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domingo, 12 de maio de 2013

FOUCAULT E A COMISSAO DA VERDADE



(Radio Metrópole 9.5.2013)

Affonso Romano de Sant Anna

Michel Foucault esteve no Rio em 1973, no mês de maio, fazendo palestras a convite do Departamento de Letras e Artes, que eu dirigia, Passaram-se 40 anos. É possível que muitos dos que me ouvem não tenham quarenta anos. Para mim e outros, 1973 foi ontem. A idade intemporaliza as coisas.
O fato e que Foucault veio falar sobre algo perigoso: " verdade. Como falar da “ verdade” no regime ditatorial em que vivíamos? Vou lembrar aos mais jovens: o general Médice governou entre 1969 e 1974. Foi o periodo mais duro da repressão, quando ocorreram sequestros de embaixadores e focos de guerrilha urbana e rural. Era um período em que os cidadãos desapareciam estranhamente. Na Argentina desapareceram 30 mil pessoas. E em 1973, ano em que Foucault aqui esteve, Allende foi derrubado no Chile.
Claro que tinha gente que gostava do que ocorria. Muitos ostentavam nos seus carros e janelas a frase: “Brasil ame-o ou deixe-o”. No Palácio do Planalto o general recebia os cantores de “Brasil eu te amo”. O Brasil era tricampeão mundial, e segundo os teóricos da esquerda, isto distraía o povo da revolução. O fato é que a escola de samba Beija Flor fez um enredo para agradar ao Médice, abordando o Funrural.
E aqui chega Foucault, que havia publicado um livro revolucionário sobre a história da loucura. Propunha também uma revisão, uma arqueologia do saber ocidental. E havia participado dos movimentos de maio 68 na França.
O auditório da PUC não era suficiente para tantos interessados em ver o filósofo. Muita gente fico do lado de fora, não pode entrar. Hoje quando a mesma universidade celebra a vinda de Foucault, vários telões foram colados além do auditório. Foi ali que, 40 anos depois rememorei alguns dos fatos da época ao abrir a sessão de debates, para a qual vieram alguns pensadores franceses convidados pelo Departamento de Direito e Letras.
O Brasil não é o mesmo daquele época. Paradoxalmente estão no poder os que antes eram guerrilheiros e exilados. Hoje existe a Comissão da Verdade apurando o que aconteceu naquela época. Foucault tinha um passado comunista. O muro de Berlim caiu, o comunismo acabou, a China de hoje é um paradoxo assombroso. Foucault chegou a apoiar o iatolá Komeini quando este votou ao Irã.
O que é verdade, o que é mentira?
O que diria Foucault se ressucitasse e viesse hoje aqui hoje?
A mais sensata maneira de homenagear Foucault e a “verdade”é produzir produzir um discurso “pós-foucaltiano”,além da suposta mentira e da suposta verdade. Foi o que tentei fazer.


domingo, 9 de dezembro de 2012

VIDA


VIDA

A vida
ávida.
A vida
havida.

a vida
ah!vida.
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Affonso Romano Santanna

(Vestigios, Rocco,p.127)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CANIBALISMO REPENSADO



Às vezes tenho a imprensão
que, apressado, vivo deglutindo a vida
pensando em comer-comer
com a voracidade do gourmand
sem a sutileza do gourmet.

Às vezes, penso que estou, na pressa
perdendo o sabor, o refino do tempero
o bouquet do sentimentos
e que os fatos e pessoas
é que finalmente me devoram.

Estou cansado disto.

Paro. Penso. E , então, escrevo:
Oh! vida, que generosa tens sido!
Adeus canibalismo apressado!
Começo a saborear minúcias
quero mais delicadezas
na minha cama
na minha mesa.

Affonso Romano de Sant'Anna

 (POESIA REUNIDA, L&PM, VOL.2 P 238)