sanguan, que descobre nas visitas regulares a bancos de sangue o caminho para sobreviver e alimentar seus três filhos.

O pano de fundo da saga do camponês são os anos do Grande Salto Adiante (1958-1962) – quando 30 milhões de pessoas morreram de fome – e a Revolução Cultural (1966-1976), que fechou escolas, queimou livros e deixou o tecido social chinês à beira da ruptura.

“A venda de sangue era extremamente comum naquela época e ainda é hoje, apesar de ser ilegal”, disse Yu Hua em entrevista ao Estado. Entre os mais festejados escritores chineses contemporâneos, ele nasceu em 1960 e cresceu durante a Revolução Cultural, quando o mais inocente gesto ou frase poderia ser tachado de “burguês” ou “contrarrevolucionário” e dar margem a uma perseguição implacável pelos temidos guardas vermelhos de Mao Tsé-tung (1893-1976).

“Foi um período deprimente e muito repressivo. É por isso que na minha obra não há enredos muito felizes”, disse o escritor, que fuma cigarros Panda e se veste com simples sobriedade.

Mas Yu Hua é hábil no uso do humor, que ganha um tom ligeiramente negro em meio à precariedade em que vivem seus personagens. Em Crônica de Um Vendedor de Sangue, a saga de Xu Sanguan é temperada por traições, intrigas e a diversidade dos habitantes de uma típica vila rural chinesa em um período de alta voltagem política.

Editada pela Companhia das Letras, a obra é a terceira de Yu Hua a ser lançada no Brasil, depois de Viver e Irmãos, seu mais ambicioso trabalho, que apresenta de maneira épica a trajetória de dois irmãos dos anos 60 até o período de abertura econômica nos quais o enriquecer passou a ser glorioso.

A improvável sucessão de eventos que marcaram a história chinesa das décadas de 1950 a 1980 são o pano de fundo da maior parte da obra do escritor, que trabalha em um novo livro ambientado no mesmo período, que viu o igualitarismo maoista ser substituído pela busca desenfreada da prosperidade material.

Na sua mais recente obra, China in Ten Words (sem tradução para o português), Yu Hua provoca risos no leitor ao lembrar da impossibilidade de acesso a livros durante a Revolução Cultural. Os únicos disponíveis eram as Obras Selecionadas de Mao Tsé-tung e o Livro Vermelho, que trazia citações do líder comunista.

Quando a loucura daqueles dez anos chegou ao fim, Yu Hua mergulhou na leitura de obras estrangeiras, que exerceram influência determinante sobre seu trabalho. Sua primeira fonte de inspiração foi o japonês Yasunari Kawabata (1899-1972), vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1968, a quem ele tentou imitar na habilidade de descrever detalhes e ainda deixar espaço para a imaginação do leitor.

A fase durou até 1986, quando Yu Hua conheceu a obra de Franz Kafka (1883-1924), que segundo ele “libertou” sua maneira de criar. “Aprendi com Kafka que o ato de escrever não deve ter limites e que eu deveria escrever qualquer coisa que quisesse.”

Fiel a esse princípio, Yu Hua disse não se influenciar pela existência da censura chinesa, que impediu a publicação de China in Ten Words, um trabalho de não ficção que tenta fazer um retrato de temas fundamentais do país. “Nunca mudei nada por causa da censura. Se um livro é proibido, eu sempre posso lançá-lo em Taiwan”, observou.

O principal motivo do veto à obra é a maneira explícita com que o autor relata os protestos pró-democracia realizados em 1989 na praça Tiananmen, que terminaram em uma sangrenta repressão no dia 4 de junho daquele ano.

“Essa é a diferença entre ficção e não ficção. Na China não se pode falar do dia 4 de junho, mas em uma obra como Irmãos eu posso me referir ao mesmo evento como o dia 35 de maio”, exemplifica, mencionando a data fictícia que muitos chineses usam para se referir ao massacre de Tiananmen.

Com 14 milhões de seguidores em uma das versões chinesas do Twitter, Yu Hua é um ativo crítico do governo chinês na internet, onde vários de seus posts acabam deletados pela censura. “O futuro político da China é muito claro e só há uma opção: ou o país caminha na direção da democracia ou haverá outra revolução.”

