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segunda-feira, 18 de maio de 2020



"Comunistas. Até então eu nunca me importara com comunistas. Aliás, nem sabia direito quem eram. Associava-os vagamente a assassinatos, violência, fome, Cuba, China... Pelo que o meu pai falava, eles deviam estar a ponto de dominar o país. Aí então iriam fechar as igrejas, dividir nossas casas com vagabundos, implantar uma feroz disciplina. Não me agradava sobretudo este último aspecto. Dividir a casa com vagabundos? O único vagabundo que eu conhecia – e o único da cidade inteira – era seu Melquides, o homem do saco de minha infância, que dormia de favor nos sítios das redondezas, nos fundos da olaria, na porta da igreja, debaixo da marquise do cartório, que carpia terrenos ou varria calçadas em troca de um prato de comida, que dispunha de um arsenal incrível de causos absurdos com os quais fazia gargalhar a piazada na praça da cidade, agora que eu, crescido, via que ele não era nenhum bicho-papão. Se ele tomasse um bom banho e tirasse aquela craca do corpo, eu até que não me importaria em dividir a casa com ele. E quanto a fechar igrejas, eu até achava bom. Aborrecia-me na missa aos domingos e não adiantara nada, por conta do Concílio Vaticano II, a liturgia ter passado a ser em vernáculo. Enfim, os comunistas não eram uma grande ameaça para mim. Mas o mesmo não se podia falar de meu pai, que vira as reformas de base propostas pelo presidente João Goulart como a porta de entrada do bolchevismo. Na cidade, graças a Deus, não houve nenhuma Marcha da Família com Deus pela Liberdade, mas se realizaram algumas fastidiosas vigílias na igreja matriz às quais o meu pai me levara arrastado. De ouvido grudado no velho rádio valvulado, ele acompanhava os sermões do padre Peyton e os programas do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). Assim, foi um alívio para ele quando, no dia 31 de março, ouviu que as tropas do general Olympio Mourão Filho marchavam de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro. Chegou a se emocionar com as marchas e dobrados militares que infestaram as rádios por um tempo. Para mim até que não foi mal: três dias de recesso escolar. Tirando um ou outro professor desligado da escola, nem minha rotina nem a da cidade sofreram alteração relevante. Agora, conversando com Adrian, meus olhos se abriam: descobria que o mundo, para além dos estreitos limites daquela cidadezinha, estava dividido entre progressistas e reacionários, oprimidos e opressores, aqueles que lutavam pelo avanço da humanidade e aqueles que se serviam de todos os estratagemas para detê-lo – e os milicos não estavam entre os primeiros."

Otto Leopold Winck.  De "Que fim levaram todas as flores":

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019


Lendo sobre Napoleão, o que chama a atenção, além de sua ousadia e da potência de sua mente, é o seu carisma. Até seus inimigos e adversários se deixavam fascinar por ele. Ao escapar da Ilha de Elba, em fevereiro de 1815, ela aporta com 1100 homens em Golfe-Juan, no sul da França. Dois dias depois, o 5º Regimento é enviado para capturá-lo. Os dois grupos se veem frente a frente, com suas baionetas apontadas. Napoleão manda seus soldados abaixarem as suas e se aproxima sozinho da tropa adversária. Diante deles, abre o casaco e profere: "Soldados, aqui estou eu! Se quiserem, matem o vosso imperador!" Os soldados hesitam, baixam suas armas e depois de alguns segundos ouve-se: "Vive L'Empereur!" (Viva o Imperador!)". Então, desfazem suas fileiras e circundam aquele general de apenas 1,58m de altura, querendo tocá-lo, em extrema alegria.

OlW

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Às vezes você é obrigado a pôr uma máscara e sair sorrindo. Cumprimentando as pessoas. Respondendo às perguntas 'fáticas' tipo "tudo bem?", "como vai?". Mas na verdade você só quer é estar sozinho. Olhando a lua. Ou se molhando na chuva. E perguntando: onde vai dar tudo isso?
Olw
"Onde pus a esperança, as rosas / Murcharam logo." Álvaro de Campos


A literatura não é autoajuda, pilulas de otimismo ou lições de auto-superação. A literatura, como ela se delineou na modernidade, é a procura do estranhamento, da alteridade, da exotopia (olhar-se a si mesmo como que de fora). Isso não sgnifica que a literatura não possa ajudar, mas ajudar num sentido mais amplo, complexo, dialético. Parafraseando a linguagem dos místicos, se para atingir a iluminação é preciso antes esvaziar-se das ilusões (o véu de Maya), a literatura é aquela que produz o vazio. Aí, neste vazio, neste oco, neste nadir, neste zinzum (pra falar como a cabala) pode quem sabe brotar a luz.

