sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sinfonia de sabores

Você sabia que para certos povos comer é um ato indecente? Eles ingerem comida numa condição de confinamento solitário. Neste artigo para o Correio de abril de 1957, Lévi-Strauss trata não apenas dos aspectos sociais da comida, mas também da aventura humana na busca por sabores.




Se, como se tem dito, a arte de cozinhar é combinar os sabores de diferentes alimentos de modo a misturar ou revelar os seus contrastes, o processo soa simples demais para ter sido descoberto por qualquer dos povos do mundo. Todavia esse não é o caso. Não é possível combinar diferentes ingredientes a menos que eles possam ser manejados de modo fácil e simultâneo, nem os seus sabores podem ser combinados e harmonizados sem um conhecimento de cozinhar, o que vai além de meramente aquecer a comida.


A cozinha de uma sociedade é a linguagem pela qual ela traduz inconscientemente a sua estrutura, a menos que ela renuncie, ainda inconscientemente, a revelar nela as suas contradições.

C. Lévi-Strauss, "O Triângulo Culinário", L’Arc n°26, 1965.
Nem mesmo o método de ferver a comida numa panela de barro é universalmente empregado. Alguns povos que não têm artefatos de cerâmica levam a comida à fervura colocando-a em potes feitos de madeira ou casca de árvore cheios d’água e então nele depositam pedras quentes. Para outros povos a fervura é completamente desconhecida; eles cavam fornos no chão e os abastecem com pedras quentes, a comida vai sendo cozida lentamente entre camadas de folhas verdes que fornecem umidade. Um outro método, ainda, consiste em usar a comida como seu próprio recipiente, recheando-se o corpo de um animal com uma mistura que cozinha enquanto essa cobertura externa é grelhada ou assada.

Comida quente? Que horror!


Todos esses métodos representam descobertas que a raça humana alcançou apenas gradualmente. Até agora, certas tribos primitivas, como os Nambiquara do Brasil Central, apenas jogam a comida que matam ou colhem (pequenos animais e tuberosas selvagens) indiscriminadamente em brasa quente. Essa forma primitiva de cozinhar é fatal para o senso gustativo, de modo que o paladar dos Nambiquara não pode enfrentar nenhum estímulo mais forte; eles têm horror de sal e até mesmo de comida quente; quando os ofereci uma comida cozida – cozida e fervente – eles a encheram de água quente antes de comer. Verdade que essa atitude arcaica é excepcional. Muitos povos, entretanto, sofrem não porque não desfrutam de habilidade para cozinhar, mas por causa de uma carência ainda mais séria – a dos meios de produção. Como resultado, eles raramente podem utilizar mais de um tipo de comida ao mesmo tempo.


Saciando a fome



Etnólogos como E.E. Evans-Pritchard e Audrey Richards descreveram como, em certas partes da África, o panorama da saúde física e mental das populações nativas é afetado pela periodicidade dos ingredientes culinários. Muitas comunidades têm o suficiente para comer durante apenas uma parte do ano, quando a mandioca, o milho ou o arroz estão disponíveis. Depois desses "meses gordos" vêm os "meses magros", quando as pessoas têm apenas o que podem aleatoriamente pegar. O cardápio diário encolhe de tamanho e, ainda mais importante, uma dieta rica em carboidratos é repentinamente substituída por outra que consiste quase inteiramente de vegetais, tais como polpas e melões.

Nós, com o nosso bem assegurado suprimento de comida, raramente podemos imaginar a intensidade das sensações resultantes dessa substituição. O sentimento de saciedade de repente dá lugar para cólicas de fome. Uma violenta diarréia sucede o desconforto oposto da flatulência e da fermentação intestinal.

A população nativa então descobre que tanto os seus corpos quanto os seus espíritos são radicalmente afetados por mudanças na dieta. Como Audrey Richards tem dito com tanta argúcia, não é de surpreender que tantas comunidades considerem a comida como algo perigoso, carregado de toda sorte de influência mágica. Eles assim associam as sensações disparadas pela comida com sentimentos aos quais atribuímos uma origem diferente; a vermelhidão causada pelo álcool é para eles um sinal de fúria, enquanto o jejum é conectado com as mais elevadas emoções do espírito. "Sinto-me como uma jovem menina novamente, estou tão leve e cheia de vida!" exclamou uma velha senhora africana, no dia em que por acaso saciou a sua fome.

"Nossos cozinheiros, diferentemente dos cozinheiros tribais, se esqueceram do que foi antes um rito essencial: o rito de honrar os animais que estão prestes a serem comidos, de modos que sua espécie não se extinga da Terra."
Na história da raça humana houve um dia memorável, embora ainda desconhecido: a data em que o homem descobriu como manter duas diferentes fontes de nutrientes à sua disposição durante o ano inteiro e, ao combiná-los, superar os dois grandes perigos à sua nutrição – a escassez de comida e a sua insipidez.

Porque não basta comer o suficiente. Como diz o provérbio francês, não se deve perder o gosto pelo pão. Toda a história da culinária é a história da busca pelos meios para tornar o pão saboroso, para criar e aumentar o apetite por itens alimentares básicos – pão, arroz, milhete, milho ou mandioca, de acordo com a região – que fornecem energia mas têm pouco sabor. A carne veio depois; por muito tempo ela foi, e em muitas partes do mundo ainda é, um luxo reservado aos privilegiados. A base real da culinária em todo o mundo são os carboidratos temperados com algum condimento. Pão e cebolas, o "chapati" com "chutney", arroz e molho feito com peixe fermentado; milhete, milho ou mandioca com pimentões – todos esses são simplesmente variações de um tema universal, sobre o qual a arte de cozinhar tem construído incontáveis melodias.

As especiarias tranformaram o mundo



As dificuldades nessa busca por sabores é ilustrada pelas grandes viagens marítimas do século XVI, realizadas pelo que hoje parecem ser motivos triviais. Apenas há 400 anos, a Europa estava organizando tremendas expedições com o principal objetivo de obter especiarias.

Isso marca o nascimento da culinária na Europa e talvez também em outras partes, uma vez que nenhum estilo culinário parece ser capaz de ficar sem certos produtos de origem americana desconhecidos em outras partes do mundo antes da descoberta do Novo Mundo, como batatas, tomates, amendoim, chocolate, baunilha e pimentão. Na realidade, um capítulo inteiro da etnologia ainda está por ser escrito. Ele consistiria em descrever o caráter e a distribuição geográfica das regras – algumas muito simples, outras extraordinariamente complexas – de obtenção, tratamento, associação e mistura de vários itens alimentares básicos. Isso revelaria que os polinésios são os inventores da agricultura sem solo, uma vez que alguns desses insulares tiveram sucesso em cultivar hortas no meio de arrecifes de corais. Isso também mostraria que certas tribos, embora extremamente primitiva em outros aspectos, têm realizado o feito extraordinário de produzir itens alimentares básicos a partir de plantas venenosas tais como a mandioca e a bolota.

Também mostraria que certos povos primitivos desenvolveram uma culinária que é cheia de sutilezas. Em um de seus livros sobre os Kwakiutl, habitantes do Alasca, o distinto etnólogo americano Boas dá não menos de 156 receitas para o preparo de vários tipos de peixe, frutas e raízes selvagens. Uma delas, escolhida aleatoriamente, consiste em bater a neve até que ela tenha a consistência de creme e depois misturá-la com óleo de peixe, moluscos e frutas vermelhas frescas.

Sob o sugestivo título Zuni Breadstuffs, um livro de outro etnólogo, Cushing, conta a fascinante história da produção e preparo de comida na tribo indígena Pueblo, do Novo México. Um banquete consistia em 14 pratos – pãezinhos e biscoitos de milho em seis cores diferentes, vários tipos de carne, tripas, salsichas e morcelas de carneiro. Todos são comidos com uma escova dura que se chupa e se molha, sucessivamente, nos pratos correspondentes.

Peixes "ofendidos" não voltam


O consumo da comida é uma questão social distinta. Há poucos povos, como os Paressi do centro-oeste do Brasil, que consomem suas refeições em "confinamento solitário", de modo a esconder o ato "indecente" de comer. Escrevendo sobre os Kwakiutl, Boas descreve a etiqueta ceremonial do banquete: os preparativos culinários, o arranjo das variadas formas de recipientes e forros de mesa, o envio de mensageiros com os convites (que devem ser recusados várias vezes antes da aceitação final), as músicas em honra aos convidados e a entrega de uma porção cuidadosamente selecionada que deve ser adequada aos status de cada um.

Nada disso nos deve surpreender; a etiqueta dos Kwakiutl não é tão diferente de nossos jantares formais. Nós também honramos nossos convidados com belas peças de tecido, prataria e refeições especialmente escolhidas. Mas nossos cozinheiros, ao contrário dos tribais, esqueceram o que era um rito essencial – o de prestar honra aos animais prestes a serem comidos, de modo que as suas espécies não desapareçam da terra. Por isso é que às vezes nos deparamos com algumas instruções desconcertantes em receitas nativas, como a que descrevo a seguir, originária dos índios Tsimshian do noroeste da costa do Pacífico, e que ofereço às donas de casa como conclusão desta breve introdução à etnologia culinária.

Quando a gordura está preste a ser extraída de um olachen, o peixe deve ser primeiro desidratado ao ar livre. Então, deve ser cozido em potes cheios de água no qual se atiram pedras aquecidas no fogo, retirando-se a gordura que sobe até a superfície. O que restar do peixe deve ser depois espalhado num escorredor colocado sobre um recipiente, o qual uma velha senhora deve pressionar contra o seu peito nu o mais forte que puder, de modo a retirar o restante da gordura (homens são estritamente proibidos de realizar essa operação de retirada da gordura).

Os bolos de peixe são então empilhados no canto, onde permanecem se decompondo até que se mostrem cheios de larva. Embora o cheiro pareça insuportável, eles não podem ser jogados fora. Além disso, nenhum dos “cozinheiros” envolvidos está autorizado a se limpar; todos devem permanecer cobertos com a sujeira até o final dos procedimentos, os quais podem durar até duas ou três semanas. De outra maneira, os peixes ficariam "ofendidos" e nunca mais retornariam.