Em sua opinião, a disseminação de informação na rede e o crescente número de chineses que desafiam os limites impostos pelo governo tornam insustentável a manutenção de um regime autoritário. “Mais e mais pessoas estão dispostas a manifestar suas opiniões e não é possível controlar todas elas.”

A censura também afetou de maneira oblíqua Viver, a obra que projetou Yu Hua internacionalmente e que o autor considera como o trabalho que lhe trouxe sorte. “Quase 20 anos depois de sua publicação, o livro ainda vende 100 mil cópias ao ano na China, o que é extraordinário”, ressaltou.

Parte do sucesso se deve à adaptação para o cinema realizada pelo mais célebre diretor chinês, Zhang Yimou. Mesmo com uma série de mudanças no roteiro, o filme até hoje é proibido na China, mas pode ser encontrado em qualquer das inúmeras lojas de DVDs piratas do país.


Cláudia Trevisan – O Estado de S.Paulo. 21 de janeiro de 2012

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Nunca te hagas policía

Y con los pies

por delante llevo,

al ritmo de la música

del himno español.



Y en el casco de entierro

no brilla el sol,

lo tapan guardias civiles, militares

y el ministro del Interior.



¡Ay qué asco!

Morir de un atentado acribillado en este país de asco.

Y por mal hijo,

si hubieras hecho caso a tu familia cuando te decía:

Nunca te hagas policía.



¿Cómo pudiste hacerle esto a la sangre de tu sangre?

Pobre mamá...

Y al borracho de tu tío y a tu padre el asesino,

y a la loca de tu abuelita cuando te decía:

Nunca te hagas policía.



Y conste que te avisamos

del riesgo que corría este trabajo,

jodiendo el mundo a porrazos.



Y por olvidar quién eres,

de quién eres, por llevar uniforme

mientras tu gente se pudre.



Y el invierno en una celda,

y el otoño en las mazmorras,

y el verano en las galeras,

pero libre por primavera…

(Albert Pla)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A carícia perdida

Alfonsina Storni

Tradução de Carlos Seabra



Sai-me dos dedos a carícia sem causa,

Sai-me dos dedos… No vento, ao passar,

A carícia que vaga sem destino nem fim,

A carícia perdida, quem a recolherá?

Posso amar esta noite com piedade infinita,

Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.

Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.

A carícia perdida, andará… andará…

Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,

Se estremece os ramos um doce suspirar,

Se te aperta os dedos uma mão pequena

Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.

Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,

Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,

Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,

No vento fundida, me reconhecerás?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Antínoo (trechos)

Era em Adriano fria a chuva fora



Jaz morto o jovem

No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,

Aos olhos de Adriano, cuja cor é medo,

A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa



Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite lá fora

A chuva cai como um exausto alarme

Da Natureza em acto de matá-lo.

Memória do que el´ foi não dava já deleite,

Deleite no que el´ foi era morto e indistinto.



Oh mãos que já apertaram as de Adriano quentes,

Cuja frieza agora as sente frias!

Oh cabelo antes preso p´lo penteado justo!

Oh olhos algo inquietantemente ousados!

Oh simples macho corpo feminino

qual o aparentar-se um Deus à humanidade!

Oh lábios cujo abrir vermelho titilava

os sítios da luxúria com tanta arte viva!

Oh dedos que hábeis eram no de não ser dito!

Oh língua que na língua o sangue audaz tornava!

Oh regência total do entronizado cio

Na suspensão dispersa da consciência em fúria!

Estas coisas que não mais serão.

A chuva é silenciosa, e o Imperador descai ao pé do leito.

A sua dor é fúria,

Porque levam os deuses a vida que dão

e a beleza destroem que fizeram viva.

Chora e sabe que as épocas futuras o fitam do âmago do vir a ser;

O seu amor está num palco universal;

Mil olhos não nascidos choram-lhe a miséria.



Antínoo é morto, é morto para sempre,

É morto para sempre, e os amor´s todos gemem.

