Lula não foi condenado pelo tríplex (esqueçam isso!). Lula
foi condenado quando decidiu que cada brasileiro deveria fazer três refeições
ao dia. Lula foi condenado quando tirou o brasil do mapa da fome mundial. Lula
foi condenado quando milhões ascenderam socialmente. Lula foi condenado quando
decidiu que pobres poderiam chegar à universidade e às escolas técnicas. Lula
foi condenado quando a filha do pedreiro virou engenheira, o filho do garçom
virou advogado e o negro favelado deixou de ser bandido para ser médico: invertendo,
assim, a lógica dessa porra toda. Lula foi condenado quando começou a dar show
pelo mundo, no g-20, nas nações unidas e nos cambau a quatro. Lula foi
condenado quando investiu mais em educação e saúde que todos os outros
presidentes. Lula foi condenado quando investiu no nordeste brasileiro, sempre
esquecido. Lula foi condenado quando mostrou à elite deste país que um operário
sabia governar. Lula foi condenado quando alcançou 80% de aprovação popular.
Lula foi condenado por suas virtudes, não por seus eventuais pecados. Lula é
imenso, do tamanho do Brasil. Lula é a história."
domingo, 8 de abril de 2018
kafkianas
Josef K. que foi condenado e julgado por um tribunal
misterioso, em que muitos ficam em dúvida sobre a real história acontecida. A
justiça questionada na obra revela a obscuridade do processo realizado contra
Josef K e quão vago ele se transforma e são usadas provas absurdas contra ele
durante todo o romance. O Estado é considerado arbitrário e autoritário.
Demonstram que os direitos sociais do homem são tolhidos e revelam as falhas e
erros o sistema judiciário. Pode-se dizer que a liberdade que é um direito de
todos os direitos de ser ouvido e de defesa, nesta obra, é negada, e a
aplicação o poder democrático também é alienado e impedido
Louise Ronconi de Nazareno
"A transformação de uma operação de combate à corrupção
com 50 etapas em um objetivo único que é prender um ex-presidente expõe a face
mais danosa de todo o processo: a implosão institucional, em especial do poder
judiciário.
Isso se dá pela tentativa de substituição de uma liderança
personalista por outra. De Lula pelos seus algozes. Todos os envolvidos, da
primeira à última instância, não souberam lidar com a visibilidade pública que
tiveram até aqui. Pensaram que poderiam substituir o personalismo de Lula por
um novo perfil de líder popular. Enganaram-se. Visibilidade pública não produz
liderança real. É o contrário. Mas isso os sinhozinhos provincianos não
entendem. O que inclui ministros do supremo que essa semana experimentaram o
gosto amargo de críticas públicas feitas por seus próprios pares, algo inédito
na história das instituições, em especial, das instituições jurídicas
brasileiras. Em 2018 o judiciário começa a se canibalizar em frente às câmeras
de televisão, assim como a elite política vem fazendo desde 2013.
O pior de tudo isso é que o legado deixado por uma operação
que usa a corrupção para substituir (substituir e não combater) lideranças
personalistas é o desmonte das estruturas formais de combate efetivo à
corrupção. Sem instituições fortes, que respeitem as regras, nunca haverá
combate à corrupção de fato.
A diferença entre a liderança personalista de Lula e a dos
sinhozinhos é que Lula, como conciliador, conseguiu criar uma imagem de líder
personalista ao mesmo tempo em que se fortaleciam as instituições. Quem busca
se transformar em nova liderança personalista sem a experiência da
representação e a qualidade da conciliação, fatalmente terminará implodindo as
instituições.
Pelo enfraquecimento institucional é que perderemos todos no
futuro, ainda que por agora pareça que exista um vencedor."
Emerson Urizzi Cervi:
terça-feira, 3 de abril de 2018
Tiros que o senhor ouviu
Fernando Limongi: Tiros que o senhor ouviu
- Valor Econômico 2/4/2018
Lula divide a sociedade como ninguém antes o fez
O clima político esquentou. Nas duas últimas semanas, a
radicalização voltou a dar as caras, culminando em tiros contra a caravana de
Lula, declarações desastradas do candidato tucano e apologia ao porte de armas
por Bolsonaro e seus seguidores. O espaço para a serenidade e o razoável se viu
reduzido. Voltamos ao sertão de Riobaldo em que até Deus deveria andar armado.
O julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) do habeas
corpus solicitado pela defesa de Lula explica o recrudescimento do embate
político. O cerco sobre o presidente Temer e o calendário eleitoral (prazo de
desincompatibilização e de filiação partidária) também contribuíram, mas Lula,
como nenhum outro personagem da história política brasileira recente, desperta
paixões e divide a sociedade brasileira em grupos antagônicos, os que o amam e
os que o odeiam.
O STF recebeu a batata quente de Moro e do TRF-4. As duas
instâncias sabiam quais as consequências de suas decisões, isto é, estavam
cientes que colocariam o STF contra a parede e, mais, que a prisão após
condenação em segunda instância poderia ser a vítima do seu blefe. Pagaram para
ver. O destino da Lava Jato não está em causa. Está em causa a prisão do
ex-presidente.
A resposta virá ao longo da semana. Todo observador da cena
política (incluindo Moro e os três do TRF-4) sabe que a nossa Corte Suprema é
antes de tudo inconstante, discricionária e aleatória. Isso é sabido. Basta
olhar o histórico de suas decisões. Portanto, não será surpresa se a Corte
alterar sua posição.
Nesse imbróglio, o texto constitucional é o que menos
importa. Faz tempo que o Supremo vem decidindo sem precisar se referir à
Constituição, a seus artigos, incisos ou o quer que seja. A jurisprudência
vigente é a de que o STF faz o que lhe dá na telha e, mais, que atira para o
lado que estiver voltado. No caso, as considerações politicas se sobreporão às
convicções jurídicas, se é que a decisão anterior sobre a matéria se deu por
razões jurídicas.
O julgamento de Lula será palco do teatro a que os
brasileiros foram forçados a se acostumar nos últimos tempos: um show de
vaidades representado por personagens picarescos. As datas vênias, referências
a leis e decisões anteriores torrarão a paciência dos cidadãos plugados na TV
Justiça. Ninguém dará a mínima para os argumentos dos magistrados, nem os
próprios. Interessa apenas o placar, o resultado final, se Lula ganha ou perde.
Gilmar Mendes, com o tom de superioridade professoral que o
caracteriza, achou por bem pedir aparte para explicar aos demais como devem
votar. Começou frisando ninguém poderá lhe "imputar simpatia pelo
PT", mas que Rui Barbosa teria lhe ensinado que se a "lei cessa de
proteger nossos adversários, cessa virtualmente de nos proteger". Trocando
em miúdos: se ponho meu adversário em cana, não tenho como proteger meus
amigos. Assim será.
Assim, qualquer ela seja a decisão sobre o destino de Lula,
ela estará de acordo com precedentes e a jurisprudência e, por isso mesmo, será
vista como casuísta pelos perdedores e legítima pelos ganhadores. E mais, quem
perder terá toneladas de exemplos para provar que vem sendo sistematicamente
perseguido, que a Corte favorece seus adversários.
A tensão é alta e todos pressionam o STF. Fica por saber
como se comportarão após a decisão. O Vem Pra Rua voltou à vida e achou
recursos para pagar anúncio de página inteira nos jornais pedindo a confirmação
da sentença. O moralismo e a renovação da turma, portanto, só ganha corpo se o
alvo é o PT. Quando Temer era a bola da vez, o Vem Pra Rua, alegando falta de
recursos e cansaço cívico, ficou em casa.
Jair Bolsonaro, o candidato da segurança, houve por bem
fugir do Rio de Janeiro sem dizer uma palavra sobre o assassinato da vereadora
Marielle Franco. Preferiu confrontar Lula em Curitiba, onde, mantida a
distância, disparou suas bravatas usuais, cercado por um punhado de policiais e
militares aposentados. A violência verbal de Bolsonaro tem alvo preciso: o PT e
Lula, a quem não cansa de equiparar a criminosos. Com o requinte habitual,
declarou: "Presidente tem que meter bala em vagabundo e não formar
quadrilha com eles."
O circunspecto Geraldo Alckmin também entrou na dança da
insensatez e escorregou na casca de banana que o clima politico lançou à sua
frente. Na semana retrasada, propôs trégua, afirmando que era hora de deixar
"lado os pesadelos do passado." Disse mais: "não vou ficar
brigando por coisa do PT, vou olhar para o futuro." Diante dos tiros no
sul, esqueceu-se do Alckmin "paz e amor" para afirmar que o "PT
colhia o que plantava." A retratação posterior não esconde as dificuldades
do candidato de tratar Lula e o PT com civilidade, como se a moderação fosse
responsável pelo apoio tímido que vem colhendo nas pesquisas.
