domingo, 12 de dezembro de 2010

Forma da ausência

XII



Este quarto tornou-se um poço profundo.

O candeeiro é uma estrela pregada na água.

A cama infantil no seu lugar; os lençóis, por agora

lançam reflexos circulares

enquanto à superfície da toalha

as horas lentas, imponderáveis, caem como fetos

de palha,

nela traçando círculos invisíveis. Ninguém fala

no interior - e se falasse ninguém ouviria. Quando

um copo

tomba, cai sem fazer ruído na palma do silêncio.

Não se quebra.

Sozinho, dissolvido da na água, o antigo grito da

separação

torna o poço mais sombrio e mais profundo.

Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.36

Lou

«(...) Esbofeteei-a cegamente. Ela abriu de novo os olhos. Amanhecia e eu via-os brilhar de lágrimas e de raiva; debrucei-me sobre ela; acho que estava a fungar como um animal e ela pôs-se aos berros. Mordi-a em cheio entre as coxas. Tinha a boca cheia dos seus pêlos negros e duros; larguei-a um pouco e depois recomecei mais abaixo onde era mais tenro. Eu nadava no seu perfume, ela espalhara-o também aí, e cerrei os dentes. Tentava pôr-lhe uma mão sobre a boca, mas ela berrava como um porco, gritos de arrepiar. Então cerrei os dentes com todas as minhas forças e cravei-lhos. Senti o sangue esguichar-me na boca e os seus rins agitavam-se apesar das cordas. Tinha a cara cheia de sangue e recuei um pouco sobre os joelhos. Nunca ouvira uma mulher gritar daquela maneira; de repente, reparei que nas minhas cuecas tudo se retesava; isso alvoraçou-me como nunca, mas tive medo que alguém aparecesse. Risquei um fósforo e vi que ela estava a sangrar muito. Por fim, desatei a bater-lhe, primeiro só com o punho direito, no maxilar, senti os dentes a partirem-se-lhe e continuei, queria que ela parasse de gritar. Bati com mais força, e depois recolhi a saia dela, colei-lha contra a boca e sentei-me em cima da sua cabeça. Ela retorcia-se como um verme. Nunca pensei que ela custasse tanto a morrer; fez um movimento tão violento que julguei que o meu antebraço esquerdo ia desprender-se; apercebi-me de que estava agora sob uma fúria tal que seria capaz de a esfolar; então levantei-me para acabar com ela ao pontapé, e calquei-a com todo o meu peso pondo-lhe um sapato de través na garganta. Quando ela deixou de se mexer, fui outra vez tomado pela mesma sensação. Agora tremiam-me os joelhos e tive medo de que fosse agora a minha vez de desmaiar.»









Boris Vian. Irei cuspir-vos nos túmulos. Sob o pseudónimo de Vernon Sullivan. Trad. Maria João Costa Pereira. Relógio D'Água, 2003, p.132/133
«Mas da casca nasce uma concha dura


que protege o corpo como uma carapaça.

Por isso não tenho nada a relatar

da minha vida a não ser

as minhas publicações.



Resumo diário: quatro horas de trabalho, no máximo,

depois da visita às estufas.

Longa sesta, enrolado num cachecol,

no sofá. Muda de roupa. Depois do jantar

alguém toca uma sonata ao piano.



Cedo para a cama. Insónias:

Passava quase sempre mal as noites,

ficava acordado ou sentado na cama.»

Hans Magnus Enzensberger. Mausoléu. Trad. e prefácio de João Barrento. Edições Cotovia, Lisboa, 2004., p. 179
Também possuo uma vida e devo vivê-la. Nada


de vinganças;

que poderia, mais uma morte, arrancar à morte,

sobretudo uma morte violenta? E que poderia

acrescentar à vida? Os anos

passaram. Não sinto ódio; esqueci, talvez?, estou

cansado? Não sei.

Até sinto uma relativa simpatia pela criminosa;

ela mediu abismos imensos,

um grande crescimento fez crescer-lhe os olhos

na obscuridade

e ela vê - vê o inesgotável, o irrealizável, o imu-

tável. Ela vê-me.

