terça-feira, 4 de março de 2014

1903: Concessão para ferrovia Constantinopla-Bagdá


No dia 5 de março de 1903, a Companhia Ferroviária da Anatólia recebeu concessão para construir uma linha ferroviária entre Constantinopla e Bagdá, integrando leste do Império Otomano e atendendo a interesses militares.

O sultão Abdel Hamid 2º havia assumido o poder em 1876, época de declínio do Império Otomano, marcada por rebeliões nos Bálcãs, guerras com a Rússia e a Grécia, perdas territoriais no Norte da África e no Oriente Médio, sem contar o crescente interesse dos europeus pelos acontecimentos na região do Estreito de Bósforo. O genocídio de milhões de armênios e outras medidas desesperadas não ajudaram o sultão a salvar o império da desintegração.
Desde 1889, o lendário Expresso do Oriente levava turistas de Viena ou Paris a Constantinopla, numa viagem de três dias. A fim de facilitar as viagens dos peregrinos muçulmanos para Meca e Medina, o sultão permitiu a ampliação do trecho ferroviário até Bagdá e o Golfo Pérsico. Logicamente, a ligação também serviria aos interesses econômicos e militares, permitindo transportar armas e tropas para as distantes fronteiras do Império Otomano.

Sonho de ligar Berlim a Bagdá

Em 1888, o sultão consultou a Alemanha sobre seu interesse em financiar o projeto. O ceticismo sobre sua grandeza logo se desfez, pois em pouco tempo desenvolveu-se o sonho de uma ligação Berlim-Bagdá. A maior parte do projeto foi financiada pelo Deutsche Bank, e a execução ficou a cargo da construtora Philipp Holzmann, de Frankfurt.
Em quatro anos, foram construídos 600 quilômetros de trilhos, até Ancara. Em 1896 e outros mais de 400 quilômetros de trilhos depois, começaram os problemas diplomáticos. Também os russos e os britânicos reconheceram a importância do projeto e tentaram evitar a influência alemã na região. Irritado com as dificuldades, em 1898 Georg von Siemens, do Deutsche Bank, ofereceu o projeto aos russos, que o recusaram.
No dia 5 de março de 1903, a concessão foi passada a um novo consórcio, criado especialmente para esse fim: a Companhia Ferroviária da Anatólia. A empresa operava conforme o direito turco, mas o maior banco alemão continuou sendo seu principal proprietário. Nessa época, já não se construiu com tanta rapidez. Os 600 quilômetros seguintes só ficaram prontos em 1914.
Reino Unido interfere
Ainda faltavam ser completados 650 quilômetros quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. A Alemanha e a Turquia eram aliadas, e o Reino Unido aproveitou a oportunidade para transferir suas tropas para o Golfo Pérsico. Os britânicos se prevaleceram dos anseios dos árabes de se libertar do Império Otomano e, além de impedir o avanço da Alemanha na região, asseguraram para si o acesso à riqueza da região: o petróleo.
Em 1917, as tropas britânicas chegaram até Bagdá e, um ano mais tarde, receberam o mandato sobre a Mesopotâmia. Turcos e alemães haviam perdido a guerra e já não se falava mais de uma ferrovia até o Golfo.
Em 1932, o Iraque conquistou a soberania em nível internacional, apesar de continuar sob influência britânica. Depois da independência em 1936, o governo iraquiano resolveu terminar a construção da ferrovia. O primeiro trem chegou a Bagdá em 15 de julho de 1940.

Peter Philipp (rw)

1841: Segunda Convenção Londrina sobre Império Otomano


No dia 13 de julho de 1841, as potências europeias assinaram um acordo que proibia navios não turcos de navegar pelos estreitos de Dardanelos e de Bósforo.

O vice-rei do Egito, Mohammed Ali, levou em duas ocasiões o Império Otomano à beira da dissolução e as grandes potências europeias a uma grave crise internacional. Em 1832, ele anexou a Síria que, como o Egito, era uma província do Império Otomano, e logo avançou com as suas tropas até as portas de Istambul.

Somente uma intervenção da Rússia salvou o governo otomano de uma derrota completa. Em consequência, a Turquia tornou-se praticamente um protetorado da Rússia, que assegurou então aos seus navios de guerra o direito de atravessar os estreitos de Bósforo e de Dardanelos, o que era tradicionalmente proibido aos outros países.

Em 1839, voltou a ocorrer um confronto militar entre o sultão e seu vassalo infiel. E, mais uma vez, Mohammed Ali conseguiu impor-se militarmente. O diplomata prussiano Helmuth von Moltke, atuante na Turquia há vários anos, constatou na época:

"Quem acompanha atentamente o desenrolar dos acontecimentos no Oriente não pode negar que o império turco precipita-se no despenhadeiro da ruína com uma velocidade cada vez maior. Considerando as consequências imprevisíveis que um desaparecimento repentino do Império Otomano na comunidade internacional geraria, não se pode censurar a política europeia, que procura adiar o máximo possível tal catástrofe."

