domingo, 12 de dezembro de 2010

III



Lembra-te dos banhos em que foste afogado









Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos

que extenua os meus cotovelos e não sei onde

pousá-la.

Ela tombava no sonho enquanto eu saía do sonho

a nossa vida uniu-se e será muito difícil separar-se

de novo.





Vejo os olhos; nem abertos nem fechados

falo à boca que continuamente procura falar

seguro as maçãs do rosto que ultrapassam a pele.

Já não tenho força;





as minhas mãos perdem-se e aproximam-se de mim

mutiladas.



Yorgos Seferis. Poemas Escolhidos. Trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratisinis. Relógio D'Água, Lisboa, 1993., p.23
Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde


para respirar o ar fresco que vinha do oceano.

O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro

e uma nuvem erguia a sua cauda enorme como um piano.

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,

tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,

divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro

e, a julgar pelas cartas, tornaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,

em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora

não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda

distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

Não me interpretes mal; a tua voz, o teu corpo, o teu nome

já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,

só que um homem para esquecer uma vida, precisa pelo menos

de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte; onde estarias para sempre - salvo talvez

numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?

Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez

dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

1989

Iosif Brodskii. Paisagem Com Inundação. Edição Bilingue. Introdução e tradução de Carlos Leite. Edições Cotovia, Lisboa, 2001., p.63

Exortação

IV



Nas montanhas, avança lentamente. Se tiveres de rastejar, rasteja.

Majestosas ao longe, insignificantes ao perto para quem as veja,

as montanhas são a forma que uma superfície posta ao alto tem

e o carreiro sinuoso que parece horizontal e se sustém

é de facto vertical. Deitado na montanha, estás

de pé; de pé, estás deitado. O que prova que hás

de cair para seres livre. Assim do medo se triunfa,

e da vertigem do abismo e da embriaguês dos cumes.



V



Se gritarem ''Ei, tu aí!'', não te dês por achado. Sê surdo e mudo.

Mesmo que saibas a língua, não abras a boca por nada deste mundo.

Faz por não te expores, de perfil ou de frente; de vez em

quando, simplesmente não laves a cara. E quando degolarem

um cão à tua frente com uma serra, não te arrepies. Caso fumes,

apaga o cigarro com uma bisga. Quanto a roupa, veste-te

de cinzento, a cor da terra - sobretudo a de baixo -,

para reduzir a tentação de assim te meterem no caixão.



VI



Quando no deserto fizeres uma paragem, forma uma seta

com pedras - assim, se acordas de repente, sabes logo por ela

que direcção tomar. De noite, os demónios no deserto

perseguem os viajantes. Quem escuta o seu concerto

pode facilmente perder-se: um passo ao lado e é o além.

Espíritos, fantasmas, demónios, no deserto estão em casa. Também

tu, com os pés enterrados na areia, saberás isto sem errar

quando de ti só a alma for o que restar.



Iosif Brodskii. Paisagem Com Inundação. Edição Bilingue. Introdução e tradução de Carlos Leite. Edições Cotovia, Lisboa, 2001., p.47
«(...) ''sem advogar a substituição do Estado por uma biblioteca'', Brodskii acredita na auto-educação, no esforço da apreensão individual do mundo e do conhecimento pela prática da escrita, não só porque talvez os livros tenham sido para ele a melhor coisa que conheceu ao longo duma vida carregada de experiências fora do comum, mas porque escrever e ler livros era a única forma de, ao despertar para a vida adulta com a invasão da Hungria e o esmagamento da revolta pelos tanques soviéticos, garantir para si um espaço onde a mentira, nenhuma mentira penetraria. E como preencheria esse espaço, só a ele caberia saber.

Iosif Brodskii. Paisagem Com Inundação. Edição Bilingue. Introdução e tradução de Carlos Leite. Edições Cotovia, Lisboa, 2001., p.13
«Para o poeta, escrever poemas e viver são uma e a mesma coisa. ''Se a arte ensina alguma coisa (ao artista, em primeiro lugar), é a singularidade (privatness) da condição humana. Sendo a mais antiga e também a mais literal forma de actividade individual (private enterprise), [a arte] confere ao homem, disso consciente ou inconsciente, um sentido da sua unicidade, de individualidade, de ser à parte - fazendo-o assim passar de animal social a um 'Eu' autónomo. Podem partilhar-se muitas coisas: uma cama, um bocado de pão, convicções, uma amante, mas não um poema, digamos, de Rainer Maria Rilke. (...) um poema (...) dirige-se ao homem a sós, estabelece com ele relações directas, sem quaisquer intermediários.''»