Otto Leopoldo Winck


Picasso morreu com 91 anos. Saramago com 87. Drummond com 84. Victor Hugo com 83. Manuel Bandeira com 82. Machado de Assis com 69. Hemingway, aos 61, se suicidou com um tiro de espingarda na boca. James Joyce e Guimarães Rosa, dois inventa-línguas, morreram com 59 anos. Clarice Lispector morreu um dia antes de completar 57 anos de idade. Mário de Andrade morreu aos 51. Marcel Proust também. Fernando Pessoa morreu aos 47, de cirrose hepática. Paulo Leminski também morreu de cirrose hepática, mas aos 44. Não se sabe ao certo se Edgar Allan Poe morreu de cirrose, mas com certeza a bebida teve sua culpa na sua morte aos 40. Rimbaud morreu com 37 anos mas parou de escrever aos 20. Maiakovski se matou com um tiro na cabeça aos 36. Florbela Espanca também morreu aos 36, no dia de seu aniversário. Causa: ingestão de barbitúricos. Cruz e Souza foi outro que morreu aos 36. Tuberculose. Fagundes Varela morreu com a idade de Cristo. Augusto do Anjos aos 30. De pneumonia. Torquato Neto se matou no dia de seu 28º aniversário, ingerindo gás, e deixou escrito num bilhete: pra mim chega. Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Kobain e Amy Winehouse morreram todos aos 27 anos. Overdose ou outras causas suspeitas. Noel Rosa, sambista que tinha uma vida muito rock’n’roll, morreu aos 26. Lautréamont morreu aos 24. Castro Alves também morreu aos 24, mas depois de dar, literalmente, um tiro no pé. Junqueira Freire, outro romântico, morreu aos 23. Casimiro de Abreu aos 21. Álvares de Azevedo esperou menos ainda: morreu aos 20. Raymond Radiguet, autor de Com o diabo no corpo, também morreu aos 20. Já Sid Vicious, do Sex Pistols, foi mais longevo que esse último: morreu dois meses antes de completar 21 anos, de overdose de heroína. Oscar Niemeyer, por sua vez, morreu com 105 anos, 11 meses e 20 dias – e disse que a vida é um sopro.

Otto Leopoldo Winck


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Lições de sociologia política para leigos




Burguês é o detentor dos meios de produção. No popular, é o patrão. Mas não o dono da vendinha ou da loja da esquina não. É principalmente a entidade anônima que comanda as transnacionais. Proletário é aquele que de si só tem sua força de trabalho e por isso é obrigado a vendê-la no mercado. Mas tem também o 'prole-otário'. É o cabra que é proleta também mas se acha burguês e por isso vive defendendo os privilégios da burguesia. Se liga, meu irmão!



Otto Leopoldo Winck

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

BRÁS CUBAS E ROBERTO BARROSO




No livro 'Um mestre na periferia do capitalismo', Roberto Schwarz aventa que Brás Cubas, longe de um alter-ego de Machado Assis, é na verdade um emblema da elite brasileira da época. Os latifundiários escravagistas mandavam seus filhos estudarem na Europa. De lá, voltavam cheios de ideias liberais e progressistas. No entanto, ao pensar em mudar as práticas arcaicas de seus pais, logo se davam conta de que seus privilégios -- entre eles o de estudar na Europa -- eram frutos justamente dessas práticas arcaicas: o latifúndio, a monocultura e a exploração da mão-de-obra escrava. Assim, nossos fazendeiros bacharéis viviam uma esquizofrenia política: cabeça liberal, pés escravocratas; discurso moderno, práxis arcaica.

Assim é o ministro da Suprema Corte Roberto Barroso. Adora falar em pacto civilizatório e em criticar os atrasos de nossos costumes políticos. No entanto, ele mesmo é o melhor exemplo dos herdeiros de Brás Cubas: na boca, liberalismo de almanaque, porém suas decisões não só reforçam como ampliam o fosso entre os filhos da Casa Grande e o filhos da Senzala.