Também eu quero ver o assassínio de meu pai na

totalidade apaziguadora da morte,

esquecê-lo na morte completa

que também nos espera. Esta noite revelou-me

a inocência de todos os usurpadores. E todos somos,

de um modo ou outro, usurpadores - estes dos

povos, dos tronos,

aqueles do amor ou da morte; minha irmã

usurpadora da minha única vida; e eu da tua.


Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.66
Esta noite de espera deixa-me uma aberta para


o exterior

e o interior. Não distingo claramente. Talvez

grandes máscaras deterioradas, agrafes metálicos;

as sandálias dos mortos torcem-se na humidade,

movem-se sozinhas como se caminhassem sem pés

- não caminham;

e essa grande rede do banho, quem a teceu?

nó a nó - não se desfaz -, negra - não é a mãe.



Uma sombra imensa alonga-se por cima das ar-

cadas;

uma pedra destaca-se e cai na ravina - no entanto

ninguém caminhou -

e depois nada; e subitamente um ramo quebrado

pelo peso ligeiro do céu. As rãs

saltam, ágeis e mudas, na erva húmida. Silêncio.

No poço caem ratos cor de cinza, afogam-se;

constelações espessas movem-se lentamente; dei-

tam-se fora

coisas que os banquetes abandonam, ânforas, taças,

espelhos e cadeiras.

ossos de animais, liras e diálogos inteligentes. Os

poços nunca enchem.

Dir-se-ia que dedos de fogo, dedos de orvalho

passam sucessivamente pelo nosso peito,

descrevendo círculos inquiridores em torno dos

nossos mamilos

e também nós flutuamos de círculo em círculo,

em torno dum centro

desconhecido, indefinido e no entanto definido;

círculos infindáveis

em torno dum grito mudo, em torno duma facada;

e a faca

mergulha, creio, no nosso coração e este torna-se

o centro

como o poste no meio da eira, na colina,



e em torno os cavalos, as espigas, os malhadores,

os condutores

e as ceifeiras entre as medas, com a cabeça da

lua nos ombros,

ouvindo o relincho dos cavalos até ao extremo

do seu sono,

ouvindo os touros urinar nos salgueiros e nas

silvas

e os pés inumeráveis da centopeia e do cântaro,

o rastejar da serpente tranquila nos olivais

e o crepitar da pedra ardente que se contrai ao

arrefecer.


Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.72/3
Por fim calou-se, a infeliz. Creio ouvir no silêncio


a sua razão,

tão vulnerável no seu furor, tão injustamente

tratada,

com os seus amargos cabelos lançados para os

ombros como a erva dos túmulos,

emparedada na sua acanhada visão da justiça.

Adormeceu talvez,

sonha possivelmente com um lugar inocente, com

animais simples,

casas caiadas de branco cheias com os belos aromas

do pão fresco e das rosas.



Recordo agora - não sei porquê - aquela vaca

que vimos no crepúsculo, num campo da Ática -

lembras-te?

Estava ali, separada da charrua, olhava para o

longe

e com os vapores das narinas embaciadas

o pôr do Sol, púrpura, violeta, dourado; muda e

ferida

nos flancos e no dorso, sob o peso do jugo,

tinha conhecido talvez a negação, a submissão,

a intransigência e a hostilidade, tudo junto.



Sustentava entre os dois cornos

a mais pesada parte do céu, como uma coroa.

Depois

baixou a testa, bebeu a água do regato

lambendo com a língua sangrenta essa outra

língua

fresca da sua imagem de água, como se lambesse

longa e serenamente, maternalmente, inevitavel-

mente,

do exterior a sua ferida interna, como se lambesse

a silenciosa, a grande, a redonda ferida do mundo;

- mata talvez a sede -

só talvez o nosso sangue nos mata a sede - quem

sabe?



