domingo, 15 de novembro de 2015


Não, não é cansaço...
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


- Álvaro de Campos [Heterônimo de Fernando Pessoa], In Poesia, Assírio e Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.
"Detesto comportamento xenófobo. E detesto comparações, normalmente comparam alhos com bugalhos. Nosso sentimento de dor se expressa com a cor que quisermos dar. Eu choro pelas vítimas de Paris, eu choro pelas crianças da Síria que tombam sem saber do que se trata, eu choro pelo nosso País tão contrário a si mesmo, tão avesso as suas dores, e tão revoltado e participante na sua luta contra o preconceito e a injustiça. Eu amo esses estudantes que com sua coragem e determinação ocupam as escolas e defendem um bem e um direito que o Estado de São Paulo teima em extinguir em nome de uma pseudo reforma que, sabemos, só vai piorar o que já está quase falindo. Eu lamento que o atual governador esteja dando um tiro no pé de seu partido, esse "social-democrata" que deveria fazer jus ao nome. Os nomes, esses e outros politicamente encabeçados... que sentido agora fazem? Eu lamento que a ganância esteja enterrando nossa riqueza natural. O rio Doce sucumbiu ao amargo dos desejos. Estou estarrecida com tudo. Cansada de ver tanto ódio brotando dos que se dizem tementes a Deus. Que Deus é esse que deseja tanto ódio? Eu desejo que o povo brasileiro se erga contra esses desmandos e elejam quem não faz panfletagem religiosa e fascista e sexista e misógena. Que este túnel que estamos atravessando de lama e horror encontre alguma luz e oxigênio do outro lado, ao fim da travessia. Os mais corajosos encontrarão, tenho certeza. Os medrosos morrerão com a boca e os ouvidos entupidos pelos dejetos. Não há deuses a temer. Há homens há temer, gente como a gente, loucos e alucinados, doentes mentalmente, sexualmente mal resolvidos. Estão presos nos seus padrões, nos seus muros. Gostaria muito que se libertassem e respirassem o ar puro que se tem de graça. Seriam mais felizes e mais humanos."


Por Susanna Busato

sábado, 14 de novembro de 2015

F E B pracinhas cantam o hino nacional


. "O pensamento social crítico está guiado pelos princípios da igualdade, da justiça social, do fortalecimento e da radicalização da democracia, pela necessidade de destruir os poderes opressores, pela luta contra o racismo e contra toda forma de violência.É um pensamento libertário e inconformista, que sempre quer mais porque a democracia sempre pode ser fortalecida.” 

Pablo Gentili

O impacto político de confrontos religiosos e formas de guerras etnorreligiosas



Ainda estamos no ANNO de 1015. O impacto político de confrontos religiosos e formas de guerras etnorreligiosas sempre foram muito grandes e decisivos na configuração do próprio Estado. A própria concepção, criação e organização do Estado Nacional Europeu, como nas origens de Portugal, de quem o Estado do Brasil é o maior descendente, é resultado direto de guerras religiosas contra o islamismo ibérico. O resultado final foi o extermínio, a expulsão e a assimilação dos diferentes muçulmanos e judeus ao fim do longo ciclo de violências. Sobreviveria no território apenas um povo, uma religião, uma língua, um rei. Somente retornaram para o nosso convívio quando nos modernizamos, democratizamos e os aceitamos de novo. Hoje os Estados se tornam cada vez mais policialescos e mesmo organizados como Estados de apartheid etnorreligioso - como todos do Oriente Médio, o que acelera e aprofunda as guerras até o futuro desfecho de guerras totais, até que um lado vença e destrua completamente os outros, como aconteceu na Península Ibérica Medieval. A visão iluminista, a tolerância e a convivência serão desafios para novas hegemonias. Muitos Estados europeus estão experimentado pela primeira vez uma real diversidade social e etnorreligiosa, coisa que estamos acostumados há bem mais de 1000 anos. Superar diferenças como o racismo, os preconceitos e a discriminação étnica, religiosa, de gênero, de orientação sexual e muitas outras continuam sendo imensos desafios para uma sociedade livre, igualitária e democrática no ANNO de 2015.

