segunda-feira, 21 de junho de 2010

De uma ranhura

Elisa Biagini


escrevo-me entre as

ranhuras, nos nós

do lenho, com a

sujeira embaixo do tapete:



o escuro, que espera

entrar, gruma-se

de olheiras.



*



como na folha

enrrugada

que se alisa

resta a

marca

ranhura

que nos colore

a tinta.

(nós nos encharcamos

de infinitas arestas)


*



só me avistam

em contraluz,

matéria como

clara de ovo,

pátina através dos poros

pelo entalhe:

um alfabeto braille

de ossos sequiosos

por sair.



*



e o dorso

ranha-se, estojo

de sementes

que empurram,

apartam-se em galhos,

moita de dedos

que nunca toca,

corta o ar a unhaço.



Tradução: Aurora Bernardini e Régis Bonvicino



Da una crepa

mi scrivo tra le

crepe, nei nodi

del legno, nella

polvere sotto il tappeto:



il buio, che aspetta

d’entrare, s’aggruma

d’occhiaie.


*

come su foglio

accartocciato

che si liscia

resta il

segno

crepa

a coloraci

l’inchiostro.



(noi ci imbeviamo

d’infiniti spigoli.)


*

mi si vede solo

in controluce,

materia come

chiara d’uovo,

patina gocciolata

dalla crepa:

un alfabeto braille

d’ossa che vogliono

uscire.


*


e la schiena si

crepa, astuccio

di semi

che spingono,

che s’aprono in rami,

cespuglio di dita

che mai giunge a toccare,

che taglia l’aria d’unghia.



Fonte SIBILA



Elisa Biagini nasceu em Florença, Itália, em 1970, onde se formou em História da Arte Contemporânea. Logo em seguida ao mestrado, mudou-se para os Estados Unidos para estudar e escrever uma tese de doutorado em Literatura Italiana Contemporânea. Trabalhou como professora em universidades norte-americanas, onde viveu por cinco anos. Seus poemas têm sido publicados em revistas literárias italianas importantes. Elisa Biagini publicou dois livros de poemas: Questi nodi (1993) e Uova (1999), este em versão bilíngüe italiano/inglês. Além disso, é tradutora da poesia de Sharon Olds e de Alicia Ostriker.

domingo, 20 de junho de 2010

Milton Santos no Jô Soares - 1993 (parte1)

Milton Santos - 1/ 11 - Programa Roda Viva

Milton Santos: Esperança (10 de 10)

Milton Santos: Esperança (9 de 10)

Milton Santos: Esperança (8 de 10)

Nicolás Guillén: Canto Negro, Mulata y Sensemayá

Não há amor , se não há liberdade
ária de Rigoletto
intermezzo


Esta ou aquela para mim são iguais

às outras que à volta, à volta eu vejo;

do meu amor o império não cedo

a uma que a outra beldade.

A beldade delas é um mimo

com que o fado enflora a vida;

se hoje esta se torna aprazível,

talvez outra, talvez outra o seja amanhã,

outra, talvez outra o seja amanhã.

A fidelidade, tirana do amor,

detestamos qual morbo, qual morbo terrível;

só quem quiser, fiel se mantenha;

não há amor, se não há liberdade.









Questa o Quella



Questa o quella per me pari sono

a quant’altre d’intorno, d’intorno mi vedo;

del mio core l’impero non cedo

meglio ad una che ad altra beltà.

La costoro avvenenza è qual dono

di che il fato ne infiora la vita;

s’oggi questa mi torna gradita,

forse un’altra, forse un’altra doman lo sarà,

un’altra, forse un’altra doman lo sarà. outra,

La costanza, tiranna del core,

detestiamo qual morbo, qual morbo crudele;

sol chi vuole si serbi fedele;

non v’ha amor, se non v’è libertà

Mademoiselle Chambon - Trailer

Maria Joao Pires, Pierre Boulez, BPO - Mozart piano concerto No. 20 - me...

A mulher nua

Sérgio Sant’Anna – Projeto Releituras

É no aposento também nu, absolutamente nu, postada próxima ao ângulo formado por duas paredes pintadas de verde, uma recebendo mais claridade do que a outra, e pisando o chão liso, neutro, de um bege esverdeado, que a mulher nua, ao fundo – um falso fundo, porque não distante de nós — se oferece ao nosso olhar. o fato de a mulher estar calçada com sapatos cor-de-rosa, de salto alto, e segurar pela alça, com a mão direita, uma bolsa da mesma cor não a deixa menos nua, pelo contrário. Mas tornaremos a isso mais tarde.



Antes, é preciso apontar que, para a completa nudez da mulher nua, é indispensável que não haja mobiliário ou objetos que dispersem a nossa atenção pelo aposento. Mas dizer que ela se encontra em um aposento, já não terá sido cair num ardil?Pois o espaço que a circunscreve se reduz aos elementos mais primários, primordiais; a três planos pintados — não há nem mesmo um plano para o teto — que se limitam reciprocamente, criando um espaço,uma perspectiva,um cenário impecavelmente despido,para que a mulher nua se exponha ao nosso olhar, capture-o — na verdade, somos trazidos para dentro da peça — sob uma luz feita de tintas que não se ostentam; luz que é toda para a mulher nua e que emana também dela própria, de seu corpo branco, regado, pigmentado, com o rubor da vida que estará circulando em seu interior e irrompe nos bicos dos seios, os quais, juntamente com o que se abriga sob os pêlos castanho-negros entre as pernas, são como que as verdadeiras e puras fontes dessa mulher.



Um atributo notável da mulher nua é que, apesar de sua prisão solitária na tela, ela nunca se encontra sozinha, eis que sempre nos olha, nos encara fixamente quando a olhamos. Jamais poderemos ser voyeurs secretos,ela sempre nos observará, nos penetrará agudamente, revelando-nos como funciona o nosso desejo e, portanto, quem somos, e isso valerá tanto para homens quanto para mulheres. Sua presença é muito diversa daquela de nus pintados por pintores oniscientes da solidão, como Edward Hopper, em seus, por exemplo, Eleven A. M. (1926) e Moming in a City (1944),em que mulheres nuas, sozinhas em seus quartos, completamente distraídas de seus corpos, vistos de perfil e já marcados pelo tempo, contemplam pedaços de cidades lá fora, nesgas de edifícios,tão desolados quanto elas, as mulheres nos quadros. E se falamos em onisciência é porque o pintor, em princípio, não poderia estar no espaço delas, nem vê-las. Então é bem como no cinema, quando se oculta a técnica que nos propicia estar ali, no convívio dos personagens. O cinema, que não escapou a Hopper em NewYork Movie (1939):de um lado, a sala de projeção, com seus escassos espectadores que se perdem no que se passa na tela; do lado de fora, no estreito saguão, a moça de uniforme, a lanterninha, com a mão no rosto, profundamente absorvida em seus pensamentos — ah, a eterna prisão dos pensamentos —, e quase não resistimos a ler na expressão da moça, sendo ela tão jovem, a tristeza de algum amor desfeito, ou distante: uma saudade.



Falecido em 1967, Hopper se torna cada vez mais popular, em reproduções nas paredes de lojas, consultórios, capas de livro, lanchonetes e lares, expressando os sentimentos de solidão que todos identificam: perfeitos e poéticos lugares-comuns.



Já esta mulher nua é, para mim, e suponho que para outros — e por motivos que irão se revelando —, única. Não tem nada a ver, também, com os nus de ateliê e com os pintores que revelam, de algum modo, numa obra, sua relação ou atração pela modelo, como Goya e sua La Maja desnuda (1800/3) ,sem negar o que ela tem de enigmático no olhar que concede ao pintor pintando-a, o qual, conclui-se, a deseja e é desejado, ainda que a modelo possa retirar seu maior prazer e excitação desse olhar de homem que a acaricia e eterniza jovem, bela e nua. E, pelo menos a mim, me parece que Goya fixou o olhar da modelo (esqueçamo-nos de fofocas da corte, que a deram como a duquesa de Alba, disfarçada) quando ela mirava a si própria, no quadro já esboçado. E não terá se alimentado uma relação amorosa, ou simplesmente carnal, tanto para ele como para ela, primordialmente dessa representação? De todo modo, o olhar da Maja, como Goya o pintou, também atravessa o pintor para dirigir-se a todos os que a contemplariam pelos séculos afora, mas ficará para sempre flagrante a pose de ateliê, a conjunção pintor-modelo, o primeiro absolutamente explícito na pose da segunda,o que torna La Maja desnuda, em corpo e espírito, tão distante de nossa mulherzinha nua.



