sábado, 16 de agosto de 2014

Terrível é o pensar./ Eu penso tanto / E me canso tanto com meu pensamento / Que às vezes penso em não pensar jamais./ Mas isto requer ser bem pensado / Pois se penso demais / Acabo despensando tudo que pensava antes / E se não penso / Fico pensando nisso o tempo todo./

 Millôr Fernandes
" A família é o conjunto de pessoas que descendem de um antepassado comum. O antepassado é o sinal de uma realidade profunda: o sangue, isto é, «chama da vida». A finalidade da família é a procriação, ou seja, a transmissão de energia vital através do sacrifico, a manutenção da vida essencial do antepassado. A família aparece como um microcosmo, a célula primária da sociedade, da qual as outras estruturas-povoação, tribo, reino, império-derivam. A família é uma comunidade (democrática) cujo o chefe, que é também sacerdote e juiz, atua como delegado do conselho de família. Na povoação, na tribo, no império são caracteres de uma teocracia democrática."

Senghor (1977)
“A filosofia já não tem razão de ser e, por isso, o homem moderno, se fosse corajoso e honesto, deveria rejeitá-la e bani-la com palavras semelhantes àquelas com que Platão expulsou os poetas trágicos do seu Estado. Ela poderia, sem dúvida, replicar, como também os poetas trágicos retorquiram a Platão. Se fosse obrigada a falar, poderia, por exemplo, dizer: "Pobre povo! Será por minha culpa que eu vagueio no teu solo como uma profetiza e que tenho de me esconder e de me disfarçar, como se fosse uma pecadora e vós os meus juízes? Olhai a minha irmã, a arte: acontece-lhe como a mim, refugiamo-nos junto dos Bárbaros e já não sabemos salvar-nos. Aqui, é verdade, já não temos nenhuma boa razão de ser: mas os juízes, perante os quais encontramos razão, também vos julgam e hão de vos dizer: "Tende primeiro uma civilização; depois, aprendereis o que a filosofia quer e pode".
__________________

Friedrich Nietzsche

Germinal

"O sol surgia no horizonte glorioso, era um despertar de regozijo por tôda a extensão do campo. Uma vaga de ouro rolava do oriente ao ocidente, sôbre a imensa planície. Êsse calor de vida avançava, estendia-se num estremecer de juventude, e nêle vibravam os suspiros da terra, o canto dos pássaros, todos os murmúrios das águas e dos bosques. Era bom estar vivo, o velho mundo queria viver mais uma primavera."
- Émile Zola, em "Germinal". 
[tradução Francisco Bittencourt]. Rio de Janeiro: Editorial Bruguera, 1969, p. 606.
http://www.elfikurten.com.br/2014/08/emile-zola.html
Depois de décadas de políticas públicas voltadas para o crescimento econômico, o mundo deveria estar mais igualitário. Mas, ao contrário, persistem enormes disparidades entre países industrializados e em desenvolvimento. Das razões subjacentes a tal desequilíbrio trata “A corrida pelo crescimento: países em desenvolvimento na economia mundial”.

Em linguagem concisa e acessível a quem se interesse por economia, ciências sociais e relações internacionais, o renomado economista indiano Deepak Nayyar analisa de um prisma interdisciplinar esse conjunto de países desde o início do segundo milênio, quando todos estavam mais ou menos em idêntico patamar.

Nos séculos XVII e XVIII eram China e Índia os líderes da economia mundial, mas já no XIX a Revolução Industrial e o colonialismo forjaram uma grande divergência entre o Ocidente e o restante do planeta. No rastro da reconstrução do após-guerra, o quadro tendeu a se inverter, originando uma convergência de 1950 a 2010. Estávamos no caminho certo? Nayyar tem dúvidas, pois a convergência foi modesta. Só catorze países subdesenvolvidos lograram o salto qualitativo para o emparelhamento — o “catch up”, como dizem os economistas — com os mais ricos. E nem sempre o crescimento se traduziu em desenvolvimento.
Celso Furtado, em seus trabalhos teóricos seminais, insistia em que o crescimento só se torna verdadeiro desenvolvimento quando atende as múltiplas dimensões e aspirações do ser humano. Se longe disso está o pelotão de frente dos países em desenvolvimento, que dizer dos que formam o resto do resto? É premente repensar, junto com o autor, o desenvolvimento em novas bases.
O grande, mas não único, mérito do livro de Deepak Nayyar é fincar-se, muito além da economia, em pilares históricos e culturais para escrutar o passado e incorporar a imprescindível dimensão política para prospectar o futuro visando uma convergência inclusiva.

Rosa Freire d’Aguiar

Deepak Nayyar é professor emérito da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Delhi. Lecionou em Oxford, onde se doutorou, em Sussex, e na New School for Social Research, de Nova York. Integrou os quadros do World Institute for Development Economics Research em Helsinque, do South Centre, em Genebra, do Social Science Research Council, e ocupou funções de governo na Índia. É autor, entre outros, de Trade and Globalization (2008) e Liberalization and Development (2008). “A corrida pelo crescimento” é seu primeiro livro publicado no Brasil.

Estado Islâmico do Iraque e do Levante

"O assim chamado "Estado Islâmico do Iraque e do Levante" (ISIS, na sigla em inglês) é um grupo terrorista formado por fundamentalistas islâmicos recrutados em diversos países, como o Paquistão, Chechênia, Líbia, Arábia Saudita e até Estados Unidos e Europa Ocidental. Desde o início, foram financiados, armados e apoiados pelos EUA, Israel e petromonarquias do Golfo Pérsico. Seu objetivo é implantar um "califado" salafista (versão deturpada do Islã praticada na Arábia Saudita) em regiões ocupadas do Iraque e da Síria, expulsando ou assassinando populações cristãs, curdas, xiitas ou sunitas de outros ramos do Islã. Enquanto foi interessante para os EUA, eles apoiaram esses terroristas; agora que eles saíram de seu controle, a Casa Branca mudou de aliado e passou a apoiar os curdos contra o ISIS, mas mantendo o seu mesmo objetivo estratégico: a divisão do Iraque em vários estados -- um curdo, um sunita e outro xiita -- para enfraquecer o país árabe e facilitar o domínio imperialista na região. A mesma estratégia seria implantada na Síria, onde, felizmente, Bashar Al-Assad está vencendo a guerra e expulsando esses criminosos do heroico país árabe. Mais informações a respeito no excelente livro "A segunda guerra fria", do professor Moniz Bandeira."
 ( Claudio Daniel)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Jogo da Amarelinha

"Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do teu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensão vais deixando cair o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um só lado, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado e não me olhes com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim..."