Indivíduo da tribo Nambiquara com o rosto manchado por cinzas (Brasil, 1935-1939).

A crise moderna da antropologia

No tempo em que os países africanos adquiriam suas independência, parecia que a antropologia estava próxima de se tornar vítima de uma dupla conspiração. De um lado, á povos fisicamente indisponíveis para o estudo por estarem desaparecendo. De outro, há os hostis à antropologia por razões psicológicas e éticas.




O importante lugar social que a antropologia ocupa no pensamento contemporâneo pode parecer paradoxal para muitas pessoas. É uma ciência bastante em voga, como comprova a moda dos filmes e livros de viagem e também o interesse de um público culto por livros de antropologia. No caminho para o século XIX as pessoas estavam propensas a olhar para os biólogos na busca por uma filosofia do homem e do mundo, e mais tarde para o sociólogo, o historiador, e até mesmo o filósofo.

Mas nos últimos anos, a antropologia tem desempenhado o mesmo papel, e hoje também se espera que ela nos ofereça profundas reflexões sobre o nosso mundo, bem como uma filosofia de vida e esperança.

É nos Estados Unidos que essa abordagem para a antropologia parece haver começado. No ímpeto de uma jovem nação em criar o seu próprio humanismo, a América rompeu com o pensamento tradicional europeu. Ela não viu razão para que as civilizações da Grécia e de Roma devessem ser admiradas de modo excludente às demais simplesmente porque, no Velho Mundo da Renascença, quando a humanidade veio a considerar os estudos do homem mais apropriados e necessários, essas eram as duas únicas civilizações suficientemente conhecidas.

Desde o século XIX e especialmente o século XX, praticamente toda sociedade humana do nosso planeta se tornou acessível ao estudo. Por que então limitar os nossos interesses? E de fato, quando contemplamos a humanidade na sua inteireza não podemos deixar de reconhecer o fato de que, para 99% da existência humana, ao redor de todo o globo habitado, não há costumes, crenças e instituições que possam ser colocadas para fora do campo dos estudos antropológicos.

Essa orientação foi intensificada ainda mais durante a última guerra, com o conflito alcançando proporções mundiais. Até mesmo os mais obscuros e remotos cantos do nosso planeta foram rapidamente atirados para dentro de nossas vidas e consciências, assumindo uma realidade tridimensional. Essas eram as terras nas quais os últimos povos "selvagens" haviam buscado segurança no isolamento – o extremo norte da América, a Nova Guiné, o interior do Sudeste Asiático e certas ilhas no arquipélago da Indonésia.

Um mundo que encolhe


Desde a Guerra, muitos nomes, alguns deles carregados de mistério e romance, permanecem em nossos mapas; mas agora eles designam pistas de pouso para linhas aéreas de longa distância. Sob o impacto da aviação e com o aumento da população mundial, nosso planeta diminuiu de tamanho e a melhoria nas comunicações e equipamentos de viagem não mais nos permitem fechar os olhos ou permanecer indiferentes a outros povos.

Hoje não há parcela da raça humana, não importa o quão remota e atrasada ainda possa parecer, que não esteja direta ou indiretamente em contato com as outras, e cujos sentimentos, ambições, desejos e medos não afetem a segurança, a prosperidade e o verdadeiro sentido de existência daqueles para os quais o progresso material um dia pode ter dado uma sensação de ascendência.

Ainda que quiséssemos, não poderíamos mais ignorar ou dar os ombros com indiferença, vamos dizer, para os últimos caçadores de cabeça da Nova Guiné, pelo simples fato de que eles estão interessados em nós. E por mais surpreendente que possa parecer, o resultado do nosso contato com eles significa que, tanto eles quanto nós, somos parte do mesmo mundo e que não levará muito tempo para que todos nós façamos parte da mesma civilização.

Mesmo em sociedades com os padrões de pensamento mais amplamente divergentes e cujos costumes e modos levem milhares de anos para evoluir por caminhos isolados, no momento em que o contato é estabelecido, elas impregnam-se umas às outras. Isso ocorre por muitas maneiras; algumas vezes somos claramente conscientes delas, mas, na maior parte das vezes, não o somos.

À medida que se espalham pelo mundo, civilizações como as cristãs, islâmicas e budistas, as quais correta ou erroneamente sentem que alcançaram o ápice do desenvolvimento, bem como o padrão tecnológico que as une, se tornam permeados por modos de vida “primitivos”, por pensamentos “primitivos” e comportamentos “primitivos”; os quais têm dominado a pesquisa antropológica. Sem que nos demos conta disso, os modos “primitivos” estão transformando essas civilizações de dentro.
Os assim chamados povos primitivos ou arcaicos não desaparecem num vácuo. Eles se dissolvem e são incorporados com maior ou menor velocidade pela civilização que os rodeia. Ao mesmo tempo em que esta última adquire um caráter universal.

Antropologia: uma ciência sem objeto?


Assim, longe de diminuí-los em importância, os povos primitivos nos preocupam mais a cada dia que passa. Para tomar apenas um exemplo, a grande civilização da qual o Ocidente tem orgulho, e que espalhou as suas raízes em todo o mundo habitado, está emergindo em toda parte como “híbrida”. Muitos elementos estrangeiros, espirituais e materiais, estão sendo absorvidos nessa corrente.

Como resultado, os problemas da antropologia deixaram de ser problemas de especialistas, limitados a acadêmicos e exploradores; eles se tornaram uma preocupação direta e imediata para cada um de nós.

Onde então está o paradoxo? Na verdade existem dois – na medida em que a antropologia está concentrada principalmente no estudo dos povos “primitivos”. No momento em que o público vem a reconhecer o seu verdadeiro valor, podemos bem perguntar se por acaso ela não atingiu o ponto no qual não há nada mais sobrando para estudar.

As várias transformações que estão fomentando um crescente interesse teórico no “primitivo” estão de fato provocando a sua extinção. Esse não é um fenômeno novo. Desde o longínquo ano de 1908, quando inaugurou a cadeira de Antropologia Social da Universidade de Liverpool, Sir James Frazer (autor do monumental Ramo de Ouro) chamou dramaticamente a atenção dos governos e dos acadêmicos para este problema. Todavia, dificilmente poderemos comparar a situação de meio século atrás com a extinção em larga escala dos povos “primitivos” que temos testemunhado desde então.


"As regras gerais do desenvolvimento da sociedade e da cultura, e até mesmo os limites da etnografia ("antropologia") como ciência, são objeto de controvérsia. Mas o modo pelo qual Lévi-Strauss lida com esses e outros problemas sofre de um excessivo formalismo, inerente ao método "estruturalista" que é atualmente favorecido nos circuitos científicos, dos quais Lévi-Strauss é conhecido como um dos mais eminentes representantes."

Professor S.A. Tokarev (União Soviética), arquivos da UNESCO: documento datado de 20 de maio de 1966.
Deixe-me citar alguns exemplos. No início da chegada dos brancos na Austrália, os aborígines totalizavam 250.000 indivíduos. Hoje não sobram mais que 40.000. Relatórios oficiais os descrevem amontoados em reservas ou agrupados próximos a centros de mineração, onde em vez de suas tradicionais festas para a coleta de comida selvagem eles foram reduzidos a catar as sobras amontoadas próximas às barracas dos mineiros. Outros aborígines, que tiveram de se retrair para as profundezas do deserto proibido, estão sendo expulsos pela instalação de bases de explosão atômica ou bases de lançamento de foguetes.

Quando Claude Lévi-Strauss publicou este texto no Correio da Unesco, os Kaingang enfrentavam uma dolorosa recuperação de várias décadas de extermínio e massacre. Comentário
Protegida por um meio-ambiente extremamente hostil, a Papua Nova Guiné e seus milhões de habitantes de tribos podem bem ser o último grande santuário das sociedades primitivas na terra.

Mas, aqui também, a civilização está fazendo uma incursão tão rápida que os 600 mil habitantes das montanhas centrais que eram totalmente desconhecidos há meros 20 anos estão agora provendo um considerável contingente de trabalho para a construção de estradas. E não é raro hoje em dia ver placas de trânsito e outros dispositivos de sinalização sendo enviados para dentro da floresta inexplorada!

Mas com a civilização também chegam doenças estranhas, contras as quais os "primitivos" não têm imunização natural e que têm provocado um caos mortal na região. Eles estão rapidamente sucumbindo com doenças como: tuberculose, malária, tracoma, lepra, disenteria, gonorréia, sífilis e uma doença misteriosa conhecida como Kuru. Resultante do contato do homem primitivo com a civilização, embora não tendo sito de fato introduzida por esta, Kuru é uma deterioração genética que inevitavelmente leva à morte e para a qual ainda não há tratamento conhecido.

No Brasil, 100 tribos foram extintas entre 1900 e 1950. Os Kaingang, do estado de São Paulo, somavam 1.200 em 1912, eram não mais que 200, em 1916, e hoje estão restritos a 80.

Os Munduruku eram 20 mil em 1925 – em 1950, somavam 1.200. Dos 10 mil Nanmbikwara em 1900, pude contar apenas algumas centenas em 1940. Os Caiapó do rio Araguaia eram 2.500 em 1902 e 10 em 1950. Os Timbira eram mil em 1900 e 40, em 1950.

