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domingo, 2 de novembro de 2014

BLUES FÚNEBRE


Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.
Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.
Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.
Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.
Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.
Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.
Removam cada oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.

W. H. Auden (Tradução: Nelson Ascher)



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

MUSÉE DES BEAUX ARTS

Acerca do sofrimento, nunca se enganaram

Os Velhos Mestres: quão bem entenderam

A condição humana; como está presente

Enquanto os demais comem ou abrem uma janela ou seguem monotonamente a caminhar;

Como, enquanto os velhos esperam reverente e apaixonadamente

Pelo miraculoso nascimento, deve sempre haver

Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando

Num lago na orla da floresta:

Eles nunca esqueceram

Que até o mais terrível martírio tem que seguir o seu curso,

A um canto, custe o que custar, nalgum local descuidado

Onde os canídeos acorrem com suas vidas de cão, e o cavalo do torturador

Coça o seu inocente traseiro atrás de uma árvore.

No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se afastaOciosamente do desastre; o lavrador poderá

Ter ouvido o splash, o grito desamparado,

Mas para ele não era um importante fracasso; o sol brilhou

Como devia sobre as pernas brancas que desapareceram na verde

Água; e o frágil e grandioso navio que deve ter visto

Algo de espantoso, um rapaz caindo do céu,

Tinha um destino para atender e afastou-se calmamente.

W.H Auden