A ironia das ironias é que Alckmin deu essas declarações ao
comparecer à estreia do épico "Nada a perder: a história real de Edir
Macedo", filme em que o bispo é retratado como um defensor dos humildes,
preso em razão da reação sórdida das elites ciosas da preservação de seus
privilégios. Ocorre a alguém o paralelo?
Quanto ao PT e ao que estaria plantando, vale ter em mente
que em que pese ter 'gritado golpe', Dilma deixou o poder de forma ordeira. A
ameaça de convocar o exército de Stédile não passou disso, de uma ameaça. Lula
está se defendendo apelando para as armas legais que lhe restam, um pedido de
habeas corpus à Corte Suprema, tendo como advogado um ex-ministro dessa mesma
corte. Nada poderia ser mais 'burguês', 'legalista' e comportado.
A existência do diabo atormentava Riobaldo. O Papa Francisco
declarou que o inferno não existe, mas a notícia ainda não chegou por aqui. A
lógica do sertão resiste.
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Fernando Limongi é professor do DCP/USP e pesquisador do
Cebrap.
quinta-feira, 29 de março de 2018
terça-feira, 27 de março de 2018
A une femme
Enfant ! si
j'étais roi, je donnerais l'empire,
Et mon
char, et mon sceptre, et mon peuple à genoux
Et ma
couronne d'or, et mes bains de porphyre,
Et mes
flottes, à qui la mer ne peut suffire,
Pour un
regard de vous !
Si j'étais Dieu, la terre et l'air avec les ondes,
Les anges, les démons courbés devant ma loi,
Et le profond chaos aux entrailles fécondes,
L'éternité, l'espace, et les cieux, et les mondes,
Pour un baiser de toi !
Victor HUGO (1802-1885)
segunda-feira, 26 de março de 2018
1871: A Comuna de Paris
Em 26 de março de 1871 eclodiu a insurreição conhecida como
Comuna de Paris, com a instituição de uma ditadura proletária, esmagada por
tropas francesas conservadoras e estrangeiras em maio do mesmo ano.
Ruínas do Hotel de Ville, sede da Comuna
O tiro de partida para a insurreição havia sido dado um mês
antes, quando manifestantes de esquerda haviam capturado 200 canhões da Guarda
Nacional. Há exatamente oito dias, o governo conservador tentava em vão retomar
as armas e, depois do fiasco e de forma totalmente inesperada, se retirou para
Versalhes em 18 de março.
Foram várias as razões para a insurreição de Paris. A França
havia perdido uma guerra para a Alemanha. Os termos da paz proposta pelos
prussianos foram rejeitados pelo socialista Louis Blanc e o anarquista Joseph
Proudhon. Quando o resto do país já havia capitulado, Paris manteve a
resistência.
Revolta espontânea
As tropas prussianas mantiveram a cidade sitiada durante
meses. As privações consequentes do cerco custaram a vida de milhares de
pessoas. Mesmo depois da capitulação, em janeiro de 1871, o drama social dos
parisienses era grande, pois o gabinete conservador nacional governava à
revelia das necessidades da população de Paris. Tudo isso gerou uma revolta
espontânea contra o governo em março de 1871.
Após a retirada do governo de Paris para Versalhes, os
revolucionários vitoriosos deliberaram sobre novas medidas. Alguns queriam
marchar imediatamente para Versalhes e prender o governo antigo. Mas a maior
parte dos insurgentes não tinha ambições de longo alcance. Eles queriam
simplesmente autonomia política local. Quer dizer, desejavam um governo de
maioria de esquerda conquistado em eleição e com isso se tornarem independentes
do governo nacional conservador. Por isso, o Comitê Central convocou uma
eleição municipal para 26 de março de 1871.
Atender necessidades do proletariado
O resultado da eleição foi o desejado pela esquerda. Em 28
de março entrou para a comuna uma mistura de jacobinos, anarquistas e
socialistas, que se denominou "A Comuna". Em seus dois meses de
governo, ela aprovou uma série de leis. As principais visavam atender as
necessidades mais prementes do proletariado parisiense.
Entre as mais profundas destacaram-se a separação entre o
Estado e a Igreja, o fim dos privilégios dos nobres, a autonomia do governo de
Paris e a famigerada "lei do refém", que ameaçava com a pena de morte
aquele que cooperasse com o governo antigo.
A experiência da Comuna de Paris chegou ao fim com uma
semana sangrenta, após dois meses caóticos que se seguiram ao começo
entusiástico. As tropas do governo que se encontrava em Versalhes conquistaram
a cidade de volta depois de batalhas sangrentas. A Comuna de Paris matou cerca
de 500 presos, principalmente policiais e clérigos, inclusive o arcebispo da
cidade.
Começou uma cruzada sangrenta de vingança depois da tomada
de Paris pelas tropas governamentais. Eram executados todos os que faziam parte
da Comuna de Paris ou pareciam ser simpatizantes. Historiadores calculam que as
tropas governamentais mataram de 20 mil a 25 mil pessoas depois de conquistar a
capital.
Autoria Rachel Gessat (ef)
Palavras-chave calendário histórico, Comuna de Paris,
26/03/1871, insurreição de Paris, guerra franco-prussiana, Versalhes
Link permanente http://p.dw.com/p/21uG
1871: Termina a "semana sangrenta" de Paris
A semana de 21 a 28 de maio, que marcou o fim da Comuna de
Paris, foi um dos episódios mais sangrentos da história da França.
O dia 28 de maio de 1871 foi um domingo, o Domingo de
Pentecostes. Enquanto em outros lugares era festejada a descida do Espírito
Santo, os fatos em Paris mais lembravam o inferno do que o céu. As lutas
desesperadas entre os rebeldes da Comuna de Paris e as tropas do Exército já
duravam uma semana.
Uma testemunha ocular narrou: "Eugène Varlin, que tinha
lutado até o último instante, chegou a alcançar a Rue Lafayette, quando foi
reconhecido por um oficial de Versalhes. Com as mãos amarradas nas costas, ele
foi levado a Montmartre; durante todo o caminho para lá, ele foi golpeado com
coronhas de fuzil e quase linchado por uma entusiástica multidão de
parisienses. Quando chegou à tenebrosa Rue des Rosiers, o seu rosto estava
massacrado e um olho pendia da cavidade ocular. Ele não conseguia mais ficar de
pé, por isso foi arrastado para o jardim e fuzilado, sentado numa
cadeira".
Dois meses caóticos
Com essa "semana sangrenta" terminou o experimento
da chamada "Comuna de Paris", que durara dois caóticos meses. A Comuna
surgira de maneira espontânea, alimentada por conflitos políticos e sociais. A
guerra perdida contra a Alemanha, os meses de privação em decorrência do cerco
pelos prussianos e um governo rural e conservador, que não demonstrava qualquer
sensibilidade para a miséria da população urbana de Paris – tudo isto levou, em
março de 1871, a uma rebelião contra o governo, que se retirou para Versalhes.
No dia 28 de março de 1871, uma horda heterogênea de
jacobinos, anarquistas, socialistas e patriotas, que recusavam o acordo de paz
com a Alemanha, invadiu a prefeitura parisiense. Eles se autodenominavam La
Commune, a Comuna.
Nos dois meses do seu governo, a Comuna aprovou uma série de
leis, cujo principal objetivo era atenuar a miséria do proletariado parisiense;
mas também outras leis de caráter básico, como por exemplo, a separação da
Igreja e do Estado, a abolição dos privilégios da nobreza, a autonomia do
governo municipal, além de uma lei que ameaçava punição de morte a todo aquele
que cooperasse com o antigo governo de Versalhes. Inúmeros militares e
clérigos, entre eles o arcebispo de Paris, foram tomados como reféns.
Ação militar do governo
Enquanto isso, o governo de Versalhes preparava-se para
retomar a cidade e o poder com uma ação militar. As simpatias da população
estavam divididas entre os velhos conservadores e o novo governo de esquerda.
Na noite de 21 de maio, as primeiras tropas governamentais invadiram a cidade,
começando o que posteriormente seria chamado de "semana sangrenta" (semaine
sanglante).
Inicialmente, as tropas governamentais não encontraram
grande resistência. Mas as lutas foram se tornando cada vez mais ferozes, pois
os integrantes da Comuna logo perceberam que nada mais tinham a perder. O
antigo governo visara, desde o início, uma solução militar do conflito.
Qualquer suspeito de integrar a Comuna, ou meros simpatizantes eram
imediatamente fuzilados.
As tropas de Versalhes avançaram bairro por bairro, enquanto
a Comuna erigia centenas de barricadas com pedras de calçamento e sacos de
areia. Na sua retirada, os integrantes da Comuna ateavam fogo em tudo: na noite
de 24 de maio foi incendiado o castelo das Tulherias, ruas inteiras foram
consumidas pelas labaredas. Nos últimos dias de luta, inúmeros reféns foram
mortos, entre eles também o arcebispo de Paris.
Com a queda da última barricada, no dia 28 de maio de 1871,
terminou a "semana sangrenta", mas não o derramamento de sangue.