Como esta rápida dizimação pode ser explicada? Na sua maior parte, pela introdução de doenças típicas do Ocidente para as quais os organismos dos indígenas não possuem defesa. O trágico destino dos Urubu, uma tribo indígena do Nordeste do Brasil, é o mesmo de muitas outras. Em 1950, apenas alguns anos depois de haverem sido descobertos, eles contraíram sarampo. Em apenas alguns dias, houve 160 mortos em uma população de 760 indivíduos. Uma testemunha ocular deixou esta triste descrição:

"Encontramos a primeira vila abandonada. Todos os habitantes saíram daqui, convencidos de que, se fugissem para bem longe, escapariam da doença que eles acreditavam fosse um espírito atacando a vila. Descobrimos que eles estavam na floresta e haviam interrompido a jornada. Exaustos e queimando de febre em plena chuva, quase todos foram vitimados pela doença. Complicações pulmonares e intestinais os enfraqueceram tanto que eles já não tinham mais força para buscar comida. Até água estava faltando, e eles estavam morrendo de fome, de sede e da própria doença. As crianças engatinhavam no chão da floresta, tentando manter o fogo acesso apesar da chuva, e buscavam um pouco de calor. Os homens estavam deitados, paralisados e queimando de febre, as mulheres empurravam para longe de si os filhos que buscavam amamentação."

De indígenas a indigentes


Em 1954, uma missão foi estabelecida junto aos Guaporé, na fronteira entre Brasil e Bolívia, e quatro tribos diferentes foram incitadas a formar um único grupo. Por vários meses eles formaram um grupo de 400 pessoas, todo exterminado pelo sarampo pouco tempo depois.

Mas além das doenças infecciosas, a falta de vitaminas e de outros nutrientes também são problemas importantes. Deficiências de ordem motor e vascular, lesões nos olhos e queda da dentição, desconhecidas para os povos primitivos quando estes viviam de acordo com os seus hábitos antigos, apareceram quando estes foram confinados em vilas e tiveram de comer alimentos que não vinham mais da floresta nativa. Nessas condições, até mesmo os remédios antigos e tradicionais, como pasta de carvão vegetal para queimaduras severas, mostraram-se inúteis. E simples doenças com as quais os habitantes da tribo estavam há muito tempo acostumados, tornaram-se terrivelmente virulentas.

A dizimação dos indígenas também se deve a outras causas menos diretas, como o colapso da estrutura social ou dos seus padrões de sobrevivência. Os já mencionados Kaingang, de São Paulo, viviam sob uma série de regras sociais bastante estritas, das quais todos os antropólogos têm conhecimento. Os habitantes de todas as vilas eram divididos em dois grupos sob o princípio de que os homens do primeiro grupo só poderiam se casar com mulheres do segundo grupo e vice-versa.

Quando as suas populações diminuíram, as bases de sua sobrevivência entraram em colapso. Sob o rígido sistema dos Kaingang, não era mais possível para todos os homens encontrar uma mulher e muitos não tiveram outra escolha senão o celibato, a menos que aceitassem a companhia de alguém do mesmo grupo – o que para eles era um incesto, e ainda assim o matrimônio não poderia gerar filhos. Nesses casos, toda uma população poderia desaparecer em poucos anos (estas observações sobre os desaparecimentos dos indígenas no Brasil foram tiradas principalmente de um estudo do notável antropólogo brasileiro, Dr. Darcy Ribeiro, intitulado "Convívio e Contaminação", publicado em "Sociologia", Vol. XVIII, No. 1 São Paulo, 1956).

Tendo isso em mente, vê-se como é difícil não apenas estudar os assim chamados povos primitivos, mas até mesmo defini-los satisfatoriamente. Em tempos recentes, tem havido uma séria tentativa de revisar o pensamento existente sobre a legislação de proteção em países que enfrentam esse problema.

Nenhuma linguagem ou cultura, ou a convicção de pertencimento a um grupo, são critérios válidos para uma definição. Como mostram pesquisas da Organização Internacional do Trabalho, a noção de povos indígenas está sendo superada pelo conceito de povos indigentes (OIT, As Populações Aborígenes. Genebra, 1953).

Povos que se recusam a ser um objeto de estudo


Mas essa é apenas a metade da história. Existem outras partes no mundo nas quais dezenas e centenas de milhões de habitantes vinham sendo tradicionalmente objeto de estudo da antropologia. Essas populações estão se multiplicando rapidamente na América Central, nos Andes, no Sudeste Asiático e na África. Mas aqui também a antropologia enfrenta uma crise. Não porque as populações estão morrendo, mas por causa da natureza das pessoas envolvidas.

Essas pessoas estão mudando e suas civilizações estão aos poucos se tornando ocidentalizadas. A antropologia, no entanto, nunca incluiu o Ocidente na sua área de competência. Além disso, e talvez ainda mais importante, há uma crescente oposição a pesquisas antropológicas nessas regiões. Há vários exemplos nos quais museus de “antropologia” foram forçados a mudar de nome e só podem continuar se desenvolvendo como 'Museus de Arte e Tradição Popular'.

Em jovens nações que recentemente obtiveram sua independência, economistas, psicólogos e sociólogos foram muito bem recebidos pelas universidades. O mesmo não pode ser dito sobre antropólogos.
Por isso tudo, parece que a antropologia está a ponto de se tornar vítima de uma dupla conspiração. De um lado existem povos que estão fisicamente indisponíveis para o estudo simplesmente porque estão desaparecendo da face da terra. De outro lado existem aqueles que, longe da desaparição, estão vivendo uma grande explosão populacional, todavia são categoricamente hostis à antropologia por razões psicológicas e éticas.

Não há problema no enfrentamento da primeira destas crises. A pesquisa precisa ser acelerada e devemos tirar o máximo proveito do pouco tempo que temos para reunir as informações possíveis dessas ilhas de humanidade que estão desaparecendo. Essa informação é vital, pois ao contrário das ciências naturais, as ciências humanas não podem gerar seus próprios experimentos.
Todos os tipos de sociedade, baseadas em crenças ou instituições, todos os modos de vida, constituem um experimento já pronto cuja preparação levou milhares de anos e como tal é insubstituível. Quando uma comunidade desaparece, uma porta se fecha para sempre, enclausurando um conhecimento que é único.

Por essa razão é que o antropólogo acredita ser essencial criar técnicas mais apuradas de observação antes que essas sociedades se percam e seus costumes sociais sejam destruídos, assim como astrônomos que produziram amplificadores eletrônicos para capturar os tímidos sinais de luz das estrelas que correm a quilômetros de distância de nós.

"Os ocidentais nunca vão ser capazes (a não ser de brincadeira) de desempenhar o papel de “selvagens” diante daqueles que um dia dominaram."
A segunda crise na antropologia é bem menos séria em seu caráter objetivo, já que não existe ameaça de extinção das civilizações em questão. Mas ela é mais difícil de ser enfrentada. Eu fico a imaginar se ajudaria a superar a desconfiança daqueles que um dia foram parte do campo de estudos dos antropólogos, caso eu propusesse que as nossas pesquisas não devessem mais ser de “mão única”. A antropologia não encontraria o seu lugar novamente se, em troca de nossa contínua liberdade de investigação, nós convidássemos antropólogos africanos ou malaios para que viessem nos estudar dos mesmos modos pelos quais nós os temos estudado?

Essa troca seria extremamente desejável, pois enriqueceria a ciência antropológica pela ampliação de horizontes, estabelecendo um caminho de progresso. Mas não tenhamos ilusões – isso não resolveria o problema, porque não leva em consideração os reais motivos pelos quais os povos das antigas colônias adotam uma atitude negativa em relação à antropologia. Eles estão com receio de que, sob o manto da interpretação antropológica da história, o que eles consideram uma desigualdade intolerável venha a se justificar como uma diversidade desejável da espécie humana.

Se me for permitido usar uma expressão que, vinda de um antropólogo não pode assumir conotação depreciativa, eu diria que os ocidentais nunca vão ser capazes (a não por brincadeira) de desempenhar um papel de “selvagens” diante daqueles que um dia dominaram. Como nós ocidentais os atribuímos esse papel, eles têm existido para nós apenas como objetos – para o estudo científico ou a dominação política e econômica. Como aos olhos deles nós somos os responsáveis por seu passado e agora aparecemos inevitavelmente como forças diretivas; é muito difícil para eles olhar para nós com uma atitude de consideração desinteressada.

Por um curioso paradoxo, foi sem dúvida um sentimento de empatia que fez com que antropólogos adotassem prontamente a idéia de pluralismo (que assevera a diversidade de culturas humanas e ao mesmo tempo nega que certas civilizações podem ser classificadas como “superiores” e outras como “inferiores”).

Todavia, esses antropólogos – e de fato toda a antropologia – são agora acusados de negar esta inferioridade com o mero objetivo de escondê-la e assim contribuir, direta ou indiretamente, para a sua manutenção.

Passar do estudo "desde fora" a um estudo "desde dentro"



Se a antropologia pretende sobreviver no mundo moderno, não pode haver dúvida de que isso deverá ocorrer ao preço de mudanças mais profundas que a mera ampliação do círculo (muito restrito; o que até hoje é verdadeiro) mediante a fórmula, até certo ponto infantil, de oferecer os nossos brinquedos aos que estão chegando desde que eles nos permitam brincar com os deles.

A antropologia precisa transformar a sua natureza e deve admitir que lógica e moralmente é quase impossível continuar a enxergar as sociedades como objetos científicos, os quais os cientistas podem até ter algum interesse em preservar, mas que os sujeitos coletivos clamam pelo direito de mudar de acordo com o próprio entendimento.

A modificação do objeto da pesquisa antropológica também implica modificações nos seus objetivos e métodos. E isso felizmente parece bastante plausível, já que o nosso ramo científico nunca definiu os seus propósitos de modo absoluto, e sim com base na relação entre o observador e o seu tema. E sempre concordamos com mudanças sempre que essa relação também houvesse mudado.

Sem dúvida, uma propriedade da antropologia tem sido sempre de investigar as sociedades "de dentro". Mas isso resultou apenas da impossibilidade de investigá-las à distância ou "de fora". No campo das ciências sociais, a grande revolução dos nossos tempos é que civilizações inteiras se tornaram conscientes de sua própria existência, e tendo adquirido os meios necessários para fazê-lo por meio da alfabetização, iniciaram o estudo dos seus próprios passados e tradições e de cada aspecto único de suas culturas que sobreviveram até os dias atuais.

