terça-feira, 14 de maio de 2013

BLASÓN


Un día como hoy, en 1875, nace en Lima, José Santos Chocano, conocido como «El Cantor de América», autor de "Iras Santas", "Alma América", "Fiat Lux", entre otras.

BLASÓN

Soy el cantor de América autóctono y salvaje:
mi lira tiene un alma, mi canto un ideal.
Mi verso no se mece colgado de un ramaje
con vaivén pausado de hamaca tropical...

Cuando me siento inca, le rindo vasallaje
al Sol, que me da el cetro de su poder real;
cuando me siento hispano y evoco el coloniaje
parecen mis estrofas trompetas de cristal.

Mi fantasía viene de un abolengo moro:
los Andes son de plata, pero el león, de oro,
y las dos castas fundo con épico fragor.

La sangre es española e incaico es el latido;
y de no ser Poeta, quizá yo hubiera sido
un blanco aventurero o un indio emperador.
Adriana Zapparoli
efetos de un milagro extraño. deste infierno, una tempestad de ilusiones. la herida cicatriza. viajan, sin amargura, sus pensamientos el sigilo, en su propia ternura de siglos.
un monstruo nocturno. mutilado de lengua. las ligaduras, y el cerebelo,
su camino escucha el espejo y mira el silencio: un beso,
sin dientes la hoz.

A Montanha Mágica


” Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si ? Não, isso seria em verdade uma empresa tola. Uma história que rezasse: ‘o tempo decorria, escoava-se, seguia seu curso’ e assim por diante – nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história.''
- Hans Castorp.
[Thomas Mann; ''A Montanha Mágica''...capítulo sexto, página:739]

segunda-feira, 13 de maio de 2013

medidas de QI de membros de culturas diferentes


Falando de medidas de QI de membros de culturas diferentes, cito Timothy Mulholland: "Por mais que se esforçassem, nos últimos 100 anos, os pesquisadores da "inteligência" nunca conseguiram elaborar medidas livres da influência cultural. "Culture-free intelligence" does not exist. No final das contas, o que se avalia é o quanto o outro se parece comigo (ou meu grupo cultural). Ai se conclui o óbvio, eles são diferentes de nós--pra menos. Eu achava esse tema vencido nos anos 70. O ressurgimento agora só tem explicação ideológica, pois a científica inexiste."

Renato Janine Ribeiro

A Montanha Mágica


“No fundo constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a adaptação – por mais laboriosa que seja – e a mudança de hábitos à qual as pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado anterior. Intercala-se tal processo como uma espécie de interrupção ou entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de ‘restabelecimento’, quer dizer: para exercitar, renovar e revolucionar o organismo que corria perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na desarticulada monotonia da existência rotineira''

- Hans Castorp
[ Thomas Mann; '' A Montanha Mágica'']

Michel Lambert De Thomas Mann, j'ai lu "La Mort à Venise" (Der Tod in Venedig) ainsi que l'adaptation cinématographique de Luchino Visconti (avec la superbe musique de Gustav Mahler*).
J'ai lu aussi "La Montagne Magique" (Der Zauberberg) ; l'histoire vécue par Hans Castorp dans un sanatorium de Davos où il se rend pour visiter un cousin, puis se retrouve lui-même confiné dans l'établissement, observant les malades et convalescents et s'acclimatant avec peine à ce monde étrange, à cet air rude et pur, à cette existence d'oisiveté perpétuelle et de méditation sans frein...

Deux extraits :
(Le Docteur Krokovsky) : "... l'amour ne se laissait pas baîlloner, ne se laissait pas violenter... Il brisait le cercle magique de la chasteté et reparaissait, encore que sous une forme transformée et méconnaissable. Et quels étaient donc la forme et le masque sous lesquels l'amour non admis et refoulé réapparaissait ?... Le Docteur Krokovski dit : "Sous la forme de la maladie." Le symptôme de la maladie était une activité amoureuse déguisée et toute maladie était de l'amour métamorphosé..."

(Réflexions de Hans Castorp sur la matière et la maladie) : 
"... La maladie était la forme dépravée de la vie. Et la vie pour sa part ? Peut-être n'était-elle, elle aussi, qu'une maladie infectieuse de la matière, de même que ce qu'on pouvait appeler la genèse originelle de la matière n'était peut-être que maladie, que réflexe et prolifération de l'immatériel ? Le premier pas vers le mal, la volupté et la mort était sans nul doute parti de là où, provoqué par le chatouillement d'une infiltration inconnue, cette première condensation de l'esprit, cette végétation pathologique et surabondante de son tissu s'était produite qui, mi-plaisir, mi-défense, constituait le premier degré du substantiel, la transition de l'immatériel au matériel. C'était le péché originel..."