Depois ergueu a cabeça da água sem tocar em

nada,

ela própria intacta e calma como um santo;

apenas

entre as suas duas patas enraizadas na ribeira

um pequeno lago de sangue caído dos lábios, man-

tinha-se, mudava de forma,

um lago vermelho que se assemelhava a um postal

e pouco a pouco se alargava e dissolvia; desa-

parecia

como se todo o sangue passasse para uma veia

invisível do mundo,

muito longe, liberto, fácil; por isso

se mantinha calma; como se tivesse sabido

que o nosso sangue não se perde,

nada, nada se perde neste grande nada,

este inconsolável, este impiedoso, este incompa-

rável,

tão doce, tão consolador, tão nada.



Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.74/75/76
[...]vós que dormis, 'stais-me acordados cá dentro do peito,


Na alma parente repousa a vossa imagem que foge.

E mais vivos viveis vós ali, onde a alegria do espírito

Divino a todos os que envelhecem, a todos os mortos rejuvenesce.



Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991.
Hölderlin



Detença, mesmo com as coisas mais íntimas,

não nos é dada; das imagens

cumpridas o espírito arroja-se repentino de mais para as que se



[querem cumprir; lagos

há-os só no eterno. Aqui, é a queda

o mais próprio. Do sentimento sabido

precipitar-nos para baixo para o pressentido, mais além.



A ti, ó magnífico Invocador, a ti toda uma vida

te foi dada a instante imagem, e, quando a exprimias,

o verso fechava-se como um destino, havia uma morte

mesmo no mais suave, e tu entravas nela; mas o deus

que ia à tua frente guiava-te para lá, pra fora dela.



Ó tu espírito errante, o mais errante! Como elas todas

moram no poema quente, agasalhadas, e ficam

longamente na comparação estreita. Partícipes. Só tu

vagueias como a Lua. E em baixo aclara-se e escurece

a tua paisagem nocturna, santamente assustada,

que tu sentes em despedidas. Ninguém

a deu mais sublimemente, a restituiu ao Todo

mais inteira, menos pobre. Assim também

brincaste teu jogo santo por anos já não contados

com a infinita ventura, como se ela não fosse interior, mas jazesse

por aí, pertença de ninguém, na macia

relva da Terra, abandonada por crianças divinas.

Ai, o por que os Altíssimos anseiam, puseste-o tu, sem desejo,

pedra sobre pedra: e ficou. Mas mesmo a sua queda

te não perturbaria.



Se um tal, eterno, houve um dia, porque é que nós

desconfiamos ainda do terrestre? em vez de no transitório

seriamente aprender os sentimentos de qualquer

inclinação, futura no espaço?



(Irschenhausen, Setembro de 1914)





Rainer Maria Rilke





in Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991, p. 9

As mulheres

As mulheres estão muito distantes. As suas rou-

pas, o cheiro de «Boa Noite».

Pousam o pão na mesa para que não se sinta

como estão ausentes.

É então que nos sentimos culpados. Levantamo-nos

da cadeira e dizemos:

«Estás muito cansada hoje » ou então «Deixa, eu

acendo o candeeiro».

Quando pegamos no fósforo ela volta-se lenta-

mente

e dirige-se para a cozinha com uma aplicação

inexplicável. As costas

são uma pequena colina de amargura carregada

de mortos sem fim,

os mortos da família, os mortos dela e a nossa

morte.

Ouvem-se-lhe os passos a afastar latas velhas,

ouvem-se as travessas a chorar na banca, depois

ouve-se

o comboio que transporta os soldados para a

frente.





Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.85

História

Aconteça o que acontecer, aqui fico - murmurou


ele.

A margem é imensa, as pedras

alteram a sua cor à passagem da hora.

Se contemplas a água, logo após o crepúsculo,

verás o último filho de Tiestes

sem espada, sem coroa, apenas

no flanco direito a cicatriz duma estrela.

Quanto ao resto dir-se-á que estava escrito

o amor, o massacre e o regresso,

o poder efémero, a ausência de descendentes,

e a minúscula cruz de ferro

pendurada num fio, nessa mesma noite,

e pisada no solo pelos cascos dos cavalos.




