quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Lavoura arcaica
“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e
humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando
suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua
corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para
receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende
essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de
vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao
buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”
- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.
Um outro Poema de Amor
No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.
Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"
Amor como em Casa
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Pastores da Noite
“E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos
caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas,
suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e
solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em
cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno grito
de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto
na perigosa hora das encruzilhadas.”
- Jorge Amado
RELAÇÃO ÍNTIMA
«Todos os impulsos, as emoções, as manifestações
de vontades imagináveis, todas estas contingências da alma humana lançadas pela
razão na imensidade negativa da noção de «sentimento», podem ser expressas por
meio da multidão infinita das melodias possíveis, mas sempre exclusivamente na
generalidade da forma pura, sem a substância, sempre somente como coisa em si,
e não como aparência, de algum modo como a alma da aparência, incorporalmente.
Esta relação íntima, que existe entre a música e a verdadeira essência de todas
as coisas, explica-nos também por que, quando com pretexto de uma cena, de uma
ação, de um evento, de um ambiente qualquer, ressoa uma música adequada, esta
parece revelar-nos a significação mais secreta e afirmar-se como o mais exato e
mais luminoso dos comentários; compreendemos igualmente como é que aquele que
se abandona sem reservas à impressão produzida por uma sinfonia julga ver
desenrolar-se perante os seus olhos todos os acontecimentos imagináveis da vida
e do mundo.»
Nietzsche, 1872
in A Origem da Tragédia
Guimarães Editores, p.130
ESTUDO DO OBJETO
Uma lição de poesia - de Zbigniew Herbert
1
o mais belo
é o objeto que não existe
ele não serve para carregar água
nem para preservar as cinzas de um herói
não foi acalentado por Antígona
nem nele um rato se afogou
de orifício, nenhum resquício
pois é completamente aberto
visto
de todos os lados,
quase não é
antevisto
os feixes de todas as suas linhas
confluem num jato de luz
nem
cegueira
nem
morte
podem roubar o objeto que não existe
2
marque o lugar onde ficava
o objeto
que não existe
com um quadrado negro
ele será
um mero réquiem pela bela ausência
vigoroso lamento
aprisionado
num quadrilátero
3
agora
todo o espaço
dilata-se como um oceano
um furacão fustiga
o veleiro negro
a asa de uma nevasca
circunda o quadrado negro
e a ilha submerge
sob a disseminação salina
4
o que se tem agora
é espaço vazio
mais belo que o objeto
mais belo que o lugar que ele deixa
é o antemundo
um paraíso branco
de possibilidades
lá você pode entrar
gritar
vertical-horizontal
relâmpagos perpendiculares
golpeiam o horizonte nu
podemos parar aqui
de todo modo você já criou o mundo
5
oriente-se
pelo olho interior
não se renda
a murmúrios sussurros estalidos
é o mundo não criado
impresso nos portões da paisagem
anjos ofertam
chumaços rosados das nuvens
por toda parte árvores implantam
filamentos verdes desalinhados
reis celebram a púrpura
e comandam trompetistas
auricolores
até a baleia pede um retrato
oriente-se pelo olho interior
nada aceite além
6
extraia
da sombra do objeto
que não existe
do espaço polar
das inflexíveis quimeras do olho interno
uma cadeira
bela e inútil
como uma catedral no deserto
ponha sobre a cadeira
uma toalha de mesa amarrotada
adicione à ideia de ordem
a ideia de aventura
que seja uma confissão de fé
diante do vertical em combate com o horizontal
que seja
mais silenciosa que anjos
mais orgulhosa que reis
mais verdadeira que uma baleia
que tenha a face das últimas coisas
pedimos que a cadeira desvele
as dimensões do olho interno
a íris da necessidade
a pupila da morte
Tradução: Rogério Bettoni
"Pacto de Sangue"
"Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.
Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos."
(Ruy Cinatti - da obra "Timor amor")
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.
Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos."
(Ruy Cinatti - da obra "Timor amor")
sábado, 14 de setembro de 2013
Apenas um vício
Bufões transvestidos de poetas
burocráticos arrogantes,
pedantes pregoeiros
vós sois os porta-flâmulas
brandindo insígnias desbotadas.
Ser poeta não é um título de glória.
Apenas um vício natural.
Um fardo que por medo
amarramos mal.
(...)
Mas há quem
Potius mori quam fiedari*
eis o sentido ilibado
da vida que me transmites
em mensagens cifradas.
Mas há quem não compreenda
e prefira o mundo
assim como é: imerso na imundície.
*antes morrer que macular-se
(...)
Mortais
Não possuímos a cognição
da futuração.
Nossa previsão é limitada.
Quanto ao livre-arbítrio
faço algumas exceções.
Não há bifurcação, mas
percurso obrigatório.
(...)
A conjetura de que o mundo
seja uma burla, nem mesmo assim
resolve o puzzle fundamental.
Se queres a minha opinião
a única via de saída é a ilusão,
porque a vida supera a cada dia
os limites que impõe.
(...)
É com a tentativa desastrosa
de explicar todos os significados possíveis
que o fino declamador acaba naufragando
nas praias supersabidas do banal.
O que poderá importar a um inepto ouvinte
ser um éon decaído* ou um homem
que por medo acabou ficando mudo.
