quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019


Avaro,
conto as palavras
com que pretendo dizer
algo
-- quase nada --
do tudo que quisera.

(Raras, as palavras
não vingaram na primavera.)

Vai vir o dia
em que não direi nada,
não serei nada:
partícula abismada no tudo.

Aí tudo estará bem.
Ou nada.

Avaro,
me calo
ante o mistério do nada.

(Nada
é
tudo.

Tudo
é
nada.)

E apago as palavras
em que sobrenado.

Otto Leopoldo Winck

MAUDITS



Mallarmé na cabeça
Rimbaud no coração
eu vou
quebrando a cara
nas quebradas do mundo

o alvo
uma nova constelação
no branco da folha
ou então
obscuros negócios
na Abissínia

o que vale
é virar a última página
do livro burguês
e cair na esbórnia
de signos e sentidos
da comuna de todos os vates

(ó sociedade:
aqui pra vocês)

assim
enquanto eu puder
beberei até a última gota
do doce absinto
do mestre de todos
Charles Baudelaire

Otto Leopoldo Winck


Mallarmé na cabeça
Rimbaud no coração
eu vou
quebrando a cara
nas quebradas do mundo

o alvo
uma nova constelação
no branco da folha
ou então
obscuros negócios
na Abissínia

o que vale
é virar a última página
do livro burguês
e cair na esbórnia
de signos e sentidos
da comuna de todos os vates

(ó sociedade:
aqui pra vocês)

assim
enquanto eu puder
beberei até a última gota
do doce absinto
do mestre de todos
Charles Baudelaire

Otto Leopoldo Winck

Pássara



passarás?

Tuas asas
tuas sobrancelhas
tuas cores
Orlanda.

Flor e país
caveira e acontecimento.
Dia do juízo final.

Não te recolho ao nome
misturo teus gestos
à casa azul.

Metamorfoseio
identidades.

O que és
o que não és
está neste quadro.

Pássara
que fica
Frida.
RTD


Não sei se o teu nome é um véu
ou uma máscara. Uma chave
ou uma lápide.
Sei que em manhãs antigas
eu procurei, na água dos regatos
ou nos seixos da alameda,
o rastro de teus passos por esta parte do mundo.
Sei também -- e como dói a consciência deste saber! --
que tudo passa, ou melhor:
tudo é passagem e passado.
Até a voz com que te grito,
até o gesto com que, de joelhos, me desmereço.
Não, não sei se o teu nome é o véu
que obscurece o céu às seis da tarde
ou o clarão de cem mil sóis
que me cegará um dia.
Sei que é tarde para voltar.
E cedo, muito cedo, para partir.
(Quisera permanecer aqui, e montar uma cabana para mim, outra para ti
e uma terceira para meus medos.)
Mas sei -- e como é cruel este saber! --
que não virás nunca
porque no fundo, lá no fundo,
tu nunca partiste.

Otto Leopoldo Winck


NA BOCA



Manuel Bandeira

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância.
Outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer
[a vontade aos viciados

Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como
[o outro: - Na boca! Na boca!


quero me cortar
com gilete farpas lascas latas
e cacos de vidro
quero sangrar
chorar estrebuchar dançar
e grafar no muro mais sujo
teu santo nome em vão
quero viver morrer matar
me alistar na legião estrangeira
farcs hezbolah pkk
só pra aflorar
teu instinto maternal
e te ouvir gritar
meu bem meu bem
não vá

Otto Leopoldo Winck



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019


"A poesia é um exercício para condenados. Os poetas transitam pela rua com o rosto e os gestos dos demais transeuntes e só assim sobrevivem; porque se se vestissem com o traje de amianto e fósforo que lhes corresponde, as pessoas fugiriam a seu passo e o pavor reinaria ao seu redor como uma luminosa coroa justiceira. Os poetas entendem esta situação e aceitam a penosa carga deste mimetismo humilhante. Mas resta uma unidade onde esta condição de vida assinalada pelos sete dedos da lucidez, da beleza, da ira, da intemporalidade, do sonho, da morte e do amor, é inocultável. Esta zona a constituem as palavras do poeta, sua visão e seu trato com os demais condenados.

