sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Penitentes da Lagoa, 1999.Barbalha, CE

Não estranhem os estrangeirismos

Com alguma regularidade, volta-se a discutir o que pensar a respeito do uso de palavras estrangeiras na língua portuguesa. Há mesmo um deputado com um projeto maluco pretendendo proibir estrangeirismos – a febre legislativa dessa gente é indomável.



O curioso é que a questão é apresentada como se fosse nova, algo que só atualmente, com a informática, os filmes americanos, a música pop, a linguagem dos técnicos em administração e economia, estivesse acontecendo.



Aí começa o equívoco, que acaba levando de arrasto uma série de discussões que se transformam num show (olha o estrangeirismo!) de desencontros. Basta uma olhada nas palavras que usamos para descobrir, com uma grande frequência, a intromissão de vocábulos de outras línguas. Coisa que não é nova.



Uma primeira coleção de palavras ingressou no português, vinda dos idiomas indígenas, talvez mais do que suspeitamos. Vejam só: o saboroso guaraná, a inocente paçoca, o Maracanã, a afoita perereca, etc. Sem falar no magnífico urubu. Além disso, nomes de lugares e de pessoas.



A seguir, palavras que vieram de línguas africanas. Começa pelo samba, a senzala, a batucada, o bafafá. E o esporte nacional, o fuxico. O quiabo e o dendê. Como contar a história do Brasil sem falar em cangaço e da música popular sem falar em berimbau? E a bagunça política? O menino pode ser guri ou moleque. O cachimbo, o macaco e a quitanda. E há a onipresente e imbatível – no bom sentido – bunda.



Todo esse vocabulário já está incorporado definitivamente ao falar e escrever brasileiro, embora exista quem pense que sejam portuguesas. Então, viria a pergunta: o que faremos com tais palavras, caso nos obstinarmos a espantar todo estrangeirismo?



Mas não é só. Antes do inglês, através dos dois impérios recentes – Grã-Bretanha e EUA –, o francês era bastante falado no Brasil (não por todas as classes, como é óbvio) e deixou pelo caminho muitas palavras e expressões que incorporamos há muitas décadas, na verdade há mais de um século. Lá vai: maiô, complô, batom, tricô, sutiã, guichê, metrô, vanguarda. E o indispensável garçom. Eu passei a infância chamando armário ou prateleira de “etagér” (étagère).



Depois veio o inglês, que tanta preocupação desperta nos puristas. Mas não é raro esquecermos contribuições, não desprezíveis, vindas das línguas faladas por imigrantes italianos, espanhóis, alemães etc. Influência, como todas as outras, que se dá não apenas no vocabulário, mas no próprio modo de produzir frases e expressões. Penso especialmente no italiano, de grande presença no linguajar popular brasileiro, mas também no texto literário, sobretudo de escritores paulistas, gaúchos, paranaenses e catarinenses. De Adoniran Barbosa a Sérgio Faraco, o italiano está sempre presente. De minha parte, lembro que usei vocábulos e formas de expressão com influência italiana quando escrevi o romance Os Dias do Demônio, que se passa no sudoeste do Paraná.



Essa falsa polêmica contra os estrangeirismos ignora o que ocorreu com a língua portuguesa quando veio ela própria transplantada para o Brasil. E é interessante lembrar que o “perigo” dos estrangeirismos é relativo e muito exagerado. Assim como certas palavras ou expressões foram incorporadas, outras sumiram depois de um sucesso momentâneo. Há algumas décadas, tudo que era grande, importante, admirável, marcante, era chamado de big – pois é, sumiu. Calça feminina, comprida, era chamada de eslaque (do inglês, slake) – hoje pode parecer ofensa.



O uso assimila ou rejeita certas modas. É tudo. E isso só faz enriquecer a língua. A língua que hoje falamos ou escrevemos, está muito longe daquela falada pelos primeiros portugueses que vieram para o Brasil, e também está distante da língua que se fala hoje em Portugal. Enfim, a língua é algo vivo, dinâmico, mutante e, como todo organismo vivo, assimila, rejeita ou transforma, conforme as circunstâncias, aquilo com que entra em contato.