A própria Vénus, que de Adónis foi amante,

Ao vê-lo então revivo, ora morto de novo,

Empresta renovada a sua antiga mágoa

Para que seja unida à dor de Adriano.



Agora Apolo é triste porque o roubador

Do corpo branco seu ´stá para sempre frio.

Não beijos cuidadosos na mamílea ponta

Sobre o pulsar silente lhe restauram

Sua vida que abra os olhos e a presença sinta

Dela por veias ter o reduto do amor.

Nenhum de seu calor, calor alheio exige.

Agora as suas mãos não mais sob a cabeça

Atadas, dando tudo menos mãos,

Ao projectado corpo mãos imploram.



A chuva cai, e el´ jaz

como alguém que de seu amor ´squeceu todos os gestos

E jaz desperto à espera que regressem quentes.

Suas artes e brincos ora são c´o a Morte.

Humano gelo é este sem calor que o mova;

Estas cinzas de um lume não chama há que acenda.



Que ora será, Adriano, a tua vida fria ?

Quão vale ser senhor dos homens e das coisas ?

Sobre o teu império a ausência dele desce como a noite.

Nem há manhã na esp´rança de um deleite novo;

Ora de amor e beijos viúvas são as tuas noites;

Ora os dias privados de a noite esperar;

Ora os teus lábios não têm fito em gozos,

Dados ao nome só que a Morte casa

À solidão e à mágoa e ao temor



Tuas mãos tacteiam vagas alegria em fuga

Ouvir que a chuva cessa ergue-te a cabeça,

E o teu relance pousa no amorável jovem.

Desnudo el´ jaz no memorado leito;

Por sua própria mão el´ descoberto jaz.

Aí saciar cumpria-lhe teu senso frouxo,

Insaciá-lo, mais saciando-o, irritá-lo

Com nova insaciedade até sangrar teu senso.



Suas boca e mãos os jogos de repôr sabiam

Desejos que seguir te doía a exausta espinha.

Às vezes parecia-te vazio tudo

A cada novo arranco de chupado cio.

Então novos caprichos convocava ainda

À de teus nervos, carne, e tombavas, tremias

Nos teus coxins, o imo sentido aquietado.



…



E de pensar, essa luxúria que é

memória de luxúria revive e toma-Lhe os sentidos p´la mão,

desperta a carne ao toque,

E tudo é outra vez o que era dantes.

No leito o corpo morto se soergue e vive

E vem com el´ deitar-se, junto, muito junto,

E uma invisível mão e rastejante e sábia

A cada uma do corpo entrada da luxúria

Vai murmurar carícias que se esvaem, mas

Se demoram que sangre a derradeira fibra.

Oh doces, cruéis da Párthia fugitivas!



Assim um pouco se ergue, olhando o amante

Que ora não pode amar senão o que se ignora.

Vagamente, mal vendo o que comtempla tanto,

Perpassa os frios lábios pelo corpo todo.

E tão de gelo insensos são os seus lábios que, ai!

Mal à morte lhe sabe o frio do cadáver,

E é qual mortos ou vivos que ambos foram

E amar inda é presença e é motor.

Na dos do outro incúria fria os lábios param

O hálito ausente aí recorda-lhe a seus lábios

Que de pra lá dos deuses uma névoa veio

Entre ele e o jovem. Mas as pontas de seus dedos,

Ainda ociosas perscrutando o corpo, aguardam

Uma reacção da carne ao despertante jeito.

Mas não é compreendida essa de amor pergunta:

É morto o deus que era seu culto o ser beijado!



Levanta a mão pra onde o céu estaria

E pede aos deuses mudos que sua dor lhe saibam.

Que a súplica lhe atendam vossas faces calmas,

Oh poder´s outorgantes! Dá em troca o reino

Nos desertos quietos viverá sequioso,

Nos longes trilhos bárbaros mendigo ou escravo,

Mas a seus braços quente o jovem devolvei!

Renunciai ao espaço que entendeis seu túmulo!



Tomai da terra a graça feminina toda

E num lixo de morte o que restar vertei!

