sábado, 14 de novembro de 2015
. "O
pensamento social crítico está guiado pelos princípios da igualdade, da justiça
social, do fortalecimento e da radicalização da democracia, pela necessidade de
destruir os poderes opressores, pela luta contra o racismo e contra toda forma
de violência.É um pensamento libertário e inconformista,
que sempre quer mais porque a democracia sempre pode ser fortalecida.”
Pablo Gentili
Pablo Gentili
O impacto político de confrontos religiosos e formas de guerras etnorreligiosas
Ainda estamos no ANNO de 1015. O impacto político de
confrontos religiosos e formas de guerras etnorreligiosas sempre foram muito
grandes e decisivos na configuração do próprio Estado. A própria concepção,
criação e organização do Estado Nacional Europeu, como nas origens de Portugal,
de quem o Estado do Brasil é o maior descendente, é resultado direto de guerras
religiosas contra o islamismo ibérico. O resultado final foi o extermínio, a
expulsão e a assimilação dos diferentes muçulmanos e judeus ao fim do longo
ciclo de violências. Sobreviveria no território apenas um povo, uma religião,
uma língua, um rei. Somente retornaram para o nosso convívio quando nos
modernizamos, democratizamos e os aceitamos de novo. Hoje os Estados se tornam
cada vez mais policialescos e mesmo organizados como Estados de apartheid
etnorreligioso - como todos do Oriente Médio, o que acelera e aprofunda as
guerras até o futuro desfecho de guerras totais, até que um lado vença e
destrua completamente os outros, como aconteceu na Península Ibérica Medieval.
A visão iluminista, a tolerância e a convivência serão desafios para novas
hegemonias. Muitos Estados europeus estão experimentado pela primeira vez uma
real diversidade social e etnorreligiosa, coisa que estamos acostumados há bem
mais de 1000 anos. Superar diferenças como o racismo, os preconceitos e a
discriminação étnica, religiosa, de gênero, de orientação sexual e muitas
outras continuam sendo imensos desafios para uma sociedade livre, igualitária e
democrática no ANNO de 2015.
Ricardo Costa de Oliveira
Nem a arma bestial dos terroristas nem a palavra mansa dos
fazedores do caos nem a violência de grupos com boas causas nem a palavra mansa
dos manipuladores de principios nem a raiva colérica dos saudosistas de tempos
inomináveis nem os transformadores com discursos de barricada.
A violência não é um direito, não é um sentimento válido,
nem ação correta para mudanças. Nem Líbano nem Síria nem Jerusalém nem Paris.
Nunca a cultura de paz foi tão necessária.
Hamilton Faria
Se somos todos parisienses, somos também todos estrangeiros,
somos também todos refugiados, todos africanos. Todos perdemos, a cada morte de
inocentes, sejam os lembrados pela grande mídia, sejam os anônimos e esquecidos
pela mídia que serve a certos "poderes". O pior é usar a dor e a
tragédia de um modo perverso, aproveitando para promover mais medo e terror, em
vez de compaixão e humanidade.
Ana Luisa Kaminski
Dia Nacional da Consciência Negra
20 DE NOVEMBRO
Dia Nacional da Consciência Negra
Um Dia para não passar em branco
Não tenho certeza se as escolas estão ensinando sobre o
escravagismo praticado no Brasil entre os séculos XVI E XIX, mas é certo que eu
mesmo, em meu tempo de escola, pelo menos durante os chamados primeiro e
segundo graus, pouco aprendi sobre este período e o que aprendi foi muito mais
sobre os bandeirantes, que escravizavam índios, caçadores de negros, grandes
escravocratas e assassinos, mercenários da coroa portuguesa e algozes dos que
foram desterrados.
Também não tenho certeza se, hoje, alguém sabe ao certo quem
foi Zumbi dos Palmares (1655-1695), negro escravo que se rebelou e
transformou-se na maior liderança dos quilombos existentes no Brasil, na época,
e que morreu lutando para libertar seu povo.
Uma certeza eu tenho. Se prestarmos atenção na realidade
brasileira, os dados levantados tanto pelo IBGE quanto as pesquisas realizadas
por DIEESE e tantas outras fontes, como institutos, universidades nacionais e
estrangeiras, demonstram uma situação não muito diferente daquela, levando-se
em conta o atual grau de desenvolvimento apresentado na sociedade brasileira.
Vejamos alguns pontos: mesmo sendo quase metade da
população, os negros são a grande maioria dos desempregados, a grande maioria
dos habitantes das favelas, maioria nos presídios, maioria no índice de
mortalidade infantil, maioria entre as meninas prostitutas e prostituídas.
Em contrapartida, eles são a minoria entre os estudantes
secundaristas e universitários, recebem salários a menos do que os demais, não
fazem parte de índice representativo na política ou judiciário, limitando-se
seus expoentes de renome ao futebol, ao carnaval e até mesmo a música.
Também tenho certeza de que estes expoentes de renome são o
grande baluarte daqueles que afirmam que existe uma democracia racial no
Brasil, citando-os como exemplo, sem se aperceberem de que são dados ínfimos,
em uma proporção, talvez, de um para 1 milhão e que, mesmo assim, não são
poucas as vezem em que até estes sofrem discriminação racial.