Faltou consenso na Europa

Enquanto Prússia, Áustria, Rússia e Inglaterra concordavam que o Império Otomano deveria ser apoiado, a França tomou o partido dos rebeldes egípcios. No segundo trimestre de 1840, as cinco potências tentaram em vão encontrar uma solução, numa conferência em Londres.

Sem apoio da França, as demais quatro potências aprovaram, em julho de 1840, a primeira Convenção Londrina, dando um ultimato para o restabelecimento do poder do sultão na Ásia Menor. Mas somente a intervenção da frota inglesa é que obrigou o vice-rei egípcio à capitulação definitiva e à retirada da Síria.

O chefe do governo francês, muito indignado com essa afronta, viu-se obrigado a ameaçar as outras potências com guerra, por pressão da opinião pública. Contudo, a ameaça era militarmente pouco realista. A França não teria condições de enfrentar sozinha as quatro outras potências no campo de batalha. O rei francês Luís Felipe 1º demitiu seu chefe de governo pouco depois e cedeu na questão.

Sem a participação da Turquia

Em julho de 1841, chegou-se então a um consenso entre todas as potências europeias na Segunda Convenção Londrina, que regulava também a questão dos estreitos marítimos:

Artigo 1º: Sua Alteza o Sultão declara de sua parte que está firmemente decidido a manter no futuro o princípio básico fixo e imutável como velha regra do seu império, por força do qual é proibida em qualquer época aos navios de guerra das potências estrangeiras o cruzamento dos estreitos marítimos de Dardanelos e do Bósforo, e enquanto o governo turco encontrar-se em paz, Sua Alteza não permitirá a entrada de nenhum navio de guerra estrangeiro nos citados estreitos marítimos. E Suas Majestades o imperador da Áustria, o imperador da Rússia, o rei dos franceses, a rainha da Grã-Bretanha e o rei da Prússia unem-se para observar esta resolução do Sultão e para preservar a conformidade com o princípio básico acima mencionado…

Com isso, foi atribuído oficialmente à Turquia o papel de guardiã dos estreitos marítimos. Porém, as duas convenções londrinas, ambas aprovadas sem a participação do governo turco, deixaram uma coisa clara: o antes poderoso Império Otomano tornara-se um fantoche nas mãos das potências europeias.

Mas também as relações de força entre as grandes potências haviam se alterado. A influência russa em Istambul foi enfraquecida pelo documento; a Turquia passou a buscar cada vez mais o apoio da Inglaterra. O bom entendimento entre britânicos e franceses ficou prejudicado, e a reputação da França sofreu arranhões, por seu comportamento durante a crise.

Autoria Rachel Gessat (am)

1453: Constantinopla é tomada pelos turcos


No dia 29 de maio de 1453, as tropas do sultão Mehmed, o Conquistador, tomaram Constantinopla. Ele pretendia transformar a cidade na capital de um império otomano. Mehmed rebatizou o antigo centro da cristandade ortodoxa para Istambul. O cristianismo não foi proibido, mas a religião oficial passou a ser o islamismo.
No ano 395, o império romano se dividiu, e a sua parte oriental tornou-se o centro do poder. Sua capital era Bizâncio, um centro comercial da Antiguidade localizado no estreito de Bósforo, que foi rebatizada posteriormente como Constantinopla pelo imperador Constantino, o Grande. O círculo cultural do império bizantino era greco-romano e a religião era a cristã por imposição do imperador, convertido ao cristianismo. Isso durou mais de um milênio. Até que, em 1453, tribos turcas das estepes da Ásia Menor tomaram a cidade.
Paz enganadora
"Os osmanlis eram inicialmente bastante pacíficos e não chamaram a atenção dos bizantinos. Segundo mostram as pesquisas mais recentes, os osmanlis eram até muito úteis aos bizantinos, pois se dedicavam à pecuária e contribuíam para o abastecimento de Constantinopla", afirma o professor Peter Schreiner, professor e especialista do assunto na Universidade de Colônia.

A paz temporária era enganadora. Para uma cidade medieval, Constantinopla era gigantesca, chegando a ter 300 mil habitantes. Mas a megalópole enfraqueceu-se ao longo dos séculos e sua população caiu para apenas 30 mil habitantes. O império começava a se esfacelar.
Segundo Schreiner, "essas fragilidades foram consequência da tomada de Constantinopla pelos cruzados em 1204: o império bizantino se desfez em inúmeros pequenos impérios, cuja fraqueza militar foi notada pelos osmanlis".

Em 1453, o sultão Mehmed 2° invadiu Constantinopla. Ele sonhava com um império otomano mundial e Constantinopla deveria ser a sua capital. Mehmed logrou executar duas ações surpreendentes. Em primeiro lugar, mandou fundir um novo tipo de canhão, os maiores do mundo na época. Com eles, a muralha da cidade foi destruída.