Ricardo Costa de Oliveira

Nem a arma bestial dos terroristas nem a palavra mansa dos fazedores do caos nem a violência de grupos com boas causas nem a palavra mansa dos manipuladores de principios nem a raiva colérica dos saudosistas de tempos inomináveis nem os transformadores com discursos de barricada.
A violência não é um direito, não é um sentimento válido, nem ação correta para mudanças. Nem Líbano nem Síria nem Jerusalém nem Paris.

Nunca a cultura de paz foi tão necessária. 

Hamilton Faria


Se somos todos parisienses, somos também todos estrangeiros, somos também todos refugiados, todos africanos. Todos perdemos, a cada morte de inocentes, sejam os lembrados pela grande mídia, sejam os anônimos e esquecidos pela mídia que serve a certos "poderes". O pior é usar a dor e a tragédia de um modo perverso, aproveitando para promover mais medo e terror, em vez de compaixão e humanidade.

Ana Luisa Kaminski

Dia Nacional da Consciência Negra


20 DE NOVEMBRO
Dia Nacional da Consciência Negra
Um Dia para não passar em branco
Não tenho certeza se as escolas estão ensinando sobre o escravagismo praticado no Brasil entre os séculos XVI E XIX, mas é certo que eu mesmo, em meu tempo de escola, pelo menos durante os chamados primeiro e segundo graus, pouco aprendi sobre este período e o que aprendi foi muito mais sobre os bandeirantes, que escravizavam índios, caçadores de negros, grandes escravocratas e assassinos, mercenários da coroa portuguesa e algozes dos que foram desterrados.
Também não tenho certeza se, hoje, alguém sabe ao certo quem foi Zumbi dos Palmares (1655-1695), negro escravo que se rebelou e transformou-se na maior liderança dos quilombos existentes no Brasil, na época, e que morreu lutando para libertar seu povo.
Uma certeza eu tenho. Se prestarmos atenção na realidade brasileira, os dados levantados tanto pelo IBGE quanto as pesquisas realizadas por DIEESE e tantas outras fontes, como institutos, universidades nacionais e estrangeiras, demonstram uma situação não muito diferente daquela, levando-se em conta o atual grau de desenvolvimento apresentado na sociedade brasileira.
Vejamos alguns pontos: mesmo sendo quase metade da população, os negros são a grande maioria dos desempregados, a grande maioria dos habitantes das favelas, maioria nos presídios, maioria no índice de mortalidade infantil, maioria entre as meninas prostitutas e prostituídas.
Em contrapartida, eles são a minoria entre os estudantes secundaristas e universitários, recebem salários a menos do que os demais, não fazem parte de índice representativo na política ou judiciário, limitando-se seus expoentes de renome ao futebol, ao carnaval e até mesmo a música.
Também tenho certeza de que estes expoentes de renome são o grande baluarte daqueles que afirmam que existe uma democracia racial no Brasil, citando-os como exemplo, sem se aperceberem de que são dados ínfimos, em uma proporção, talvez, de um para 1 milhão e que, mesmo assim, não são poucas as vezem em que até estes sofrem discriminação racial.
Os milhares que morrem de subnutrição, marginalizados da sociedade, sem escolas, sem casas, moradores de rua, assaltantes necessários para sobrevida, são apontados como vadios, bandidos, em uma sociedade que insiste em marginalizá-los e explorá-los tal qual nos séculos passados.
Zumbi dos palmares lutou e morreu com o sonho de uma sociedade justa e igualitária para seu povo, contra a escravidão e contra a desigualdade social. Muitos são os que lutam para sobreviver nos dias de hoje. Dia 20 de Novembro é data histórica da morte de Zumbi dos Palmares. Talvez venha a ser a data histórica da morte de milhões que já tiveram suas vidas ceifadas em busca dos mesmos ideais, ao longo dos tempos.
O importante e que o Dia Nacional da Consciência Negra não passe em branco e que a sociedade reflita sobre suas crendices de democracia racial, ensinando a verdadeira história daqueles que construíram e continuam construindo este país, mesmo sob o peso não mais da chibata, mas da quase insuportável condição de vida oferecida ao povo negro brasileiro.