Só que Roberto Barroso é ainda pior que Brás Cubas. Como o defunto autor da obra mestra de Machado Assis, é cheio de um discurso escorregadio, empolado, pedante, vazio.
Falta-lhe, todavia, o humor e a ironia fina de Brás Cubas. Nossa elite, infelizmente, não só não evoluiu como ainda piorou.

Saudades do Brás -- ao menos ele era honesto no seu cinismo.

Otto Leopoldo Winck


(Texto de um ano atrás.)



sexta-feira, 12 de julho de 2019


Tem gente que comemora condenação sem provas. Tem gente que comemora perda de direitos trabalhistas. Tem gente que comemora trabalhar mais pra ganhar menos ao se aposentar. Tem gente que comemora entrega do patrimônio público. Tem gente que comemora pobre na rua. Tem gente que comemora linchamento. Tem gente que comemora estupro...

Olha, tem muita gente estúpida no mundo!
Olw


Ser escritor não é vocação, chamado divino ou destino. Ser escritor é decisão. Em determinado momento da vida, geralmente depois da leitura de livros ou de um livro em especial, alguém decide ser escritor. E em cima dessa decisão, outras decisões são tomadas: um certa disciplina de leituras, estudo de línguas, determinada faculdade ou profissão -- tudo em função de favorecer a opção fundamental: tornar-se escritor. O escritor poderá a vir trabalhar como publicitário, jornalista, professor, advogado, o escambau, mas essa 'profissão' sempre será subsidiária diante da decisão maior de ser escritor. Ele pode até passar anos sem escrever, mas estará sempre acumulando forças para o grande livro que escreverá um dia. Mesmo quando ele está vivendo, ele não vive simplesmente pela vida. Ele vive para acumular experiências para enriquecer sua escritura. Nesse sentido ele vampiriza-se a si mesmo e aos outros. Ele pode estar na maior fossa, sozinho num quarto de hotel ou numa estação deserta, depois que seu amor o deixou -- e mesmo em meio a dor ele estará pensando: como posso transformar isso num poema ou na cena de um romance?
Assim, tornar-se escritor não é necessariamente decidir-se a escrever livros, mas orientar a sua vida de tal maneira que o objetivo de vir a escrever livros não seja prejudicado. Boa parte da energia libidinal do escritor será canalizada para este objetivo, às vezes a tal ponto que faltará energia para outras áreas vitais. Não é que o escritor esteja condenado a ser um fracassado na vida, mas suas energias estão voltadas de tal maneira para sua decisão que chegam a faltar em outras áreas, muitas vezes mais necessárias na luta cotidiana pela vida. Quem não entende isso, não sente isso, pode até escrever livros e ser reconhecido socialmente como escritor, mas nunca o será de fato. Muitos podem alegar que há aqui uma certa herança do cristianismo e de suas ideias de sacrifício e abnegação. Não nego. A literatura não é um evento solto no ar da não-história. A literatura é fruto de uma longa construção histórica que teve suas raízes lá na Grécia antiga e cuja configuração atual se determinou em algum momento entre os séculos XVIII e XIX. Faz parte dessa construção a ideia de que o escritor é um santo sem fé num mundo sem deuses cujo último sucedâneo do sagrado não é necessariamente o fetichismo do livro literário mas o própria decisão de tornar-se escritor. E se a literatura perdeu sua relevância no mundo contemporâneo, este gesto só se reveste de maior heroísmo ainda. E só o herói é belo.

Otto Leopoldo Winck


Jesus nasceu sem teto, trabalhou como carpinteiro numa humilde aldeia da Galileia, periferia da Palestina. Em seu ministério, conviveu com ladrões, corruptos e prostitutas. Não ligava muito para os preceitos religiosos, pois "trabalhava" no sábado, curando os aflitos e oprimidos. Por fim, condenado pelo Império, é executado entre dois ladrões, na ignomínia de uma cruz. Agora, dizer-se seguidor desse cara e ser intolerante para com toda diferença, é uma contradição que nunca vai entrar na minha cabeça.

OLW


A ideologia capitalista é tão bem sucedida que toda a ira e frustração ocasionadas pela exploração são canalizadas contra aqueles que justamente tentam minorar essa exploração...