Yannis Ritsos. poemas. Selecção e Trad. de Egito Gonçalves. Prefácio de Carlos Porto. 1ª ed. Fevereiro, 1984. Editora Limiar., p.99
«(...) Não ganharias nada em deixar o teu círculo e na verdade o que perderias em permanecer dentro dele? A isto limito-me a responder: também preferia deixar-me moer com pancadas no círculo a ser aquele que bate no exterior, mas onde diabo está o círculo? Houve um tempo em que eu o via no solo como traçado por salpicos de cal, mas presentemente apenas flutua em torno de mim, que digo, nem flutua sequer»






Franz Kafka. Antologia De Páginas Íntimas. Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, 3ª ed. Guimarães Editores, Lisboa, 2002, p. 27
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Domingo, 19 de Julho de 1910



«Durmo, acordo, readormeço, reacordo, miserável vida.

Quando penso nisso, é-me necessário confessar que a minha educação me prejudicou muito por várias razões.»


Franz Kafka. Antologia De Páginas Íntimas. Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, 3ª ed. Guimarães Editores, Lisboa, 2002, p. 28
Princípios de Novembro de 1910



«Mas esquecer não é a palavra que convém aqui...A memória deste homem não sofreu mais do que a sua força de imaginação. Quanto a remover montanhas, nem a sua memória nem a sua imaginação o podem; este homem, é necessário reconhecê-lo, mantém-se fora do nosso povo, fora da nossa humanidade, não cessa de ser esfomeado, só o instante lhe pertence, o instante ininterrupto de calamidade, instante que não é seguido de nenhuma faísca, de nenhum momento de reconforto; há sempre uma mesma coisa: as suas dores, mas no mundo inteiro nenhuma outra coisa que se possa fazer passar por remédio, não há mais solo do que aquele que podem cobrir as suas mãos (....)»


Franz Kafka. Antologia De Páginas Íntimas. Selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, 3ª ed. Guimarães Editores, Lisboa, 2002, p. 29
«- Como podes tu, meu imbecil, comparar-te a Varlamov.

-Não sou tão imbecil que me compare com Varlamov -respondeu Salomão, examinando os seus interlocutores com olhar irónico. - Varlamov bem quer ser russo, mas, no fundo do seu coração, é um porco judeu. A vida dele é o dinheiro e os benefícios que ele lhe traz, enquanto eu queimei todo o meu dinheiro na lareira. Nem tenho necessidade de dinheiro, nem de terras, nem de carneiros e também não tenho necessidade de que tenham medo de mim, nem que se descubram à minha passagem. Então eu sou mais inteligente que o vosso Varlamov e pareço-me mais com um ser humano do que ele.»



Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 40
« - À noite não dorme, só pensa, pensa, pensa; mas em quê só Deus é que o sabe. Se nos aproximamos dele, enfurece-se e ri. Nem de mim gosta...Não deseja nada. Quando morreu o nosso pai, deixou-nos seis mil rublos a cada um. Eu comprei esta estalagem, casei e agora tenho filhos. Ele queimou o dinheiro todo na lareira. Que dó! Porque é que o queimou? Se não o queria, desse-mo, mas agora queimá-lo...»


Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 42

A estepe

«Durante as tardes e as noites de Julho já não se ouvem as codornizes, nem as galinholas, nem o rouxinol, nas ravinas da floresta; as flores já não embalsamam o ar. No entanto, a estepe continua ainda muito bela e cheia de vida. Basta que o Sol se ponha e a terra mergulhe na sombra para que a tristeza do dia seja esquecida e tudo seja perdoado; a estepe suspira suavemente pelo seu grande peito. A obscuridade da noite esconde o seu estigma, a erva anima-se numa alegre confusão juvenil que durante o dia ela nunca consegue ter; os estalidos, os assobios, as arranhadelas, os baixos, os tenores e os sopranos da estepe, tudo se funde num zumbido contínuo que convida à saudade e à melancolia. Esta ressonância adormece como uma canção de embalar; rola-se através da estepe e sente-se que vai adormecer, mas de repente é o grito inquieto e sacudido dum pássaro que ainda não adormeceu, ou num barulho indefinível semelhante a uma voz humana, como um «aaah» de espanto, e lá se vai o sono das pálpebras.»