marcos “black” fontinelli

Filme americano sobre a F E B



Antes de qualquer coisa, concordo que o terrorismo precisa ser combatido, mas, não adianta usar só a força como forma de retaliação. Não precisa ser especialista para perceber que esta ideia " olho por olho e dente por dente" acirra ainda mais os conflitos. A questão é por que o Estado Islâmico consegue tantos seguidores? Será que as políticas internacionais dos países desenvolvidos estão contribuindo para o Estado Islâmico ter mais soldados fanáticos? Esses jovens recrutados não querem fama e nem dinheiro e sim heróis de seu povo, contra os opressores. Encaram isto como a verdade absoluta. Logo, necessita se encontrar outros caminhos que busquem respeitar a diversidade cultural com o intuito de não haver mais recrutamento.
Vejo um futuro sombrio pela frente, a forma de se fazer guerra mudou completamente, agora, são ataques que podem acontecer em qualquer lugar e a gente não pode prever.

Os países desenvolvidos precisam largar o etnocentrismo e rever seus conceitos. Inclusive, o acordo de paz na Palestina precisa ser feito e palestinos e judeus viverem em harmonia, respeitando os espaços um do outro. Combater com violência o terrorismo e atingir inocentes “do outro lado”, a consequência será de surgir mais terroristas. Enfim, um ciclo vicioso de ação e reação que não tem fim.

Eduardo Oliveira Freire


François Hollande admitiu hoje pela manhã que o Estado Islâmico foi o responsável pelos atentados brutais em Paris. Poucos momentos depois uma carta patética do grupo chegou ao jornal LE MONDE assumindo a responsabilidade e fazendo novas ameaças. O Estado Islâmico foi criado por Israel e pelos Estados Unidos com o objetivo de derrubar o governo do presidente Bashar Al Assad da Síria e se apropriarem das reservas de gás natural e petróleo daquele país. Quando a Rússia começou a bombardear posições do EI, Estados Unidos e Israel reagiram, condenaram e até o pastel do chanceler brasileiro enfiou Dilma nessa fria de condenar os ataques russos. Países da OTAN, entre os quais se inclui a França, bombardeavam alvos sírios no disfarce de atacar o EI. Na Assembléia Geral da ONU, Barack Obama propôs que os ataques fossem conjuntos desde que Bashar deixasse o poder. Putin não aceitou e dizimou bases do EI. Isso deixou a descoberto a hipocrisia dos que criaram o monstro. A retaliação veio no ataque a um avião russo, com mais de 200 civis em território egípcio com um míssil de longo alcance, que muitos observadores acreditam ter sido disparado de Israel. A cobiça pela riqueza dos países árabes não tem tamanho e nem escrúpulos. O resultado é essa barbárie, morrem civis. Não morre Obama, não morre Hollande, não morre Cameron, permanece intocado o louco Benajmin Netanyahu. Morrem inocentes. Ou percebem que a fonte do terror é Israel, ou sempre vai haver pretexto para grupos de malucos como o EI. Aqui, um comentarista da GLOBO e o apresentador do jornal, deram um jeito de ironizar a solidariedade do presidente Bashar aos franceses. São robôs de uma organização criminosa e terrorista em termos de mídia. É hora de olhar para outro lado e compreender o papel insano de Israel e dos EUA no Oriente Médio, antes que o problema crie contornos mais graves e faça mais vítimas que não os supostos donos do mundo.