Depois, postou 70 navios de guerra diante do porto. Numa ação noturna, praticamente "pela porta dos fundos", suas tropas levaram os navios, do mar para o porto, através de uma estreita faixa de terra. O imperador Constantino, um descendente do lendário primeiro imperador cristão, viu então sua cidade cair nas mãos dos turcos.
Kritobulos de Imbros descreveu a reação do imperador: "Quando viu que os inimigos o acuavam e entravam gloriosamente na cidade, através das brechas na muralha, ele teria dito suas últimas palavras – 'A cidade está sendo conquistada e eu ainda vivo?' E pulou no meio dos inimigos, sendo massacrado".
Islamismo torna-se religião oficial
Das metrópoles européias da época – Roma, Veneza e Gênova – não veio qualquer ajuda. Elas estavam inteiramente concentradas em suas próprias querelas, e há muito, o império bizantino tinha deixado de ser interessante. O sultão Mehmed rebatizou o antigo centro dos cristãos ortodoxos: o que inicialmente era Bizâncio, depois Constantinopla, passou a se chamar Istambul.
A religião cristã não foi proibida, mas o islamismo tornou-se a religião oficial. Logo, os símbolos cristãos nas igrejas foram substituídos por símbolos islâmicos. E é nas igrejas que se pode, ainda hoje, buscar os resquícios daquela época.
O professor Peter Schreiner afirma: "É na Hagia Sophia que se pode encontrar a maioria desses resquícios, pois foi a primeira a ser transformada em mesquita, logo depois da conquista pelos turcos. Nessa igreja existe ainda grande parte da ornamentação da época bizantina" .
O império otomano teve um apogeu que durou um século. E depois, durante cem anos, ele esfacelou-se paulatinamente. Com a Primeira Guerra Mundial, deixou de existir. Foi criada a moderna República da Turquia. O que permaneceu foi sua capital, cuja história registra os três nomes: Bizâncio, Constantinopla, Istambul.

Autoria Catrin Möderler (am)

1928: Protesto contra leilão de obras russas em Berlim


No dia 6 de novembro de 1928 houve fortes protestos dos exilados russos em Berlim contra a casa de leilões Lempe, que estava oferecendo obras de arte de museus de Leningrado e de castelos da Rússia.
 Muitas obras confiscadas pelo regime comunista foram parar no Museu Hermitage, de São Petersburgo
Muitas obras confiscadas pelo regime comunista foram parar no Museu Hermitage, de São Petersburgo
Quando o proletariado comandado por Lênin tomou o poder em Moscou em 1917, os nobres e ricos saíram do país às pressas, deixando bens, joias e obras de arte. Em pouco tempo, as riquezas confiscadas pelo Estado começaram a ser oferecidas nos catálogos de casas de leilões.
Os antigos proprietários protestaram quando as obras de arte começaram a ser oferecidas em Berlim. Segundo a historiadora Katia Terlau, provar a origem dos bens era muito complicado, pois os russos exilados na Alemanha não haviam trazido documentos que comprovassem a propriedade dos objetos.
Na década de 20, aconteceu em Berlim uma verdadeira "colonização" russa. Entre os emigrados famosos estavam escritores como Boris Pasternak, autor do romance Doutor Jivago. Quase 2 milhões de pessoas fugiram do bolchevismo. E não só aqueles provenientes da nobreza e realeza, mas também pessoas que simplesmente tinham outra convicção política.

Berlim, um dos principais destinos

O êxodo prosseguiu até a década de 40, não só para outros países da Europa, como também para a América. A França e a Alemanha, principalmente Berlim, eram os principais destinos dos russos emigrados. Em Paris, a situação chegou a ser responsável por um ditado, segundo o qual a metade dos motoristas de táxi eram príncipes russos.
Grande parte das obras confiscadas pelo regime comunista foram parar no famoso museu Hermitage, de São Petersburgo, que hoje tem 2,7 milhões de peças em seus 400 salões, distribuídos em 46 mil metros quadrados.
Mas, ainda segundo Terlau, enquanto alguns conseguiram realmente recuperar objetos de sua propriedade, outras peças acabaram mesmo sendo leiloadas.
Para evitar a repetição deste e de outros fatos, tais como o confisco de bens de judeus pelos nazistas e o do butim de guerra pelos soviéticos (que levaram obras da Alemanha a título de compensação pelas perdas durante a Segunda Guerra), uma conferência em Washington em 1998 instituiu as bases para a investigação de obras de arte de propriedade não esclarecida.

Autoria Catrin Möderler (rw)