Mas, pelo doce Ganímedes, distinguido

Por Jove acima de Hebe para encher-lhe

A taça nos festins e pra instilar

O amor de amigos que enche o vácuo do outro,

O nó de amplexos femininos resolvei

Em poeira, oh pai dos deuses, mas poupai o jovem

E o alvo corpo e o seu cabelo de oiro!

Ganímedes melhor talvez tu pressentiste

Seria acaso, e por inveja essa beleza

Dos braços de Adriano para os teus roubaste.



Era um gato brincando co´a luxúria,

A de Adriano e a sua própria, às vezes um

E às vezes dois, ora se unindo, ora afastado;

A luxúria largando, ora o àpice adiando;

Ora fitando-a não de frente mas de viés

Ladeando o sexo que semi não espera;

Ora suave empolgado, ora agarrando em fúria,

Ora brinca brincando, agora a sério, ora

Ao lado da luxúria olhando-a, agora espiando

O modo de tomá-la no aparar da sua.



Assim as horas se iam das mãos dadas de ambos,

E das confusas pernas momentos resvalam.

Seus braços folhar mortas, ou cintas de ferro;

Agora os lábios taças, agora o que liba;

Olhos fechados por de mais, de mais fitantes;

Ora o vai-vém frenético operando;

Ora suas artes pluma, ora um chicote.



Viveram esse amor como religião

Oferta a deuses que, em pessoa, aos homens descem.

Às vezes adornado, ou feito enfiar

Meias vestes, então numa nudez de estátua

Imitava algum deus que de homem ser parece

Pela do mármore virtude exacta.

Agora Vénus era, alva dos mar´s saindo:

E agora Apolo ele era, jovem e dourado;

E agora Júpiter julgando em troça

A presença a seus pés do escravizado amante;

Agora agido de rito, por alguém seguido,

Em mistérios que são sempre repostos.



Agora é algo que qualquer ser pode.

Oh, crua negação da coisa que é!

Oh de aurea coma sedução fria de lua!

Fria de mais! De mais! E amor como ela frio!

O amor pelas memórias do amor seu vagueia

Como num labirinto, alegre, louco, triste,

E ora clama o seu nome e lhe pede que venha,

E ora sorrindo está à sua imagem-vinda

Que está no coração quais rostos na penumbra,

Meras luzentes sombras das formas que tinham…



…



Erguer-te-ei uma estátua que será

Prova, para o contínuo das futuras eras,

Do meu amor, tua beleza e do sentido

Que à divindade p´la beleza é dado.

Que a Morte com subtis mãos desnudantes tire

A nosso amor as vestes do império e da vida,

Ainda a dele estátua que só tu inspiras,

As futuras iades, quer queiram, quer não,

Hão-de, qual dote por um deus imposto,

Inevitavelmente herdar.



…



Como o amante que agurada, assim ele ia de

Canto a canto do em dúvida confuso de espírito.

Ora sua esperança um grande intento era

De que o anseio fosse, ora ele cego se

Sentia algures no visto indefinido anseio.

Se o amor conhece a morte, que sentir se ignora.

Se a morte frustra amor, que saber não sabemos.

A dúvida esperava, ou duvidava a esp´rança;

Ora o de sonhar senso ao que sonhava anseio

Escarnecia e congelava em vácuo

De novo os deuses sopram a mortiça brasa.



A tua morte deu-me alta luxúria mais

Um carnal cio em raiva por eternidade.

No meu imperial fado a confiança ponho

Que os altos deuses, por quem César fui,

Não riscarão de vida mais real

Meu voto de que vivas para sempre e sejas

Na deles melhor terra uma carnal presença,

Amável mais, mais amorável não, pois lá

Não coisas impossíveis nossos votos jaçam

Nem corações nos ferem com a mudança e tempo.



Amor, amor, Oh, meu amor! Já és um Deus.

Minha esta ideia, que por voto eu tomo,

Voto não é, mas vista que me é permitida

Pelos grãos deuses, que amor amam e dar podem

A corações mortais, sob a forma de anseios,

De anseios que alvos têm indescobertos,

Uma visão reais coisas para além

De nossa vida em vida aprisionada, nosso sentido no sentido preso

Ai, o que anseio que tu sejas, és tu já.