Antes de voltarmos a ela, não custa apontar que um nu tão radical, tão feroz em sua conversão extremada da mulher a signos de pura sexualidade e pura pintura,como Nude in an Armchair (1929),de Pablo Picasso,essa obra-prima e triunfo implacável do moderno, foi também pintura de ateliê (e se não foi, foi feita como se fosse), ambientada, é claro, num estúdio falsificado, com acréscimos e citações, de Matisse a Malevitch, intrometidos na cena pela imaginação requintada e rigorosa, pelo espírito lúdico, pela lucidez e pelo gênio de Picasso. Mas é difícil crer que uma mulher de carne e osso não se sentou ali na poltrona vermelha para que o pintor a devassasse inteiramente, a desconstruísse e reconstruísse, a fodesse de todos os modos, numa explosão de porra também pictórica.



Voltando à nossa mulherzinha — tão valorosa, entre outras coisas, porque a sujeitamos a comparações duríssimas -, uma de suas maiores diferenças não estaria no fato de ter sido pintada por uma mulher? Em parte sim, mas não apenas por isso, pois nada impede que haja pintoras que estabeleçam, com maior ou menor envolvimento e afeição, uma relação íntima com suas modelos, que podem ser até elas próprias, como nos film-stills da norte-americana Cindy Sherman, criando personagens para si — e que não deixam de ser ela mesma — em flagrantes de atuações dramáticas, que até precisam que outro, sem se tornar o artista, empunhe a câmera sob a direção de Cindy, artista exemplar da nossa contemporaneidade, da passagem do século vinte para o século vinte e um.



Para Cindy, tornam-se essencialíssimos, embora sem ostentação, os figurinos, enquanto o figurino de nossa mulher nua, apesar dos adereços cor-de-rosa, é sua própria nudez, pois se trata de uma nudez criada, realçada, e algo certamente fundamental é que foi pintada sem a utilização de nenhuma modelo, o que não terá impedido que a artista passasse a amar sua criatura. Mas se trata, esta criatura, da materialização de uma subjetividade ultrafigurativa, e logo trataremos disso, que é uma diferença muito importante.



Antes, quero voltar ao aparente paradoxo de a mulher estar sempre sozinha e sempre conosco. Talvez se possa ir mais longe para dizer que essa mulher, mesmo que o quadro seja relegado aos porões, estará sempre à nossa espreita, desde que foi aprisionada, em 1999, em seu pequeno mas elástico espaço de 43 X 31 cm. E tão logo abrirmos a página do livro, ou do catálogo da exposição em que estiver reproduzida, ou, ainda, passarmos entre os quadros dessa exposição, não apenas seremos fatalmente atraídos para ela, como teremos a sensação de que ela já nos olhava, até mesmo pelas costas, desafiando-nos a decifrá-la e, por que não?, desejá-la, mas de um modo especial, singular, inclusive porque existe algo de artisticamente traiçoeiro, suspeito, nessa pintura tão inesperada, nessa mulher que nos enreda em sua nudez. E há um naturalismo deliberado nessa obra, que a arremessa ao limite do artístico, ela não pertence a nenhuma escola ou contemporaneidade codificada, eis um de seus inegáveis atrativos.



Ah, uma reles sedutora, poderão dizer, tanto da artista como da personagem, com seus truques até baratos e vulgares, como esse de usar sapatos e bolsa cor-de-rosa — uma cor fútil —, os quais, pela razão e poder dos fetiches, nos permitem um acesso maior à sua nudez, têm uma relação indiscutível e inexplicavelmente íntima com os biquinhos de seus seios e sua xoxota escondida sob os pêlos, como se fosse uma profissional num cenário e sob uma iluminação espertos, dotando aquele corpo de uma auréola suculenta de pecado, fazendo com que ele pareça até tangível, ali naquele falso fundo de um falso aposento.



Mas o que dizer da postura estática e algo tensa da mulher nua, ao mesmo tempo defensiva e provocadora? De seus olhos arregalados, vítreos, fixos, simultaneamente amedrontados e desafiadores? De tudo o que revelam de timidez e arrojo simultâneos, uma coisa tendo a ver com a outra? E pode-se perguntar se uma mulher não se torna tímida, entre outras coisas, para conter o que, do contrário, poderia levá-la a ultrapassar os limites mais loucos e inconcebíveis, fronteiras sobre as quais a pintora talvez haja passeado o tempo todo, à medida que ia se definindo o quadro, e que estão refletidas nele. Esse quadro a respeito do qual “o outro” — no caso agora eu — poderá dizer o que quiser.



E aqui é chegada a hora de ir ao ponto principal: com seu corpo rechonchudinho, apesar de firme — inegavelmente gostosa —, a mulher nua em nada se assemelha a uma atriz ou modelo, ou a qualquer outro tipo de profissional que posasse nua, conhecedora de todos os truques do métier. Ao contrário, e por isso a chamamos de mulherzinha, sem nenhum menosprezo, é a mulher comum – por exemplo, uma dona-de-casa – que de repente se revestisse, ainda que se despindo, de suas e nossas fantasias e caprichos, como a da puta que fosse pura, amadora, Belle de jour, como Catherine Deneuve angelical no filme de Buñuel, e isso talvez explique por que nos sentimos tão fascinados por ela, a desejamos tanto, e tento eu cingi-Ia com palavras que me façam possuí-la para sempre, aqui, neste estágio do desejo antes de sua satisfação, o que mantém esse desejo permanentemente aceso.



Poderá ela também despertar o desejo adormecido, talvez mesmo desconhecido, de outras mulheres; em algumas para, verdadeiramente, quererem tê-la nos braços; noutras, o desejo que já terão sentido algum dia, com o coração batendo, de se mostrarem assim, tão nuas, aos olhares de todos, nem que para isso tivessem de idealizar um outro corpo para si, mas que é parente do seu e semelhante a ele.



Mas se foi a pintora, é certo, que projetou, conscientemente ou não, uma imagem e idéia de seu corpo na tela, não fez como a grande e autoconsciente artista plástica que se maquiasse, sofisticada, para o grande salão. Com um requinte bruto, ela se pintou com a fantasia da mulher comum, a mulherzinha, repetimos, que também é — e penso nela, com um vestido caseiro, fritando um ovo —, que cedesse à sua audácia mais escondida. E eis que esse quadro nos dá uma sensação tão grande de intimidade, de penetração nos segredos femininos, nos segredos da artista, que nos exibe seus devaneios sensuais. Porém, não há a promiscuidade da mais leve pornografia (ou será que há, talvez sutil?), nem a falsa naturalidade do deitar-se, ou do banho, ou das carícias no próprio corpo, da languidez feminina tão cara a certos pintores homens de outra época.



Antes de tudo, a artista, a mulher nua, sem nenhuma modelo, pintou e pintou-se para si própria. Mas nessa sua intimidade que nos inclui, pelo olhar que trocamos, a mulher nua parece estar a nos dizer que nos deixaria tocar e gozar de seu corpo, de suas puras fontes femininas, se nos fosse possível dar dois ou três passos no aposento em que estamos junto com ela. No entanto, só o poderemos fazer com a visão, mas há, aqui, na carnalidade desse quadro, uma visão tátil, ouso dizer, que nos torna, de algum modo, possuidores do corpo da mulher nua, embora todo movimento fosse fatal para a sua estática e elegante sensualidade.



Altiva, solitária, misteriosa, ela então se dá a cada um de nós desse modo, e poderemos ter esse sentimento tão raro diante de uma mulher pintada, que é o de não só desejá-la, como também amá-la perdidamente.



(A mulher nua é a figurante de um quadro sem título de Cristina Salgado, pintado em 1999.)



O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado. Este bem podia ser o mote da obra de Sérgio Sant’Anna, escritor que, desde a sua estréia com “O sobrevivente”, em 1969 (que lhe valeu a participação no International Writing Program, da Universidade de Iowa, EUA), vem quebrando regras, ampliando contornos, questionando agudamente os limites do conto, em busca de uma nova experiência do narrar.



Sérgio Sant’Anna é carioca, nascido em 1941. Além de “O sobrevivente” (1969), publicou “Notas de Manfredo Rangel, repórter (A respeito de Kramer)” (1973), “Simulacros” (1977), “O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (1982), “Amazona” (1986), “Senhorita Simpson” (1989), “Breve história do espírito” (1991), “O monstro” (1994) e “Contos e novelas reunidos” (1997). Ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti e também, por duas vezes, foi agraciado com o prêmio Status de Literatura.



O livro “Senhorita Simpson” foi adaptado para o cinema e se transformou em “Bossa Nova”, filme de sucesso de Bruno Barreto.



O texto acima foi extraído do livro “O Vôo da madrugada” (Prêmio Jabuti 2004), Ed. Cia. das Letras – 2003 – São Paulo (SP), pág. 211.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A Matéria do Poema

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale


do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e

do céu em que habitam.

Quero um poema puro, limpo

do lixo das coisas banais, das contaminações de quem

só olha para o chão; um poema onde o sublime nos

toque, e o poético seja a palavra plena.

