domingo, 15 de novembro de 2015
Não, não é cansaço...
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...
- Álvaro de Campos [Heterônimo de Fernando Pessoa], In
Poesia, Assírio e Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.
"Detesto comportamento xenófobo. E detesto comparações,
normalmente comparam alhos com bugalhos. Nosso sentimento de dor se expressa
com a cor que quisermos dar. Eu choro pelas vítimas de Paris, eu choro pelas
crianças da Síria que tombam sem saber do que se trata, eu choro pelo nosso
País tão contrário a si mesmo, tão avesso as suas dores, e tão revoltado e
participante na sua luta contra o preconceito e a injustiça. Eu amo esses
estudantes que com sua coragem e determinação ocupam as escolas e defendem um
bem e um direito que o Estado de São Paulo teima em extinguir em nome de uma
pseudo reforma que, sabemos, só vai piorar o que já está quase falindo. Eu
lamento que o atual governador esteja dando um tiro no pé de seu partido, esse "social-democrata"
que deveria fazer jus ao nome. Os nomes, esses e outros politicamente
encabeçados... que sentido agora fazem? Eu lamento que a ganância esteja
enterrando nossa riqueza natural. O rio Doce sucumbiu ao amargo dos desejos.
Estou estarrecida com tudo. Cansada de ver tanto ódio brotando dos que se dizem
tementes a Deus. Que Deus é esse que deseja tanto ódio? Eu desejo que o povo
brasileiro se erga contra esses desmandos e elejam quem não faz panfletagem
religiosa e fascista e sexista e misógena. Que este túnel que estamos
atravessando de lama e horror encontre alguma luz e oxigênio do outro lado, ao
fim da travessia. Os mais corajosos encontrarão, tenho certeza. Os medrosos
morrerão com a boca e os ouvidos entupidos pelos dejetos. Não há deuses a
temer. Há homens há temer, gente como a gente, loucos e alucinados, doentes
mentalmente, sexualmente mal resolvidos. Estão presos nos seus padrões, nos
seus muros. Gostaria muito que se libertassem e respirassem o ar puro que se
tem de graça. Seriam mais felizes e mais humanos."
Por Susanna Busato
sábado, 14 de novembro de 2015
. "O
pensamento social crítico está guiado pelos princípios da igualdade, da justiça
social, do fortalecimento e da radicalização da democracia, pela necessidade de
destruir os poderes opressores, pela luta contra o racismo e contra toda forma
de violência.É um pensamento libertário e inconformista,
que sempre quer mais porque a democracia sempre pode ser fortalecida.”
Pablo Gentili
Pablo Gentili
O impacto político de confrontos religiosos e formas de guerras etnorreligiosas
Ainda estamos no ANNO de 1015. O impacto político de
confrontos religiosos e formas de guerras etnorreligiosas sempre foram muito
grandes e decisivos na configuração do próprio Estado. A própria concepção,
criação e organização do Estado Nacional Europeu, como nas origens de Portugal,
de quem o Estado do Brasil é o maior descendente, é resultado direto de guerras
religiosas contra o islamismo ibérico. O resultado final foi o extermínio, a
expulsão e a assimilação dos diferentes muçulmanos e judeus ao fim do longo
ciclo de violências. Sobreviveria no território apenas um povo, uma religião,
uma língua, um rei. Somente retornaram para o nosso convívio quando nos
modernizamos, democratizamos e os aceitamos de novo. Hoje os Estados se tornam
cada vez mais policialescos e mesmo organizados como Estados de apartheid
etnorreligioso - como todos do Oriente Médio, o que acelera e aprofunda as
guerras até o futuro desfecho de guerras totais, até que um lado vença e
destrua completamente os outros, como aconteceu na Península Ibérica Medieval.
A visão iluminista, a tolerância e a convivência serão desafios para novas
hegemonias. Muitos Estados europeus estão experimentado pela primeira vez uma
real diversidade social e etnorreligiosa, coisa que estamos acostumados há bem
mais de 1000 anos. Superar diferenças como o racismo, os preconceitos e a
discriminação étnica, religiosa, de gênero, de orientação sexual e muitas
outras continuam sendo imensos desafios para uma sociedade livre, igualitária e
democrática no ANNO de 2015.