1917: Lênin retorna à Rússia


Em 16 de abril de 1917, Lênin chega de trem à Rússia, depois de obter licença para atravessar o território alemão. Em guerra com a Rússia, os alemães queriam desestabilizar o governo russo e apressar a assinatura da paz.
Lênin em 1918
A mobilização de cerca de 13 milhões de soldados e os gastos durante a Primeira Guerra Mundial causaram uma grave crise econômica e social na Rússia. Enquanto 1,5 milhão de soldados morriam nas frentes de batalha por falta de equipamentos, alimentos e vestuário, a fome chegava às grandes cidades e gerava greves. A paralisação dos operários de Petrogrado (atual São Petersburgo), por exemplo, mobilizou cerca de 200 mil trabalhadores.
No final de fevereiro (março, no calendário ocidental), o czar Nicolau II foi derrubado e a monarquia substituída pela república parlamentar. Nessa época, formaram-se os sovietes. Eram assembléias de operários, camponeses e soldados, influenciados pela ala radical, que mais tarde originaria o Partido Comunista.
O governo provisório, de 17 de março a 15 de maio, não conseguiu debelar a crise interna e insistiu na continuação da guerra contra a Alemanha. Enquanto isso, crescia a força de Vladimir Iliitch Ulianov, conhecido como Lênin, exilado na Suíça. Ele encarava a Primeira Guerra Mundial como uma luta entre os imperialismos rivais pela partilha do mundo e desejava fazer da guerra entre nações uma guerra entre classes.
Longa parada em Berlim
Com a permissão do governo alemão para atravessar a Alemanha de trem, Lênin voltou à Rússia em abril de 1917. No dia 11, porém, seu trem passou 20 horas estacionado em Berlim. Especula-se que para contatos e negociações de representantes do Ministério alemão do Exterior com Lênin. Registros do ministério revelam que também se falou em dinheiro: 40 milhões de goldmark, a moeda alemã utilizada na época para transações financeiras. Os revolucionários prosseguiram viagem pela Suécia e pela Finlândia, chegando a Petrogrado no dia 16 de abril de 1917.
Nas suas famosas "Teses de Abril", Lênin pregou a saída da Rússia da guerra, o fortalecimento dos sovietes e o confisco das grandes propriedades rurais, com a distribuição das terras aos camponeses. O novo governo, porém, insistia na participação da Rússia na guerra e por isso perdia apoio popular.
Avisado de que seria acusado pelo governo de ser um agente a serviço da Alemanha, Lênin fugiu para a Finlândia. Em Petrogrado, os bolcheviques enfrentavam uma imprensa hostil e a opinião pública, que os acusava de traição ao exército e de organização de um golpe de Estado. Em 20 de julho, o general Lavr Kornilov tentou implantar uma ditadura militar, através de um fracassado golpe de Estado. Da Finlândia, Lênin começou a preparar uma rebelião armada.
Revolução de Outubro
A segunda revolução russa de 1917, a de Outubro (6 a 8 de novembro), marcou o triunfo definitivo do marxismo-leninismo na Rússia. Sob o comando de Lênin e Leon Trotski (1879-1940), igualmente importante no movimento, o Partido Social Democrata da Rússia tomou o poder. Lênin foi eleito pelo partido novo chefe de governo e foi constituído um Conselho de Comissários do Povo.
Trotski fundou o Exército Vermelho, vencedor da guerra civil que assolaria o país nos quatro anos seguintes, contra os contra-revolucionários, liderados pelos czaristas. O novo governo nacionalizou bancos, minas, ferrovias, as grandes propriedades rurais e as indústrias, estabeleceu a ditadura do proletariado, transferiu a capital para Moscou (12 de março de 1918) e inaugurou a política do dito "comunismo de guerra".
Após a adoção do calendário oficial, assinou um armistício com a Alemanha, conhecido como Paz de Brest-Litovsk, em 3 de maio de 1918. O tratado trazia enormes desvantagens para a Rússia, com as perdas territoriais da Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia e Ucrânia, além de pagar uma pesada indenização em ouro e trigo à Alemanha.
Naquele ano, após tentativas de obter asilo em outros países, inclusive na Inglaterra, onde os soberanos eram seus primos, o último czar, Nicolau Romanov, a imperatriz Alexandra e seus filhos foram fuzilados por ordem do governo soviético.

DW.DE

1918: Desapropriação da Igreja Ortodoxa russa


No dia 23 de janeiro de 1918, Lênin publicou um decreto que encerrava todas as ligações entre a Igreja Ortodoxa e o Estado. Os bens da Igreja foram desapropriados, o ensino de religião foi proibido.

