sexta-feira, 30 de agosto de 2019
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
"...sabia que tinha alguma coisa fora do lugar em mim.
Eu era uma soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus,
idéias, ideais, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma
espécie de não-ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa
interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu
queria mesmo um espaço sossegado e obscuro pra viver a minha solidão. Por outro
lado, de porre, eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada.
Um tipo de comportamento não se casava com o outro. Pouco me importava."
Charles Bukowski
Pareço, logo existo
Foi-se o tempo em que a disputa se resumia ao clássico Ser x
Ter. Dizem que ninguém mais dá a mínima para o que é, só para o que tem.
Exagero. As pessoas ainda se preocupam com o que são. O problema é que não
gostam do que são. Gostariam de ser outra coisa. E aí entra o verbo que está no
topo das paradas hoje em dia: parecer.
Tem gente que quer parecer rica, e adota um padrão de vida
que não condiz com a sua realidade. Pra manter a fachada de bem-nascida, acaba
colecionando dívidas e queimando seu nome na praça. Nos eventos sociais, pode
até ser a mais fotografada, mas para os comerciantes é bola preta na certa. A
rica mais sem crédito das colunas.
Tem aqueles que querem parecer mais bem relacionados do que
são, e se enturmam, forçam intimidade e grudam feito chiclete em pessoas que
mal conhecem, só para descolar um convite para uma festa, um show, uma estreia,
qualquer lugar que projete.
Os que querem parecer mais cultos do que são, você sabe, são
aqueles que nunca foram além do prólogo do livro e é o que basta para olharem a
ralé de cima para baixo, como se fossem portadores da sabedoria universal.
Há os que querem parecer mais jovens do que são: bom, quem
não gostaria? É uma dádiva parecer ter cinco anos menos, sem esforço. A
genética é mais generosa com uns do que com outros. Há muito tempo que eu não
tento mais adivinhar a idade de ninguém: sempre erro, já que todo mundo parece
ter bem menos. Mas se você tem 56 e parece ter 56, não é caso para enfiar a
cabeça dentro do forno.
Os casos mais patéticos, no entanto, são os daquelas pessoas
que querem parecer mais felizes do que são. O recurso adotado: mentem.
O casamento delas está uma lua de mel, os filhos só dão
alegrias, são muito requisitadas no trabalho, os amigos não param de telefonar,
a vida tem sido um passeio num campo florido, e fica sem explicação aquele
olhar melancólico, o sorriso forçado, a exaustão de ter que passar o falso
entusiasmo adiante, como se não tivéssemos condições de perceber seu verdadeiro
estado de ânimo, que é coisa que se transmite sem palavras. Ver alguém se
esforçando para parecer feliz é das situações mais constrangedoras que se pode
testemunhar.
Está triste? Esteja! Não é rico, nem jovem, nem belo? Nem
por isso ficará sozinho. Pessoas não se apaixonam por estereótipos, mas pela
singularidade de cada um, pela capacidade de ser surpreendido, pela sedução que
o inusitado provoca. Uma pessoa que se preocupa em “parecer” já está derrotada
no primeiro minuto de jogo.
Dá valor demais à opinião dos outros, não age conforme a
própria vontade, não se assume do jeito que é, inventa personagens para si
mesmo e acaba se perdendo justamente deste “si mesmo”, que fica órfão. Quer
parecer mais inteligente? Comece admitindo que não sabe nada sobre nada e toque
aqui: ninguém sabe.
MARTHA MEDEIROS - 21 Sep 2011
A mãe do filósofo
Arthur Schopenhauer tinha problemas com a mãe, e isso lhe
marcou a vida para sempre. Já li alguma coisa dele e a respeito dele, mas
talvez o que tenha gostado mais seja um volume que o meu amigo Guilherme, da
Beco dos Livros, enviou-me dias atrás. Trata-se de uma alentada biografia
escrita pelo alemão Rüdiger Safranski, um professor de Berlim. Nesse livro está
reproduzido um extenso trecho de uma carta de Johanna, a mãe de Schopenhauer,
para o filho, quando ele ainda era jovem e ainda não havia rompido com ela.
A carta é famosa. Johanna faz uma crítica corrosiva ao filho
e, ao mesmo tempo, lhe dá conselhos que poderiam ajudá-lo bastante, se os
acatasse. A análise da mãe de Schopenhauer é tão arguta que serve para qualquer
pessoa, em qualquer época, inclusive eu e você. Vou reproduzir abaixo um pedaço
ácido de sabedoria e de franqueza:
“Tu não és um homem mau, não estás desprovido de inteligência,
nem de educação, em suma, dispões de tudo que poderia fazer de ti um modelo e
exemplo para a sociedade humana. Conheço muito bem os teus sentimentos e sei
que existem poucos melhores do que tu, mas és também aborrecido e insuportável
em outros sentidos e acho muito difícil conviver contigo.
Todas as tuas boas qualidades são empanadas porque te julgas
‘esperto demais’ e essa arrogância não te serve para nada nesse mundo,
simplesmente porque não podes controlar essa tua mania de querer saber mais do
que os outros, de encontrar defeitos em toda parte, menos em ti mesmo, de
querer controlar tudo e de te achar capaz de melhorar as pessoas com que te
relacionas.
Isso serve apenas para exasperar os que se acham ao redor de
ti, ninguém está interessado em ser assim ensinado e melhorado de uma forma tão
violenta, menos ainda por um indivíduo tão insignificante como ainda és;
ninguém pode suportar uma censura vinda de alguém que ainda demonstra tantas
fraquezas em seu caráter pessoal e muito menos pode gostar dessa tua maneira de
criticar os outros em um tom oracular, definindo tudo à tua maneira, sem
admitir a menor objeção.
Se fosses menos instruído e inteligente do que és, serias
simplesmente ridículo; mas, mesmo que reconheçam tuas qualidades, continuas
extremamente irritante. Os seres humanos, em geral, não se portam com maldade
quando não se sentem atacados”.
Entre tantas verdades ditas por Johanna em sua carta, há
duas que chamam mais a atenção:
1. Quando ela observa que o filho tem a tendência de ver e
apontar os defeitos das outras pessoas.
2. É a frase que encerra o parágrafo: “Os seres humanos, em
geral, não se portam com maldade quando não se sentem atacados”.
As sentenças se completam. Uma decorre de outra. As pessoas
se sentem atacadas quando surge alguém que tem o hábito de ver e apontar os
seus defeitos e, sentindo-se atacadas, se portam com maldade e, portando-se com
maldade, acabam demonstrando com ainda maior clareza os seus defeitos, que são
apontados por quem tem o hábito de assim o fazer, e a coisa nunca mais cessa,
para todo o sempre.
É muito difícil compreender esse ensinamento de madame
Schopenhauer, apesar da sua simplicidade. Você pode ver as pessoas pelo lado
bom ou pelo lado ruim. Isso depende de você, não das pessoas. Logo, o que é bom
e o que é ruim não está nelas, mas em você, que as vê.
Pegue como exemplo alguns dos profissionais mais bem
remunerados e com maior prestígio do Brasil: os técnicos de futebol. Como é
que, ganhando 500, 600, 700 mil reais por mês, alguns deles se portam de forma
tão ranzinza, agressiva e amarga? É porque eles não ouvem o elogio, ouvem a
crítica. Deixam-se abalar pelo que existe de negativo, jamais se elevam pelo
que há de positivo em sua atividade. São poucos os que aprendem. Celso Roth aprende.
Vejo Celso Roth evoluindo a cada jogo e a cada entrevista.
Prova de inteligência, que é mais importante do que conhecimento. Schopenhauer
precisou criar um sistema filosófico para superar o desamor da mãe e, por fim,
encontrar a paz. Celso Roth, como qualquer bom técnico de futebol, não
precisará de tanto para encontrar a vitória
DAVID COIMBRA - : 13 Sep 2011
Dez do onze
Dez anos depois do brutal ataque terrorista aos Estados
Unidos, a nossa consciência ainda se agita revendo as imagens da destruição das
torres. Como todo mundo, quando vi as cenas das torres, pensei num erro ou num
filme para, lamentavelmente, constatar como o "real" (aquilo que
ocorre fora do nosso controle e a despeito de nossa vontade) podia assumir
formas impensáveis, superando o meu mais radical surrealismo.
Imediatamente dei-me conta da espessura do mundo em que
vivemos. O planeta fica mais cada vez menor, mas torna-se mais complexo e mais
difícil de entender. Apesar de toda a nossa onipotência ideológica, científica
e tecnológica - desse fantástico conjunto de certezas que nos fez destruir
culturas, estigmatizar credos religiosos, chamar sem pensar duas vezes
sociedades e etnias de "selvagens" e "primitivas", roubar e
repartir continentes como foi o caso da America Pré-Colombiana, da África e do
Oriente Médio -, eis que, de modo insuspeito, somos feridos por dentro.
O atentado - como em Pearl Harbor - vinha do ar, mas com
aviões de passageiros e em pleno território americano. Havia um ataque sem
declaração de guerra. Os inimigos não queriam tomar coisa nenhuma. Lutavam
contra um modo de vida e por valores religiosos numa guerra que, sendo santa,
não era um mero prolongamento da política por outros meios como manda o nosso figurino.
E para demonstrar essa subversão da racionalidade da
"arte da guerra", essa criação do Ocidente europeu na sua imensa e
inigualável experiência com todos os tipos de conflito (só entre 1500 e 1914
ocorreram mais de 140 conflitos de todos os tipos na Europa supercivilizada e
inventora, entre outras maravilhas, da música sinfônica e do romance), o 11 de
Setembro passa por cima de todas convenções que tornam o matar e o destruir
atos obrigatórios de patriotismo, justificando a barbárie.