Pois já o Olimpo o território tu pisaste e és perfeito, sendo tu embora

Pois excesso de ti não precisas vestir

Perfeito para ser, a perfeição que és.



…



Amor, meu amor-deus! Que eu beije, em frios teus

Lábios, teus quentes lábios imortais agora,

Saudando-te beato nos portais da Morte.

Pois que pra deuses são portais da Vida.



…



E aqui, memória ou estátua, ficaremos

O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos

Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.

Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.

Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar

Das curvas eras. Só por ti apenas,

Que, um deles, no ido bando houveras ido,

Viriam, qual dormissem, para despertar



…



E se a nossa memória a pó se reduzisse,

Uma divina raça do fim das idades

Nossa unidade dual ressuscitava.



Ainda chovia. Em leves passos veio a noite

Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.

A mesma consciência de eu e de alma

Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.

O Imperador imóvel jaz, e tanto que

Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem

A dor que era inda sal nos lábios seus.

Algo distante fora tudo: um manuscrito

Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era

Que halo é em torno à lua quando a noite chora.



A cabeça pousava sobre os braços, estes

No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.

Os seus olhos fechados cria abertos, vendo

O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.

Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.

Do tombante negrume o vento ergueu-se

E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;

E o Imperador dormia…

Os deuses vieram….

E algo levaram, qual não senso sabe,

Em braços de poder e de repouso invisos.

Fernando Pessoa


(poesia originalmente escrita em inglês, tradução de Jorge de Sena)

sábado, 7 de janeiro de 2012

“Lascia ch’io pianga
mia cruda sorte
e che sospiri
la libertà…”

Lyrics

Nous sommes deux
Nous sommes deux
Huit heures vont bientot sonner.
Teins la lampe, le gardien frappe
Ce soir ils reviendront nous voir.
Lun va devant, lun va devant
Et les autres suivent derrire
Puis le silence et puis voici
La meme chanson qui revient
Il frappe deux
Il frappe trois
Il frappe mille vingt et trois
Tu as mal, toi
Et jai mal, moi
Qui de nous deux a le plus mal?
Cest lavenir qui le dira
Nous sommes deux
Nous sommes trois
Nous sommes mille vingt et trois
Avec le temps, avec la pluie
Avec le sang qui la seche
Et la douleur qui vit en nous
Qui nous transperse et qui nous clou.
Notre douleur nous guidera
---------------------------------------------------
Yussef Mustacchi, ( Georges Moustaki )

Assim se faz o homem


Assim se faz o homem:
dizendo sim e dizendo não,
batendo e apanhando,
unindo-se a uns aqui, a outros acolá.
Assim se faz o homem: transformando-se:
assim e forma em nós a sua imagem,
igual à nossa, no entanto diversa.

Bertolt Brecht

Dio come ti amo



Nel cielo pasano le nuvole che vanno
Verso il mare sembrano fazzoleti bianchi
Che salutano il nostro amore

Dio come ti amo non e possibile
Avere fra le braccia tanta felicita
Baciare le tue labra che odorano
Di vento noi dui innamorati come
Nessuno al mondo

Dio come ti amo mi vien di piangere
In tutta la mia vita non ho provato mai
Un bene cosi caro un bene cosi vero
Chi puo fermare il fiume che corre verso il mare

Le rondine nel cielo che vanno
Verso il sole chi piu cambiar l’amore
L’amore mio perte
Dio come ti amo.

Un bene cosi caro un bene cosi vero
Chi puo fermare il fiume che corre verso il mare

Le rondine nel cielo che vanno
Verso il sole chi piu cambiar l’amore
L’amore mio perte
Dio come ti amo.
Dio come ti amo.





Una furtiva lagrima

Una furtiva lagrima
negli occhi suoi spuntò…
quelle festose giovani
invidiar sembrò…
Che più cercando io vo?
M’ama, lo vedo.
Un solo istante i palpiti
del suo bel cor sentir!..
Co’ suoi sospir confondere
per poco i miei sospir!…
Cielo, si può morir;
di più non chiedo.