Alvaro Mutis citado por Floriano Martins

in O Hábito do abismo


Não existe o infinito:


Não existe o infinito:
o infinito é a surpresa dos limites.
Alguém constata sua impotência
e logo a prolonga para além da imagem, na ideia,
e nasce o infinito.
O infinito é a dor
da razão que assalta nosso corpo.
Não existe o infinito, mas sim o instante:
aberto, atemporal, intenso, dilatado, sólido;
nele, um gesto se faz eterno.
Um gesto é um trajeto e uma encruzilhada,
um estuário, um delta de corpos que confluem,
mais que trajeto um ponto, um estalido,
um gesto não é início nem fim de nada,
não há vontade no gesto, somente impacto;
um gesto não se faz: acontece.
E quando algo acontece, não há escapatória:
todo olhar tem lugar num lampejo,
toda voz é um signo, toda palavra forma
parte do mesmo texto.

Chantal Maillard, trad. Adriana Lisboa

*descoberta numa publicação da poeta Raquel Gaio



domingo, 3 de fevereiro de 2019

Em busca da Política


 Zigmunth Bauman

"Quando o estado reconhece a prioridade e superioridade das leis do mercado sobre as leis da pólis, o cidadão transforma-se em consumidor demanda mais e mais proteção, enquanto aceita cada vez menos a necessidade de participar no governo do Estado. O resultado global são as atuais condições fluidas de anomia generalizada e rejeição das normas em todas as suas versões. Aumenta, em vez de diminuir, a distância entre o ideal de democracia liberal e sua versão real, de fato existente. Temos um longo caminho a percorrer antes de sequer pensarmos em alcançar uma sociedade na qual os indivíduos reconheçam sua autonomia junto com os laços de solidariedade." (pág.159)

O QUE OS MORTOS SENTIRAM?




Por Mário Lima Jr.

Quase cem corpos encontrados, mais de duzentas pessoas desaparecidas. Moradias destruídas, árvores derrubadas e plantações devastadas. Por causa da poluição do rio Paraopeba, sua principal fonte de sustento, a sobrevivência da tribo Pataxó Hã-hã-hãe está ameaçada. Os culpados, liderados pela Vale, foram apontados ao longo da semana e devem ser punidos de uma vez por todas. Para impedirmos que crimes como o de Mariana e Brumadinho se repitam, também é fundamental compartilharmos o sofrimento daqueles que se foram.

Jonatas Lima Nascimento tinha 36 anos e está entre os assassinados pela negligência da Vale. Era operador de equipamentos de instalação e passou o primeiro turno de trabalho, do dia 25 de janeiro, pensando na esposa e nos filhos, de 11 e 5 anos de idade. Sabemos disso porque Jonatas ligou duas vezes para conversar com a esposa naquela manhã.

Cansado, talvez depois de abastecer vagões com minérios que seriam transportados de trem, uma das tarefas que desempenhava, Jonatas estava no centro de carregamento – uma área baixa – na hora do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, segundo informações extraoficiais.

A audição deve ter sido o primeiro sentido despertado, pelo barulho da onda gigantesca de rejeitos rompendo a barragem e esmagando o maquinário e tudo o que tinha pela frente. Se havia treinamento frequente para situações de emergência, em milésimos de segundo o cérebro trouxe à memória o procedimento a ser seguido. Mas o mar de lama veio rápido demais para uma reação maior. Muitos não tiveram tempo de correr, como os trabalhadores dentro do refeitório, completamente soterrado. No máximo, trocaram olhares com o colega de trabalho mais próximo, que também morreria em instantes.

Gritos foram abafados de imediato. A força da avalanche, que deslocou construções por centenas de metros, esmagou as vítimas contra paredes e objetos que arrastava, bem maiores do que o corpo humano. Antes da escuridão completa, quem sabe Jonatas sentiu o impacto nas costas e na cabeça, e o corpo imobilizado por um peso tremendo sobre ele.

Os Bombeiros encontraram membros arrancados. Esperamos uma morte instantânea, sem dor, mas aqueles que passaram pela experiência não podem revelar se sentiram o corpo cortado, perfurado, o gosto de terra na boca e o toque da lama entre os dedos. Dois segundos no trajeto do rompimento da barragem significaram um sofrimento insuportável. A podridão entrou pelo nariz, pela boca, e em pouco tempo se tornou impossível respirar.