Aqui não tínhamos a recorrente idiotice de uma "guerra
que iria acabar com todas guerras", mas um ato não previsto. David contra
um Golias que caía estrondosamente. E para provar isso, seus autores não
estavam neste mundo, mas no outro. Morreram com a destruição que fabricaram,
colocando na vasta arena dos conflitos inventados pelo homem o elemento
religioso que é, sem nenhuma dúvida, o centro paradoxal das mais contundentes
arrogâncias humanas.
Essa foi a minha primeira leitura.
Testemunhávamos um conflito sem uma "terra de
ninguém" e sem soldados devidamente uniformizados, arregimentamos em
exércitos embandeirados e tocados a marchas militares. Seus mentores não eram
figuras públicas que dominavam "a teoria da guerra" (como Leônidas,
Alexandre, Napoleão, Nelson, Washington, Montgomery, Rommel, Koniev, Patton,
etc., etc., etc.), mas seres invisíveis operando em rede e atuando de dentro
para fora.
Eis o opróbrio deste nosso tempo de liberdade e de busca de
felicidade - de uma modernidade em que a parte domina e tem precedência sobre o
todo. Quanto mais individualismo, mais agressivas são as manifestações do todo
que cobra pelos limites ultrapassados pelo uso abusivo da liberdade individual
por grupo, indústria, país ou pessoa. Seja pelo desastre ecológico, seja como
prova o terrorismo, pela destruição do velho código segundo o qual nenhum homem
deve pagar pelos erros cometidos por outro homem.
Minha outra perturbação foi dada pelo sobressalto do ataque.
Lembrei-me das vezes em que fui agredido inesperadamente. Uma vez, por um tapa
na cara; noutro, por ter sido chamado na televisão de "proxeneta de
índio"; doutra feita, por terem duvidado do meu amor. A violência que,
como sabem os seus agentes, requer coragem, dinamita pontes e suprime mediações
- as explicações, as desculpas, as contradições e as perspectivas que nos
tornam humanos -, mobiliza o que há de pior no agredido que, imediatamente, se
sente no dever de revidar na mesma moeda. Quando, porém, ele sucumbe ao mesmo
tipo de reação e deseja beber sangue com sangue, ele vive a mesma loucura dos
seus atacantes. Assim agindo, como ocorreu nessa desafortunada América
contemporânea sob a égide da doutrina Bush, ele abandona os seus valores e
repete - eis a contradição - a lógica do terrorismo que combate. Pois, como
dizia Rousseau, só pode haver guerra entre países. Usar a força das armas
contra o pecado ou contra o terrorismo não é fazer guerra, é praticar um
exorcismo religioso dos mais arriscados. Antigamente isso era chamado de
Inquisição.
Finalmente - se é que existe nesse episódio um ponto final
-, jamais vi melhor comprovação do pessimismo de Schopenhauer quando ele dizia
que este nosso mundo é pior do que o inferno. No inferno, você sabe por que
sofre. Há um elo entre o que se fez o que se paga. Mas neste mundo, não há como
saber os motivos do sofrimento recebido. O coração não desaba porque, mesmo
sendo insignificante e muitas vezes covarde, contraditório, pecador e temeroso,
mesmo sendo feito de carne e sangue, ele continua batendo esperançoso.
Orgulhoso de si mesmo e de sua finitude.
- ROBERTO DAMATTA.: 14 Sep 2011
Quando o passado deixa de iluminar o futuro
Não foram poucas as vezes em que a obra de Marx e a herança
do seu pensamento foram declaradas como peremptas e anacrônicas, não sendo
capazes de explicar a natureza do nosso tempo. A queda do Muro de Berlim
significaria a demonstração fática de que o augúrio de tantos afinal encontrava
a sua confirmação: na melhor das possibilidades, Marx seria um pensador
prisioneiro das circunstâncias do século 19 e da filosofia da história de
Hegel, com a qual, apesar dos seus esforços, jamais teria conseguido romper.
Sobretudo estaria por terra o princípio que, na sua teoria
do materialismo histórico, assentava o primado da instância econômica na
determinação da vida social, cujo desenvolvimento o levou a seus estudos sobre
o capitalismo em sua obra maior, O Capital, quando identificou o processo de
subsunção da economia real ao sistema financeiro como o foco de crises
especulativas que o ameaçariam persistentemente de colapso.
Estamos bem longe da queda do Muro e, apesar do diagnóstico,
ora vencedor, que condenou Marx ao anacronismo, desde o setembro negro de 2008
o mundo parece estar fora dos seus eixos, vítima dos mecanismos da
intermediação financeira, pondo em xeque hegemonias, moedas, conquistas sociais
e políticas. Este pós-2008 é diverso dos acontecimentos dos idos de maio de
1968, pois, em vez de gravitar em torno de valores culturais, trata-se de uma
crise que, sem deixar de incluí-los, tem o seu epicentro na natureza do sistema
capitalista e nas dificuldades que enfrenta para a sua reprodução ampliada. O
seu tema dominante não é o dos libertários que, em 1968, bradavam que "é
proibido proibir", e o papel dos seus filósofos de ontem tem encontrado o
seu equivalente funcional nos economistas de hoje e nos comentaristas versados
na crítica da sociabilidade. A matéria é outra: é econômica, falta de emprego e
de oportunidades de vida.
Não há observador qualificado da cena contemporânea que se
recuse à hipótese de que estamos diante de uma mudança epocal. O capitalismo,
mais uma vez, poderá sair renovado da crise atual, mas o preço da sua
reprodução parece exigir algo bem além de uma retomada do experimento
keynesiano. Os custos de uma saída para os ciclos depressivos se tornam cada
vez mais pesados, e já importam a necessidade de uma inédita ordenação do
sistema financeiro em escala mundial, com a efetivação de mecanismos de
cooperação internacional que a todos obrigue. Estamos longe dos tempos de
Hegel, quando se podia conceber a transferência da tocha da civilização de um
Estado para outro, e, definitivamente, a China não parece ser o lugar mais
adequado para o seu novo endereço.
Aqui, do extremo Ocidente onde nos situamos, e do alto da
nossa História bem-sucedida, com seus valores de paz, de comunidade, que, bem
ou mal, tem resistido aos avanços da mercantilização da vida social, muito
particularmente pela convivência que se soube criar entre diferentes etnias e
religiões, todas protegidas constitucionalmente, e pelo fato capital dos nossos
êxitos no processo de modernização, estamos dotados de condições para o
exercício de voz nos desafios ora presentes no mundo.
Nossas credenciais têm, portanto, um duplo registro: o das
ideias e o dos interesses. E o que ainda nos falta é um projeto de nação que se
afirme de baixo para cima, rompendo com décadas de modernização pelas vias do
pragmatismo, de Vargas a Lula, passando por JK e pelo regime militar, sempre em
busca de ajustamento ao mundo. A linguagem da modernização foi e segue sendo a
da economia, tudo o mais devendo ceder lugar a ela e aos imperativos de luta
contra o tempo na superação do atraso de suas forças produtivas. O
desenvolvimento político e social seria sucedâneo do sucesso no front econômico,
com que se justificava uma política de tutela das associações dos trabalhadores
e o autoritarismo político que confiava às elites na chefia do Estado a missão
de nos conduzir, com o pé no acelerador, a novos patamares de acumulação.
A nova época que se abre diante de nós, se imediatamente
promete ser de escassez e de destruição criadora de ativos, como dizem os
economistas, também pode ser a da oportunidade para a política e para a
reconstituição do tecido social, esgarçado depois de décadas de exposição nua
aos automatismos do mercado. O tempo é de riscos e de novos rumos. Como disse
um grande autor, na História de um povo há momentos em que o passado deixa de
iluminar o futuro, como agora, em que a tradição do nosso processo de
modernização não nos serve para o enfrentamento da crise atual, que está a
exigir um novo repertório, uma vez que o antigo, que nos levaria a uma
tentativa de fuga solitária, nos pode excluir ou subalternizar a nossa presença
nos fóruns de cooperação internacional de onde deve sair uma nova engenharia
para a operação da economia-mundo.
Tal repertório é o do moderno, estimulada a autonomia dos
seres sociais e o adensamento da sua participação na esfera pública,
especialmente os de origem subalterna, com uma radical desprivatização do
Estado, lugar do interesse público e da universalização de direitos, e da
afirmação, inclusive no cenário internacional, da democracia como um valor
universal. Ainda imersos em trevas, como na metáfora de Tocqueville, o autor há
pouco citado, aqui e ali se distinguem riscas de luz, tênues, é verdade, como
na liberação de poderes públicos capturados, por meio de uma intermediação
política não republicana, por interesses privados, e no encontro, em São Paulo,
da presidente Dilma com líderes e importantes personalidades da oposição.
Aí podem estar sinais de que a estratégia da presidente
estaria considerando a possibilidade de fazer frente à crise com a política do
moderno.
- LUIZ VIANNA WERNECK.27 Aug 2011
Tocqueville revela como funciona uma revolução
CRÍTICA CIÊNCIA POLÍTICA
Revoltas populares no mundo árabe conferem nova atualidade a
clássico
OTAVIO FRIAS FILHO
DIRETOR DE REDAÇÃO
Clássicos são os livros que se renovam a cada época. A onda
de revoltas populares em curso no mundo árabe confere nova atualidade a esta
reedição das memórias de Tocqueville em torno da Revolução de 1848 na França.
Deputado e ministro durante aquele período tumultuoso,
Tocqueville redigiu as recordações quando o advento da ditadura de Napoleão 3º
(1851) lançou políticos moderados como ele no ostracismo. Não pretendia
publicá-las, o que terá contribuído para o tom confessional adotado no escrito.
Mas este não é apenas o relato minucioso de uma revolução
enquanto se desenrolava, nem seu autor foi somente um parlamentar
liberal-conservador.
Alexis de Tocqueville (1805-1859) é um dos principais
pensadores políticos da modernidade.
Sua crítica à democracia de massas, imbuída de admirável
argúcia histórica e sociológica (embora lhe faltasse a dimensão econômica),
ecoa até hoje. E seu texto é o de um escritor, sem abstrações nem jargão
acadêmico.