(*) Gustav Mahler, Symphonie n° 5 Adagietto :
http://www.youtube.com/watch?v=VWPACef2_eYVer tradução
Michel Lambert P.S. Tullio, pourrais-tu me dire de quel chapitre vient ton extrait ? C'est pour que je puisse le lire en bon français ! Ver tradução
Tullio Sartini não lhe foi a doença, Angela, e sim a saúde, também o anseio de ir mais longe, esperava o Olympo e o que lá encontrou não foram deuses e sim mortais; adoeceu, e refletiu que só no limite, onde se afia a morte na vida, pode-se visualizar a subida para existência, o 'ser-aí '
Tullio Sartini Oui,Michel, je peux essayer; fait partie de mes notes dans des mon cahier, que je lu du livre en portugais; ici à la maison [Teresópolis] j'ai seulement l'original allemand, quand je descends à Rio de Janeiro, je te pourrais voir la bibliothèque française.
[ deuxième chapitre- page: 145]

domingo, 12 de maio de 2013

BALADA DA MASTURBADORA SOLITÁRIA


by Anne Sexton

O final de um caso é sempre a morte.
Ela é a minha oficina. Olho escorregadio,
fora da tribo de mim mesma o meu fôlego
encontra-te ausente. Escandalizo
os que estão presentes. Estou saciada.
De noite, só, caso-me com a cama.


Dedo a dedo, agora é minha.
Ela não está demasiado longe. Ela é o meu encontro.
Toco-a como um sino. Reclino-me
no caramanchão onde costumavas montá-la.
Possuíste-me na colcha florida.
À noite, só, caso-me com a cama.


Toma por exemplo esta noite, meu amor,
em que cada casal mistura
com uma reviravolta conjunta, para baixo, para cima,
o dois abundante sobre esponja e pena,
ajoelhando-se e empurrando, cabeça contra cabeça.
De noite, só, caso-me com a cama.


Desta forma escapo do meu corpo,
um milagre irritante. Podia eu
colocar o mercado dos sonhos em exibição?
Espalho-me. Crucifico.
Minha pequena ameixa, dizias tu.
Á noite, só, caso-me com a cama.


Então chegou a minha rival de olhos escuros.
A dama de água, erguendo-se na praia,
um piano nas pontas dos dedos, vergonha
nos seus lábios e uma voz de flauta.
Entretanto, passei a ser a vassoura usada.
Á noite, só, caso-me com a cama.


Ela agarrou-te como uma mulher agarra
um vestido de saldo de uma estante
e eu parti da mesma forma que uma pedra parte.
Devolvo-te os teus livros e a tua cana de pesca.
No jornal de hoje dizem que és casado.
Á noite, só, caso-me com a cama.


Rapazes e raparigas são um esta noite.
Desabotoam blusas. Abrem fechos.
Descalçam sapatos. Apagam a luz.
As criaturas bruxuleantes estão cheias de mentiras.
Comem-se uns aos outros. Estão repletos.
Á noite, só, caso-me com a cama.



DOIS AMORES




Há amor parecido com a fumaça;
Se você chegar perto dele, ele se desfaz,
Dê-lhe liberdade, e ele não permanece...
É como a fumaça, mas eternamente jovem.

Há amor parecido com a sombra:
O dia inteiro fica aos teus pés, te escutando
De noite, silenciosamente, te abraça...
É como a sombra, está junto noite e dia...

~Innokenti Annenski

*original*

ДВЕ ЛЮБВИ

Есть любовь, похожая на дым:
Если тесно ей — она дурманит,
Дай ей волю — и её не станет…
Быть как дым — но вечно молодым.