Portanto, se a África, por exemplo, está escapando da antropologia, ela não escapará tão facilmente da ciência. No lugar dos antropólogos – ou seja, do analista "de fora", trabalhando "de fora" – o estudo do continente estará nas mãos dos cientistas africanos, ou dos estrangeiros que utilizarão os mesmos métodos dos seus colegas africanos.

Eles não serão mais antropólogos, porém lingüistas, filólogos, historiadores de fatos e idéias. A antropologia aceitará com prazer essa transição para métodos mais ricos e sutis que os seus próprios; confiante em que haverá cumprido a sua missão ao manter viva muita da riqueza mundial em nome do conhecimento científico, já que ela era o único ramo da ciência capaz de fazê-lo.

Diversidade, a razão de ser da antropologia




Quanto ao futuro da antropologia, em si, este parece estar para além e para aquém de suas posições tradicionais. Para além, primeiramente, no sentido geográfico, já que devemos ir mais e mais longe a campo para alcançar o que resta dos assim chamados povos primitivos, e eles estão se tornando menos e menos numerosos; mas para além no sentido lógico também, pois agora estamos interessados no que é essencial.

Para aquém dos limites, em segundo lugar, no sentido de que o colapso das bases materiais das civilizações primitivas tornou suas experiências íntimas um dos últimos campos de investigação, no lugar de armas, ferramentas e objetos domésticos que estão desaparecendo. Mas também porque, na medida em que a civilização ocidental torna-se mais complexa e se espalha por toda a terra, ela começa a dar sinais da mesma diversidade que a antropologia tornou o seu objeto de estudo, mas até então só poderia ser apreendida mediante a comparação entre culturas distantes e muito diferentes.

Aqui, sem dúvida, reside a função permanente da antropologia. Se, como os antropólogos sempre afirmaram, existe uma espécie de "ótimo de diversidade" que eles enxergam como um dado permanente no desenvolvimento da condição humana, então resta-nos a certeza de que diferenças entre sociedades e grupos sociais só desaparecerão para dar lugar a outras.

Quem sabe o conflito entre velhas e novas gerações, que tantos países têm experimentado, não são o tributo que precisa ser pago pela crescente homogeneização de nossa cultura material e social? Esse fenômeno me parece patológico, mas a antropologia sempre foi caracterizada por sua habilidade de explicar e justificar formas de comportamento humano que os homens acham estranhos e não conseguem compreender.

Nesse sentido, a antropologia tem auxiliado a ampliar as visões correntes sobre a humanidade em todas as suas fases. Para sugerir o desaparecimento da antropologia, seria preciso instituir uma civilização na qual todos – não importa o canto do planeta que habitem, os modos de vida, a educação, as atividades profissionais, as idades, afinidades e aversões – fossem, do fundo de suas consciências, totalmente inteligíveis uns aos outros.

Tomados como motivos de condenação, de aprovação, ou simplesmente como fatos, o progresso técnico e o desenvolvimento das comunicações dificilmente parecem guiar-nos para esse caminho. E como os modos de pensar ou de agir de alguns homens continuam tornando outros perplexos, sempre haverá espaço para meditar sobre essas diferenças. Este, ainda que de formas constantemente renovadas, será sempre o terreno da antropologia.

sábado, 24 de outubro de 2009

Miniatura de Jamshid, rei mítico do antigo Irã (séc. XVI)


© Museu de Arte Contemporânea de Teerã.



Os sete volumes da “História das Civilizações da Ásia Central” abrangem uma região imensa que vai do Mar Cáspio até as fronteiras com a China. Ao elaborar este projeto, o Comitê Científico Internacional dedicou-se em primeiro lugar à delimitação do que, aos olhos da topografia e do habitat, era impossível de circunscrever como região bem definida da Antiguidade.


Do ponto de vista da geografia e da vegetação, a grande planície ou estepe eurasiana, que se estende da Hungria até os montes Tian Shan e Altai, pode ter seu espaço delimitado graças a critérios hidrográficos – os territórios compreendidos entre montes do Ural e a Manchúria Ocidental têm sistemas fluviais e lagos dotados de exíguas bacias e sem saída para os Oceanos Ártico, Pacífico e Índico, que os circundam. A região delimitada deste modo serviu de núcleo central para o Comitê, que, na tentativa de levar em consideração os fatores culturais, comerciais e econômicos, acrescentou-lhe no oeste, sul e leste os territórios das antigas civilizações que, no decorrer da História, estabeleceram com ela relações de proximidade.

O cego olhar dos griôs expressa o poder das palavras africanas.

De viva voz: as palavras dos griôs


Antes de declamar, o griô situa-se no tempo para fornecer o fundamento mais fidedigno à sua palavra. Orador e genealogista, ele relata não só os acontecimentos, mas também as relações entre as pessoas. Convidado a participar de todas as cerimônias, exerce a função de moderador e pode efetuar um “polimento” de sua narrativa para evitar que determinadas afirmações provoquem discórdias. Assim, ele começa por desculpar-se de suas omissões, por vezes voluntárias. Tendo a missão de facilitar a paz social, este “mestre da palavra” também desempenha, portanto, uma função ética. Na África, a palavra de fato tem um valor inestimável, pois, ao ser pronunciada, age como um tiro: é impossível recuperá-la. Por isso, é inconcebível falar à toa. “Deve-se falar apenas quando for necessário e guardar silêncio enquanto não for solicitada sua opinião”, diz um provérbio. Este, aliás, é o sentido de "palavrar".

M. C.

Registro de histórias da tradição oral, Senegal, 1969.

Antigo mapa da Guiné.

A palavra pode ser uma fonte histórica? Quem responde é o historiador guineano Djibril Tamsir Niane, ao mostrar que os arquivos escritos não são as únicas formas de se fundamentar a História. “A tradição oral é um verdadeiro museu vivo que reveste o esqueleto do passado com carne e cores”, dizia o burquinense Joseph Ki-Zerbo.




Tete la asom ene Kakyere: "Coisas do passado ecoam no ouvido". Provérbio akan.
Djibril Tamsir Niane é especialista em Império do Mali. Sua obra principal “Sundiata, ou a epopéia mandinga” (1960) é o resultado de sua coleta de narrativas tradicionais junto a Mamadu Kuyaté e outros griôs (tradicionais contadores de história). O guineano é diretor de Pesquisa do 4º volume da “História Geral da África: a África dos séculos XII a XVI”. Este período, crucial para a história do continente, corresponde ao desenvolvimento dos grandes impérios e dinastias: Mali, Songhay e Almôades, entre outros.

Depoimento registrado por Monique Couratier (UNESCO), coordenadora de “História dos Povos: o passado em revisão”.

“As palavras voam, os escritos permanecem”, diz-se no Ocidente. O senhor pode explicar como a tradição oral tem legitimidade para exprimir a história das culturas africanas?

Essa citação, procedente dos romanos, contribuiu para forjar a opinião segundo a qual uma fonte oral não merece crédito. Ora, os povos da oralidade são portadores de uma cultura cuja fecundidade é semelhante à dos povos da escrita. Em vez de transmitir seja lá o que for e de qualquer maneira, a tradição oral é uma palavra organizada, elaborada, estruturada, um imenso acervo de conhecimentos adquiridos pela coletividade, segundo cânones bem determinados. Tais conhecimentos são, portanto, reproduzidos com uma metodologia rigorosa.
Existem, também, especialistas da palavra cujo papel consiste em conservar e transmitir os eventos do passado: trata-se dos griôs (ver destaque). Na África Ocidental, encontramos aldeias inteiras de griôs, como Keyla, no Mali, com cerca de 500 habitantes. São como escolas da palavra, onde a história de suas linhagens são ensinada às crianças, desde os 7 anos, seguindo uma pedagogia baseada na memorização. Esta faculdade é reativada pelo ritmo do canto ou dos instrumentos de música, como o tamani, o koni e o khalam. As palavras do griô são “hieróglifos falados”, dizia meu amigo burquinense Joseph Ki-Zerbo.

Qual é o papel do griô na sociedade atual?


Na África de hoje em dia, o modelo ocidental de ensino facilita a passagem da cultura oral para a cultura escrita. Temos de reconhecer que as escolas de tradição oral perdem sua força em matéria de transmissão. Todavia, no seio da comunidade, o griô continua desempenhando seu papel conforme a sua casta socioprofissional: assim, ele é o oficiante em todas as cerimônias.

Será possível chamá-lo de historiador?

Graças aos conhecimentos legados por seus antepassados, o griô dispõe de um corpus que constitui a narrativa de base. Segundo as circunstâncias, porém, ele pode limitar sua transmissão a um episódio ou a um resumo. Pode, também, acrescentar conhecimentos adquiridos pessoalmente ao falar com as pessoas, durante suas viagens. Essas supressões e aditamentos não alteram de modo algum a validade histórica da narrativa transmitida de geração em geração por serem claramente indicados em seu relato. À medida que procede à narração, o griô vai ponderando seus elementos. Pode-se dizer que ele assume o papel de historiador se admitirmos que a história é sempre um reordenamento dos fatos proposto pelo historiador.

As tradições orais não estarão ameaçadas pelas interferências decorrentes das transcrições e traduções?

A coleta é feita na língua do griô com a ajuda de um gravador antes de ser retranscrita na mesma língua local. Em seguida, a narrativa é traduzida para uma língua ocidental em um exercício sujeito a restrições semelhantes a qualquer outra tradução! O historiador dispõe sempre da possibilidade de reescutar as gravações originais e, em particular, de registrar as “intermitências” do discurso e os “parênteses” decididos pelo griô.

Durante a preparação da História Geral da África, o senhor chegou a utilizar essas fontes orais?
Em viva voz: as palavras dos griôs

Antes de começar a contar uma história, o griô se situa no tempo para fundamentar suas palavras. Mais
Com certeza. Além das narrativas históricas, é verdade que a tradição oral refere-se à cosmogonia, às lendas… Para levá-las em consideração, o historiador deve comparar suas fontes e confirmar as coincidências. No entanto, convém ter presente que tal método é aplicado, igualmente, com as fontes escritas.