 (Julio Cortázar, em "O Jogo da Amarelinha", cap 93)

domingo, 10 de agosto de 2014

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer.

Bertolt Brecht

MONÓLOGO


Adivinho teu corpo dentro
da noite. Soltos os cabelos
cor de areia fina, delidos
os contornos no linho do lençol.
Dormes tranquilamente. Tudo em
mim é presença tua. E, enquanto
dormes, algo de mim habita
e persiste em ti. Tu dormes
e eu espreito teu sono. Algo
de fluido nos liga e envolve.
Vejo-te lucilar na noite,
teus longos inteiriçados membros
fremindo. Momento breve que perdura.
Depois acordas cinzenta,
banhada em pranto,
oferecendo o perfil suave
ao beijo morno de um céu
onde a aurora se demora.

Rui Knopfli

Dentes


Os dentes, porque são dentes,
iniciais. Na espuma,
porque não são saliva
estas ondas
pouco mordentes; este
sal que sobe quase
doce; donde?
Numa espécie
de fogo: amor é fogo
que arde sem se ver;
porque não é
de facto fogo este frio aceso;
da saliva à lava
passa pela espuma.
Só os dentes.
Duros, ácidos, concentram-se
tacteando a pele,
tatuando signos sempre
moventes
de fúria. Mordida
a pele cintila; espelho
dos dentes, do seu esmalte voraz;
suavemente.

Carlos de Oliveira, in 'Pastoral'

Carlos Oliveira (Belém do Pará, 10 de Agosto de 1921 — Lisboa, 1 de Julho de 1981), escritor.
Nascido no Brasil,filho de imigrantes, veio aos dois anos para Portugal. A família fixa-se em Cantanhede, mais precisamente na vila de Febres, onde o pai exercia medicina. Em 1933 muda-se para Coimbra, onde permanece durante quinze anos, para estudar. Em 1941 ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estabelece amizade com Joaquim Namorado, João Cochofel e Fernando Namora. Em 1947 licencia-se em Ciências Histórico-Filosóficas, instalando-se definitivamente em Lisboa.
Data de 1942 o seu primeiro livro de poemas, intitulado "Turismo", que integra a colecção poética de 10 volumes do "Novo Cancioneiro", iniciativa colectiva que, assinala o advento do movimento neo-realista. Porém, em 1937, já publicara, um pequeno livro de contos "Cabeças de Barro". Em 1943 publica o seu primeiro romance, "Casa na Duna",. No ano de1944 surge o romance "Alcateia", que viria a ser apreendido pelo regime.
Os anos seguintes serão, para Carlos de Oliveira, bem profícuos quanto à integração e afirmação no grupo que veicula e auspera por um novo humanismo, com a participação nas revistas Seara Nova e Vértice, além da colaboração no livro de Fernando Lopes Graça "Marchas, Danças e Canções", uma antologia de vários poetas, musicadas pelo maestro.
Em 1953 publica "Uma Abelha na Chuva", o seu quarto romance e, unanimemente reconhecido, uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do século XX, adaptado ao cinema por Fernando Lopes.
Em 1957 organiza, com José Gomes Ferreira, os Contos Tradicionais Portugueses, alguns deles posteriormente adaptados ao cinema por João César Monteiro.

Segue-se: "Sobre o Lado Esquerdo" e "Micropaisagem" (poesia), "O Aprendiz de Feiticeiro", colectânea de crónicas e artigos, e "Entre Duas Memórias

Entrevista com a socióloga Eva Illouz

Publicado no Unisinos.

Israel se retirou da Faixa de Gaza na terça-feira (5), mas deixou para trás morte e destruição. A socióloga israelense Eva Illouz diz à “Spiegel” que seu país está tomado pelo medo e está cada vez mais suspeitando da democracia.

Houve amplo apoio em Israel à operação na Faixa de Gaza, apesar dos números imensos de vítimas civis e a morte de centenas de crianças. Por que isso?

Onde você vê seres humanos, os israelenses veem inimigos. Diante dos inimigos, você cerra fileiras, se une no temor por sua vida, e você não pensa na fragilidade do outro. Israel tem uma autoconsciência esquizofrênica, dividida: ela cultiva sua força e não consegue deixar de se ver como fraca e ameaçada. Além disso, tanto o fato de o Hamas nutrir uma ideologia radical islâmica e antissemita quanto a existência de um racismo raivoso antiárabe em Israel explicam por que os israelenses veem Gaza como um baluarte de terroristas reais ou potenciais. É difícil ter compaixão por uma população vista como ameaçando o coração de sua sociedade.

Isso também se deve ao fato de a sociedade israelense estar se tornando cada vez mais militarista?

Israel é ao mesmo tempo um poder militar colonial, uma sociedade militarizada e uma democracia. O Exército, por exemplo, controla os palestinos por uma vasta rede de ferramentas coloniais, como postos de controle, tribunais militares (governados por um sistema legal diferente do sistema israelense), concessão arbitrária de licenças de trabalho, demolição de casas e sanções econômicas. É uma sociedade civil militarizada porque quase toda família tem um pai, filho ou irmão no Exército e porque os militares exercem um papel enorme na formação da mentalidade dos israelenses comuns e são cruciais tanto nas decisões políticas quanto na esfera pública. Na verdade, eu diria que “segurança” é o conceito primordial que guia a sociedade e a política israelense. Mas também é uma democracia, que concede direitos aos gays e possibilita ao cidadão processar o Estado.

Mesmo assim, muitos diriam que Israel foi longe demais nesta guerra contra o Hamas.

Eu acho que os israelenses perderam o que podemos chamar de “sensibilidade humanitária”, a capacidade de se identificar com o sofrimento de um outro distante. Em Israel, ocorreu uma mudança na percepção do “outro palestino”. O palestino se transformou em um verdadeiro inimigo na percepção dos israelenses, no sentido de que “eles estão ali” e “nós estamos aqui”. Eles deixaram de ter um rosto e mesmo um nome.

Você tem uma explicação para a mudança?

Israelenses e palestinos antes se misturavam. Eles trabalhavam como operários de construção e como mão de obra barata, mal paga. O muro foi construído. Vieram os bloqueios de estrada, que impediram a liberdade de movimento dos palestinos. A redução imensa nas licenças de trabalho veio em seguida. E em poucos anos os palestinos desapareceram da sociedade israelense. A Segunda Intifada colocou um prego nesse caixão, por assim dizer. A natureza da liderança israelense também mudou. A direita messiânica ganhou progressivamente poder em Israel. Ela costumava ser marginal e ilegítima; agora é cada vez mais popular. Essa direita radical ocupa cadeiras no Parlamento, controla orçamentos e mudou a natureza do discurso. Muitos israelenses não entendem a natureza radical da direita em Israel. Ela se disfarça com sucesso como sendo “patriótica” ou “judaica”.