Os milhares que morrem de subnutrição, marginalizados da
sociedade, sem escolas, sem casas, moradores de rua, assaltantes necessários
para sobrevida, são apontados como vadios, bandidos, em uma sociedade que
insiste em marginalizá-los e explorá-los tal qual nos séculos passados.
Zumbi dos palmares lutou e morreu com o sonho de uma
sociedade justa e igualitária para seu povo, contra a escravidão e contra a
desigualdade social. Muitos são os que lutam para sobreviver nos dias de hoje.
Dia 20 de Novembro é data histórica da morte de Zumbi dos Palmares. Talvez
venha a ser a data histórica da morte de milhões que já tiveram suas vidas
ceifadas em busca dos mesmos ideais, ao longo dos tempos.
O importante e que o Dia Nacional da Consciência Negra não
passe em branco e que a sociedade reflita sobre suas crendices de democracia
racial, ensinando a verdadeira história daqueles que construíram e continuam
construindo este país, mesmo sob o peso não mais da chibata, mas da quase
insuportável condição de vida oferecida ao povo negro brasileiro.
marcos “black” fontinelli
Antes de qualquer coisa, concordo que o terrorismo precisa
ser combatido, mas, não adianta usar só a força como forma de retaliação. Não
precisa ser especialista para perceber que esta ideia " olho por olho e
dente por dente" acirra ainda mais os conflitos. A questão é por que o
Estado Islâmico consegue tantos seguidores? Será que as políticas
internacionais dos países desenvolvidos estão contribuindo para o Estado
Islâmico ter mais soldados fanáticos? Esses jovens recrutados não querem fama e
nem dinheiro e sim heróis de seu povo, contra os opressores. Encaram isto como
a verdade absoluta. Logo, necessita se encontrar outros caminhos que busquem
respeitar a diversidade cultural com o intuito de não haver mais recrutamento.
Vejo um futuro sombrio pela frente, a forma de se fazer
guerra mudou completamente, agora, são ataques que podem acontecer em qualquer
lugar e a gente não pode prever.
Os países desenvolvidos precisam largar o etnocentrismo e
rever seus conceitos. Inclusive, o acordo de paz na Palestina precisa ser feito
e palestinos e judeus viverem em harmonia, respeitando os espaços um do outro.
Combater com violência o terrorismo e atingir inocentes “do outro lado”, a
consequência será de surgir mais terroristas. Enfim, um ciclo vicioso de ação e
reação que não tem fim.
Eduardo Oliveira Freire
François Hollande admitiu hoje pela manhã que o Estado
Islâmico foi o responsável pelos atentados brutais em Paris. Poucos momentos
depois uma carta patética do grupo chegou ao jornal LE MONDE assumindo a
responsabilidade e fazendo novas ameaças. O Estado Islâmico foi criado por
Israel e pelos Estados Unidos com o objetivo de derrubar o governo do
presidente Bashar Al Assad da Síria e se apropriarem das reservas de gás
natural e petróleo daquele país. Quando a Rússia começou a bombardear posições
do EI, Estados Unidos e Israel reagiram, condenaram e até o pastel do chanceler
brasileiro enfiou Dilma nessa fria de condenar os ataques russos. Países da
OTAN, entre os quais se inclui a França, bombardeavam alvos sírios no disfarce
de atacar o EI. Na Assembléia Geral da ONU, Barack Obama propôs que os ataques
fossem conjuntos desde que Bashar deixasse o poder. Putin não aceitou e dizimou
bases do EI. Isso deixou a descoberto a hipocrisia dos que criaram o monstro. A
retaliação veio no ataque a um avião russo, com mais de 200 civis em território
egípcio com um míssil de longo alcance, que muitos observadores acreditam ter
sido disparado de Israel. A cobiça pela riqueza dos países árabes não tem
tamanho e nem escrúpulos. O resultado é essa barbárie, morrem civis. Não morre
Obama, não morre Hollande, não morre Cameron, permanece intocado o louco
Benajmin Netanyahu. Morrem inocentes. Ou percebem que a fonte do terror é
Israel, ou sempre vai haver pretexto para grupos de malucos como o EI. Aqui, um
comentarista da GLOBO e o apresentador do jornal, deram um jeito de ironizar a
solidariedade do presidente Bashar aos franceses. São robôs de uma organização
criminosa e terrorista em termos de mídia. É hora de olhar para outro lado e
compreender o papel insano de Israel e dos EUA no Oriente Médio, antes que o
problema crie contornos mais graves e faça mais vítimas que não os supostos
donos do mundo.
Laerte Braga
Power in the Age of Oi
"O primeiro passo para combater o terrorismo é não
aceitar pensar o mundo a partir das suas categorias, isto é, não ver o mundo de
uma maneira maniqueísta, simplória e racista. É exatamente o que os terroristas
do Estado Islâmico querem: que se compre a narrativa do "Nós contra
eles", do "choque das civilizações". É importante lembrar que as
maiores vítimas dos fascistas do EI são muçulmanos, sobretudo os xiitas, que
lutam contra o EI na Síria e no Iraque. Apesar dos membros do EI serem sunitas,
há também sunitas, como os curdos, que lutam contra o EI. Toda tentativa de
homogeneizar ou generalizar juízos acerca de um grupo humano tão vasto e plural
é um ato de ignorância.