Ricardo Costa de Oliveira
Nem a arma bestial dos terroristas nem a palavra mansa dos
fazedores do caos nem a violência de grupos com boas causas nem a palavra mansa
dos manipuladores de principios nem a raiva colérica dos saudosistas de tempos
inomináveis nem os transformadores com discursos de barricada.
A violência não é um direito, não é um sentimento válido,
nem ação correta para mudanças. Nem Líbano nem Síria nem Jerusalém nem Paris.
Nunca a cultura de paz foi tão necessária.
Hamilton Faria
Se somos todos parisienses, somos também todos estrangeiros,
somos também todos refugiados, todos africanos. Todos perdemos, a cada morte de
inocentes, sejam os lembrados pela grande mídia, sejam os anônimos e esquecidos
pela mídia que serve a certos "poderes". O pior é usar a dor e a
tragédia de um modo perverso, aproveitando para promover mais medo e terror, em
vez de compaixão e humanidade.
Ana Luisa Kaminski
Dia Nacional da Consciência Negra
20 DE NOVEMBRO
Dia Nacional da Consciência Negra
Um Dia para não passar em branco
Não tenho certeza se as escolas estão ensinando sobre o
escravagismo praticado no Brasil entre os séculos XVI E XIX, mas é certo que eu
mesmo, em meu tempo de escola, pelo menos durante os chamados primeiro e
segundo graus, pouco aprendi sobre este período e o que aprendi foi muito mais
sobre os bandeirantes, que escravizavam índios, caçadores de negros, grandes
escravocratas e assassinos, mercenários da coroa portuguesa e algozes dos que
foram desterrados.
Também não tenho certeza se, hoje, alguém sabe ao certo quem
foi Zumbi dos Palmares (1655-1695), negro escravo que se rebelou e
transformou-se na maior liderança dos quilombos existentes no Brasil, na época,
e que morreu lutando para libertar seu povo.
Uma certeza eu tenho. Se prestarmos atenção na realidade
brasileira, os dados levantados tanto pelo IBGE quanto as pesquisas realizadas
por DIEESE e tantas outras fontes, como institutos, universidades nacionais e
estrangeiras, demonstram uma situação não muito diferente daquela, levando-se
em conta o atual grau de desenvolvimento apresentado na sociedade brasileira.
Vejamos alguns pontos: mesmo sendo quase metade da
população, os negros são a grande maioria dos desempregados, a grande maioria
dos habitantes das favelas, maioria nos presídios, maioria no índice de
mortalidade infantil, maioria entre as meninas prostitutas e prostituídas.
Em contrapartida, eles são a minoria entre os estudantes
secundaristas e universitários, recebem salários a menos do que os demais, não
fazem parte de índice representativo na política ou judiciário, limitando-se
seus expoentes de renome ao futebol, ao carnaval e até mesmo a música.
Também tenho certeza de que estes expoentes de renome são o
grande baluarte daqueles que afirmam que existe uma democracia racial no
Brasil, citando-os como exemplo, sem se aperceberem de que são dados ínfimos,
em uma proporção, talvez, de um para 1 milhão e que, mesmo assim, não são
poucas as vezem em que até estes sofrem discriminação racial.
Os milhares que morrem de subnutrição, marginalizados da
sociedade, sem escolas, sem casas, moradores de rua, assaltantes necessários
para sobrevida, são apontados como vadios, bandidos, em uma sociedade que
insiste em marginalizá-los e explorá-los tal qual nos séculos passados.
Zumbi dos palmares lutou e morreu com o sonho de uma
sociedade justa e igualitária para seu povo, contra a escravidão e contra a
desigualdade social. Muitos são os que lutam para sobreviver nos dias de hoje.
Dia 20 de Novembro é data histórica da morte de Zumbi dos Palmares. Talvez
venha a ser a data histórica da morte de milhões que já tiveram suas vidas
ceifadas em busca dos mesmos ideais, ao longo dos tempos.