Por que a direita é tão forte no momento, apesar de haver bem menos ataques terroristas em Israel do que no passado?

Gerações inteiras foram criadas com os territórios, com Israel sendo um poder colonial. Elas não conhecem outra coisa. Você tem os assentamentos que são altamente ideológicos. Eles expandiram e entraram na vida política israelense. Os assentamentos foram fortalecidos por meio de políticas de governo sistemáticas: eles recebem incentivos fiscais; eles contam com soldados para protegê-los; eles contam com estradas e infraestrutura muito melhores do que no restante do país. Há segmentos inteiros da população que nunca conheceram uma pessoa secular e foram educados religiosamente.

Alguns desses segmentos religiosos também são muito nacionalistas. A realidade que enfrentamos dentro de Israel é que devemos escolher entre liberalismo e o judaísmo, e se escolhermos o judaísmo, estamos condenados a nos tornarmos uma Esparta religiosa, o que não será sustentável. Enquanto nos anos 60 era possível ser tanto socialista quanto sionista, hoje não é possível, por causa das políticas e da identidade de Israel. E há o papel que os judeus que vivem fora de Israel exercem em Israel. Muitos desses judeus têm pontos de vista de direita e contribuem com dinheiro para jornais, centros de estudos e instituições religiosas dentro de Israel. Vamos encarar: a direita tem sido mais sistemática e mais mobilizada, tanto dentro quanto fora de Israel.
Ampliar

Os judeus na diáspora veem Israel de modo diferente dos judeus em Israel?

Os judeus da diáspora foram moldados pela memória do Holocausto. Eles costumam viver em sociedades nas quais seus próprios direitos democráticos são garantidos. Às vezes estão sob ataque do antissemitismo e, portanto, sentem um ímpeto de reforçar a identidade judaica. Eles não entendem a aflição dos israelenses que veem a democracia sendo progressivamente devorada por forças sombrias. Hoje, os judeus da diáspora e os judeus em Israel não têm mais os mesmos interesses.

O que acontecerá se os princípios democráticos continuarem ruindo?

Há um ou dois anos, o jornal “Haaretz” realizou uma pesquisa que apontou que 40% das pessoas disseram estar considerando deixar Israel. Eu não sei os números reais, mas nunca soube de tamanha alienação em relação a Israel como durante esse período. As pessoas que vivem na secular Tel Aviv têm muito menos em comum com seus pares religiosos em Jerusalém do que com as pessoas que vivem em Berlim.

israel tacismo

Você descreve um país temeroso e ansioso.

O medo está profundamente entranhado na sociedade israelense. O medo do Holocausto, o medo do antissemitismo, o medo do Islã, o medo dos europeus, o medo do terror, o medo do extermínio. E o medo gera um tipo muito particular de pensamento, que eu chamaria de “catastrofista”. Sempre se pensa no pior cenário, não no curso normal dos eventos. Nos cenários catastrofistas, é permitido violar muito mais normas morais do que se você imaginasse um curso normal dos eventos.

Essa percepção diferente das ameaças e conflitos é problemática. Enquanto Israel se vê como vítima, o resto do mundo cada vez mais vê o país como um poder de ocupação violento.

Imagine que você seja uma menina criada por um pai muito brutal. Você desenvolveria uma suspeita “saudável” dos homens e se tornaria muito cautelosa. Se você vivesse por algum tempo em um ambiente de homens bons e carinhosos, sua suspeita relaxaria. Mas se você vivesse em um ambiente no qual alguns homens fossem muito brutais e alguns não, sua suspeita saudável se transformaria em uma incapacidade obsessiva de diferenciar entre os tipos diferentes de homens, os brutais e os carinhosos. Esse é o trauma histórico da consciência com o qual os judeus convivem. A psique israelense se tornou incapaz de fazer essas distinções.

Esse medo justifica o tipo de violência brutal imposta à população civil na Faixa de Gaza?

Claro que não. Eu só estou dizendo que o medo é central na psique israelense. Esses temores são cinicamente usados por líderes como o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ele faz os israelenses acreditarem que todos eles querem nos destruir. O Hamas quer nos destruir, a ONU quer nos destruir, a Al Qaeda e o Irã querem nos destruir. O EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) quer nos destruir. Os europeus antissemitas querem nos destruir. Esse é basicamente o filtro pelo qual o conflito com o Hamas é interpretado pelo israelense comum. Outra dimensão desse prisma é que “eles” não são seres humanos.

Os palestinos são desumanizados porque colocam seus soldados entre os civis, enviam suas crianças à luta, gastam e desperdiçam seu dinheiro na construção de túneis mortais em vez de construindo sua própria sociedade. Além da desumanização do outro, os israelenses têm um forte senso de sua própria superioridade moral. “Nós pedimos às pessoas para deixarem suas casas; nós telefonamos para elas para assegurar que os civis sejam evacuados. Nós nos comportamos de forma humana”, pensa o israelense. Um Exército com bons modos.

Mesmo assim, uma enorme onda de ódio se tornou visível em Israel nas últimas semanas. E não é direcionada apenas aos palestinos, mas também a segmentos da sociedade israelense.

Algumas normas básicas de discurso foram violadas por alguns rabinos e membros do Knesset, que não têm escrúpulos em expressar ódio pelos árabes de formas que legitimam o ódio. Isso é muito preocupante. Isso acontece porque gerações inteiras foram criadas acreditando nas posições religiosas e ultranacionalistas. Eu não acho que há mais ódio em Israel do que em alguns bolsões racistas da sociedade alemã ou francesa. Mas quando alguns palestinos cantaram recentemente nas ruas de Paris, “Morte aos Judeus”, a reação do governo do primeiro-ministro Manuel Valls foi rápida e clara. As autoridades enviaram uma forte mensagem de que há formas de discurso e de crença que são inadmissíveis. O que falta na sociedade israelense é esse tipo de forte posicionamento moral vindo de seus líderes.

Como você explica esse paradoxo –o ódio por um lado e a ênfase de Israel em seus valores liberais do outro?

Israel começou como uma nação moderna. Ela extraía sua legitimidade do fato de ter instituições democráticas. Mas também construiu instituições altamente antimodernas em seu desejo de criar uma democracia judaica, ao dar poder aos rabinos, ao criar profundas desigualdades étnicas entre diferentes grupos étnicos, como os judeus de países árabes contra judeus de descendência europeia; árabes contra judeus; judeus contra não judeus. Isso bloqueou o pensamento universalista.