Есть любовь, похожая на тень:
Днём у ног лежит — тебе внимает,
Ночью так неслышно обнимает…
Быть как тень, но вместе ночь и день…

~Иннокентий Анненский

FOUCAULT E A COMISSAO DA VERDADE



(Radio Metrópole 9.5.2013)

Affonso Romano de Sant Anna

Michel Foucault esteve no Rio em 1973, no mês de maio, fazendo palestras a convite do Departamento de Letras e Artes, que eu dirigia, Passaram-se 40 anos. É possível que muitos dos que me ouvem não tenham quarenta anos. Para mim e outros, 1973 foi ontem. A idade intemporaliza as coisas.
O fato e que Foucault veio falar sobre algo perigoso: " verdade. Como falar da “ verdade” no regime ditatorial em que vivíamos? Vou lembrar aos mais jovens: o general Médice governou entre 1969 e 1974. Foi o periodo mais duro da repressão, quando ocorreram sequestros de embaixadores e focos de guerrilha urbana e rural. Era um período em que os cidadãos desapareciam estranhamente. Na Argentina desapareceram 30 mil pessoas. E em 1973, ano em que Foucault aqui esteve, Allende foi derrubado no Chile.
Claro que tinha gente que gostava do que ocorria. Muitos ostentavam nos seus carros e janelas a frase: “Brasil ame-o ou deixe-o”. No Palácio do Planalto o general recebia os cantores de “Brasil eu te amo”. O Brasil era tricampeão mundial, e segundo os teóricos da esquerda, isto distraía o povo da revolução. O fato é que a escola de samba Beija Flor fez um enredo para agradar ao Médice, abordando o Funrural.
E aqui chega Foucault, que havia publicado um livro revolucionário sobre a história da loucura. Propunha também uma revisão, uma arqueologia do saber ocidental. E havia participado dos movimentos de maio 68 na França.
O auditório da PUC não era suficiente para tantos interessados em ver o filósofo. Muita gente fico do lado de fora, não pode entrar. Hoje quando a mesma universidade celebra a vinda de Foucault, vários telões foram colados além do auditório. Foi ali que, 40 anos depois rememorei alguns dos fatos da época ao abrir a sessão de debates, para a qual vieram alguns pensadores franceses convidados pelo Departamento de Direito e Letras.
O Brasil não é o mesmo daquele época. Paradoxalmente estão no poder os que antes eram guerrilheiros e exilados. Hoje existe a Comissão da Verdade apurando o que aconteceu naquela época. Foucault tinha um passado comunista. O muro de Berlim caiu, o comunismo acabou, a China de hoje é um paradoxo assombroso. Foucault chegou a apoiar o iatolá Komeini quando este votou ao Irã.
O que é verdade, o que é mentira?
O que diria Foucault se ressucitasse e viesse hoje aqui hoje?
A mais sensata maneira de homenagear Foucault e a “verdade”é produzir produzir um discurso “pós-foucaltiano”,além da suposta mentira e da suposta verdade. Foi o que tentei fazer.


sexta-feira, 10 de maio de 2013


<< A slave who has no conscience to be a slave and that does nothing to get rid of, it really is a slave. But a slave who is conscious of being a slave and struggling to free himself already is no longer a slave but a free man. >>

Vladimir Ulyanov Lenin


"medidas paliativas"


Alessandro Jucá

Uma coisa eu acho muito interessante. Geralmente quem diz: "Não sou a favor de medidas paliativas, pois o problema é mais profundo." ou "Não se deve dar o peixe e sim ensinar a pescar" quanto as questões sociais, são pessoas que têm o que comer, vestir, onde dormir e trabalho digno. O que penso é que são coisas bem diferentes, mas uma não exclui a outra. Dar comida a quem tem fome e criar uma forma de promover o crescimento e a dignidade de um ser humano são ou podem ser perfeitamente complementares. O sujeito dizer que o problema da fome se resolve com educação, tranquilo, tem um fundamento interessante quanto a abrangência, a médio e longo prazo. O problema da fome, a educação ajuda a resolver com certeza, porém o problema da fome real e não a do conceito do que esta seja para as ciências sociais, a fome do cidadão que não tem o que comer, só se resolve comendo, mesmo que de repente o país decidisse investir 40% do arrecadado em educação. Diante disso, como uma orientação, eu sugiro a experimentação científica do argumento: Você e seus filhos estão com fome? Façam jejum (importante para a conclusão da pesquisa), peça que seus filhos, assim como você, aguardem alguns anos e mãos a obra: vá estudar e se dedique a aprender, a se qualificar para que seu currículo seja o melhor dos melhores, e quando finalmente você provar pra si mesmo e pra todos que você consegue um lugar no mercado e que você não é só mais um preguiçoso parasita que vive do dinheiro público, observe se seu estômago parou de doer, se seus filhos pararam de chorar pedindo comida e faça uma tese defendendo seu ponto de vista de que a educação adquirida por você resolveu a SUA fome e a de sua família.