Iosif Brodskii. Paisagem Com Inundação. Edição Bilingue. Introdução e tradução de Carlos Leite. Edições Cotovia, Lisboa, 2001., p.12

Fundación mítica de Buenos Aires

¿Y fue por este río de sueñera y de barro

que las proas vinieron a fundarme la patria?

Irían a los tumbos los barquitos pintados

entre los camalotes de la corriente zaina.

Pensando bien la cosa, supondremos que el río

era azulejo entonces como oriundo del cielo

con su estrellita roja para marcar el sitio

en que ayunó Juan Díaz y los indios comieron.

Lo cierto es que mil hombres y otros mil arribaron

por un mar que tenía cinco lunas de anchura

y aún estaba poblado de sirenas y endriagos

y de piedras imanes que enloquecen la brújula.

Prendieron unos ranchos trémulos en la costa,

durmieron extrañados. Dicen que en el Riachuelo,

pero son embelecos fraguados en la Boca.

Fue una manzana entera y en mi barrio: en Palermo.

Una manzana entera pero en mitá del campo

expuesta a las auroras y lluvias y suestadas.

La manzana pareja que persiste en mi barrio:

Guatemala, Serrano, Paraguay y Gurruchaga.

Un almacén rosado como revés de naipe

brilló y en la trastienda conversaron un truco;

el almacén rosado floreció en un compadre,

ya patrón de la esquina, ya resentido y duro.

El primer organito salvaba el horizonte

con su achacoso porte, su habanera y su gringo.

El corralón seguro ya opinaba YRIGOYEN,

algún piano mandaba tangos de Saborido.

Una cigarrería sahumó como una rosa

el desierto. La tarde se había ahondado en ayeres,

los hombres compartieron un pasado ilusorio.

Sólo faltó una cosa: la vereda de enfrente.

A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires:

La juzgo tan eterna como el agua y como el aire





Jorge Luis Borges

El Puñal

Etiquetas: Jorge Luis Borges, poesia, poetas argentinos


En un cajón hay un puñal.



Fue forjado en Toledo, a fines del siglo pasado; Luis Melián Lafinur se

lo dio a mi padre, que lo trajo del Uruguay; Evaristo Carriego lo tuvo

alguna vez en la mano.



Quienes lo ven tienen que jugar un rato con él; se advierte que hace

mucho que lo buscaban; la mano se apresura a apretar la empuñadura

que la espera; la hoja obediente y poderosa juega con precisión en la

vaina.



Otra cosa quiere el puñal.



Es más que una estructura hecha de metales; los hombres lo pensaron y

lo formaron para un fin muy preciso; es, de algún modo eterno, el puñal

que anoche mató un hombre en Tacuarembó y los puñales que mataron

a César. Quiere matar, quiere derramar brusca sangre.



En un cajón del escritorio, entre borradores y cartas, interminablemente

sueña el puñal con su sencillo sueño de tigre, y la mano se anima cuando

lo rige porque el metal se anima, el metal que presiente en cada

contacto al homicida para quien lo crearon los hombres.



A veces me da lástima. Tanta dureza, tanta fe, tan apacible o inocente

soberbia, y los años pasan, inútiles.





Jorge Luis Borges
«Uma camada de neve impoluta cobria a vegetação do bosque e acumulava‑se nas copas das árvores, caindo lentamente para o chão com um queixume seco. Quando me virei, vi um oceano invernal, que se espraiava do lado oposto ao do separador da auto‑estrada,sereno e tranquilo, como um mar de cor azul brilhante. Tudo o que via me enchia de nostalgia. Fechei firmemente o meu coração e voltei as costas ao mar.