Você diria que o caráter judeu do país subordinou o caráter democrático?

Sim, com certeza. Nós estamos em um ponto onde se tornou claro que o judaísmo sequestrou a democracia e seu conteúdo. Isso acontece cada vez mais quando o currículo escolar começa a ser mudado e passa a enfatizar mais conteúdo judeu e menos conteúdo universal; quando o Ministério do Interior expulsa trabalhadores estrangeiros porque membros do partido Shas temem que não judeus possam se casar com judeus; quando direitos humanos são pensados como sendo uma ideia esquerdista, porque os direitos humanos pressupõem que judeus e não judeus são iguais.

Isso não soa particularmente encorajador.

A única resposta é a criação de um vasto campo de pessoas que defendam a democracia. A divisão direita-esquerda não é mais importante. Há algo mais urgente agora: a defesa da democracia. A voz da extrema direita está muito mais alta e clara do que antes. Isso é que é novo: uma direita racista que não tem vergonha de si mesma, que persegue os dissidentes e até mesmo as pessoas que ousam expressar compaixão pelo outro lado. O verdadeiro perigo para Israel e sua sustentabilidade vem de dentro. Os elementos fascistas e racistas não são uma ameaça menor à segurança do que os inimigos externos.


sábado, 9 de agosto de 2014

Muchas veces me ha sucedido, como crítico en ejercicio, que escritores disconformes con lo que he dicho (o escrito) acerca de su obra me lo hagan saber con cierto disgusto. Pero, en la mayoría de los casos, lo que sucede es que ellos consideran que la literatura -la poesía, casi siempre- es una forma de expresión utilitaria, funcional, como cualquier otra. No parecen (o no quieren) entender que el quid de la cuestión reside en que la escritura poética -para serlo- ha de movernos a mover la realidad con una dimensión siempre mayor, que no basta con comunicar algo inmediatamente identificable, o que se pueda explicar de una vez, y ya...Es el gran error de nuestro tiempo dejar que la obra literaria se limite a decir lo que dice, y del modo más convencional posible, creyendo que este oficio de la palabra debe ceder también a ese concepto equivocadamente democrático de la trivialización del pensamiento y de la propia creación literaria. No es comunicación lo que habremos de pedirle, sino que se establezca como un espacio de comunión que, como sabemos, quiere identificación colectiva en lo mismo, unión en una experiencia común de existencia, donde ni lugar ni tiempo históricos -por ser transitorios- signifiquen nada: se trata de una convocación del espíritu -aliento, respiración- en el cual, como seres humanos, nos reconocemos".


Jorge Rodríguez Padrón.

Ofelia



Arthur Rimbaud
                                  I
En las aguas profundas que acunan las estrellas,
blanca y cándida, Ofelia flota como un gran lilio,
flota tan lentamente, recostada en sus velos...
cuando tocan a muerte en el bosque lejano.

Hace ya miles de años que la pálida Ofelia
pasa, fantasma blanco por el gran río negro;
más de mil años ya que su suave locura
murmura su tonada en el aire nocturno.

El viento, cual corola, sus senos acaricia
y despliega, acunado, su velamen azul;
los sauces temblorosos lloran contra sus hombros
y por su frente en sueños, la espadaña se pliega.

Los rizados nenúfares suspiran a su lado,
mientra ella despierta, en el dormido aliso,
un nido del que surge un mínimo temblor...
y un canto, en oros, cae del cielo misterioso.

                             II

¡Oh tristísima Ofelia, bella como la nieve,
muerta cuando eras niña, llevada por el río!
Y es que los fríos vientos que caen de Noruega
te habían susurrado la adusta libertad.

Y es que un arcano soplo, al blandir tu melena,
en tu mente transpuesta metió voces extrañas;
y es que tu corazón escuchaba el lamento
de la Naturaleza -son de árboles y noches.

Y es que la voz del mar, como inmenso jadeo
rompió tu corazón manso y tierno de niña;
y es que un día de abril, un bello infante pálido,
un loco miserioso, a tus pies se sentó.

Cielo, Amor, Libertad: ¡qué sueño, oh pobre Loca!
Te fundías en él como nieve en el fuego;
tus visiones, enormes, ahogaban tu palabra.
-Y el terrible Infinito espantó tu ojo azul.

                             III

Y el poeta nos dice que en la noche estrellada
vienes a recoger las flores que cortaste,
y que ha visto en el agua, recostada en sus velos,
a la cándida Ofelia flotar, como un gran lis.


Biblioteca Digital Ciudad Seva

La madre del monstruo

Máximo Gorki

Día tórrido. Silencio. La vida está como cristalizada en un luminoso remanso. El cielo contempla a la tierra con mirada límpida y azul por la pupila resplandeciente del sol.
El mar se diría forjado en metal liso y azuloso. En su inmovilidad, las barcas policromas de los pescadores parecen soldadas al hemiciclo tan esplendoroso como el cielo... Moviendo apenas las alas, pasa una gaviota, y en el agua palpita otra más blanca y más bella que la que hiende al aire.

El horizonte aparece confuso. Entre la bruma, se vislumbra un islote violáceo, del que no se sabe si flota dulcemente o si se derrite bajo el calor. Es una roca solitaria en medio del mar, espléndida gema del collar que forma la bahía de Nápoles.

El pétreo islote, erizado de cresta y aristas, va descendiendo hasta el agua. Su aspecto es imponente, y tiene la cima coronada por la marca verdeoscura de un viñedo, de los naranjos, de los limoneros y de las higueras, y por las menudas hojas de color de plata oxidada de los olivos. Entre este torrente de verdor que se desborda hacia el mar sonríen unas flores blancas, áureas y rojas, y los frutos anaranjados y amarillos hacen pensar en las noches sin luna y de firmamento sombrío.

El silencio reina en el cielo, en el mar y en el alma.

Entre los jardines serpentea un angosto sendero, por el que una mujer se dirige hacia la orilla. Es alta. Su vestido negro y remendado está descolorido por el uso. Su pelo brillante forma como una diadema de ricitos sobre la frente y las sienes, y es tan encrespado que no es posible alisarlo. De su rostro enjuto impresiona la mezcla de rudeza y austeridad. Hay en estas facciones algo profundamente arcaico; al tropezar con la mirada fija y sombría de sus ojos, se piensa sin querer en los ardientes orientales, en Débora y en Judit.

