domingo, 12 de dezembro de 2010

You Are Welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny



Mário Cesariny in Pena Capital

Fonte Clepsidra

http://luz-clepsidra.blogspot.com/

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“Quantas vezes


esfregou

os dedos nas unhas

o sol caindo atrás

das paredes

quantas vezes revezou-se

consigo mesmo em silêncio

quantas vezes esteve

no justo oriente de qualquer limo

quantas vezes quis

ser Rimbaud e traficou

aspirina

os dias passaram, severos,

como o vazio

hoje?, ontem?, quantas vezes

as grimpas não giraram

o amor era das palavras, entre elas

fria estrela que irrompe

(Canção 4. De Remorso do Cosmos, 2003)

ATÉ AGORA

Autor: Régis Bonvicino. Editora: Imprensa Oficial
“Me


transformo,

outra janela–

outro

que se afasta e não se

reaproxima

nas desobjetivações e

reativações,

nas linhas e realinhamentos

outros

me atravessam

morto de ser

coisas perdem sentido

expressões figuradas como

ossos de borboleta

me transformo

na observação

de uma pétala

*

Me destransformo

a mesma janela –

outro

que não se afasta

Nas objetivações,

alinhamentos

e linhas inexistentes

iguais me repassam

Retrato desativado,

taxidermista de mim mesmo

Régis Bonvicino

(Me Transformo. Ossos de Borboleta, 1999)
“O que matou com disparos


na cabeça

O que eletrocutou o

estuprador

- fio puxado do bico de luz

da cela -

e pediu perdão a Deus

O que decepou um dos seus

O que trocava de nome & de sexo

a cada morte

O que ouvia vozes

O que estuprou a filha

(meses)

O que atraía garotos

com revistas de mulheres nuas

“Papillon” traficava cocaína

e crack

Narque espancou o cara

até abrir sua carne

(O Que. Outros Poemas, 1993)

Régis Bonvicino

Le juriste 1566

“O lobo-guará é manso


foge diante de

qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

detesta as cidades

para fugir do ataque

cada vez mais inevitável

dos cachorros

atravessa estradas

onde quase sempre é

atropelado

onívoro, com mandíbulas

fracas

come pássaros, ratos, ovos,

frutas

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta

ou ao engolir remédios

vencidos

ou seringas e agulhas

descartáveis

dócil, sem astúcia,

é facilmente capturado e morto

por traficantes de pele

quando então uiva

(Extinção. Página Órfã, 2007)

Pena Capital

Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny


Pena Capital I. Assírio & Alvim, 2ª ed., 1999

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gnossienne nº 1

Eu acreditei que podia amar

o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração

nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite

sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar

essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos

mas crescias fora de alcance no teu próprio

pensamento. Uma distância que só serviria

aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio

em que me mantinhas era mais urgente

que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo

mas eu perdia sempre alguma coisa

quando te ganhava. Às vezes era só

a minha vontade, outras vezes era toda a frase

do meu nome.

Rui Pires Cabral

Alma

Reflexos

Olho-te pelo reflexo

Do vidro

E o coração da noite



E o meu desejo de ti

São lágrimas por dentro,

Tão doídas e fundas

Que se não fosse:



o tempo de viver;

e a gente em social desencontrado;

e se tivesse a força;

e a janela ao meu lado

fosse alta e oportuna,



invadia de amor o teu reflexo

e em estilhaços de vidro

mergulhava em ti


Ana Luísa Amaral

João de todo o Rio

Mais atual do que nunca, o jornalista e escritor que encantou e chocou o Brasil do início do século XX ganha nova versão de sua biografia e filme


Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues, que, na quarta-feira, lança na livraria DaConde “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo

então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.

— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.

No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.

Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.

Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.

No momento, o ator Marcus Alvisi tem lotado o Espaço Sesc, em Copacabana, com o monólogo “Dentro da noite”, que idealizou e montou pela primeira vez em 2002, a partir de dois contos de João do Rio. Agora com direção do cantor Ney Matogrosso, outro apaixonado pelo autor, a temporada vai até 19 de dezembro. Há também um filme em andamento, “Muitos homens num homem só”, coprodução da Conspiração com Flávio Tambellini, que será dirigido por Mini Kerti. — O roteiro é livremente inspirado em “Memórias de um rato de hotel”, mas tem personagens famosos e de outros livros dele, como o Barão Belford e Eva — diz a cineasta. — Além disso, eu e o roteirista Leandro Assis inserimos o Felix Pacheco, que sai no encalço do personagem principal, Dr. Antônio. O Dr. Antônio, aliás, é um personagem verídico, inclusive com fotos em jornal ilustrando o artigo do João do Rio sobre ele. Lemos vários livros dele para trazer o clima da época para o roteiro, que se passa no início do século passado, durante as renovações de Pereira Passos e as vacinas de Oswaldo Cruz.

Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,

sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.

No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou

bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.

Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente

nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.

— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.

João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.

Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio

Fonte – O GLOBO

Cuento de horror

La señora Smithson, de Londres (estas historias siempre ocurren entre ingleses) resolvió matar a su marido, no por nada sino porque estaba harta de él después de cincuenta años de matrimonio. Se lo dijo:



-Thaddeus, voy a matarte.



-Bromeas, Euphemia -se rió el infeliz.



-¿Cuándo he bromeado yo?



-Nunca, es verdad.



-¿Por qué habría de bromear ahora y justamente en un asunto tan serio?



-¿Y cómo me matarás? -siguió riendo Thaddeus Smithson.



-Todavía no lo sé. Quizá poniéndote todos los días una pequeña dosis de arsénico en la comida. Quizás aflojando una pieza en el motor del automóvil. O te haré rodar por la escalera, aprovecharé cuando estés dormido para aplastarte el cráneo con un candelabro de plata, conectaré a la bañera un cable de electricidad. Ya veremos.



El señor Smithson comprendió que su mujer no bromeaba. Perdió el sueño y el apetito. Enfermó del corazón, del sisema nervioso y de la cabeza. Seis meses después falleció. Euphemia Smithson, que era una mujer piadosa, le agradeció a Dios haberla librado de ser una asesina.

FIN


Fonte : Ciudad Seva


domingo, 5 de dezembro de 2010

A morte épica do leão

Em seu bonito poema sobre a morte de Tolstoi, Mario Quintana errou por dois anos a idade do defunto (que já tinha 82), mas acertou no fundamental: o “grande Velho” talvez tenha morrido feliz, por haver concretizado, enfim, um sonho de infância: fugir de casa. O Conde Leão Tolstoi apagou de vez sob o teto do chefe da estação de trem da modesta Astapovo, que há 90 anos leva o nome de quem a tornou mundialmente conhecida. Fugia de casa, da mulher, dos adulões, em busca de uma reclusão monacal, mas não viajou nem morreu sozinho, abandonado num dos “bancos lustrosos” da gare, aludidos por Quintana. Com ele estavam seu médico particular e Sasha, a filha caçula.

Seria impossível ao mais célebre e cultuado russo daquele tempo desaparecer discreta e solitariamente. Muito menos em meio a uma fuga que, tão logo iniciada, dez dias antes, transformara-se numa épica caçada internacional, com a participação de jornalistas de toda a Europa. Tolstoi sucumbiu às consequências de uma pneumonia, ao raiar o dia 20 de novembro de 1910, às 6h05, hora que para sempre ficou congelada nos relógios da gare de Astapovo. Uma multidão acompanhou o velório, o cortejo, o enterro e, antes disso, a tumultuosa chegada de Sofia, a esposa abandonada, a quem só permitiram ver de perto o marido quando ele já estava inconsciente.

A morte de Tolstoi foi o primeiro grande evento midiático da Rússia acompanhado por câmeras fotográficas e cinematográficas, relatado por telegramas e imagens de cinejornais, as primeiras das quais chegaram a Paris em apenas 48 horas, com o selo da Pathé Films. Até hoje o circo que se armou em Astapovo é motivo de curiosidade e inspiração para historiadores (vide The Death of Tolstoy, de William Nickell, lançado em maio) e até ficcionistas, que o consideram o marco divisório entre a Rússia czarista que então definhava e a Rússia moderna que sete anos depois surgiria no rastro da revolução bolchevique.

Em 1917, o correspondente em Moscou do New York Times atribuiu a sublevação comunista aos “tolstoístas”, fanáticos seguidores das ideias vagamente “de esquerda” do escritor, tolice só em parte desculpável pelo pouco que se conhecia dos bolcheviques, ainda vistos por observadores de fora como uma malta de mujiques ripongas. O czar Nicolau pôs o escritor sob a vigilância de seus secretas, tentou censurar seus escritos e boicotar seu funeral, Lenin viu em sua obra um reflexo dos ideais revolucionários comunistas, mas a influência de Tolstoi e sua morte sobre os acontecimentos que culminaram com a tomada do poder pelos bolcheviques foi sobretudo (ou apenas) simbólica.