Milhares ainda foram mortos, nos dias seguintes, nos parques, quintais e nas
casernas. Os historiadores calculam que a Comuna tenha assassinado cerca de 500
adversários políticos, enquanto as tropas governamentais mataram entre 20 e 25
mil pessoas durante a reconquista de Paris e nos dias imediatamente
posteriores.
Autoria Rachel Gessat/am
Palavras-chave Semana Sangrenta, Comuna de Paris, jacobinos,
28/05/1871
Link permanente http://p.dw.com/p/1MYE
Autoria Rachel Gessat/am
segunda-feira, 19 de março de 2018
Considerações sobre o fim do povo brasileiro como possibilidade
Parece que a cada dia que passa desde o assassinato da
vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes o episódio se torna
mais e mais revelador da profundidade e do caráter irreversível da crise
brasileira. Dentre tantos fatos e tendências relevantes me ocorre citar o que
me parece ser o mais significativo: o caráter das manifestações públicas aos
assassinatos caracterizados pela repulsa a um ato bárbaro, covarde e
inaceitável. E ai reside uma das faces mais interessantes da atual crise porque
revela o perfil inédito das manifestações populares. Vimos como no caso do
julgamento do ex-presidente lulla no TRF-4 em Porto Alegre, em janeiro o ex-ministro
Zé Dirceu, apesar de ter convocado a militância (que compareceu em peso) para
“luta e combate” absolutamente nada aconteceu além de um tipo de
compartilhamento coletivo de derrota sem qq efeito prático e esvaziado de
sentido político. Trata-se de mais um episódio típico da assim chamada
“conciliação” de classes praticada desde sempre pelo lullismo. Outro tipo de
manifestação popular foram as motivadas pelo protesto e/ou luto pelos
assassinatos de Marielle e Anderson, caracterizadas pela multiplicidade de
apropriações do evento praticadas pelas diversas militâncias identitárias
pós-modernas. Relegando a segundo plano a luta da falecida vereadora contra a
violência policial, tais militâncias se apressaram em converte-la em ícone das
demandas das mulheres, dos negros, dos favelados, das lésbicas, dos bissexuais,
das mães solteiras e por ae afora. Até mesmo os manifestantes lullistas
pretenderam associar o que alegam ser a perseguição a lulla aos assassinatos
como se ambos eventos fizessem parte de um mesmo “golpe”. Ou seja, tais
manifestações apenas aparentemente são de massa porque revelam a profunda
divisão que existe entre os que delas participam. Além de divididos os
manifestantes fazem questão de explicitar seu antagonismo aos demais, uma vez
que a excludente e insular categoria do “lugar-de-fala” pregada pela militância
identitária neoliberal a serviço do rentismo internacional pressupõem o
monopólio do protagonismo por cada fração – minúscula como possa ser – na
reivindicação do sentido político dos assassinatos. Dae a hostilidade, senão
condenação, aos manifestantes que pretendem protagonizar os protestos em se
tratando de indivíduos não-negros, moradores das regiões centrais,
heterossexuais, cisgeneros, lullistas, etc. Neste caso temos uma multidão que é
só aparente porque se trata na verdade de um conjunto de militâncias não apenas
profundamente divididas mas hostis umas às outras e entre si msms. Com base nos
dois exemplos citados pode-se elencar os novos tipos de manifestação popular do
contexto atual: 1) manifestação com perfil militante definido mas sem propósito
concreto; 2) manifestação que aparenta ser coletiva mas que na verdade é tão
heterogênea que de evento de massa conserva só a aparência e seu sentido último
pode ser, no limite, a confrontação entre seus participantes. É duvidoso que se
possa contar com qualquer uma delas para se provocar qq mudança relevante. Pode
ser que estejamos presenciando não apenas o fim da multidão como propôs Mike
Davis (1990) mas também o fim do povo brasileiro enquanto possibilidade
histórica, aquele que noutros tempos teria tornado possível as maiores
manifestações de massa da história recente, como foram as da campanha em prol
de eleições diretas-já (1984). A crise segue se aprofundando e é duvidoso, tomando
como exemplo os dois tipos de manifestações citadas, que se possa contar com o
protagonismo popular para definir seu desfecho. A possibilidade histórica de
uma solução conservadora, senão reacionária, para a crise só aumenta, devendo
os precedentes históricos de 1990 e 1964 serem tomados como base para reflexão.
Dennison de Oliveira
a questão "racial no Brasil":
Dedico este post aos militantes dos movimentos negros.
Eu não esperava apoio para o que venho dizendo há pelo menos
30 anos, assim como os colegas Peter Fry e Yvonne Maggie entre vários outros,
de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant, dois intelectuais reconhecidamente de
esquerda. Eles dois não citam nossos trabalhos, mas estão de pleno acordo com
eles. O texto completo está em Estudos Afro-Asiáticos, Ano 24, no 1, 2002, pp.
15-33.
"Em um campo mais próximo das realidades políticas, um
debate como o da “raça” e da identidade dá lugar a semelhantes intrusões etnocêntricas.
Uma representação histórica, surgida do fato de que a tradição americana calca,
de maneira arbitrária, a dicotomia entre brancos e negros em uma realidade
infinitamente mais complexa, pode até mesmo se impor em países em que os
princípios de visão e divisão, codificados ou práticos, das diferenças étnicas
são completamente diferentes e em que, como o Brasil, ainda eram considerados,
recentemente, como contraexemplos do “modelo americano”. A maior parte das
pesquisas recentes sobre a desigualdade etno-racial no Brasil, empreendidas por
americanos e latino-americanos formados nos Estados Unidos, esforçam-se em
provar que, contrariamente à imagem que os brasileiros têm de sua nação, o país
das “três tristes raças” (indígenas, negros descendentes dos escravos, brancos
oriundos da colonização e das vagas de imigração européias) não é menos
“racista” do que os outros; além disso, sobre esse capítulo, os brasileiros
“brancos” nada têm a invejar em relação aos primos norte-americanos. Ainda
pior, o racismo mascarado à brasileira seria, por definição, mais perverso, já
que dissimulado e negado. É o que pretende, em Orpheus and Power (1994), o
cientista político afro-americano Michael Hanchard: ao aplicar as categorias
raciais norte-americanas à situação brasileira, o autor erige a história
particular do Movimento em favor dos Direitos Civis como padrão universal da
luta dos grupos de cor oprimidos. Em vez de considerar a constituição da ordem
etno-racial brasileira em sua lógica própria, essas pesquisas contentam-se, na
maioria das vezes, em substituir, na sua totalidade, o mito nacional da
“democracia racial” (tal como é mencionada, por exemplo, na obra de Gilberto
Freyre, 1978), pelo mito segundo o qual todas as sociedades são “racistas”,
inclusive aquelas no seio das quais parece que, à primeira vista, as relações
“sociais” são menos distantes e hostis. De utensílio analítico, o conceito de
racismo torna-se um simples instrumento de acusação; sob pretexto de ciência,
acaba por se consolidar a lógica do processo (garantindo o sucesso de livraria,
na falta de um sucesso de estima).
Em um artigo clássico, publicado há trinta anos, o antropó-
logo Charles Wagley mostrava que a concepção da “raça” nas Amé- ricas admite
várias definições, segundo o peso atribuído à ascendência, à aparência física
(que não se limita à cor da pele) e ao status sociocultural (profissão,
montante da renda, diplomas, região de origem, etc.), em função da história das
relações e dos conflitos en- tre grupos nas diversas zonas (Wagley, 1965). Os
norte-americanos são os únicos a definir “raça” a partir somente da ascendência
e, exclusivamente, em relação aos afro-americanos: em Chicago, Los Angeles ou
Atlanta a pessoa é “negra” não pela cor da pele, mas pelo fato de ter um ou
vários parentes identificados como ne- gros, isto é, no termo da regressão,
como escravos. Os Estados Uni- dos constituem a única sociedade moderna a
aplicar a one-drop rule e o princípio de “hipodescendência”, segundo o qual os
filhos de uma união mista são, automaticamente, situados no grupo in- ferior
(aqui, os negros). No Brasil, a identidade racial define-se pela referência a
um continuum de “cor”, isto é, pela aplicação de um princípio flexível ou
impreciso que, levando em consideração traços físicos como a textura dos
cabelos, a forma dos lábios e do nariz e a posição de classe (principalmente, a
renda e a educação), engendram um grande número de categorias intermediárias
(mais de uma centena foram repertoriadas no censo de 1980) e não implicam
ostracização radical nem estigmatização sem remédio. Dão testemunho dessa
situação, por exemplo, os índices de segregação exibidos pelas cidades
brasileiras, nitidamente inferiores aos das metrópoles norte-americanas, bem
como a ausência virtual dessas duas formas tipicamente norte-americanas de
violência racial como são o linchamento e a motim urbano (Telles, 1995; Reid,
1992). Pelo contrário, nos Estados Unidos não existe categoria que, social e
legalmente, seja reconhecida como “mestiço” (Davis, 1991; Williamson, 1980).