Nuno Júdice

sábado, 12 de junho de 2010

O Beijo

O alumbramento dos corpos




ALUMBRAMENTO



Eu vi os céus! Eu vi os céus!

Oh, essa angélica brancura

Sem tristes pejos e sem véus!



Nem uma nuvem de amargura

Vem a alma desassossegar.

E sinto-a bela… e sinto-a pura…



Eu vi nevar! Eu vi nevar!

Oh, cristalizações da bruma

A amortalhar, a cintilar!



Eu vi o mar! Lírios de espuma

Vinham desabrochar à flor

Da água que o vento desapruma…



Eu vi a estrela do pastor…

Vi a licorne alvinitente!…

Vi… vi o rastro do Senhor!…



E vi a Via-Láctea ardente…

Vi comunhões… capelas… véus…

Súbito… alucinadamente…

Vi carros triunfais… troféus…

Pérolas grandes como a lua…

Eu vi os céus! Eu vi os céus!

- Eu vi-a nua… toda nua!


Manuel Bandeira
Clavadel, 1913.

With the Lincoln Brigade

O sexo é sagrado

O sexo é sagrado…



Cláudia Marczak



O sexo é sagrado,

como salgadas são as gotas de suor

que brotam dos meus poros

e encharcam nossas peles.

A noite é meu templo

onde me torno uma deusa enlouquecida

sentindo teus pelos sobre a minha pele.

Neste instante já não sou nada,

somente corpo,

boca,

pele,

pêlos,

línguas,

bocas.

E a vida brota da semente,

dos poucos segundos de êxtase.

Tuas mãos como um brinquedo

passeiam pelo meu corpo.

Não revelam segredos

desvendam apenas o pudor do mundo,

descobrem a febre dos animais.

Então nos tornamos um

ao mesmo tempo em que

a escuridão explode em festa.

A noite amanhece sem versos,

com a música do seu hálito ofegante.

O sol brota de dentro de mim.

Breves segundos.

Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.

Eu fui feliz

Cláudia Marczak
http://www.cseabra.utopia.com.br/

sábado, 5 de junho de 2010

Pavana para uma terra viva

Do sol a terceira cria,
Baila noite,baila dia,
E nem faz caso de trilhos.
Lá vai a Terra, meus filhos,
Levando seus assassinos,
Lá vai a Terra, meninos.

Tirada de sua creche,
De maus tratos envelhece
Sem ter usado espartilhos.
Lá vai a Terra, meus filhos,
Levando seus assassinos,
Lá vai a Terra, meninos

É Carnaval

Viva os Pedros - Leonardos
do monturo !
Que unam ouro e cinza
em suas mãos
Pra não sermos pra
sempre pré-futuro,
pré-livres, pré-país,
pré-cidadãos!
Os dois meninos, juntos,
se salvaram
de gente infame,
hipócrita e covarde
porque se uniram e não
malbarataram
o laço luso-brasileiro
da amizade.
Nesse país, que é puro e
depravado
de morte e canto,
gozos e agonias,
A verdade é que Momo,
rei safado, reina trezentos e
sessenta e cinco dias !
Bastardos , chalaças,
libertinos,
entoam vivas ao Brasil Real
Facínoras,ébrios,
fesceninos,
saúdam Pedro e Leonardo,
é carnaval!
É Carnaval!
É Carnaval!
é Carnaval!
È Carnaval!
La conoscenza è nella nostalgia.

Chi non si è perso non possiede.



O conhecimento está na nostalgia.

Quem não se perdeu não se apropria.



XXVI

In sogno

ti ho sentita gridare

Un grido

similar a quello che aveva straziato

la notte

all’ inizio del male.

Un grido d’ ira,

o creatura,

contro le figlie, te stessa

e la morte.



XXVI

Em sonho

te senti gritar

um grito

similar àquele que havia dilacerado

a noite

nos primórdios do mal.

Um grito de raiva,

ó criatura,

contra as filhas, contra ti

e a morte.



XVII

O dolce sonno

Ingannala ancora tu,

un poco.

Consuma queste ultime ore,

e, inavvertito,

falle valicare la soglia.



XVII

Ó doce sono

a engana tu, ainda

um pouco

consuma estas últimas horas

e, inadvertido,

fá-las ultrapassar o limiar



*



È Parola non Carne…

E finché resterà sospesa,

Io non entrerò nel destino.

Fui fanciullo, fui adolescente,

fui giovane… Tutto minaccia

di passare, anzi d’ essere passato

— una leggenda qualunque

alle mie spalle di morto…

Ed io la so, la Parola:

e come non potrei se son io

questo dato senza cifre,

questo Indefinito parlante?

Se son io questo vaso di miseria,

questa litania del peccato,

dell’ insoddisfazione, dell’ imperfetto,

questa voce ossessionata?

Non so far altro che ripetermi,

da anni, fin da quando

— ansioso Indiziato —

cominciai a smantellarmi:

eppure è RIMASTA PAROLA…

Tutto minaccia di passare,

… oh brivido atroce,

non sono mai vissuto!

Son corso intorno al cerchio

del mio destino e non son mai entrato!

E morirò cosi? Parola,

impazzisco di te e tu non vivi.



É Palavra não Carne…

E ate que reste suspensa,

não mergulharei no destino.

Fui criança, adolescente,

jovem… tudo ameaça

passar, ou melhor, de ter passado

— uma lenda qualquer

às minhas costas de morto…

E eu a sei, a Palavra:

e como não poderei se sou eu

este dado sem cifras,

este Indefinido falante?

Se sou eu este vaso de miséria,

esta litania do pecado,

da insatisfação, do imperfeito

esta voz atormentada?

somente sei me repetir

há anos, desde quando

— ansioso Indiciado —

comecei a me desmantelar:

também PERMANECEU PALAVRA

Tudo ameaça passar,

… oh frêmito atroz,

nunca vivi!

Corri ao redor

de meu destino e nunca entrei!

E morrerei assim? Palavra,

Enlouqueço por ti e tu não vives.



O tenero predone di profumi



Con la mano immersa dentro le perle

della sera dai corporei tepori,

attraverso la piazza, giungo al lume

modesto di un negozio, torno…Non ha

prezzo questo tepore scintillante

di freschezza, questa intensa notte

che lascia più aria intorno ai gridi,

più vuoti…

O tenero predone di profumi,

ecco di che morire d’ inquietudine.



Ó terno predador de perfumes



Com a mão imersa em pérolas

da noite da corpórea tepidez

atravesso a praça, alcanço o lume

modesto de uma loja, retorno… Não tem

preço esta tepidez cintilante

de frescor, esta intensa noite

que exala mais ar ao redor dos gritos

mais vazios…

ó terno predador de perfumes

eis porque morrer de inquietude

Pier Paolo Pasolini

Tradução: Berenice Lamas

Berenice Sica Lamas (Pelotas – RS) Poeta, escritora, ensaísta, psicóloga e doutora em Letras. Membro da Academia Literária Feminina/RGS. Vários livros publicados. Vive em Bologna (Itália). Ítalo-brasileira, trabalha com traduções. participa de círculos poéticos e de leitura, tem publicado poemas em revistas e em sites italianos e brasileiros. Premiada no concurso literario multicultural “Lune di primavera” do Comitato Internazionale 8 marzo (Perugia).


fonte: Sibila

Os Senhores Despacham Suas Tropas

Junho, 2010.

É hora de pensar sobre aqueles que ficam em seus escritórios e emitem ordens para manter o bloqueio – mesmo ao custo de vidas humanas; aqueles que revezam entre atiçar e extinguir as labaredas de acordo com a necessidade; que preparam as listas de produtos que não podem entrar em Gaza – lápis, remédios, temperos; aqueles que ordenaram o ataque à “Flotilha da Liberdade”; os homens que usam piscinas de sangue como cortinas de fumaça.



Quanto mais se agrava a crise social, mais os banhos de sangue, as provocações e os conflitos se tornam os meios mais fáceis e acessíveis pelos quais as elites tentam nos dominar; ao espalhar fumaça, unem, temporariamente, a maioria da nação; ao incitar contra o inimigo comum, distraem a atenção pública da contínua pilhagem de seus direitos e recursos.




Não há nada como a provocação política para retirar a atenção pública da corrupção dos líderes do governo. Não há nada como a crise na segurança para afastar temporariamente da agenda pública qualquer discussão séria sobre as escandalosas privatizações conduzidas por Netanyahu, Ehud Olmert, [Ehud] Barak (cada qual à sua vez) e seus companheiros, que entregaram a algumas poucas famílias o controle de enormes riquezas, às custas do restante da população. Não há nada como trocas de tiros com o Hamas e o estímulo ao nacionalismo extremista para manter longe do escrutínio público o sempre crescente número de casos de famílias que, tendo vivido por décadas em propriedades públicas, são expulsas de suas casas a fim de abrir caminho para transações imobiliárias suspeitas.