A ideia essencial de Tocqueville é que a modernidade
acarreta necessariamente a democratização do poder político e a redução das
desigualdades. Desse aspecto desejável decorrem, porém, dois riscos. O primeiro
é que a maioria venha a exercer uma forma inédita de ditadura
"democrática", capaz de suprimir a liberdade e o direito à
discordância.
O outro risco é que um líder populista (ele pensava em
Napoleão 3º, modelo de autocrata moderno também para Karl Marx) possa encarnar
a vontade da maioria, legitimando-se por mecanismo plebiscitário até converter
a ditadura "democrática" em despotismo pessoal.
Além da Grande Revolução de 1789, houve revoltas
democratizantes na França em 1830 e em 1848 (haveria outra em 1870).
Tocqueville insiste que todas essas insurreições são "apenas uma (...) que
nossos pais viram começar e, segundo toda probabilidade, nós não veremos
terminar."
A revolução é sempre a mesma porque seu sentido igualitário
não muda. Mas é também a mesma por gerar mitos e ilusões que se repetem a cada
onda.
Assim, toda revolução segue um movimento pendular, em que a
ruptura inicial se acelera numa direção cada vez mais extrema.
Alcançado, porém, um enigmático ponto de saturação, o
pêndulo se detém e começa um brutal movimento na direção inversa, rumo à
restauração. Essa é a farsa que se repete; seu saldo histórico não é nulo, pois
a restauração nunca é completa. No entanto, a comédia é também tragédia pela
sanguinolência inevitável dos acontecimentos.
Como conservador que era, Tocqueville preferia a lenta
evolução dos costumes, a sedimentação cumulativa das experiências, que as
revoluções expressam e impulsionam, mas também desbaratam.
Ao lado de "Democracia na América" e "O
Antigo Regime e a Revolução", seus dois livros famosos, as
"Lembranças de 1848" não deveriam faltar na estante do estudioso de
história ou ciência política. E são leitura prioritária para quem quer conhecer
o mecanismo das revoluções e a dança macabra que ele comanda.
LEMBRANÇAS DE 1848
AUTOR Alexis de Tocqueville
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Modesto Florenzano
QUANTO R$ 28,50 (392 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
Jânio
Confissão. Meu
primeiro voto foi para o Jânio Quadros. Não espalhe. Parafraseando o samba
antigo: se eu soubesse, naquele tempo, o que sei agora, eu não seria este ser
que tenta se explicar e explicar as anomalias da política brasileira. Que me
lembre, estava-se votando contra a corrupção do governo Kubitschek, que Jânio
varreria. Mas Jânio não era só o anti-JK. Seu sucesso se devia em grande parte
à sua personalidade diferente, justamente ao fato de ser uma anomalia. Como
aconteceria anos depois com o Collor, um Jânio Quadros sem a caspa, a suspeita
de que fosse meio louco era uma credencial. O Brasil precisava de um presidente não-convencional
para fazer o que os convencionais não faziam. Mas Jânio foi anômalo demais.
Não sei se votei na figura excêntrica ou na sua promessa de
limpar a sujeira de Brasília. A sujeira, vista desta distância no tempo, não
parece tanta assim, a ponto de justificar o Jânio. Não demorou para a História
– ou a falta de memória – absolver JK, que hoje é homenageado como um
presidente exemplar, e foi até citado como tal no discurso de posse do Fernando
Henrique. Mas na época foi a corrupção do seu governo que levou muitos
eleitores – inclusive estreantes como eu – a votar na vassoura. Mais intrigante
do que o breve governo do Jânio e o entusiasmo da maioria do eleitorado de
então pelas suas esquisitices, que já prefiguravam o que viria depois, foi essa
absolvição do Juscelino pelo tempo, essa sua lenta transformação de corrupto em
exemplo. Talvez enaltecer JK seja uma espécie de penitência por termos
acreditado no Jânio, sua alternativa maluca. Eu não posso rasurar meu currículo
de eleitor mas a nação pode corrigir suas opções do passado, esquecendo-as.
Também não perdoamos o Collor?
Ou talvez se tenha chegado à conclusão que para Juscelino
fazer o que fez, industrializando o país, construindo Brasília, etc., a
promiscuidade do governo com empreiteiras e empreendedores era quase
obrigatória e, em retrospecto, louvável. O governo só precisava se preocupar
com eventuais críticas da UDN e de parte da imprensa, a Polícia Federal da
época não se metias nessas coisas. Portanto do governo JK se podia dizer que
não era corrupto, era despreocupado. Fomos injustos com ele. Pela minha parte,
um pouco atrasado, peço desculpas.
- LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO.: 28 Aug 2011
"Jakob Von Gunten" ilumina um mundo de insignificâncias -
CRÍTICA
ROMANCE
MARCELO BACKES
O suíço Robert Walser (1878-1956) é louvado por Canetti
(1905-1994), Sebald (1944-2001) e Coetzee e frequentemente comparado a Franz
Kafka (1883-1924).
"Jakob von Gunten" (1909), sua obra-prima, é um
romance de formação sem formação. Ele conta o desenvolvimento -inexistente- de
um interno do Instituto Benjamenta, que deveria intermediar seu caminho do
núcleo mais estrito da família ao mais amplo da sociedade.
"Jakob von Gunten" antecipa a modernidade de
"Berlin Alexanderplatz" ao retratar a cidade e mostra um personagem
conformado.
Ele não se apavora como o Laurids Brigge de Rilke e consegue
fingir que ama o mundo, o que o torna ainda mais doloroso que os personagens de
Kafka.
Nas notas de seu diário sem data, Jakob mostra por que gosta
de ser oprimido e só consegue respirar nas "regiões inferiores".
Seu objetivo é "ser e permanecer pequeno". Ele diz
sim a tudo com a maior facilidade e não passa de um"zero à esquerda".
O Instituto Benjamenta é a "montanha mágica" do
servilismo, e seu diretor, o sr. Benjamenta, um Voltaire que ensina a cultivar
o jardim -dos outros.
Se Kraus, colega de Jakob, é o aluno exemplar, o criado como
deve ser, Jakob, descendente de nobres, é um vagabundo, que vai a restaurantes
comer garçonetes e vê a srta. Benjamenta, irmã do diretor, morrer quase em seus
braços porque nenhum homem a amou.
Ela era a possibilidade de redenção e até corteja Jakob, mas
ele não consegue consolá-la quando ela está triste e se limita a lamentar a
falta de dinheiro.
SENTIDO DA EXISTÊNCIA
Ao final, Jakob acaba sucumbindo ao ataque do diretor e sai
com ele para a selva desértica do mundo, depois de o instituto acabar por falta
de alunos.
A grande pergunta de Jakob tenta dar conta do sentido da
existência. Seu diário é cheio de invocações oníricas e fantasiosas e belas
frases de recorte aforístico: Jakob diz que "só as mulheres sabem se
zangar "e que os palitos de fósforo se riem à socapa.
Walser foi funcionário como Kafka, teve irmão suicida, mãe
depressiva, viveu boa parte da vida em sanatórios e morreu em meio à neve, num
passeio, exatamente como décadas antes um de seus personagens.
Seus microgramas, decifrados após sua morte, são a prova
prática de uma tentativa radical-mais do que a de Kafka- de se apartar da
opinião pública.
Walser parece querer deixar claro que o artista ideal é
aquele que jamais deixa de fazer arte, mas não para atender ao desejo narcísico
ou altruísta de legar uma obra.
Escrever de fato para si mesmo, sem dar atenção aos outros:
esse é o mandado de sua arte purista.
E, assim como o palhaço da ópera, ele esconde sua tristeza
por trás de um sorriso quase convulsivo, que aparece também em "Jakob von
Gunten".
Suas lágrimas íntimas banham um mundo de ninharias; o temor
de ver a máscara do riso caindo impede-o de se aproximar diretamente do que é
grande, e Walser ilumina a existência humana pelas beiradas, desvelando o
imenso valor das coisas "insignificantes".
MARCELO BACKES é escritor e tradutor, autor de
"Estilhaços" e "Três Traidores e uns Outros", entre outras
obras
JAKOB VONGUNTEN
AUTOR Robert Walser
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Sergio Tellaroli
QUANTO R$ 39 (152 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
El secreto de la muerta
Hace mucho tiempo, en la provincia de Tamba, vivía un rico
mercader llamado Inamuraya Gensuké. Tenía una hija llamada O-Sono. Como ésta
era muy bonita y sagaz, el mercader juzgó inoportuno brindarle sólo la exigua
educación que podían ofrecerle los maestros rurales; la confió, pues, a unos
servidores fieles y la envió a Kyõto, para que allí adquiriera las gráciles
virtudes que suelen exhibir las damas de la capital. En cuanto la muchacha
completó su educación, fue cedida en matrimonio a un amigo de la familia
paterna, un mercader llamado Nagaraya, y con él compartió una dicha que duró
casi cuatro años. Sólo tuvieron un hijo, un varón, pues O-Sono cayó enferma y
murió después del cuarto año de matrimonio.
En la noche siguiente al funeral de O-Sono, su hijito dijo
que la madre había vuelto y que estaba en el cuarto de arriba. Le había
sonreído, pero sin dirigirle la palabra: el niño se había asustado y había
emprendido la fuga. Algunos miembros de la familia subieron al cuarto que había
pertenecido a O-Sono, y no poco se asombraron al ver, a la luz de una pequeña
lámpara que ardía ante un altar en el cuarto, la imagen de la muerta. Parecía
estar de pie ante un tansu, o cómoda, que aún contenía sus joyas y atuendos. La
cabeza y los hombros eran nítidamente visibles, pero de la cintura para abajo
la imagen se esfumaba hasta tornarse invisible; semejaba un imperfecto reflejo,
transparente como una sombra en el agua.