Anda con la cabeza agachada, haciendo calceta; el acero de las agujas brilla entre sus dedos. El ovillo de lana está oculto en una de sus faltriqueras, pero se diría que el hilo rojo sale de su pecho. El camino es sinuoso y los pedruscos crujen y resbalan a su paso. Sin embargo, la vieja sigue bajando con la misma seguridad que si sus pies viesen el sendero.

He aquí la historia de esta mujer.

Poco después de su matrimonio con un pescador, su marido salió un día a la faena y no regresó. La mujer estaba grávida.

Apenas nació el niño, ella procuró mantenerlo siempre oculto de la gente. Nunca la vieron con él en la calle, al sol, para glorificarse con su hijo, como suelen hacer todas las madres; antes al contrario, lo tenía envuelto en harapos, en un rincón de su choza.

Durante mucho tiempo ningún vecino pudo ver del niño más que la cabezota y los inmensos ojos inmóviles en la cara amarillenta. Advirtieron asimismo que la madre, que antaño había luchado a brazo partido contra la miseria, llena de alegría, infatigablemente, que sabía comunicar valor a los demás, se mostraba ahora taciturna y parecía estar siempre meditando, con el ceño fruncido, como si contemplase el mundo a través de un velo de dolor, con mirada extraña e interrogadora.

Sin embargo, no pasó mucho tiempo sin que todos se enterasen de su desgracia. El niño había nacido contrahecho, y esa era la causa de la pesadumbre de la madre y el motivo de que lo ocultase de la gente.

Entonces los vecinos, condolidos, le dijeron que comprendían el dolor de una madre que da a luz a un hijo anormal, pero que nadie, salvo la Madona, sabía si aquella prueba era un castigo, y que el niño, de todos modos, no debía ser privado de la luz del sol.

Ella prestaba oídos a la gente y les mostraba a su hijo. Tenía éste unas piernas y unos bracitos en extremo cortos, como aletas de pez; la cabeza, hinchada como una bola, se sostenía a duras penas sobre el cuello delgaducho y endeble; el rostro estaba todo surcado de arrugas; tenía los ojos turbios y la boca hendida por una sonrisa inexpresiva.

Al mirarlo, las mujeres lloraban y los hombre se retiraban mohínos, con una mueca de desdén. La madre del monstruo se sentaba en el suelo, y ora bajaba la cabeza, ora la levantaba y miraba a todos, como preguntando algo que nadie podía comprender.

Los vecinos construyeron para el engendro una caja semejante a un ataúd; lo llenaron de vellones de lana, colocaron en ella al pequeño monstruo y los pusieron en un rincón del patio. Tenían la esperanza de que el sol, hacedor de milagros, haría uno más.

Pero fue transcurriendo el tiempo y el monstruo seguía siéndolo: una cabezota enorme, un largo tronco y unos atrofiados muñones. Únicamente su sonrisa iba adquiriendo una expresión más y más definida de insaciable glotonería. En la boca surgieron dos hileras de agudos dientes, y los cortos y deformes brazos se adiestraron en coger los trozos de pan y llevarlos, sin equivocarse nunca, a la ávida bocaza.

Era mudo, pero cuando alguien comía cerca o cuando olía alimento, abría el hocico y empezaba a dar unos mugidos roncos y a menear como un loco la cabezota, mientras el blanco mate de los ojos se le cubría de venillas sanguinolentas.

Comía mucho, cada día más; su mugido se hizo persistente. La madre trabajaba sin cesar, pero su ganancia era exigua y a veces nula. No se quejaba de su suerte, y si aceptaba alguna ayuda, era de mala gana y sin despegar los labios. Cuando estaba fuera, los vecinos, cansados del constante mugir del monstruo, corrían a meterle en la boca mendrugos, frutas, legumbres y cuanto comestible tenían a mano.

-¡Te va a comer viva! -decían a la madre-. ¿Por qué no lo llevas a un asilo?

-No quiero oír hablar de eso -contestaba la pobre mujer-. Soy su madre. Yo lo traje al mundo y yo he de ganar el sustento para él.

Como aún era hermosa, más de uno quiso hacerse amar por la desdichada, pero no obtuvo el menor éxito. A uno, precisamente a aquel hacia quien se sentía más inclinada, le dijo un día:

-No puedo ser tu esposa. Tengo miedo de engendrar otro monstruo. Tú mismo te avergonzarías. ¡No, vete!

El hombre insistió, recordándole que la Madona hacía justicia a las madres y las consideraba como hermanas suyas. Pero ella exclamó:

-¡Ay! No sé de qué puedo ser culpable, pero se me castiga con crueldad.

El pretendiente suplicó, lloró, se enfureció; pero la mujer no cedió.

-Me da miedo -decía-. He perdido la fe en mi destino...

El hombre se marchó muy lejos, y no regresó nunca.

Durante muchos años, la pobre madre estuvo llenando aquella boca sin fondo que engullía sin cesar. El monstruo comía todo el fruto del trabajo materno, la sangre, la vida de la desgraciada mujer. La cabeza, cada vez más desarrollada, era horrible. Semejaba un globo a punto de desprenderse del atrofiado cuello para elevarse por el aire, tras haber topado contra las esquinas de las casas.

Todos los que pasaban por la calle y miraban hacia el patio, se detenían estupefactos, estremecidos, sin atinar a comprender qué era aquello. La caja estaba adosada a un muro por el que se enredaba una parra, y de su interior surgía la cabeza del monstruo.

El amarillento rostro estaba surcado de arrugas; los pómulos eran salientes; los ojos mates, desencajados, casi salían de las órbitas.

Aquella horrenda imagen se quedaba fija largo tiempo en la memoria. La gran nariz, achatada, vibraba y se estremecía; los labios, al moverse, dejaban al descubierto unos dientes carniceros, y a cada lado del globo surgían dos desmesuradas orejas que parecían tener vida propia e independiente... Aquel horripilante mascarón estaba rematado por un manojo de pelos negros y rizados como los de un africano.

Casi siempre se le veía con un pedazo de cualquier cosa comestible en la mano diminuta y breve como la patita de una lagartija.

Entonces inclinaba la cabeza y mascaba con gran ruido, sorbiéndose los mocos, y los ojos se le movían hasta fundirse en una mancha turbia y sin fondo sobre la pálida faz, cuyas contracciones semejaban las de la agonía. Cuando tenía hambre, alargaba el cuello y abría la boca enrojecida, de la que salía una delgada lengua de víbora para mugir con acento imperativo.

La gente se marchaba santiguándose y musitando una oración.