A neve do bosque foi‑se tornando mais profunda, os ramos partidos e os pedaços de troncos duros faziam com me fosse mais difícil caminhar do que aquilo que eu tinha imaginado. De repente, um pássaro levantou voo por entre as árvores com um chilrear agudo. Parei e pus‑me a escuta, mas não ouvi mais nada, era como se não restasse mais ninguém neste mundo. Ao fechar os olhos, escutei o som das correntes dos carros que circulavam pela estrada, que soavam como cascavéis. Tive a sensação de não saber onde estava, de não saber quem era.»

Kyoichi Katayama. Um grito de amor desde o centro do mundo.Trad. Catarina Gândara, Editora Objectiva, 1ª ed., 2009, p. 10

Tormento

Morro diante o Sol e

diante o vento e diante as crianças que disputam o cão, morro

numa manhã que não pode vir a ser nenhum poema; só triste e verde e



interminável

é essa manhã...O meu pai e a minha mãe estão na ponte e julgam

que eu venho da cidade e não me trazem senão

as suas primaveras destroçadas em grandes cestos e vêem-me -

e não me vêem, porque

eu morro diante do Sol.



Um dia não verei mais os bosques, e a erva

há-de colher a tristeza da minha irmã. O arco da porta

ficará negro e o céu já não será

inatingível

para os meus desesperos...Num dia hei-de

ver tudo e a muitos enxugar os olhos

de manhã cedo...



Estou então de novo debaixo dos jasmins e

vejo como o jardineiro dispõe os mortos nos alegretes...

Morro diante do Sol.

Estou triste, porque há sempre dias que não voltam mais...A parte



nenhuma.







Thomas Bernhard. Na Terra e no Inferno. Trad. e introdução José A. Palma Caetano. Assírio & Alvim, 2000, p. 123

Biografia da dor

Onde eu ontem dormi é hoje dia de descanso. Em frente da porta

estão empilhadas as cadeiras e nenhuma das pessoas a quem

pergunto por mim me viu.

Os pássaros lançaram-se no espaço, para desenharem o meu rosto nas nuvens

por cima da minha casa e por cima do jardim dos mortos.



Conversei com os mortos e falei da guitarra do mundo,

que as suas bocas já não produzem nem os seus lábios,

os quais falam uma linguagem que ofende o cão do meu primo.



A terra fala uma linguagem que ninguém entende,

porque é inesgotável - dela arranquei estrelas e tirei e pus

nos desesperos

e bebi vinho do seu jarro,

que é feito das minhas dores.



Estas estradas levam ao degredo. Oiço Deus

atrás de uma vidraça e o Diabo num altifalante

e os dois chegam juntos ao meu coração, que anuncia a ruína das



almas.

Redemoinham as folhas, incessantes, nas ruas

e causam graves danos nos monumentos.

Quero, em Outubro, sonhar com a verdura.

Debaixo da porta está afixado um mandamento:

NÃO MATARÁS

...mas o jornal fala todos os dias de três homicídios,

que poderiam ter sido cometidos por mim ou por um dos meus amigos.

Leio essas notícias como uma fábula,

de uma facada para outra - sem me aborrecer.

Enquanto eles confundem carne e glória, a minha alma dorme

sob o movimento da mão de Deus.



Thomas Bernhard. Na Terra e no Inferno. Trad. e introdução José A. Palma Caetano. Assírio & Alvim, 2000, p. 119-121
«Súbito descortina-se então o mundo abandonado por deus como falta de substância, como mistura irracional de densidade e permeabilidade: o que antes parecia o mais sólido esfarela como argila seca ao primeiro contacto com quem está possuído pelo demónio, e uma transparência vazia por trás da qual se avistavam atraentes paisagens torna-se bruscamente uma parede de vidro, contra a qual o homem se mortifica em vão e insensatamente, qual abelhas contra uma vidraça, sem atinar que ali não há passagem.»




Georg Lukács
Com teu rir descarnado, tu, caveira,


Que me dizes, senão que em outro tempo,

Como o meu, delirou teu pobre cérebro,

A luz do dia procurou, com vasto

Desejo de verdade, e vagou triste

Em deprimente, lúgubre crepúsculo?