OLW

terça-feira, 9 de julho de 2019


Pobre ego! Você não sabe que é uma ilusão, um mero centro fictício dividido entre tantos e tão contraditórios apelos... De um lado, o Id te convoca a permanecer na cama, curtindo uma preguiça, e só fazer o que te é agradável. De outro, o superego, como um feitor de chicote em punho, te chamando de vagabundo, gritando para você se levantar logo desta cama e cumprir com tuas obrigações... Não é fácil se equilibrar entre esses dois e irreconciliáveis carrascos, entre Eros e Tânatos, entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade, entre o dever lá fora e a cama quente aqui dentro... Não é a toa que às vezes bate aquele cansaço e pinta então aquela nostalgia do não-ser, do útero materno, do paraíso perdido...
Sobre esta base arquetípica -- Id e superego, Dionísio e Apolo --, similar em todos, há ainda um dicotomia que está na raiz do ser humano ocidental. Há em nosso cérebro um Sócrates e um São Paulo, um grego e um hebreu, um filósofo e um anacoreta -- e eles nunca chegarão a um acordo. A cada dia que me levanto, além da briga acirrada ente Id e superego, tem esses dois que não param de discutir... Não, não sou clássico. Não posso ser clássico, arcádico, parnasiano, ainda que eu quisesse... Depois da Idade Média, não se pode retroceder impunemente à Antiguidade. Com efeito, dentro de mim há uma ágora, onde os filósofos -- estoicos, epicuristas e céticos -- se deblateram eternamente, mas sempre com elegância e educação. No entanto, há também uma catedral gótica, cheia de gárgulas, mosaicos e vitrais -- e visagens de santos e virgens em êxtase... Entre os tamborins das festas helênicas e o órgão solene que brota da catedral sombria, minha alma se dilacera. Por isso eu digo: eu sou barroco, uma encruzilhada de caminhos que levam a múltiplas direções, um feixe de fibras que se cruzam em inúmeros sentidos... Entre céu e lama, luz e trevas, beatitude e maldição, Santo Agostinho e Aristóteles, estou condenado a não ter paz enquanto caminhar sobre esta Terra desolada e sob este Sol impassível. Mas é justamente esta inquietude, esta angústia que é criadora, geradora de estrelas bailarinas. É preciso um caos para criar um cosmos. Se o preço da paz interior é a apatia, eu prefiro este vulcão permanente dentro de mim. Em vez da bonança e da paz da Arcádia, o ímpeto e a tempestade. Mesmo sabendo que sou -- meu ego, este que escreve, ou acha que escreve este texto -- uma ilusão. Ou por isso mesmo.

Otto Leopoldo Winck



Ser escritor não é uma questão de vocação ou de chamado. Os deuses e as musas estão mortos. Ser escritor é uma questão de decisão, uma decisão que se renova toda dia, contra tudo, contra todos, contra si mesmo. É como ser um santo sem fé num mundo sem heróis. Você nunca será recompensado nem mesmo compreendido. Nem é isso que você busca.
Olw


Viver em função da escrita não é necessariamente escrever sempre. Às vezes são importantes longos hiatos sem escrita alguma. Viver em função da escrita é sobretudo viver em função do que se pretende escrever, ainda que esse escrever esteja num futuro remoto. Viver em função da escrita é viver em função desse desejo; é viver na condição de que a vida, ou parte dela, venha a se converter em escrita -- e esta escrita dê alguma ilusão de sentido à vida que não tem sentido nenhum.

Olw

sábado, 13 de abril de 2019

JULIAN ASSANGE É O PRIMEIRO GEEK CAÇADO GLOBALMENTE:



Finalmente conseguiram prender Julian Assange. Reproduzo, sem tirar nem pôr, o texto que escrevi em 2010, n'O Biscoito Fino e a Massa, quando começaram a caçá-lo.



 pela superpotência militar, por seus estados satélite e pelas principais polícias do mundo. É um australiano cuja atividade na internet catupultou-o de volta à vida real com outra cidadania, a de uma espécie de palestino sem passaporte ou entrada em nenhum lugar. Ele não é o primeiro a ser caçado pelo poder por suas atividades na rede, mas é o primeiro a sofrê-lo de um jeito tentacular, planetário e inescapável. 