A arte de trocar ameaças com o Hamas ou insultos com manifestantes na Turquia é um meio factível e testado (mas temporário, sempre temporário) para fazer os judeus orientais esquecerem que eles foram – e continuam a ser – vítimas de uma distribuição desigual dos recursos nacionais. Mas ambos, o nacionalismo extremista judeu e o árabe, são meios ainda mais reais e experimentados de impedir a união de judeus e árabes, populações oprimidas exatamente pelos mesmos interesses.



Nada como discorrer sobre abrigos públicos, salas de segurança e exercícios de defesa civil para esconder o fato de que, por conta de cortes de orçamento, mais da metade das crianças apontadas como “crianças ameaçadas” em Israel, aquelas que enfrentam riscos diários em suas famílias desfeitas ou problemáticas, não podem ser aceitas em centros extra-escolares criados para garantir sua segurança e bem-estar por várias horas durante a tarde. Afinal de contas, o que é segurança social quando comparada a “segurança real”?



Naturalmente, o Hamas dança no mesmo compasso – criando conflitos periódicos, até sazonais, que atendem apenas a seus próprios interesses de manutenção do poder político – e assim contribui, a seu modo, para a sobrevivência da elite corrupta israelense. O mesmo pode ser dito de outros atores em nossa região.



Ainda assim, muitos de nós, a maioria das pessoas vivendo neste país, não apenas absorvemos silenciosamente os chocantes resultados de cada série de violências, mas toleramos a contínua erosão de nossos direitos sociais, nossos direitos econômicos, nossos direitos de negociar e lutar pelo que temos, ou o que realmente deveria ser nosso; enquanto eles, os poucos afortunados, aqueles ligados ao poder, continuam a arrancar cada vez mais das mãos de nossos dois povos, israelenses e palestinos.


Gerardo Leibner


Gerardo Leibner é membro do movimento judeu-árabe Hithabrut-Tarabut, em Israel; um dos fundadores do movimento Ta’ayush, que trabalha para construção de uma parceria entre árabes e judeus; e historiador da América Latina.


O texto original está disponível em;
 http://www.tarabut. info/en/home/

terça-feira, 1 de junho de 2010

"A liberdade não é , propriamente falando; ela se conquista numa situação histórica;
cada livro propõe uma libertação concreta a partir de uma alienação particular "
Jean- Paul Sartre

Pavarotti - Questa o quella - Rigoletto (DVD)

Veludo Azul

Procurando a verdade

Carta ao governo Israelense

Sres. que me envergonham:





Judeu identificado com as melhores tradições humanistas de nossa cultura, sinto-me profundamente envergonhado com o que sucessivos governos israelenses vêm fazendo com a paz no Oriente.Médio.



As iniciativas contra a paz tomadas pelo governo de Israel vem tornando cotidianamente a sobrevivência em Israel e na Palestina cada vez mais insuportável.



Já faz tempo que sinto vergonha das ocupações indecentes praticadas por colonos judeus em território palestino. Que dizer agora do bombardeio do navio com bandeira Turca que leva alimentos para nossos irmãos palestinos? Vergonha, três vezes vergonha!



Proponho que Simon Peres devolva seu prêmio Nobel da Paz e peça desculpas por tê-lo aceito mesmo depois de ter armado a África do Sul do Apartheid.



Considero o atual governo, todos seus membros, sem exceção, merecedores por consenso universal do Prêmio Jim Jones por estarem conduzindo todo um pais para o suicídio coletivo.



A continuar com a política genocida do atual governo nem os bons sobreviverão e Israel perecerá baixo o desprezo de todo o mundo..



O Sr., Lieberman, que trouxe da sua Moldávia natal vasta experiência com pogroms, está firmemente empenhado em aplicá-la contra nossos irmãos palestinos. Este merece só para ele um tribunal de Nuremberg.



Digo tudo isso porque um judeu humanista não pode assistir calado e indiferente o que está acontecendo no Oriente Médio. Precisamos de força e coragem para, unidos aos bons, lutar pela convivência fraterna entre dois povos irmãos.



Abaixo o fascismo!



Paz Já!


Silvio Tendler



Cineasta

domingo, 30 de maio de 2010

Fanny Ardant

Persona - trailer

"Hour of the Wolf" Trailer

The Seventh Seal: The knight's first meeting with death

Rostropovich plays the Sarabande from Bach's Cello Suite # 1

Dmitri Shostakovich - Waltz No. 2

Glenn Gould plays Bach

Lixo que não é lixo vira riqueza para o País

Preservação do meio ambiente, inserção social, geração de riquezas. Estes são os principais benefícios encontrados em duas soluções simples e eficientes: a coleta seletiva e a reciclagem de materiais reaproveitáveis.



No Brasil, a primeira experiência do gênero aconteceu na cidade de Niterói (RJ), em 1985. Entre as capitais, Curitiba foi a pioneira, implantando, com sucesso, o Programa Lixo que não é lixo, em 1989.



De acordo com a jornalista e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Myrian Del Vecchio de Lima, a ideia politicamente correta acabou sensibilizando a população, fazendo com que a iniciativa desse resultado.



“A campanha do Lixo que não é lixo foi bem interessante. Trata-se de um “case’ histórico que despertou nas pessoas a consciência para a preservação do meio ambiente”, relata.



Vinte e um anos depois do projeto, a manutenção deste trabalho ainda continua firme na capital. Contudo, a doutora acredita que a cidade poderia ter avançado muito mais neste processo.



“A gente faz mais a parte simples, que é separar o lixo seco (reciclável) do molhado (orgânico). Acredito que poderíamos fazer algo um pouco mais avançado, como deixar um espaço exclusivo para cada material. Outra questão é que o pessoal não faz a devida limpeza na embalagem antes de descartá-la. Se isso não for feito, o material acaba perdendo valor e, em alguns casos, nem pode ser reciclado”, revela.



Como exemplo a ser seguido, a jornalista cita o caso da Alemanha, do Canadá e dos Estados Unidos. “A Alemanha é considerada o País mais avançado no que tange à coleta seletiva e à reciclagem. Canadá, embora conte com uma população bem menor que a do Brasil, também obtém ótimos resultados, assim como os Estados Unidos que, mesmo sendo um país extremamente consumista, faz um bom trabalho”, comenta.



Para Lima, porém, tão importante quanto a ideia de seleção do lixo e reciclagem é a de conscientizar a população para evitar o consumo exagerado dos produtos. “Um detalhe que constatei é o de que não existem campanhas para orientar as pessoas para frear o consumo e, principalmente, aumentar a vida útil de aparelhos eletrônicos, em especial celulares e computadores, que são substituídos com muita velocidade, gerando o que se chama de lixo eletrônico. Isso está se tornando um problema ambiental sério, pois possuem componentes tóxicos, como chumbo e cádmio. Por isso, que não dá para dispensá-los como lixo comum, até porque tem muita coisa ali que é reciclável”, alerta.



Assim como o lixo eletrônico, a doutora avisa que outros materiais tóxicos para a natureza podem ser reaproveitados. “Um bom exemplo disso é o óleo de cozinha. Se ele for reciclado, pode se transformar em produtos de limpeza, como sabão. Do contrário, se ele for descartado sem cuidado, vai entupir tubulações e, se cair na rede pluvial, contaminará a água. Pilhas, baterias e lâmpadas fluorescentes, que contém metais pesados, também podem ser reciclados. A exceção fica por conta do lixo hospitalar, que necessita de uma série de cuidados, coleta diferenciada e vai para aterros especiais, e lixo do banheiro, pois o papel higiênico, fralda e absorvente íntimo estão bem contaminadas”, salienta.



ONG da capital trabalha com material eletrônico



Uma organização não-governamental (ONG) de Curitiba vem trabalhando em uma medida interessante para o lixo eletrônico. O Instituto Brasileiro de Ecotecnologia (Biet) vem promovendo ações interdisciplinares de educação ambiental e inserção social por meio da reutilização, reciclagem, destruição e disposição final destes produtos.



De acordo com o engenheiro civil e presidente do conselho administrativo do Biet, Maurício Beltrão Fraletti, o instituto surgiu de outro projeto seu, a Robótica sem Mistério, no ano de 2003.



“Comecei a receber bastante ofertas do que eu chamo de e-lixo quando foi criada a Robótica sem Mistério. Por ter ciência de que é um problema sério e de não me conformar em ver tais materiais em aterros sanitários, passei a usar as peças na robótica e assim nasceu o Biet. Desde então, fizemos diversas parcerias com governos estadual e municipal, iniciativa privada e a sociedade como um todo. Recentemente recebemos materiais vindos da Cargil, Bosch e da Ordem dos Advogados do Brasil seção Paraná (OAB-PR)”, conta.