O importante e que o Dia Nacional da Consciência Negra não
passe em branco e que a sociedade reflita sobre suas crendices de democracia
racial, ensinando a verdadeira história daqueles que construíram e continuam
construindo este país, mesmo sob o peso não mais da chibata, mas da quase
insuportável condição de vida oferecida ao povo negro brasileiro.
marcos “black” fontinelli
Antes de qualquer coisa, concordo que o terrorismo precisa
ser combatido, mas, não adianta usar só a força como forma de retaliação. Não
precisa ser especialista para perceber que esta ideia " olho por olho e
dente por dente" acirra ainda mais os conflitos. A questão é por que o
Estado Islâmico consegue tantos seguidores? Será que as políticas
internacionais dos países desenvolvidos estão contribuindo para o Estado
Islâmico ter mais soldados fanáticos? Esses jovens recrutados não querem fama e
nem dinheiro e sim heróis de seu povo, contra os opressores. Encaram isto como
a verdade absoluta. Logo, necessita se encontrar outros caminhos que busquem
respeitar a diversidade cultural com o intuito de não haver mais recrutamento.
Vejo um futuro sombrio pela frente, a forma de se fazer
guerra mudou completamente, agora, são ataques que podem acontecer em qualquer
lugar e a gente não pode prever.
Os países desenvolvidos precisam largar o etnocentrismo e
rever seus conceitos. Inclusive, o acordo de paz na Palestina precisa ser feito
e palestinos e judeus viverem em harmonia, respeitando os espaços um do outro.
Combater com violência o terrorismo e atingir inocentes “do outro lado”, a
consequência será de surgir mais terroristas. Enfim, um ciclo vicioso de ação e
reação que não tem fim.
Eduardo Oliveira Freire
François Hollande admitiu hoje pela manhã que o Estado
Islâmico foi o responsável pelos atentados brutais em Paris. Poucos momentos
depois uma carta patética do grupo chegou ao jornal LE MONDE assumindo a
responsabilidade e fazendo novas ameaças. O Estado Islâmico foi criado por
Israel e pelos Estados Unidos com o objetivo de derrubar o governo do
presidente Bashar Al Assad da Síria e se apropriarem das reservas de gás
natural e petróleo daquele país. Quando a Rússia começou a bombardear posições
do EI, Estados Unidos e Israel reagiram, condenaram e até o pastel do chanceler
brasileiro enfiou Dilma nessa fria de condenar os ataques russos. Países da
OTAN, entre os quais se inclui a França, bombardeavam alvos sírios no disfarce
de atacar o EI. Na Assembléia Geral da ONU, Barack Obama propôs que os ataques
fossem conjuntos desde que Bashar deixasse o poder. Putin não aceitou e dizimou
bases do EI. Isso deixou a descoberto a hipocrisia dos que criaram o monstro. A
retaliação veio no ataque a um avião russo, com mais de 200 civis em território
egípcio com um míssil de longo alcance, que muitos observadores acreditam ter
sido disparado de Israel. A cobiça pela riqueza dos países árabes não tem
tamanho e nem escrúpulos. O resultado é essa barbárie, morrem civis. Não morre
Obama, não morre Hollande, não morre Cameron, permanece intocado o louco
Benajmin Netanyahu. Morrem inocentes. Ou percebem que a fonte do terror é
Israel, ou sempre vai haver pretexto para grupos de malucos como o EI. Aqui, um
comentarista da GLOBO e o apresentador do jornal, deram um jeito de ironizar a
solidariedade do presidente Bashar aos franceses. São robôs de uma organização
criminosa e terrorista em termos de mídia. É hora de olhar para outro lado e
compreender o papel insano de Israel e dos EUA no Oriente Médio, antes que o
problema crie contornos mais graves e faça mais vítimas que não os supostos
donos do mundo.
Laerte Braga
Power in the Age of Oi
"O primeiro passo para combater o terrorismo é não
aceitar pensar o mundo a partir das suas categorias, isto é, não ver o mundo de
uma maneira maniqueísta, simplória e racista. É exatamente o que os terroristas
do Estado Islâmico querem: que se compre a narrativa do "Nós contra
eles", do "choque das civilizações". É importante lembrar que as
maiores vítimas dos fascistas do EI são muçulmanos, sobretudo os xiitas, que
lutam contra o EI na Síria e no Iraque. Apesar dos membros do EI serem sunitas,
há também sunitas, como os curdos, que lutam contra o EI. Toda tentativa de
homogeneizar ou generalizar juízos acerca de um grupo humano tão vasto e plural
é um ato de ignorância.
