terça-feira, 21 de maio de 2013


Bertrand Russell escreveu certa vez que a tarefa de uma educação liberal é '' criar um sentido de valor diferente do de dominação, ajudar a criar os cidadãos sábios de uma comunidade livre e, através da combinação de cidadania com liberdade no âmbito da criatividade individual, capacitar as pessoas para dar à vida humana o esplendor que alguns poucos têm se mostrado capazes de atingir''.

-Noam Chomsky, em introdução ao livro ''Problemas do conhecimento e da liberdade''

Magma


Reportagem

O trem estacou, na manhã fria,
num lugar deserto, sem casa de estação:
a parada do Leprosário...

Um homem saltou, sem despedidas,
deixou o baú à beira da linha,
e foi andando. Ninguém lhe acenou...

Todos os passageiros olharam ao redor,
com medo de que o homem que saltara
tivesse viajado ao lado deles...

Gravado no dorso do bauzinho humilde,
não havia nome ou etiqueta de hotel:
só uma estampa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro...

O trem se pôs logo em marcha apressada,
e no apito rouco da locomotiva
gritava o impudor de uma nota de alívio...

Eu quis chamar o homem, para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe, sem se voltar nunca,
como quem não tem frente, como quem só tem costas...

- João Guimarães Rosa

Velório sem defunto


Nos salões do sonho
Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!

- Mario Quintana, in: Velório sem defunto, 1990.

“O cientista virou um mito. E todo mito é perigoso, porque ele induz o comportamento e inibe o pensamento. Este é um dos resultados engraçados (e trágicos) da ciência. Se existe uma classe especializada em pensar de maneira correta (os cientistas), os outros indivíduos são liberados da obrigação de pensar e podem simplesmente fazer o que os cientistas mandam. Quando o médico lhe dá uma receita você faz perguntas? Sabe como os medicamentos funcionam? Será que você se pergunta se o médico sabe como os medicamentos funcionam? Ele manda, a gente compra e toma. Não pensamos. Obedecemos. Não precisamos pensar, porque acreditamos que há indivíduos especializados e competentes em pensar. Pagamos para que ele pense por nós. E depois ainda dizem por aí que vivemos em uma civilização científica... O que eu disse dos médicos você pode aplicar a tudo. Os economistas tomam decisões e temos de obedecer. Os engenheiros e urbanistas dizem como devem ser as nossas cidades, e assim acontece. Dizem que o álcool será a solução para que nossos automóveis continuem a trafegar, e a agricultura se altera para que a palavra dos técnicos se cumpra. Afinal de contas, para que serve a nossa cabeça? Ainda podemos pensar? Adianta pensar?”

ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. 6 ª ed. São Paulo: Loyola, 2002

segunda-feira, 20 de maio de 2013

TEMPO





Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa
23-8-1934
Poesias Inéditas (1930-1935).

O PRAZER DO DIFÍCIL



O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de teatro que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários,
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente,
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

William Butler Yeats
Tradução: Augusto de Campos


domingo, 19 de maio de 2013


 “Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.”

Pablo Neruda

sábado, 18 de maio de 2013


Renato Janine Ribeiro

A redenção, pelo riso, de homens tristes. Li isso em Nosso homem em Havana, o engraçado livro de Graham Greene que se passa logo antes da vitória de Fidel. Uma moça se apaixona por um sério vendedor inglês de aspiradores de pó, quando vê que ele quer dar um banho de champagne no chefe da polícia política. E lembrei The key to Rebecca, o melhor romance de Ken Follett, em que a moça descobre, no sério e viúvo major que luta contra os nazistas, possibilidades insuspeitas de alegria. Livros bem diferentes, que têm isso em comum. A alegria às vezes está tão escondida que a pessoa nem sabe que a tem.

Serenata



Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles

AOS AMIGOS




Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder 

claro que morrerei




claro que morrerei e hão-de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei-de morrer totalmente

claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão-de pensar-se de novo
na humidade da terra

eu cá não quero caixão
nem roupa

que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti

Juan Gelman

"Podemos dizer que a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para distendê-la e aperfeiçoá-la. Ao exprimir o que outras pessoas sentem, também ele está modificando seu sentimento ao torná-lo mais consciente; ele está tornando as pessoas mais conscientes daquilo que já sentem, e por conseguinte, ensinando-lhes algo mais sobre si próprias. Mas o poeta não é apenas uma pessoa mais consciente do que as outras; é também individualmente distinto de outra pessoa, assim como de outros poetas, e pode fazer com que seus leitores partilhem conscientemente de novos sentimentos que ainda não haviam experimentado. Essa é a diferença entre o escritor que é apenas excêntrico ou louco e o autêntico poeta. Aquele primeiro pode ter sentimentos que são únicos, mas que não podem ser partilhados, e que por isso são inúteis; o último descobre novas variantes da sensibilidade das quais os outros podem se apropriar. E, ao expressá-las, desenvolve e enriquece a língua que fala."