Em 23 de janeiro de 1918, menos de três meses depois da Revolução de Outubro, Lênin publicou o decreto intitulado "Sobre a separação entre a Igreja e o Estado e entre a Escola e a Igreja".
Ele foi divulgado exatamente quando se realizava o concílio nacional da Igreja Ortodoxa, com o qual ela pretendia libertar-se da tutela estatal da época czarista, restabelecendo o Patriarcado. O concílio não desejava, naturalmente, uma libertação leiga, que alijasse a Igreja da sociedade, transformando-a em instituição privada. Por isso, protestou contra o decreto de Lênin, mas sem qualquer resultado.
Assim, a Igreja Ortodoxa teve de resignar-se dali em diante com o fato de que só possuía liberdade de culto, enquanto não perturbasse a ordem pública e enquanto os fiéis não deixassem de cumprir seus deveres cívicos. O ensino de religião foi abolido nas escolas públicas; os bolcheviques queriam erigir um sistema estatal ateísta, de acordo com o materialismo dialético. Mas, sobretudo, foram desapropriados os imóveis e terrenos da Igreja, seus templos e prédios – tudo foi incluído no rol do patrimônio popular. Desta maneira, foi retirada da Igreja a base material da sua existência.
Segundo o decreto de Lênin, todas as comunidades religiosas perderam os direitos de pessoa jurídica, não podendo ter propriedades, nem receber qualquer tipo de ajuda estatal. Embora as demais Igrejas também fossem atingidas pelo decreto, elas consideraram justo o corte de privilégios dos ortodoxos que antes constituíam praticamente uma Igreja estatal. Mas, no fundo, todos os direitos da Igreja foram abolidos.
Consequências da privatização da Igreja
O arcebispo Longin, representante permanente do patriarca de Moscou na Alemanha, descreveu da seguinte maneira as consequências dessa privatização da Igreja: "Durante o domínio comunista, as pessoas não podiam demonstrar abertamente que eram integrantes da Igreja. Elas só podiam exercer a sua religiosidade em casa e iam às igrejas apenas em casos muito especiais. Quando ocupavam algum tipo de cargo público, como professor ou em outra função importante na sociedade, não podiam deixar transparecer a sua fé."
Inicialmente, a Igreja pagou também um elevado tributo de sangue: durante a guerra civil, antes que os bolcheviques pudessem constituir a União Soviética em dezembro de 1922, foram assassinados 25 bispos, quase 3 mil sacerdotes, cerca de 2 mil monges e freiras, assim como 15 mil fiéis, aproximadamente. A fim de evitar tal martírio, o Patriarcado de Moscou declarou-se, muitas vezes, leal ao Estado soviético e conclamou os fiéis a assumirem a mesma posição.
Isso provocou divisões, algumas igrejas ortodoxas russas no exterior distanciaram-se criticamente do Patriarcado de Moscou. Mas, mesmo atitudes de bajulação não livraram a Igreja de uma dura perseguição. Ela só pôde sobreviver graças à fidelidade das camadas mais simples da população russa.
Como explica o patriarca Alexis 2º de Moscou: "A lealdade à fé ortodoxa é um dos traços mais importantes do caráter nacional do povo russo. Mas a Igreja Ortodoxa jamais teve um caráter nacionalista. A Igreja só pôde respirar aliviada depois que ruiu a hegemonia soviética; desde então, desenvolve-se também um princípio de relação cooperativa entre a Igreja e o Estado na Rússia."

Autoria Hajo Goertz (am)

1918: Atentado contra Lenin


No dia 30 de agosto de 1918, Vladimir Lenin, líder do Partido Comunista da Rússia, foi gravemente ferido por duas balas, mas sobreviveu.

Desde 7 de novembro de 1917, a Rússia era um país agitado, onde reinava o caos da guerra civil. Após o bem-sucedido golpe de Estado, Vladimir Ilitch Ulianov, apelidado Lenin, estava construindo um sistema ditatorial de governo, sob a liderança dos quadros do partido bolchevista. A oposição era reprimida de maneira radical.
Mas o entusiasmo estava arrefecendo. Além disso, reinava a guerra na Europa e parecia que os alemães iriam vencê-la também no Leste. Em 9 de fevereiro de 1918, foi assinado um tratado de paz entre a Ucrânia e a Alemanha. Aumentou a pressão sobre os bolchevistas, fazendo com que Lev Trotski, como chefe da delegação russa, anunciasse oficialmente a retirada do país da guerra, e interrompesse as negociações de paz, sem fechar um acordo.
Resistência no partido a acordo com a Alemanha
O Alto Comando do Exército alemão ordenou o prosseguimento da marcha militar em direção ao Leste. O novo governo russo, ainda instável, teve que capitular e aceitar as exigências alemãs. O tratado de paz de 3 de março, entre a Rússia e o Império Alemão, foi assinado por Lenin contra uma enorme resistência dentro do partido.
Os comunistas necessitavam de paz externa, a fim de poder impor internamente a sua sangrenta revolução. No dia 17 de julho, então, a família do czar foi eliminada, com a execução, em Iecaterinburgo, de todos os membros da casa real.
Mas apenas seis semanas mais tarde veio o grande choque para a revolução. Lenin, o líder do Partido Comunista da Rússia, tinha acabado de entrar no seu carro, após uma assembleia com os operários de uma fábrica de armamentos. Antes que o motorista pudesse dar a partida, foram disparados três tiros.
Dois deles acertaram o alvo: uma bala atingiu a omoplata esquerda, a segunda alojou-se diretamente no ombro esquerdo do líder. Lenin desmaiou e a polícia revolucionária prendeu imediatamente a suposta autora do atentado: Fanya Kaplan.
Dúvidas quanto à autoria do atentado
A anarquista ucraniana, de 30 anos de idade, havia sido condenada à pena perpétua de trabalhos forçados, em 1906, pelo atentado fracassado contra o governador da província. Ela fora anistiada após a Revolução de 1917. E acusada, pouco depois, dos disparos contra Lenin.
Trecho do protocolo do interrogatório pela polícia secreta, no dia 30 de agosto de 1918, às 23h30: "Eu me chamo Fanya Efimovna Kaplan, este é o nome sob o qual fui registrada como prisioneira do campo de trabalhos forçados de Acatua. Eu disparei hoje contra Lenin. Disparei contra ele por convicção própria. Disparei várias vezes, mas não sei quantas. Não contarei nenhum pormenor em relação à arma. Disparei contra Lenin porque o considero um traidor da Revolução e a sua existência irá destruir a crença no socialismo."
Foi uma declaração misteriosa, que ainda desperta dúvidas quanto ao papel de Kaplan no atentado contra Lenin. Pois ela parece ser apenas uma vítima voluntária. São muito estranhos os indícios que procuravam transformar a revolucionária numa assassina.
Não houve nenhuma testemunha que a tivesse visto realmente fazer os disparos. No ano de 1906, ela havia perdido inteiramente a visão, recuperando-a parcialmente seis anos depois. Mas era extremamente míope e, por isto, pouco adequada como assassina.
Dossiê médico trouxe a prova
Nas investigações feitas por Yurovski – o assassino do czar – no local do atentado contra Lenin, foram encontradas quatro cápsulas de bala, apesar de todas as testemunhas terem ouvido apenas três disparos. Também suscita desconfiança o fato de que Fanya Kaplan tenha confessado tão prontamente sua suposta culpa.
Prova cabal da sua inocência parece ser um dossiê médico do ano de 1922, quando foi retirada finalmente a bala do ombro de Lênin. Com toda certeza, o projétil não foi disparado de um revólver Browning, como o que a polícia secreta teria encontrado na bolsa de Fanya Kaplan e afirmava ser a arma do crime.
Assim, um outro boato foi espalhado desde então. O verdadeiro autor do atentado de 30 de agosto de 1918 contra Lenin teria sido um homem chamado Protopopov, chefe de uma unidade da Tcheka – a organização predecessora do serviço secreto KGB – e que estaria decepcionado com a revolução. Também ele teria sido preso no local do crime e executado no mesmo dia. Kaplan deveria acobertá-lo e, não sabendo da sua prisão, teria "confessado" o crime.