O Biet conta com um centro no bairro Sítio Cercado e outros municípios já demonstraram interesse em abrir estes espaços. “Recebemos convites para levar o projeto para Colombo, São José dos Pinhais, Campo Largo e Araucária (todos na Região Metropolitana de Curitiba RMC). Vamos abrir um centro em uma escola pública de Ponta Grossa (Campos Gerais) e realizamos oficinas pelo Estado por meio do programa Paraná em Ação”, diz Fraletti.



A ação do Biet consiste em receber o e-lixo, testar os equipamentos, um a um, e o que funcionar é separado e o que está estragado é desmontado. “O que ainda puder ser utilizado, nós utilizamos no nosso centro e doamos para alguma outra instituição, mas com o compromisso de devolução após o produto não ter mais funcionamento. Por exemplo, um monitor queimou de vez. A gente pega o que estragou e substitui por outro que pode ser utilizado. O material inutilizado será reciclado e vai ser destinado para as oficinas de robóticas e para a confecção de novos produtos”, salienta.



A única coisa que falta para a ONG é o de conseguir fazer a reciclagem total dos computadores, conforme conta o presidente do Biet. “Estamos buscando ajuda nas universidades para descobrir como resolver a questão que envolve os metais pesados nos computadores”, afirma.



Para doar um equipamento eletrônico para o Biet, é preciso agendar antes. Os telefones de contato são (41) 3289-8856 e (41) 9932-0168 ou pelo e-mail falecom@biet.org.br. Mais informações da ONG pelo site www.biet.org.br.



Programa



Não são apenas plásticos, metais e papéis que vão para o programa de reciclagem da Prefeitura de Curitiba. Segundo a gerente de limpeza do Departamento de Limpeza Público, Gisele Martins dos Anjos, o lixo eletrônico e o tóxico também são recolhidos.



A gerente diz ainda que no caso dos eletro-eletrônicos, a reciclagem não é feita pela prefeitura. “É feito apenas uma pré-triagem dos materiais e as peças são leiloadas para empresas que trabalham com esse tipo de reciclagem”, avisa.

Paraná aplica há sete anos a responsabilidade solidária



O governo do Paraná, por meio da Secretaria de Meio Ambiente (Sema), vem aplicando há sete anos a Lei Federal número 6938/81 que, entre outras coisas, aborda a questão da responsabilidade solidária. O que seria isso? Significa que a empresa cuja logomarca da embalagem está presente num determinado produto é responsável pelo destino final do mesmo.



O coordenador de resíduos sólidos da Sema, Laerty Dudas, diz que para que a lei funcione plenamente, é necessário uma mudança nos hábitos da população. “Vamos tomar como exemplo a questão dos computadores. Estamos sempre conversando com as empresas e elas não se negam a fazer a chamada logística inversa (que vai do consumidor até o fabricante). Entretanto, elas pedem a nota fiscal da mercadoria. Infelizmente, não temos esse hábito de guardar notas fiscais, que é fundamental para que o fabricante descaracterize o produto ao receber”.



No caso das lâmpadas fluorescentes, o diálogo vem sendo mais extenso, conforme explica o coordenador. “Antes eles não queriam nem saber de dar o destino do produto após o seu uso. Hoje já há um canal de diálogo.



Já existe uma lei estadual que informa que a responsabilidade de recolher a lâmpada após o uso é de responsabilidade do fabricante ou do importador”, informa.



Dudas conta que foi conversado com a Associação Brasileira da Indústria de Iluminação (Abilux) e com a Associação Brasileira de Importadores de Produtos de Iluminação (Abilumi) para que encontrem uma solução para este problema. “Em abril deste ano, foi feita uma reunião dos municípios que mais geram resíduos no Paraná, chamados de G-22.



Eles têm um passivo de 260 mil lâmpadas estocadas, o que é um agravante, pois trata-se de um material que contém mercúrio, tóxico para o ser humano. A Abilux ficou de retirar esse passivo ambiental e dar um fim a ele. A Abilumi recebeu um prazo final até o dia 30 de junho deste ano, para apresentar um projeto para solucionar este impasse”, conta.

Flávio Laginski
fonte: http://www.parana-online.com.br/editoria/cidades/news

sábado, 29 de maio de 2010

Leia íntegra traduzida da carta de Barack Obama a Lula sobre acordo com o Irã



O acordo nuclear entre o Brasil, a Turquia e o Irã se­gue, ponto a ponto, todas as solicitações que o presidente Barack Obama havia exposto em carta a seu colega Luiz Inácio Lula da Silva, datada de 20 de abril, apenas três semanas antes, portanto, da viagem de Lula ao Irã, da qual resultou o acordo. A Folha obteve, com ex­clusividade, cópia integral da carta, na qual Obama es­creve que o objetivo era ofe­recer “explicação detalhada” de sua perspectiva “e sugerir um caminho a seguir”.



FOLHA SP   27/05/2010



Leia a íntegra traduzida da mensagem:



“Gostaria de agradecê-lo por nossa reunião com o primeiro-ministro Erdogan, da Turquia, durante a Conferência de Cúpula sobre Segurança Nuclear. Dedicamos algum tempo ao Irã, à questão da provisão de combustível nuclear para o Reator de Pesquisa de Teerã (TRR), e à intenção de Turquia e Brasil quanto a trabalhar para encontrar uma solução aceitável. Prometi responder detalhadamente às suas ideias, refleti cuidadosamente sobre a nossa discussão e gostaria de oferecer uma explicação detalhada sobre minha perspectiva e sugerir um caminho para avançarmos.



Concordo com você em que o TRR representa uma oportunidade para abrir caminho a um diálogo mais amplo no que tange a resolver preocupações mais fundamentais da comunidade internacional com respeito ao programa nuclear iraniano em seu todo. Desde o começo, considerei a solicitação iraniana como uma oportunidade clara e tangível de começar a construir confiança mútua e assim criar tempo e espaço para um processo diplomático construtivo. É por isso que os Estados Unidos apoiaram de forma tão vigorosa a proposta apresentada por Mohamed El Baradei, o ex-diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).



A proposta da AIEA foi preparada de maneira a ser justa e equilibrada, e para permitir que ambos os lados ganhem confiança. Para nós, o acordo iraniano quanto a transferir 1.200 quilos de seu urânio de baixo enriquecimento (LEU) para fora do país reforçaria a confiança e reduziria as tensões regionais, ao reduzir substancialmente os estoques de LEU do Irã. Quero sublinhar que esse elemento é de importância fundamental para os Estados Unidos. Para o Irã, o país receberia o combustível nuclear solicitado para garantir a operação continuada do TRR a fim de produzir os isótopos médicos necessários e, ao usar seu próprio material, os iranianos começariam a demonstrar intenções nucleares pacíficas. Não obstante, o desafio continuado do Irã a cinco resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas que ordenam o final de seu programa de enriquecimento de urânio, estávamos preparados para apoiar e facilitar as ações quanto a uma proposta que forneceria combustível nuclear ao Irã usando urânio enriquecido pelo Irã uma demonstração de nossa disposição de trabalhar criativamente na busca de um caminho para a construção de confiança mútua.



No curso das consultas quanto a isso, reconhecemos também o desejo de garantias, da parte do Irã. Como resultado, minha equipe se concentrou em garantir que a proposta da AIEA abarcasse diversas cláusulas, entre as quais uma declaração nacional de apoio pelos Estados Unidos, a fim de enviar um claro sinal do meu governo quanto à nossa disposição de nos tornarmos signatários diretos e até mesmo potencialmente desempenharmos um papel mais direto no processo de produção do combustível; também ressaltamos a importância de um papel central para a Rússia e da custódia plena da AIEA sobre o material nuclear durante todo o processo de produção de combustível. Na prática, a proposta da AIEA oferecia ao Irã garantias e compromissos significativos e substanciais da parte da AIEA, dos Estados Unidos e da Rússia. O dr. El Baradei declarou publicamente no ano passado que os Estados Unidos estariam assumindo a vasta maioria do risco, na proposta da AIEA.



Como discutimos, o Irã parece estar seguindo uma estratégia projetada para criar a impressão de flexibilidade sem que concorde com as ações que poderiam começar a gerar confiança mútua. Observamos os vislumbres de flexibilidade transmitidos pela Irã a você e a outros, enquanto reiterava formalmente uma posição inaceitável à AIEA, por meio dos canais oficiais. O Irã continuou a rejeitar a proposta da AIEA e insistiu em reter em seu território o urânio de baixo enriquecimento até a entrega do combustível nuclear. Essa é a posição que o Irã transmitiu formalmente à AIEA em janeiro e uma vez mais em fevereiro de 2010.