T. S. Eliot

As noites suburbanas de Moscou




Não se ouvem no jardim nem sussurros
Tudo aqui está parado até a manhã.
Se vocês soubessem como me são queridas
As noites suburbanas de Moscou.

O rio avança... e não avança
Todo prateado de luar
Uma música é... e não é ouvida
Nestas noites silenciosas.

E se você, doçura, olhar atentamente, de soslaio,
A cabeça baixa, inclinada?
Dificilmente adivinharia, e não adivinharia
Tudo o que há no meu coração.

Mas à alva já tudo é visível...
Assim, por favor, seja boazinha.
Não esqueça dessas noites de verão
No subúrbio de Moscou!

*em russo*

~Подмосковные вечера

Не слышны в саду даже шорохи,
Всё здесь замерло до утра.
Eсли б знали вы, как мне дороги
Подмосковные вечера.

Речка движется и не движется,
Вся из лунного серебра.
Песня слышится и не слышится
В эти тихие вечера.
.
Что ж ты, милая, смотришь искоса,
Низко голову наклоня?
Трудно высказать и не высказать
Всё, что на сердце у меня.
.
А рассвет уже всё заметнее.
Так, пожалуйста, будь добра.
Не забудь и ты эти летние
Подмосковные вечера.

Prometeo




Al nacer mi efímera existencia
In a distance covered
Buscaba, mutilada, el estertor,
-and lost in the universe-
mas en la nostalgia moribunda
a full poem exists,
hay sólo un angustioso sufrimiento luego
but dies off due to a perverse dream;
y un hastío sublime e inmortal.

Because a wicked dream never
Podría ser Prometeo en agonía,
could be the imagination
la muda respuesta del viento;
of the wind that rest
en el aburrimiento de la vida y
into the death that leaks;
que nada atrapa por desesperación.

La muerte es sempiterna,
life is a dream,
la resurrección me ha dejado insatisfecho:
dream is death,
sueño que muero ahora,
death means nothing…
pero aún vivo, estoy muerto…

Adán Cabral Sanguino.México
Fonte;Poetas de Sonora

Memórias do Cárcere


Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.
 
[Graciliano Ramos | Memórias do Cárcere]
 
 

Sarça Ardente



5
 
Entrei profundas grutas tenebrosas
Onde os anos e os séculos pararam.
Chão que nunca viu sol nem sonhou rosas,
Os meus lábios gretados o afloraram.
Colado o ouvido às pedras alterosas
E aos terríveis silêncios que pesaram,
Quis ir tentar sentir arfar teu peito,
Mãe Terra!, meu primeiro e último leito.
 
(José Régio, in As Encruzilhadas de Deus)
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

BLASÓN


Un día como hoy, en 1875, nace en Lima, José Santos Chocano, conocido como «El Cantor de América», autor de "Iras Santas", "Alma América", "Fiat Lux", entre otras.

BLASÓN

Soy el cantor de América autóctono y salvaje:
mi lira tiene un alma, mi canto un ideal.
Mi verso no se mece colgado de un ramaje
con vaivén pausado de hamaca tropical...

Cuando me siento inca, le rindo vasallaje
al Sol, que me da el cetro de su poder real;
cuando me siento hispano y evoco el coloniaje
parecen mis estrofas trompetas de cristal.

Mi fantasía viene de un abolengo moro:
los Andes son de plata, pero el león, de oro,
y las dos castas fundo con épico fragor.

La sangre es española e incaico es el latido;
y de no ser Poeta, quizá yo hubiera sido
un blanco aventurero o un indio emperador.
Adriana Zapparoli
efetos de un milagro extraño. deste infierno, una tempestad de ilusiones. la herida cicatriza. viajan, sin amargura, sus pensamientos el sigilo, en su propia ternura de siglos.
un monstruo nocturno. mutilado de lengua. las ligaduras, y el cerebelo,
su camino escucha el espejo y mira el silencio: un beso,
sin dientes la hoz.