Também deveríamos estar discutindo o que torna o terrorismo
materialmente possível. Eis aí um segredo de polichinelo: há muita grana de
doadores da Arábia Saudita, Qatar, Iêmen - os chamados países do Golfo -
financiando atividades terroristas ( http://goo.gl/RYAaoJ ). Há fortes indícios
que o dinheiro saudita esteja ajudando o EI ( http://goo.gl/eYKMF3 ). A Arábia
Saudita é o país que mais promove uma versão extremista do islamismo (a
vertente wahhabita), e só consegue ter sucesso nessa empreitada pois tem muitos
petrodólares. E aí se chega ao centro da questão: o terrorismo wahhabita é
indissociável da indústria de petróleo, pilar do capitalismo mundial (uma das
fontes de renda do EI é a venda de petróleo no mercado negro turco). Talvez
esse seja mais um bom motivo para gente depender cada vez menos de combustíveis
fósseis.
Para quem estiver interessado na relação entre as
"democracias ocidentais" e as ditaduras do petróleo no Oriente Médio,
recomendo o livro do cientista político Thimothy Mitchell, "Carbon
Democracy: Political
Power in the Age of Oil" PDF aqui: https://goo.gl/TsUryx"
https://www.youtube.com/watch?v=0dxdCuVL6Oofonte :Cesar Melo
As grandes corporações vendem armas, aparelham grupos
terroristas, fomentam guerras, elegem governos, provocam crises políticas,
destroem economias, devastam o meio ambiente, enterram cidades...lamentamos as
consequências, mas a causa é o sistema capitalista, monopolista, predatório.
Enquanto perdurar o capitalismo, ficaremos só nos lamentando.
André Castelo Branco Machado
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Um drama na caça
(...)Um Drama na Caça - tido por alguns como o único romance escrito por Tchékhov - é uma das suas primeiras produções publicadas. Foi servido aos leitores do "Novosti Dniá", em folhetins, no ano de 1884 e 1885 e, para assinar a obra, o autor serviu-se de dois pseudônimos: "Ante" de "Antone Tchekhonte". (...)
Anton Tchékhov - Editora Livros do Brasil – 2004
Só ocupando os "espaços públicos", que por serem
"públicos" são objeto de um interesse legítimo, no sentido de serem
custeados com dinheiro de impostos arrecadados as custas do trabalho do povo,
assim como pelo fato de serem geridos por um corpo de funcionários ali
colocados para servirem e representarem esta coletividade (pois está seria a
verdadeira função dos poderes instituídos) e que os cidadãos de São Paulo, do
Paraná, ou de qualquer outro estado e cidades geridas por governos neoliberais
poderão resistir a esse retrocesso, revestido de falácia, chamada de "reorganização
escolar". "Reorganizar" o que exatamente??? Não seria esse um
nome evasivo e pomposo para dizer que a educação deixará de ser tratada com a
prioridade que merece (desafio alguém a provar que numa sala de aula com 60 -
70 - 80 alunos, mal pago e munido unicamente de quadro e giz alguém consiga
educar um ser humano a sequer saber o que está fazendo ali naquele ambiente
insalubre) e que, em contrapartida, empresas, parlamentares e representantes do
executivo e do judiciário, poderiam livremente se apropriar, com uma ganancia
ainda maior que a cotidianamente demonstrada e conforme os seus mais escusos
interesses do "dinheiro público" em benefício próprio. A pergunta que
para mim fica e como alguém pode defender essa proposta, senão fazendo parte destas
"máfias, cartéis e esquemas" que irão se beneficiar ou assumindo uma
profunda ignorância e desconhecimento do assunto???
Will Coutinho Hamon
Apropriação privada do que era público é corrupção ? No caso
da privatização da Vale a apropriação privada dos rendimentos públicos da
empresa foi total, 100% de apropriação privada dos lucros desviados pelos
aspones neoliberais e seus apaniguados. As pessoas reclamam e com razão do escândalo
de apropriação privada na Petrobras conceituado como corrupção porque se trata
da apropriação privada de partes dos rendimentos públicos da empresa. Agora
entendemos porque a Vale desapareceu com o Rio Doce do seu nome em função da
privataria do PSDB.
Ricardo Costa de Oliveira
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
En la administración de correos
Anton Chejov
La joven esposa del viejo administrador de Correos
Hattopiertzof acababa de ser inhumada. Después del entierro fuimos, según la
antigua costumbre, a celebrar el banquete funerario. Al servirse los buñuelos,
el anciano viudo rompió a llorar, y dijo:
-Estos buñuelos son tan hermosos y rollizos como ella.
Todos los comensales estuvieron de acuerdo con esta
observación. En realidad era una mujer que valía la pena.
-Sí; cuantos la veían quedaban admirados -accedió el administrador-.
Pero yo, amigos míos, no la quería por su hermosura ni tampoco por su bondad;
ambas cualidades corresponden a la naturaleza femenina, y son harto frecuentes
en este mundo. Yo la quería por otro rasgo de su carácter: la quería -¡Dios la
tenga en su gloria!- porque ella, con su carácter vivo y retozón, me guardaba
fidelidad. Sí, señores; érame fiel, a pesar de que ella tenía veinte años y yo
sesenta. Sí, señores; érame fiel, a mí, el viejo.
El diácono, que figuraba entre los convidados, hizo un gesto
de incredulidad.
-¿No lo cree usted? -le preguntó el jefe de Correos.