 Laerte Braga

Power in the Age of Oi


"O primeiro passo para combater o terrorismo é não aceitar pensar o mundo a partir das suas categorias, isto é, não ver o mundo de uma maneira maniqueísta, simplória e racista. É exatamente o que os terroristas do Estado Islâmico querem: que se compre a narrativa do "Nós contra eles", do "choque das civilizações". É importante lembrar que as maiores vítimas dos fascistas do EI são muçulmanos, sobretudo os xiitas, que lutam contra o EI na Síria e no Iraque. Apesar dos membros do EI serem sunitas, há também sunitas, como os curdos, que lutam contra o EI. Toda tentativa de homogeneizar ou generalizar juízos acerca de um grupo humano tão vasto e plural é um ato de ignorância.
Também deveríamos estar discutindo o que torna o terrorismo materialmente possível. Eis aí um segredo de polichinelo: há muita grana de doadores da Arábia Saudita, Qatar, Iêmen - os chamados países do Golfo - financiando atividades terroristas ( http://goo.gl/RYAaoJ ). Há fortes indícios que o dinheiro saudita esteja ajudando o EI ( http://goo.gl/eYKMF3 ). A Arábia Saudita é o país que mais promove uma versão extremista do islamismo (a vertente wahhabita), e só consegue ter sucesso nessa empreitada pois tem muitos petrodólares. E aí se chega ao centro da questão: o terrorismo wahhabita é indissociável da indústria de petróleo, pilar do capitalismo mundial (uma das fontes de renda do EI é a venda de petróleo no mercado negro turco). Talvez esse seja mais um bom motivo para gente depender cada vez menos de combustíveis fósseis.
Para quem estiver interessado na relação entre as "democracias ocidentais" e as ditaduras do petróleo no Oriente Médio, recomendo o livro do cientista político Thimothy Mitchell, "Carbon Democracy: Political 

Power in the Age of Oil" PDF aqui: https://goo.gl/TsUryx"
https://www.youtube.com/watch?v=0dxdCuVL6Oo

fonte :Cesar Melo



As grandes corporações vendem armas, aparelham grupos terroristas, fomentam guerras, elegem governos, provocam crises políticas, destroem economias, devastam o meio ambiente, enterram cidades...lamentamos as consequências, mas a causa é o sistema capitalista, monopolista, predatório. Enquanto perdurar o capitalismo, ficaremos só nos lamentando.

André Castelo Branco Machado

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Um drama na caça



(...)Um Drama na Caça - tido por alguns como o único romance escrito por Tchékhov - é uma das suas primeiras produções publicadas. Foi servido aos leitores do "Novosti Dniá", em folhetins, no ano de 1884 e 1885 e, para assinar a obra, o autor serviu-se de dois pseudônimos: "Ante" de "Antone Tchekhonte". (...)


 Anton Tchékhov - Editora Livros do Brasil – 2004



Só ocupando os "espaços públicos", que por serem "públicos" são objeto de um interesse legítimo, no sentido de serem custeados com dinheiro de impostos arrecadados as custas do trabalho do povo, assim como pelo fato de serem geridos por um corpo de funcionários ali colocados para servirem e representarem esta coletividade (pois está seria a verdadeira função dos poderes instituídos) e que os cidadãos de São Paulo, do Paraná, ou de qualquer outro estado e cidades geridas por governos neoliberais poderão resistir a esse retrocesso, revestido de falácia, chamada de "reorganização escolar". "Reorganizar" o que exatamente??? Não seria esse um nome evasivo e pomposo para dizer que a educação deixará de ser tratada com a prioridade que merece (desafio alguém a provar que numa sala de aula com 60 - 70 - 80 alunos, mal pago e munido unicamente de quadro e giz alguém consiga educar um ser humano a sequer saber o que está fazendo ali naquele ambiente insalubre) e que, em contrapartida, empresas, parlamentares e representantes do executivo e do judiciário, poderiam livremente se apropriar, com uma ganancia ainda maior que a cotidianamente demonstrada e conforme os seus mais escusos interesses do "dinheiro público" em benefício próprio. A pergunta que para mim fica e como alguém pode defender essa proposta, senão fazendo parte destas "máfias, cartéis e esquemas" que irão se beneficiar ou assumindo uma profunda ignorância e desconhecimento do assunto???

Will Coutinho Hamon
Apropriação privada do que era público é corrupção ? No caso da privatização da Vale a apropriação privada dos rendimentos públicos da empresa foi total, 100% de apropriação privada dos lucros desviados pelos aspones neoliberais e seus apaniguados. As pessoas reclamam e com razão do escândalo de apropriação privada na Petrobras conceituado como corrupção porque se trata da apropriação privada de partes dos rendimentos públicos da empresa. Agora entendemos porque a Vale desapareceu com o Rio Doce do seu nome em função da privataria do PSDB.