Todos se asustaron y abandonaron la habitación. Abajo se
consultaron entre sí; y la madre del esposo de O-Sono declaró:
-Toda mujer siente predilección por sus pequeñas cosas, y
O-Sono le tenía gran afecto a sus pertenencias. Acaso haya vuelto para
contemplarlas. Muchos muertos suelen hacerlo... a menos que las cosas se donen
al templo de la zona. Si le regalamos al templo las ropas y adornos de O-Sono,
es probable que su espíritu guarde sosiego.
Todos estuvieron de acuerdo en hacerlo tan pronto como fuera
posible. A la mañana siguiente, por tanto, vaciaron los cajones y llevaron al
templo las ropas y los adornos. Pero O-Sono regresó la próxima noche y
contempló el tansu tal como la vez anterior. Y también volvió la noche
siguiente, y todas las noches se repitió su visita, que transformó esa casa en
una morada del temor.
La madre del esposo de O-Sono acudió entonces al templo y le
contó al sumo sacerdote lo que había sucedido, pidiéndole que la aconsejara al
respecto. El templo pertenecía a la secta Zen, y el sumo sacerdote era un docto
anciano, conocido como Daigen Oshõ.
Dijo el sacerdote:
-Debe haber algo que le causa ansiedad, dentro o cerca del
tansu.
-Pero vaciamos todos los cajones -replicó la anciana-; no
hay nada en el tansu.
-Bien -dijo Daigen Oshõ-, esta noche iré a la casa y montaré
guardia en el cuarto para ver qué puede hacerse. Den órdenes de que nadie entre
a la habitación mientras monto guardia, a menos que yo lo requiera.
Después del crepúsculo, Daigen Oshõ fue a la casa y comprobó
que el cuarto estaba listo para él. Permaneció allí a solas, leyendo los
sûtras; y nada apareció hasta la Hora de la Rata. Entonces la imagen de O-Sono
surgió súbitamente ante el tansu. Su rostro denotaba ansiedad, y permaneció con
los ojos fijos en el tansu.
El sacerdote pronunció la fórmula sagrada prescrita para
tales casos, y luego, dirigiéndose a la imagen por el kaimyõ de O-Sono le dijo:
-Vine aquí para ayudarte. Quizá haya en ese tansu algo que
despierta tu ansiedad. ¿Quieres que te ayude a buscarlo?
La sombra pareció asentir mediante un leve movimiento de
cabeza; el sacerdote se incorporó y abrió el cajón de arriba. Estaba vacío. A
continuación, abrió el segundo, el tercero y el cuarto cajón; hurgó detrás y
encima de cada uno de ellos; examinó con cuidado el interior de la cómoda. No
halló nada. Pero la imagen permanecía erguida, con tanta ansiedad como antes.
“¿Qué querrá?”, pensó el sacerdote. De pronto se le ocurrió que acaso hubiera
algo oculto debajo del papel que revestía los cajones. Levantó el forro del
primer cajón: ¡nada! Pero debajo del forro del cajón inferior halló algo: una
carta.
-¿Era esto lo que te inquietaba? -preguntó.
La sombra de la mujer se volvió hacia él, con su lánguida
mirada en la cara.
-¿Quieres que la queme? -preguntó Daigen Oshõ.
Ella se inclinó ante él.
-Esta misma mañana será quemada en el templo -prometió el
sacerdote-, y nadie la leerá salvo yo.
La imagen sonrió y se disipó.
Rompía el alba cuando el sacerdote bajó las escaleras, a
cuyo pie la familia lo aguardaba expectante.
-Cálmense -les dijo-, no volverá a aparecer.
Y la sombra, en efecto, jamás regresó.
La carta fue quemada. Era una carta de amor redactada por
O-Sono en la época de sus estudios en Kyõto. Pero sólo el sacerdote se enteró
de su contenido, y el secreto murió con él.
FIN
Lafcadio Hearn
06 Jul 2011
Biblioteca Digital Ciudad Seva
Preámbulo a las instrucciones para dar cuerda al reloj
Julio Cortázar -
Piensa en esto: cuando te regalan un reloj te regalan un
pequeño infierno florido, una cadena de rosas, un calabozo de aire. No te dan
solamente el reloj, que los cumplas muy felices y esperamos que te dure porque
es de buena marca, suizo con áncora de rubíes; no te regalan solamente ese
menudo picapedrero que te atarás a la muñeca y pasearás contigo. Te regalan -no
lo saben, lo terrible es que no lo saben-, te regalan un nuevo pedazo frágil y
precario de ti mismo, algo que es tuyo pero no es tu cuerpo, que hay que atar a
tu cuerpo con su correa como un bracito desesperado colgándose de tu muñeca. Te
regalan la necesidad de darle cuerda todos los días, la obligación de darle
cuerda para que siga siendo un reloj; te regalan la obsesión de atender a la
hora exacta en las vitrinas de las joyerías, en el anuncio por la radio, en el
servicio telefónico. Te regalan el miedo de perderlo, de que te lo roben, de
que se te caiga al suelo y se rompa. Te regalan su marca, y la seguridad de que
es una marca mejor que las otras, te regalan la tendencia de comparar tu reloj
con los demás relojes. No te regalan un reloj, tú eres el regalado, a ti te
ofrecen para el cumpleaños del reloj.
El tapado
Cuando el correo de Cochabamba se anunció a toque de pututu1
por las calles del pueblo, don Benjamín Díaz Vela había acabado de comer un
plato de saisi2 y de beber su acostumbrada chicha. La familia pasaba en el
campo temporada veraniega. Y él, que había venido a vender maíz y muko3, no
estaba sino a la espera de ese correo para recoger los periódicos de la
capital, y su correspondencia.
A pasos lentos bajó desde su casa a la oficina de correos,
en la plaza, siguiendo la angosta e inclinada acera de la calle que le obligaba
a apoyarse en el bastón de chonta4. Debajo de la galería, esperaban muchas
personas la distribución de cartas.
El redondeado y rubicundo Benjamín era hombre retraído, de
pocas amistades aunque de mucha parentela. Para no entablar conversación
alguna, contestó los saludos de sus paisanos con ademanes cortantes y se fue
derechamente a la ventanilla de oficina donde una simpática empleada, de moño
alto y agradable acento, le entregó sin dilación su paquete de papeles.
-Don Benjamín, tiene Ud. periódicos y una carta del Banco
Hipotecario.
-Muchas gracias, señorita Eloína.
Al emprender la subida de regreso Díaz Vela comenzó a sentir
cierta desazón por la carta del Banco. Había solicitado una prórroga de seis
meses para una obligación cuyo plazo vencía en dos semanas más.
Tenía corazonada de negativa. Aunque podía leer en la calle,
pues no pasaba de las cinco de la tarde, prefirió hacerlo en el patio de su
casa. Sentado en un viejo sillón de forro verde, junto a los alegres limoneros
que perfumaban el recinto, y mientras consentía que sus tordos le picotearan
familiarmente los zapatos por las fajas de resorte, sobre los tobillos,
encontró que su presentimiento había sido cabal. El banco se negaba a conceder
la prórroga y exigía cortesmente la devolución de los diez mil bolivianos
prestados por tres años con la garantía de la finca de Lomalarga.
El escarabajo travieso de la preocupación comenzó a rascar
el descansado y apacible cerebro del terrateniente Díaz Vela, cuyo hijo menor
había partido a Europa, hacía poco, con objeto de estudiar medicina en una
universidad alemana. Él hallaba en su conciencia que no había sido puntual en
los pagos de amortización fijados en la escritura de préstamo, Tampoco pudo
serlo en los de intereses. Todo esto por ayudar a Rómulo cuya vida de
estudiante provinciano con el título de “hijo de padres ricos” le costó caro en
Cochabamba y ahora le costaba mucho más. Tampoco le demandaba poco gasto
sostener el rango de su mujer y de sus tres hijas mozas, dotadas de belleza,
imaginación y buen gusto para gastar el dinero con la elegante despreocupación
que exigía el buen tono en la pequeña ciudad. Las rentas feudales eran
crecidas, pero los gastos se sobreponían a ellas con gallarda preeminencia que
por fuerza requería del crédito. Para salir de la deuda tendría que venderle al
cura una de sus propiedades, sin duda la mas pequeña, esa de Veladeros con seis
colonos. Era una solución dolorosa. Se trataba nada menos que de la propiedad
heredada a sus padres, henchida de sus recuerdos de infancia.
Díaz Vela acabó de leer en cama, a la discreta luz de una
lámpara de kerosén, los diarios. Pasándose la mano por la rubescente calva,
comprendió que no podría dormir. La prensa no traía nada sensacional. Continuaban
los artículos en torno a la obra y la personalidad del presidente Montes. Se
setía solo y fatigado. Su hacienda de Veladeros se le desprendía del corazón,
desgarrándose quejumbrosamente, a las manos del párroco que la ambicionaba
desde hacia tiempo. El reloj de la iglesia dio las ocho.
-¡Tata Lanchi! -su llamado salió por la puerta de dos hojas,
abierta en una mitad, y fue a despertar en el zaguán al mayordomo de Lomalarga,
yacente sobre un par de cueros de carnero, al lado de los pongos5.
-Tatay, patrón -contestó Lanchi acercándose solícito al
lecho de su amo que le ordenó en quichua.
-Ven a charlarme un poco. No me viene el sueño.
-Bueno, patrón.
El indio se sentó en el suelo, junto a la puerta, a discreta
distancia del catre de metal amarillo, cuyos barrotes y varillas brillaban como
el oro. Hablaron de la cosecha y de la siembra, del régimen de lluvias nunca
satisfactorio, de las heladas y del polvillo en el trigo, del rendimiento del
molino, de las entregas de pollos, huevos y quesillos; del herbaje de ganado
mayor y menor; del estricto cumplimiento de las obligaciones personales. El
indio, provecto y experimentado, tocaba los temas de interés patronal, pues
sabía de sobra que sus problemas personales y los de los colonos carecían de
importancia. Su charla se desataba y discurría apacible como un arroyo claro
por un cauce sin tropiezos. Pero Díaz Vela no conciliaba el sueño. Se sumía en
largos silencios y oía llover la charla de Lanchi hasta que al agotarse el tema
callaba el comedido relator moviéndole a nueva incitación con preguntas y
tanteos sobre esto y lo otro. Al cabo el indio, que tragaba la saliva amarga de
su bolo de coca para no escupir sobre la alfombra, osó representar ante su amo,
medrosamente, cuando este le repetía el consabido:
-¿Qué mas hay? Sigue no más contando.