A Tcheka também fez processo sumário contra Kaplan. No dia 4 de setembro, ela foi executada por Pavel Malkov numa garagem. Cumprindo ordens superiores, seus restos mortais foram eliminados sem deixar vestígios.
Posteriormente, no terror da era de Stalin, bastava alguém ter o sobrenome Kaplan para que vivesse sob constante ameaça de morte. E ouvia sempre a mesma pergunta: "É parente da Kaplan?"
De qualquer forma, o dia 30 de agosto de 1918 ofereceu ao líder dos bolchevistas um pretexto bem-vindo para radicalizar ainda mais a caça a todos os seus adversários. Começou então o "terror vermelho". As vítimas foram principalmente os integrantes do Partido Social Revolucionário, que tinha obtido nas eleições um resultado muito melhor do que o Partido Comunista.
Lev Trotski descreveu assim a situação daquele momento: "Curiosamente, a revolução não foi estabilizada através de uma curta fase de tranqüilidade, mas sim através da ameaça do atentado".
DW.DE


1921: Rebelião dos marinheiros de Kronstadt


No dia 2 de março de 1921, 300 representantes de estaleiros e marinheiros da cidade russa de Kronstadt, no Mar Báltico, elegeram um Comitê Revolucionário Provisório.

Trotski prometeu caçar revolucionários "como coelhos"

Os marinheiros da cidade portuária de Kronstadt, no Mar Báltico, haviam se rebelado no final de 1917. A frota bloqueara a foz do Rio Neva, quando o cruzador Aurora deu o sinal para começar a histórica Revolução de Outubro.
A historiadora alemã Jutta Petersdorf dedicou-se intensamente ao estudo da história russa. Ela conta que os marinheiros de Kronstadt desempenharam papel muito importante do começo ao fim da revolução. O próprio Leon Trotski reconheceu este fato.
Retrocesso na Rússia
O povo russo continuava sofrendo mesmo depois da queda dos czares. A União Soviética de então estava literalmente arrasada pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e pela Guerra Civil (1918-1921). Fome e epidemias grassavam por toda parte, indústria e transportes estavam profundamente debilitados. Alguns setores apresentavam índices equivalentes aos de fins do século 18.
Havia greves, a agricultura estava paralisada, à espera de definições políticas, o descontentamento agitava a população urbana e provocava revoltas no campo. Protestos públicos eram punidos com prisão sumária.
Os comunistas governavam com mão de ferro. Quem parasse de trabalhar, podia ser condenado à morte. Esta efervescência provocou a insurreição dos marinheiros de Kronstadt contra os bolcheviques. No dia 2 de março de 1921, 300 representantes dos estaleiros daquela cidade portuária elegeram um Comitê Revolucionário Provisório. Os marinheiros entendiam-se responsáveis pelo regime, criticavam a inflação de poder do partido e queriam o retorno dos sovietes às suas origens.

"Somos invencíveis!"