*alusão à gnose e ao neoplatonismo
(...)
poemas de Eugenio Montale, do Diário Póstumo
trad. Ivo Barroso
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
(Sophia de Melo Breyner Andresen)
A NEVE E O AMOR
Neste dia de calor ardente, estou esperando a
neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem aboca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como
[o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve.
Lêdo Ivo | Mormaço
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem aboca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como
[o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve.
Lêdo Ivo | Mormaço
"As mais severas
críticas à vida moderna têm a imperiosa necessidade de recorrer ao modernismo,
para nos mostrar em que ponto estamos e a partir de que ponto podemos começar a
mudar nossas circunstâncias e a nós mesmos. Em busca de um ponto de partida,
retornei a um dos primeiros e grandes modernistas, Karl Marx. Voltei a ele não
tanto por suas respostas, mas por suas perguntas. O que de mais valioso ele nos
tem a oferecer, hoje, não é um caminho que permita sair das contradições da
vida moderna, e sim um caminho mais seguro e mais profundo que nos coloque
exatamente no cerne dessas contradições. Ele sabia que o caminho para além das
contradições teria de ser procurado através da modernidade, não fora dela. Ele
sabia que precisamos começar do ponto onde estamos: psiquicamente nus, despidos
de qualquer halo religioso, estético ou moral, e de véus sentimentais,
devolvidos à nossa vontade e energia individuais, forçados a explorar aos
demais e a nós mesmos para sobreviver; e mesmo assim, a despeito de tudo, reunidos
pelas mesmas forças que nos separam, vagamente cônscios de tudo o que poderemos
realizar juntos, prontos a nos distendermos na direção de novas possibilidades
humanas, a desenvolver identidades e fronteiras comuns que podem ajudar-nos a
manter-nos juntos, enquanto o selvagem ar moderno explode em calor e frio
através de todos nós.”
– Marshall Berman (1982)
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
LEITODEMORTE BLUES
Charles Bukowski
Se não aguenta o calor, diz ele, saia da
cozinha. sabe quem disse isso?
Harry Truman.
Não 'tou na cozinha, digo eu, eu 'tou no
forno.
meu editor é um cara difícil
às vezes ligo pra ele em momentos de dúvida.
olha, responde ele, você vai acender charutos com notas de dez,
vai pegar uma ruiva num braço e uma loira
no outro.
outras vezes, ele vai dizer: veja bem, acho que vamos contratar o VK
como editor associado. temos que garimpar uns cinco poetas
nalgum canto. (VK é um poeta bem criativo, que acha que eu
apunhalei ele pelas costas de Nova Iorque até a costa norte do Havaí)
Olha aqui, meu garoto, respondo pro meu editor: você fala alemão?
Não, diz ele
Bom, de qualquer modo, digo eu, 'tou precisando duns bons pneus novos,
então, sabe onde consigo um jogo de pneus novos, baratos?
Eu te ligo em meia hora, diz ele, vai estar em casa
daqui a meia hora?
Não tenho um centavo pra sair, digo eu.
E ele: me disseram que você 'tava bebaco na leitura
de poesia no Oregon.
Fofoquinhas, respondo eu. -- ´tava ou não ´tava? -- Não lembro.
Um dia ele me liga: Você não 'tá mais acertando a bola. só entornando
o caneco, e briga com todas essas mulheres...
Sabe que tem um garoto no banco de reservas, não sabe? ele ´tá louco
pra entrar, ele bate de direita e de esquerda, cata todas,
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele consegue rimar, sabe? conhece imagens, símiles, metáforas,
retórica, chistes, assonâncias,
aliterações, métrica, é sim, métrica,
tipo, você sabe --
iambos, troqueus, anapestos, espondeus,
ele domina cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, paradoxo, voz, tom e coalescência...
Putaquepariu, digo eu, desligo e mando uma golada de
uísque escocês. Charlie ainda está vivo,
dizem os jornais. mas decido que em vez de
um jogo de pneus novos preciso de mais
luz nos retrovisores.
trad: Ivan Justen Santana
ALLENDE
Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama
porque el hombre de la paz era una fortaleza
para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar más para seguir matando
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza
para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa
una armada una hueste una brigada
tuvieron que creer que era otro ejército
pero el hombre de la paz era tan sólo un pueblo
y tenía en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios más tanques más rencores
más bombas más aviones más oprobios
porque el hombre del paz era una fortaleza
para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse para siempre a la muerte
matar y matar más para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.
(Mario Benedetti)
En el camino de regreso, caminando sierra arriba, Carlos siguió leyendo.
No podía desprenderse de esta historia de horror y de bravura. El personaje
central del libro era un hombre que había sabido cumplir su palabra. Al llegar
a la aldea, Carlos anunció, eufórico: -¡Por fin tenemos nombre! Y leyó el
libro, en voz alta, para todos. La tropezada lectura le ocupó casi una semana.
Después, las ciento cincuenta familias votaron. Todas por sí. Con bailares y
cantares se selló el bautizo. Ahora tienen cómo llamarse. Esta comunidad lleva
el nombre de un hombre digno, que no dudó a la hora de elegir entre la traición
y la muerte. -Voy para Salvador Allende dicen, ahora, los caminantes.
Eduardo Galeano .
Memorias Del Fuego
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