sexta-feira, 26 de julho de 2013

Give the dogs meat...

Vladimir Vysotsky - 

Give the dogs meaty rations -
Maybe they'll fight then to munch them.
Give the hungover kvas and

Who knows? They might end up drunken.
To keep the crows from bloating
Put scarecrows in more places.
So lovers grow more doting
Give them space for embraces.

Throw grains upon the ground now -
Shoots might grow from those seeds then.
Okay, I'll stay within bounds now -
Only give me my freedom!

They gave the dogs a fillet -
They didn't pounce upon it.
They gave the drunks some spirit -
They said they didn't want it.

They scare the crows - whatever!
The crows don't bat an eyelid.
Couples are brought together -
They'd be better off divided.

They watered all the seeds and
No wheat grew - that's the ticket!
Yesterday they gave me freedom -
Now what shall I do with it?
________________________________
© Margaret & Stas Porokhnya. Translation, 2008

.

Capricious Horses

terça-feira, 23 de julho de 2013

Un poème



Bien placés bien choisis
quelques mots font une poésie
les mots il suffit qu’on les aime
pour écrire un poème
on ne sait pas toujours ce qu’on dit
lorsque naît la poésie
faut ensuite rechercher le thème
pour intituler le poème
mais d’autres fois on pleure on rit
en écrivant la poésie
ça a toujours kékchose d’extrème
un poème

Raymond Queneau

Source: Poetica.fr

Poème classé dans Authenticité, Créativité, Le poète, Raymond Queneau.

A une femme

Paul VERLAINE



A vous ces vers de par la grâce consolante
De vos grands yeux où rit et pleure un rêve doux,
De par votre âme pure et toute bonne, à vous
Ces vers du fond de ma détresse violente.

C'est qu'hélas ! le hideux cauchemar qui me hante
N'a pas de trêve et va furieux, fou, jaloux,
Se multipliant comme un cortège de loups
Et se pendant après mon sort qu'il ensanglante !

Oh ! je souffre, je souffre affreusement, si bien
Que le gémissement premier du premier homme
Chassé d'Eden n'est qu'une églogue au prix du mien !

Et les soucis que vous pouvez avoir sont comme
Des hirondelles sur un ciel d'après-midi,
- Chère, - par un beau jour de septembre attiédi.




Origens do totalitarismo

 [...]

"A sociedade competitiva de consumo criada pela burguesia gerou apatia, e até mesmo hostilidade, em relação à vida pública, não apenas pelas camadas sociais exploradas e excluídas da participação ativa no governo do país, mas acima de tudo entre a sua própria classe. O longo período de falsa modéstia, em que a burguesia se contentou em ser a classe social dominante sem aspirar ao domínio político, relegado à aristocracia, foi seguido pela era imperialista, durante a qual a burguesia tornou-se cada mais hostil às instituições nacionais existentes e passou a exigir o poder político e a organizar-se para exercê-lo. Tanto a antiga apatia como a nova exigência de direção monopolística e ditatorial resultavam de uma filosofia para a qual o sucesso ou o fracasso do indivíduo em acirrada competição era o supremo objetivo, de tal modo que o exercício dos deveres e responsabilidades do cidadão era tido como perda desnecessária do seu tempo e energia. Essas atitudes burguesas são muito úteis àquelas formas da ditadura nas quais um "homem forte" assume a incômoda responsabilidade de conduzir os negócios públicos; mas constituem um obstáculo para os movimentos totalitários, que não podem tolerar o individualismo burguês ou qualquer outro tipo de individualismo. Os elementos apáticos da sociedade burguesa, por mais que relutem em assumir as responsabilidades de cidadãos, mantêm intacta a sua personalidade, pelo menos porque ela lhes permite sobreviver na luta competitiva pela vida."


- Hanna Arendt.  | Origens do totalitarismo –

Desobediência Civil

[...]

Penso que, tendo sido alfabetizados, deveríamos ler o melhor da literatura e não ficar repetindo para sempre nosso bê-a-bá e nossos monossílabos, sentados a vida inteira na primeira fila da sala de aula. A maioria dos homens fica satisfeita se consegue ler ou ouvir outros lerem um único livro, a Bíblia, persuadidos talvez por sua sabedoria, e pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil.