Eccola… Oh! qual le accresce
beltà l’amor nascente!
A far l’indifferente
si seguiti così finché non viene
ella a spiegarsi.









Tristeza da lua

Tristeza da lua
de Charles Baudelaire

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,

No côncavo das mãos torna essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no peito.







Tristesse de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu’une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d’une main distraite et légère caresse
Avant de s’endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l’azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d’opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.

Charles Baudelaire

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Amores perros

Con el fin del año ha llegado a Lima una extraordinaria novela. El hombre que amaba a los perros, del cubano Leonardo Padura (Tusquets, Buenos Aires, 2011) le da un giro contemporáneo a la conocidísima historia del asesinato de León Trotsky en México a manos de un agente infiltrado en su círculo íntimo por José Stalin, 1940.



Parte del giro está en que el narrador es un cubano que vive en La Habana, presenta al lado del relato histórico su propia vida diaria en la dictadura burocrática contemporánea de los hermanos Castro, y expresa una suerte de simpatía objetiva hacia el lado humano de Trotsky, la víctima de esta historia.



El otro giro es que se trata de una obra de tema político deliberadamente escrita en la forma de una novela de serie negra policial. Padura no omite los contenidos de la enemistad Stalin-Trotsky, pero el tema central es la cacería misma, evocada desde los años 80 como un secreto peligroso, acaso por estar el narrador en Cuba.



El último cubano célebre que narró el asesinato de Trotsky fue Guillermo Cabrera Infante. Su novela Tres tristes tigres (1964) presenta una parodia de cómo tratarían el tema diversos escritores cubanos. Entonces evocar los crímenes de Stalin era una provocación en la isla, aun si el XX Congreso desestalinizador del PCUS había sido ocho años antes.



Hoy las cosas son diferentes. El autoritarismo del régimen cubano nunca ha podido, y en verdad tampoco querido, ni remotamente competir con la vesania del alcohólico Stalin y sus ejecutores. Padura se las ingenia para reconocer esto y a la vez para tender un largo arco de relación entre el horror soviético y las playas tropicales.



Es inevitable que el lector llegue a la conclusión de que todo sistema staliniano, radical o moderado, necesita uno o varios Trotskys para mantener las cosas en su sitio. Los hermanos Castro se libraron de sus críticos y detractores muy temprano, con eficacia y sin la truculencia del colega georgiano. Pero la comparación llegará tarde o temprano.



El libro tiene el ritmo y la estructura de las policiales modernas, y esok inevitablemente influye en nuestra percepción del célebre asesinato. Lo que suele ser presentado como una pugna ideológica aquí aparece sobre todo como la conspiración de un asesino compulsivo, que empieza devorando fichas y termina comiéndose el tablero mismo.



Por eso si bien hay en el texto un Stalin infame, no hay en cambio un Trotsky heroico (el tiempo de la novela empieza después de su caída en desgracia). La naturaleza de la víctima rara vez es relevante en el discurso de la serie negra; es la mentalidad del protagonista lo que nos hace avanzar en la lectura

Por: Mirko Lauer – La República





quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

“Como o interior do trem não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. Ele não refletia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer.
Foi nesse momento que os raios de sol, já tênues, iluminaram o rosto dela. O reflexo do espelho não era suficiente para apagar a claridade de fora, nem esta, forte o bastante para ofuscar a imagem refletida no espelho. A claridade passava como um relâmpago pelo seu rosto, mas não era suficiente para iluminá-lo. A luz era fria e distante. No momento em que o contorno de sua pequena pupila foi se iluminando, como se os olhos da moça e a luz se sobrepusessem, seus olhos se tornaram um vaga-lume misterioso e belo que pairava entre as ondas da penumbra do cair da tarde.” (p. 15)
O PAÍS DAS NEVES
Yasunari Kawabata