Dia da Vitória


*Dia da Vitória*

Dia da Vitória, quão longe estava de nós,
Como uma brasa encolhida no fogo minguante.
Verstas de distância, queimadas e empoeiradas.
Nós fizemos tudo o que podíamos para apressar esse dia.

Este é o Dia da Vitória
Cheirando a pólvora,
Este é um feriado
Grisalho nas têmporas.
Isto é alegria
Com lágrimas nos olhos.
Dia da Vitória!
Dia da Vitória!
Dia da Vitória!

Dias e noites em francas fornalhas
Nossa Pátria gastou, insone.
Dias e noites nós lutamos uma dura batalha
Nós fizemos tudo o que podíamos para apressar esse dia.

Este é o Dia da Vitória...

Olá, mãe, nem todos de nós voltamos...
Desejo correr de pés descalços no orvalho!
Metade da Europa, nós atravessamos, metade da Terra,
Nós fizemos tudo o que podíamos para apressar esse dia.

Este é o Dia da Vitória...

~em russo~

*День Победы*

День Победы, как он был от нас далёк,
Как в костре потухшем таял уголёк.
Были вёрсты, обгорелые, в пыли –
Этот день мы приближали как могли.

Этот День Победы
Порохом пропах,
Это праздник
С сединою на висках.
Это радость
Со слезами на глазах.
День Победы!
День Победы!
День Победы!

Дни и ночи у мартеновских печей
Не смыкала наша Родина очей.
Дни и ночи битву трудную вели –
Этот день мы приближали как могли.

Этот День Победы…

Здравствуй, мама, возвратились мы не всё...
Босиком бы пробежаться по росе!
Пол-Европы, прошагали, пол-Земли –
Этот день мы приближали как могли.

Этот День Победы…



ERRO


 (Machado de Assis)

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Não foi amor, foi apenas
Uma ligeira impressão;
Um querer indiferente,
Em tua presença, vivo,
Morto, se estavas ausente,
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
É que, — como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu vão amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro... Vãs quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e não como eras...

Poema extraído de Crisálidas de Machado de Assis.



terça-feira, 7 de maio de 2013

entrevista sobre literatura


"O Dairan Paul, da Universidade Federal de Santa Maria, me pediu uma entrevista sobre literatura. Republico-a abaixo, no caso de que interesse a alguém.
 
1) Um estudo da professora Regina Dalcastagnè, da UnB, revelou alguns dados sobre a produção literária brasileira entre os anos de 1990-2004: 72,7% dos romances foram escritos por homens, sendo que 93,9% dos autores são brancos. O que você pensa sobre essa exclusão que existe no campo literário? Podemos afirmar que há um elitismo no campo literário, ao menos no Brasil?
 
Sem dúvida, há um componente de elitização que acompanha a literatura, muito especialmente no Brasil, dado o abismo de letramento que constitui a sociedade brasileira. Mesmo em comarcas mais comparáveis à nossa, como a Argentina, isso não se aplica da mesma forma, posto que lá a própria constituição do estado nacional foi mediada por um processo letrado. Nesse sentido, os resultados da pesquisa de Regina não surpreendem. O que posso dizer é que conheço bem o rigor e a seriedade do trabalho anterior de Regina, mas dessa pesquisa, em particular, só li, até agora, resumos e reportagens. Seria leviano tecer qualquer consideração sem ler a pesquisa na íntegra, o que pretendo fazer em breve, embora, à primeira vista, tanto os resultados como a inspiração do trabalho só reforcem minha admiração por ela.
 
2) Alguns críticos escrevem que a literatura marginal é um mero relato cotidiano, sem valor literário e apreciação estética de um texto canônico. Como isso se diferenciaria de textos de autores consagrados, como Rubem Fonseca, que escrevem também sobre estes espaços periféricos?
 
Sobre isso, sim, acredito que posso lhe dizer algo, tendo trabalhado um pouco com as noções de valor estético e de cânone literário. Consultando uma publicação minha na Revista Brasileira de Literatura Comparada de 2009 (http://bit.ly/16SyQjt), você terá os fundamentos. A resposta curta é: basicamente, em nada. Não se diferenciam em nada relevante. É evidente que o texto de Rubem Fonseca é diferente do texto de Ferrez. Dizê-lo é recorrer a uma tautologia. Relevante, aqui no caso, é outra coisa. É o fato de que não há nada, no texto de Rubem Fonseca, que o faça intrínseca, imanentemente dotado de um valor literário, estético, ausente no texto de Ferrez. Se você quiser determinar por que o primeiro circula legitimado pelos códigos da estética e o segundo, não, você terá que ir a outro lugar: aos processos de produção, circulação e consumo desses textos e à constituição de pactos e comunidades interpretativas que legitimam certos objetos como estéticos e outros, não. Claro que não se trata de uma operação puramente vertical, conspiratória. Essa legitimação se dá no interior de lutas interpretativas que não estão imunes a fluxos contra-hegemônicos. Mas há que se desbancar o raciocínio tautológico que elenca características imanentes à obra dotada de valor estético, estabelecendo-as através de uma lista de autores que supostamente as possuiriam, lista à qual, é claro, só se chega por uma busca daquelas mesmas características de que você partiu no começo do raciocínio. Como costumo dizer, não é à toa que os alunos não aceitem isso facilmente. Eles estão certíssimos.
 