[THOREAU, Henry. Desobediência Civil. Tradução de Sérgio Karam. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 69]

O Barco e o Passageiro

O Barco e o Passageiro

Manhae Han Yong-un
1879 – 1944
Monge Budista e Poeta

Eu sou um barco.
Você, meu passageiro.

Você me trata com pés lamacentos.
Eu cruzo o rio, apertando-o em meus braços.

Quando você está em meus braços,
Eu não me importo
Se o rio é profundo, superficial ou rápido.

Se você não vem,
Espero, desde manhã até a noite,
Exposto a ventos, úmido de neve ou chuva.

Quando chegar outro banco,
Você se vai, sem olhar para trás.
Sei porém, que um dia você volta.
Então envelheço, esperando por você, dia e noite.

Eu sou um barco.
Você, meu passageiro.


O Barco e o Passageiro

Manhae Han Yong-un
1879 – 1944
Monge Budista e Poeta

Eu sou um barco.
Você, meu passageiro.

Você me trata com pés lamacentos.
Eu cruzo o rio, apertando-o em meus braços.

Quando você está em meus braços,
Eu não me importo
Se o rio é profundo, superficial ou rápido.

Se você não vem,
Espero, desde manhã até a noite,
Exposto a ventos, úmido de neve ou chuva.

Quando chegar outro banco,
Você se vai, sem olhar para trás.
Sei porém, que um dia você volta.
Então envelheço, esperando por você, dia e noite.

Eu sou um barco.
Você, meu passageiro.

Manhae Han Yong-um

Individualidade

Kim Kwang-söp (1905~1977)

Embora vindo de um vale pobre da montanha

Nascido como um seixo
Para jamais ser uma grande rocha

Ou

Fluindo como um córrego
Para jamais ser amplo como o mar

Você terá momentos de voares infinitos.


Ponteio

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro...

Era um, era dois, era cem
Vieram prá me perguntar:
"Ô voce, de onde vai, de onde vem?
Diga logo o que tem pra contar"...

Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e nem via
Nem sombra, nem sol, nem vento...

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar...

Era um dia, era claro, quase meio
Era um canto falado sem ponteio
Violência, viola, violeiro
Era morte ao redor, mundo inteiro...

Era um dia, era claro, quase meio
Tinha um que jurou me quebrar
Mas não lembro de dor nem receio
Só sabia das ondas do mar...

Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola, ponteio!
Meu canto não posso parar, não!...

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar...

Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro, quase meio
Encerrar meu cantar já convém
Prometendo um novo ponteio...

Certo dia que sei, por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo o que vim pra buscar...

Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar prá cantar...

Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Pra cantar...

(“Ponteio”, de Edu Lobo, canção vencedora do terceiro Festival da Record, em 1967).

Veja também:
http://semioticas1.blogspot.com.br/2013/04/o-novo-jards_8633.html

Deus e o Estado

'Inventado os deuses tinham agora respostas. E aqueles que vieram depois desses inventores de deuses, não tinham mais conhecimento de que deus era inventado, então passam a temê-lo e a ser seu escravo. Logo mais, por alguns homens com “espírito corrupto”, criam uma casta para fazer intermediário entre deuses e homens, utilizando da religiosidade para seu próprio proveito. Esses deuses se estabelecendo no imaginário coletivo, através da tradição, fazem nascer o clero. O clero monopoliza deus se tornando a autoridade e a hierarquia do conhecimento e da inspiração. ''

- Mikhail Bakunin; 



"O futuro é nosso, por prepotência de trabalho. Criaremos nossa literatura não conversando continuamente sobre literatura, mas escrevendo em orgulhosa solidão livros que contenham a violência de um 'cross' na mandíbula. Sim, um livro atrás do outro, e 'os eunucos que bufem'." (Roberto Arlt) 

Canção de Amor da Jovem Louca


(SYLVIA PLATH)