Também deveríamos estar discutindo o que torna o terrorismo
materialmente possível. Eis aí um segredo de polichinelo: há muita grana de
doadores da Arábia Saudita, Qatar, Iêmen - os chamados países do Golfo -
financiando atividades terroristas ( http://goo.gl/RYAaoJ ). Há fortes indícios
que o dinheiro saudita esteja ajudando o EI ( http://goo.gl/eYKMF3 ). A Arábia
Saudita é o país que mais promove uma versão extremista do islamismo (a
vertente wahhabita), e só consegue ter sucesso nessa empreitada pois tem muitos
petrodólares. E aí se chega ao centro da questão: o terrorismo wahhabita é
indissociável da indústria de petróleo, pilar do capitalismo mundial (uma das
fontes de renda do EI é a venda de petróleo no mercado negro turco). Talvez
esse seja mais um bom motivo para gente depender cada vez menos de combustíveis
fósseis.
Para quem estiver interessado na relação entre as
"democracias ocidentais" e as ditaduras do petróleo no Oriente Médio,
recomendo o livro do cientista político Thimothy Mitchell, "Carbon
Democracy: Political
Power in the Age of Oil" PDF aqui: https://goo.gl/TsUryx"
https://www.youtube.com/watch?v=0dxdCuVL6Oofonte :Cesar Melo
As grandes corporações vendem armas, aparelham grupos
terroristas, fomentam guerras, elegem governos, provocam crises políticas,
destroem economias, devastam o meio ambiente, enterram cidades...lamentamos as
consequências, mas a causa é o sistema capitalista, monopolista, predatório.
Enquanto perdurar o capitalismo, ficaremos só nos lamentando.
André Castelo Branco Machado
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Um drama na caça
(...)Um Drama na Caça - tido por alguns como o único romance escrito por Tchékhov - é uma das suas primeiras produções publicadas. Foi servido aos leitores do "Novosti Dniá", em folhetins, no ano de 1884 e 1885 e, para assinar a obra, o autor serviu-se de dois pseudônimos: "Ante" de "Antone Tchekhonte". (...)
Anton Tchékhov - Editora Livros do Brasil – 2004
Só ocupando os "espaços públicos", que por serem
"públicos" são objeto de um interesse legítimo, no sentido de serem
custeados com dinheiro de impostos arrecadados as custas do trabalho do povo,
assim como pelo fato de serem geridos por um corpo de funcionários ali
colocados para servirem e representarem esta coletividade (pois está seria a
verdadeira função dos poderes instituídos) e que os cidadãos de São Paulo, do
Paraná, ou de qualquer outro estado e cidades geridas por governos neoliberais
poderão resistir a esse retrocesso, revestido de falácia, chamada de "reorganização
escolar". "Reorganizar" o que exatamente??? Não seria esse um
nome evasivo e pomposo para dizer que a educação deixará de ser tratada com a
prioridade que merece (desafio alguém a provar que numa sala de aula com 60 -
70 - 80 alunos, mal pago e munido unicamente de quadro e giz alguém consiga
educar um ser humano a sequer saber o que está fazendo ali naquele ambiente
insalubre) e que, em contrapartida, empresas, parlamentares e representantes do
executivo e do judiciário, poderiam livremente se apropriar, com uma ganancia
ainda maior que a cotidianamente demonstrada e conforme os seus mais escusos
interesses do "dinheiro público" em benefício próprio. A pergunta que
para mim fica e como alguém pode defender essa proposta, senão fazendo parte destas
"máfias, cartéis e esquemas" que irão se beneficiar ou assumindo uma
profunda ignorância e desconhecimento do assunto???
Will Coutinho Hamon
Apropriação privada do que era público é corrupção ? No caso
da privatização da Vale a apropriação privada dos rendimentos públicos da
empresa foi total, 100% de apropriação privada dos lucros desviados pelos
aspones neoliberais e seus apaniguados. As pessoas reclamam e com razão do escândalo
de apropriação privada na Petrobras conceituado como corrupção porque se trata
da apropriação privada de partes dos rendimentos públicos da empresa. Agora
entendemos porque a Vale desapareceu com o Rio Doce do seu nome em função da
privataria do PSDB.