Ricardo Costa de Oliveira

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

En la administración de correos



Anton Chejov

La joven esposa del viejo administrador de Correos Hattopiertzof acababa de ser inhumada. Después del entierro fuimos, según la antigua costumbre, a celebrar el banquete funerario. Al servirse los buñuelos, el anciano viudo rompió a llorar, y dijo:
-Estos buñuelos son tan hermosos y rollizos como ella.

Todos los comensales estuvieron de acuerdo con esta observación. En realidad era una mujer que valía la pena.

-Sí; cuantos la veían quedaban admirados -accedió el administrador-. Pero yo, amigos míos, no la quería por su hermosura ni tampoco por su bondad; ambas cualidades corresponden a la naturaleza femenina, y son harto frecuentes en este mundo. Yo la quería por otro rasgo de su carácter: la quería -¡Dios la tenga en su gloria!- porque ella, con su carácter vivo y retozón, me guardaba fidelidad. Sí, señores; érame fiel, a pesar de que ella tenía veinte años y yo sesenta. Sí, señores; érame fiel, a mí, el viejo.

El diácono, que figuraba entre los convidados, hizo un gesto de incredulidad.

-¿No lo cree usted? -le preguntó el jefe de Correos.

-No es que no lo crea; pero las esposas jóvenes son ahora demasiado..., entendez vous...? sauce provenzale...

-¿De modo que usted se muestra incrédulo? Ea, le voy a probar la certeza de mi aserto. Ella mantenía su fidelidad por medio de ciertas artes estratégicas o de fortificación, si se puede expresar así, que yo ponía en práctica. Gracias a mi sagacidad y a mi astucia, mi mujer no me podía ser infiel en manera alguna. Yo desplegaba mi astucia para vigilar la castidad de mi lecho matrimonial. Conozco unas frases que son como una hechicería. Con que las pronuncie, basta. Yo podía dormir tranquilo en lo que tocaba a la fidelidad de mi esposa.

-¿Cuáles son esas palabras mágicas?

-Muy sencillas. Yo divulgaba por el pueblo ciertos rumores. Ustedes mismos los conocen muy bien. Yo decía a todo el mundo: «Mi mujer, Alona, sostiene relaciones con el jefe de Policía Zran Alexientch Zalijuatski». Con esto bastaba. Nadie se atrevía a cortejar a Alona, por miedo al jefe de Policía. Los pretendientes apenas la veían echaban a correr, por temor de que Zalijuatski no fuera a imaginarse algo. ¡Ja! ¡Ja!... Cualquiera iba a enredarse con ese diablo. El polizonte era capaz de anonadarlo, a fuerza de denuncias. Por ejemplo, vería a tu gato vagabundeando y te denunciaría por dejar tus animales errantes...; por ejemplo...

-¡Cómo! ¿Tu mujer no estaba en relaciones con el jefe de Policía? -exclaman todos con asombro.

-Era una astucia mía. ¡Ja! ¡Ja!... ¡Con qué habilidad los llamé a engaño!

Transcurrieron algunos momentos sin que nadie turbara el silencio.

Nos callábamos por sentirnos ofendidos al advertir que este viejo gordo y de nariz encarnada se había mofado de nosotros.

-Espera un poco. Cásate por segunda vez. Yo te aseguro que no nos volverás a coger -murmuró alguien.

FIN




Biblioteca Digital Ciudad Seva

El pavo de Navidad


Mario de Andrade

Nuestra primera Navidad en familia, después de la muerte de papá ocurrida cinco meses antes, fue de consecuencias decisivas para la felicidad familiar. Nosotros siempre fuimos una familia feliz, en ese sentido bien amplio de felicidad: gente honesta, sin crímenes, hogar sin peleas internas ni graves dificultades económicas. Pero, debido en parte a la naturaleza gris de mi padre, ser desprovisto de todo tipo de lirismo, instalado en la mediocridad, siempre nos había faltado ese disfrute de la vida, ese gusto por las felicidades materiales: un buen vino, un balneario, el refrigerador, cosas así. Mi padre había sido un gran equivocado, casi dramático, el pura-sangre de los esfuma-placeres.