Aquello les recordaba todos los dolores y desgracias que les había deparado la vida.

Un herrero, hombre viejo y de carácter melancólico, repetía a menudo:

-Cuando veo esa bocaza que se lo traga todo, se me ocurre que mi fuerza ha sido también devorada por algo, no sé qué, pero que se le parece mucho. Y pienso que todos nosotros vivimos y morimos para mantener parásitos.

Aquella cara enmudecida suscitaba en todas las conciencias ideas tristes y sentimientos de espanto.

La madre escuchaba los comentarios de sus vecinos sin despegar los labios. Sus cabellos encanecieron prematuramente y las arrugas se fueron extendiendo por su rostro. Hacía ya tiempo que había perdido el hábito de reír. No ignoraban los vecinos que la infeliz se pasaba las noches enteras a la puerta de su casa mirando al cielo, como si esperase que de allí pudiera llegar el socorro. Y se decían unos a otros, encogiéndose de hombros:

-¿Qué debe estar esperando?

Terminaron por aconsejarle:

-¡Llévalo a la plaza, junto a la iglesia! Por allí pasan los extranjeros y le echarán limosna.

-Sería horrible que lo vieran los extranjeros -contestó la madre, horrorizada-. ¿Qué pensarían de nosotros?

-La desgracia existe en todos los países -le contestaron-, cosa que nadie ignora.

La madre negó con un movimiento de cabeza.

Cierto día, ocurrió que unos extranjeros visitaban el pueblo y lo husmeaban todo, entraron en el patio y se fijaron en el monstruo, que estaba metido en su caja. La madre fue testigo de sus gestos de repugnancia y comprendió que hablaban con repulsión de su hijo. Pero lo que más la sorprendió fueron ciertas palabras pronunciadas con acento de desprecio y animosidad y, también, de triunfo.

La desgraciada mujer conservó en la memoria el sonido de aquellas palabras extranjeras, que repetía insistentemente y en las que su corazón de italiana y de madre adivinaba un significado insultante. Aquel mismo día fue a casa de un adivino conocido suyo y le preguntó qué significaban las palabras que había oído.

-Convendría saber quién las ha pronunciado -contestó el hombre, frunciendo el ceño-. Pues significan: "Italia muere antes que las demás naciones italianas". ¿Quién forja semejantes mentiras?

La pobre mujer se marchó silenciosa.

Al día siguiente, a consecuencia de un hartazgo, su hijo murió entre convulsiones.

La madre se sentó en el patio, junto a la caja, con las manos cruzadas sobre aquella cabeza inerte. Permanecía quieta, inmóvil, y parecía más que nunca esperar algo. Fijaba la mirada interrogante en cada uno de los que desfilaban ante el cadáver.

Todos guardaron silencio. Nadie le preguntó nada, aunque muchos se sentían inclinados a felicitarla por haberse liberado de aquella esclavitud, o tal vez hubieran deseado consolarla por haber perdido al que, después de todo, era su hijo. Pero nadie despegó los labios. Hay momentos en que todos comprenden que ciertas cosas no pueden expresarse sin que parezcan reticencias.

Mucho tiempo después de la muerte del monstruo, la madre seguía mirando a la gente a la cara, como si preguntase no se sabe qué. Pero luego, poco a poco, pareció ir olvidándolo todo...

FIN


Biblioteca Digital Ciudad Seva

quarta-feira, 30 de julho de 2014

‘Lección sobre la lección


Enlace: https://anonfiles.com/file/f5f9683c8c80ff2924d2a92c1a9a57bd

En esta lección inaugural con ocasión de su ingreso en el Collége de France, en 1982, Pierre Bourdieu impartió una suerte de metalección («lección sobre la lección inaugural de sociología consagrada a la sociología de la lección inaugural») en la que dejó muy clara su noción de la sociología : no una ciencia descriptiva de la sociedad, sino una interrogación acerca de la «violencia simbólica» con que se «trata de imponer la verdad parcial de un grupo como la verdad de las relaciones objetivas entre los grupos». Así, la sociología es, ella misma, objeto de su propia labor de investigación: «en la sociología, tal como yo la concibo, todas las proposiciones que esta ciencia enuncia pueden y deben aplicarse al sujeto que hace la ciencia» . Para Bourdieu, el sociólogo es una especie de policía del capital simbólico, que permanece atento a los engaños que la cultura establecida siempre querrá imponer; por eso su labor no puede no ser política: se tratará de detectar en qué momento el racismo, la demagogia o el populismo aparecen en el discurso del periodista, del ministro, del libro de texto. En este sentido, Bourdieu rinde homenaje a Marx, «fundador de la sociología del conocimiento», y a Foucault, quien forma parte de «la gran tradición de epistemología histórica», de la que también participa Canguilhem. Bourdieu agrega, en esa senda, que «no hay crítica epistemológica sin crítica social». Un texto que puede ser una excelente introducción a la obra de Bourdieu y también, para los iniciados, un documento histórico a la par que un interesante resumen de las ideas esenciales del autor a mediados de su carrera intelectual.



 PIERRE BOURDIEU
Todos os anos exterminamos comunidades indígenas, milhares de hectares de florestas e até inúmeras palavras das nossas línguas. A cada minuto extinguimos uma espécie de aves e alguém em algum lugar recôndito contempla pela última vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz não se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma espécie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projeto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a única coisa que nos distancia na realidade dos animais é a nossa capacidade de esperança. Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder econômico. Sempre me pareceu incrível que uma sociedade tão pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstratas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efêmeras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade...


José Saramago, in 'Revista Universidad de Antioquia (2001)'

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Passageiros entre palavras fugazes


(Mahmud Darwish)