-Ya de todo te he contado pues patrón. Ya no tengo más para
contarte. Tendrás acaso alguna preocupación muy grande para no dormir. Tal vez
fuera bueno que tomes un poco de chichita. Iré a comprarte si quieres patrón.
-¡Oh tata Lanchi! -respondió Díaz Vela- bien sabes que yo no
tomo más de uno o dos vasos sobre la comida. Tengo mis razones para no dormir.
El Banco de Cochabamba me cobra diez mil pesos. Para pagarlos tendré que vender
mi finquita de Veladeros. Todo esto por mis hijos. Romulito me cuesta mucha
plata. Si ya no recuerdas nada por lo menos inventa pues algo, Lanchi, para
distraerme. No puedo esta noche con la soledad que me rodea.
-Así es patrón. Una desgracia muy grande -lo compadeció el
mayordomo.
Y seguidamente recordando las exploraciones de unos
cateadores de minas que habían estado semanas antes por Lomalarga, continuó su
charla.
-Olvidaba comunicarte patrón que hará cosa de un mes
estuvieron por Lomalarga unos buscadores de minas. Subieron a la cumbre más
alta donde existe el socavón que todos conocemos.
-¿Ese que dejaron los jesuitas?
-Ese mismo patrón. Regresaron diciendo que ahí no hay nada
bueno y siguieron por el lado de Ayquile.
-Así es. Yo he estudiado eso. No hay más que piedras.
-Más bien en esta casa patrón, en el patio chico de las
gallinas, pueda que haya algo. Dos veces, muy de noche, yo he visto arder y
apagarse en el suelo, sin chispas ni humo, una fogata que me ha llenado de
miedo. La primer a vez creí que era cosa de duendes o del Diablo…
Un alacrán que le hubiese picado en la cama no le habría
hecho incorporarse con tanta vivacidad como la tranquila noticia confidencial
de su humilde servidor.
-¿En el patio de las gallinas? ¿En qué sitio precisamente?
¿Dos veces has dicho?
-Al centro, en medio patio, delante del corredor de las
gallinas. Como iba diciendo la primera vez, hace ya muchos años, cuando era
mayordomo mi padre, vine de su acompañante. Dormimos en el zaguán. Más o menos
a la media noche los burros se habían salido del corral hasta la puerta de
calle. Yo los devolví y aseguré, Al salir por el pasaje miré el corral de
gallinas y vi una llamarada que se apagó al instante. Asombrado y asustado,
corrí a contárselo a mi padre quien me ordenó acostarme diciendo que sin duda estaba
medio dormido para tener tales visiones. Y más no se hab1ó del caso.
-¿Y la segunda vez, Lanchi?
-La segunda vez hará cosa de seis meses. Para entonces yo
sabía que este fuego es señal de plata enterrada.
-No siempre, Lanchi.
-Pero así dicen tatay.
-Dicen pues disparates. ¿Tu has de saber más que yo? Estamos
en que viste por segunda vez las llamas, ¿ahí mismo, Lanchi?
-En el mismo sitio patrón, en medio patio, delante del
corral donde duermen las gallinas. Pero entonces no eran llamas vivas y altas
como la primera vez, sino llamitas bajas y vacilantes como cuando se apagan las
hogueras de San Juan en el rescoldo. Una cosa muy rápida.
-Está bien, Lanchi. Yo también he visto en otras partes
estos fuegos. En vez de plata lo que generalmente hay en esos entierros es un
montón de huesos. Eso puede ser. Ahora vete, ya es tarde.
-Así será patrón. Buenas noches. Que duermas bien.
Díaz Vela rebulló su cuerpo ligeramente obeso y no se dignó
contestar al mayordomo. Estaba seguro de que el indio le había dado la clave de
un tesoro oculto, de un tapado. ¡Qué capricho el de los viejos coloniales! Él,
como todos, había buscado los tapados siempre en las paredes tanteando con un
martillo de madera. Pero en esta casa de sus abuelos el tesoro estaba en el
suelo. Despacharía cuanto antes al mayordomo. Los pongos que habían llegado esa
tarde en reemplazo de los otros serían excelentes jornaleros gratuitos para la
excavación que comenzaría al día siguiente mismo. Plata, oro, piedras
preciosas…
El sueño acudía a pasos sordos y blandos hasta cerrarle los
ojos dulcemente. ¡Y después dicen que la ambición y la avaricia no dejan
dormir! Don Benjamín Díaz Vela durmió como un bendito.
La mañana del día siguiente, domingo, hizo desocupar el
gallinero y terminó la realización de las cargas de maíz y muko. El mayordomo
regresó a la finca llevando una carta en que Benjamín decía a su esposa que se
quedaba por unos días, hasta arreglar el despacho de un giro para Romulito y
gestionar la prórroga de plazo con el Banco. En realidad estaba resuelto a
darle una sorpresa fulminante con el tesoro de Lanchi.kk
Los pongos armados de picos y lampas6 iniciaron bajo la
vigilancia de su amo la excavación de un pozo en el centro mismo del patio de
las gallinas. En seis horas de trabajo duro llegaron a dos metros de
profundidad por metro y medio de diámetro. El suelo era duro, compacto de
arcilla seca, piedras redondas y cascajo. No se presentaba señal de tesoro
oculto. Díaz Vela suspendió la faena un tanto descorazonado. La arcilla blanca,
azulosa y bermeja en capas alternadas de variado espesor, mostraba lucientes
las huellas de las herramientas sin descubrir indicio alguno, directo o
indirecto, de que allí hubiesen enterrado por lo menos una lata de sardinas.
Pudiera ser que estuvieran desviados del verdadero sitio del tapado. Por
previsión resolvió no adelantar en la profundidad ni una pulgada más sino
ensanchar el hoyo por una parte hasta el corredor y por otra hasta la puerta
del patio, lo que significaría un diámetro de cinco metros. Prácticamente ese
proyecto de excavación abarcaba el registro de todo el subsuelo del patio
excluyendo solamente el angosto corredor. Estaba resuelto a seguir. ¿Acaso
otros dueños de casas viejas como él no habían encontrado tapados? Díaz Vela
comió un buen plato de chajchu7 y bebió una botella de chicha. Antes de
acostarse llamó al par de pongos y les previno, cauteloso:
-No van a hablar con nadie del trabajo que hacemos. Les
costaría caro. Estoy buscando el cadáver del hijo de la mujer que fue nuera de
uno de mis antepasados.
Y de nuevo la noche abrió sus negros ojos de tinieblas
envolviendo los febriles ensueños de grandeza de Díaz Vela. Acostado sobre su
brillante catre de varillas y barrotes amarillos, estuvo desvelado en la sombra
con la extraña historia de Lanchi que había venido a plantear implícitamente la
solución de todos sus problemas. El tapado tendría que ser una fortuna como
para pagar al Banco y reconstruir la antigua casona de sus abuelos. Como para
ir de viaje él y su mujer y sus hijas en caravana familiar hasta Buenos Aires.
Como para embarcarse rumbo a Europa al encuentro de Rómulo. Trajes, joyas,
holgada cuenta corriente, prepotencia burguesa. Una vejez no solamente
decorosa, sino envidiable… Y el sueño bueno le libraba de los ensueños inquietantes,
borrando en su cerebro las imágenes de la vanidad humana.
Domingo de trabajo. Lunes, martes, miércoles, jueves,
viernes: jornadas de diez horas con cuatro acullis8 de coca que él pagaba
generosamente dando a cada pongo dos libras por día. Una colina de tierra,
salida de la excavación, cubría un sector del corral de caballos. El hoyo era
un embudo inmenso de cinco metros de profundidad en cuyo fondo brillaba, como
un espejo de cerúleos reflejos, el agua de un manantial recóndito.
A eso habían llegado el viernes por la tarde.
-¡Basta, basta! Aquí lo dejamos todo -gritó desilusionado
Díaz Vela-. Ese indio bruto me va a aclarar la cosa mañana.
Por la noche cayó la lluvia, leve, fina, menuda,
persistente, haciendo subir el nivel del agua en el embudo, por lo menos medio
metro. Al día siguiente sábado, el encuentro del mayordomo con su patrón de
Lomalarga en la vieja casona de Díaz Vela aclaró la situación en desenlace poco
o nada dramático pero terminante.
-¿Cómo es Lanchi que después de tantos días de trabajo y
habiendo hecho cavar tan hondo en el lugar donde tú viste las llamas, no
encontramos absolutamente nada? ¿No será que por puro animal me has indicado un
sitio diferente? Porque aquí no hallamos ni siquiera un zapato viejo.
-¡Oh patrón! -exclamó Lanchi melancólicamente-. Como no
teniendo ya nada que contarte aquella noche me dijiste que inventara algo para
distraerte, lo inventé sin la menor malicia, Y como tampoco me avisaste que
pensabas hacer cavar supuse que no le diste importancia a mi relato. También
recuerdo que me dijiste que estos fuegos no indican tapados de plata sino
cuando más de huesos. ¿No habrá habido siquiera huesos. patrón?…
-Indio mentiroso, no me vengas a preguntar nada. Mañana
mismo entras al trabajo para tapar solito, por tu cuenta, el hoyo que me has
hecho abrir inútilmente.
-Lo haré con toda voluntad patroncituy. Espero que me
perdones, papasuy…
Y ambos, alguna vez, ¡oh dulzura patronal! sonrieron
buenamente a la pálida luz del atardecer de aquel nuboso día de verano, mientras
en el aire parecía disiparse la obsedante presunción del tesoro oculto.