Mi padre murió, lo sentimos mucho, etc. Cuando ya nos acercábamos a la Navidad, yo no sabía qué hacer para poner distancia con esa memoria del muerto que obstruía, que parecía haber sistematizado para siempre la obligación de un recuerdo doloroso en cada comida, en cada mínimo gesto de la familia. Una vez sugerí a mamá que fuera al cine a ver una película. ¡Se puso a llorar! ¡Dónde se vio ir al cine estando de luto riguroso! El dolor ya se cultivaba por las apariencias, y yo, que siempre había querido bien a papá, más por instinto filial que por espontaneidad del amor, me veía a punto de detestar al bueno del muerto.

Fue sin lugar a dudas por eso que me nació, en este caso sí, espontáneamente, la idea de hacer una de mis llamadas "locuras". Esa había sido, en realidad, y desde muy niño, mi excelente conquista contra el clima familiar. Desde muy temprano, desde los tiempos de la secundaria, en que me las arreglaba para sacar regularmente un reprobado todos los años, desde el beso a escondidas a una prima, cuando tenía diez años, descubierto por la tía Velha, una tía detestable; y principalmente desde las lecciones que di o recibí, no sé, de una criada, conseguí, en el reformatorio del hogar y con la vasta parentela, la fama conciliadora de "loco". "¡Está loco, el pobre!" decían. Mis padres hablaban con cierta tristeza condescendiente, el resto de la parentela me buscaba como ejemplo para sus hijos y probablemente con aquel placer de los que se convencen de alguna superioridad. No tenían locos entre sus hijos. Pues esa fama es la que me salvó. Hice todo lo que la vida me presentó y que mi ser exigía que se realizara con integridad. Y me dejaron hacer de todo, porque era loco, pobrecito. El resultado de todo esto fue una existencia sin complejos, de la cual no tengo nada de qué quejarme.

Siempre teníamos la costumbre, en la familia, de realizar la cena de Navidad. Cena insignificante, ya puede usted imaginarse; cena tipo mi padre: castañas, higos, pasas después de la Misa de Gallo. Empachados de almendras y nueces (si habremos discutimos los tres hermanos por el cascanueces...), empachados de castañas, nos abrazábamos e íbamos a la cama. Fue al recordar esto que arremetí con una de mis "locuras".

-Bueno, para Navidad, quiero comer pavo.

Hubo una de esas sorpresas que nadie se imagina. Luego, mi tía solterona y santa, que vivía con nosotros, advirtió que no podíamos invitar a nadie debido al luto.

-¿Pero quién habló de invitar a alguien? Esa manía... ¿Cuándo comimos pavo en nuestra vida? Pavo aquí en casa es plato de fiesta, viene toda esa parentela del demonio...

-Hijo mío, no hables así...

-Pues hablo y ya.

Y descargué mi helada indiferencia sobre nuestra parentela infinita, dizque descendiente de bandeirantes, que poco me importa. Era el momento para desarrollar mi teoría de loco, pobrecito, y no perdí la ocasión. De sopetón me dio una ternura inmensa por mamá y tiita, mis dos madres, tres con mi hermana, las tres madres que divinizaron mi vida. Siempre era lo mismo: venía el cumpleaños de alguien y sólo así se hacía pavo en la casa. Pavo era plato de fiesta: una inmundicie de parientes ya preparados por la tradición, invadían la casa por el pavo, las empanaditas y los dulces. Mis tres madres, tres días antes, lo único que sabían de la vida era trabajar preparando carnes frías y dulces finísimos, pues estaban muy bien hechos. La parentela devoraba todo y todavía se llevaba paquetitos para los que no habían podido venir. Mis tres madres quedaban exhaustas. Del pavo, sólo en el entierro de los huesos, al día siguiente, mamá y tiita probaban un pedacito de pierna, oscuro, perdido en el arroz blanco. Y eso que era mamá quien servía, elegía para el viejo y para los hijos. En realidad, nadie sabía concretamente qué era un pavo en nuestra casa, pavo restos de fiesta.