A Montanha Mágica


” Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si ? Não, isso seria em verdade uma empresa tola. Uma história que rezasse: ‘o tempo decorria, escoava-se, seguia seu curso’ e assim por diante – nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história.''
- Hans Castorp.
[Thomas Mann; ''A Montanha Mágica''...capítulo sexto, página:739]

segunda-feira, 13 de maio de 2013

medidas de QI de membros de culturas diferentes


Falando de medidas de QI de membros de culturas diferentes, cito Timothy Mulholland: "Por mais que se esforçassem, nos últimos 100 anos, os pesquisadores da "inteligência" nunca conseguiram elaborar medidas livres da influência cultural. "Culture-free intelligence" does not exist. No final das contas, o que se avalia é o quanto o outro se parece comigo (ou meu grupo cultural). Ai se conclui o óbvio, eles são diferentes de nós--pra menos. Eu achava esse tema vencido nos anos 70. O ressurgimento agora só tem explicação ideológica, pois a científica inexiste."

Renato Janine Ribeiro

A Montanha Mágica


“No fundo constitui fenômeno esquisito esse processo de aclimatação num lugar estranho, a adaptação – por mais laboriosa que seja – e a mudança de hábitos à qual as pessoas se submetem só para variar e na intenção firme de abandoná-la imediatamente ou pouco depois de completada, a fim de voltarem ao estado anterior. Intercala-se tal processo como uma espécie de interrupção ou entreato, no curso principal da vida, e isso para fins de ‘restabelecimento’, quer dizer: para exercitar, renovar e revolucionar o organismo que corria perigo, e já estava a ponto de se amimalhar, de enlanguescer e de entibiar, na desarticulada monotonia da existência rotineira''

- Hans Castorp
[ Thomas Mann; '' A Montanha Mágica'']

Michel Lambert De Thomas Mann, j'ai lu "La Mort à Venise" (Der Tod in Venedig) ainsi que l'adaptation cinématographique de Luchino Visconti (avec la superbe musique de Gustav Mahler*).
J'ai lu aussi "La Montagne Magique" (Der Zauberberg) ; l'histoire vécue par Hans Castorp dans un sanatorium de Davos où il se rend pour visiter un cousin, puis se retrouve lui-même confiné dans l'établissement, observant les malades et convalescents et s'acclimatant avec peine à ce monde étrange, à cet air rude et pur, à cette existence d'oisiveté perpétuelle et de méditation sans frein...

Deux extraits :
(Le Docteur Krokovsky) : "... l'amour ne se laissait pas baîlloner, ne se laissait pas violenter... Il brisait le cercle magique de la chasteté et reparaissait, encore que sous une forme transformée et méconnaissable. Et quels étaient donc la forme et le masque sous lesquels l'amour non admis et refoulé réapparaissait ?... Le Docteur Krokovski dit : "Sous la forme de la maladie." Le symptôme de la maladie était une activité amoureuse déguisée et toute maladie était de l'amour métamorphosé..."

(Réflexions de Hans Castorp sur la matière et la maladie) : 
"... La maladie était la forme dépravée de la vie. Et la vie pour sa part ? Peut-être n'était-elle, elle aussi, qu'une maladie infectieuse de la matière, de même que ce qu'on pouvait appeler la genèse originelle de la matière n'était peut-être que maladie, que réflexe et prolifération de l'immatériel ? Le premier pas vers le mal, la volupté et la mort était sans nul doute parti de là où, provoqué par le chatouillement d'une infiltration inconnue, cette première condensation de l'esprit, cette végétation pathologique et surabondante de son tissu s'était produite qui, mi-plaisir, mi-défense, constituait le premier degré du substantiel, la transition de l'immatériel au matériel. C'était le péché originel..."

(*) Gustav Mahler, Symphonie n° 5 Adagietto :
http://www.youtube.com/watch?v=VWPACef2_eYVer tradução
Michel Lambert P.S. Tullio, pourrais-tu me dire de quel chapitre vient ton extrait ? C'est pour que je puisse le lire en bon français ! Ver tradução
Tullio Sartini não lhe foi a doença, Angela, e sim a saúde, também o anseio de ir mais longe, esperava o Olympo e o que lá encontrou não foram deuses e sim mortais; adoeceu, e refletiu que só no limite, onde se afia a morte na vida, pode-se visualizar a subida para existência, o 'ser-aí '
Tullio Sartini Oui,Michel, je peux essayer; fait partie de mes notes dans des mon cahier, que je lu du livre en portugais; ici à la maison [Teresópolis] j'ai seulement l'original allemand, quand je descends à Rio de Janeiro, je te pourrais voir la bibliothèque française.
[ deuxième chapitre- page: 145]