FIN
Augusto Guzmán. Contista boliviano.
Cuentos del Pueblo Chico, 1954
1. pututu: cuerno de toro que hace de trompeta de guerra;
expresión indígena de autoridad.
2. saisi: plato criollo boliviano; guiso de carne
condimentado con ají.
3. muko: harina de maíz mascada y ensalivada hecha bocados y
secada al sol, que servía para elaborar la chicha, bebida alcohólica quechua.
4. chonta: especie de caña o palmera de madera dura.
5. pongos: sirviente indígena que hacía turno gratuito y
semanal al que estaban obligados los arrendatarios de una finca, antes de la
reforma agraria de 1952.
6. lampas: azada o pala de hierro.
7. chajchu: plato criollo cochabambino consistente en chuño,
papa, ensalada de cebolla y tomate.
8. acullis: bolitas de hoja de coca.
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Quando o Brasil mudou
Tenho cá, muito rígidos nas minhas estantes, seis tomos
encadernados em couro tingido de azul-escuro de um livro publicado em 1967, em
São Paulo: “História do Povo Brasileiro”. Autores: Afonso Arinos de Melo Franco
e Jânio da Silva Quadros. Eles mesmos, que, seis anos antes, haviam sido
protagonistas de um capítulo decisivo da história do povo brasileiro, Jânio
como presidente da República, Afonso Arinos como seu ministro das Relações
Exteriores.
Cada volume da obra tem cerca de 350 páginas, estourando num
total de quase duas mil. Mas estou certo de que pelo menos 1950 dessas páginas
são subalternas a outras 50: as que tratam da renúncia de Jânio à presidência,
ocorrida há 50 anos mais dois dias, em 25 de agosto de 1961.
Você sabia da existência desse livro, que, só por existir, é
sensacional? Imagine: eles escreveram duas mil páginas, tudo para chegar àquele
trecho definitivo para biografia de Jânio e para o futuro do Brasil, tudo para
que Jânio pudesse se justificar para a posteridade. Lá estão, em linguagem
rebuscada, que Jânio falava em linguagem rebuscada, suas pretensas razões.
Depois de todo um arrazoado tecido na terceira pessoa, Jânio e Afonso Arinos
alegam que o ex-presidente-autor enfrentou “contradições no sistema
institucional brasileiro”. Foram essas contradições que ele teria tentado
resolver com um plano bem pensado e coerente. Note a ginástica verbal que Jânio
e Afonso Arinos fazem para explicar a sandice de 1961:
“Seu raciocínio foi o seguinte: primeiro, operar-se-ia a
renúncia; segundo, abrir-se-ia o vazio sucessório – visto que a João Goulart,
distante na China, não permitiriam as forças militares a posse, e destarte,
ficaria o país acéfalo; ; terceiro, ou bem se passaria a uma fórmula, em
consequência da qual ele mesmo emergisse como primeiro mandatário, mas já
dentro do novo regime institucional, ou bem, sem ele, as forças armadas se
encarregariam de montar esse novo regime, cabendo, em consequência, depois a um
novo cidadão – escolhido por qualquer via – presidir ao país sob novo esquema
viável e operativo: como, em tudo, o que importava era a reforma institucional,
não o indivíduo ou os indivíduos que a promovessem, sacrificando-se ele, ou não
se sacrificando, o essencial iria ser atingido.
O plano, porém, falhou exatamente na vacilação dos chefes
militares. João Goulart, compadecendo-se com a reforma parlamentarista, desfez,
talvez sem sabê-lo, todo o plano concertado”.
Mais algumas linhas adiante, os autores definem o que foi,
para eles, o ato de Jânio:
“A renúncia foi, assim, expressão de uma coerência de tipo
heroico, no sentido carlyliano; Jânio Quadros acreditou que os destinos
nacionais, num dado momento, dependiam de sua coragem de sacrificar sua
carreira pessoal”.
Quer dizer: a renúncia tresloucada de Jânio Quadros
transformou-se em um ato patriótico e generoso, de renúncia pessoal, de
abnegação. E mais: transformou-se em um plano racional, premeditado,
minuciosamente calculado. Isso, é evidente, nas palavras do próprio Jânio
Quadros. Seis volumes, duas mil páginas. Quanta tinta, quanto papel, quanto
tempo gasto para tentar justificar o injustificável.
Uma lição para os dirigentes do Grêmio: depois de feito o
mal, nem todo o verbo da língua portuguesa será capaz de corrigi-lo.
Semana Gre-Nal
Digamos que o Grêmio jogasse assim no Gre-Nal:
Marcelo Grohe; Gabriel, Mário Fernandes, Edcarlos e Júlio
Cesar; Fernando, Gilberto Silva, Rochemback e Douglas; Leandro e André Lima.
Não é um time desprezível. Não é um time para o fundo
penumbroso da tabela de classificação. Mas não sei se é time para bater Leandro
Damião e Oscar.
Fernando não rende no Grêmio o mesmo que na Seleção
Brasileira.
Parece enfeitado, autossuficiente em demasia. No Grêmio, ele
dá toquinho, ele tenta ser clássico, ele se atrasa na jogada. Na Seleção ele é
aceso, preciso, ele é concentrado. Entre os adultos, talvez falte a Fernando
jogar como adulto.
Victor sempre falha em Gre-Nal. Leandro Damião sempre faz
gol em Gre-Nal. Se tudo correr como sempre corre, o Gre-Nal de domingo começa
com 1 a 0 para o Inter.
O Inter tem uma escola de atacantes no Beira-Rio. O
professor Ortiz pega os atacantes, treina em separado com eles, aperfeiçoa suas
virtudes, corrige seus defeitos. Os resultados são dois: dentro de campo, o
Inter conquista vitórias graças a seus atacantes. Fora de campo, o Inter se
viabiliza vendendo-os.
Investimento premeditado na mercadoria mais valorizada do
futebol. Simplesmente genial.
Enquanto isso, no Grêmio, o último grande centroavante
formado pelo clube foi... Luiz Carvalho, nos anos 30. Simplesmente estúpido.
DAVID COIMBRA - 23 Aug 2011
Jamais esquecerei
Como não amar o passado? – me pergunta uma leitora a
propósito de uma de minhas crônicas. Por uma coincidência, estive esvaziando
gavetas e encontrei o instantâneo em que outra amiga e eu passeamos de mãos
dadas pela Praça da Matriz.
Ana Laura tinha cabelos loiros e traços perfeitos. Ana Laura
e eu passeávamos de mãos dadas pela Praça da Matriz de sua cidade. Corriam
então os Anos Dourados, o dia era de verão e glorioso.
Não sei do que foi feito de Ana Laura, se casou, se ainda
mora em sua cidade, se tem filhos, se é odontóloga, advogada, médica ou
simplesmente do lar. Mas recordo como se fosse hoje nós dois tão jovens
passeando de mãos dadas num começo de namoro.
Não sei o que foi feito de Ana Laura, mas guardo a memória
precisa de seu vestido leve, de seus tornozelos finos, de seu sorriso perfeito.
Lembro que falávamos de um baile que ia haver aquela noite, de um cachorrinho
que tinha desaparecido, do Brasil, que era então um país inaugural.
Um sorridente mineiro semeava estradas, hidrelétricas,
desbravava fronteiras e instalava fábricas de automóveis onde então eles eram
importados. Fuscas, Dauphines, DKWs, Aero-Willys, Simca-Chambords enchiam ruas
e avenidas, uma rodovia rasgava a selva, Brasília erguia-se do nada em pleno
Sertão.
Vivíamos então um tempo mágico, pois os ventos da esperança
sopravam por aqui. Ana Laura era parte daquele cenário, em que soavam os
acordes da bossa nova, nascia o cinema novo, o Brasil era campeão mundial de
futebol na Suécia, Maria Esther Bueno vencia em Wimbledon, Éder Jofre arrasava
nos ringues, ganhávamos ainda certames de basquete a pesca submarina.
Onde andará Ana Laura? Será diplomata, psicanalista,
pianista? Não sei. São tudo coisas de problemática resposta. Só sei que os
tempos são outros, bem diversos daqueles em que a adolescência era azul e o
país uma festa móvel.
E o que foi feito de mim? Hoje sou todo um senhor que não
caminha pela Praça da Matriz com uma garota loira. Não há mais Anos Dourados,
somos um mar de corrupção.
Me resta a imagem da garota de 15 anos – os mesmos 15 anos
que eu tinha – e que de repente e sem aviso, no passeio pela Praça da Matriz de
sua cidade me disse aquelas palavras que jamais esquecerei.
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA -23 Aug 2011
O Amor é o Amor
O amor é o amor — e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?…
O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!
Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos — somos um? somos dois?
espírito e calor!
O amor é o amor — e depois?
<><><><><>
O Rato e o Anjo
Há um rato para cada português
Dos jornais
Anjo guardum
pra cada um
Da província
Um rato e um anjo de guarda
para cada.
Anjo defende o acto
mau,
a fazer ou a sofrer.
Rato celebra contrato?
Qual!
Rato rói,
até na orelha.
Anjo dói
de outra maneira.
Mas eis que,nestes enredos,
há dois a mais,um a menos.
Cai ao anjo a pena,
ao rato o pelame.
Um regressa ao seu enxame,
o outro à sua caverna.
E o português,desanjado,
já se vê desratizado.
Chora.
Alexandre O'Neill
A saga do casamento
O casamento é também um ardil que a civilização arranjou
para manter presos à união conjugal o marido e a mulher.
Pelo casamento, como por um milagre jurídico e existencial,
os casais se mantêm juntos mesmo após ter cessado o amor e se extinguido o
desejo.
Foi uma forma que a sociedade moderna encontrou para que
marido e mulher não se separassem, embora não tenham sobrevivido, durante a
constância conjugal, os mesmos valores que existiam quando das núpcias.