Com calma e benevolência na voz, Fabio Schvartsman, presidente da Vale, alegou que a empresa aplicou um “esforço imenso” para evitar outra tragédia após Mariana. No entanto, os mortos, bem como o sofrimento dos parentes, são um fato indiscutível que provam o contrário. As sirenes que deveriam ter alertado a população sequer funcionaram. Foram instaladas para cumprir a legislação e nem ao menos testadas. É o relato do seu Manuel, que morava perto da barragem e de uma das sirenes. Ele perdeu a casa e só não perdeu a vida porque a esposa o salvou.




Muito mais dos mesmos. A votação ampliada de Rodrigo Maia, o "Botafogo", na presidência da Câmara, revela a forte continuidade de mando tradicional e fisiológico no poder legislativo. Uma das mais importantes famílias políticas no Rio de Janeiro, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, pesquisada pelo nosso colega Marciano Monteiro. Pela mulher de Maia, enteada de Moreira Franco, o "Angorá", ele é quase o genro do genro do genro até Getúlio Vargas ! Na Assembleia Legislativa do Paraná foi reconduzido Ademar Traiano, conhecido por relações de nepotismo na instituição e como vice o deputado Plauto Miró Guimarães, de mais uma família da classe dominante tradicional, de modo que continuamos no poder de famílias originárias do Período Colonial. Isso porque o eleitor pensa que votou, nas eleições de 2018, em nomes "de fora e contra o sistema" na sua ignorância ! Vamos ver como se resolve o conflito no Senado.
RCO

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


A Humana SúmulaA Piedade deixaria de existir
Se não fizéssemos nós os Pobres de pedir;
E a Compaixão também acabaria
Se a todos, como nós, feliz chegasse o dia.

E a paz se alcança com mútuo terror,
Até crescer o egoísmo do amor:
A Crueldade tece então a sua rede,
E lança seu isco, cuidadosa, adrede.

Senta-se depois com temores sagrados,
E de lágrimas os chãos ficam regados;
A raiz da Humildade ali então se gera
Debaixo do seu pé, atenta, espera.

Em breve sobre a cabeça se lhe estende
A sombra daquele Mistério que ofende;
É aí que Verme e Mosca se sustentam
Do Mistério que ambos acalentam.

E o fruto que gera é o do Engano
Doce ao comer e tão malsano;
E o Corvo o seu ninho ali o faz
No mais espesso da sombra que lhe apraz.

Todos os Deuses, quer da terra quer do mar,
P'la Natureza esta Árvore foram procurar;
Mas foi em vão esta procura insana,
Esta Árvore cresce só na Mente Humana.

William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves


Na composição do núcleo militar do Ministério Bolso, todos os generais pertencem a famílias militares, com tradições conservadoras, muitas vezes com pais que atuaram no Golpe de 64 e no serviço da ditadura, com antigos vínculos no pensamento político autoritário de ideologias dos tempos da “Guerra Fria” e da “Doutrina de Segurança Nacional”. Os generais Hamilton Mourão, Augusto Heleno, Fernando Azevedo são todos filhos de oficiais do Exército, o General Santos Cruz e o atual Comandante do Exército, o General Pujol, são filhos de oficiais da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Os militares, ao lado das famílias políticas do executivo, legislativo e judiciário, só podem ser entendidos quando vistos no conjunto de suas famílias. Há forte hereditariedade militar na composição e recrutamento da elite militar brasileira. Os oficiais generais quase sempre possuem vínculos genealógicos com a classe dominante tradicional ou entram pela tradição militar conservadora. A família do General Etchegoyen era um caso de hereditariedade militar. O General Eduardo Villas Boas, um dos responsáveis pelo fracasso da democracia brasileira, é mais um caso. Filho do Coronel do Exército Antonio Villas Boas e de Inalda Dias da Costa. Neto materno de Antonio Joaquim Dias da Costa e de Edith Neves, grandes fazendeiros em Cruz Alta, Rio Grande do Sul e descendentes das principais famílias latifundiárias, escravistas e políticas da Fronteira Sul, Simões Pires, Carneiro da Fontoura e outras. Parece que voltamos à República Velha e suas oligarquias políticas familiares entreguistas, antimodernidade e antidemocracia. O Ministério do Bolso poderia estar em 1929, antes do Movimento de 1930.
RCO



