domingo, 12 de dezembro de 2010

«Feriu-me singularmente a atenção o verdadeiro modo de ser do público de uma grande cidade. Vive numa constante vertigem do lucro e do gozo, e aquilo a que nós chamamos atmosfera (Stimmung) não se pode criar nem comunicar; todos os prazeres, mesmo o teatro, devem apenas distrair, e a grande inclinação do público ledor de jornais e romances provém de que aqueles, sempre, e estes muitas vezes, trazem distracção à distracção. - Suponho mesmo ter notado uma espécie de timidez em face das produções poéticas, pelo menos enquanto poéticas, timidez que, por essas mesmas razões, me parece muito natural. A poesia requer, exige mesmo, concentração; isola o homem contra a sua vontade, torna-se por vezes molesta e importuna nas suas exigências e é no largo mundo (para não dizer no grande mundo) tão incómoda como uma amante fiel.»



Goethe, carta a 9 de Agosto de 1797

in Friedrich Hölderlin. Poemas. Prefácio, Selecção e trad. Paulo Quintela. Relógio D' Água, Lisboa, 1991, p. 19
«Tive uma infância muito dura, muito difícil. Uma família que se desintegrou muito facilmente num lugar que foi totalmente destruído. Desde o meu pai e a minha mãe, inclusive todos os irmãos de meu pai foram assassinados. Vivi, portanto, numa zona devastada. Não apenas de devassidão humana, mas devassidão geográfica. Nunca encontrei até à data uma lógica que explique tudo isto. Não se pode atribuir à Revolução. Foi mais uma coisa atávica, uma coisa de destino, uma coisa ilógica. Até hoje ainda não encontrei um ponto de apoio que me mostre porque nesta minha família sucederam nessa forma, e tão sistematicamente, essa série de assassinatos e de crueldades.»






in Los muertos no tienen ni tiempo ni espacio, diálogo com Juan Rulfo

As flores

«Há escritores que se servem delas pelo simples prestígio dos seus nomes, sem prestarem muita atenção ao facto de corresponderem, ou não, ao lugar e à estação do ano. De modo que não é raro encontrar bons livros onde florescem gerânios na praia e túlipas na neve. Em Pedro Páramo, onde é impossível estabelecer de uma forma definitiva onde está a linha de demarcação entre os mortos e os vivos, as exactidões são ainda mais quiméricas. Ninguém pode saber, na realidade, quanto duram os anos da morte.»



Gabriel García Márquez in Juan Rulfo, Obra Reunida. Trad. Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues, Virgílio Tenreiro Viseu. Cavalo de ferro.1ª ed., 2010, p. 14

Pavese

Terra vermelha, terra negra

tu vens do mar,

do verde requeimado

onde há palavras

antigas e fadiga sanguínea

e gerânios entre as pedras -

não sabes o que em ti

trazes de mar palavras e fadiga,

tu rica como uma lembrança,

como o campo despido,

tu áspera e dulcíssima

palavra, antiga como o sangue

recolhido nos olhos;

jovem, como um fruto

que é lembrança e estação -

a respiração repousa

sob o céu de agosto,

as azeitonas do teu

olhar suavizam

o mar e tu vives revives

sem surpresa, certa

como a terra, escura

como a terra, moinho

de estações e de sonhos

que ao luar se revela

antiquíssimo, como

as mãos de tua mãe,

a concha da braseira.

Tu és terra e a morte.

A tua estação é a sombra

e o silêncio. Nada

vive mais distante

da aurora que tu.

Quando pareces despertar

és dor apenas,

tem-la nos olhos e no sangue

mas tu não sentes. Vives

como vive uma pedra,

como a terra dura.

Vestem-te sonhos

movimentos soluços

que tu ignoras. Como a água

de um lago a dor

tremula e envolve-te.

Há círculos sobre a água.

Tu deixa-los desvanecer.

Tu és a terra e a morte.

Virá a morte e terá os teus olhos

- esta morte que nos acompanha

de manhã à noite, insone,

surda, como um velho remorso

ou um vício absurdo. Os teus olhos

serão uma palavra vã,

um grito mudo, um silêncio.

Assim os vês todas as manhãs

quando sobre ti mesma no espelho

te inclinas. Ó minha cara esperança,

nesse dia saberemos nós também

que tu és vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.

Virá a morte e terá os teus olhos.

Será como abandonar um vício,

como ver surgir no espelho

em rosto morto, como

escutar uns lábios fechados.

Mudos, desceremos no abismo.