Compreendemos pelo que vocês, a Turquia e outros nos dizem que o Irã continua a propor a retenção do LEU em seu território até que exista uma troca simultânea de LEU por combustível nuclear. Como apontou o general [James] Jones [assessor de Segurança Nacional da Casa Branca] durante o nosso encontro, seria necessário um ano para a produção de qualquer volume de combustível nuclear. Assim, o reforço da confiança que a proposta da AIEA poderia propiciar seria completamente eliminado para os Estados Unidos, e diversos riscos emergiriam. Primeiro, o Irã poderia continuar a ampliar seu estoque de LEU ao longo do período, o que lhes permitiria acumular um estoque de LEU equivalente ao necessário para duas ou três armas nucleares, em prazo de um ano. Segundo, não haveria garantia de que o Irã concordaria com a troca final. Terceiro, a “custódia” da AIEA sobre o LEU no território iraniano não nos ofereceria melhora considerável ante a situação atual, e a AIEA não poderia impedir o Irã de retomar o controle de seu urânio a qualquer momento.



Existe uma solução de compromisso potencialmente importante que já foi oferecida. Em novembro, a AIEA transmitiu ao Irã nossa oferta de permitir que o Irã transfira seus 1,2 mil de LEU a um terceiro país especificamente a Turquia- no início do processo, onde ele seria armazenado durante o processo de produção do combustível como caução de que o Irã receberia de volta o seu urânio caso não viéssemos a entregar o combustível. O Irã jamais deliberou seriamente quanto a essa oferta de “caução” e não ofereceu explicação confiável quanto à sua rejeição. Creio que isso suscite questões reais quanto às intenções nucleares iranianas. Caso o Irã não esteja disposto a aceitar uma oferta que demonstre que seu LEU é para usos pacíficos e civis, eu instaria o Brasil a insistir junto ao Irã quanto à oportunidade representada por essa oferta de manter seu urânio como “caução” na Turquia enquanto o combustível nuclear está sendo produzido.



Ao longo do processo, em lugar de construir confiança o Irã vem solapando a confiança, na forma pela qual abordou essa oportunidade. É por isso que questiono a disposição do Irã para um diálogo de boa fé com o Brasil, e por isso eu o acautelei a respeito em nosso encontro. Para iniciar um processo diplomático construtivo, o Irã precisa transmitir à AIEA um compromisso construtivo quanto ao diálogo por meio de canais oficiais algo que até o momento não fez. Enquanto isso, continuaremos a levar adiante nossa busca de sanções, dentro do cronograma que delineei. Também deixei claro que as portas estão abertas para uma aproximação com o Irã. Como você sabe, o Irã até o momento vem recusando minha oferta de um diálogo abrangente e incondicional.



Aguardo ansiosamente a próxima oportunidade de encontrá-lo e discutir essas questões, levando em conta o desafio que o programa nuclear iraniano representa para a segurança da comunidade internacional, inclusive no Conselho de Segurança da ONU.



Sinceramente,



Barack Obama”



Tradução de Paulo Migliacci

terça-feira, 25 de maio de 2010

Dzua ya ku zambezi indzaoneca

Dzua ya ku zambezi indzaoneca







indza dzoquera cu ntsua



Entregará as crianças um sorriso feiticeiro



Arrancará o choro triste sincero



Deixar um mpotahahi de sonhos







Contará karingana wa karingana



Ilumirá todas as suas vias de acesso ao manguana



E te encostarás nas melhores almofadas



Puras de uma flor que nunca murcha







O sol quer te ver a dançar a mapandzura



Amarrada a capulana na cintura



Á cantar nhimbo za cumui



Igual a aquelas que o Samora delirava



Cantava e pulava



O “ tiende pa modzi ni nthima omodzi”



Onde dele carregamos missozi



Do amor de um pai imortal







Quer te ver a esquivares a mata - mata



E ao por do sol escolher o ti sankule



Depois do pimbo ou do banana ainda



Na manhã seguinte ir a escola







Entoar com patriotismo o hino nacional



Gritar o óh pátria amada vamos vencer



Com o olhar vitorioso e emocional



Olhar a bandeira e o 25 de Junho nunca esquecer


Luana

fonte: mocambiqueonline.blogspot.com

L’infini dans ma salle de bain

domingo, 23 de maio de 2010

A violência na internet

A toda mudança de patamar de civilização corresponde uma mudança tecnológica, do arado ao computador, que muda, às vezes dramaticamente, o sistema de produção e os parâmetros de relação social

A piada é velha: a internet veio para resolver problemas que antes não existiam – mas, de fato, fico me perguntando como consegui sobreviver mais de 40 anos sem computador nem internet. Resisto entretanto ao saudosismo bucólico, dos velhos tempos em que, para pagar uma conta ou trocar um cheque, pegava-se uma pesada ficha de bronze e aguardava-se o chamado em altos brados. O caixa colocava uma ficha gigante numa máquina contábil especial, onde marcava créditos e débitos. Hoje somos nós que viramos todos funcionários dos bancos, trabalhando de graça aos sábados, domingos e feriados, fazendo pagamentos, transferências, aplicações, docs e o que for preciso – e o incrível é que achamos isso maravilhoso.


• Teorias conspiratóriasO evangelho segundo LulaEntre palavras e legumesE é mesmo. A toda mudança de patamar de civilização corresponde uma mudança tecnológica, do arado ao computador, que muda, às vezes dramaticamente, o sistema de produção e os pa-râmetros de relação social. Discutir esses efeitos está longe da pretensão do cronista, que aliás tenta se defender da internet como pode. Fascinado por ela, já perdeu dias e semanas com a banda larga na veia, fazendo nada – até perceber que ou reorganizava o tempo ou viraria um zumbi do monitor. Algumas medidas básicas funcionaram: não leio e-mails que não sejam pessoais e resisto a “surfar”. Quando ligo o computador, sei o que procuro: percorrer jornais ou fazer consultas (e nessa área de referência, a revolução da internet é absolutamente fantástica).

Mas dia desses escapei distraído para uma ponte com “comentários de leitor”, que passaram a me atrair, primeiro como curiosidade linguística, depois como sociologia, e atualmente como, digamos, aspectos patológicos do comportamento cotidiano. Fiquei impressionado com a violência dos comentários, o grau de agressividade, o primarismo argumentativo, o desejo de ferir – enfim, a estupidez pura e simples em que tanto o bom como o mau domínio da escrita se mesclam com o desejo de sangue a qualquer custo. Qualquer tema é gancho para o jogo baixo, o preconceito escarrado, o ressentimento, o rancor miúdo, sempre ocultos no pseudônimo: dos candidatos ao governo às notícias policiais, das páginas de cultura ao preço dos carros, do futebol ao cinema, tudo é argumento para o tacape digital assassino, incapaz de uma ponderação civilizada. Como se o inconsciente selvagem de cada um, sem filtro, ganhasse vida num clique. Acompanhar comentários de leitores na internet é quase sempre uma viagem chocante, inútil, deprimente.

Talvez eu esteja mesmo ficando velho, saudoso de uma cordialidade brasileira que nunca existiu, exceto no papel. As estatísticas mostram que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, e no conforto da classe média tendemos a achar que isso é um problema distante. Mas, no escurinho da internet, vemos que o país real está muito próximo e mostra os dentes em toda parte.

fonte : gazeta do povo 11/05/2010

contato@cristovaotezza.com.br

terça-feira, 18 de maio de 2010

Declaração Conjunta de Irã, Turquia e Brasil – 17 de maio de 2010

Tendo-se reunido em Teerã em 17 de maio, os mandatários abaixo assinados acordaram a seguinte Declaração:



1. Reafirmamos nosso compromisso com o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e, de acordo com os artigos relevantes do TNP, recordamos o direito de todos os Estados-Parte, inclusive a República Islâmica do Irã, de desenvolver pesquisa, produção e uso de energia nuclear (assim como o ciclo do combustível nuclear, inclusive atividades de enriquecimento) para fins pacíficos, sem discriminação.



2. Expressamos nossa forte convicção de que temos agora a oportunidade de começar um processo prospectivo, que criará uma atmosfera positiva, construtiva, não-confrontacional, conducente a uma era de interação e cooperação.



3. Acreditamos que a troca de combustível nuclear é instrumental para iniciar a cooperação em diferentes áreas, especialmente no que diz respeito à cooperação nuclear pacífica, incluindo construção de usinas nucleares e de reatores de pesquisa.



4. Com base nesse ponto, a troca de combustível nuclear é um ponto de partida para o começo da cooperação e um passo positivo e construtivo entre as nações. Tal passo deve levar a uma interação positiva e cooperação no campo das atividades nucleares pacíficas, substituindo e evitando todo tipo de confrontação, abstendo-se de medidas, ações e declarações retóricas que possam prejudicar os direitos e obrigações do Irã sob o TNP.