O nepotismo é uma longa corrente hereditária de vantagens e privilégios extraídos do Estado ao longo de várias gerações na classe dominante. Todos leram o caso do filho do general Mourão, Antonio Hamilton Rossell Mourão, repentinamente promovido com salário triplicado a quase 40 mil. O beneficiado é filho e neto de generais do exército, bisneto de desembargador e presidente do TJ do Amazonas, trineto de oligarcas latifundiários do Piauí. Pelo lado materno é filho da primeira esposa de Mourão, Ana Elizabeth, das principais famílias de Bagé, na fronteira do Rio Grande do Sul, neto de Mário Magalhães Rossell e de Zaida Quintana. O estádio de futebol local se denomina Antônio Magalhães Rossel, um dos tios e a família esteve associada com grandes pecuaristas e latifundiários, desde o Visconde de Ribeiro Magalhães, avô materno de Mario Magalhães Rossell e trisavô do sortudo do Banco do Brasil, Antonio Hamilton Rossell Mourão, o que mais uma vez confirma a tese de que política é assunto de famílias e de genealogias das classes superiores, muitas dentro do Estado, desde o Antigo Regime, ao longo de várias gerações e vários séculos. Como citamos o autor Oliveira Vianna no nosso livro Na Teia do Nepotismo: O nepotismo é a fórmula tradicional e geral da nossa vivência política. Para o trabalhador restou o prejuízo de perder oito Reais do seu salário mínimo para poder sustentar todo andar de cima da sociedade do Bolso, seus familiares e associados nas diversas corporações e altas rodas, os que o apoiam, lucram e embalam...
RCO


Nunca se viram as instituições que deveriam ser ou ter aparência de Estado, o sistema judicial, as forças armadas tão aparelhadas, partidarizadas e fazendo há meses campanha aberta para o candidato protegido deles, o Bolso e que venceu de maneira ilegítima, antidemocrática e sem concorrência. O baixo nível das ideias e propostas por eles na educação e saúde nesses dias só mostram que serão sócios e cúmplices do fracasso do desgoverno atual e daí já terão as suas imagens e identidades profissionais tão coladas com Bolso, que afundarão todos juntos na mesma impopularidade, ao lado dos seus parlamentares, juristas, ministros, comandantes, pastores e mídias unilaterais. O primeiro teste será a reforma da previdência em que já se divorciaram completamente da maioria da nação ao pretenderem preservar os seus privilégios corporativos de políticos, juízes, militares, empresários e outros ricos responsáveis pelo verdadeiro déficit do setor. Uma hora a maioria trabalhadora e assalariada perceberá o engodo eleitoral em que caiu.
RCO


E mais um descendente das antigas oligarquias no governo. O general Otávio Santana do Rêgo Barros, novo porta-voz do governo, natural de Recife-PE, filho de Francisco Rodolfo Valença do Rêgo Barros e de Maria Auxiliadora Santana do Rêgo Barros pertence a algumas das mais antigas e principais famílias pernambucanas da antiga açucarocracia, aquelas famílias dos engenhos de Casa Grande e Senzala. Como a cúpula das Forças Armadas possui muitos vínculos com a antiga classe dominante tradicional do "Antigo Regime", enfim, o que as pesquisas revelam das biografias coletivas, a prosopografia das autoridades do "novo-velho" governo... Fato social e político.


RCO

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Sobre vagueza, ou, quando um monte de areia não é um monte de areia?



Timothy Williamson - tradução de Thiago Melo.

Imagine um monte de areia. Você cuidadosamente remove um grão. Há ainda um monte? A resposta é: sim. Remover um grão não torna um monte em não monte. O princípio pode ser aplicado também quando remove outro grão, e então outro… Após cada remoção, há ainda um monte, conforme o princípio de que remover um grão não torna um monte em não monte. Mas havia, finitamente, apenas muitos grãos para começar, de modo que você se depara com um monte com apenas três grãos, então um monte com só dois grãos, um monte só com um grão, e finalmente um monte com nenhum grão. Mas isso é ridículo. Deve haver algo errado com o princípio. Algumas vezes, removendo um grão, torna um monte de areia num não monte. Mas isso parece ridículo também. Como pode um grão fazer tanta diferença? Esse antigo problema é chamado de paradoxo de sorites, da palavra grega para “monte”.