Ricardo Costa de Oliveira
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
En la administración de correos
Anton Chejov
La joven esposa del viejo administrador de Correos
Hattopiertzof acababa de ser inhumada. Después del entierro fuimos, según la
antigua costumbre, a celebrar el banquete funerario. Al servirse los buñuelos,
el anciano viudo rompió a llorar, y dijo:
-Estos buñuelos son tan hermosos y rollizos como ella.
Todos los comensales estuvieron de acuerdo con esta
observación. En realidad era una mujer que valía la pena.
-Sí; cuantos la veían quedaban admirados -accedió el administrador-.
Pero yo, amigos míos, no la quería por su hermosura ni tampoco por su bondad;
ambas cualidades corresponden a la naturaleza femenina, y son harto frecuentes
en este mundo. Yo la quería por otro rasgo de su carácter: la quería -¡Dios la
tenga en su gloria!- porque ella, con su carácter vivo y retozón, me guardaba
fidelidad. Sí, señores; érame fiel, a pesar de que ella tenía veinte años y yo
sesenta. Sí, señores; érame fiel, a mí, el viejo.
El diácono, que figuraba entre los convidados, hizo un gesto
de incredulidad.
-¿No lo cree usted? -le preguntó el jefe de Correos.
-No es que no lo crea; pero las esposas jóvenes son ahora
demasiado..., entendez vous...? sauce provenzale...
-¿De modo que usted se muestra incrédulo? Ea, le voy a
probar la certeza de mi aserto. Ella mantenía su fidelidad por medio de ciertas
artes estratégicas o de fortificación, si se puede expresar así, que yo ponía
en práctica. Gracias a mi sagacidad y a mi astucia, mi mujer no me podía ser
infiel en manera alguna. Yo desplegaba mi astucia para vigilar la castidad de
mi lecho matrimonial. Conozco unas frases que son como una hechicería. Con que
las pronuncie, basta. Yo podía dormir tranquilo en lo que tocaba a la fidelidad
de mi esposa.
-¿Cuáles son esas palabras mágicas?
-Muy sencillas. Yo divulgaba por el pueblo ciertos rumores.
Ustedes mismos los conocen muy bien. Yo decía a todo el mundo: «Mi mujer,
Alona, sostiene relaciones con el jefe de Policía Zran Alexientch Zalijuatski».
Con esto bastaba. Nadie se atrevía a cortejar a Alona, por miedo al jefe de
Policía. Los pretendientes apenas la veían echaban a correr, por temor de que
Zalijuatski no fuera a imaginarse algo. ¡Ja! ¡Ja!... Cualquiera iba a enredarse
con ese diablo. El polizonte era capaz de anonadarlo, a fuerza de denuncias.
Por ejemplo, vería a tu gato vagabundeando y te denunciaría por dejar tus
animales errantes...; por ejemplo...
-¡Cómo! ¿Tu mujer no estaba en relaciones con el jefe de
Policía? -exclaman todos con asombro.
-Era una astucia mía. ¡Ja! ¡Ja!... ¡Con qué habilidad los
llamé a engaño!
Transcurrieron algunos momentos sin que nadie turbara el
silencio.
Nos callábamos por sentirnos ofendidos al advertir que este
viejo gordo y de nariz encarnada se había mofado de nosotros.
-Espera un poco. Cásate por segunda vez. Yo te aseguro que
no nos volverás a coger -murmuró alguien.
FIN
Biblioteca Digital Ciudad Seva
El pavo de Navidad
Mario de Andrade
Nuestra primera Navidad en familia, después de la muerte de
papá ocurrida cinco meses antes, fue de consecuencias decisivas para la
felicidad familiar. Nosotros siempre fuimos una familia feliz, en ese sentido
bien amplio de felicidad: gente honesta, sin crímenes, hogar sin peleas
internas ni graves dificultades económicas. Pero, debido en parte a la
naturaleza gris de mi padre, ser desprovisto de todo tipo de lirismo, instalado
en la mediocridad, siempre nos había faltado ese disfrute de la vida, ese gusto
por las felicidades materiales: un buen vino, un balneario, el refrigerador,
cosas así. Mi padre había sido un gran equivocado, casi dramático, el
pura-sangre de los esfuma-placeres.