Enfim, alguma paciência e certa dose de antropofagia, como queria Oswald de Andrade, poderiam colocar ordem nessa polêmica inútil.

Roberto Gomes
Fonte:Gazeta do Povo .05/12/2010



Romaria de Nossa Senhora Aparecida, 1999.Aparecida.SP

Fugindo de dezembro

Como faço todo fim de ano, também agora consegui uma semana de refúgio em dezembro, o mês alucinado – parece que algum tóxico se espalha na cidade e as pessoas enlouquecidas saem às ruas como formigas cujo formigueiro foi atacado. Os sentimentos em geral são bons, é preciso reconhecer – a fantasia de que o fim de ano é época de paz, amor, compreensão, tolerância e solidariedade é tão forte que as pessoas acabam acreditando nela, pelo menos no âmbito familiar. E o modo de demonstrar esses bons sentimentos é simples e direto: encher os shoppings e as sacolas e trocar presentes. Nada contra: é isso que faz mover a máquina do mundo. Mas para dizer que ainda tenho alguma metafísica na alma, sinto que há também uma certa percepção de um ciclo que se encerra e outro que se abre, simbolicamente poderosa, como se estivéssemos ainda vivendo sob a dura natureza ao sabor renovado das estações, aliás nítidas como nos filmes, e não embaralhadas como em Curitiba.



Saiba mais

A crise de sempreVaga (tecnológica) para idososPensamento chapadoTudo bem, mas como agora estou assumindo meu ansiado papel de velho esquisito, o que eu sempre quis ser desde criança, desci para o litoral, no deserto de Gaivotas, que no dezembro que antecede o Natal tem as características de um paraíso: não há nada a fazer, nada a ver, nada a pensar. Nem uma viva alma nas ruas – aqui e ali, raros, um ou outro operário trabalhando. O caminhão do lixo está mesmo passando de dois em dois dias, o que nos protege das moscas. E banho de mar, só para malucos – sou do tipo vampiro, dos que viram pó à luz do sol. Que, aliás, maravilha das maravilhas, praticamente não está aparecendo. Na dúvida, trouxe a caixa de ferramentas, para enfim fazer uma prateleirinha que venho planejando há uma década. Desta vez, abrindo o portão rangente, descubro que a única coisa que roubaram da casa – à falta de qualquer outro bem fungível além da geladeira, que é grande e pesada – foi a velha antena externa de televisão.



Tranquilo aqui na varanda, posso até ouvir a grama crescer. Mas algo extraordinário aconteceu, percebi acompanhando o dedo apontado do Felipe, meu filho: de uma toca do quintal saíram dois pterodáctilos, ou duas miniaturas de tiranossauros rex (não tão miniaturas: mais de meio metro cada), lagartões pré-históricos. Lentos, desconfiados, mimetizando cuidadosamente o mato em torno, saíram passo a passo da toca para o ar livre, arrastando os rabos imensos. Não pareceram malfeitores, concluí, depois do susto inicial. Invejei neles a capacidade de ficar imóveis, absolutamente imóveis, como monges do Tibete contemplando a neve da montanha.



E exigem silêncio, se queremos a companhia deles – o mínimo gesto brusco e ambos desaparecem no buraco como por mágica. Uma hora depois, desconfiança redobrada, voltam a mostrar as caras, testando a nossa capacidade de ficar quietos. E são poderosos – já estou praticamente domesticado por eles.


Cristovão Tezza.
Fonte:Gazeta do Povo.14/12/2010

Romaria de São Francisco das Chagas, 1999.Canindé, CE

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

La marcha de Afrodita

Por todas las tierras de Illarión, desde los valles y montañas coronadas con nieves perpetuas, hasta las poderosas colinas cuyo reflejo oscurece un mar tranquilo y tibio, estaban encendidos los antiguos fuegos verdes y amatistas del verano. Se aspiraban especias en el viento que azotaba el rostro de los montañeros al escalar los altos glaciares, y el más antiguo bosque de cipreses, que se deslizaba ceñudamente sobre una bahía de límpido cielo, estaba iluminado por las orquídeas de color escarlata... Pero el corazón del poeta Phaniol era una urna de negro jade fraguada por el amor con cenizas apagadas. Deseoso de olvidar por algún tiempo la socarronería de las zarzamoras, Phaniol caminaba solitario por el desierto que rodeaba a Illarión; era un lugar ennegrecido tiempo atrás por grandes hogueras, y que nunca había conocido los pinos, las violetas, los cipreses o las zarzamoras. Al caer la tarde llegó a un océano virgen, de aguas oscuras y estáticas bajo el sol poniente, exento del murmullo inmemorial propio de otros mares. Phaniol se paró y anduvo distraído por la costa cenicienta, soñando de cuando en cuando con ese mar llamado Oblivion .