Por isso é que se arrastam os casamentos em cima das ruínas
do amor e do desejo, alicerçados muitas vezes pela amizade, outras vezes pelos
filhos, que acabam sendo fortes motivos para que os casais não se separem.
O amor e o desejo são por demais fugazes para que possam ser
administrados pela perenidade do casamento.
É quase fatal a fadiga dos metais entre os casais, que se
veem assim assaltados pelo fastio e pelo tédio conjugal como uma pressão
demolidora. Mas, de outra parte, trombam esses casais com a indissolubilidade
do vínculo conjugal, que só pode ser desfeito pelo divórcio perante a lei
humana e que é inquebrantável e eterno mediante a lei religiosa.
O casamento é, pois, uma coisa muito séria. Daí que
multidões de jovens hoje o evitam, munidos da sabedoria de que cedo cessarão o
amor e o desejo e, sem ligação pelo casamento, eles podem partir para outras
uniões sem os embaraços de serem considerados amarrados ao matrimônio original.
Por isso é que muitos casais enfrentam o desgaste direto do
casamento driblando-o com técnicas diversionistas. Dormindo em camas separadas,
em quartos separados ou até em casas separadas, atenuando, assim, o absurdo
dessa condenação de solidão a dois.
Há até alguns casais que se permitem, ao marido e à mulher,
aventuras extraconjugais que os libertam do vínculo matrimonial, distraindo-se
assim em incursões libidinosas fora do eixo do casamento em si, o que os faz
suportar com estoicismo promíscuo as amarras do compromisso central.
Esses são os que mantêm o casamento com uma dança farsesca e
perigosa, que cedo ou tarde poderá acarretar danos morais e materiais
consideráveis.
Ao contrário dos outros, mais sinceros, que resolvem encarar
de frente a fatalidade da separação.
Eu já escrevi certa vez que, pior que o casamento, só a
separação. Há muitas separações bem-sucedidas, mas a maioria delas guarda
marcas doloridas, cicatrizes que acabam por atingir não raramente os filhos da
união conjugal fracassada.
Muitos casamentos iniciam-se sob o ritmo da amizade, da
compreensão, da cordialidade apaixonada e terminam nas Varas de Família em
discussões tão violentas e agressivas, que acirram ainda mais o ódio
superveniente nas relações.
Restam, no entanto, alguns raros mas expressivos exemplos de
casais que se separam e continuam amigos, até visitando-se, como fosse normal o
que lhes aconteceu. São sábios dignos de admiração. Afinal, chegaram à
conclusão de que tudo na vida tem um fim e não seria o casamento que iria se
constituir em exceção.
Da minha parte, fico extasiado quando assisto, num
restaurante ou num bar, a um ex-marido e uma ex-mulher em conversa amigável e
civilizada.
São uns heróis.
PAULO SANT’ANA - 23 Aug 2011
Novo bizarro
Em “Embassytown” nos defrontamos com uma bizarrice radical,
e talvez com o incomunicável
China Miéville é escritor com uma missão: quer escrever um
livro em cada subgênero literário. Já publicou policial, novela juvenil,
steampunk, fantasia e até western. Há um termo guarda-chuva para todas suas
experimentações: “new weird” (novo bizarro?), referência à “weird fiction” de
escritores maravilhosamente estranhos da virada dos séculos XIX para XX, como
H. P. Lovecraft. Miéville — esquisito até no nome, que mistura geografia com
acento francês, camuflando sua biografia basicamente britânica — não se
incomoda com o rótulo, tendo incentivado sua “viralização” on-line, mesmo com
blog chamado “manifesto rejeitomentalista” (e na sua carreira paralela de
pensador marxista, foi colaborador de outro blog, o “Tumba de Lênin”). Sua
utilização das regras de cada subgênero é nada ortodoxa: todos eles se tornam
vítimas do lado negro da força da literatura. Resultam sempre em livros que dão
frio na espinha do leitor. O horror, o horror.
“Embassytown” (“Cidade-embaixada”), seu lançamento de 2011
(pelo que consegui pesquisar, nenhuma de suas obras teve publicação brasileira
— esta coluna pretende apenas sugerir alguma tradução), dá estranheza para a
tradição mais intergaláctica da literatura. O grosso da ação se passa num
planeta nos confins do universo, onde humanos convivem com seres absolutamente
diferentes. Em geral, mesmo na ala mais ousada da ficção científica, a
comunicação com alienígenas é problema de tradução. Depois de um período de
aprendizagem, a conversa rola solta, pois as linguagens têm estruturas
compatíveis e exprimem emoções parecidas. Vide o ET do filme “Super 8”: a
telepatia apenas nos diz que ele não quer nos fazer mal; seu objetivo é voltar
para casa. No fundo, apesar das aparências , o alien é gente como a gente. Em
“Embassytown” não: ali nos defrontamos com uma bizarrice radical, e talvez com
o incomunicável.
O romance nos coloca diantede seres pra-lá-de-Marrakesh. Só
tive impressão de tanta diferença cognitiva ao ler as aventuras dos
“pequeninos” do planeta Lusitânia de Orson Scott Card (um de meus autores
preferidos, exigindo futura coluna só para ele), que numa fase de suas vidas,
depois de rituais ultraviolentos, podem transferir suas consciências para
árvores com as quais a troca de informações acontece a partir de
batuques nos seus troncos. Os “anfitriões” (“hosts” no
original) que vivem ao redor da cidade-embaixada de Miéville têm dois órgãosde
emissão sonora. Sua linguagem é resultado da combinação de palavras ditas
simultaneamente pelas duas “ bocas ” . Não adianta treinar dois humanos para
falar coisas diferentes ao mesmo tempo. O sentido só se estabelece se os dois
sons forem produzidos por uma mesma mente. Aí entram os embaixadores, gêmeos
geneticamente idênticos treinados para sintonizar seus pensamentos , formando
uma única identidade.
O bizarro não para por aí, e é além que as coisas ficam
deveras interessantes. Os “ anfitriões ”
não sabem mentir, pois não conseguem falar sobre algo que não tenha acontecido
na realidade. Essa incapacidade, ou impossibilidade da mentira, revela problema
mais sério, que transforma o livro em tratado de linguística alucinada, ou
especulação extremista sobre a linguagem. Os “anfitriões” não pensam. Ou melhor : só pensam quando falam, e sua fala é pura
referência a objetos ou atos específicos (são concretos como o sertanejo de
João Cabral, “incapaz de não se expressar em pedra”). Não existe linguagem
separada do mundo, portanto não existe significação, e consequentemente não existe
metáfora, polissemia, ambiguidade, ou diferença entre a palavra e o referente.
Como — ao viver — não paramos de pensar, e acreditamos no “penso, logo existo”,
é absurdo imaginar numa linguagem sem pensamento: ler “Embassytown” faz nosso
cérebro doer. Para não estragar a surpresa da dolorosa leitura, posso adiantar
que o livro narra a aquisição não da linguagem, mas do pensamento. É um
processo violento. Um personagem diz : a linguagem , com pensamento, é “a
continuação da coerção por outros meios”. Outro discorda : “Bobagem. É
cooperação . ” O narrador tenta concluir: talvez cooperação e coerção não sejam
coisas tão contraditórias assim. E aprender a pensar — mesmo o Bem —
necessariamente machuca, faz sofrer. Fisicamente.
No planeta dos “anfitriões”, há uma sutil mudança no slogan
de William Burroughs, também cantado pela Laurie Anderson: “o pensamento é um
vírus vindo do espaço sideral”. Pois linguagem — que nunca comunicou realmente
nada — já havia por lá. Faltava a possibilidade da mentira, e da interpretação,
e do falar uma coisa querendo dizer outra. Faltava a poesia (nãoconcreta?) e
seu dom de iludir. Por coincidência, ao ler “Embassytown” estava lendo também
“O senhor do lado esquerdo”, de Alberto Mussa (a “new weird fiction”
brasileira?). Lá encontrei a seguinte declaração, definitiva: “Os leigos se
impressionam muito com objetos esotéricos, fetiches, ritos e símbolos místicos,
imagens demoníacas, animais sacrificados. Ignoram que a verdadeira magia é a
fala, a linguagem humana.”
■ ■ ■ ■
■ ■
Quem respeita a linguagem, respeita também o silêncio. É
preciso silenciar de vez em quando para a linguagem tentar recuperar sua
potência. Maneira troncha que encontrei para dizer que esta coluna vai se
silenciar por um mês. Como dá para perceber, preciso urgentemente de férias.
Até a volta (da ambiguidade)
Hermano Vianna - 26 Aug 2011
Quarenta e sete
-
Tio Vânia na Graça Aranha
Quarenta e sete anos é uma idade estranha para se assistir a
"Tio Vânia". Porque esta é a idade do personagem de Tchekov, o
personagem que subitamente descobre que toda a sua vida foi baseada em falsas
premissas, que nenhuma de suas esperanças de juventude vingou e, que como no
blues de Robert Johnson, todo o seu amor foi em vão.
Desde a primeira montagem, de Stanislavski, em Moscou, em
1899, é óbvio que espectadores de todas as idades são levados a confrontar as
suas próprias realizações por menores que sejam, com as de Ivan Petróvitch -
cujo diminutivo do prenome batiza a peça. Confrontá-las aos 47 anos, porém,
adquire um significado distinto, arrepiante.
Não só porque, em certa medida, qualquer vida se revela tão
absurda quanto a de Vânia. Também porque ele projeta, a partir dos seus 47 anos
mal vividos, que faltam 13 para os 60. "Muito tempo", para ele, no
tédio burguês da Rússia rural e pré-revolucionária. Pouco tempo, para mim, na
histeria do Brasil novo-rico do século XXI.
Eu tinha 20 anos quando assisti pela primeira vez a
"Tio Vânia". Para um garoto naquela idade, a peça de Tchekov parecia
um balaio de advertências: não jogue sua vida fora, faça algo de útil dela,
pense na posteridade, não perca tempo amando sem ser amado. Corria 1984. Saí do
Teatro dos 4 como se tivesse levado uma surra de chicote.