-No es que no lo crea; pero las esposas jóvenes son ahora
demasiado..., entendez vous...? sauce provenzale...
-¿De modo que usted se muestra incrédulo? Ea, le voy a
probar la certeza de mi aserto. Ella mantenía su fidelidad por medio de ciertas
artes estratégicas o de fortificación, si se puede expresar así, que yo ponía
en práctica. Gracias a mi sagacidad y a mi astucia, mi mujer no me podía ser
infiel en manera alguna. Yo desplegaba mi astucia para vigilar la castidad de
mi lecho matrimonial. Conozco unas frases que son como una hechicería. Con que
las pronuncie, basta. Yo podía dormir tranquilo en lo que tocaba a la fidelidad
de mi esposa.
-¿Cuáles son esas palabras mágicas?
-Muy sencillas. Yo divulgaba por el pueblo ciertos rumores.
Ustedes mismos los conocen muy bien. Yo decía a todo el mundo: «Mi mujer,
Alona, sostiene relaciones con el jefe de Policía Zran Alexientch Zalijuatski».
Con esto bastaba. Nadie se atrevía a cortejar a Alona, por miedo al jefe de
Policía. Los pretendientes apenas la veían echaban a correr, por temor de que
Zalijuatski no fuera a imaginarse algo. ¡Ja! ¡Ja!... Cualquiera iba a enredarse
con ese diablo. El polizonte era capaz de anonadarlo, a fuerza de denuncias.
Por ejemplo, vería a tu gato vagabundeando y te denunciaría por dejar tus
animales errantes...; por ejemplo...
-¡Cómo! ¿Tu mujer no estaba en relaciones con el jefe de
Policía? -exclaman todos con asombro.
-Era una astucia mía. ¡Ja! ¡Ja!... ¡Con qué habilidad los
llamé a engaño!
Transcurrieron algunos momentos sin que nadie turbara el
silencio.
Nos callábamos por sentirnos ofendidos al advertir que este
viejo gordo y de nariz encarnada se había mofado de nosotros.
-Espera un poco. Cásate por segunda vez. Yo te aseguro que
no nos volverás a coger -murmuró alguien.
FIN
Biblioteca Digital Ciudad Seva
El pavo de Navidad
Mario de Andrade
Nuestra primera Navidad en familia, después de la muerte de
papá ocurrida cinco meses antes, fue de consecuencias decisivas para la
felicidad familiar. Nosotros siempre fuimos una familia feliz, en ese sentido
bien amplio de felicidad: gente honesta, sin crímenes, hogar sin peleas
internas ni graves dificultades económicas. Pero, debido en parte a la
naturaleza gris de mi padre, ser desprovisto de todo tipo de lirismo, instalado
en la mediocridad, siempre nos había faltado ese disfrute de la vida, ese gusto
por las felicidades materiales: un buen vino, un balneario, el refrigerador,
cosas así. Mi padre había sido un gran equivocado, casi dramático, el
pura-sangre de los esfuma-placeres.
Mi padre murió, lo sentimos mucho, etc. Cuando ya nos acercábamos
a la Navidad, yo no sabía qué hacer para poner distancia con esa memoria del
muerto que obstruía, que parecía haber sistematizado para siempre la obligación
de un recuerdo doloroso en cada comida, en cada mínimo gesto de la familia. Una
vez sugerí a mamá que fuera al cine a ver una película. ¡Se puso a llorar!
¡Dónde se vio ir al cine estando de luto riguroso! El dolor ya se cultivaba por
las apariencias, y yo, que siempre había querido bien a papá, más por instinto
filial que por espontaneidad del amor, me veía a punto de detestar al bueno del
muerto.
Fue sin lugar a dudas por eso que me nació, en este caso sí,
espontáneamente, la idea de hacer una de mis llamadas "locuras". Esa
había sido, en realidad, y desde muy niño, mi excelente conquista contra el
clima familiar. Desde muy temprano, desde los tiempos de la secundaria, en que
me las arreglaba para sacar regularmente un reprobado todos los años, desde el
beso a escondidas a una prima, cuando tenía diez años, descubierto por la tía
Velha, una tía detestable; y principalmente desde las lecciones que di o
recibí, no sé, de una criada, conseguí, en el reformatorio del hogar y con la
vasta parentela, la fama conciliadora de "loco". "¡Está loco, el
pobre!" decían. Mis padres hablaban con cierta tristeza condescendiente,
el resto de la parentela me buscaba como ejemplo para sus hijos y probablemente
con aquel placer de los que se convencen de alguna superioridad. No tenían
locos entre sus hijos. Pues esa fama es la que me salvó. Hice todo lo que la vida
me presentó y que mi ser exigía que se realizara con integridad. Y me dejaron
hacer de todo, porque era loco, pobrecito. El resultado de todo esto fue una
existencia sin complejos, de la cual no tengo nada de qué quejarme.
Siempre teníamos la costumbre, en la familia, de realizar la
cena de Navidad. Cena insignificante, ya puede usted imaginarse; cena tipo mi
padre: castañas, higos, pasas después de la Misa de Gallo. Empachados de
almendras y nueces (si habremos discutimos los tres hermanos por el cascanueces...),
empachados de castañas, nos abrazábamos e íbamos a la cama. Fue al recordar
esto que arremetí con una de mis "locuras".