Enquanto que os blogueiros censurados do Irã seriam recebidos como heróis nos EUA para o inevitável espetáculo de propaganda, Assange teve todos os seus direitos mais elementares suspensos globalmente, de tal forma que tornou-se o sujeito mundialmente inospedável, o primeiro, salvo engano, a experimentar essa condição só por ter feito algo na internet. Acrescenta mais ironia, note-se, o fato de que ele fez o mais simples que se pode fazer na rede: publicar arquivos .txt, palavras, puro texto, telegramas que ele não obteve, lembremos, de forma ilegal.

ASSANGE É O CRIMINOSO SEM CRIME. Ao longo dos dias que antecederam sua entrega à polícia britânica, os aparatos estatal-político-militar-jurídico dos EUA e estados satélite batiam cabeças, procurando algo de que Assange pudesse ser acusado. Se os telegramas foram vazados por outrem, se tudo o que faz o Wikileaks é publicar, se está garantido o sigilo da fonte e se os documentos são de evidente interesse público, a única punição passível, por traição, espionagem ou coisa mais leve que fosse, caberia exclusivamente a quem vazou. O Wikileaks só publica. Ele se apropria do que a digitalização torna possível, a reprodutibilidade infinita dos arquivos, e do que a internet torna possível, a circulação global da hospedagem dessas reproduções. Atuando de forma estritamente legal, ele testa o limite da liberdade de expressão da democracia moderna com a publicação de segredos desconfortáveis para o poder. Nesse teste, os EUA (Departamento de Estado, Justiça, Democratas, Republicanos, grande mídia, senso comum) deixaram claro: não se aplica a Primeira Emenda, liberdade de expressão ou coisa que o valha. Uniram-se todos, como em 2003 contra as “armas de destruição em massa” do Iraque. Foi cerco e caça geral a Assange, implacável.

O WIKILEAKS É UM RELATO DE INÉDITA HIBRIDEZ, para o qual ainda não há gênero. Leva algo de todos: épica, ficção científica, policial, novela bizantina, tragédia, farsa e comédia, pelo menos. Quem vem acompanhando a história saberá da pitada de cada uma dessas formas literárias na sua composição. O que me chama a atenção no relato é que lhe falta a característica essencial de um desses gêneros: é um policial sem crime, uma ficção científica sem tecnologia futura, uma novela bizantina sem peregrinação, comédia sem final feliz, tragédia sem herói de estatura trágica, épica sem batalha, farsa sem a mínima graça. Kafka e Orwell, tão diferentes entre si, talvez sejam os dois melhores modelos literários para entender o Wikileaks.

Como em Kafka, o crime de Assange não é uma entidade com existência positiva, para a qual você possa apontar. Assange é um personagem que vem direto d’O Processo, romance no qual K. será sempre culpado por uma razão das mais simples: SEU CRIME É NÃO LEMBRAR-SE DE QUAL FOI O SEU CRIME. Essa é a fórmula genial que encontra Kafka para instalar a culpa de K. como inescapável: o processo se instala contra a memória.

O Advogado-Geral da União de Obama, que aceitou não levar à Justiça um núcleo que durante o governo Bush planejou ilegalmente bombardeios a populações de milhões, levou à morte centenas de milhares, torturou milhares, esse mesmo Advogado-Geral que topou esquecer-se desses singelos crimes e não processá-los, peregrinava pateticamente em busca de uma lei, um farrapo de artigo em algum lugar que lhe permitisse processar Julian Assange. O melhor que conseguiram foi um apelo ao Ato de Espionagem de 1917, feito em época de guerra global declarada (coisa em que os EUA, evidentemente, não estão) e já detonado várias vezes pela Suprema Corte, mais ilustremente no caso Watergate.

De 2010, quando escrevi as linhas acima, a 2019, em que as republico, algo curioso aconteceu. Assange agora vai preso pelo crime de apropriar-se de informação que é ao mesmo tempo secreta e de interesse cidadão e torná-la pública de verdade, de graça, para todos. Enquanto isso, escrevemos em uma plataforma, o Facebook, que consiste em tomar dados pessoais que são privados, não são de interresse cidadão, e torná-los públicos para alguns CNPJs, mediante dinheiro.

O fundador do Wikileaks vai para a cadeia e o fundador do Facebook habita as capas de Time e cia. como homem do ano, da década, do século.