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)


translated by Maria Luíza Nogueira

(in A REDOMA DE CRISTAL, Ed. Artenova, Brazil, 1971, p. 255)

A SITUAÇÃO DA CULTURA DIANTE DOS PROTESTOS DE RUA


“Digamos que o Brasil passou 20 anos imerso no otimismo quanto à nova ordem capitalista, a qual de fato lhe permitiu avançar muito, ao mesmo tempo em que criava problemas imensos, aqui e mundo afora. A cegueira para estas contradições, alimentada pela ideologia marqueteira oficial, pesava como um tapa-olho sobre a inteligência do país, que perdeu contato com o avesso das coisas, sem o qual não existe vida do espírito. Pois bem, a energia dos protestos recentes, de cuja dimensão popular ainda sabemos pouco, suspendeu o véu e reequilibrou o jogo. Talvez ela devolva à nossa cultura o senso da realidade e o nervo crítico. Sem falar no humor, que nos seus momentos altos esta sempre teve.”
Roberto Schwarz, no Blog da Boitempo – http://bit.ly/17B9lkk


sábado, 20 de julho de 2013

CARTA DE PARIS AO CAMARADA KOSTRÓV SOBRE A ESSÊNCIA DO AMOR


Vladimir Maiakovski [1928]

Perdoe-me,
camarada Kostróv,
com sua habitual
largueza de vista,

se eu desperdiço,
as minhas estrofes
de Paris
em lírica imprevista.

Imagine:
uma beleza
entra na sala
vestindo peles e adereços.

A essa
bela presa
a minha fala
(não sei se
bem ou mal)
eu endereço:

Sou russo, camarada,
e sou famoso em meu país.
Já tive muitas namoradas
bonitas -
todas as que eu quis.

As mulheres
amam os poetas.
Sou vivo,
minha voz é de bom timbre.
Tonteio como éter.

Basta
ouvir-me.
Não me fisgam
com armas
sem valor.

Não caio
por qualquer charme.
Eu fui
para sempre ferido pelo amor -
mal e mal
posso arrastar-me.

Não meço
o amor
pelo matrimônio.
Deixou de amar -
passe bem!

Para mim,
camarada,
as cerimônias
valem
menos do que um vintém.

Para que ficar palrando?
Deixe de onda,
formosura,
eu não tenho mais vinte anos,
mas trinta...
e outros tantos
fora da conta.

O amor
não está
em ferver bruscamente,
nem está
em acender uma fogueira,
mas no que há
por trás
das montanhas do peito
e acima
da jangal-cabeleira.

Amar
é ir ao fundo do cercado
e até que a noite
- corvo negro -
chegue
cortar lenha
com chispas
no machado
e a nossa própria força
pôr em xeque.

Amar
é desfazer-se dos lençóis
que a insônia desarruma
e com ciúmes
de Copérnico,
a ele,
não o marido
da Maria dos Anzóis
considerar rival eterno.

O amor
não é paraíso nem geena.
Para nós
o amor
é o atestado
de que
outra vez se engrena
o coração
- motor enferrujado.
Você
rompeu o fio
com Moscou.

Os anos
criam
distâncias.
Como
explicar o que passou
assim de relance?
Na terra
há luzes - até o céu...
No céu azul
estrelas
a granel.

Se eu
não fosse poeta
seria astrônomo por certo.
A praça já se apinha.
Os coches rodam.

Eu passo
anotando linhas.
no meu livro de notas.
Correm
os carros
rente,
mas não me atropelam.

Entendem,
de repente: está em êxtase
por ela.
Sonhos,
visões,
excursos enchem-no
até os ossos.
Aqui
até os ursos
ganhariam asas.

E agora,
quando acabo de fervê-las,
num restaurante barato,
as palavras
soletram das letras
às estrelas
um cometa dourado.
Deixando
pelo céu um longo rastro,
brilha a plumagem do cometa,
para que os namorados
vejam os seus astros
de seus quiosques
de violetas.

Para acordar
e atrair
o apreço
desses
a que a visão já falha.

Para cortar
aos inimigos
a cabeça
com a longa cauda
luminosa
navalha.