-Bueno, para Navidad, quiero comer pavo.
Hubo una de esas sorpresas que nadie se imagina. Luego, mi
tía solterona y santa, que vivía con nosotros, advirtió que no podíamos invitar
a nadie debido al luto.
-¿Pero quién habló de invitar a alguien? Esa manía...
¿Cuándo comimos pavo en nuestra vida? Pavo aquí en casa es plato de fiesta,
viene toda esa parentela del demonio...
-Hijo mío, no hables así...
-Pues hablo y ya.
Y descargué mi helada indiferencia sobre nuestra parentela
infinita, dizque descendiente de bandeirantes, que poco me importa. Era el
momento para desarrollar mi teoría de loco, pobrecito, y no perdí la ocasión.
De sopetón me dio una ternura inmensa por mamá y tiita, mis dos madres, tres
con mi hermana, las tres madres que divinizaron mi vida. Siempre era lo mismo:
venía el cumpleaños de alguien y sólo así se hacía pavo en la casa. Pavo era
plato de fiesta: una inmundicie de parientes ya preparados por la tradición,
invadían la casa por el pavo, las empanaditas y los dulces. Mis tres madres,
tres días antes, lo único que sabían de la vida era trabajar preparando carnes
frías y dulces finísimos, pues estaban muy bien hechos. La parentela devoraba
todo y todavía se llevaba paquetitos para los que no habían podido venir. Mis
tres madres quedaban exhaustas. Del pavo, sólo en el entierro de los huesos, al
día siguiente, mamá y tiita probaban un pedacito de pierna, oscuro, perdido en
el arroz blanco. Y eso que era mamá quien servía, elegía para el viejo y para
los hijos. En realidad, nadie sabía concretamente qué era un pavo en nuestra
casa, pavo restos de fiesta.
No, no se invitaba a nadie, era un pavo para nosotros cinco,
cinco personas. Y tenía que ser con dos farofas, la gorda con los menudos y la
seca, doradita, con bastante mantequilla. Quería el buche rellenado sólo con
farofa gorda, a la que teníamos que agregar fruta negra, nueces y una copa de
Jerez, como había aprendido en casa de la Rosa, mi querida compañera. Está
claro que omití decir dónde había aprendido la receta y todos desconfiaron. Y
todos se quedaron en ese aire de incienso soplado...¿no sería tentación del
Diablo aprovechar una receta tan sabrosa? Y cerveza bien helada, garantizaba yo
casi a los gritos. Lo cierto es que con mis "gustos" ya bastante
refinados fuera del hogar, primero pensé en un buen vino bien francés. Pero la
ternura por mamá venció al loco, a mamá le encantaba la cerveza.
Cuando acabé mis proyectos, me di cuenta, todos estaban felicísimos,
con un inmenso deseo de hacer aquella locura con la que había irrumpido. Sabían
muy bien que era locura, sí, pero todos se imaginaban que yo era el único que
deseaba mucho aquello y era fácil echar encima mío la culpa de sus deseos
enormes. Se sonreían, mirándose unos a otros, tímidos como palomas desgarradas,
hasta que mi hermana asumió el consentimiento general:
-¡Aunque esté loco!...
Se compró el pavo, se hizo el pavo, etc. Y después de una
Misa de Gallo muy mal rezada, tuvimos nuestra Navidad más maravillosa. ¡Qué
chistoso! Cuando me acordaba que finalmente iba a lograr que mamá comiera pavo,
en esos días no hacía otra cosa que pensar en ella, sentir ternura por ella,
amar a mi viejita adorada. Y mis hermanos también, estaban en el mismo ritmo
violento de amor, todos dominados por la nueva felicidad que el pavo iba
imprimiendo en la familia. De modo que, aún disfrazando las cosas, dejé con
tranquilidad que mamá cortara toda la pechuga del pavo. En un momento mamá se
detuvo, luego de haber cortado en rebanadas uno de los lados del ave, sin
resistirse a aquellas leyes de economía que siempre la habían sumido en una
casi pobreza sin razón.
-No señora, siga cortando... y pedazos grandes ¡Yo solo me
como eso!
Era mentira, el amor familiar, estaba incandescente en mí de
tal forma, que hasta era capaz de comer poco, sólo para que los otros cuatro
comieran mucho. Y el diapasón de los otros era el mismo. Aquel pavo comido
entre nosotros solos redescubría en cada uno lo que la cotidianeidad había borrado
por completo: amor, pasión de madre, pasión de hijos. Dios me perdone pero
estoy pensando en Jesús. En esa casa de burgueses muy modestos, se estaba
realizando un milagro digno de la Navidad de un Dios. La pechuga del pavo quedó
enteramente reducida a rebanadas grandes.
-¡Yo sirvo!
-¡Qué loco! ¡Pero por qué tenía que servir si siempre mamá
había servido en esa casa! Entre risas, los grandes platos llenos fueron
pasando hasta mí y empecé una distribución heroica, mientras mandaba a mi
hermano a que sirviera la cerveza. Advertí un pedazo admirable de pavo lleno de
carnecita y lo puse en el plato. Y luego varias rebanadas blancas. La voz
severa de mamá cortó el espacio angustiado en el cual todos aspiraban a su
parte del pavo:
-¡Acuérdate de tus hermanos, Juca!