A epopéia de Sundiata é um exemplo. Trata-se da mais antiga das epopéias africanas que relata a formação do Grande Império do Mali por meio do itinerário de seu fundador, Sundiata Keita, que viveu no século XIII e unificou o Sahel, desde o Níger até o Senegal. Sua história foi transmitida até nossos dias graças à tradição oral, mas os fatos históricos são confirmados, também, por arquivos escritos.

A fim de completar alguns detalhes inexistentes nas versões orais, procedemos a comparações com os documentos do século XIV, legados pelo viajante e geógrafo Ibn Batuta (natural de Tanger, 1304) e pelo historiador Ibn Khaldun (natural de Tunis, 1332). Esta operação permitiu-nos datar com precisão a batalha de Kirina (1235), na qual Sundiata venceu seu inimigo, o rei feiticeiro Sumaoro.

Além disso, colocamos em evidência os aspectos comuns às diferentes variantes orais dessa epopéia, oriundas, em particular, de Keyla no Mali, de Fudama na Guiné e de Bangul na Gâmbia. É interessante observar que ela foi perpetuada em diferentes línguas; tal fato acaba tornando o trabalho do historiador ainda mais apaixonante.

A África é conhecida por sua extraordinária diversidade linguística: pelo menos seis das 16 famílias linguísticas catalogadas no mundo seriam africanas. É possível falar de uma identidade cultural na escala do continente?

A África sempre foi um exemplo de diversidade cultural. Voltemos ao império de Sundiata. Ele era composto por múltiplas etnias, cada uma dotada da respectiva cultura, língua e tradição. Seu poder não era, de modo algum, do tipo jacobino, já que havia sido adotado um modelo de descentralização que permitia o desabrochamento da diversidade. E a diversidade linguística não constituía um freio, se levarmos em consideração a liberdade de circulação desses grandes médicos tradicionais que percorriam cada uma das aldeias entre Dakar (Senegal) e Conakry (Guiné).

Convém lembrar que, em toda a África Ocidental, as pessoas podiam circular livremente. Em 1236, Sundiata enunciou o que se designa por “Carta de Kurukan Fuga”, uma espécie de Constituição de seu Estado; além disso, codificou um documento equivalente a uma espécie de carteira de identidade, cuja validade era regional e não nacional.

A diversidade das línguas não implica, portanto, forçosamente a variabilidade dos valores.

Aula de alfabetização para jovens adultos na língua local de Togo (1952).

Costa do Cabo (Ghana), ponto de partida do tráfico de escravos.

Cabeça de estátua de Taharqa (Karnak), 25ª dinastia (cerca de 670 a.C.).

Após o período de sua independência, na década de 1960, os países africanos assumiram a tarefa de atenuar a ignorância reinante sobre o passado de seu continente e de superar os preconceitos discriminatórios. Pela primeira vez, os africanos tinham a possibilidade de escrever a história de seu continente.




Os Ajami, centenas de milhares de arquivos escritos em línguas africanas, ainda são negligenciados hoje.
A maior parte dos preconceitos raciais sobre os africanos tem sua origem na crença oriunda dos discursos que justificavam o tráfico escravagista e a colonização e argumentavam que a África é um continente sem história nem civilização. Exemplo da persistência de tal postura é a seguinte declaração de Hugh Trevor-Roper, eminente professor de História Moderna em Oxford, na década de 1960: “Atualmente, os estudantes pretendem que lhes seja ensinada a história da África Negra. Talvez no futuro eles possam aprender um pouco de história africana, mas por enquanto o que há é a história dos europeus na África. O resto permanece na obscuridade… e o que resta obscuro não é um tema de história”.

Assim, é compreensível, por um lado, a razão pela qual os intelectuais africanos e os afrodescendentes implicados desde o início do século XX na liberação dos povos negros empreendem um combate em favor do que alguns chamam de “descontaminação das mentes”. Por outro, o motivo da demanda apresentada à UNESCO pelos Estados africanos, imediatamente depois de terem conseguido sua independência, na década de 1960, para ajudá-los a enfrentar tal desafio.

Ao decidir o lançamento, desde 1964, do projeto de uma História Geral da África, a UNESCO tinha o objetivo de atenuar, antes de mais nada, a ignorância generalizada sobre o passado deste continente e de superar os preconceitos discriminatórios. Para atingir essa finalidade, a melhor maneira consistia em entregar aos africanos a tarefa de reescrever sua história com as garantias científicas indispensáveis.

Para esse efeito, foi instalado um Comitê Científico Internacional composto por 39 experts, representando diferentes disciplinas das ciências sociais e humanas: dois terços de seus membros eram africanos a fim de facilitar uma perspectiva genuinamente africana que, nem por isso, deixaria de se confrontar com os pontos de vista dos especialistas não-africanos.

Cheik Anta Diop (Senegal), Hampaté Ba (Mali), Joseph Ki-Zerbo (Burkina Faso), Ali Mazrui (Quênia) e Théophile Obenga (República do Congo), para citar apenas os mais conhecidos, empreenderam com seus pares oriundos de outras regiões do mundo, então, um fecundo diálogo intelectual que irá modificar o discurso sobre a África e os povos negros.

Os debates são animados e até mesmo agitados, especialmente quando se trata de recorrer, com finalidade historiográfica, às tradições orais africanas ou aos Ajami – arquivos em línguas africanas transcritos no alfabeto árabe e que ainda são desconhecidos pelo grande público (ver destaque). As discussões mais acirradas, como a que tratava da origem negro-africana da civilização do Antigo Egito, fixada por Théophile Obenga na época da 18ª dinastia (1550-1292 a.C.) e por Cheikh Anta Diop no início do Neolítico (9000 a.C.), foram publicadas no 2º volume.

Abordagem global


Ao renunciar à ambição de uma história exaustiva, o Comitê Científico optou por obras de síntese que permitam expor o estado atual dos conhecimentos, assim como as principais tendências da pesquisa. Decidiu, igualmente, enfatizar a história das idéias e das civilizações, das sociedades e das instituições, além de privilegiar uma abordagem interdisciplinar que se sirva de todas as fontes disponíveis: por um lado, das tradições orais e dos Ajami; por outro, de diferentes disciplinas, como lingüística, musicologia, ciências físicas e naturais. Por último, o Comitê preferiu adotar uma perspectiva continental que considera a África como um conjunto, superando a dicotomia habitual entre a África do Norte e a África Subsaariana.

Publicados entre 1980 e 1999, os oito volumes da coleção percorrem o continente, conhecido como berço da Humanidade, desde a aparição dos hominídeos, há 3 milhões de anos, ao “horizonte de 2000”, passando pelo Antigo Egito, pela dinastia dos fatímidas, pela civilização swahili, pelos reinos do Chifre da África, pelo tráfico escravagista e pela independência dos diferentes países, tudo em cerca de 6.500 páginas.

A obra refuta algumas idéias preconcebidas, como a que defende o isolamento do continente, ao demonstrar que o Saara, longe de constituir uma barreira, sempre representou um espaço de intercâmbios. Mostra, também, que a África manteve contatos permanentes com a Ásia, o Oriente Médio, a Europa e as Américas.

Bem antes do projeto “A Rota do Escravo”, lançado pela UNESCO em 1994, a "História Geral da África" já havia contribuído para quebrar o silêncio sobre o tráfico escravagista e seu impacto sobre as dificuldades conhecidas na África desde então, dedicando-lhe um volume específico na sua coleção anexa de “Estudos e Documentos”.

Mais de vinte publicações complementares, em particular sobre assuntos controversos, como as fontes da História, o povoamento do Antigo Egito e a descolonização da África, fazem parte dessa construção monumental que mobilizou mais de 230 especialistas.

Desde a publicação dos primeiros volumes, a "História Geral da África" ganhou uma repercussão fenomenal nos meios científicos e universitários, dentro e fora do continente africano. Editada integralmente em inglês, árabe e francês, e parcialmente em chinês, coreano, espanhol, italiano, japonês e português, a publicação é considerada uma importante contribuição para o conhecimento da história e da historiografia africanas.

Declínio pedagógico


A obra, no entanto, permanece inacessível ao público em geral e continua insuficientemente utilizada nas escolas africanas, embora uma versão resumida tenha sido publicada em inglês, francês e em três línguas africanas (haussa, kiswahili e peul).

Os compêndios de história publicados na África que se inspiraram nesta coleção ainda são raros. Além disso, o ensino da história africana continua sendo marcado pela perspectiva eurocêntrica. Observa-se mesmo uma tendência de se apresentar, neles, uma visão nacionalista da história, conferindo importância desproporcionada à divisão colonial da África.

Eis o motivo por que, mais uma vez, foi apresentada à UNESCO a solicitação de uma melhor utilização pedagógica desta coleção. Um projeto dotado de US$ 2 milhões foi lançado em 2008 graças a um financiamento do governo líbio. “Conhecer seu passado para preparar melhor seu futuro” é o lema que orienta a elaboração das ferramentas pedagógicas que deverão estar disponíveis no final do próximo ano.

Com que objetivo? Lembrar que, apesar de sua diversidade, a África compartilha uma história e valores comuns a partir dos quais a União Africana teria a possibilidade de construir os Estados Unidos da África.

Seu alvo? A população mais jovem – alunos do primário e do secundário –, que terá à disposição compêndios pedagógicos comuns a toda a África, conciliando temas agregadores como identidade cultural ou cidadania pan-africana, e especificidades nacionais. Os menos jovens serão igualmente beneficiados com uma melhor difusão dos volumes da coleção principal e da versão resumida nos estabelecimentos de ensino superior. Por último, os professores receberão guias, CD-Roms com finalidade didática e um atlas histórico, ferramentas que lhes permitem, por um lado, informar-se sobre os avanços da pesquisa histórica e, por outro, aprimorar o modo e o conteúdo de seu ensino. O público em geral também não foi esquecido e terá acesso a múltiplas informações no portal web da UNESCO.