Tradução de Neide Hissae Nagae
“Da janela do trem, avistava uma larga avenida com altas árvores que despontava logo após a estação Yurakucho e se estendia até a estação de Tóquio, cruzando de leste a oeste a linha do trem. Naquele momento, o asfalto refletia o pôr-do-sol tal qual um cinturão de metal radiante. Contudo, as árvores estavam à contraluz e apenas insinuavam-se suas silhuetas. As sombras pareciam frescas. Os galhos se expandiam para todos os lados, cobertos de folhas. Em ambas as calçadas, havia sólidas mansões de estilo ocidental. Estranhamente, poucas pessoas passavam por ali. Não havia viva alma até bem próximo do fosso do Palácio Imperial. Nem carros havia no asfalto que refletia a luminosidade. Observando de dentro daquele trem lotado, o lugar parecia estar suspenso no entardecer de algum mundo além da imaginação. Havia uma atmosfera estrangeira em tudo.” (p. 63)

MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“O verniz arranhado daquele vaso antigo deixava semi-aparente a assinatura da peça, ‘Soutan’, que também estava presente na caixa onde ele era guardado. Caso fosse autêntica, a cabaça teria cerca de trezentos anos. Kikuji não conhecia as flores usadas na cerimônia do chá, tampouco sua criada o sabia. Apesar disso, aquela bela-da-manhã parecia ideal a uma cerimônia das primeiras horas do dia. Ficou a observar o arranjo por algum tempo. Que fascinante era ver aquele ramo de vida tão efêmera dentro de uma cabaça tão antiga! Aquela singela flor combinaria melhor com o mizusashi de Shino que o ramalhete de estilo ocidental que comprara? Quanto tempo poderia durar num vaso uma bela-da-manhã? Kikuji sentiu certa inquietude ao pensar na sua fugacidade.” (p. 112)

MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“A peça era exatamente como Fumiko havia descrito ao telefone naquela manhã. Seu esmalte branco apresentava um leve toque avermelhado. Observando-o por algum tempo, parecia que aquela tonalidade rubra emergia de dentro do branco. Toda a borda era ligeiramente amarronzada, havendo apenas uma faixa mais escura. Seria ali onde a boca tocava? A bebida bem podia ter-lhe tingido a borda, ou então, seriam os lábios de alguém que a maculara. Aquela suave mancha marrom, à medida que era olhada, começava a parecer rosa. Seria mesmo a marca de batom da viúva impregnada na cerâmica, como Fumiko lhe contara? Kikuji também reparou numa coloração marrom-avermelhada nas trincas naturais da cerâmica. Era um tom parecido com o de um batom desbotado, uma rosa vermelha murcha... Mas quando o associou a uma mancha seca de sangue, sentiu-se enjoado. Tinha a sensação de um embrulho no estômago mesclado a uma certa sedução que o fascinava.” (p. 128-9)

 MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“Ele só havia visto Yukiko duas vezes. A primeira, na cerimônia do chá no templo Engakuji, quando Chikako levara a jovem a fazer uma demonstração, com a função de exibi-la a ele. Durante o preparo do chá, seus gestos eram simples e elegantes. Kikuji ainda trazia fresca na memória a imagem dos ombros e das mangas do quimono de Yukiko, bem como de seus cabelos, iluminados sob a divisória de papel-arroz por onde se projetavam suavemente as sombras das árvores próximas. Só não conseguia recordar-se muito bem de suas feições. Já o fukusa vermelho e o lenço de tsurus brancos que a jovem levava quando se dirigia à sala de chá eram-lhe vivas lembranças.” (p. 144)

MIL TSURUS
Yasunari Kawabata

Tradução de Drik Sada
“Os cedros da aldeia de Kitayama eram todos administrados por pequenos empresários. Contudo, nem toda família era dona de terra. Pelo contrário, poucos o eram. Chieko cogitava se seus pais também teriam sido empregados de alguma família proprietária. A própria Naeko dissera: ‘Estou trabalhando para...’ Tudo havia acontecido vinte anos antes. Chieko teria sido abandonada porque, na época, ter filhos gêmeos era considerado uma vergonha, além do que se acreditava na dificuldade de criá-los com saúde. Era possível que tivessem se preocupado também com os escassos rendimentos da família. Chieko esquecera de perguntar três coisas a Naeko. Por que abandonaram a ela e não a irmã? Quando ocorrera o acidente do pai, sua queda do alto do cedro? Naeko dissera ser ‘recém-nascida’ na época, no entanto... Havia dito também ter nascido na casa do avô materno, um lugar bem mais remoto do que a aldeia dos cedros. Nesse caso, qual seria o nome do lugar?” (140-1)