Entonces, bajo el sol yacente cuya cegadora luz iluminaba su frente, apareció una barca que suavemente se deslizó hasta tierra; pero no había viento y los remos colgaban inertes sobre olas sin cresta espumosa. Phaniol advirtió que la barca estaba construida con madera de ébano, decorada con extraños anaglifos y lujosamente tallada con imágenes de dioses y bestias, sátiros, diosas y mujeres, siendo la figura principal la de un Eros negro, de serios labios carnosos y llenos, e implacables ojos de zafiro de mirada extraviada, como si estuviesen contemplando intensamente cosas innombrables o desconocidas. A bordo venían dos mujeres, una de ellas pálida como la luna polar, y la otra tan negra como una noche ecuatoriana. Ambas llevaban vestidos imperiales, y su talante era el propio de las diosas, o de quienes habitan con ellas. Sin pronunciar una sola palabra y sin un solo gesto, contemplaron a Phaniol, quien a pesar de su asombro preguntó:

-¿Qué buscan?

Entonces, con una voz que más parecía la voz del jardín de las Hespérides entre las palmeras, durante un anochecer en las islas Afortunadas, respondieron:

-Esperamos a la diosa Afrodita, quien presa de tristeza y desolación abandona Illarión, así como todos los países de este mundo de amores fugaces y mortales efímeros. Tú, puesto que eres poeta y has conocido la gran tiranía del amor, contemplarás su marcha. Pero ellos, los cortesanos, mercaderes y sacerdotes no recibirán ningún mensaje, ninguna señal de su partida, y en modo alguno podrán imaginarse que se ha marchado... Ahora, oh Phaniol, están próximos el tiempo, la diosa y la despedida.

Apenas habían terminado de hablar, cuando a través del desierto llegó Afrodita, y su llegada provocó una luz sobre las colinas, y por donde caminaba disminuían las sombras, y las arenas grises producían amapolas granates y el profundo verdor del césped que luciera cuando las reinas eran jóvenes, antes de que pasaran a formar parte de una oscura leyenda y los siglos las convirtieran en momias polvorientas. Llegó hasta la orilla y quedó en pie ante Phaniol, mientras la puesta del sol se extendía, llenando el cielo y el mar con un color aterciopelado de capullo recién abierto, y lo más profundo de la concha que en tiempos remotos le fuera consagrada se elevaba para recibirla. No llevaba ropajes, ni coronas, ni guirnaldas, arropada y coronada únicamente por el crepúsculo solar, tan hermosa como los sueños de un mortal, pero mucho más hermosa que todos los sueños. La diosa aguardaba, sonriente y tranquila, símbolo de la vida y de la muerte, de la desesperación y de la pasión, ensueño de carne y hueso para dioses y poetas y galaxias jamás conocidas. Pero también reflejaba el asombro del amor, de algo mucho más que el amor, y cuyo sentido no podía entender el poeta.

-¡Hasta siempre, oh Phaniol! -exclamó, y su voz recordaba el suspiro de aguas lejanas, el murmullo de aguas de plenilunio, arrullando no sin tristeza una orgullosa isla coronada de altas palmeras-. Me has conocido y adorado durante toda tu vida hasta este momento, pero ha llegado la hora de mi partida; me voy, y cuando me haya marchado me seguirás adorando, pero ya no me conocerás. Así es el destino, y estaba dispuesto que ningún hombre, ni ningún mundo, ni ningún dios me poseyera completamente hasta la eternidad. Cuando yo ya no exista regresarán el otoño y la primavera, el primero cuajado de hojas amarillas, y la segunda de violetas igualmente amarillas; los pájaros se refugiarán en las zarzamoras renovadas, y conocerás nuevos y fugaces amores. Jamás volverán a tus ojos o a los de cualquier otro mortal la perfecta imagen y el perfecto cuerpo de la diosa.