No, no se invitaba a nadie, era un pavo para nosotros cinco, cinco personas. Y tenía que ser con dos farofas, la gorda con los menudos y la seca, doradita, con bastante mantequilla. Quería el buche rellenado sólo con farofa gorda, a la que teníamos que agregar fruta negra, nueces y una copa de Jerez, como había aprendido en casa de la Rosa, mi querida compañera. Está claro que omití decir dónde había aprendido la receta y todos desconfiaron. Y todos se quedaron en ese aire de incienso soplado...¿no sería tentación del Diablo aprovechar una receta tan sabrosa? Y cerveza bien helada, garantizaba yo casi a los gritos. Lo cierto es que con mis "gustos" ya bastante refinados fuera del hogar, primero pensé en un buen vino bien francés. Pero la ternura por mamá venció al loco, a mamá le encantaba la cerveza.

Cuando acabé mis proyectos, me di cuenta, todos estaban felicísimos, con un inmenso deseo de hacer aquella locura con la que había irrumpido. Sabían muy bien que era locura, sí, pero todos se imaginaban que yo era el único que deseaba mucho aquello y era fácil echar encima mío la culpa de sus deseos enormes. Se sonreían, mirándose unos a otros, tímidos como palomas desgarradas, hasta que mi hermana asumió el consentimiento general:

-¡Aunque esté loco!...

Se compró el pavo, se hizo el pavo, etc. Y después de una Misa de Gallo muy mal rezada, tuvimos nuestra Navidad más maravillosa. ¡Qué chistoso! Cuando me acordaba que finalmente iba a lograr que mamá comiera pavo, en esos días no hacía otra cosa que pensar en ella, sentir ternura por ella, amar a mi viejita adorada. Y mis hermanos también, estaban en el mismo ritmo violento de amor, todos dominados por la nueva felicidad que el pavo iba imprimiendo en la familia. De modo que, aún disfrazando las cosas, dejé con tranquilidad que mamá cortara toda la pechuga del pavo. En un momento mamá se detuvo, luego de haber cortado en rebanadas uno de los lados del ave, sin resistirse a aquellas leyes de economía que siempre la habían sumido en una casi pobreza sin razón.

-No señora, siga cortando... y pedazos grandes ¡Yo solo me como eso!

Era mentira, el amor familiar, estaba incandescente en mí de tal forma, que hasta era capaz de comer poco, sólo para que los otros cuatro comieran mucho. Y el diapasón de los otros era el mismo. Aquel pavo comido entre nosotros solos redescubría en cada uno lo que la cotidianeidad había borrado por completo: amor, pasión de madre, pasión de hijos. Dios me perdone pero estoy pensando en Jesús. En esa casa de burgueses muy modestos, se estaba realizando un milagro digno de la Navidad de un Dios. La pechuga del pavo quedó enteramente reducida a rebanadas grandes.

-¡Yo sirvo!

-¡Qué loco! ¡Pero por qué tenía que servir si siempre mamá había servido en esa casa! Entre risas, los grandes platos llenos fueron pasando hasta mí y empecé una distribución heroica, mientras mandaba a mi hermano a que sirviera la cerveza. Advertí un pedazo admirable de pavo lleno de carnecita y lo puse en el plato. Y luego varias rebanadas blancas. La voz severa de mamá cortó el espacio angustiado en el cual todos aspiraban a su parte del pavo:

-¡Acuérdate de tus hermanos, Juca!

¿Cuándo iba a imaginarse ella?, ¡la pobre!, que ese era el plato suyo, de la Madre, de mi amiga maltratada que sabía de la existencia de Rosa, que sabía de mis crímenes, a quien sólo le contaba lo que hacía sufrir!... El plato quedó sublime.

-Mamá, este es su plato. ¡No!... ¡No lo pase!

Fue entonces cuando ella no pudo más con tanta conmoción y se puso a llorar. Mi tía también, después de ver que el siguiente plato sublime era el suyo, entró en el asunto de las lágrimas. Y mi hermana también, que jamás había visto lágrimas sin abrir una llave, se desparramó en llanto. Entonces empecé a decir muchas tonterías para no llorar también, tenía diecinueve años... Diablo de familia tonta que veía un pavo y lloraba... Esas cosas... Todos se esforzaban por sonreír, pero ahora la alegría se tornaba imposible. El llanto había evocado, por asociación, la imagen indeseable de mi padre muerto. Mi padre, con su figura gris, vino a estropear para siempre nuestra Navidad. ¡Me dio coraje!