Aí, temos a ver com uma divisão que se assemelha mais à das castas
definitivamente definidas e delimitadas (como prova, a taxa excepcionalmente
baixa de intercasamentos: menos de 2% das afro-americanas contraem uniões
“mistas”, em contraposição à metade, aproximadamente, das mulheres de origem
hispanizante e asiática que o fazem) que se tenta dissimular, submergindo-a
pela “globalização” no universo das visões diferenciantes.
Mas todos esses mecanismos que têm como efeito favorecer uma
verdadeira “globalização” das problemáticas americanas, dando, assim, razão, em
um aspecto, à crença americanocêntrica na “globalização” entendida,
simplesmente, como americanização do mundo ocidental e, aos poucos, de todo o
universo, não são su- ficientes para explicar a tendência do ponto de vista
americano, erudito ou semi-erudito, sobre o mundo, para se impor como pon- to
de vista universal, sobretudo quando se trata de questões tais como a da “raça”
em que a particularidade da situação americana é particularmente flagrante e está
particularmente longe de ser exemplar. Poder-se-ia ainda invocar,
evidentemente, o papel motor que desempenham as grandes fundações americanas de
filantropia e pesquisa na difusão da doxa racial norte-americana no seio do
campo universitário brasileiro, tanto no plano das representações, quanto das
práticas. Assim, a Fundação Rockefeller financia um programa sobre “Raça e
Etnicidade” na Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como o Centro de
Estudos Afro-Asiáticos (e sua revista Estudos Afro-Asiáticos) da Universidade
Candido Mendes, de maneira a favorecer o intercâmbio de pesquisadores e
estudantes. Para a obtenção de seu patrocínio, a Fundação impõe como condição
que as equipes de pesquisa obedeçam aos critérios de affirmative action à
maneira americana, o que levanta problemas espinhosos já que, como se viu, a
dicotomia branco/negro é de aplicação, no mínimo, arriscada na sociedade
brasileira."
Alba Zaluar
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Existe uma base social com vontade de lutar pela
democracia e por Lula com determinação. Esta base precisa de comando e de
direção política firme. Se Lula for preso o golpe e a ditadura burguesa-togada
avançarão para os próximos passos: a hegemonia completa dos mais corruptos
políticos e capitalistas no poder, a privatização das estatais, da Petrobras, o
desmonte da educação e das universidades federais, a venda da saúde e da previdência,
a criminalização dos movimentos sociais, como o MST, MTST, o fechamento do PT e
a perseguição implacável contra qualquer candidatura, sindicato, partido e
movimento que minimamente ameace os interesses da ordem dominante golpista nos
seus arrochos trabalhistas e roubos de direitos. O último grande comandante
institucional disposto a lutar pela democracia no Brasil foi o Marechal Lott,
no contragolpe de 11 de novembro de 1955. Impressionante quando alguém de cima
resolveu lutar, em igualdade de condições, contra a direita brucutu, contra os
fascistas, os gorilas, contra o consórcio entreguista internacional, estes
recuaram com medo da resoluta ação de Lott, infelizmente mal aproveitada.
Vargas não teve condições de luta em 1954. Poderia ter tido como se viu na
grande reação popular no dia seguinte do suicídio, muitos esperaram o comando.
Jango não ouviu Brizola e ambos tiveram que fugir em 1964. Durante a ditadura
civil-militar de 1964 o legislativo só não foi completamente fechado, como
tinha sido na ditadura de 1937, pela existência de lutadores, os mesmos
lutadores que garantiram a sobrevida do pequeno espaço legislativo para a
grande derrota parlamentar das forças da ditadura, da Arena, nas eleições de
1974 em diante. As forças da ditadura militar não conseguiram fechar de vez e
permanentemente o limitado parlamento por causa dos que resistiram. Sem os
heróis da resistência contra a ditadura brasileira de 1964, ela poderia ter
seguido o modelo das ditaduras espanhola e portuguesa, nas suas muitas décadas
de continuidade, de atraso e de oligarquias reacionárias ditatoriais no poder.
Agora estamos em outra encruzilhada decisiva e todos os cidadãos amantes da
democracia, das liberdades, todos os militantes, todos sindicalistas, todos
partidos de esquerda, todos parlamentares, todos governadores, prefeitos, todos
artistas, todos intelectuais, todas as lideranças populares, movimentos
sociais, trabalhadores e estudantes, todos comprometidos com a democracia, com
as causas sociais e com eleições livres, todos devem lutar ao máximo neste
momento de ameaça de prisão ilegal, imoral e forjada de Lula pelos tribunais de
exceção do atual regime golpista. A pergunta que se deve fazer é a seguinte:
Quem está disposto a lutar ao máximo pela democracia, pelas liberdades e pela
causa de Lula ? Quem está disposto a lutar pelo golpe, por Temer, pelo PSDB, ou
por qualquer dos seus serviçais golpistas subalternos, nos outros partidos de
direita e nas outras lideranças apoiadoras do golpe, do desmonte do país e da
incipiente ditadura burguesa-togada que existe ? Preparem-se para as batalhas
políticas em defesa do Brasil.
RCO
O despertar do nacional-popular crítico no Carnaval ! Sensacionais as
produções como a do Paraíso do Tuiuti. Uma verdadeira aula de sociologia
histórica dos brasileiros negros, aula de brasilidade, artística elaboração de
toda uma trajetória e todo um processo social, político e histórico. O golpista
Temer escrachado como o vampirão pérfido que ele é e o roubo dos votos, das
moradias, das carteiras de trabalho e dos direitos sociais do povo trabalhador.
A crítica da Mangueira contra o prefeito Crivella, representado como o
fujão Judas, tudo revela a firme oposição da nossa autêntica cultura popular
brasileira às formas de direita excludentes de certo protestantismo importado.
Ao longo de toda a nossa história, nos momentos mais cruciais da nossa
existência como Nação, nas guerras holandesas, nas guerras de fronteiras, nas
guerras platinas, no Paraguai, o Brasil sempre foi defendido pela última
trincheira dos brasileiros negros, tão injustamente maltratados e massacrados
na nossa sociedade, mas sempre uma fonte permanente de criatividade, vibração,
cultura e vitalidade. Agora, estes movimentos sociais e culturais populares, do
Brasil profundo, das favelas, periferias, campos e cidades, novamente, têm o
poder de nos livrarem dos invasores estrangeiros, da quadrilha golpista de
Temer e de seus asseclas, ladrões internacionais e locais, de quadrilhas
importadas com gente estrangeira e alienígena no Brasil, a direita querendo
roubar, privatizar e pilhar nosso país. O povão brasileiro está despertando e
ninguém vai conseguir segurar ! Explode coração !
RCO
O Desfile da Paraiso do Tuiuti
O desfile da Paraíso do Tuiuti
mostrou a procissão dos trabalhadores negros desde a escravidão. Como seria o
desfile da CDT, a Classe Dominante Tradicional e seus apêndices ? Começaria com
os senhores de terras e escravos, das sesmarias e das casas grandes, daí viriam
os homens bons das câmaras e depois da Independência, os das assembleias, os
deputados e senadores, as mamatas, as mordomias do legislativo e dos tribunais
de contas. Daí entrariam os barões imperiais, seus filhos e genros, os
bacharéis, advogados, médicos e engenheiros, as elites da cultura bacharelesca,
que não modernizaram e sim atrasaram o país em termos de mentalidades
políticas. A ala dos comerciantes, dos que roubam no peso e no preço. O bloco
dos militares, dos delegados, dos coronéis e generais, um dos mais
disciplinados e querendo marchar. Destaque para grandes símbolos militares de
direita, símbolos de cultura e de coragem bélica, como Bolsonaro e Ustra,
referências para a direita militar torturadora. Outro grande destaque é a ala
do sistema judicial, o judiciário e o mp, representando o velho ethos
classista, defendendo os interesses dos dominantes, protegendo os seus
apaniguados e perseguindo os adversários políticos. Tudo acima do teto. Quem
entra na ala do judiciário logo é mentalmente, institucionalmente,
politicamente hipnotizado e enquadrado, passa a ser o pior dos representantes
da ordem, vide os bonecos gigantes do Joaquim Barbosa e do Fachin, que para
serem aceitos logo viram um deles, esquecem totalmente qualquer passado
subalterno crítico ou quais ideias lhes tenham dado o cargo. O grupo mais
animado e jovial é a troça dos herdeiros do nepotismo, o grupo com mais
algazarra, alvoroço e farra irresponsável, almas cheiram a talco, porque sabem
que todas as instituições se abrem para o gozo e usufruto deles, moças e
rapazes já eleitos como deputados, recebendo as melhores propinas, os melhores
cartórios, os melhores cargos estatais e as mais gostosas negociatas. Muitos
saem dos desfiles alcoolizados para atropelarem pessoas inocentes em alta
velocidade na madrugada, logo um dos passistas do judiciário os soltará antes
mesmo de serem presos. O próximo grupo é o dos donos e seus escravos da mídia,
sempre com as bocas tapadas, todos preocupados com o que podem mostrar e falar,
tudo para não desagradarem os chefes de redação e muito menos os donos
familiares da grande mídia. A bateria dos fracos industriais, com pouco ritmo,
segue acorrentada com sua dependência, arcaísmo, timidez e baixo espírito de
inovação. Não querem fazer barulho para não incomodar e são importadores de
tecnologia, usam mão de obra barata e são exportadores de matéria prima não
manufaturada. Muitos querem logo casar com uma mocinha das outras alas para
poderem apagar a sua origem imigrante e trabalhadora, muitas vezes até sujaram
as mãos com trabalho braçal e manual, antes de enriquecerem. O apito de
sonegadores é distribuído para todos integrantes da Escola de Samba CDT desde a
concentração. Somente o vampirão neoliberalista Temer seria emprestado da
Tuiuti, mais uma comissão traseira, uma comissão do atraso, da corrupção e com
todos os protagonistas do golpe: Eduardo Cunha de terno, sorridente, com sua
família esquiando e com prisão de mentirinha, Profeta Jucá, Angorá, Padilha,
Geddel, boys do MBL, artistas do Cansei, muitos ministros golpistas, toda a
quadrilha feliz e cantando no final.