¿Cuándo iba a imaginarse ella?, ¡la pobre!, que ese era el
plato suyo, de la Madre, de mi amiga maltratada que sabía de la existencia de
Rosa, que sabía de mis crímenes, a quien sólo le contaba lo que hacía
sufrir!... El plato quedó sublime.
-Mamá, este es su plato. ¡No!... ¡No lo pase!
Fue entonces cuando ella no pudo más con tanta conmoción y
se puso a llorar. Mi tía también, después de ver que el siguiente plato sublime
era el suyo, entró en el asunto de las lágrimas. Y mi hermana también, que
jamás había visto lágrimas sin abrir una llave, se desparramó en llanto.
Entonces empecé a decir muchas tonterías para no llorar también, tenía
diecinueve años... Diablo de familia tonta que veía un pavo y lloraba... Esas
cosas... Todos se esforzaban por sonreír, pero ahora la alegría se tornaba
imposible. El llanto había evocado, por asociación, la imagen indeseable de mi
padre muerto. Mi padre, con su figura gris, vino a estropear para siempre
nuestra Navidad. ¡Me dio coraje!
Bueno, empezamos a comer en silencio, consternados, y el
pavo estaba perfecto. La carne tierna, de un tejido muy tenue, se mezclaba
entre los sabores de las farofas y del jamón, de vez en cuando herida,
molestada y vuelta a desear ante la intervención más violenta de la pasa negra
y el estorbo petulante de los pedacitos de nuez. Pero papá estaba sentado allí,
gigantesco, incompleto, una censura, una llaga, una incapacidad. Y el pavo
estaba tan rico, y mamá que por fin sabía que el pavo era un manjar digno de
Jesucito nacido.
Empezó una lucha baja entre el pavo y el bulto de papá.
Supuse que alentar al pavo era fortalecerlo en la lucha y, está claro, había
tomado decididamente el partido del pavo. Pero los difuntos tienen medios
escurridizos, muy hipócritas, como para vencerlos. En cuanto alabé al pavo, la
imagen de papá creció victoriosa, insoportablemente obstruyente.
-Sólo falta su papá.
Yo ni comía, ya no podía probar más ese pavo perfecto, tanto
me interesaba esa lucha entre los dos muertos. Llegué a odiar a papá. Y ni sé
qué inspiración genial de repente me volvió hipócrita y político. En aquel
instante que hoy me parece decisivo en nuestra familia, tomé aparentemente el
partido de mi padre. Fingí, triste.
-Y sí. Papá nos quería mucho y murió de tanto trabajar para
nosotros, papá allí en el cielo debe estar contento -dudé, pero resolví no
mencionar más al pavo-, contento de vernos a todos reunidos en familia.
Y todos, mucho más tranquilos, empezaron a hablar de papá.
Su imagen fue disminuyendo y se transformó en una estrellita brillante en el
cielo. Ahora todos comían el pavo con sensualidad, porque papá había sido muy
bueno, siempre se había sacrificado tanto por nosotros, había sido un santo que
"ustedes, mis hijos, nunca podrán pagar lo que deben a su padre", un
santo. Papá se transformó en santo, una contemplación agradable, una estrellita
en el cielo, imposible de deshacer. No perjudicaba más a nadie, puro objeto de
contemplación suave. El único muerto aquí era el pavo, dominador, completamente
victorioso.
Mamá, tía, nosotros, todos inundados de felicidad. Iba a
escribir "felicidad gustativa", pero no era sólo eso. Era un
felicidad mayúscula, un amor de todos, un olvido de otros parientes que
distraen del gran amor familiar. Y fue, sé que ese primer pavo comido en el
seno de la familia fue el comienzo de un amor nuevo, reacomodado, más completo,
más rico e inventivo, más complaciente y cuidadoso. Nació entonces una
felicidad familiar para nosotros que, no soy exclusivista, algunos tendrán
igual de grande, sin embargo más intensa que la nuestra, me es imposible
concebir.
Mamá comió tanto pavo que en un momento imaginé que podría
hacerle mal. Pero enseguida pensé: ¡Ah!, ¡no importa! aunque se muera, pero por
lo menos que una vez en la vida coma pavo de verdad.
Tamaña falta de egoísmo me había transportado a nuestro
infinito amor... Después vinieron una uvas ligeras y unos dulces, que allí en
mi tierra llevan el nombre de "bien-casados". Pero ni siquiera ese
nombre peligroso se asoció al recuerdo de mi padre, que el pavo ya había
convertido en dignidad, en cosa cierta, en culto puro de contemplación.
Nos levantamos. Eran casi las dos de la mañana, todos
alegres con dos botellas de cerveza encima. Todos se iban a acostar, a dormir o
a dar vueltas en la cama, poco importa, porque es bueno un insomnio feliz. La
cuestión es que Rosa, católica antes de ser Rosa, me había prometido que me
esperaría con una champaña. Para poder salir mentí, dije que iba a la fiesta de
un amigo, besé a mamá y le guiñé el ojo; era una manera de contar a dónde iba y
qué iba a hacer. Besé a las otras dos mujeres sin guiñarles el ojo. Y ahora,
¡Rosa!...