Bueno, empezamos a comer en silencio, consternados, y el pavo estaba perfecto. La carne tierna, de un tejido muy tenue, se mezclaba entre los sabores de las farofas y del jamón, de vez en cuando herida, molestada y vuelta a desear ante la intervención más violenta de la pasa negra y el estorbo petulante de los pedacitos de nuez. Pero papá estaba sentado allí, gigantesco, incompleto, una censura, una llaga, una incapacidad. Y el pavo estaba tan rico, y mamá que por fin sabía que el pavo era un manjar digno de Jesucito nacido.

Empezó una lucha baja entre el pavo y el bulto de papá. Supuse que alentar al pavo era fortalecerlo en la lucha y, está claro, había tomado decididamente el partido del pavo. Pero los difuntos tienen medios escurridizos, muy hipócritas, como para vencerlos. En cuanto alabé al pavo, la imagen de papá creció victoriosa, insoportablemente obstruyente.

-Sólo falta su papá.

Yo ni comía, ya no podía probar más ese pavo perfecto, tanto me interesaba esa lucha entre los dos muertos. Llegué a odiar a papá. Y ni sé qué inspiración genial de repente me volvió hipócrita y político. En aquel instante que hoy me parece decisivo en nuestra familia, tomé aparentemente el partido de mi padre. Fingí, triste.

-Y sí. Papá nos quería mucho y murió de tanto trabajar para nosotros, papá allí en el cielo debe estar contento -dudé, pero resolví no mencionar más al pavo-, contento de vernos a todos reunidos en familia.

Y todos, mucho más tranquilos, empezaron a hablar de papá. Su imagen fue disminuyendo y se transformó en una estrellita brillante en el cielo. Ahora todos comían el pavo con sensualidad, porque papá había sido muy bueno, siempre se había sacrificado tanto por nosotros, había sido un santo que "ustedes, mis hijos, nunca podrán pagar lo que deben a su padre", un santo. Papá se transformó en santo, una contemplación agradable, una estrellita en el cielo, imposible de deshacer. No perjudicaba más a nadie, puro objeto de contemplación suave. El único muerto aquí era el pavo, dominador, completamente victorioso.

Mamá, tía, nosotros, todos inundados de felicidad. Iba a escribir "felicidad gustativa", pero no era sólo eso. Era un felicidad mayúscula, un amor de todos, un olvido de otros parientes que distraen del gran amor familiar. Y fue, sé que ese primer pavo comido en el seno de la familia fue el comienzo de un amor nuevo, reacomodado, más completo, más rico e inventivo, más complaciente y cuidadoso. Nació entonces una felicidad familiar para nosotros que, no soy exclusivista, algunos tendrán igual de grande, sin embargo más intensa que la nuestra, me es imposible concebir.

Mamá comió tanto pavo que en un momento imaginé que podría hacerle mal. Pero enseguida pensé: ¡Ah!, ¡no importa! aunque se muera, pero por lo menos que una vez en la vida coma pavo de verdad.

Tamaña falta de egoísmo me había transportado a nuestro infinito amor... Después vinieron una uvas ligeras y unos dulces, que allí en mi tierra llevan el nombre de "bien-casados". Pero ni siquiera ese nombre peligroso se asoció al recuerdo de mi padre, que el pavo ya había convertido en dignidad, en cosa cierta, en culto puro de contemplación.

Nos levantamos. Eran casi las dos de la mañana, todos alegres con dos botellas de cerveza encima. Todos se iban a acostar, a dormir o a dar vueltas en la cama, poco importa, porque es bueno un insomnio feliz. La cuestión es que Rosa, católica antes de ser Rosa, me había prometido que me esperaría con una champaña. Para poder salir mentí, dije que iba a la fiesta de un amigo, besé a mamá y le guiñé el ojo; era una manera de contar a dónde iba y qué iba a hacer. Besé a las otras dos mujeres sin guiñarles el ojo. Y ahora, ¡Rosa!...
FIN

Traducción de Inés Van Messen


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