Não havia qualquer vestígio de esperança na obra que o autor
russo, com humor negro, insistira em chamar de "comédia". Vânia
administrava uma fazenda com a sobrinha, enviando os rendimentos para a
capital, a fim de bancar a carreira acadêmica do marido de sua falecida irmã,
agora casado com uma mulher muito mais jovem.
Um dia, Vânia afinal percebeu que o ex-cunhado não passava
de uma fraude intelectual. Aposentado, o professor Serebriákov se refugiara na
fazenda, alterando-lhe a rotina com caprichos. Enquanto isso, sem querer
querendo, sua bela Helena enfeitiçou Vânia e o amigo médico, Astrov. Para Tchekov,
a beleza entristece, ao expor os homens à imperfeição de suas existências. Qual
uma tempestade de outono, o conflito se aproxima, estouram alguns trovões, mas
logo a vida, aquela vida, segue o seu curso.
A frustração prevalecia no mundo observado por Tchekov. Pior
que isso. Os personagens de "Tio Vânia" pareciam preferir viver
atolados nela do que fazer força, força de verdade, para se libertar, para
mudar. Vânia odeia o ex-cunhado e ama Helena.
Astrov deseja Helena. Helena deseja Astrov. Sônia, a sobrinha,
ama Astrov em silêncio.
Nada de fato acontecia. Como, aliás, é característico do
teatro de climas do autor russo.
Num determinado momento, em torno de copos de vodca, Sônia
perguntava à madrasta se ela teria preferido um marido jovem.
"Claro!", responde Helena, rindo. Eis a comédia à moda de Tchekov,
dolorosa. Anos depois, assistindo ao filme "Era uma vez em Tóquio",
de Yasujiro Ozu, eu descobriria uma cena análoga. A caçula da família
perguntava, em lágrimas, à viúva do seu irmão morto na guerra se a vida era
mesmo só frustração. "É, sim!", sorria a gentil Noriko, interpretada
por Setsuko Hara.
Ajudava - e muito - na devastação emocional descrita e
causada por "Tio Vânia", a qualidade daquela montagem do Teatro dos 4
em 1984. Dirigida por Sérgio Britto, a partir de uma tradução de Millôr
Fernandes, com Armando Bogus no papel-título, Christiane Torloni como a
lânguida Helena, além de Rodrigo Santiago, Nildo Parente e Denise Weinberg nos
outros papéis principais. Nunca os esqueci, o que gerou na minha cabeça um
padrão difícil de superar. Inclusive para Louis Malle, que filmou "Tio
Vânia em Nova York" em 1994, com Wallace Shawn e Julianne Moore.
Montagem do bom grupo mineiro Galpão dirigida por Yara de
Novaes, "Tio Vânia (Aos que vierem depois de nós)", em cartaz no Sesc
Ginástico só até o próximo domingo, já sofreu sérios reparos de Barbara
Heliodora neste caderno. O anacrônico rádio não me incomodou tanto quanto as
canções em espanhol ou o que me soou como uma excessiva ênfase na comicidade,
que deveria apenas servir de distância para o impulso que faz o golpe de
Tchekov penetrar mais fundo. Entretanto, gostei de Eduardo Moreira (Astrov) e,
sobretudo, da atriz convidada Mariana Lima Muniz (Sônia).
De qualquer forma, pesados contras e prós, foi bacana reencontrar
Vânia, agora, quando ambos temos 47 anos. Ele, claro, os terá para toda a sua
merecida eternidade. Eu... Mesmo nas minhas manhãs mais cinzentas, porém, tenho
de admitir que escutei as advertências de 1984 e fiz alguma coisa na vida - em
especial, uma filha.
Anton Pavlovitch Tchekov jamais chegou aos 47 anos de seu
personagem mais famoso. Morreu aos 44, em 1904, da então incurável tuberculose,
que se manifestara duas décadas antes. Ele começara a tossir sangue no mesmo
1884 no qual se formara em Medicina, sua principal ocupação durante toda a
vida, por mais que escrevesse compulsivamente contos e peças. Além de "Tio
Vânia", as mais famosas são outras duas "comédias", "A
gaivota" e "O jardim das cerejeiras", e o drama "Três
irmãs".
Pode-se enxergar Tchekov em Astrov. Médico deprimido pelas
condições de vida dos camponeses russos, entusiasmado de um modo quase
panteísta pela natureza, desconfiado do casamento. O seu, breve, com a atriz
Olga Knipper, não gerou filhos, mas um aborto espontâneo. Talvez não haja
imagem mais apropriada à desesperança.
ARTHUR DAPIEVE. 26 Aug 2011
Aos Vindouros, se os Houver...
Vós, que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;
que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;
computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;
que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.
Alexandre O'Neill
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Conflito de interesse
A expressão é parte do vocabulário dos sistemas políticos
que perseguem um equilíbrio inalcançável entre pontos de vista particulares e o
sistema que os sustenta em sociedades movidas por competição eleitoral. Quando
não há competição eleitoral (como ocorre no liberalismo) há equilíbrio, mas, em
contrapartida, não há conflito de interesse já que o interesse do Grande Irmão
ou do Partido despoticamente sufoca tudo.
Mas no liberalismo de Montesquieu há, de um lado, a
motivação por ganhos e, de outro, a consciência das implicações (e dos custos)
da realização dessas motivações para a coletividade. E quando o Fulano ou o
Sicrano souberem? Será que a proposta está de acordo com as normas do sistema?
Questionam todos os interessados que querem realizar o seu empenho, o qual
demanda visibilidade, pois o sistema precisa, como num jogo de futebol, de
testemunho público e de "transparência". O que poderá ocorrer se eu
for contratado em surdina, digamos, pelo Ministério do Turismo, para planejar o
panorama do turismo no Brasil nos próximos quatro anos pela modesta quantia de
50 milhões de reais? Como ocorreu a contratação? Quem a propôs? Que tipo de
relacionamento eu teria com certas pessoas do Ministério? Quem competia comigo
ou quem inventou a ideia e assim por diante são perguntas mais do que legítimas
que surgem aos berros ou sussurros, buscando a legitimidade (ou a face externa)
do processo. Porque a legitimidade (uma dimensão capital das ações sociais que
Max Weber suscitou na sua obra) diz respeito a presença do público ou da
totalidade nos processos sociais. Eu posso fazer sozinho mas quem aprova
comprando, lendo ou apoiando é a sociedade! A legitimidade fala da reação da
coletividade diante dos fatos que ocorrem no seu meio. Se os fatos forem opacos
ou bizarros (como pode um pessoa enriquecer 20 vezes em 2 dias; ou porque os
"parques de diversão" se transformaram em "parques de
aflição" na cidade do Rio de Janeiro), eles trazem de volta a lógica do
bom-senso - a voz do todo ao qual também pertencemos.
O poder passou do carisma e da tradição (as pessoas nasciam,
não se elegiam reis...) ao sistema burocrático-legal que se interpõe e
administra os eternos conflitos entre os interesses particulares e a moralidade
coletiva. As leis feitas para todos e o seu aparelho institucional são as almas
do sistema democrático. Os interesses são as mãos visíveis dos desejos
legítimos (ou escusos) de enriquecer e de ter sucesso. O problema é saber o
que, como e quando tais interesses se sustentam num jogo no qual muitos agentes
começam a oferecer simultaneamente os mesmos bens e serviços de modo cada vez
mais igualitário e impessoal ao estado e ao "governo".
Impossível, porém, perceber conflito de interesses num
sistema familístico no qual os governantes se apossavam do governo e do
"poder", concebido como um modo de liquidar adversários, de ajudar
parentes, partidos e amigos; e de aristocratizar quem o alcançava. Nesta
concepção não havia uma diferença entre interesses do todo (ou da sociedade)
representado pela administração pública e os interesses do "governo"
que se confundiam com os segmentos certos de que "agora é a nossa
vez".
Antigamente havia quem não pagasse imposto de renda no
Brasil. Hoje todos pagamos impostos - muitos impostos. A teoria é puro bom-senso:
paga mais quem ganha mais; e os impostos pagos são redistribuídos em bens e
serviços que contemplam todo o sistema engendrando interdependências.
Antigamente prestávamos mais atenção a cobrança; hoje - eis a revolução -
prestamos muito mais atenção a redistribuição! A partir da vivência com um
mundo mais transparente, repleto de problemas e informatizado, ficou claro que
o tal "estado" - esse engenho que recolhe e usa os dinheiros de todos
- não funciona pensando na coletividade que ele representa e deve servir, mas
opera claramente em benefício de uma outra entidade que nós, no Brasil,
chamamos de governo e que é, de fato, uma das encarnações mais negativas, senão
a mais negativa do estado entre nós.
É precisamente isso que precisa ser mudado. Não dá mais para
continuar a operar num sistema político no qual "ter poder" é
distribuir cargos em vez de usar esses cargos como instrumentos de
gerenciamento público. Não é mais possível pensar o "poder" como algo
ao sabor de pessoas, partidos e interesses - como um recurso para
aristocratizar grupos que dele fazem parte por nomeação, vínculo ideológico ou
eleição. Está passando o tempo no qual o governo podia ser "dono do
Brasil" e como tal gastar bastarda e irresponsavelmente o fruto do nosso
trabalho, ignorando o país e pensando exclusivamente nos seus comparsas. O
limite da demagogia que inventou esse híbrido de eleição, populismo e coalizão
semipatriarcal tem tudo a ver com a incoerência entre pessoas e papéis. Afinal,
um ator medíocre não pode interpretar Hamlet, do mesmo modo que é preciso fazer
com que o estado e, sobretudo, o governo sejam servidores da sociedade, a ela
devolvendo o resultado do trabalho de seus cidadãos comuns. Afinal, a Cesar o
que é de Cesar e a Deus o que é de Deus. Essa é a questão!
- ROBERTO DaMATTA. 24 Aug 2011
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