FIN
Traducción de Inés Van Messen
Biblioteca Digital Ciudad Seva
14 provérbios alemães
Morgenstund
hat Gold im Mund
Os alemães e suas rimas, desta vez para dar uma má notícia
aos dorminhocos: "A manhã tem ouro na boca". Trata-se de um ditado
latino, também difundido na variante "Aurora musis amica" – A aurora
é a amiga das musas. De forma menos poética, "Deus ajuda quem cedo
madruga" igualmente encoraja a diligência matinal. Ou, menos apetitoso:
"O pássaro madrugador é que pega a minhoca".
Wie man in
den Wald hineinruft, so schallt es heraus
"Como se grita na floresta, assim virá o eco"
seria a tradução quase literal desse ditado. Ou seja: o que se coloca no mundo
retorna da mesma forma, para o bem ou para o mal. Se o input for negativo,
portanto, é bom ter em mente que "Quem semeia vento, colhe
tempestade".
Der Apfel
fällt nicht weit vom Stamm
Semelhante a "Filho de peixe, peixinho é", "A
maçã não cai longe do tronco" é outro desses provérbios que convidam a um
uso ambivalente ou irônico. A ideia é que qualidades – boas ou más – são
herdadas das gerações anteriores. Portanto, atenção: se for dito como elogio,
ótimo. Se for insulto, é extensivo ao pai, à mãe e a sabe-se lá quantas
gerações.
Gelegenheit macht Diebe
"A ocasião faz o ladrão" – também na Alemanha.
Senão, e o escândalo da Volks? E o da DFB? Outra versão dessa noção é a
famigerada "lei de Gérson" (o jogador): "O importante é levar
vantagem". O provérbio resume uma tendência humana tão lamentável como
incorrigível, por isso nunca perde a atualidade. E, como "Ladrão que rouba
ladrão tem cem anos de perdão", a enxurrada de escândalos nunca terá fim.
Aller guten Dinge sind drei
Na vida e nas máquinas caça-níqueis, "Todas as coisas
boas vêm em três". A atração desse número em praticamente todas as
civilizações dispensa comentários: Três Parcas, Santíssima Trindade, as Três
Joias do budismo. Na China antiga, vencia em votação não a opinião da maioria,
mas a que alcançasse três votos exatos – o número da perfeição. Uma exceção:
"Um é pouco, dois é bom, três é demais".
Jeder ist sein Glückes Schmied
"Cada um é o forjador da própria sorte" é um
estímulo à autodeterminação que lembra a noção do "self-made man"
americano. O provérbio é uma variação de "Quisque faber suae
fortunae", registrado pelo cônsul romano Ápio Cláudio Cego, por volta do
ano 300 a.C.. Numa ironia histórica, o biógrafo Lívio atribuiu a cegueira de
Ápio a uma praga – rogada por outra pessoa, naturalmente.
Auch ein
blindes Huhn findet mal ein Korn
Datado de, no mínimo, 400 anos atrás, o dito "Até uma
galinha cega acaba achando um grão de milho" tem sentido ambivalente – e
também é empregado dessa forma. Pode significar que até o ser mais incapaz pode
obter um sucesso – por sorte ou por pura teimosia, porém sem mérito real. Ou
ser entendido como um incentivo aos menos capacitados, para que não percam a
esperança e continuem persistindo.
Lügen haben kurze Beine
A advertência de que "A mentira tem pernas curtas"
e, portanto, nunca vai muito longe, parece ser quase universal. Uma variante
africana reza: "Você pode comer uma vez com uma mentira, mas não
duas". Também sábia é a inversão de perspectiva contida no dito popular
inglês "Engana-me uma vez, vergonha para ti; engana-me duas, vergonha para
mim".
Einem
geschenkten Gaul schaut man nicht ins Maul
Precisamente "A cavalo dado não se olha os
dentes", só que rimando e com "boca" no lugar de
"dentes". Obviamente data de um tempo em que cavalos eram
considerados uma excelente prenda, e era má educação dar uma de dentista na
presença do presenteador. Pois o exame revelaria a idade e condição da montaria
– e, portanto, seu preço. Algo como, hoje, ir direto conferir no Google o valor
do presente.
Scherben bringen Glück
"Cacos trazem felicidade" lembra a tradição
judaica de quebrar copos de vidro no matrimônio, para simbolizar a destruição
do Templo de Jerusalém e desejar boa sorte ao casal. Na Alemanha, um costume
ligeiramente diferente é mantido até hoje: na "Polterabend", a noite
anterior ao casório, quebra-se tudo o que seja de louça: pratos, xícaras,
travessas – até mesmo um sanitário ou outro.
Kleider machen Leute
Assim como "O hábito faz o monge", trata-se de uma
variante do velho ditado latino "Vestis virus reddit" (As roupas
fazem o homem). Até hoje, a ideia é martelada em outdoors e revistas de moda
para justificar a importância – e o preço – da aparência exterior. Uma variação
genial é atribuída ao espirituoso autor americano Mark Twain: "Gente nua
tem pouca ou nenhuma influência na sociedade".
Viele Köche verderben den Brei
"Cozinheiros demais estragam o mingau" é a
tradução literal deste provérbio. A ideia é que, quando há gente demais dando
opiniões ou ordens, e ninguém para concentrar e filtrar os esforços, o resultado
é um fiasco. Enfim, uma apologia do trabalho organizado e da hierarquia, como
no brasileiro "Muito cacique para pouco índio".