Finalizando así su despedida, saltó del muelle ceniciento a la oscura proa de la barca; y de la misma manera en que había llegado, sin necesidad del viento ni de los remos, la barca se hizo a la mar cuajada de los descoloridos pétalos del anochecer. Desapareció inmediatamente de la vista, mientras el desierto perdía las antiguas amapolas y el rico verdor que luciera de nuevo por unos instantes. La oscuridad se adueñó de Illarión, siguiendo furtivamente el camino trazado por Afrodita; las sombras retornaron a las colinas, y el corazón del poeta Phaniol seguía siendo una urna de negro jade fraguada por el amor con cenizas apagadas.


Clark Ashton Smith

FIN
 
Fonte: Ciudad Seva
Para que venham

Konstandinos Kavafis

Uma vela, mais não. A sua luz ténue

é mais adequada, mais brando te assombras

quando vierem do Amor, quando vierem as Sombras.

Uma vela, mais não. Para não ter hoje à noite

a alcova grande iluminação. Dentro do enleio inteiro

e da sugestão, e com a pouca luz -

assim no enleio hei-de ter visões

para que venham do Amor, para que venham as Sombras.

Konstandinos Kavafis

in Poemas e Prosas

Relógio d´Água, 1994

Tradução de Joaquim Manuel Magalhães

e Nikos Pratsinis

O Corvo

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais

«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.

É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P’ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,

«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,

Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi…» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»

Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,

Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»

Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais

Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».

Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais

Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,

Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!

Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»

Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,

E a minh’alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,

Libertar-se-á… nunca mais!


Edgar Allan Poe

(tradução de Fernando Pessoa)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Apreensões (1860)

Quando as nuvens flutuando sobre recuados montes

Tempestuosas ondulam no tardio Outono sombrio,

E o horror invade o ensopado vale,

E o pináculo cai estrondoso na cidade,

Medito nas dores do meu país -

A tempestade irrompendo da vastidão do Tempo

Na mais bela esperança do mundo ao mais ignóbil crime do homem

(unida.



O lado obscuro da Natureza agora atento -

(Ah, exclamação optimista de desencanto plena) -

Uma criança pode ler o taciturno cume

D´aquela solitária e negra montanha.

Com brados as correntes descem os desfiladeiros,

E tempestades formam-se sob a tempestade por nós sentida:

A cicuta agita-se na viga, o carvalho na quilha.



Herman Melville

in Poemas

Assírio & Alvim, 2009

Tradução de Mário Avelar

O Temor da Morte

I



Que a morte me desmembre em outro, e eu fique

Ou o nada do nada ou o de tudo

E acabo enfim esta consciência oca

Que de existir me resta.



Sinto um tropel esfuziante e quente

De propósitos-sombras, e de impulsos

Transbordando do cálix da consciência

Para cima da vida...



II



....só um sentimento

De desejar eterna inquietação,

Ambição vaga de fechar os olhos

E vaga esp'rança de não mais abri-los.

Ânsia cansada de não mais viver;

Meu cérebro esvaído não lamenta

Nem sabe lamentar. Tumultuárias

Ideias mistas do meu ser antigo

E deste, surgem e desaparecem

Sem deixar rastos à compreensão.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...



Já deslumbradas, vãs, incoerentes

Amargas,[vagas] desorganizações

Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh Morte!

Sinto-te os passos!Sinto-te! O teu seio

Deve ser suave e ouvir o teu coração

Como uma melodia estranha e vaga

Que enleva até ao sono e passa o sono.

Nada. Já nada [passa] - nada, nada...

Vai-te, Vida!



III



Ah, o horror de morrer!

E encontrar o mistério frente a frente

Sem poder evitá-lo, sem poder...



IV



Gela-me a ideia de que a morte seja

O encontrar o mistério face a face

E conhecê-lo. Por mais mal que seja

A vida e o mistério de a viver



(...)