Em sua notável estreia na ficção, The Comisariat of Enlightment: A Novel (O Comissariado das Luzes: Um Romance), Ken Kalfus reconstitui a Revolução de Outubro e a posterior doutrinação em massa do povo russo por Lenin e Stalin a partir do frenesi jornalístico que sacudiu a mansidão de Astapovo, na terceira semana de novembro de 1910. No mesmo vagão de um trem, Kalfus alojou um cinegrafista russo, Kolya Gribshin, subordinado a Georges Meyer, o verdadeiro cameraman encarregado pela Pathé de cobrir a chegada de Sofia a Astapovo, o correspondente de um jornal britânico e o anatomista Vladimir Vorobev, a quem mais tarde caberia embalsamar Lenin e Stalin.

O romance, lançado em 2004, é uma tragicomédia com personagens reais e imaginários, na qual Sofia, rompendo com o clichê, não é reduzida a uma mulher impossível, a uma louca insuportável que Tolstoi já deixou tarde. São grandes as suspeitas de que ela, sra. Tolstoi durante 48 anos, tenha sido injustiçada pelos que se ocuparam de manter o escritor, imaculado, num pedestal messiânico. Ambos tinham defeitos, mas por que tanta intransigência com uma mulher que afinal pariu 13 filhos do conde, serviu-lhe de copista e resignou-se a aturar o isolamento rural, o estilo de vida espartano e o vegetarianismo por ele impostos ao casal, mais as hostilidades de Chertkov, assistente e xodó do escritor, e as constantes romarias de tietes até o retiro de Iasia Poliana?

Os diários de Sofia, só há pouco divulgados, e as recentes biografias escritas por Rosamund Bartlett (sobre Tolstoi) e Alexandra Popoff (sobre Sofia), nos revelam uma mulher bem diferente daquela a quem até já acusaram de haver envenenado o marido. Em outro expressivo début literário, The Possessed: Adventures with Russian Books (Os Possuídos: Aventuras com Romances Russos), publicado no início deste ano, a americana de origem turca Elif Batuman levanta a tese de que Tolstoi teria sido assassinado, mas não incrimina Sofia. Os “possessed” do título são uma referência aos “demônios” de Dostoievski, que na canônica tradução de Constance Garnett para o inglês viraram “possuídos”.

Batuman concentra suas suspeitas nas ameaças por carta que Tolstoi recebeu, em 1897, por haver defendido os religiosos de uma seita camponesa. Mas, a despeito das perseguições que a Igreja Ortodoxa e o czar lhe moveram, a tese de assassinato não se sustenta sob o peso da idade e do histórico cardíaco do escritor. Se não morreu feliz, tranquilo desta Tolstoi se foi, pois já se sabia imortal. Um mês depois, segundo Virginia Woolf, “o ser humano” mudou e o modernismo nasceu. Tolstoi desdenhava os modernistas, que no entanto muito lhe devem. Seus monólogos interiores anteciparam o fluxo de consciência de Joyce. Também em suas obras brotou o distanciamento crítico de Brecht. O leão do realismo literário fechou um passado e abriu um futuro.

Sergio Augusto

Prosa de Sábado-O Estado de S.Paulo

O elogio puro da beleza fugaz

Baudelaire vê o artista ”em meio à multidão”


Se a crítica fosse apenas uma atividade de frustrados que procuram defeitos nos outros, o maior poeta francês do século 19 não teria sido também o maior crítico. E Charles Baudelaire (1821-1867) foi ambos. Além de ter sido o primeiro a dar o devido valor a Edgar Allan Poe, o poeta, contista e crítico que os EUA ainda não sabiam valorizar, Baudelaire foi fundamental na crítica de arte. Fundamental, no sentido puro: ele foi aos fundamentos da atividade, de seu papel na interpretação da arte e, por extensão, na interpretação da vida, que a arte recria, critica e enriquece. “Por sorte”, escreve Baudelaire, “surge de tempos em tempos quem coloque as coisas no devido lugar: críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos.”

A frase está no livro O Pintor da Vida Moderna, escrito por ele em 1863 e só agora digno de uma bela edição brasileira, da editora Autêntica, por iniciativa da dupla Tomaz Tadeu (tradução e organização) e Jérôme Dufilho (posfácio e organização). O Homem na Multidão, o célebre texto de Poe, foi sabiamente acrescido ao volume, que é todo ilustrado a cores, tem capa dura e papel cuchê. Curiosamente, depois de tanto tempo ignorada, esse é o terceiro livro produzido nos últimos três anos no Brasil com a crítica de arte de Baudelaire. Em 2008, um trabalho de 1992 de Plínio Augusto Coelho, a tradução dos Escritos Sobre Arte, foi relançado pela editora Hedra. Em 2010, graças a Daniela Kern, a Sulina publicou Paisagem Moderna, com as resenhas dos salões de arte por Baudelaire, acompanhadas de outro material inédito em português, os ensaios de John Ruskin sobre Turner e outros artistas.