Os sovietes eram os conselhos integrados por operários, camponeses e soldados. Eles apareceram pela primeira vez na Rússia em 1905. Com a revolução de 1917, passaram a ser órgão deliberativo no país. Mas Vladimir Lênin e Trotski viam nos amotinados apenas contrarrevolucionários, e não os apoiaram. Em 5 de março, Trotski enviou uma advertência aos rebelados para que encerrassem seu protesto. Caso contrário, "seriam caçados como coelhos".
Como os marinheiros mantiveram suas reivindicações, dois dias mais tarde começou a invasão de Kronstadt pelo Exército Vermelho. Protegidos como numa fortaleza, os amotinados conseguiram defender-se e enviaram a seguinte mensagem a 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
"Da Kronstadt libertada para todas as operárias do mundo: estamos aqui em meio aos estrondos dos canhões, em meio às granadas explodindo, jogadas pelos comunistas, inimigos do povo trabalhador! Mesmo assim, enviamos fraternas congratulações a vocês, operárias de todo o mundo. Saudações da Kronstadt vermelha rebelada, do império da liberdade. Que nossos inimigos se atrevam a nos destruir. Somos fortes. Somos invencíveis!"
Rápida derrota
A invencibilidade durou apenas dez dias. Com o apoio de voluntários que participavam da 10ª Convenção do Partido Comunista, as tropas russas conseguiram conquistar a fortaleza de Kronstadt em 18 de março de 1921.
Uma parte dos amotinados foi executada, outra enviada para prisões afastadas, nas temidas ilhas Solofki, no Mar Branco, ao norte da atual Federação Russa; 8 mil rebelados conseguiram fugir de Kronstadt pelas águas geladas do Mar Báltico. Estava debelado, assim, um dos primeiros movimentos políticos na União Soviética.
DW.DE


1933: Roosevelt eleito presidente dos EUA


No dia 4 de março de 1933, Franklin Delano Roosevelt tomou posse na presidência dos Estados Unidos, abalados pela Depressão. Uma de suas primeiras iniciativas foi o plano de recuperação econômica "New Deal".

No início da década de 30, a economia norte-americana ainda sofria as consequências da Grande Depressão, iniciada com o colapso da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. A estagnação econômica foi decisiva na sucessão presidencial de 1933, quando o candidato republicano à reeleição, Herbert Hoover, foi derrotado pelo democrata Franklin Delano Roosevelt.
Hoover não conseguira frear o processo de empobrecimento geral da população. A situação era crítica: 15 milhões de desempregados viviam da assistência social; milhões de agricultores se encontravam sem meios e endividados, e o sistema bancário estava arruinado. O Estado precisava urgentemente criar novos empregos.
Pacote de medidas
Assim que assumiu a presidência, em 4 de março de 1933, Roosevelt começou a implementar uma série de medidas que transformaram radicalmente o perfil social dos Estados Unidos. Pôs em prática um amplo plano de recuperação da economia chamado New Deal (Novo Acordo).
O program, proposto por políticos progressistas, administradores e assessores do presidente, previa a intervenção do Estado na economia (o que era tabu nos EUA) e foi aprovado por uma maioria esmagadora do Congresso. Em caráter emergencial, o dólar foi desvalorizado em 50% e foram aprovadas leis para aliviar as dívidas dos agricultores e proprietários de imóveis. A Lei Agrícola de março de 1933 previa acabar com a produção de excedentes por meio de subsídios.
A Lei de Recuperação da Indústria Nacional, do mesmo ano, protegia os interesses dos empresários, mas também estabeleceu limites de produção e preços, determinou a jornada máxima de trabalho e criou o salário mínimo. Em dezembro de 1933, foi abolida a Lei Seca e normalizado o funcionamento da indústria de bebidas. Uma lei de 1935 regulamentou as relações trabalhistas, estabeleceu a liberdade de organização sindical e garantiu o direito de greve.
Segundo Robert E. Sherwood, autor do livro Roosevelt e Hopkins, no primeiro trimestre do programa de garantia de trabalho, que flanqueou as medidas de proteção social mínima, foram construídos ou restaurados 400 mil quilômetros de estradas, construídas 40 mil escolas e contratados 50 mil professores.
Foram ainda erguidos mais de 500 pequenos aeroportos, assim como praças e quadras esportivas em todo o país, e instalados mais de 3,5 milhões de metros de canalização de água e esgoto. Na habitação popular, uma nova agência estatal serviu de avalista em última instância para os financiamentos imobiliários, viabilizando um grande incentivo à construção civil.
Desemprego continuou sendo desafio
O primeiro New Deal (1933–35) conseguiu estancar a crise bancária e recuperar a confiança pública. A falência das agências de fomento do governo central, porém, tornou necessário um segundo Deal (1935–38). Nesta fase, foram aprovadas, entre outras, a lei de seguridade social, de agosto de 1935, que criou os seguros desemprego, invalidez e velhice, e garantiu aos trabalhadores o acesso à casa própria.
O Novo Acordo, porém, não conseguiu recuperar de vez os EUA da Grande Depressão. Segundo Paul Kennedy, autor de Ascensão e queda das grandes potências, o desemprego ainda atingia cerca de 10 milhões de pessoas em 1939. "Os vários esquemas do New Deal não foram suficientes para estimular a economia e aproveitar essa capacidade produtiva não utilizada", afirma.
A expressão New Deal, cunhada pelo juiz Samuel Rosenman, foi usada por Roosevelt em seu discurso de 1932, quando aceitou a indicação para concorrer à presidência. A verdadeira recuperação da economia dos EUA só viria durante a Segunda Guerra Mundial, com o aumento da produção de armas.
Adolf Hitler, que igualmente chegou ao poder na Alemanha em 1933, também começou seu governo com um "programa de emergência", mas com um objetivo completamente oposto ao do Novo Acordo de Roosevelt.