Cesare Pavese


Cesare Pavese in Dez Poetas Italianos Contemporâneos em selecção, tradução e notas de Albano Martins

You Are Welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente

entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar

do mais fundo de nós o mais útil segredo

entre nós e as palavras há perfis ardentes

espaços cheios de gente de costas

altas flores venenosas portas por abrir

e escadas e ponteiros e crianças sentadas

à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos

há palavras de vida há palavras de morte

há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar

há palavras acesas como barcos

e há palavras homens, palavras que guardam

o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente

as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos

palavras que nos sobem ilegíveis à boca

palavras diamantes palavras nunca escritas

palavras impossíveis de escrever

por não termos connosco cordas de violinos

nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar

e os braços dos amantes escrevem muito alto

muito além do azul onde oxidados morrem

palavras maternais só sombra só soluço

só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados

e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny



Mário Cesariny in Pena Capital

Fonte Clepsidra

http://luz-clepsidra.blogspot.com/

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“Quantas vezes


esfregou

os dedos nas unhas

o sol caindo atrás

das paredes

quantas vezes revezou-se

consigo mesmo em silêncio

quantas vezes esteve

no justo oriente de qualquer limo

quantas vezes quis

ser Rimbaud e traficou

aspirina

os dias passaram, severos,

como o vazio

hoje?, ontem?, quantas vezes

as grimpas não giraram

o amor era das palavras, entre elas

fria estrela que irrompe

(Canção 4. De Remorso do Cosmos, 2003)

ATÉ AGORA

Autor: Régis Bonvicino. Editora: Imprensa Oficial
“Me


transformo,

outra janela–

outro

que se afasta e não se

reaproxima

nas desobjetivações e

reativações,

nas linhas e realinhamentos

outros

me atravessam

morto de ser

coisas perdem sentido

expressões figuradas como

ossos de borboleta

me transformo

na observação

de uma pétala

*

Me destransformo

a mesma janela –

outro

que não se afasta

Nas objetivações,

alinhamentos

e linhas inexistentes

iguais me repassam

Retrato desativado,

taxidermista de mim mesmo

Régis Bonvicino

(Me Transformo. Ossos de Borboleta, 1999)
“O que matou com disparos


na cabeça

O que eletrocutou o

estuprador

- fio puxado do bico de luz

da cela -

e pediu perdão a Deus

O que decepou um dos seus

O que trocava de nome & de sexo

a cada morte

O que ouvia vozes

O que estuprou a filha

(meses)

O que atraía garotos

com revistas de mulheres nuas

“Papillon” traficava cocaína

e crack

Narque espancou o cara

até abrir sua carne

(O Que. Outros Poemas, 1993)

Régis Bonvicino

Le juriste 1566

“O lobo-guará é manso


foge diante de

qualquer ameaça

é solitário

avesso ao dia, tímido

detesta as cidades

para fugir do ataque

cada vez mais inevitável

dos cachorros

atravessa estradas

onde quase sempre é

atropelado

onívoro, com mandíbulas

fracas

come pássaros, ratos, ovos,

frutas

às vezes, quando está perdido,

vasculha latas de lixo nas ruas

engasga ao mastigar garrafas

de plástico ou isopores

se corta e ou morre ao morder

lâmpadas fluorescentes

ou engolir fios elétricos

morre ao lamber inseticidas

ou restos de tinta

ou ao engolir remédios

vencidos

ou seringas e agulhas

descartáveis

dócil, sem astúcia,

é facilmente capturado e morto

por traficantes de pele

quando então uiva

(Extinção. Página Órfã, 2007)

Pena Capital

Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny


Pena Capital I. Assírio & Alvim, 2ª ed., 1999

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Gnossienne nº 1

Eu acreditei que podia amar

o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração

nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite

sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar

essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos

mas crescias fora de alcance no teu próprio

pensamento. Uma distância que só serviria

aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.

Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio

em que me mantinhas era mais urgente

que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo

mas eu perdia sempre alguma coisa

quando te ganhava. Às vezes era só

a minha vontade, outras vezes era toda a frase

do meu nome.

Rui Pires Cabral

Alma

Reflexos

Olho-te pelo reflexo

Do vidro

E o coração da noite



E o meu desejo de ti

São lágrimas por dentro,

Tão doídas e fundas

Que se não fosse:



o tempo de viver;

e a gente em social desencontrado;

e se tivesse a força;

e a janela ao meu lado

fosse alta e oportuna,



invadia de amor o teu reflexo

e em estilhaços de vidro

mergulhava em ti


Ana Luísa Amaral

João de todo o Rio

Mais atual do que nunca, o jornalista e escritor que encantou e chocou o Brasil do início do século XX ganha nova versão de sua biografia e filme


Há casos em que o biógrafo pode virar uma espécie de parteiro do renascimento de seu personagem. Foi o que aconteceu com o jornalista e pesquisador João Carlos Rodrigues, que, na quarta-feira, lança na livraria DaConde “João do Rio: vida, paixão e obra” (Civilização Brasileira), nova versão do revelador livro “João do Rio: uma biografia”, que publicou em 1996 pela Topbooks. Na época, Rodrigues já tinha feito bastante pela recuperação da obra do jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo

então quase esquecido, mas que, entre integrantes da sociedade carioca letrada do início do século XX, flanava com status de popstar.