Qual será o resultado pretendido? Contribuir para que as populações africanas recebam uma informação mais fidedigna sobre a história de seu continente e sobre o aporte de suas culturas para o progresso da humanidade, fornecendo-lhes elementos para enfrentarem, com maior pertinência, os novos desafios do mundo moderno. Eis uma nova tarefa cuja execução é tão difícil quanto o esforço despendido na redação da "História Geral da África".

Ali Moussa Iye, chefe da Seção do Diálogo Intercultural (UNESCO)

Antigo mapa das Antilhas.

Revolta bem-sucedida no navio negreiro Amstad, em 2 de julho de 1839.

Gravura de uma família de índios caribenhos

Graças à História Geral do Caribe, as populações espalhadas nesta região insular do mundo, mas unidas pela cultura, encontram-se pela primeira vez à frente do palco da história não como objetos, mas como sujeitos e atores de seu destino.




Como a aventura começou?
Em dezembro de 1981, o Diretor-Geral da UNESCO, Federico Mayor, convidou 20 pesquisadores caribenhos e europeus para uma reunião em Paris com o objetivo de constituir um grupo de trabalho para a produção de uma história do Caribe, de seus povos e de seu habitat, concebida a partir “de dentro”. Mais
Sondar o terreno histórico in situ e não observá-lo a partir das capitais e dos portos europeus: essa foi a abordagem até então inédita adotada pelo Comitê de Redação da "História Geral do Caribe", em 1983, em Kingston (Jamaica). A equipe de 18 pesquisadores – quase todos do Caribe, mas também vindos da África, dos EUA, da Europa e da Índia – deveria investigar o passado de populações disseminadas pelo Caribe, donas de usos e costumes semelhantes, para torná-las o tema de uma obra de história comum.

Esses povos e culturas até então excluídos ou mencionados de forma acessória nas narrativas históricas, mais como objetos do que sujeitos e atores de sua história, teriam a oportunidade de aparecer à frente do palco. Tratava-se de uma cartada extremamente arriscada.

Antes de mais nada, era necessário fixar os contornos da “região” caribenha. Os pesquisadores começaram, portanto, pelo mar que lhe dá o nome. Em seguida, detiveram-se nos territórios limítrofes e, finalmente, levaram em consideração o conjunto dos agrupamentos humanos que os haviam povoado no norte, sul, leste e oeste, desde a pré-história até nossos dias. Assim, esta História diz respeito tanto às ilhas quanto às regiões litorâneas da América do Sul – da Colômbia às Guianas – e da América Central, banhadas pelo Mar do Caribe. Todos esses territórios foram habitados por populações que compartilham um patrimônio cultural comum, além de experiências similares (às vezes, em épocas diferentes) nos campos da organização política, econômica ou social.

Ponte para uma história em comum



Ao adotar uma abordagem temática, o Comitê de Redação evitava reduzir o projeto a um conjunto de resumos das histórias singulares de cada ilha, já escritas pela elite crioula entre o século XVII e o início do século XX. Os trabalhos dos historiadores europeus e norte-americanos, por sua vez, ficaram limitados à questão dos conflitos e das relações comerciais entre as ilhas e o continente.

Com a ampliação da historiografia nas universidades européias e norte-americanas durante a primeira metade do século XX, assistiu-se à aparição de uma mudança de perspectiva sob a influência dos movimentos em favor da autonomia política. Esses dois fatores inicialmente geraram deslocamentos da ênfase nas histórias distintas e, em seguida, nas histórias que abordavam temas comuns como indústria açucareira, escravidão e suas leis, imigração européia e asiática.

Nas antigas universidades de Cuba e de Porto Rico e em estabelecimentos mais recentes, como a “University of the West Indies”, surgiram os departamentos de estudos caribenhos. Nos dois anos do primeiro ciclo universitário, foi empreendida uma formação sobre literatura, história, cultura e sociedade caribenhas sob o impulso dos pesquisadores, a partir do desejo de se entender melhor as atividades que haviam modelado a região e de isolar os elementos constitutivos da cultura caribenha. Em seguida, os professores envolvidos com esses estudos formaram a “Associação dos Historiadores do Caribe” e a “Associação dos Estudos Caribenhos”. Assim, desde a década de 1980, eram lançados os alicerces para uma história geral temática do Caribe.

Conteúdo da história



Os principais resultados dessas pesquisas refletem-se nos seis volumes que têm início com a apresentação das populações indígenas originárias do Orinoco, cuja presença nestas ilhas antecede em vários séculos a chegada dos europeus.

Situadas no espaço que se tornou a porta do Novo Mundo, elas foram dizimadas no norte pela escravidão, pela barbárie e pelas doenças. No leste, porém, sua habilidade tática fez prodígios para combater os europeus e para adaptar-se a eles, permitindo-lhes sobreviver durante um tempo mais longo, mas seu número não deixou de diminuir. Além disso, no século XVIII, aquelas que ainda ofereciam alguma resistência foram deportadas para Belize. Neste território, fundaram comunidades que ainda subsistem e, nos dias de hoje, transmitem o garifuna, sua língua de origem, aos kalinago das ilhas de Domínica e de São Vicente-Grenadinas.

No norte e no leste do Mar do Caribe, esses migrantes do centro e do sul do continente fundiram-se no decorrer de vários séculos para formar uma população caribenha com cultura caribenha. Eles sobreviveram durante um tempo suficiente para estabelecerem contato com os emigrantes europeus, dando origem a uma “Nova Sociedade”, título do segundo volume da coleção. Nele, é feita a análise dessa sociedade entre 1492 e 1650, do meio ambiente caribenho, dos efeitos da ocupação européia sobre as sociedades autóctones, dos fundamentos da migração forçada, da instalação e da redução à escravidão das populações africanas, além da natureza dos conflitos comerciais e territoriais que provocaram a divisão entre os europeus.

O terceiro volume aborda as “sociedades escravagistas” – em outras palavras, o custo humano da escravidão – e as diferentes formas de resistência observadas em toda essa região: por exemplo, a que resulta na independência do Haiti no começo do século XIX. Seus estudos evocam a interdição do tráfico britânico e, em seguida, os progressos da emancipação que resultou da combinação entre as revoltas dos escravos nas ilhas e a campanha obstinada dos humanitários e dos partidários do livre-comércio europeus.

Os textos do volume IV, que incide sobre “O longo século XIX”, adotam uma abordagem mais temática que cronológica. Os conflitos entre latifundiários e camponeses emancipados levaram os governos a incentivar e a financiar a migração originária da Ásia e, em particular, da Índia. No século XX, as restrições impostas aos contratados e as humilhações inerentes à condição de trabalhador das plantações exerceram uma grande influência sobre o desenvolvimento das sociedades crioulas. As relações sociais e econômicas nas sociedades outrora dependentes da escravidão e dos contratos ficaram marcadas pelos conflitos entre etnias e entre classes. Por sua resistência constante a tais regimes opressores, porém, essas sociedades conquistaram também a dignidade e a autoconfiança dos homens livres. A virada do século XX vive o surgimento dos movimentos autonomistas, além da progressão espetacular dos capitais e da influência norte-americanos em detrimento da supremacia anterior da Europa.

O volume V, dedicado ao Caribe no século XX, aborda a questão da descolonização e do neocolonialismo que transparece na predominância e na persistência das plantações, na onipresença do desemprego e na vulnerabilidade das economias caribenhas, sem deixar de analisar os efeitos da modernização e da comunicação de massa sobre as culturas locais.

O último volume, finalmente, sobre a metodologia e a historiografia do Caribe, volta a analisar as provas históricas e as técnicas utilizadas nesta História. Na conclusão, lembramos a historiografia dos diferentes territórios, a diversidade das escritas da história e fazemos um retorno às mudanças ocorridas na interpretação do passado.

Roy Augier, historiador de Santa Lucia, é o diretor-científico da "História Geral do Caribe"

Igreja barroca San Ignacio de Loyola. Quito, Equador.

Deuses astecas do Codex de Florença (século XVI).

Sacerdotisa do candomblé, religião síntese do catolicismo com o animismo africano.

Uma novidade no plano mundial: a “História Geral da América Latina” aborda com maior ênfase o passado das sociedades e não o passado das nações que ocupam a parte central e meridional do continente americano. O projeto, no entanto, enfrentou a carência de fontes históricas sobre populações indígenas e afro-americanas.




Com a publicação no início deste ano do último volume da "História Geral da América Latina", a UNESCO encerra um amplo canteiro de obras que oferece uma visão global do passado de uma imensa região que se estende por 22 milhões de quilômetros quadrados. A envergadura desta História Geral – são mais de 5.600 páginas – é excepcional tanto por seu tamanho quanto pelo número de autores que colaboraram no projeto. De acordo com Germán Carrera Damas, historiador venezuelano e presidente do Comitê de Redação, esta obra de referência marca uma inovação fundamental por constituir a primeira tentativa no sentido de escrever a História das Sociedades, e não das Nações, do Continente Latino-Americano.

“Esta obra encarna o esforço despendido pelas sociedades latino-americanas para se compreenderem a si mesmas”, declara Carrera Damas. É isso que a faz original. “Na realidade, já existiam histórias gerais da América Latina. Elas, no entanto, estavam muito mais focalizadas nos Estados e nas nacionalidades em vez de levarem em consideração as sociedades. Foram estas, precisamente, que constituíram o núcleo de nosso estudo”. Enquanto uma história factual nacional segue o fio cronológico do passado de determinado país, a obra publicada pela UNESCO adota uma abordagem temática que vai além das fronteiras nacionais: o capítulo dedicado às ditaduras latino-americanas depois de 1930, por exemplo, trata este tema em sua globalidade, sem se limitar a um único país ou somente a uma parte do continente.

Entre as inovações da obra, Damas destaca a que integra a história do Brasil em uma visão global da história do continente, sem deixar de dedicar capítulos específicos a esse país.