E quem era o pintor da vida moderna referido no título? Era Constantin Guys (1802-1892), aquarelista e ilustrador, cronista visual do Segundo Império francês, que provavelmente estaria esquecido hoje se não fosse pelo ensaio de Baudelaire. O autor de As Flores do Mal (1857), porém, não estranharia o fato: ele mesmo se encarrega de dizer que Guys não era um gênio, um Rafael a falar com toda a posteridade, mas um grande talento voltado a seu tempo. “O prazer que extraímos da representação do presente”, diz Baudelaire logo no começo, “deve-se não apenas à beleza de que pode estar revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente.” E então ele se põe a analisar as maneiras como Guys captou a essência do presente que vivenciou.

Baudelaire fala das “gravuras de moda” como vinhetas de época animadas pela sensibilidade poética de Guys, que encontrava nessas roupas um “imortal apetite pelo belo” em constante metamorfose e, mais importante, um pretexto para o artista manifestar sua curiosidade sobre o mundo, com suas variáveis morais, políticas e estéticas, com sua diversidade de hábitos, gostos e semblantes. “Imaginem um artista que estivesse sempre, espiritualmente, em estado de convalescença”, continua, “e terão a chave do caráter do Sr. G.” Como uma criança, estava sempre alerta para as novidades, sem preconceito de gênero ou classe, e isso se expressa em linhas ágeis, tintas coloridas, registros sem acabamento, urgentes, de poucos mas significativos detalhes.

Olhando os desenhos e aquarelas reproduzidos no livro, vemos justamente essa vitalidade de Guys, que, como um Daumier mais lírico e menos satírico, prenuncia o impressionismo de Degas ou Lautrec. Na Mulher com Lenço Amarelo, ele ignora as demais cores e não se detém em definir os limites do amarelo a uma peça de roupa; por isso mesmo, nos sugere todo o movimento, a graça, o caráter transeunte e transitivo da cena. Baudelaire defende o gosto feminino por moda, para “pairar acima da natureza”, não para “rivalizar com a juventude”, e Guys como seu cronista civilizado. Ele parece “inebriado”, quase “anárquico”, mas essa velocidade é seu trunfo, porque associada ao dom da contemplação – tanto que suas cenas de guerra ou de sua viagem à Turquia refletem a mesma preocupação com a explosão de luzes e a riqueza de detalhes. No Brasil, intelectuais diriam que isso tudo não passa de frivolidade; não espanta que não vejam o talento gráfico de um Millôr Fernandes.

Quando escreveu sobre um pintor maior, Delacroix (que foi para ele o que Turner foi para Ruskin: a síntese pictórica de todas suas inquietações estéticas), Baudelaire destacou também essa qualidade “mundana”, lembrando a frase dele de que um artista deveria ser hábil o bastante para “fazer um croquis de um homem que se atira pela janela durante o tempo que ele leva para cair do quarto andar ao solo”. Ou seja: a rapidez da percepção, a aptidão gráfica, não faria de um pintor um grande artista, mas seria necessária para um artista moderno, urbano, interessado em renovar as linguagens. Não existe apenas a beleza clássica, das formas gerais; existe também a beleza passageira, das formas particulares – e a modernidade é indissociável dessa atenção ao que é fugaz e móvel.

Não por acaso a centena de poemas de As Flores do Mal é o que é: um mosaico clássico composto de pastilhas modernas – ou, como disse João Cabral de Melo Neto, “está tudo ali”. Não por acaso foi em Baudelaire que Walter Benjamin examinou a figura do flâneur, do observador que caminha pela metrópole e se relaciona com o mercado de consumo, em meio à multidão, e como o homem de Poe passa a ver “com particular interesse as inumeráveis variedades de acessório, roupa, aparência, andar, rosto e expressão facial”. E não por acaso, em 1895, um famoso dândi se baseou em Baudelaire para elogiar Guys numa comparação com Whistler, ainda que este hoje seja reconhecido como melhor pintor – e esse dândi se chamava Robert de Montesquiou, modelo para o Barão de Charlus de outro escritor e crítico de arte, Marcel Proust, admirador e tradutor de Ruskin. Os grandes artistas modernos, enfim, não são nada senão críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos

Daniel Piza
Fonte : O Estado de S.Paulo