— No fim dos anos 70, o jornal “Lampião”, de Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, queria fazer uma editora e propus uma antologia de João do Rio, autor que eu era um dos poucos de minha geração a conhecer, e sabia sensacional — explica Rodrigues, de 61 anos, que, não tendo visto o projeto do “Lampião” avançar, resolveu aproveitar o centenário de nascimento de seu personagem, em 1981, e sondar outras opções. — Botei tudo num envelope e mandei pelo correio para três editoras importantes. Menos de uma semana depois, Ivan Cavalcanti Proença, então na José Olympio, me ligou. Fui lá, assinei o contrato, e o livro saiu com o título “Histórias da gente alegre”. Fácil assim. No entanto, despertou a ira de Josué Montello, mas recebi uma boa crítica de Silviano Santiago, e segui pesquisando.

No início dos anos 90, Rodrigues frequentou por dois anos, quase que diariamente, a Biblioteca Nacional atrás de textos inéditos de João do Rio para um novo trabalho. A coleta foi tão frutífera que rendeu um Catálogo Bibliográfico, editado pelo Arquivo da Cidade, hoje raríssimo. — Localizei cerca de 2.500 artigos e reportagens de jornal sobre variados assuntos, da crônica da cidade à política internacional. Poucos sabem, mas ele cobriu a Conferência de Versalhes, que definiu os rumos do mundo após a Primeira Guerra Mundial — relata Rodrigues, que também descobriu textos nos quais ele foi ghost writer, como as memórias do marinheiro João Cândido, ou o delicioso “Memórias de um rato de hotel”, ditado por um preso na cadeia. — Com tanta novidade, vi que havia material para uma biografia mais completa do que a existente, de Raimundo Magalhães Junior.

Com esse material nas mãos, Rodrigues concorreu à Bolsa Vitae, em 1993, e ganhou: — O livro foi editado em 1996 e despertou ódios e amores muito exacerbados, o que me espantou, pois se trata de um autor do tempo da Velha República! Uma famosa revista dedicou quatro páginas a falar mal de mim e dele. Um resenhista sugeriu que eu queimasse a edição.

Ou seja, foi a consagração. E assim virou uma espécie de clássico de referência, pois fala do autor, da obra e da época. Desde então, a redescoberta vem crescendo: o próprio Rodrigues preparou três reedições de textos de João do Rio, enquanto não param de surgir estudos acadêmicos — na Unicamp, na PUCRJ, na UFRJ, na Casa de Rui Barbosa.

No momento, o ator Marcus Alvisi tem lotado o Espaço Sesc, em Copacabana, com o monólogo “Dentro da noite”, que idealizou e montou pela primeira vez em 2002, a partir de dois contos de João do Rio. Agora com direção do cantor Ney Matogrosso, outro apaixonado pelo autor, a temporada vai até 19 de dezembro. Há também um filme em andamento, “Muitos homens num homem só”, coprodução da Conspiração com Flávio Tambellini, que será dirigido por Mini Kerti. — O roteiro é livremente inspirado em “Memórias de um rato de hotel”, mas tem personagens famosos e de outros livros dele, como o Barão Belford e Eva — diz a cineasta. — Além disso, eu e o roteirista Leandro Assis inserimos o Felix Pacheco, que sai no encalço do personagem principal, Dr. Antônio. O Dr. Antônio, aliás, é um personagem verídico, inclusive com fotos em jornal ilustrando o artigo do João do Rio sobre ele. Lemos vários livros dele para trazer o clima da época para o roteiro, que se passa no início do século passado, durante as renovações de Pereira Passos e as vacinas de Oswaldo Cruz.

Pioneiro nesse movimento, Rodrigues comemora e quer mais: — João do Rio é tão complexo que dá para todos. Mulato, gordo, homossexual — um dândi, que escandalizava a sociedade da época com seu vestuário extravagante e suas falas e posturas afetadas —, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto veio de família pobre e, ainda adolescente, mostrou seus dotes literários. Talento que o levaria à Academia Brasileira de Letras, em 1910, aos 29 anos, na sua terceira tentativa,

sendo o primeiro a tomar posse usando o “fardão dos imortais”. Reconhecido em Portugal, que visitou pela primeira vez em 1908, quando também conheceu a França, cicerone e amigo de Isadora Duncan na passagem da bailarina pelo Rio, ele estava em todas. Mas, da mesma forma como rapidamente ascendeu socialmente, João do Rio (um de seus muitos pseudônimos, o mais famoso, criado em 1903) foi logo esquecido após sua morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, em junho de 1921, a menos de dois meses de seus 40 anos. Além dos livros fora de catálogo, era apenas o nome da Rua Paulo Barreto, em Botafogo.