5. Baseado no que precede, de forma a facilitar a cooperação nuclear mencionada acima, a República Islâmica do Irã concorda em depositar 1200 quilos de urânio levemente enriquecido (LEU) na Turquia. Enquanto estiver na Turquia, esse urânio continuará a ser propriedade do Irã. O Irã e a AIEA poderão estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio na Turquia.



6. O Irã notificará a AIEA por escrito, por meio dos canais oficiais, a sua concordância com o exposto acima em até sete dias após a data desta Declaração. Quando da resposta positiva do Grupo de Viena (EUA, Rússia, França e AIEA), outros detalhes da troca serão elaborados por meio de um acordo escrito e dos arranjos apropriados entre o Irã e o Grupo de Viena, que se comprometera especificamente a entregar os 120 quilos de combustível necessários para o Reator de Pesquisas de Teerã.



7. Quando o Grupo de Viena manifestar seu acordo com essa medida, ambas as partes implementarão o acordo previsto no parágrafo 6. A República Islâmica do Irã expressa estar pronta – em conformidade com o acordo – a depositar seu LEU dentro de um mês. Com base no mesmo acordo, o Grupo de Viena deve entregar 120 quilos do combustível requerido para o Reator de Pesquisas de Teerã em não mais que um ano.



8. Caso as cláusulas desta Declaração não forem respeitadas, a Turquia, mediante solicitação iraniana, devolverá rápida e incondicionalmente o LEU ao Irã.



9. A Turquia e o Brasil saudaram a continuada disposição da República Islâmica do Irã de buscar as conversas com os países 5+1 em qualquer lugar, inclusive na Turquia e no Brasil, sobre as preocupações comuns com base em compromissos coletivos e de acordo com os pontos comuns de suas propostas.



10. A Turquia e o Brasil apreciaram o compromisso iraniano com o TNP e seu papel construtivo na busca da realização dos direitos na área nuclear dos Estados-Membros. A República Islâmica do Irã apreciou os esforços construtivos dos países amigos, a Turquia e o Brasil, na criação de um ambiente conducente à realização dos direitos do Irã na área nuclear.



Manucher Mottaki,



Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irã



Ahmet Davutoglu,



Ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Turquia



Celso Amorim,



Ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil


fonte:estadão.com.br

O Melhor romance da década ?

Agora que já adentramos dez anos no novo século, pode ser um bom momento para rever as realizações culturais do período e procurar discernir novos rumos. Poderíamos perguntar, por exemplo, quais foram os melhores ou mais notáveis romances publicados desde o começo do milênio.

Muitos leitores terão suas listas próprias de “finalistas”; a minha inclui “O Xará” (2003, lançado no Brasil pela Companhia das Letras), da escritora bengalesa-americana Jhumpa Lahiri; “A Hora Azul” (2005, Objetiva), do peruano Alonso Cueto; “Testimone Inconsapevole” (Testemunha Inconsciente, 2002), do magistrado italiano Gianrico Carofiglio, seguido por duas outras histórias policiais da mesma alta qualidade; “Chicago” (2007), do egípcio Alaa al Aswany, uma história de biografias entremeadas que tem minha preferência sobre “O Edifício Yacubian” (2002, Companhia das Letras), do mesmo autor.

Todas essas obras são comoventes e bem escritas. Mas minha primeira escolha não é nenhuma delas, e sim o ambicioso romance em três volumes do escritor espanhol Javier Marías, “Seu Rosto Amanhã” [tradução de Eduardo Brandão, cujos volumes 1º e 2º foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras, que prevê lançar o volume 3º no segundo semestre].

Suponho que eu possa ser acusado de viés nacional por essa escolha, já que Marías é um anglófilo que chegou a lecionar espanhol em Oxford, minha antiga universidade, e gosta de citar Shakespeare com ainda mais frequência do que cita Cervantes (o título do romance é uma citação de “Henrique 4º”, de Shakespeare).

O cenário de boa parte da história é Londres. Além disso, tive o prazer, em mais de uma ocasião, de encontrar dois personagens do livro, o professor de Oxford e ex-agente secreto sir Peter Russell (1913-2006), que aparece no livro transparentemente disfarçado como “Peter Wheeler”, e o professor espanhol Francisco Rico, que aparece brevemente no volume 3 sob seu próprio nome.

Mesmo assim, escolhi “Seu Rosto Amanhã” por uma razão diferente: por suas técnicas narrativas, que -como as de Cueto, mas de modo ainda mais notável- ampliaram as possibilidades do romance. Não estou pensando tanto no uso feito no livro de fotos de pessoas reais, à maneira de W.G. Sebald, para conferir uma ilusão mais forte de realidade, mas em outras técnicas.

Thriller subjetivo

O romance é uma espécie de thriller. Embora seja espanhol, o protagonista tem um emprego temporário trabalhando para o serviço secreto britânico, e lemos que Wheeler foi amigo de Ian Fleming [1908-64], o inventor de James Bond. Mesmo assim, o leitor não deve esperar uma narrativa movimentada.

No início de sua carreira, Marías traduziu para o espanhol um romance inglês do século 18, “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy”, de Laurence Sterne, e aprendeu com Sterne, como já admitiu a um entrevistador, a escrever muitas páginas sobre um momento breve.

Boa parte do espaço em “Seu Rosto Amanhã” é dedicado a reflexões sobre a vida tecidas pelo protagonista, Jacques, Jaime ou Jack Deza, e a longas conversas entre Deza e seu amigo Wheeler ou entre Deza e seu pai -uma figura baseada no pai do autor, o filósofo Julián Marías (1914-2005). Algumas das conversas são “traduzidas” pelo autor do inglês ao espanhol, permitindo a ele refletir sobre as diferenças entre as duas línguas.

O leitor pode muito bem ter a impressão de que essas reflexões e conversas sejam digressões da história -devo admitir que, inicialmente, eu ficava um tanto quanto impaciente com elas-, mas essas sempre acabam revelando-se partes essenciais da história, como as aparentes digressões de Peter Wheeler.

Com a exceção de duas descrições vívidas e por momentos grotescos de violência física, minuto a minuto, como se estivessem acontecendo diante do leitor, a maior parte da ação de “Seu Rosto Amanhã” acontece nos bastidores, sob a forma de anedotas relatadas por Deza ou, mais frequentemente, histórias contadas a Deza por outros personagens no romance. Outro aspecto incomum do romance é seu tema autodestrutivo. As primeiras seis palavras do livro são “No debería uno contar nunca nada” [Ninguém deveria nunca contar nada] -seguidas, é claro, por uma história que dura cerca de 1.500 páginas.

O romance retorna repetidas vezes ao tema das consequências desastrosas que podem advir de falar, já que as palavras escapam do controle de quem as proferiu assim que são ditas, no caso de falas impensadas não menos que no de conversas traiçoeiras, incluindo as denúncias de antigos amigos que se seguiram à vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola [1936-39], tema que ocupa bastante espaço nessas páginas.

O sofrimento causado às vítimas desse tipo de conversa nunca poderá ser cancelado, mas pode, pelo menos, ser aliviado, quando se conversa sobre ele. Nesse sentido, pode-se dizer que o romance seja freudiano, apesar de o nome de Freud nunca ser mencionado.

Tema e variações

A repetição controlada é um dos segredos do estilo do autor, convertendo este longo romance em uma espécie de sinfonia na qual o leitor aprende a prestar atenção para captar o reaparecimento de um “leitmotiv” (como a traição ou o poder das histórias), de uma citação de Shakespeare ou de uma das palavras-chave do romance -febre, lança, baile, sonho, veneno e sombra.

Descrições de incidentes que, à primeira vista, pareciam ser triviais ou irrelevantes revelam, quando são repetidas, empurrar a história para a frente ou ajudar o protagonista -e, por meio dele, o leitor- a compreender seu significado.

Existem maneiras diferentes de descrever o que Javier Marías realizou neste romance impressionante, com certeza sua obra-prima, além de ser um dos trabalhos de ficção mais importantes escritas na década passada. Um crítico literário poderia dizer que “Seu Rosto Amanhã” enriqueceu o repertório de técnicas narrativas e prever que não demorará muito a ser imitado por outros romancistas. Um filósofo poderia afirmar que Marías encontrou uma maneira nova de fazer filosofia, especialmente ética.

Um historiador pode impressionar-se sobretudo com a maneira como o autor trouxe os anos 1930 e 1940 de volta à vida. Todos teriam razão, já que “Seu Rosto Amanhã” é um livro híbrido, espanhol e inglês, literário e filosófico, apropriado para nossa era de hibridez cultural, em que tantos escritores sentem-se atraídos a explorar o terreno fronteiriço entre ficção e história.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de “A Tradução Cultural” (ed. Unesp) e “O Historiador como Colunista” (ed. Civilização Brasileira).

Tradução de Clara Allain.

fonte: Folha de São Paulo.Caderno Mais! 16/05/10
La Fellah



de Theophile Gautier



Caprice d’un pinceau fantasque

Et d’un impérial loisir,

Votre fellah, sphinx qui se masque,

Propose une énigme au désir.