Aí ele pensou: a vida não tem sentido. Aí ela sorriu. Aí ele pensou: mas vai que de repente tem...

Otto Leopoldo Winck


sábado, 9 de fevereiro de 2019


Quem diz que o problema do Brasil é um Estado inchado delira ou age de tremenda ma fé. Tá faltando médico no posto? Tá faltando vaga na creche? Na universidade? Tá faltando policial na rua? Ou seja, o problema não é um Estado grande, mas pequeno, encolhido, quase invisível.

É verdade que há setores no aparelho estatal visivelmente inchados - não em pessoal mas em custo aos cofres públicos. É o caso do judiciário e do ministério público, por exemplo. Vencimentos totalmente incompatíveis com as mazelas do país -- e vencimentos que já seriam pornográficos mesmo em países ricos, como Suécia ou Japão.

Mas não vejo da parte desse governo que tá aí nenhuma intenção ou vontade de corrigir essas assimetrias. Pelo contrário, em vez de mexer nos salários e aposentadorias nababescos de setores do Estado, vão cortar no trabalhador pobre -- que vai se aposentar mais velho, se se aposentar, e recebendo meio salário mínimo. Enquanto isso, o juiz vai continuar se aposentando com mais de 30 mil e aí, livre do serviço público, vai ganhar ainda mais horrores na banca privada.
OLW

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019


Avaro,
conto as palavras
com que pretendo dizer
algo
-- quase nada --
do tudo que quisera.

(Raras, as palavras
não vingaram na primavera.)

Vai vir o dia
em que não direi nada,
não serei nada:
partícula abismada no tudo.

Aí tudo estará bem.
Ou nada.

Avaro,
me calo
ante o mistério do nada.

(Nada
é
tudo.

Tudo
é
nada.)

E apago as palavras
em que sobrenado.

Otto Leopoldo Winck

MAUDITS



Mallarmé na cabeça
Rimbaud no coração
eu vou
quebrando a cara
nas quebradas do mundo

o alvo
uma nova constelação
no branco da folha
ou então
obscuros negócios
na Abissínia

o que vale
é virar a última página
do livro burguês
e cair na esbórnia
de signos e sentidos
da comuna de todos os vates

(ó sociedade:
aqui pra vocês)

assim
enquanto eu puder
beberei até a última gota
do doce absinto
do mestre de todos
Charles Baudelaire

Otto Leopoldo Winck


Mallarmé na cabeça
Rimbaud no coração
eu vou
quebrando a cara
nas quebradas do mundo

o alvo
uma nova constelação
no branco da folha
ou então
obscuros negócios
na Abissínia

o que vale
é virar a última página
do livro burguês
e cair na esbórnia
de signos e sentidos
da comuna de todos os vates

(ó sociedade:
aqui pra vocês)

assim
enquanto eu puder
beberei até a última gota
do doce absinto
do mestre de todos
Charles Baudelaire

Otto Leopoldo Winck


Não sei se o teu nome é um véu
ou uma máscara. Uma chave
ou uma lápide.
Sei que em manhãs antigas
eu procurei, na água dos regatos
ou nos seixos da alameda,
o rastro de teus passos por esta parte do mundo.
Sei também -- e como dói a consciência deste saber! --
que tudo passa, ou melhor:
tudo é passagem e passado.
Até a voz com que te grito,
até o gesto com que, de joelhos, me desmereço.
Não, não sei se o teu nome é o véu
que obscurece o céu às seis da tarde
ou o clarão de cem mil sóis
que me cegará um dia.
Sei que é tarde para voltar.
E cedo, muito cedo, para partir.
(Quisera permanecer aqui, e montar uma cabana para mim, outra para ti
e uma terceira para meus medos.)
Mas sei -- e como é cruel este saber! --
que não virás nunca
porque no fundo, lá no fundo,
tu nunca partiste.

Otto Leopoldo Winck



quero me cortar
com gilete farpas lascas latas
e cacos de vidro
quero sangrar
chorar estrebuchar dançar
e grafar no muro mais sujo
teu santo nome em vão
quero viver morrer matar
me alistar na legião estrangeira
farcs hezbolah pkk
só pra aflorar
teu instinto maternal
e te ouvir gritar
meu bem meu bem
não vá

Otto Leopoldo Winck