Ele ressalta outra particularidade desta coleção: o universalismo. “Há pouco tempo, a história do mundo continuava sendo escrita em países como França e Inglaterra. Hoje em dia, porém, esforçamo-nos por elaborar uma história realmente universal.” Os nove volumes desta história são o resultado da colaboração de 240 historiadores da América Latina, da Europa e dos EUA. Damas também recorda a criteriosa observação de um historiador chinês quando a “História do Desenvolvimento Científico e Cultural da Humanidade”, da UNESCO, era elaborada. “Vocês falam de ‘Renascença’, mas quando ela ocorreu na Itália, os chineses já tinham passado por quatro decadências e três renascenças!”

Para o historiador venezuelano, a UNESCO desempenhou um papel primordial na realização dessa operação científica de longo prazo. “Aliás, ela era a única organização capaz de empreender tal tarefa ao garantir a liberdade científica e o tempo, assim como os recursos humanos, científicos e materiais indispensáveis. Uma empresa privada não teria condições de realizar sequer o trabalho de redação, que seria extremamente onerosa mesmo para uma instituição universitária.”

Paradoxalmente, porém, os aspectos mais positivos deste projeto, como a dimensão multicultural da equipe de redação e o financiamento de uma organização internacional, geraram alguns problemas: vários autores, entre os mais reputados, faleceram antes de concluírem seus estudos. O projeto também teve de superar inevitáveis vicissitudes econômicas, distâncias geográficas e número insuficiente de reuniões entre os membros da equipe, sem contar com as restrições de ordem tecnológica (no início, a comunicação acontecia por meio de correio postal e faxes).

História: questionando o passado

Será que o próprio título da coleção e o reduzido espaço reservado aos povos indígenas justificam a crítica de que a obra está marcada por eurocentrismo? Depois de explicar que a denominação “América Latina” é simplesmente o qualificativo mais corrente, o presidente do Comitê de Redação acrescenta: “Convém não esquecer que esta História Geral foi escrita com o objetivo de ser divulgada. Sendo assim, a utilização de uma linguagem incapaz de traduzir a realidade acaba por isolar os conhecimentos em vez de facilitar sua difusão”. Na introdução da obra, também é chamada a atenção para o fato de que a redação da história das sociedades latino-americanas é historicamente acompanhada pela afirmação da hegemonia dos crioulos latino-americanos.

O presumível crioulocentrismo da História Geral da América Latina é enfatizado pelo equatoriano Enrique Ayala Mora, membro do Comitê de Redação, ao lembrar que a historiografia se limita a traduzir a situação concreta. Em seu entender, a carência de estudos elaborados por experts indígenas sobre a história dos respectivos povos e a ausência ainda mais notória de pesquisas sobre as sociedades afro-americanas empreendidas por seus próprios membros têm a ver com a realidade que, aliás, é sublinhada na obra. “Sabíamos desde o início que um espaço desproporcionado seria atribuído à história mestiça, considerando a carência de fontes de informação sobre as sociedades autóctones”, explica Mora. “Assim, por mais criticável que possa ser tal situação, esta obra culmina em uma história da continuidade crioula na América Latina pelo simples fato de não existirem outras abordagens historiográficas escritas sobre a realidade latino-americana. Esta História Geral, no entanto, traz esclarecimentos sobre a situação mais recente dos povos indígenas e afro-americanos.”

Segundo o historiador equatoriano, o fato de ter dedicado um volume ao período pré-colombiano e os oito restantes à época posterior à chegada dos europeus não deveria ser interpretado como uma tendência em atribuir importância demais ao mundo crioulo. “As questões amplificam-se à medida que nos aproximamos do presente. Por exemplo, reservamos apenas dois volumes ao período colonial e quatro ao período republicano, diz ele. “Cada um dos volumes relativos ao período colonial abrange mais de 100 anos, enquanto a duração de estudo de cada volume do período republicano é, em média, de 60 anos. O volume dedicado aos povos pré-colombianos, por sua vez, abrange dois milênios. A História é um questionamento do passado.”

Em vez de se preocupar com o número de volumes dedicados à história dos povos indígenas, ele opina que o essencial consiste em conhecer os volumes desta História Geral abordando o período posterior à conquista. Eles também fazem menção às populações indígenas que ainda vivem no continente americano. "A presença dos povos autóctones é importante em vários volumes e mais limitada em outros. Essa situação se deve especialmente à ausência de trabalhos de pesquisa a respeito desse assunto. De acordo com a regra adotada, porém, os autores foram levados a abordar temas cujo estudo ainda não havia sido empreendido ou o foi de forma precária."



Espírito pan-americano

Pode-se dizer que a redação desta história contribuiu para a formação de historiadores latino-americanos “generalistas”. “Antes, contávamos com monografias nacionais ou, na melhor das hipóteses, de estudos comparativos que incidiam sobre dois ou três países”, explica Ayala Mora. “Os historiadores têm tendência a evitar os temas gerais, preferindo estudar questões específicas. Por exemplo, a extração de minério em Potosí (Bolívia), no século XVII. Pois não foi nada fácil encontrar um historiador para escrever sobre a industrialização em todo o continente, entre 1880 e 1930.” Assim, a obra teve o mérito de desempenhar um papel de “escola”,ao sensibilizar historiadores para assuntos latino-americanos, incentivando-os a empreender pesquisas sobre processos comuns aos países do continente.

Para concluir, o historiador equatoriano destaca outro aspecto importante da obra: “Ela serve de eco às aspirações pan-americanistas, atualmente na moda em alguns países da América Latina”. Ele também evoca a existência centenária destas aspirações: “Já em 1781, com a rebelião indígena de Tupac Katari no território da atual Bolívia, surgia a afirmação de uma identidade autóctone peculiar que se concretizaria no momento das independências. O interesse por uma história latino-americana comum será fortalecido pelas pretensões integracionistas em alta nos anos 60 entre os economistas da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) e os teóricos da dependência, entre eles o futuro presidente brasileiro [1995-2002], Fernando Henrique Cardoso”.

Niels Boel, jornalista dinamarquês. Os depoimentos de Germán Carrera Damas e de Enrique Ayala Mora, respectivamente presidente e membro do Comitê de Redação da História Geral da América Latina, foram registrados na Venezuela e no Equador.

Cúpula da mesquita Sheykh Lotfollah, em Ispahan (Irã).

Alhambra, em Granada (Espanha): símbolo da glória de Al Andalus, do séc. VIII ao séc. XV.

Ponte construída no séc. XVI por Akbar, imperador Mogol que governou a Índia de 1556 a 1605.

A fé em Deus e no homem permitiu que o islã contribuísse amplamente para a edificação da civilização humana. Em vez do “fixismo” de uma ordem imposta, sua força provém da permanência de um modelo que tem de ser continuamente recriado a partir da inspiração divina e das exigências momentâneas.




O espaço geocultural islâmico constituiu, durante a Idade Média, um pólo de atração universal que exerceu sobre seus vizinhos uma influência indiscutível. Mais
Babel linguística, extravagância étnica, mosaico geográfico, caleidoscópio político – o mundo muçulmano apresenta uma extraordinária diversidade doutrinal e cultural. Se Alá é único, o islã é múltiplo por ser diferente em cada país e passar por alterações no decorrer do tempo.

É errôneo pensar que o islã realizou sua missão de uma só vez e que só consegue tirar partido de seu passado. Se reconhecermos que ele contribuiu amplamente para a edificação da civilização humana em áreas tão variadas quanto a filosofia, a geografia, a matemática, a astronomia, a medicina e a arte, devemos aceitar igualmente que sua missão, renovada incessantemente, está sempre atualizada. Também devemos estar vigilantes para reatualizar o sentido da fé corânica de acordo com o convite do versículo 148 da 2ª surata: “Cada um tem um objetivo para o qual se dirige seu olhar. Na prática das virtudes, estejam prontos a proceder cada vez melhor”.

À semelhança de qualquer outra, a fé islâmica só tem sentido quando comprometida com o presente. A fé é tanto um exercício individual quanto uma abertura para o outro. Para o islã, o homem é um “objeto” na natureza privilegiado por ser sujeito – de Deus, evidentemente. Um sujeito autônomo capaz de fazer escolhas e, portanto, responsável.

Integração do sagrado na vida social




Selecionados entre nossos melhores especialistas, os autores do volume “O indivíduo e a sociedade no islã”, sob minha orientação, tentaram mostrar em 16 capítulos como os direitos, as responsabilidades e a liberdade conseguiram libertar, em um equilíbrio frágil constantemente quebrado e logo restabelecido, o indivíduo nas sociedades islâmicas. O apaziguamento de nossos medos e de nossas angústias constituiu uma missão prioritária, apesar do rigor de alguns textos fundadores e dos interesses impreteríveis de uma sociedade quase sempre confinada.

Aproveitando a grande quantidade de informações tradicionais e recentes, abordamos as questões de fundo ao levar em consideração a dialética sutil, sem deixar de ser determinante, entre os princípios desenvolvidos pelo Alcorão e pela Suna [conjunto das afirmações pronunciadas ou tacitamente aprovadas pelo Profeta] e as vicissitudes do cotidiano.

Em vez de efetuarmos uma exposição da doutrina islâmica, acompanhamos sua inserção na história das sociedades para compreender o modo como ela exerceu influência sobre seu sentido e como ela constituiu uma inspiração relevante e unificadora em um amplo espaço geográfico, social e cultural. Enfim, como o ensino corânico foi compreendido e traduzido em atos.

Religião e cultura vivas


Desde a Idade Média até nossos dias, o Corão é a matriz a partir da qual têm sido definidos os regulamentos jurídicos, assim como as atitudes coletivas e as condutas individuais de povos que, desde o Mar da China até o litoral atlântico da África, haviam abraçado o islã. Continuidade criadora e missão agregadora são, portanto, as duas especificidades do islã.