RCO
Sem dúvida que, para um cientista social, ter um livro (ou livros)
transformado em samba enredo não deixa de ser uma consagração. Parabéns ao
Prof. Jessé de Souza pelo alto fator de impacto de seus textos, qualquer que
seja nosso grau de concordância com as teses por ele defendidas. Oxalá nos
próximos anos continue assim, para as ciências sociais se difundirem cada vez
mais entre a população, demonstrando sua importância para o aumento de nossa
cultura cívica e qualidade da democracia. Sublinhe-se também que, ao que
parece, os sambistas estão mais politizados e esclarecidos do que nossas
autoridades judiciais e policiais, que continuam fazendo sua formação
doutrinária a partir de velhos manuais dos longínquos tempos da guerra fria e
predominantemente pelo que sai na grande mídia corporativa. Tem que dar uma
melhorada do nível dos manuais e no processo de formação doutrinária dessa
turma aí...
SSB
sábado, 10 de fevereiro de 2018
LUIS INÁCIO "LULA" DA SILVA E O PRIMO "GEORGE BUCH"...GENEALOGIA.
.
Escrito por David Gueiros | 19 Abril 2005
Arquivo
Torneiro mecânico, proletário autêntico do ABC paulista,
Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente poderia imaginar ser parente de gente
ilustre. No entanto, mesmo antes de sua eleição, já apareciam “primos” dele, de
todos os lados, alguns ilustres e outros nem tanto.
Primeiro foram os parentes de Garanhuns e Caetés, convidados
a participar das festividades da posse do novo Presidente da República. Estes
vieram a Brasília, viveram aqui seus 15 minutos de glória, e voltaram a
Pernambuco para rememorar a ocasião pelo resto da vida.
Um desses primos de Lula, chamado Bartolomeu Atanásio de
Morais, autodenominado “genealogista da família da Silva”, deixou em Brasília
alguns primores de suas investigações genealógicas, alegando, inclusive, ter
traçado a genealogia do presidente até oito gerações. É muita coisa, pois isso
coloca Lula como descendente dos pioneiros colonizadores dos Campos dos
Garanhuns, nos alvores do século XVIII. Naquela época, uma endogamia grupal foi
formada naquele sertão serrano, que incluía gente como Simoa Gomes, neta de
Domingos Jorge Velho, Antônio Vaz da Costa, ancestral do conhecido economista e
ex-diretor do BID, Rubens Vaz da Costa, e Micael de Amorim Souto, dono do
latifúndio da Mochila, ancestral do deputado Antônio Souto Filho (“Soutinho”)
de grande distinção na Primeira República, sem falar de Renato Barreto Rego,
ancestral dos Atanásio de Morais. Gente fina, toda ela. Sei que não cai bem um
proletário que se presa ter ascendentes tão ilustres, mas prossigamos.
De início, Bartolomeu afirmou que, através da família
Atanásio de Morais, Lula é também contra parente de José Ermírio de Morais. A
partir dessa informação, sabe-se estar o presidente irremediavelmente ligado,
por laços de parentesco, à fina flor do capitalismo brasileiro. Não sei se isso
alegrará seu coração proletário, porém presumindo que as informações fornecidas
pelo “genealogista da família da Silva” são corretas, sem dúvida alguma haverá
razão para orgulho. Afinal, José Ermírio de Morais, à sua maneira, é pessoa tão
bem sucedida quanto o próprio Lula, apesar de ser da terrível classe
capitalista, exploradora do povo.
Todas as informações sobre a genealogia de Lula, afirmou
ainda Bartolomeu de Morais, estão registradas na obra do historiador
garanhuense, Alfredo Leite Cavalcanti (História de Garanhuns, Vol. I 1968).
Essa dica é válida, porém incompleta, pois o livro de Alfredo Leite (como ele
era conhecido) não registra a genealogia de todas as famílias garanhuenses,
tendo esse pesquisador se limitado a traçar apenas os nomes das linhagens mais
conhecidas localmente. Os parentes pobres ficaram de fora. Afinal, pobre
parente é carne no dente.
Assim, há um missing link, ou mesmo vários missing links,
nas listagens de Alfredo Leite, de modo que não pode um pesquisador de fora,
com absoluta certeza, traçar a linhagem do Lula através delas. Dessa maneira,
resta aceitar a palavra de Bartolomeu de Morais, como sendo fiel e correta,
aceitando inclusive a alegação de que Bartolomeu pessoalmente tem os nomes de
todos os ancestrais de Lula, ainda que não revelados, por ocasião da visita do
abnegado genealogista a Brasília.
Seguindo a pista dada por Bartolomeu, descobre-se no livro
de Alfredo Leite o casal pioneiro, através do qual esse genealogista traça a
família de Lula: Renato Barreto Rego e Eugênia Soares de Abreu, ancestrais dos
Atanásio de Morais. Estes foram avós de Francisca Pereira do Nascimento e Ana
Pereira do Nascimento, que se casaram respectivamente com os irmãos José Paes
de Lira e Bernardo Luís da Silva. Êpa! Chegamos perto do nome de Lula, pois a
linhagem deste, de acordo com Bartolomeu, passa por este último senhor.
Os dois rapazes acima citados eram filhos de Manuel da Silva
Gueiros, e netos de Manuel Dias da Silva. Vindo de Sergipe, Manuel Dias da
Silva se casou com Maria Paes Cabral, filha do latifundiário garanhuense Micael
de Amorim Souto. Sugere então Alfredo Leite que esse sergipano - homem de
posses, pois casou com a filha de um grande latifundiário - era ligado à Casa
da Torre, em sua expansão pastoril, muito além das margens do São Francisco. A
Casa da Torre, da família Dias D’Ávila - poderosos cristãos novos - chegou a
possuir milhares de quilômetros quadrados de terra, indo da Bahia ao Piauí,
incluindo ainda trechos de Sergipe, partes da Capitania das Alagoas e pedaços
de Pernambuco.
Latifundiários! Que horror! Mais ainda, os da Casa da Torre
eram cristãos novos – judeus convertidos a ferro e a fogo. Caso essa informação
seja correta, Lula seria então um provável descendente de judeus. Logo ele, que
anda arrastando a asa para os ditadores árabes, inclusive trazendo-os ao
Brasil, para um encontro em maio próximo!
Como provável descendente de Manuel da Silva Gueiros, Lula
estaria então ligado a muitos nomes de distinção no Brasil. Entre estes, o
jurista Nehemias da Silva Gueiros, o Ministro Esdras da Silva Gueiros, o
Vice-governador do Pará Deputado Antônio Teixeira Gueiros, o Ministro Evandro
Gueiros Leite, o Senador e Governador do Pará Hélio Motta Gueiros e outros mais
desse nome, que se distinguiram nesta República, na segunda metade do século
passado.
Menciona-se essa linhagem Gueiros, porque piores coisas
podem ser ditas sobre as ligações desses “contra-parentes dos contra-parentes”.
No meio desse caminho encontra-se, horror dos horrores, a família Bush do
Texas. Sim, do próprio George W. Bush! Como pode?
Acontece que o pastor Jerônimo Gueiros, de Garanhuns, no
começo do século passado, casou com Cecília Frias. Esta era uma das três filhas
- Cecília, Dorcas e Prelediana - de Inocêncio Frias, fazendeiro e conselheiro
municipal de Garanhuns. Ocorre que a irmã de Cecília Frias, chamada Prelediana,
casou com um pastor norte-americano de origem portuguesa, missionário batista,
chamado Jepheter Hamilton. Este trabalhou no Brasil por uns tempos, tendo
eventualmente ido morar nos Estados Unidos, na Nova Inglaterra. Ao se
aposentar, o casal foi morar em Portugal, deixando, porém, os filhos adultos
nos Estados Unidos. Esse lado norte-americano da família tem mantido contato com
os primos brasileiros, de tempos em tempos.