Anton Tchekoff. A Estepe. Livros de Bolso/ Europa-América. 2ª ed.Trad. Maria do Carmo Santos, 2003., p. 46/47
«Feriu-me singularmente a atenção o verdadeiro modo de ser do público de uma grande cidade. Vive numa constante vertigem do lucro e do gozo, e aquilo a que nós chamamos atmosfera (Stimmung) não se pode criar nem comunicar; todos os prazeres, mesmo o teatro, devem apenas distrair, e a grande inclinação do público ledor de jornais e romances provém de que aqueles, sempre, e estes muitas vezes, trazem distracção à distracção. - Suponho mesmo ter notado uma espécie de timidez em face das produções poéticas, pelo menos enquanto poéticas, timidez que, por essas mesmas razões, me parece muito natural. A poesia requer, exige mesmo, concentração; isola o homem contra a sua vontade, torna-se por vezes molesta e importuna nas suas exigências e é no largo mundo (para não dizer no grande mundo) tão incómoda como uma amante fiel.»



Goethe, carta a 9 de Agosto de 1797

in Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991, p. 19
«Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. Desde o meu pai e a minha mãe, inclusive todos os irmãos de meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada. Não apenas de devassidão humana, mas devassidão geográfica. Nunca encontrei até à data uma lógica que explique tudo isto. Não se pode atribuir à Revolução. Foi mais uma coisa atávica, uma coisa de destino, uma coisa ilógica. Até hoje ainda não encontrei um ponto de apoio que me mostre porque nesta minha família sucederam nessa forma, e tão sistematicamente, essa série de assassinatos e de crueldades.»






in Los muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo

As flores

«Há escritores que se servem delas pelo simples prestígio dos seus nomes, sem prestarem muita atenção ao facto de corresponderem, ou não, ao lugar e à estação do ano. De modo que não é raro encontrar bons livros onde florescem gerânios na praia e túlipas na neve. Em Pedro Páramo, onde é impossível estabelecer de uma forma definitiva onde está a linha de demarcação entre os mortos e os vivos, as exactidões são ainda mais quiméricas. Ninguém pode saber, na realidade, quanto duram os anos da morte.»



Gabriel García Márquez in Juan Rulfo, Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 14

Pavese

Terra vermelha, terra negra

tu vens do mar,

do verde requeimado

onde há palavras

antigas e fadiga sanguínea

e gerânios entre as pedras -

não sabes o que em ti

trazes de mar palavras e fadiga,

tu rica como uma lembrança,

como o campo despido,

tu áspera e dulcíssima

palavra, antiga como o sangue

recolhido nos olhos;

jovem, como um fruto

que é lembrança e estação -

a respiração repousa

sob o céu de agosto,

as azeitonas do teu

olhar suavizam

o mar e tu vives revives

sem surpresa, certa

como a terra, escura

como a terra, moinho

de estações e de sonhos

que ao luar se revela

antiquíssimo, como

as mãos de tua mãe,

a concha da braseira.

Tu és terra e a morte.

A tua estação é a sombra

e o silêncio. Nada

vive mais distante

da aurora que tu.

Quando pareces despertar

és dor apenas,

tem-la nos olhos e no sangue

mas tu não sentes. Vives

como vive uma pedra,

como a terra dura.

Vestem-te sonhos

movimentos soluços

que tu ignoras. Como a água

de um lago a dor

tremula e envolve-te.

Há círculos sobre a água.

Tu deixa-los desvanecer.

Tu és a terra e a morte.

Virá a morte e terá os teus olhos

- esta morte que nos acompanha

de manhã à noite, insone,

surda, como um velho remorso

ou um vício absurdo. Os teus olhos

serão uma palavra vã,

um grito mudo, um silêncio.

Assim os vês todas as manhãs

quando sobre ti mesma no espelho

te inclinas. Ó minha cara esperança,

nesse dia saberemos nós também

que tu és vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.

Virá a morte e terá os teus olhos.

Será como abandonar um vício,

como ver surgir no espelho

em rosto morto, como

escutar uns lábios fechados.

Mudos, desceremos no abismo.

Cesare Pavese


Cesare Pavese in Dez Poetas Italianos Contemporâneos em selecção, tradução e notas de Albano Martins