Mi padre murió, lo sentimos mucho, etc. Cuando ya nos acercábamos
a la Navidad, yo no sabía qué hacer para poner distancia con esa memoria del
muerto que obstruía, que parecía haber sistematizado para siempre la obligación
de un recuerdo doloroso en cada comida, en cada mínimo gesto de la familia. Una
vez sugerí a mamá que fuera al cine a ver una película. ¡Se puso a llorar!
¡Dónde se vio ir al cine estando de luto riguroso! El dolor ya se cultivaba por
las apariencias, y yo, que siempre había querido bien a papá, más por instinto
filial que por espontaneidad del amor, me veía a punto de detestar al bueno del
muerto.
Fue sin lugar a dudas por eso que me nació, en este caso sí,
espontáneamente, la idea de hacer una de mis llamadas "locuras". Esa
había sido, en realidad, y desde muy niño, mi excelente conquista contra el
clima familiar. Desde muy temprano, desde los tiempos de la secundaria, en que
me las arreglaba para sacar regularmente un reprobado todos los años, desde el
beso a escondidas a una prima, cuando tenía diez años, descubierto por la tía
Velha, una tía detestable; y principalmente desde las lecciones que di o
recibí, no sé, de una criada, conseguí, en el reformatorio del hogar y con la
vasta parentela, la fama conciliadora de "loco". "¡Está loco, el
pobre!" decían. Mis padres hablaban con cierta tristeza condescendiente,
el resto de la parentela me buscaba como ejemplo para sus hijos y probablemente
con aquel placer de los que se convencen de alguna superioridad. No tenían
locos entre sus hijos. Pues esa fama es la que me salvó. Hice todo lo que la vida
me presentó y que mi ser exigía que se realizara con integridad. Y me dejaron
hacer de todo, porque era loco, pobrecito. El resultado de todo esto fue una
existencia sin complejos, de la cual no tengo nada de qué quejarme.
Siempre teníamos la costumbre, en la familia, de realizar la
cena de Navidad. Cena insignificante, ya puede usted imaginarse; cena tipo mi
padre: castañas, higos, pasas después de la Misa de Gallo. Empachados de
almendras y nueces (si habremos discutimos los tres hermanos por el cascanueces...),
empachados de castañas, nos abrazábamos e íbamos a la cama. Fue al recordar
esto que arremetí con una de mis "locuras".
-Bueno, para Navidad, quiero comer pavo.
Hubo una de esas sorpresas que nadie se imagina. Luego, mi
tía solterona y santa, que vivía con nosotros, advirtió que no podíamos invitar
a nadie debido al luto.
-¿Pero quién habló de invitar a alguien? Esa manía...
¿Cuándo comimos pavo en nuestra vida? Pavo aquí en casa es plato de fiesta,
viene toda esa parentela del demonio...
-Hijo mío, no hables así...
-Pues hablo y ya.
Y descargué mi helada indiferencia sobre nuestra parentela
infinita, dizque descendiente de bandeirantes, que poco me importa. Era el
momento para desarrollar mi teoría de loco, pobrecito, y no perdí la ocasión.
De sopetón me dio una ternura inmensa por mamá y tiita, mis dos madres, tres
con mi hermana, las tres madres que divinizaron mi vida. Siempre era lo mismo:
venía el cumpleaños de alguien y sólo así se hacía pavo en la casa. Pavo era
plato de fiesta: una inmundicie de parientes ya preparados por la tradición,
invadían la casa por el pavo, las empanaditas y los dulces. Mis tres madres,
tres días antes, lo único que sabían de la vida era trabajar preparando carnes
frías y dulces finísimos, pues estaban muy bien hechos. La parentela devoraba
todo y todavía se llevaba paquetitos para los que no habían podido venir. Mis
tres madres quedaban exhaustas. Del pavo, sólo en el entierro de los huesos, al
día siguiente, mamá y tiita probaban un pedacito de pierna, oscuro, perdido en
el arroz blanco. Y eso que era mamá quien servía, elegía para el viejo y para
los hijos. En realidad, nadie sabía concretamente qué era un pavo en nuestra
casa, pavo restos de fiesta.