J. W. Goethe. Fausto. Trad. Agostinho D'Ornelas. Ed. ao cuidado de Paulo Quintela. , 1953, Acta Universitatis Conimbrigensis.,p 40
«Toute oeuvre est réponde à une question, et la question qu'à son


tour doit se poser l'interprète, consiste à reconnaître [...]ce que

fut la question d'abord posé, et comment fut articulée la réponse»



Jean Starobinski
«Ardo como de mosto embriagado;


Ânimo sinto de arrojar-me ao mundo,

Da terra os gozos partilhar e as penas,

Lutar com a tormenta , e ao estrondo

De naufrágio cruel suster o rosto!»





J. W. Goethe. Fausto. Trad. Agostinho D'Ornelas. Ed. ao cuidado de Paulo Quintela. , 1953, Acta Universitatis Conimbrigensis.,p 32/3
«Teu mundo é isto?! Chama-se isto um mundo?!

E perguntas ainda porque ansioso

Teu coração no peito confrange,

E oculto sofrer inexplicado

A energia vital em ti comprime?

Em lugar de vivente natureza.

Em cujo seio Deus criou os homens,

Rodeiam-te entre a podridão e o fumo

Somente ossadas nuas e esqueletos.»







J. W. Goethe. Fausto. Trad. Agostinho D'Ornelas. Ed. ao cuidado de Paulo Quintela. , 1953, Acta Universitatis Conimbrigensis.,p 30/1
Etiquetas: Fausto, J.W.Goethe, poetas alemães, verso solto


240 Falar de inspiração pouco aproveita,

Nunca ao homem que hesita ela se mostra.

Se vos dais por poetas, que a poesia

A vosso mando ceda. O que é preciso

Já de mais o sabeis; licor bem forte

245 Desejamos beber; pois sem demora

No-lo dai preparado. Não se cumpre

Amanhã o que hoje não for feito,

E nem um dia só perder se deve.

Um homem resoluto, do possível

250 Lança mão com ardor, fugir não o deixa

E na empresa prossegue, assim lhe é a força.

Sabeis que cada qual nos nossos palcos

Exp'rimenta o que quer; pois neste dia

Prospectos não poupeis nem maquinismos.

255Da lua e sol servi-vos, e aos centos

Espalhai as estrelas. Fogo e águas,

Rochedos, bosques, pássaros não faltem.

Do bastidor no acanhado espaço

A criação inteira se desdobre,

260E caminhai, com rapidez medida,

Desce o céu, pela terra, ao fundo inferno.





J. W. Goethe. Fausto. Trad. Agostinho D'Ornelas. Ed. ao cuidado de Paulo Quintela. , 1953, Acta Universitatis Conimbrigensis.,p 19/20
Sobre a Morte






Quando penso que os dias a passar

Em passos breves, mas em peso sentidos,

Minh'alma levam a espaços temidos

E a juventude à morte vai dar,



Por estranho e triste me pareça

Que em breve (ora vivo) eu vá morrer,

Vaga, incerta dor que pesa em meu ser

Faz com que a mente em pavor desfaleça.



Contudo mesmo em raiva, choro e pena

Cada instante é consolo ao coração

E com riso acolherei cada gemido:



Do fundo desespero a esp'rança acena.

Na morte não vejo a libertação -

É melhor o mau que o desconhecido.





Alexander Search (1904). Poesia. Ed e Trad. Luísa Freire. Assírio&Alvim, Lisboa, 1999., p. 11
VI




Falar-te-ei uma linguagem de pedra

(respondes com um monossílabo verde)

Falar-te-ei uma linguagem de neve

(respondes com um leque de abelhas)

Falar-te-ei uma linguagem de água

(respondes com uma canoa de relâmpagos)

Falar-te-ei uma linguagem de sangue

(respondes com uma torre de pássaros







Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.72

Pedras soltas

7. Paisagem



Os insectos atarefados,

os cavalos cor de sol,

os burros cor de nuvem,

as nuvens, rochas enormes que não pesam,

os montes como céus desmoronados,

a manada de árvores bebendo no arroio,

todos estão aí, felizes no seu estar,

frente a nós que não estamos,

comidos pela raiva, pelo ódio,

pelo amor comidos, pela morte.





Octavio Paz. Antologia Poética. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1984., p.49