Não haveria problema se tivéssemos uma boa e precisa definição de “monte” que nos diga exatamente quantos grãos você precisa para um monte. O problema é que não temos tal definição. A palavra “monte” é vaga. Não há um claro limite entre monte e não monte. Na maioria das vezes, isso não importa. Entendemos bem o suficiente para aplicar a palavra “monte” com base nas impressões casuais. Mas se a prefeitura te acusasse de ter despejado um monte de areia num local público, e você negasse que era um “monte”, se você teve qua pagar uma multa grande, essa situação então pode depender do significado da palavra “monte”.

Questões morais e legais mais importantes também envolvem vagueza. Por exemplo, no processo de desenvolvimento humano, desde a concepção, o nascimento, até a maturidade, quando primeiramente passa a existir uma pessoa? No processo de morte cerebral, quando não existe mais uma pessoa? Tais questões importam para admissibilidade de intervenções médicas, como o aborto e o desligamento de aparelhos. Então, para discutir com propriedade, devemos ser capazes de raciocinar corretamente com palavras vagas a exemplo de “pessoa”.

Você pode achar aspectos de vagueza na maioria das palavras do Português ou em qualquer outra linguagem. Em voz alta ou em nossas cabeças, raciocinamos na maior das vezes com termos vagos. Esse tipo de raciocínio pode facilmente gerar um paradoxo tipo o do sorites. Você pode ficar pobre ao perder um centavo? Você pode ficar alto ao crescer um milímetro? A princípio, os paradoxos parecem ser truques verbais banais. Mas, quanto mais rigorosamente os filósofos os estudaram, mais profundo e difíceis se tornaram. Eles levantam dúvidas sobre os mais básicos princípios lógicos.

Tradicionalmente, a lógica tem por base o pressuposto de que toda afirmação (e negação) é verdadeira ou falsa (e não as duas coisas simultaneamente). Isso é chamado de bivalência, porque diz que há apenas dois valores de verdade: verdade e falsidade. A lógica Fuzzy é uma influente abordagem alternativa para a lógica da vagueza que rejeita a bivalência em favor de um contínuo grau de verdade e falsidade, que vai da perfeita verdade de um lado à perfeita falsidade de outro. No meio, uma afirmação pode ser simultaneamente meio verdadeira e meio falsa. Conforme essa visão, quando você remove um grão após o outro, a afirmação “Há um monte” torna menos e menos verdadeira por ínfimos passos. Nenhum passo te leva da verdade perfeita para a falsidade perfeita. A lógica Fuzzy rejeita alguns princípios-chave da lógica clássica, nos quais se baseia a matemática padrão. Por exemplo, o lógico tradicional diz, em cada ponto, “Ou há um monte ou não há”; isso é um exemplo de um princípio geral chamado terceiro excluído. O lógico fuzzy responde que quando “há um monte” é apenas uma meia verdade, então “há um monte ou não há um monte” é apenas meia verdade também.

À primeira vista, a lógica fuzzy pode parecer uma natural e elegante solução ao problema da vagueza. Mas quando você desenvolve suas consequências, ela é menos convincente. Para ver o porquê, imagine dois montes de areia, uma exata cópia de um e outro, um à direita e outro à esquerda. Ao remover um grão de um lado, você remove um grão exatamente correspondente do outro lado também. A cada estágio, a areia da direita e a areia da esquerda são grão por grão cópias exatas uma da outra. Isso é muito claro: se há um monte à direita, então há uma monte à esquerda também, e vice e versa.

Agora, conforme o lógico fuzzy, quando removemos os grãos um a um, mais cedo ou mais tarde chegamos no ponto onde a afirmação “há um monte à direita” é meio verdadeira e meio falsa. Desde que o que está à esquerda copia o que está à direita, “há um monte à esquerda” é meio verdadeira e meio falsa também. As regras da lógica fuzzy então implicam que a afirmação complexa “Há um monte à direita e nenhum à esquerda” é também meio verdadeira e meio falsa, o que significa que podemos estar igualmente propensos entre aceitar e rejeitá-la. Mas isso é absurdo. Devemos rejeitar totalmente esta afirmação, já que “Há um monte à direita e nenhum à esquerda” implica que há uma diferença entre o que está à direita e o que está à esquerda - mas não há essa diferença; eles são grão a grão duplicados. Assim, a lógica fuzzy obtém o resultado errado. Ela perde as sutilezas da vagueza.