No, no se invitaba a nadie, era un pavo para nosotros cinco,
cinco personas. Y tenía que ser con dos farofas, la gorda con los menudos y la
seca, doradita, con bastante mantequilla. Quería el buche rellenado sólo con
farofa gorda, a la que teníamos que agregar fruta negra, nueces y una copa de
Jerez, como había aprendido en casa de la Rosa, mi querida compañera. Está
claro que omití decir dónde había aprendido la receta y todos desconfiaron. Y
todos se quedaron en ese aire de incienso soplado...¿no sería tentación del
Diablo aprovechar una receta tan sabrosa? Y cerveza bien helada, garantizaba yo
casi a los gritos. Lo cierto es que con mis "gustos" ya bastante
refinados fuera del hogar, primero pensé en un buen vino bien francés. Pero la
ternura por mamá venció al loco, a mamá le encantaba la cerveza.
Cuando acabé mis proyectos, me di cuenta, todos estaban felicísimos,
con un inmenso deseo de hacer aquella locura con la que había irrumpido. Sabían
muy bien que era locura, sí, pero todos se imaginaban que yo era el único que
deseaba mucho aquello y era fácil echar encima mío la culpa de sus deseos
enormes. Se sonreían, mirándose unos a otros, tímidos como palomas desgarradas,
hasta que mi hermana asumió el consentimiento general:
-¡Aunque esté loco!...
Se compró el pavo, se hizo el pavo, etc. Y después de una
Misa de Gallo muy mal rezada, tuvimos nuestra Navidad más maravillosa. ¡Qué
chistoso! Cuando me acordaba que finalmente iba a lograr que mamá comiera pavo,
en esos días no hacía otra cosa que pensar en ella, sentir ternura por ella,
amar a mi viejita adorada. Y mis hermanos también, estaban en el mismo ritmo
violento de amor, todos dominados por la nueva felicidad que el pavo iba
imprimiendo en la familia. De modo que, aún disfrazando las cosas, dejé con
tranquilidad que mamá cortara toda la pechuga del pavo. En un momento mamá se
detuvo, luego de haber cortado en rebanadas uno de los lados del ave, sin
resistirse a aquellas leyes de economía que siempre la habían sumido en una
casi pobreza sin razón.
-No señora, siga cortando... y pedazos grandes ¡Yo solo me
como eso!
Era mentira, el amor familiar, estaba incandescente en mí de
tal forma, que hasta era capaz de comer poco, sólo para que los otros cuatro
comieran mucho. Y el diapasón de los otros era el mismo. Aquel pavo comido
entre nosotros solos redescubría en cada uno lo que la cotidianeidad había borrado
por completo: amor, pasión de madre, pasión de hijos. Dios me perdone pero
estoy pensando en Jesús. En esa casa de burgueses muy modestos, se estaba
realizando un milagro digno de la Navidad de un Dios. La pechuga del pavo quedó
enteramente reducida a rebanadas grandes.
-¡Yo sirvo!
-¡Qué loco! ¡Pero por qué tenía que servir si siempre mamá
había servido en esa casa! Entre risas, los grandes platos llenos fueron
pasando hasta mí y empecé una distribución heroica, mientras mandaba a mi
hermano a que sirviera la cerveza. Advertí un pedazo admirable de pavo lleno de
carnecita y lo puse en el plato. Y luego varias rebanadas blancas. La voz
severa de mamá cortó el espacio angustiado en el cual todos aspiraban a su
parte del pavo:
-¡Acuérdate de tus hermanos, Juca!
¿Cuándo iba a imaginarse ella?, ¡la pobre!, que ese era el
plato suyo, de la Madre, de mi amiga maltratada que sabía de la existencia de
Rosa, que sabía de mis crímenes, a quien sólo le contaba lo que hacía
sufrir!... El plato quedó sublime.
-Mamá, este es su plato. ¡No!... ¡No lo pase!
Fue entonces cuando ella no pudo más con tanta conmoción y
se puso a llorar. Mi tía también, después de ver que el siguiente plato sublime
era el suyo, entró en el asunto de las lágrimas. Y mi hermana también, que
jamás había visto lágrimas sin abrir una llave, se desparramó en llanto.
Entonces empecé a decir muchas tonterías para no llorar también, tenía
diecinueve años... Diablo de familia tonta que veía un pavo y lloraba... Esas
cosas... Todos se esforzaban por sonreír, pero ahora la alegría se tornaba
imposible. El llanto había evocado, por asociación, la imagen indeseable de mi
padre muerto. Mi padre, con su figura gris, vino a estropear para siempre
nuestra Navidad. ¡Me dio coraje!