No mundo do início do século XX, homossexualidade, mais do que tabu, era crime. Daí, como Rodrigues comenta, João do Rio não assumir a sua orientação sexual: — Ele se aborrecia quando alguém tocava no assunto. Mas, por outro lado, provocava. Raspou a cara quando todo homem que se prezava, fora os padres, usava barba ou

bigode. Vestia um fraque todo branco, outro todo verde, e os homens respeitáveis só vestiam preto, marrom ou cinza. Falava de forma muito afetada, e Gilberto Amado conta que juntavam curiosos na porta dos jornais onde trabalhava apenas para vê-lo falar, cheio de caras e bocas. Isso provocou uma reação homofóbica dos jacobinos, como era conhecida a extrema direita da época. João do Rio foi espancado num restaurante do Largo da Carioca por oficiais da Marinha. Enquanto Humberto de Campos e Antonio Torres encabeçaram uma das campanhas mais sórdidas já feitas contra um jornalista por seus colegas de profissão. Típico bullying.

Apesar desses incidentes, Rodrigues não acredita que a homossexualidade tenha contribuído para o esquecimento de João do Rio. Em contrapartida, influiu decisivamente

nesse redescobrimento dos últimos anos. Detalhe pessoal que o aproximaria do escritor inglês Oscar Wilde, num paralelo que também é possível ao analisar sua obra literária. — A comparação é pertinente porque realmente há mais do que simples coincidências. O estilo camp, a ironia, as frases de efeito, os adornos de estilo que quase escondem a preocupação social e as simpatias libertárias. E ele traduziu Wilde, “Intenções”, “O retrato de Dorian Gray” e “Salomé” — lista Rodrigues.

— Susan Sontag afirmou serem o camp e o art nouveau formas de expressão da sensibilidade homossexual. Certíssima. Mas o paralelo com Wilde pode também ser redutor porque João do Rio foi bem mais que um pastiche da cultura estrangeira. É o cronista carioca por excelência, ao lado de Machado de Assis, Lima Barreto, Noel Rosa, Nelson Rodrigues. Boa parte da mitologia da cidade foi criada por ele. Se não tivesse existido, teria de ser inventado.

João do Rio era tão enfronhado na vida carioca que, ainda segundo Rodrigues, teria antecipado a ideia da “cidade partida” cunhada por Zuenir Ventura nos anos 90. Daí a permanência de sua obra, um século depois: — Bem, vivemos na “lesma lerda”, e a mesma maravilha. Injustiça social num belo cenário natural. Seres humanos interessantes e imprevisíveis na sua mistura de raças e cores e religiões. Bela cultura popular, interessante cultura decadente das elites. Em 1908, ele já acenava com o conceito de “uma cidade dentro da outra cidade”, falando de uma favela no morro de Santo Antonio.

Em seus textos, João do Rio também, de alguma forma, antecipa o novo jornalismo: — Na verdade, o jornalismo moderno nasceu em Paris e Londres no fim do século XIX e daí influenciou o mundo inteiro. Surgiram as manchetes, as fotografias, as charges, o lead, o subtexto, e principalmente a crônica e a reportagem. João do Rio foi um mestre nas duas. Visitou in loco centros de candomblé, subiu morros e favelas, frequentou casas de tias baianas na Saúde, fez crônica social entre grã-finos, entrou em todos os ambientes, escrevendo quase sempre na primeira pessoa. Ou seja, João de todo o Rio

Fonte – O GLOBO

Cuento de horror

La señora Smithson, de Londres (estas historias siempre ocurren entre ingleses) resolvió matar a su marido, no por nada sino porque estaba harta de él después de cincuenta años de matrimonio. Se lo dijo:



-Thaddeus, voy a matarte.



-Bromeas, Euphemia -se rió el infeliz.



-¿Cuándo he bromeado yo?



-Nunca, es verdad.



-¿Por qué habría de bromear ahora y justamente en un asunto tan serio?



-¿Y cómo me matarás? -siguió riendo Thaddeus Smithson.



-Todavía no lo sé. Quizá poniéndote todos los días una pequeña dosis de arsénico en la comida. Quizás aflojando una pieza en el motor del automóvil. O te haré rodar por la escalera, aprovecharé cuando estés dormido para aplastarte el cráneo con un candelabro de plata, conectaré a la bañera un cable de electricidad. Ya veremos.



El señor Smithson comprendió que su mujer no bromeaba. Perdió el sueño y el apetito. Enfermó del corazón, del sisema nervioso y de la cabeza. Seis meses después falleció. Euphemia Smithson, que era una mujer piadosa, le agradeció a Dios haberla librado de ser una asesina.

FIN


Fonte : Ciudad Seva