Ouço
em meu peito
até o último pulsar
como se o estivesse
esperando
para um encontro:
o amor
a ressoar
simples e humano.

O furacão,
o fogo,
o mar
vêm vindo
furiosamente.

Quem
os pode
domar?
Você pode?
Experimente...


.


[tradução de Augusto de Campos. Foto: original do poema nas OBRAS COMPLETAS de V. Maiakovski, Edição Pravda, 1988, Volume II, p. 562]

Aprendizado


(Ferreira Gullar)


Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


Rosa Negra

Nervosa Flor, carnívora, suprema,/ Flor dos sonhos da Morte, Flor sombria/ Nos labirintos da tu’alma fria / Deixa que eu sofra, me debata e gema./ [...] Rosa negra da treva, Flor do nada,/ Dá-me essa boca acídula, rasgada,/ Que vale mais que os corações proibidos!


[Rosa Negra do CRUZ E SOUSA]

O mundo estava no rosto da amada


(Rilke / Trad.: Augusto de Campos)

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.




GRAFITO NUM MURO DE ROMA




Um verme rói
––
enorme roer
––
Um verme rói minuciosamente
Desde que o tempo sentou-se sôbre siA trombeta ovóide .
Um verme ecumênicoTeólogo teleológico
Rói a priori
––
único tóteme
––
O filme da história total .
Um verme enorme rói
Um verme inerme rói
Qualquer julgamento
Presente futuro
Pessoal universal
Miguelangelesco ou não .
Um verme irreversível rói a tiara
Suspensa de palácios terrosos .


A eternidade criou tantos dédalos
Que já perde a noção de espaço .
Procurando homem por homem
Urbi et orbi
Procura-se a si mesma sem sua túnica :
Mínima . Finita . Ex .


A eternidade acaba desconhecendo
As próprias catacumbas escâncaras
Os próprios arcos de triunfo do tempo
Idos calendas calêndulas
Os leões alados & seus espaços monumentais
Os falos suspensos em obelisco
Os essedários & os éssedos
Os imperadores de pedra
Levantando irrespondidos braços .
A eternidade anoitece
A cavalo sôbre seus palácios
Ocre .


Um verme roerá a morte
Favila fasula .
Ex .

Murilo Mendes

Roma 1964

.

O coração da liberdade


Estive, estou e estarei
no coração da realidade,
perto da mulher que dorme,
junto do homem que morre,
próximo à criança que chora.

Para que eu cante, os dias são momentâneos
e o céu é o anúncio de um pássaro.
Não me afastarei daqui,
da vida que é minha pátria,
e passa como as águias no sul
e permanece como os vulcões extintos
que um dia vomitam sono e primavera.

Minha canção é como a veia aberta
ou uma raiz central dentro da terra.
Não me afastarei daqui, não trairei jamais
o centro maduro de todos os meus dias.
Somente aqui os minutos mudam como praias
e o dia é um lugar de encontro, como as praças,
e o cristal pesa como a beleza
no chão que cheira à criação do mundo.
Adeus, hermetismo, país de mortes fingidas.
Bebo a hora que é água; refugio-me na estância
quando a aurora é mistura de orvalho e de esterco,
e estou livre, sinto-me final, definitivo
como o tempo dentro do tempo, e a luz dentro da luz
e todas as coisas que são o centro, o coração
da realidade que escorre como lágrimas.

- Lêdo Ivo, in "Linguagem", 1951.


Vinho Negro


O vinho negro do imortal pecado
Envenenou nossas humanas veias
Como fascinações de atras sereias
E um inferno sinistro e perfumado.

O sangue canta, o sol maravilhado
Do nosso corpo, em ondas fartas, cheias.
como que quer rasgar essas cadeias
Em que a carne o retém acorrentado.

E o sangue chama o vinho negro e quente
Do pecado letal, impenitente,
O vinho negro do pecado inquieto.

E tudo nesse vinho mais se apura,
Ganha outra graça, forma e formosura,
Grave beleza d'esplendor secreto.


- Cruz e Sousa, do livro Últimos Sonetos, 1905.