3) A literatura pode perpetuar preconceitos e/ou ideologias? O que você pensa de casos como o de Monteiro Lobato, acusado de racismo em suas obras?
 
Sim, evidentemente a literatura pode perpetuar preconceitos e ideologias. No caso de Monteiro Lobato, eu teria que recomendar o texto de Ana Maria Gonçalves, “Não é sobre você que devemos falar” (http://bit.ly/16SzFJe), a melhor análise que conheço dessa questão. O que é mais notável no caso de Lobato é a fúria com que se reagiu a uma descoberta filológica banal, patente: a de que Lobato foi, sistemática, reiteradamente, um propagandista não só do racismo mais odioso como um defensor do extermínio de negros e um admirador da Ku Klux Klan. Incapaz de retrucar ao simples empilhamento de citações, evidências e provas do fato, o negacionista brasileiro recorre, em geral, a uma operação curiosa. Ele dá testemunho de ter lido Lobato e não ter se tornado racista. Descobri, ao longo de minha participação neste debate, que Lobato deve ter sido lido por dezenas de milhões de pessoas, mais gente do que os milhões que declaram ter estado no acanhado estádio da Rua Javari quando Pelé fez seu famoso, e não filmado, gol de placa contra o Juventus. Mais notável ainda, todos eles declaram com absoluta certeza não terem se tornado racistas, num país em que mais de 90% da população reconhece a existência do racismo (ao mesmo tempo em que, claro, mais de 90% declara não ter nenhum preconceito racial). O brasileiro branco se acha uma ilha de tolerância cercada de racismo por todos os lados, mas basta colocar em pauta um caso óbvio, gritante de racismo, para que o negacionismo se veja de forma nítida, em geral com um furor que recorre a termos como “censura” antes sequer de que se coloque em pauta o problema de se indicar ou não livros de um racista como ele a crianças de nove ou dez anos de idade na escola pública. O caso Lobato é uma grande lição sobre os mecanismos através dos quais opera o negacionismo no Brasil.
 
4) Por fim, a função social da literatura não se perderia nessa falta de representação não-estereotipada de minorias? Você encara a produção literária atual do Brasil com otimismo ou pessimismo?
 
Para isso, inspiro-me em Walter Benjamin e, portanto, acredito que otimismo e pessimismo são duas faces da mesma moeda. Não vejo a História como progresso e não acredito em períodos de declínio. Creio que as avaliações totalizadoras do presente padecem de excessiva generalização e insuficiente leitura. Dedico boa parte de meu tempo à leitura da literatura brasileira contemporânea e não entendo como alguns, que visivelmente leram muito pouco, proclamam com tanta certeza que vivemos um período de declínio. O argumento de que “já não há Clarices ou Rosas” é risível, posto que o conceito de valor literário com o qual trabalhamos hoje, no interior das comunidades interpretativas que leem e avaliam a literatura brasileira, foi, em grande parte, estabelecido pela própria Clarice e pelo próprio Rosa – ou seja, pela circulação, canonização e consumo de seus textos. Dizer que “já não há Clarices ou Rosas” é, portanto, continuar no terreno da tautologia. O que posso lhe dizer é que há inúmeros autores vivos que continuo lendo com enorme gosto e proveito: Milton Hatoum, Zulmira Ribeiro Tavares, Cristóvão Tezza, João Gilberto Noll, Ana Miranda, Carlos Sussekind, Ricardo Lísias, Silviano Santiago, Rubens Figueiredo, Santiago Nazarian, Luiz Ruffato, Ana Maria Gonçalves, Chico Buarque de Hollanda, Veronica Stigger, Ariano Suassuna, Carola Saavedra, Bernardo Carvalho, Paulo Lins, Fabio Weintraub, Elvira Vigna-Marú, Paulo Henriques Britto, Carlito Azevedo, Manoel de Barros, Eduardo Sterzi, Ricardo Guilherme Dicke, Ferrez e Pádua Fernandes são apenas alguns dos meus favoritos. Não me parece uma era de declínio."