Assim, a informação que segue vem de Charles K. Ortel, neto
de Prelediana, um renomado “investidor independente”, na Nova Inglaterra. A
filha mais nova de Prelediana, assim informa Charles Ortel, casou com um colega
da Universidade de Yale, chamado Ortel, de tradicional família da Nova
Inglaterra, com ligações familiares em todo o pa&i acute;s, inclusive no
Texas. Foi mãe de três rapazes, destarte netos da garanhuense Prelegiana Frias,
um dos quais recebeu o sobrenome de Gueiros e outro de Frias. Como o próprio
Charles Ortel nos informa, através das ligações familiares da sua família
paterna, ele é primo legítimo de George W. Bush, no lado americano, e primo
legítimo dos filhos e netos de Jerônimo Gueiros e Cecília Frias, no Brasil. Os
Ortel são não apenas capitalistas, mas também Republicanos conservadores. Isso
não pega bem, para um presidente proletário, ter contra parentes desse tipo.
Os caminhos são tortuosos, como soem ser os levantamentos
genealógicos. Porém, presumindo-se que as informações de Bartolomeu de Morais
são corretas, então Lula descende mesmo de pioneiros dos Campos dos Garanhuns.
Mais ainda, pode-se afirmar que, como descendente de Manoel Dias da Silva, ele
é provavelmente de ascendência judaica; é também parente do capitalista José
Ermírio de Morais; é parente dos descendentes de Prelediana Frias, e através
deles é “primo” (com mil aspas) do companheiro George W. Bush. Que horror!
“Contra-parente dos parentes dos contra-parentes da mulher do cavalariço del
Rei”, já dizia Jerônimo Gueiros.
Essas conclusões são tão absurdas, que seria bom voltar a
Garanhuns a fim de consultar o genealogista Bartolomeu Atanásio de Morais, a
ver se de alguma maneira ele não se enganou no levantamento que fez da genealogia
de Lula.
Fonte : DIAZ NOTÍCIAS
http://diaznoticia.blogspot.com.br/2012/02/luis-inacio-lula-da-silva-e-o-primo.html
Existe uma base social com vontade de lutar pela democracia
e por Lula com determinação. Esta base precisa de comando e de direção política
firme. Se Lula for preso o golpe e a ditadura burguesa-togada avançarão para os
próximos passos: a hegemonia completa dos mais corruptos políticos e
capitalistas no poder, a privatização das estatais, da Petrobras, o desmonte da
educação e das universidades federais, a venda da saúde e da previdência, a
criminalização dos movimentos sociais, como o MST, MTST, o fechamento do PT e a
perseguição implacável contra qualquer candidatura, sindicato, partido e movimento
que minimamente ameace os interesses da ordem dominante golpista nos seus
arrochos trabalhistas e roubos de direitos. O último grande comandante
institucional disposto a lutar pela democracia no Brasil foi o Marechal Lott,
no contragolpe de 11 de novembro de 1955. Impressionante quando alguém de cima
resolveu lutar, em igualdade de condições, contra a direita brucutu, contra os
fascistas, os gorilas, contra o consórcio entreguista internacional, estes
recuaram com medo da resoluta ação de Lott, infelizmente mal aproveitada.
Vargas não teve condições de luta em 1954. Poderia ter tido como se viu na
grande reação popular no dia seguinte do suicídio, muitos esperaram o comando.
Jango não ouviu Brizola e ambos tiveram que fugir em 1964. Durante a ditadura civil-militar
de 1964 o legislativo só não foi completamente fechado, como tinha sido na
ditadura de 1937, pela existência de lutadores, os mesmos lutadores que
garantiram a sobrevida do pequeno espaço legislativo para a grande derrota
parlamentar das forças da ditadura, da Arena, nas eleições de 1974 em diante.
As forças da ditadura militar não conseguiram fechar de vez e permanentemente o
limitado parlamento por causa dos que resistiram. Sem os heróis da resistência
contra a ditadura brasileira de 1964, ela poderia ter seguido o modelo das
ditaduras espanhola e portuguesa, nas suas muitas décadas de continuidade, de
atraso e de oligarquias reacionárias ditatoriais no poder. Agora estamos em
outra encruzilhada decisiva e todos os cidadãos amantes da democracia, das
liberdades, todos os militantes, todos sindicalistas, todos partidos de
esquerda, todos parlamentares, todos governadores, prefeitos, todos artistas,
todos intelectuais, todas as lideranças populares, movimentos sociais,
trabalhadores e estudantes, todos comprometidos com a democracia, com as causas
sociais e com eleições livres, todos devem lutar ao máximo neste momento de
ameaça de prisão ilegal, imoral e forjada de Lula pelos tribunais de exceção do
atual regime golpista. A pergunta que se deve fazer é a seguinte: Quem está
disposto a lutar ao máximo pela democracia, pelas liberdades e pela causa de
Lula ? Quem está disposto a lutar pelo golpe, por Temer, pelo PSDB, ou por
qualquer dos seus serviçais golpistas subalternos, nos outros partidos de direita
e nas outras lideranças apoiadoras do golpe, do desmonte do país e da
incipiente ditadura burguesa-togada que existe ? Preparem-se para as batalhas
políticas em defesa do Brasil.
RCO
O MUNDO PODE PIORAR SEMPRE
Com dois filhos desempregados,
um é psicólogo e o outro designer gráfico, tenho me dedicado a colaborar com
eles em busca de trabalho.Por isso, fui ao oracular google e teclei vagas para
psicologo e vagas para designer gráfico. Surgiram na telinha uma infinidade de
links. Fui em vários e fiquei espantado com os salários precarizados e as
exigências. Não encontrei nessas duas funções nenhuma oferta de emprego
razoável pra quem fez curso universitário e já possui experiência na área.
Cheguei a ver empresa oferecendo vaga por 1500 reais para essas funções.E o
salário mais rechonchudo era menor do que o vergonhoso "auxílio
moradia" de 4300 reais que beneficia todos os juízes, procuradores e
promotores.
Como trabalhei a vida inteira na imprensa como diagramador,
assistente de arte e diretor de arte (o nome sofisticou, mas o salário minguou)
e nunca passei por dificuldades econômicas (exceto qdo perdi emprego na Gazeta
Mercantil), fiquei perplexo.E muito preocupado. Aliás, confesso já ter dividido
essa preocupação com muitos amigos e companheiros de trabalho muitos anos
atrás.Mas nunca imaginei que a coisa pudesse piorar tanto, embora a base do meu
pensamento apontasse para essa direção. Ou seja:os avanços do capetalismo são
cruéis, concentradores e contrários ao bem estar social e as conquistas da
classe trabalhadora.
Rubens Jardim
O CARNAVAL DA PREVIDENCIA
Helio Fernandes
Apesar de passar o carnaval na Restinga da Marambaia, o
corrupto Temer só tem uma preocupação: a cooptação da base para a aprovação da
reforma da Previdencia. Como o que deverá ser votado no dia 19, é uma
deturpação do projeto inicial, Temer está acenando e ofererendo mais vantagens,
recuos e concessões.
Segundo os que têm contato com ele, dizem que está disposto
a apostar na intimidação- represalia, comparando o desperdicio espantoso para
fugir da investigação do STF.Acredita que isso possa render apoio pra chegar
aos 308 votos. Apela tambem para os numeros despropositados e contraditorios.
Ha meses vem traçando um quadro de tragedia irrecuperavel. Com prejuizos de
centenas de bilhões como deficit anual.
Ante ontem minimizou a relevancia do deficit,ganhou
manchetes de jornais, presença diaria e até horarias nas
televisões.Textual:"Fiz tudo para aprovar agora. Se ficar para 2019 ou
depois,o deficit será de 177 bilhões em 10 anos".
Decodificado ou sumarizado,dá 17 bilhões de prejuizo por
ano, uma dadiva, perto do clamor de centenas de bilhões de deficit de por ano.
Alguma coisa está errada como este reporter e o jornarlista José Carlos Werneck
estamos clamando ha muito tempo.
PS- E o exagero das mordomias. Temer pediu 40 funcionarios
extras, para quê?
PS2- Dona Marcela vai levar 20 funcionarios extras,
incluindo um cabeleiro. 4 dias na praia com cabeleireiro,é cafonice rematada.
PS3- E os aviões da FAB, lndo e vindo para refazer os
cardapios. Que Republica!
PS4- À oltima hora cortaram 2o funcionarios, ficaram só 40.
.
Bueno, si de verdad
Bueno, si de verdad
quieres una confesión,
ahí va:
he tenido treinta y seis amantes.