Há muitas outras propostas complicadas para revisar a lógica e acomodar a vagueza. Minha visão é que todas elas estão tentando consertar algo que não está estragado. A lógica Padrão, com bivalência e terceiro excluído, é bem testada, simples e poderosa. A vagueza não é um problema sobre lógica; é um problema sobre conhecimento. Uma afirmação pode ser verdadeira sem que você saiba que ela é verdadeira. Existe de fato um ponto em que você tem um monte, você remove um grão, e você não tem mais um monte. O problema é que você não tem meios para reconhecer esse ponto quando ele chega. Assim, você não sabe o ponto em que isso acontece.

Uma palavra vaga como “monte” é usada tão imprecisamente que qualquer tentativa de localizar seus limites exatos não possui solidez e confiança para continuar. Embora a linguagem seja uma construção humana, isso não faz ela ser transparente a nós. Como as crianças que fazemos, os significados que fazemos podem guardar segredos de nós. Felizmente, nem tudo está escondido de nós. Frequentemente, nós sabemos que há um monte; frequentemente, nos sabemos que não há um. Algumas vezes, nós não sabemos se há ou não. Ninguém nunca nos deu o direito de saber tudo!

Timothy Williamson é o professor Wykeham de lógica na Universidade de Oxford. Seus principais interesses de pesquisa estão na filosofia da lógica, epistemologia, metafísica e filosofia da linguagem. Seu último livro é Tetralogue: I’m Right, You’re Wrong (2015).

Texto originalmente publicado no site Aeon: On vagueness, or, when is a heap of sand not a heap of sand?

*Não domino a língua inglesa. Portanto, críticas a esta tradução são bem vindas.

Cortella e Karnal sobre ética




Circula há algum tempo na internet um vídeo em que Mário Sérgio Cortella fala sobre ética, e intitulam o vídeo como sendo uma definição de ética. O que ele diz é muito mais uma posição ética do que uma definição de ética. Ética (ou filosofia moral) é a investigação sobre as normas para que uma ação seja correta. Quando Cortella diz que ética é “um conjunto de princípios e valores sobre o que eu devo, posso e quero” ele já está dando uma reposta ao problema de saber o que é certo fazer. Pois ele admite que há princípios (existe filósofos que discordam) e admite que é o equilíbrio entre as normas, a liberdade e a vontade. Isso vai além da mera definição da área de conhecimento.

Recentemente, Leandro Karnal disse que ética é respeitar a todos, não só quem tem poder. Isso também já é uma resposta ao problema. Há teorias éticas que não aceitam isso.

O trabalho filosófico em ética consiste também em fazer o que Cortella e Karnal estão tentando fazer. Mas é importante ter essas considerações que fiz em mente porque a ética é uma área em aberto, não tendo ainda uma resposta definitiva sobre seu problema principal: o que é uma ação correta?

 Thiago Melo



A misoginia, as minorias e o desrespeito



O número de pessoas que vejo indignadas com o desrespeito às mulheres, aos negros e as demais chamadas minorias vem crescendo. Isso poderia ser uma grande notícia. Mas a quantidade destas mesmas pessoas que também desrespeitam está aumentando. Percebo através de jornais, redes sociais e meu convívio social. Vejo pessoas indignadas com o machismo e elas próprias não respeitam o professor, o colega de trabalho, o colega de sala, o que está em posição social diferente, aquele que pensa diferente etc. Ao mesmo tempo, o número de pessoas que reafirmam seus preconceitos também aumentam. O número de pessoas que reafirmam o machismo, por exemplo, está aumentando.

A explicação para isso está no respeito seletivo. Não dá para escolher as pessoas que você quer respeitar. Muito menos, se você escolhe não respeitar alguém simplesmente por essa pessoa estar fazendo seu trabalho, como é o caso de desrespeito a professores. Isso porque quando o respeito ao próximo vira algo arbitrário, o grupo maior vai ganhar. Se existe mais machistas que feministas, os machistas vão ganhar. E não se pode depois alegar injustiça, pois o respeito foi consensualmente arbitrário. Ambos os lados aceitaram respeitar quem eles acham que deve. Aí ninguém pode determinar quem deve ser respeitado, a não ser o grupo maior ou mais forte.

Você esperneando ou não, o mundo nem sempre segue as nossas normas. Muito menos, se não conseguimos convencer a maioria. E escolhendo quem vamos respeitar, não conseguiremos. Não abra mão de respeitar o próximo. Esse caminho é mais seguro para o respeito a todos os tipos de pessoas.




Thiago Melo