Carreguem os vossos nomes e vão-se embora,
Cancelem as vossas horas do nosso tempo e vão-se embora,
Levem o que quiserem do azul do mar
E da areia da memória,
Tirem todas as fotos que vos apetecer para saberem
O que nunca saberão:
Como as pedras da nossa terra
Constroem o tecto do céu.
Passageiros entre palavras fugazes:
Vocês têm espadas, nós o sangue,
Têm o aço e o fogo, nós a carne,
Têm outro tanque, nós as pedras,
Têm gases lacrimogéneos, nós a chuva.
Mas o céu e o ar
São os mesmos para todos.
Levem uma porção do nosso sangue e vão-se embora,
Entrem na festa, jantem e dancem...
Depois vão-se embora
Para nós cuidaremos das rosas dos mártires
E viveremos como queremos.
Passageiros entre palavras fugazes:
Como poeira amarga, passem por onde quiserem, mas
Não passem entre nós como insectos voadores
Porque temos guardada a colheita da nossa terra.
Temos trigo que semeámos e regámos com o orvalho dos nossos corpos
E temos aqui o que não vos agrada:
Palavras e pudor
Se quiserem, levem o passado ao mercado de antiguidades
E devolvam o esqueleto à poupa
Numa travessa de porcelana.
Temos o que não vos agrada: o futuro
E o que semeamos na nossa terra.
Passageiros entre palavras fugazes:
Amontoem as vossas fantasias numa
Sepultura abandonada e vão-se embora,
Devolvam os ponteiros do tempo à lei do bezerro de ouro
Ou ao horário musical do revólver
Porque aqui temos o que não vos agrada.
Vão-se embora
E temos o que não vos pertence:
Uma pátria e um povo exangue,
Um pais útil para o olvido e para a memória.
Passageiros entre palavras fugazes:
É hora de vocês se irem embora.
Fiquem onde quiserem, mas não entre nós.
É hora de se irem embora
Para morrerem onde quiserem, mas não entre nós
Porque nós temos trabalho na nossa terra
E aqui temos o passado,
A voz inicial da vida,
E temos o presente e o futuro,
Aqui temos esta vida e a outra.
Vão-se embora da nossa terra,
Da nossa terra, do nosso mar,
Do nosso trigo, do nosso sal, das nossas feridas,
De tudo... vão-se embora
Das recordações da memória,
Passageiros entre palavras fugazes

Israel e a questão Palestina

Ricardo Costa de Oliveira
Muito ruim a posição do governo de Israel. Lembremos que os judeus sem amigos causaram a sua expulsão de Portugal e posteriormente também do Brasil, depois que perderam a guerra com os holandeses, em 1654. Desproporcional foi o Brasil ter recebido milhares de judeus fugidos do nazismo alemão. Desproporcional foi Osvaldo Aranha ter contribuído decisivamente na criação de Israel pela ONU. Podemos percorrer 4.000 km em linha reta dentro do nosso país porque somos gigantes. O massacre em massa de crianças e mulheres é um genocídio e sempre será condenado pela maioria dos países.
Sergio Amaral E pela primeira vez na história o Brasil retira seu embaixador ...para consultas ...Inadimissível a frieza do governo sionista...
Ricardo Costa de Oliveira
Gutenberg Alves Fortaleza Teixeira Mais uma vez Ricardo Costa de Oliveira, foi lúcido e correto, sem se prender as paixões!! Para resolver qualquer problema devemos abandonar uma opinião subjetiva e buscar com base na racionalidade a lógica que se planteia...
Maria Marce Moliani Concordo com sua colocação Ricardo Costa de Oliveira e achei muito acertada a decisão de chamar o Embaixador depois da resposta ofensiva de Israel ao Brasil. Nas relações internacionais o Brasil sempre se posicionou firmemente agressivas e de desrespeito por parte de nações mais poderosas e por isso é um membro respeitado na ONU. Acho que é o momento de nos posicionarmos firmemente a respeito da criação do Estado Palestino e os argumentos que foram usados para a criação de Israel se aplicam perfeitamente para a criação desse Estado.
Drelenay Prado Mafra Oi Ricardo, não sei se entendi ou confundi o trecho de seus post em que fala sobre "os judeus sem amigos causaram a sua expulsão de Portugal e depois do Brasil, depois que perderam a guerra com os holandeses em 1654." Nesse período e até o Século XIX ainda havia a questão da Inquisição, e ficava em Portugal ou no Brasil, quem se tornava Cristão-Novo, pagava para ficar no lugar ou então, ia para outro país cumprir alguma função e olha que muitos perdiam tudo ou se não perdiam, pagavam impostos altos. E olha que não havia tantos pobres entre eles. https://www.youtube.com/watch?v=fBsemwK4DJc Este link mostra um vídeo de um Rabino a explicar a situação sobre o que está a acontecer no Estado de Israel e explica a diferença entre Judaísmo Ortodoxo e o Judaísmo Sionista. Acho útil!
Judeus Contra Sionismo, Contra a Opressão do Estado Israelita
Rabino Dovid Weiss fala sobre o roubo da imagem publica da religião Judaica pelo sinistro movimento ateu, o Sionismo, primeira fonte de anti-semitismo no mun...
Drelenay Prado Mafra Salmo, eu não fiz pra enfeitar. Eu partilhei algo que um Rabino judeu julgou ser necessário falar. E sinto te dizer, mas tenho parentes e amigos que pertenceram ou pertencem ao Judaísmo. Então, eu digo e afirmo, eles também dizem o mesmo, que o verdadeiro judeu, tal como o cristão ou outro religioso que entende a espiritualidade da fé e da religião que escolheu, não mata. Eu nenhum momento falei que o Estado de Israel era assim ou assado. Pelo jeito você não viu o vídeo, eles diz que há pessoas judias que têm um outro tipo de idéia e distorcem a sua religião e os conceitos que lhe pertencem. Como um cristão do Século XV ou os de agora que por achar que os outros eram ou são um nada, condenam e fazem palhaçadas ou barbaridades a partir disto. Então, por favor. Comente a sua opinião, mas não me inclua em seus comentários, porque eu quis trocar uma idéia com o Prof. Ricardo e não com você. Obrigada de qualquer forma.
Ricardo Costa de Oliveira Salmo, A Resolução S21 aprovada pela maioria dos países no Conselho de Direitos Humanos da ONU é correta. Eu não tenho nenhuma simpatia, afinidade ou cumplicidade com governos assassinos como os descritos na resolução. Quem apóia este tipo de violência militar contra crianças e mulheres está cada vez mais isolado politicamente no mundo e no Brasil. 21st special session of the Human Rights Council on the human rights situation in the Occupied Palestinian Territory, including East Jerusalem - 23 July 2014 http://www.ohchr.org/.../Pages/21stSpecialSession.aspx21st Special Session
www.ohchr.org
Office of the High Commissioner for Human Rights
Ricardo Costa de Oliveira "O comitê de Aécio Neves deu aval à posição do Itamaraty contra a ofensiva de Israel na faixa de Gaza. Responsável pelo programa de política externa do tucano, o embaixador Rubens Barbosa concorda com o governo nas críticas à "desproporcionalidade" dos ataques israelenses. Para ele, o país deve se manter firme em favor da criação do Estado palestino e da negociação pelo fim do confronto armado. Barbosa reprovou a reação de Israel, que chamou o Brasil de "anão diplomático". http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/177601-painel.shtml
Ricardo Costa de Oliveira Concordamos neste ponto. O primeiro passo é o fim dos massacres contra a população civil. Os judeus foram expulsos de Pernambuco, em 1654, porque estavam associados com os agressores holandeses. Eles chegaram em Nieuw-Amsterdam, Nova Amsterdam, colônia holandesa tal como o Suriname e Curaçao, para onde também se deslocaram muitos judeus. Os ingleses conquistaram Nieuw-Amsterdam somente em 1664 e depois mudaram o nome para New York, Nova Iorque. http://www.brown.edu/.../John.../judaica/pages/curacao.html
Jews and the Americas
www.brown.edu
In the mid-seventeenth century, Spain was greatly concerned by the rising milita...Ver mais
Gustavo Lemos Para mim, o Brasil quer marcar território no campo diplomático com vistas a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. China e Rússia sempre vetaram essa pretensão, por considerarem nosso país alinhado com os americanos. A atitude brasileira no meu entender foi uma tentativa desastrada de quebrar essa escrita.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/177601-painel.shtml
www1.folha.uol.com.br
João Simões Lopes Filho O cerne da questão vai além da escolha do lado. A causa foram os europeus e americanos que ao recriar um país artificial baseado em fronteiras vagas de 2.000 anos antes ignorou que já existia um povo ali habitando. Para compensar os judeus pelo que eles sofreram (nas mãos dos europeus), acabou-se criando um conflito interminável. Imagina se a ONU decidisse que um país africano fosse dado para afro-americanos para que eles voltasse para uma terra de origem, expulsando os africanos do lugar para regiões pequenas e periféricas?
Salmo Raskin João Simoes, a Partilha não foi feita pelos Americanos, e não ignorou que já existia um povo ali habitando, o território foi divido em dois, um para cada Povo. A ONU, a pedido do Reino Unido, elaborou o plano de partição da área do Mandato Britânico da Palestina. O plano consistia na partição da banda ocidental do território em dois Estados - um judeu e outro árabe -, ficando as áreas de Jerusalém e Belém sob controlo internacional. 53% do território seriam atribuídos aos 700 mil judeus, e 47% aos 1 milhão e 400 mil árabes sendo desses 900 mil que imigraram durante o inicio do seculo XX e 500 mil viviam no local (antes desse acontecimento, judeus provenientes da europa ocidental e do norte da africa também já haviam imigrado a Palestina se juntando a outros poucos milhares de judeus que viviam historicamente ali , anteriormente a publicação dos Livros Brancos, e comprado 65% das terras daquela região, do antigo mandato Turco-Otomano, por isso essa proporção de terras).
João Simões Lopes O problema é que foi uma decisão arbitrária, o fato de que estes emigrantes teriam direito a ter um país próprio. Foi uma engenharia geopolítica arriscada, cujos frutos até hoje os habitantes de lá colhem, sem possamos culpa o povo judeu ou o palestino que herdou essa situação. É natural que os segmentos árabes mais radicais se opusessem a partilha, o que não justifica, é claro, a violência e o fanatismo. Para piorar o cenário existe o elemento religioso que põe pimenta na mistura: segmentos obscurantistas do fundamentalismo islâmico prontos para uma jihad sem limites, e o fundamentalismo judaico, baseando-se em limites traçados na Bíblia cuja base histórica é discutível. Só que a divisão foi feita, enfiada goela abaixo dos árabes, que partiram para a guerra, e perderam, para um adversário muito mais poderoso, e aí ficaram encurralados em métodos terroristas.
Ricardo Costa de Oliveira O João aponta importantes questões. Salmo, leia os textos com atenção. Eu marquei o começo do texto e citei o link de referência, que você utilizou. A Resolução da ONU, muito bem votada pelo Brasil, também condena os foguetes lançados contra Israel e que mataram duas pessoas. Veja o item 3. Condemns all violence against civilians wherever it occurs, including the killing of two Israeli civilians as a result of rocket fire, and urges all parties concerned to respect their obligations under international humanitarian law and international human rights law; S-21/1 Ensuring respect for international law in the Occupied Palestinian Territory, including East Jerusalem. http://www.ohchr.org/.../Pages/21stSpecialSession.aspx
21st Special Session
www.ohchr.org
Office of the High Commissioner for Human Rights
João Simões Lopes Filho Qualquer proposta de divisão territorial geraria descontentamentos, principalmente se tratando de uma divisão entre um povo já presente, e outro imigrante mais recente. Era um proposta não muito diferente da visão romântica do Lebensraum alemão, que consistiaem acreditar que a Alemanha tinha legitimidade em reclamara autoridade sobre territórios na Polônia, Tchecoslováquia, Áustria, porque fariam parte de uma idealizada pátria germânica ancestral. O mais correto teria sido dar independência à Palestina, e deixar que os judeus continuassem livremente migrando para lá. Claro que as consequência seriam imprevisíveis. Teríamos uma sociedade mista mais harmoniosa, ou mais cedo ou mais tarde o choque entre fundamentalismos descambaria para conflitos étnicos?