Bien, sí. Tienes razón…
son demasiados.
Hubiese bastado con treinta y cinco.
Pero, cariño, el treinta y seis
eres tú.
de la filandesa Eeva Kilpi
(1928-),
Biblioteca Digital Ciudad Seva
El amante dormido
No hace mucho tiempo hubo en Salerno un grandísimo médico
cirujano cuyo nombre fue maestro Mazzeo de la Montagna, el cual, ya cerca de
sus últimos años, habiendo tomado por mujer a una hermosa y noble joven de su
ciudad, de lujosos vestidos y joyas y de todo lo que a una mujer puede placer
más, la tenía abastecida; es verdad que ella la mayor parte del tiempo estaba
resfriada, como quien en la cama no estaba por el marido bien cubierta. El
cual, como micer Ricciardo de Chínzica a la suya enseñaba las fiestas y los
ayunos, este a ella le explicaba que por acostarse con una mujer una vez tenía
necesidad de descanso no sé cuántos días, y otras chanzas; con lo que ella
vivía muy descontenta, y como prudente y de ánimo valeroso, para poder
ahorrarle trabajos al de la casa se dispuso a echarse a la calle y a desgastar
a alguien ajeno, y habiendo mirado a muchos y muchos jóvenes, al fin uno le
llegó al alma, en el que puso toda su esperanza, todo su ánimo y todo su bien.
Lo que, advirtiéndolo el joven y gustándole mucho, semejantemente a ella volvió
todo su amor.
Se llamaba este Ruggeri de los Aieroli, noble de nacimiento
pero de mala vida y de reprobable estado hasta el punto de que ni pariente ni
amigo le quedaba que le quisiera bien o que quisiera verle, y por todo Salerno
se le culpaba de latrocinios y de otras vilísimas maldades; de lo que poco se
preocupó la mujer, gustándole por otras cosas. Y con una criada suya tanto lo
preparó, que estuvieron juntos; y luego de que algún placer disfrutaron, la
mujer le comenzó a reprochar su vida pasada y a rogarle que, por amor de ella,
de aquellas cosas se apartase; y para darle ocasión de hacerlo empezó a
proporcionarle cuándo una cantidad de dineros y cuándo otra.
Y de esta manera, persistiendo juntos asaz discretamente,
sucedió que al médico le pusieron entre las manos un enfermo que tenía dañada
una de las piernas, al cual mal habiendo visto el maestro, dijo a sus parientes
que, si un hueso podrido que tenía en la pierna no se le extraía, con certeza
tendría aquel o que cortarse toda la pierna o que morirse; y si le sacaba el
hueso podía curarse, pero que si no le daba por muerto y no lo recibiría; con
lo que, poniéndose de acuerdo todos los de su parentela, así se lo entregaron.
El médico, juzgando que el enfermo sin ser narcotizado no soportaría el dolor
ni se dejaría intervenir, debiendo esperar hasta el atardecer para aquel
servicio, hizo por la mañana destilar de cierto compuesto suyo una agua que
debía dormirle tanto cuanto él creía que iba a hacerlo sufrir al curarlo; y
haciéndola traer a casa en una ventanica de su alcoba la puso, sin decir a
nadie lo que era.
Venida la hora del crepúsculo, debiendo el maestro ir con
aquel, le llegó un mensaje de ciertos muy grandes amigos suyos de Amalfi de que
por nada dejase de ir incontinenti allí, porque había habido una gran riña y
muchos habían sido heridos. El médico, dejando para la mañana siguiente la cura
de la pierna, subiendo a una barquita se fue a Amalfi; por lo cual la mujer,
sabiendo que por la noche no debía volver a casa, ocultamente como acostumbraba
hizo venir a Ruggeri y en su alcoba lo metió, y lo cerró dentro hasta que
algunas otras personas de la casa se fueran a dormir. Quedándose, pues, Ruggeri
en la alcoba y esperando a la señora, teniendo (o por trabajos sufridos durante
el día o por comidas saladas que hubiera comido, o tal vez por costumbre) una
grandísima sed, vino a ver en la ventana aquella garrafita del agua que el
médico había hecho para el enfermo, y creyéndola agua de beber, llevándosela a
la boca, toda la bebió; y no había pasado mucho cuando le dio un gran sueño y
se durmió.
La mujer, lo antes que pudo se vino a su alcoba y,
encontrando a Ruggeri dormido, empezó a sacudirlo y a decirle en voz baja que
se pusiese en pie, pero como si nada: no respondía ni se movía un punto; por lo
que la mujer, algo enfadada, con más fuerza lo sacudió, diciendo:
-Levántate, dormilón, que si querías dormir, donde debías ir
es a tu casa y no venir aquí.
Ruggeri, así empujado, se cayó al suelo desde un arcón sobre
el que estaba y no dio ninguna señal de vida, sino la que hubiera dado un
cuerpo muerto; con lo que la mujer, un tanto asustada, empezó a querer
levantarlo y menearlo más fuerte y a cogerlo por la nariz y a tirarle de la
barba, pero no servía de nada: había atado el asno a una buena clavija. Por lo
que la señora empezó a temer que estuviera muerto, pero aun así le empezó a
pellizcar agriamente las carnes y a quemarlo con una vela encendida; por lo que
ella, que no era médica aunque médico fuese el marido, sin falta lo creyó
muerto, por lo que, amándolo sobre todas las cosas como hacía, si sintió dolor
no hay que preguntárselo, y no atreviéndose a hacer ruido, calladamente, sobre
él comenzó a llorar y a dolerse de tal desventura. Pero luego de un tanto,
temiendo añadir la deshonra a su desgracia, pensó que sin ninguna tardanza
debía encontrar el modo de sacarlo de casa muerto como estaba, y ni en esto
sabiendo determinarse, ocultamente llamó a su criada, y mostrándole su
desgracia, le pidió consejo.
La criada, maravillándose mucho y meneándolo también ella y
empujándolo, y viéndolo sin sentido, dijo lo mismo que decía la señora, es
decir, que verdaderamente estaba muerto, y aconsejó que lo sacasen de casa. A
lo que la señora dijo:
-¿Y dónde podremos ponerlo que no se sospeche mañana cuando
sea visto que de aquí dentro ha sido sacado?
A lo que la criada contestó:
-Señora, esta tarde ya de noche he visto, apoyada en la
tienda del carpintero vecino nuestro, un arca no demasiado grande que, si el
maestro no la ha metido en casa, será muy a propósito de lo que necesitamos
porque dentro podemos meterlo, y darle dos o tres cuchilladas y dejarlo. Quien
lo encuentre allí, no sé por qué más de aquí dentro que de otra parte vaya a
creer que lo hayan llevado; antes se creerá, como ha sido tan malvado, que,
yendo a cometer alguna fechoría, por alguno de sus enemigos ha sido muerto,
luego metido en el arca.
Agradó a la señora el consejo de la criada, salvo en lo de
hacerle algunas heridas, diciendo que no podría por nada del mundo sufrir que
aquello se hiciese; y la mandó a ver si estaba allí el arca donde la había
visto, y ella volvió y dijo que sí. La criada, entonces, que joven y gallarda
era, ayudada por la señora, se echó a las espaldas a Ruggeri y yendo la señora
por delante para mirar si venía alguien, llegadas al arca, lo metieron dentro
y, volviéndola a cerrar, se fueron.
Habían, hacía unos días más o menos, venido a vivir a una
casa dos jóvenes que prestaban a usura, y deseosos de ganar mucho y de gastar
poco, teniendo necesidad de muebles, el día antes habían visto aquella arca y
convenido que si por la noche seguía allí se la llevarían a su casa. Y llegada
la medianoche, salidos de casa, encontrándola, sin entrar en miramientos,
prestamente, aunque pesadita les pareciese, se la llevaron a casa y la dejaron
junto a una alcoba donde sus mujeres dormían, sin cuidarse de colocarla bien
entonces; y dejándola allí, se fueron a dormir.
Ruggeri, que había dormido un grandísimo rato y ya había
digerido el bebedizo y agotado su virtud, cerca de maitines se despertó; y al
quedar el sueño roto y recuperar sus sentidos el poder, sin embargo le quedó en
el cerebro una estupefacción que no solamente aquella noche sino después
algunos días lo tuvo aturdido; y abriendo los ojos y no viendo nada, y
extendiendo las manos acá y allá, encontrándose en esta arca, comenzó a
devanarse los sesos y a decirse:
-¿Qué es esto? ¿Dónde estoy? ¿Estoy dormido o despierto? Me
acuerdo que esta noche he entrado en la alcoba de mi señora y ahora me parece
estar en un arca. ¿Qué quiere decir esto? ¿Habrá vuelto el médico o sucedido
otro accidente por lo cual la señora, mientras yo dormía, me ha escondido aquí?
Eso creo, y seguro que así habrá sido.