Autoria: Rachel Gessat (gh)

Fonte Deutche Welle

Firma del Tratado de Brest-Litovsk

3 de marzo de 1918

Los representantes de la Rusia soviética y las Potencias centrales acuerdan una paz por separado


Tal día como hoy de 1918, en la localidad polaca de Brest-Litovsk (actualmente en Bielorrusia), los representantes de las Potencias Centrales y los del gobierno ruso surgido de la revolución de octubre de 1917 firmaron el tratado por el que Rusia abandonaba la Primera Guerra Mundial. Los bolcheviques (representados por Lev Trotski) obtuvieron la tan ansiada paz, indispensable para asegurar su permanencia en el poder, mientras cedían a cambio a Alemania y sus aliados los territorios rusos que habían conquistado y reconocían la independencia de Finlandia y Ucrania. Esto supuso la pérdida de inmensos territorios, recursos y población, además de ser el reconocimiento de la victoria de las Potencias Centrales en el Frente Oriental.

domingo, 2 de março de 2014

Um Sopro de Vida: pulsações

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."


Clarice Lispector, in 'Um Sopro de Vida: pulsações'
Um aceno de paz em cada flor;
Um convite de guerra em cada espinho;
E os louros do perfeito vencedor
À espera de quem passa no caminho.


Miguel Torga
Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.


- Álvaro de Campos [Heterônimo de Fernando Pessoa], In Poesia, Assírio e Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.

Discurso proferido e apartes

"Nenhum país do mundo conseguiu integrar-se na civilização industrial, sem alcançar, previamente, todo o seu povo ao domínio instrumental da leitura. E já estamos diante de uma nova civilização, muitíssimo mais exigente quanto aos níveis de escolaridade necessários para que uma sociedade dela participe autonomamente dominando o saber e a tecnologia em que ela se funda. Como ignorar, nessas circunstâncias, que estamos desafiados a realizar um imenso esforço, para sair da condição de atraso educacional em que nos afundamos? Como negar que isso põe em risco a própria soberania nacional."


- Darcy Ribeiro, em “BRASIL - Discurso proferido e apartes”. Diário do Congresso. Seção II, pp. 3702-3714, 21 maio 1992. p. 3704.
Não, não chore; nova esperança, novos sonhos, novos rostos,
e a alegria não vivida dos anos que estão por vir
vai mostrar que o coração pode enganar o sofrimento,
e que os olhos podem as próprias lágrimas iludir.

Não, não sofra, embora viva a escuridão de seus problemas,
o tempo não vai parar, e nem andar atrasado;
o dia de hoje que parece tão longo, tão estranho e amargo,
breve estará esquecido no passado."


- Sarojini Naidu [tradução livre - poema citado no livro: "Cruzando o Caminho do Sol", de Corban Addison]
"Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. Seu semblante
muda na água do espelho mutante,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio prefixado,
rumo a seu mar. Pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E no entanto há algo que se queda
e no entanto há algo que se queixa."


Jorge Luis Borges

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Poema porrada



Eu estou farto de muita coisa
não me transformarei em subúrbio
não serei válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição de tudo que é frágil:
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o tímpano de
duas centopeias
o universo é cuspido pelo cu sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que existo
mariposas perjuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
a Morte olha-me da parede pelos olhos apodrecidos
de Modigliani
eu gostaria de incendiar os pentelhos de Modigliani
minha alma louca aponta para a Lua
vi os professores e seus cálculos discretos ocupando
o mundo do espírito
vi criancinhas vomitando nos radiadores
vi canetas dementes hortas tampas de privada
abro os olhos as nuvens tornam-se mais duras
trago o mundo na orelha como um brinco imenso
a loucura é um espelho na manhã de pássaros sem Fôlego


Roberto Piva

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

SÉTIMO DIA


Voltámos, um a um, da tua morte

para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.

A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.

Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia.


MANUEL ANTÓNIO PINA

Quem controla o sistema financeiro?

"Assim, a política econômica não é mais da jurisdição dos governos democraticamente eleitos, porque existe um determinado grupo de interesses que nunca pode ser derrotado. Não é somente a questão dos detentores de riqueza poderem evitar o ônus de qualquer política da qual não gostem. É pior do que isso: eles podem arruinar a economia no processo de evitar decisões locais, causando uma crise no balanço de pagamentos." (Quem controla o sistema financeiro? - Ibase)