21st special session of the Human Rights Council on the human rights situation in the Occupied Palestinian Territory, including East Jerusalem - 23 July 2014http://www.ohchr.org/.../Pages/21stSpecialSession.aspx
https://fbexternal-a.akamaihd.net/safe_image.php?d=AQDWldgFZec-svIp&w=154&h=154&url=http%3A%2F%2Fwww.ohchr.org%2FSiteCollectionImages%2FDesign%2FEN%2Fheader_EN.jpg

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A ESTA TERRA QUE SOFRE


A esta terra que sofre,
Diminuída, mutilada,
À procura de si própria,
Perdida, abandonada.
Mas ouvi, ó portugueses,
Corruptos ou estrangeiros,
Tontos, traidores, burocratas,
Ingénuos, fanatizados,
E vós também, os fiéis
Da verdade da raiz,
Ouvi o que diz o povo,
Ouvi a voz do país.
Portugal somos ainda,
Porque a semente que outrora
Germinou em terra ingrata,
Há-de reviver agora!
Em cada volta do tempo,
De novo começa o mundo.
Juventude, redescobre
O Portugal mais profundo!
(....)
Transviados, cabisbaixos,
Levantai o vosso olhar!
Pátria antiga, que sofreste
Há mais mar, p'ra além do mar!
(...)

António Quadros

POÉTICA CONTRADITÓRIA


Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.
Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heroica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.

António Quadros


António Gabriel de Quadros Ferro, conhecido como António Quadros (Lisboa, 14 de Julho de 1923 — Lisboa, 21 de Março de 1993), filósofo, escritor, professor universitário e tradutor português.