 Idelber Avelar Guarani Kaiowá - por Mario Pinheiro.

Fonte : Haya del Bel

Erich Fried__________________

(Vienna, 6 maggio 1921 – Baden-Baden, 22 novembre 1988

Quando ti bacio
non è solo la tua bocca
non è solo il tuo ombellico
...non è solo il tuo grembo
che bacio
Io bacio anche le tue domande
e i tuoi desideri
bacio il tuo riflettere
i tuoi dubbi
e il tuo coraggio

il tuo amore per me
e la tua libertà da me
il tuo piede
che è giunto qui
e che di nuovo se ne va
io bacio te
così come sei
e come sarai
domani e oltre
e quando il mio tempo sarà trascorso

 

Canción por la unidad latinoamericana


El nacimiento de un mundo
Se aplazó por un momento
Fue un breve lapso del tiempo
Del universo un segundo

Sin embargo parecia
Que todo se iba a acabar
Con la distancia mortal
Que separó nuestras vidas

Realizavan la labor
De desunir nossas mãos
E fazer com que os irmãos
Se mirassem com temor

Cunado passaron los años
Se acumularam rancores
Se olvidaram os amores
Parecíamos estraños

Que distância tão sofrida
Que mundo tão separado
Jamás se hubiera encontrado
Sin aportar nuevas vidas

E quem garante que a História
É carroça abandonada
Numa beira de estrada
Ou numa estação inglória

A História é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue

É um trem riscando trilhos
Abrindo novos espaços
Acenando muitos braços
Balançando nossos filhos

Lo que brilla con luz propia
Nadie lo puede apagar
Su brillo puede alcanzar
La oscuridad de otras costas

Quem vai impedir que a chama
Saia iluminando o cenário
Saia incendiando o plenário
Saia inventando outra trama

Quem vai evitar que os ventos
Batam portas mal fechadas
Revirem terras mal socadas
E espalhem nossos lamentos

E enfim quem paga o pesar
Do tempo que se gastou
De las vidas que costó
De las que puede costar

Já foi lançada uma estrela
Pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela

Chico Buarque de Holanda

sábado, 4 de maio de 2013


Retrovisor



O presente é o instante em que a roda
do automóvel em alta velocidade toca
minimamente o chão. E a parte da roda
que ainda não tocou tocará num imediato
que absorve o instante presente e torna-o
passado. Eu, viva e tremeluzente como
os instantes, acendo-me e me apago,
acendo e apago, acendo e apago...

Clarice Lispector (1925-1977).

Peixes voadores:
ao golpe do ouro solar
estala em estilhaços o vidro do mar.

José Juan Tablada

Tradução: Olga Savary

quarta-feira, 1 de maio de 2013


"Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele."

- Fiódor Dostoiévski, Memórias do subsolo (Записки из подполья), 1864.

Perguntas de um trabalhador que lê


 Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão os nomes dos reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra? / E a Babilonia varias vezes destruida - / Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas / Da Lima dourada moravam os construtores? / Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta? / A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. / Quem os ergueu? Sobre quem / triunfaram os Césares? A decantada Bizancio / tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida / os que se afogavam gritaram por seus escravos / na noite em que o mar a tragou. / O jovem Alexandre conquistou a Índia. / Sozinho? / Cesar bateu os gauleses. / Não levava sequer um cozinheiro? / Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada / naufragou. Ninguém mais chorou? / Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos. / Quem venceu além dele? Cada página uma vitória. / Quem cozinhava o banquete? / A cada dez anos um grande homem. / Quem pagava a conta? / Tantas histórias. / Tantas questões.

(Bertold Brecht)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Catedral da Assunção


Em 30 de abril de 1472, foi fundada no Kremlin de Moscou a Catedral da Assunção, a principal igreja da Rússia, que serviu como local para o enterro das autoridades eclesiásticas russas, e hoje expõe também o trono do Czar Ivã, o Terrível, confeccionado em 1551. Além disso, o local servia como um importante prédio público, tendo sido palco da coroação de czares russos entre 1498 e 1896. Conta-se que o candelabro central dessa catedral foi feito com prata confiscada do exército de Napoleão pelos soldados russos, em 1812.


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