Wer im
Glashaus sitzt, soll nicht mit Steinen werfen
Consta que "Quem tem telhado de vidro não atira pedras
no do vizinho" tem origem na Alemanha, embora não se saibam mais detalhes.
O ditado evoca a frase bíblica "Aquele que não tiver pecado que atire a
primeira pedra", pois sugere que, da mesma forma como, no fundo, ninguém é
sem pecado, de uma maneira ou de outra todos vivemos em casas com telhado de
vidro.
Ein gutes
Gewissen ist ein sanftes Ruhekissen
"Uma consciência livre é um travesseiro macio"
concorre entre os ditos populares mais simpáticos da Alemanha. Não faça o mal,
ele sugere, e você dormirá em paz. Palavras realmente sábias – embora sejam um
fraco consolo para quem sofre de insônia crônica.
Fonte : Deutsche Welle
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
1943: Goebbels declara guerra total
Em 18 de fevereiro de 1943, Joseph Goebbels, o ministro da
Propaganda de Hitler, proclamou a guerra total num discurso à nação em que
apelava ao nacionalismo.
Joseph Goebbels fala para 100 mil alemães, em Zweibrücken
"Eu lhes pergunto: Vocês querem a guerra total?"
Interrompido por aplausos e gritos de "sim", o orador insistiu na
pergunta. "Vocês a querem, se necessário, mais total e radical do que a
podemos imaginar hoje?". E recebeu nova ovação e um decidido
"sim" da plateia. Este foi o auge do discurso do chefe da propaganda
nazista, Joseph Goebbels (1897-1945), no dia 18 de fevereiro de 1943, diante de
14 mil pessoas reunidas no Palácio dos Esportes, em Berlim.
Essa mistura de ambição pelo poder e desprezo pelo ser
humano era típica do oportunista Goebbels. A Alemanha encontrava-se em ruínas e
a Segunda Guerra já estava decidida quando Goebbels tentou evocar, pela última
vez, o mito da "comunidade do povo" (Volksgemeinschaft).
O discurso no Palácio dos Esportes não passou de encenação,
gravada para transmissão por rádio e nos cinemas. A ideia lhe ocorrera em
outubro de 1942, quando se delineara a derrota de Stalingrado. A intenção era
não só entusiasmar os ouvintes, mas também os soldados nas frentes de batalha.
Apesar disso, Goebbels referiu-se à plateia que o ouvia ao
vivo como sendo "uma amostra da sociedade em seu todo". O sucesso do
rádio empolgou as multidões, por se tratar de um acontecimento fabuloso da
mídia na época. Seu efeito sugestivo foi enfatizado pelo suposto imediatismo e
a impressão de ser ao vivo. O programa, porém, havia sido gravado durante o dia
e só foi ao ar à noite.
Goebbels ressaltou ameaças judia e bolchevique
O discurso expressou a convicção pelos nazistas de sua
causa. Goebbels ainda aperfeiçoou tecnicamente os aplausos, para que tivessem o
efeito esperado no país e no exterior. Ressaltando a ameaça bolchevique, o
ministro da Propaganda tentou conquistar os países neutros e os aliados
ocidentais para uma luta conjunta contra a União Soviética. Insistiu também na
campanha de perseguição aos judeus. "A Alemanha não pretende se curvar à
ameaça judaica e, sim, enfrentá-la, se necessário, com o extermínio total e
radical do judaísmo", disse sob aplausos.
Goebbels ambicionava melhorar sua posição no comando
nazista. Nos anos 1930, ele havia sido uma figura marginal. Fora relegado a
segundo plano nas decisões que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial.
Apesar disso, era considerado um importante representante do regime nazista,
tanto no país como no exterior. Seu papel era propagar o culto ao Führer e
maquiar o caráter terrorista do regime de Hitler com a visão da
"comunidade do povo" (Volksgemeinschaft). Goebbels estava ligado ao
centro do poder através da propaganda.
Apelo veemente ao nacionalismo
O discurso de 18 de fevereiro de 1943 teve diferentes
repercussões no exterior. Hitler classificou-o como "obra-prima da
propaganda", uma advertência fatídica que combinava fascínio e violência
sutil. Nunca antes Goebbels havia apelado com tanta veemência ao nacionalismo,
à esperança e à perseverança de milhões de alemães.
Suas táticas para manipulação das massas, porém, já eram
conhecidas. Em 1938, alertara para a "crescente insatisfação do povo
alemão" com o Tratado de Versalhes. Com inédita habilidade, usou o rádio,
a fotografia e o cinema para propagar os ideais do nazismo. Tramou também a
chamada Noite dos Cristais de 9 de novembro de 1938, uma operação brutal
montada para vingar o assassinato de um diplomata alemão em Paris por um jovem
comunista judeu.
Goebbels alegou que foi um protesto espontâneo das massas,
mas hoje sabe-se que a "Noite dos Cristais" marcou o início de uma
nova fase do regime hitlerista: o nacional-socialismo deixava as camuflagens
para assumir o terror.
Perdida a guerra, os dois principais mentores desse terror -
o Führer e seu chefe de propaganda - escolheram o mesmo destino: suicidaram-se
em 30 de abril de 1945. No testamento escrito pouco antes do suicídio, Hitler
ainda nomeara Goebbels para sucedê-lo no cargo de chanceler do 3º Reich.
Autoria Michael Marek (gh)
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