C’est une mode bien austère

Que ce masque et cet habit long,

Elle intrigue par son mystère

Tous les Oedipes du salon.



L’antique Isis légua son voile

Aux modernes filles du Nil ;

Mais, sous le bandeau, deux étoiles

Brillent d’un feu pur et subtil.



Ces yeux qui sont tout un poème

De langueur et de volupté

Disent, résolvant le problème,

” Sois l’amour, je suis la beauté.”



Théophile Gautier

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pássaros nasceram para voar

O mundo sempre me pareceu um grande mistério. Lembro que ainda pequena, eu devia ter uns seis ou sete anos, vi minha irmã mais velha abater um passarinho para depois, com a ajuda de alguns amigos, dissecá-lo como a um sapo de laboratório familiar. Não arrisco explicar, aos olhos daquela menina, todo o sentimento que a cena lhe trouxe. Mas desconfio que deva ter sido algo aterrador, pois desde então, e observe que já se passaram muitos anos, passei a sentir a vida como uma eterna sucessão de enganos. Eu não cabia na família, na escola, no trabalho e, de resto, nem em mim mesma.



De início, achavam que se tratava apenas de timidez. Depois, os suores nas mãos e o silêncio que podia durar uma festa inteira, passou a ser visto pelos outros como arrogância. ‘Sofia, você precisa aprender a controlar suas emoções’, diziam-me os amigos mais próximos. No meio em que convivia, tornei-me o laboratório ideal para as frustrações alheias. E de tanto ouvir conselhos e repreendas, acabei por ter a sensação de que me dissecavam como àquele passarinho morto por minha irmã.



Primeiro arrancaram-me as pernas. Disseram-me que elas não me levavam na direção correta e que, portanto, não me eram úteis. Em seguida, analisaram e descartaram, um a um, os componentes desse pobre corpo. Foi quando descobri que ao invés de músculos, eu possuía raízes que se entrelaçavam e que pareciam expressar as mais longínquas memórias. E que no lugar de sangue, meus corredores vertiam um líquido gelatinoso e branco, uma seiva de vida que encerra um susto qualquer.



A simples idéia de que tal segredo pudesse vir a ser desvendado por algum de meus perscrutadores, congelava-me a alma. Pobre de mim. Como se não bastasse ter emprestado a esse mundo pernas, bocas e gestos aceitáveis, tinha ainda que esforçar-me para trocar com o ambiente externo, sentimentos corriqueiros, enxaquecas plausíveis, preocupações banais e um choro compreensível aqui e acolá.



Foi agarrada a essa indiscutível certeza que procurei encenar, neste grande palco, um medíocre, porém razoável, papel. Fiz-me mulher e deixei que rasgassem, dentro de mim, as mais finas veias. Como um acrobata, lancei-me em mãos e teias de palavras vilipendiosas. Deixei-me sugar até a última gota e derramei intranqüilas lágrimas em lençóis que nunca envelheciam. Ao final de cada espetáculo, retornava sozinha para o camarim. E ali ficava, ora imóvel — perturbada pelas ondas que me engoliam na mansidão do nada —, ora debatendo-me nas paredes invisíveis que me serviam de prisão.



Com o tempo, desisti de procurar aceitação. Percebi que de alguma forma não merecia ser amada, nem tampouco compreendida. Agarrei-me aos galhos que cresciam silenciosamente em meu mundo, adubando, no frescor das noites insones, algumas poucas lembranças que me pudessem ser úteis. Deixei que transbordasse nas veias partidas pelos inúmeros erros que cometi, aquilo que outrora era líquido e que não sei por qual motivo específico, tornara-se uma gosma pegajosa. Na solidão e na ausência, preguei em cada parede um retrato do que poderia ter sido minha existência e lancei-me aos ventos, experimentando a liberdade do pássaro que desconhece o momento exato da morte. E é feliz por existir na inocência de que está sempre pronto para o abate.

Vássia Silveira – Releituras


E-Mail: vassia@uol.com.br

Site: http://www.anaesuasmulheres.com

Blog: http://gavetasejanelas.zip.net

Vássia Silveira nasceu em Belém (PA), em 1971. É jornalista, mãe de Clara e Anaís e autora do site “Ana e suas mulheres”. Foi editora da revista “outraspalavras”, no Acre. Atualmente mora em Fortaleza e tem textos publicados nos sites Cronópios e Bestiário, entre outros. Assina também o blog “Gavetas e Janelas”. Em julho de 2007 lançou seu primeiro livro, “Braboletas e Ciúminsetos” (literatura infantil), pela Editora Letras Brasileiras, com ilustrações de Marcelo Vaz.

Fonte: blog leituras favre

terça-feira, 11 de maio de 2010

Mario Quintana - Segundo Poema de muito Longe

POLYUSHKA POLYE - ORIGINAL VERSION

Russian Traditional Songs - Marusia

O Encouraçado Potemkin (1925) - Sergei Eisenstein

Escuridão formosa

À noite toquei-te e senti-te

sem que minha mão fugisse para lá de minha mão,

sem que meu corpo fugisse, aos meus ouvidos:

de um modo quase humano

senti-te.

A pulsar,

não sei se como sangue ou como nuvem

errante,

em minha casa, na ponta dos pés, escuridão que sobe,

escuridão que desce, cintilante, correste.

Correste por minha casa de madeira,

e abriste as janelas,

e senti pulsar a noite toda,

filha dos abismos, silenciosa,

guerreira tão terrível e tão bela,

que tudo quando existe,

sem tua chama, não existiria para mim.


Gonzalo Rojas
do livro “Rosa do Mundo”
assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

Criterion Trailer 2: Seven Samurai

Rua Vida Mimosa

Crédito: Fabiano Accorsi in http://www.flickr.com./

A Rua da vida

A Affonso Schmidt


Esta é rua da vida. E a vida se revela,

a rua sem pudor, completamente nua.

Mas, mostrando-se nua, a vida não é bela

e não é boa a vida através desta rua.



O convite que sai da entreaberta janela

tem a fascinação indizível da sua

promessa de pecado ! E, atraída por ela,

a sombra do homem pelas portas se insinua...



Marítimos gingando o corpo forte e suado,

malandros de chinelo, asiáticos franzinos,

toda esta malta vil que o homem detesta



vem deixar, nesta rua, um pouco do passado;

vem cumprir, nesta rua, os seus torvos destinos

para que possa haver a nossa rua honesta !

Cid Silveira(1910)

Carlos Drummond de Andrade

Erik Satie - Gnossienne No.1

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Il Grande Bar

http://www.outrosventos08.blogspot.com/

Hibridismo linguístico

Katyuscia Carvalho

Sou discípula das palavras subversivas

da língua insubmissa pela própria natureza

que não se dobra a doutrinas castradoras

nem cala a boca para as sentenças normativas.



Falo na língua que tem sangue nas veias

- que língua sem sangue ou sem pigmentação

não tem história: é língua-pálida, língua-amorfa!

E eu me pinto em dialetos da minha miscigeNAÇÃO.



Tenho na boca um idioma que dança,

que batuca, que se alegra e que se enfeita

com cocais, com colares, com sotaques

com as sílabas todas desta gente bra-si-lei-ra
Juracy Ribeiro – Blog Releituras

Jurássica



quando estou naqueles dias

é brabo deixar de escrever cartas

pode ser fatal



nos meus dias jurássicos

toda pedra no caminho

é um enorme dinossauro

toda corda bamba

é uma serpente

pra me enfocar

e me devolver

ao remetente



toda lembrança

de seu beijo

é tábua

de salvação



Minha crueldade



no ritual de purificação

eu sou uma borboleta

que Deus segura

pelas pontas das asas

com dois dedos

sobre a vela

acesa.

Juracy participou do livro “Mulheres de São José – Outros poemas”, 1996, de onde extraímos os poemas ora apresentados (p. 67 e 69 )

fonte: blog leituras favre

swanee river boogie

Meade Lux Lewis - Boogie Woogie

Erik Satie "Trois Gymnopédies"

Lena Horne - Stormy Weather (1943)

A barca Silenciosa


foto : Helmut Newton



« Le suicide est certainement la ligne ultime sur laquelle peut venir s’écrire la liberté humaine. Elle en est peut-être le point final.



Le droit de mourir n’est pas inscrit dans les droits de l’Homme



Comme l’individualisme n’y est pas inscrit



Comme l’amour fou n’y est pas inscrit



Comme l’athéisme n’y est pas inscrit ; Ces possibilités humaines sont trop extrêmes. Elles sont trop antisociales pour être admises dans le code qui prétend régir les sociétés. »



Pascal Quignard in « La barque silencieuse », Seuil, 237p.

http://www.lecrownlyrique.wordpress.com/