Bueno, empezamos a comer en silencio, consternados, y el
pavo estaba perfecto. La carne tierna, de un tejido muy tenue, se mezclaba
entre los sabores de las farofas y del jamón, de vez en cuando herida,
molestada y vuelta a desear ante la intervención más violenta de la pasa negra
y el estorbo petulante de los pedacitos de nuez. Pero papá estaba sentado allí,
gigantesco, incompleto, una censura, una llaga, una incapacidad. Y el pavo
estaba tan rico, y mamá que por fin sabía que el pavo era un manjar digno de
Jesucito nacido.
Empezó una lucha baja entre el pavo y el bulto de papá.
Supuse que alentar al pavo era fortalecerlo en la lucha y, está claro, había
tomado decididamente el partido del pavo. Pero los difuntos tienen medios
escurridizos, muy hipócritas, como para vencerlos. En cuanto alabé al pavo, la
imagen de papá creció victoriosa, insoportablemente obstruyente.
-Sólo falta su papá.
Yo ni comía, ya no podía probar más ese pavo perfecto, tanto
me interesaba esa lucha entre los dos muertos. Llegué a odiar a papá. Y ni sé
qué inspiración genial de repente me volvió hipócrita y político. En aquel
instante que hoy me parece decisivo en nuestra familia, tomé aparentemente el
partido de mi padre. Fingí, triste.
-Y sí. Papá nos quería mucho y murió de tanto trabajar para
nosotros, papá allí en el cielo debe estar contento -dudé, pero resolví no
mencionar más al pavo-, contento de vernos a todos reunidos en familia.
Y todos, mucho más tranquilos, empezaron a hablar de papá.
Su imagen fue disminuyendo y se transformó en una estrellita brillante en el
cielo. Ahora todos comían el pavo con sensualidad, porque papá había sido muy
bueno, siempre se había sacrificado tanto por nosotros, había sido un santo que
"ustedes, mis hijos, nunca podrán pagar lo que deben a su padre", un
santo. Papá se transformó en santo, una contemplación agradable, una estrellita
en el cielo, imposible de deshacer. No perjudicaba más a nadie, puro objeto de
contemplación suave. El único muerto aquí era el pavo, dominador, completamente
victorioso.
Mamá, tía, nosotros, todos inundados de felicidad. Iba a
escribir "felicidad gustativa", pero no era sólo eso. Era un
felicidad mayúscula, un amor de todos, un olvido de otros parientes que
distraen del gran amor familiar. Y fue, sé que ese primer pavo comido en el
seno de la familia fue el comienzo de un amor nuevo, reacomodado, más completo,
más rico e inventivo, más complaciente y cuidadoso. Nació entonces una
felicidad familiar para nosotros que, no soy exclusivista, algunos tendrán
igual de grande, sin embargo más intensa que la nuestra, me es imposible
concebir.
Mamá comió tanto pavo que en un momento imaginé que podría
hacerle mal. Pero enseguida pensé: ¡Ah!, ¡no importa! aunque se muera, pero por
lo menos que una vez en la vida coma pavo de verdad.
Tamaña falta de egoísmo me había transportado a nuestro
infinito amor... Después vinieron una uvas ligeras y unos dulces, que allí en
mi tierra llevan el nombre de "bien-casados". Pero ni siquiera ese
nombre peligroso se asoció al recuerdo de mi padre, que el pavo ya había
convertido en dignidad, en cosa cierta, en culto puro de contemplación.
Nos levantamos. Eran casi las dos de la mañana, todos
alegres con dos botellas de cerveza encima. Todos se iban a acostar, a dormir o
a dar vueltas en la cama, poco importa, porque es bueno un insomnio feliz. La
cuestión es que Rosa, católica antes de ser Rosa, me había prometido que me
esperaría con una champaña. Para poder salir mentí, dije que iba a la fiesta de
un amigo, besé a mamá y le guiñé el ojo; era una manera de contar a dónde iba y
qué iba a hacer. Besé a las otras dos mujeres sin guiñarles el ojo. Y ahora,
¡Rosa!...
FIN
Traducción de Inés Van Messen
Biblioteca Digital Ciudad Seva
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