Fernando Pessoa

in Poemas Dramáticos

Edições Ática

O Fanal

Aqui, onde entre mares cresceu a ilha,

pedra e ara súbito como torre erguida,

aqui ascende sob um negro céu

Zaratustra os seus fogos das alturas,-

fanal para navegantes sem rumo,

ponto de interrogação para os que têm resposta...



Esta chama de ventre esbranquiçado

-sua cobiça lança línguas a distâncias frias,

dobra o pescoço para alturas mais puras -

cobra erguida a pino, de impaciência:

este sinal o pus eu em frente a mim.



A minha própria alma é esta chama:

insaciável de distâncias novas,

lança ao alto, ao alto o seu ardor silente.

Porque fugira Zaratustra dos bichos e dos homens?

porque se escapou de repente de toda a terra firme?



Seis solidões conhece ele já -,

mas o seu próprio mar não lhe era solitário bastante,

a ilha deixou-o subir, sobre o monte ele se fez chama,

a uma sétima solidão

lança buscando agora o seu anzol por sobre a fonte.



Navegantes sem rumo! Destroços de astros velhos!

Ó mares de futuro! Ó céus inexplorados!

Lanço agora o anzol a tudo o que é solitário:

dai resposta à impaciência da chama,

agarrai para mim, pescador nos altos montes,

a minha sétima última solidão! -



Friedrich Nietzsche (1844-1900) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro

2. ed. Assírio & Alvim, 2001

estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te

vou perdendo a noção desta subtileza.

Aqui chegado até eu venho ver se me apareço

e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho



Muita vez vim esperar-te e não houve chegada

De outras, esperei-me eu e não apareci

embora bem procurado entre os mais que passavam.

Se algum de nós vier hoje é já bastante

como comboio e como subtileza

Que dê o nome e espere. Talvez apareça



Mário Cesariny

in Pena Capital I

Assírio & Alvim, 2ª ed., 199estação



Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te

vou perdendo a noção desta subtileza.

Aqui chegado até eu venho ver se me apareço

e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho



Muita vez vim esperar-te e não houve chegada

De outras, esperei-me eu e não apareci

embora bem procurado entre os mais que passavam.

Se algum de nós vier hoje é já bastante

como comboio e como subtileza

Que dê o nome e espere. Talvez apareça



Mário Cesariny

in Pena Capital I

Assírio & Alvim, 2ª ed., 199
I

Celebro-me e canto-me,


E aquilo que assumo tu deves assumir,

Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.



Vagueio e convido a minha alma,

À vontade vagueio e inclino-me a observar a erva do Verão.

A minha língua, cada átomo do meu sangue, composto deste solo, deste ar,

Aqui nascido de pais aqui nascido de outros pais aqui nascido, e dos seus

pais também

Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,

Esperando que só a morte me faça parar.



Suspensos os credos e as escolas,

Retiro-me por certo tempo, deles saturado mas não esquecido,

Sou o porto do bem e do mal, e seja como for falo,

Natureza sem obstáculos com a sua energia original.





Walt Whitman

in Canto de Mim Mesmo

Assírio & Alvim, 1999
XXVI







Agora só me resta ouvir,

Para juntar o que oiço a este canto, para deixar que os sons contribuam para

ele.



Oiço bravuras de pássaros, o rumor do trigo que cresce, o crepitar das

chamas, o crepitar da lenha com que cozinho,

Oiço o som que amo, o som da voz humana,

Oiço todos os sons, juntos, combinados, fundidos ou seguindo-se,

Sons da cidade e sons fora da cidade, sons do dia e da noite,

Jovens conversando com quem gostam, o alto risco dos trabalhadores quando

almoçam,

Os irados sons da amizade quebrada, a voz débil dos doentes,

O juiz com as mãos agarradas à secretária, com os lábios pálidos ditando uma

sentença de morte,

As elevadas vozes dos estivadores descarregando os navios junto ao molhe,

o refrão dos que levantam a âncora,

As sirenes de alarme que tocam, o grito de fogo, o zumbido imediato dos

motores de dos carros dos bombeiros com as sirenes e as luzes de

cores,

O silvo do vapor, o sólido rodar da caravana de carroças que se aproximam,

A marcha lenta tocada à cabeça do grupo que avança aos pares,

(Vão a algum funeral, as bandeiras estão cobertas de musselina negra).