KYOTO
Yasunari Kawabata

Tradução de Meiko Shimon
“Suas lindas e intensas pupilas negras encerradas em seus grandes olhos eram de rara beleza. Suas sobrancelhas também eram belas. Lembrava uma flor sorrindo. Exatamente: uma flor sorrindo era a melhor definição.” (p. 37)

A DANÇARINA DE IZU
Yasunari Kawabata
“Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo do seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida. Talvez houvesse neles também certo arrependimento pelos pecados cometidos, ou pela infelicidade no lar, coisa muito comum nas famílias dos vencedores. Decerto os velhotes não possuíam seu Buda, diante do qual pudessem ajoelhar-se e orar. Por mais que abraçassem fortemente a bela desnuda, derramassem lágrimas frias, se desmanchassem em choro convulsivo ou berrassem, a garota nada ficaria sabendo e jamais acordaria.” (p. 80)
A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS
Yasunari Kawabata

Tradução de Meiko Shimon
Poder-se-ia dizer que o mestre sofreu na última partida de go de sua vida com o racionalismo da modernidade, que tornou tudo rigorosamente amarrado em meticulosas regras; com isso, a graça e a elegância dessa arte tornaram-se artigos obsoletos, o respeito e a consideração aos superiores foram esquecidos, e nem ao menos há o mútuo apreço como seres humanos. (p. 67)
              
O MESTRE DE GO
Yasunari Kawabata

Tradução do japonês: Meiko Shimon
Diante do tabuleiro, a tensão entre o mestre e Otake se manifestava de modos opostos: calma contra agitação, indiferença contra nervosismo. Imerso no mundo do go, o mestre não mais deixava o tabuleiro. Para um profissional, basta ver a postura ou a expressão de seu adversário para saber se a situação da partida será favorável ou não; mas dizem que isso não se aplica no caso do mestre Shusai. (p. 56)

O MESTRE DE GO
Yasunari Kawabata

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

• Toda minha vida, tive o sentimento de estar distante de meu verdadeiro lugar. Se a expressão “exílio metafísico” não tivesse nenhum significado, minha existência sozinha forneceria um a ela.

(Emil Cioran)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Silêncio, fale comigo

Silêncio fale comigo
E ecoe o timbre da voz
Que já sussurrou promessas
Que se calou tão depressa
E assim se fez tão algoz

Silêncio fale comigo
Venham matear ao meu lado
Desperte esta placidez
Não fique assim tão calado
Fale comigo outra vez.

Cesar Tomazzini Liscano
Caminante, son tus huellas


el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estelas en la mar.



Português



Caminhante, são teus rastos

o caminho, e nada mais;

caminhante, não há caminho,

faz-se caminho ao andar.

Ao andar faz-se o caminho,

e ao olhar-se para trás

vê-se a senda que jamais

se há-de voltar a pisar.

Caminhante, não há caminho,

somente sulcos no mar.


Antonio Machado

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dime


Dime por favor donde estás,
en que rincón puedo no verte,
dónde puedo dormir sin recordarte
y dónde recordar sin que me duela.

Dime por favor dónde pueda caminar
sin ver tus huellas,
dónde puedo correr sin recordarte
y dónde descansar con mi tristeza.

Dime por favor cuál es el cielo
que no tiene el calor de tu mirada
y cuál es el sol que tiene luz tan sólo
y no la sensación de que me llamas.

Dime por favor cuál es el rincón
en el que no dejaste tu presencia.
Dime por favor cual es el hueco de mi almohada
que no tiene escondidos tus recuerdos.

Dime por favor cuál es la noche
en que no vendrás para velar mis sueños...
Que no puedo vivir porque te extraño
y no puedo morir porque te quiero.

Jorge Luis Borges

A Traição




quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse.

Alexandre O’Neill