Sabemos que a criação dos valores e sua inserção na vida concreta encontraram um campo de expressão imensa que abrange os domínios jurídicos, assim como os psicológicos, sociais, políticos, econômicos e artísticos. Convém reconhecer que essa força organizadora do islã não resulta do “fixismo” de uma ordem imposta, mas da permanência de um modelo que deve ser recriado incessantemente, a partir da inspiração divina e das exigências momentâneas: a um islã imobilizado em sua elaboração medieval, deve ser oposto um islã vivo, capaz de inventar soluções renovadas como a vida.

O sentido da fraternidade islâmica culmina na fraternidade universal, necessária para a defesa e para o esclarecimento do homem e de todos os homens: preparar a criança para as tarefas de adulto, estar a serviço dos direitos humanos, organizar as relações intercomunitárias, enfrentar a transgressão, as injustiças, as desigualdades, a opressão… A fé islâmica tem, portanto, a missão de realizar uma tarefa agregadora que diz respeito a todos os homens, quaisquer que sejam suas crenças, línguas ou filiações étnicas.

Contrariamente a uma visão caricatural da cultura islâmica, nossa obra mostra como a lei foi submetida ao processo da dialética – e continua a sê-lo – para fornecer ao homem em confronto com desafios renovados, assumidos e superados, os meios de viver sua religião e de viver em seu século. Esta História lembra que o vazio espiritual de nossa época não pode ser preenchido por fanatismos, nem pela omissão, nem por maledicências.

Abdelwahab Bouhdiba, sociólogo, é presidente da Academia Tunisiana das Letras, Ciências e Artes (Baït el Ikma)

O Grande Buda de Bamiyan(Afeganistão ),antes e depois da destruição pelos Talibãs, em 2003

Domo de mesquita em Samarcanda (Usbequistão).

Caça ao falcão nas estepes do Quirguizistão

Estepes e a Rota da Seda

Espaço de encontros e de intercâmbios, a Ásia Central também passou por períodos de isolamento. A “História das Civilizações da Ásia Central” mostra que, a despeito das barreiras ideológicas, os vínculos históricos e culturais entre as populações dessa região acabaram gerando uma identidade que lhes é peculiar.





Quando a entidade histórica não corresponde à área geográfica

Os sete volumes da "História das Civilizações da Ásia Central" cobrem o vasto território do Mar Cáspio à fronteira chinesa. Mais
Samarcanda, Bucara, Herat… cidades que nos fazem sonhar. Gengis Khan, Tamerlão, Akbar… personagens que marcaram a História. Avicena, Khayyam, Ulugh Beg... pensadores que mudaram a visão do mundo. No decorrer dos séculos, todos esses nomes balizam um espaço que, apesar de não constituir uma região bem definida no mundo antigo, ainda assim corresponde a um território de permanentes intercâmbios entre os povos: a Ásia Central. Desde a Antiguidade, os citas, os xiongnu e os membros do reino Khitai percorreram este espaço, que se estende do Mar Cáspio à fronteira com a China, lançando os alicerces das grandes civilizações da Ásia e da Europa.

A “História das Civilizações da Ásia Central” abrange esse imenso território que, até o século XVI, foi dominado amplamente pelo pastoreio e por uma agricultura cujos espaços mais acolhedores eram constituídos por raros oásis. Desta forma, os testemunhos originais da vida e da cultura humanas são igualmente modestos. Em compensação, por sua posição no centro do continente asiático, a região transformou-se em um corredor excepcional de circulação para diferentes povos, religiões e ideias, assim como para a cultura e a arte. No sul e no leste, determinadas regiões dotadas de maiores recursos e mais sedentárias – Oriente Próximo, Irã, Índia e China – deram origem, no decorrer dos últimos quatro ou cinco milênios, a religiões e civilizações que exerceram uma grande influência sobre a evolução desse núcleo central da Ásia.



A região das estepes serviu de ponte entre as grandes civilizações do sudoeste, sul e leste da Ásia que, durante muito tempo, haviam permanecido isoladas por cadeias de montanhas e por desertos. Basta pensar na famosa Rota da Seda que, nas vésperas e durante os primeiros tempos da expansão do cristianismo, foi tomando forma para atravessar, pela Ásia Central, todo o continente, desde o Extremo Oriente até o Irã, o Oriente Próximo e os mundos greco-bizantinos. Através dessa rota, tecidos preciosos da China eram encaminhados para o Mediterrâneo Oriental e, daí, para a Europa. No sentido oposto, a prataria sassânida da Pérsia tinha acesso à Sibéria e à atual Rússia, além do ouro romano que chegava à Ásia Central e ao noroeste da Índia.

As influências greco-romanas também foram um importante fator de desenvolvimento artístico, especialmente na região de Gandhara, nos limites atuais do leste do Afeganistão e do noroeste da Índia. Mais tarde, na época islâmica, outros produtos chineses de luxo, como as cerâmicas, empreenderam a longa e arriscada viagem através da Ásia Interior até os mercados de Nishapur, Rey, Ispahan, Bagdá e outras grandes cidades do califado e dos Estados que lhe sucederam, complementando assim o tráfego marítimo do Oceano Índico.
No plano das ideias, grandes religiões do mundo antigo disseminaram-se através da Ásia Central antes de abordarem outras regiões do continente. O zoroastrismo espalhou-se do Irã para a Transoxiana (que corresponde aproximadamente ao atual Uzbequistão) e para o Khwarezm (território entre os atuais Uzbequistão e Turcomenistão). O budismo saiu da Índia para conquistar a China e a Mongólia. Os negociantes sogdianos da Ásia Ocidental difundiram o cristianismo nestoriano e o maniqueísmo através da Ásia Central até o Turquestão Oriental (atual Xinjiang) e o norte da China.

Em seguida, foi a vez de a propagação da nova fé professada por Maomé passar pela Pérsia até as estepes e mais além, desencadeando frequentes processos sincréticos com crenças e rituais preexistentes, como os do xamanismo.

Do isolamento à abertura



A História das Civilizações da Ásia Central foi concebida, portanto, para restituir a este território aureolado de mistério por longos tempos a posição que lhe é devida por sua condição de entidade distinta da história humana, de cruzamento de civilizações e de passarela milenar entre o Oriente e o Ocidente.

Atualmente, esta região passa por um período de abertura exponencial depois da severa reclusão imposta pela dominação soviética e pelas rivalidades resultantes da Guerra Fria. Formada em grande parte por um território de amplos espaços abertos, ela constituiu em outros tempos o cenário para influências externas e movimentos de população. Na virada do século XX, porém, pesquisadores, arqueólogos, amadores de arte e outros entusiastas oriundos de diferentes horizontes desafiaram distâncias e a lentidão das comunicações e revelaram ao resto do mundo os fabulosos tesouros culturais, literários e artísticos dos povos da Ásia Central.

Depois, durante decênios, os fanatismos ideológicos e os distúrbios políticos isolaram esta região do mundo exterior. Nenhum organismo ou instituto de pesquisa – e, por maior força de razão, nenhum pesquisador ou grupo de pesquisadores – sentiu-se capaz de empreender a elaboração de uma história geral da região, desde a pré-história até a época contemporânea. Finalmente, na década de 1980, a UNESCO conseguiu reunir uma rica paleta de especialistas para delinear os planos da presente História das Civilizações da Ásia Central que mobilizou cerca de 180 autores.

Nesse meio tempo, quatro repúblicas da Ásia Central de etnia e língua turcas emergiram na cena internacional: Cazaquistão, Quirguizistão, Uzbequistão e Turcomenistão, além do Tajiquistão, na vertente iraniana. Independentes desde o início da década de 1990, estes Estados assumiram atualmente o controle de seus recursos, entre eles os minerais, e estão em condições de desempenhar um papel decisivo no comércio e na indústria em escala mundial. E o melhor: descobriram a continuidade cultural que os liga à sua periferia, em particular às repúblicas da Turquia e do Azerbaijão, assim como às repúblicas islâmicas do Irã e do Afeganistão. Durante algum tempo, eles foram dissuadidos ou até mesmo impedidos de tecer tais vínculos.

A “História das Civilizações da Ásia Central”, da UNESCO, revelará que o território outrora visto como região pouco conhecida do continente eurasiano e que adquiriu em alguns séculos sua identidade própria está, agora, preparado para participar plenamente das questões mundiais.

C. Edmund Bosworth professor emérito em estudos árabes na Universidade de Manchester. Com M.S. Asimov, dirigiu o volume IV da "História das Civilizações da Ásia Central".

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Bersaglieri .1917




Tableau representing Confederate and Union reconciliation to free Cuba - Spanish American War

"A Harvest of Death".Gettysburg.Pennsylvania. July1863

Guerra Civil Espanhola

Margareth Bourke- Withe photos for Life magazine at Buchenwald,1945

Margaret Bourke-White photos for Life magazine at Buchenwald, 1945

Impending victory was sobered by the grim facts of the atrocities which allied troops were uncovering all over Germany. Margaret Bourke-White was with General Patton's third amy when they reached Buchenwald on the outskirts of Weimar. Patton was so incensed by what he saw that he ordered his police to get a thousand civilians to make them see with their own eyes what their leaders had done. The MPs were so enraged they brought back 2,000. Bourke-White said, "I saw and photographed the piles of naked, lifeless bodies, the human skeletons in furnaces, the living skeletons who would die the next day... and tattoed skin for lampshades. Using the camera was almost a relief. It interposed a slight barrier between myself and the horror in front of me." LIFE published in their May 7, 1945 issue many photographs of these atrocities, saying, "Dead men will have indeed died in vain if live men refuse to look at them."

source: http://www.pathfinder.com/photo/gallery/war/ww2/cap19.htm

Buchenwald

Buchenwald

flowerpower 1969

Crematorium


German concentration camp at Weimar.
Description: "Bones of anti-Nazi German women still are in the crematoriums in the German concentration camp at Weimar, Germany. Prisoners of all nationalities were tortured and killed." April 14, 1945. Pfc. W. Chichersky.
Credit: National Archives and Records Administration

source: http://teachpol.tcnj.edu/amer_pol_hist/thumbnail398.html