Oiço o violoncelo, (é o lamento de um coração jovem),

Oiço a corneta de chaves penetrando velozmente nos meus ouvidos,

Fazendo estremecer o meu ventre e o meu peito num doce espasmo.



Oiço o coro da ópera,

Ah, isto sim, é música - isto está em harmonia comigo.



Grandiosa e fresca como a criação enche-me a voz do tenor,

A órbita flexível da sua boca derrama-se e sacia-me.



Oiço a perfeita soprano (que vale o meu canto comparado com o seu?)

A orquestra conduz-me em círculos mais largos que os de Urano,

Desperta-me ardores de que nunca suspeitara,

Faz-me navegar, tocar águas com os pés nus, as ondas que os lambem

indolentemente,

O granizo bate-me com toda a fúria, perco o ânimo,

Mergulho na doce morfina, estrangulam-me os falsos sinais da morte,

Por fim, de novo me ergo para sentir o enigma dos enigmas,

Isso a que chamamos Ser.





Walt Whitman

in Canto de Mim Mesmo

Assírio & Alvim, 1999
Etiquetas: fotografia, Fotogrfia DAVID HILLIARD


XX



Quem vem lá, ansioso, rude, místico, nu?

Como retiro forças da carne que me alimenta?



Em todo o caso, o que é um homem? Quem sou eu? Quem és tu?



Tudo o que assinalo meu chamarás teu,

Ou então perderias tempo a escutar-me.



Não lamento o que o mundo lamenta,

Que os meses são vazios e a terra apenas lodoçal e imundície.



O queixume e a humilhação juntam-se aos remédios para os inválidos, o

conformismo vai até à quarta geração,

Eu uso o chapéu como me apetece, dentro ou fora de casa.



Porque é que devia rezar? E venerar e ser cerimonioso?



Tendo examinado os estratos, analisando-os ao pormenor, consultando os

mestres, calculando com rigor,

Não encontro gordura mais agradável do que a que tenho agarrada aos meus

próprios ossos.



Em toda a gente vejo-me a mim mesmo, ninguém é mais do que eu, nem um

grão de cereal menos,

E o bem e o mal que digo de mim digo deles.



Sei que sou sólido e são,

Os objectos do universo convergem eternamente para mim,

Tudo foi escrito para mim e devo decifrar o seu sentido.

Sei que sou imortal,

Sei que esta minha órbita não pode ser traçada pelo compasso de um

carpinteiro,

Sei que não me apagarei como o fogo do archote que uma criança leva pela noite.



Sei que sou majestoso,

Não atormento o espírito para quem se defenda ou explique,

Sei que as leis elementares nunca se desculpam,

(No fim de contas, reconheço que o meu orgulho não é mais alto que o nível

onde edifico a minha casa).



Existo como sou, e isso basta,

Se mais ninguém no mundo o sabe fico satisfeito,

E se todos e cada um o sabem fico satisfeito.



Há um mundo que o sabe e é sem dúvida o mais vasto para mim, e esse sou

eu próprio,

E se o reconheço hoje ou dentro de dez mil ou dez milhões de anos,

Alegremente o posso aceitar agora, ou alegremente posso esperar.



O apoio do meu pé é entalhado em granito,

Rio-me daquilo que chamas dissolução,

E conheço a amplitude do tempo.



Walt Whitman

in Canto de Mim Mesmo

Assírio & Alvim, 1999
«Todos os impulsos, as emoções, as manifestações de vontades imagináveis, todas estas contingências da alma humana lançadas pela razão na imensidade negativa da noção de «sentimento», podem ser expressas por meio da multidão infinita das melodias possíveis, mas sempre exclusivamente na generalidade da forma pura, sem a substância, sempre somente como coisa em si, e não como aparência, de algum modo como a alma da aparência, incorporalmente. Esta relação íntima, que existe entre a música e a verdadeira essência de todas as coisas, explica-nos também por que, quando com pretexto de uma cena, de uma acção, de um evento, de um ambiente qualquer, ressoa uma música adequada, esta parece revelar-nos a significação mais secreta e afirmar-se como o mais exacto e mais luminoso dos comentários; compreendemos igualmente como é que aquele que se abandona sem reservas à impressão produzida por uma sinfonia julga ver desenrolar-se perante os seus olhos todos os acontecimentos imagináveis da vida e do mundo.»




Nietzsche, 1872

in A Origem da Tragédia

Guimarães Editores, p.130

A Máscara

Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

«Tira essa máscara de ouro ardente

E olhos de esmeralda.»

«Oh não, meu amor, atreves-te demasiado

A ver se um coração é selvagem e sábio,

Sem ser frio.»



«Só quero ver o que houver para ver,

O amor ou o engano.»

«Foi a máscara o que ocupou a tua mente,

E fez bater o teu coração,

Não o que está por detrás.»



«Mas a não ser que sejas minha inimiga

Devo inquirir.»

«Oh não, meu amor, deixa tudo ser como é;

Que importa, se entretanto houver fogo

Em ti e em mim?»



W. B. Yeats

in Uma Antologia

Assírio & Alvim, 1996
Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009


Frases



Quando o mundo estiver reduzido a

um só bosque negro para os nossos quatro

olhos espantados - a uma praia para duas

crianças fiéis - a uma casa musical para

a nossa clara simpatia - encontrar-vos-ei.



Quando só haja aqui um velho solitário,

belo e calmo, rodeado de um «luxo

inaudito» - a vossos pés estarei.



Quando eu assumir a vossa ânsia

toda - seja eu aquela que vos estran-

gula - e estrangular-vos-ei.





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Quando somos muito fortes - quem

foge?muito alegres - quem cai no ridí-

culo? Quando somos muito maus, que

fariam de nós?



Alindai-vos, dançai, desatai a rir.- Eu

nunca poderia atirar o Amor pela janela.



(...)



Jean-Arthur Rimbaud

in Iluminações

Estúdios Cor

Tradução Mário Cesariny
«O amarrador de Chihuahua recolheu o seu galo maltratado. Soprou-lhe o bico para o descongestionar e tentou que o animal se aguentasse nas patas. Mas ao ver que voltava a cair enroscado, como uma bola de penas, disse:


- Não há mais remédio senão liquidá-lo.

E já estava disposto a torcer-lhe o pescoço quando Dionisio Pinzón se atreveu a contê-lo:

- Não o mate - disse-lhe. - Pode curar-se e servirá, nem que seja para criação.

O de Chihuahua riu, trocista, e atirou o galo a Dionisio Pinzón como quem se desfaz de um trapo sujo. Dionisio alcançou-o, apanhando-o em pleno voo. Aconchegou-o nos seus braços com cuidado, quase com ternura e retirou-se com ele da cercadura.

Ao chegar a casa, fez um buraco debaixo da telha vã e, auxiliado pela mãe, enterrou ali o galo, deixando-lhe apenas a cabeça de fora.»



Juan Rulfo. O Galo de Ouro in Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 310

MUSÉE DES BEAUX ARTS

Acerca do sofrimento, nunca se enganaram

Os Velhos Mestres: quão bem entenderam

A condição humana; como está presente

Enquanto os demais comem ou abrem uma janela ou seguem monotonamente a caminhar;

Como, enquanto os velhos esperam reverente e apaixonadamente

Pelo miraculoso nascimento, deve sempre haver

Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando

Num lago na orla da floresta:

Eles nunca esqueceram

Que até o mais terrível martírio tem que seguir o seu curso,

A um canto, custe o que custar, nalgum local descuidado

Onde os canídeos acorrem com suas vidas de cão, e o cavalo do torturador

Coça o seu inocente traseiro atrás de uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se afastaOciosamente do desastre; o lavrador poderá

Ter ouvido o splash, o grito desamparado,

Mas para ele não era um importante fracasso; o sol brilhou

Como devia sobre as pernas brancas que desapareceram na verde

Água; e o frágil e grandioso navio que deve ter visto

Algo de espantoso, um rapaz caindo do céu,

Tinha um destino para atender e afastou-se calmamente.

W.H Auden