Y por ello comenzó a estarse quieto y a escuchar si oía
alguna cosa, y estando así un gran rato, estando más bien a disgusto en el
arca, que era pequeña, y doliéndole el costado sobre el que se apoyaba,
queriendo volverse del otro lado, tan hábilmente lo hizo que, dando con los
riñones contra uno de los lados del arca, que no estaba colocada sobre un piso
nivelado, la hizo torcerse y luego caer; y al caer hizo un gran ruido, por lo
que las mujeres que allí al lado dormían se despertaron y sintieron miedo, y
por miedo se callaban. Ruggeri, por el caer del arca temió mucho, pero
notándola abierta con la caída, quiso mejor, si otra cosa no sucedía, estar
fuera que quedarse dentro. Y entre que él no sabía dónde estaba y una cosa y la
otra, comenzó a andar a tientas por la casa, por ver si encontraba escalera o
puerta por donde irse. Cuyo tantear sintiendo las mujeres, que despiertas
estaban, comenzaron a decir:
-¿Quién hay ahí?
Ruggeri, no conociendo la voz, no respondía, por lo que las
mujeres comenzaron a llamar a los dos jóvenes, los cuales, porque habían velado
hasta tarde, dormían profundamente y nada de estas cosas sentían. Con lo que
las mujeres, más asustadas, levantándose y asomándose a las ventanas,
comenzaron a gritar:
-¡Al ladrón, al ladrón!
Por la cual cosa, por varios lugares muchos de los vecinos,
quién arriba por los tejados, quién por una parte y quién por otra, corrieron a
entrar en la casa, y los jóvenes semejantemente, despertándose con este ruido,
se levantaron. Y a Ruggeri, el cual viéndose allí, como por el asombro fuera de
sí, y sin poder ver de qué lado podría escaparse, pronto le echaron mano los
guardias del rector de la ciudad, que ya habían corrido allí al ruido, y
llevándolo ante el rector, porque por malvadísimo era tenido por todos, sin
demora dándole tormento, confesó que en la casa de los prestamistas había
entrado para robar; por lo que el rector pensó que sin mucha espera debía
colgarlo.
Se corrió por la mañana por todo Salerno la noticia de que
Ruggeri había sido preso robando en casa de los prestamistas, lo que la señora
y su criada oyendo, de tan grande y rara maravilla fueron presa que cerca
estaban de hacerse creer a sí mismas que lo que habían hecho la noche anterior
no lo habían hecho, sino que habían soñado hacerlo; y, además de ello, del
peligro en que Ruggeri estaba la señora sentía tal dolor que casi se volvía
loca.
No poco después de mediada tercia, habiendo retornado el
médico de Amalfi, preguntó qué había sido de su agua, porque quería darla a su
enfermo; y encontrándose la garrafa vacía hizo un gran alboroto diciendo que
nada en su casa podía durar en su sitio.
La señora, que por otro dolor estaba azuzada, repuso airada
diciendo:
-¿Qué haríais vos, maestro, por una cosa importante, cuando
por una garrafita de agua vertida hacéis tanto alboroto? ¿Es que no hay más
agua en el mundo?
A quien el maestro dijo:
-Mujer, te crees que era agua clara; no es así, sino que era
un agua preparada para hacer dormir.
Y le contó la razón por la que la había hecho.
Cuando la señora oyó esto, se convenció de que Ruggeri se la
había bebido y por ello les había parecido muerto, y dijo:
-Maestro, nosotras no lo sabíamos, así que haceos otra.
El maestro, viendo que de otro modo no podía ser, hizo hacer
otra nueva. Poco después, la criada, que por orden de la señora había ido a
saber lo que se decía de Ruggeri, volvió y le dijo:
-Señora, de Ruggeri todos hablan mal y, por lo que yo he
podido oír, ni amigo ni pariente alguno hay que para ayudarlo se haya levantado
o quiera levantarse; y se tiene por seguro que mañana el magistrado lo hará
colgar. Y, además de esto, voy a contaros una cosa curiosa, que me parece haber
entendido cómo llegó a casa del prestamista; y oíd cómo. Bien conocéis al
carpintero junto a quien estaba el arca donde le metimos: este estaba hace poco
con uno, de quien parece que era el arca, en la mayor riña del mundo, porque
aquel le pedía los dineros por su arca, y el maestro respondía que él no había
visto el arca, pues le había sido robada por la noche; al que aquel decía: «No
es así sino que la has vendido a los dos jóvenes prestamistas, como ellos me
dijeron cuando la vi en su casa cuando fue apresado Ruggeri». A quien el
carpintero dijo: «Mienten ellos porque nunca se la he vendido, sino que la
noche pasada me la habrán robado; vamos a donde ellos». Y así se fueron, de
acuerdo, a casa de los prestamistas y yo me vine aquí, y como podéis ver,
entiendo que de tal guisa Ruggeri, adonde fue encontrado fue transportado; pero
cómo resucitó allí no puedo entenderlo.
La señora, entonces, comprendiendo óptimamente cómo había
sido, dijo a la criada lo que había oído al médico, y le rogó que para salvar a
Ruggeri la ayudase, como quien, si quería, en un mismo punto podía salvar a
Ruggeri y proteger su honor.
La criada dijo:
-Señora, decidme cómo, que yo haré cualquier cosa de buena
gana.
La señora, como a quien le apretaban los zapatos, con rápida
determinación habiendo pensado qué había de hacerse, ordenadamente informó de
ello a la criada. La cual, primeramente fue al médico, y llorando comenzó a
decirle:
-Señor, tengo que pediros perdón de una gran falta que he
cometido contra vos.
Dijo el médico:
-¿Y de cuál?
Y la criada, no dejando de llorar, dijo:
-Señor, sabéis quién es el joven Ruggeri de los Aieroli,
quien, gustándole yo, entre amenazas y amor me condujo hogaño a ser su amiga: y
sabiendo ayer tarde que vos no estabais, tanto me cortejó que a vuestra casa en
mi alcoba a dormir conmigo lo traje, y teniendo él sed y no teniendo yo dónde
ir antes a buscar agua o vino, no queriendo que vuestra mujer, que en la sala
estaba, me viera, acordándome de que en vuestra alcoba una garrafita de agua
había visto, corrí por ella y se la di a beber, y volví a poner la garrafa
donde la había cogido; de lo que he visto que vos en casa gran alboroto habéis
hecho. Y en verdad confieso que hice mal, pero ¿quién hay que alguna vez no
haga mal? Siento mucho haberlo hecho; sobre todo porque por ello y por lo que
luego se siguió de ello, Ruggeri está a punto de perder la vida, por lo que os
ruego, por lo que más queráis, que me perdonéis y me deis licencia para que me
vaya a ayudar a Ruggeri en lo que pueda.
El médico, al oír esto, a pesar de la saña que tuviese,
repuso bromeando:
-Tú ya te has impuesto penitencia tú misma porque cuando
creíste tener esta noche a un joven que muy bien te sacudiera el polvo, lo que
tuviste fue a un dormilón: y por ello vete a procurar la salvación de tu
amante, y de ahora en adelante guárdate de traerlo a casa porque lo pagarás por
esta vez y por la otra.
Pareciéndole a la criada que buena pieza había logrado al
primer golpe, lo antes que pudo se fue a la prisión donde Ruggeri estaba, y
tanto lisonjeó al carcelero que la dejó hablar a Ruggeri. La cual, después de
que le hubo informado de lo que responder debía al magistrado para poder salvarse,
tanto hizo que llegó ante el magistrado. El cual, antes de consentir en oírla,
como la viese fresca y gallarda, quiso enganchar una vez con el garfio a la
pobrecilla cristiana; y ella, para ser mejor escuchada, no le hizo ascos; y
levantándose de la molienda, dijo:
-Señor, tenéis aquí a Ruggeri de los Aieroli, preso por
ladrón, y no es eso verdad.
Y empezando por el principio le contó la historia hasta el
fin de cómo ella, su amiga, a casa del médico lo había llevado y cómo le había
dado a beber el agua del narcótico, no sabiendo que lo era, y cómo por muerto
lo había metido en el arca; y después de esto, lo que entre el maestro
carpintero y el dueño del arca había oído decir, mostrándole con aquello cómo a
casa de los prestamistas había llegado Ruggeri. El magistrado, viendo que fácil
cosa era comprobar si era verdad aquello, primero preguntó al médico si era
verdad lo del agua, y vio que había sido así; y luego, haciendo llamar al
carpintero y a quien era el dueño del arca y a los prestamistas, luego de
muchas historias vio que los prestamistas la noche anterior habían robado el
arca y se la habían llevado a casa. Por último, mandó por Ruggeri y
preguntándole dónde se había albergado la noche antes, repuso que dónde se
había albergado no lo sabía, pero que bien se acordaba que había ido a
albergarse con la criada del maestro Maezzo, de cuya alcoba había bebido agua
porque tenía mucha sed; pero que dónde había estado después, salvo cuando
despertándose en casa de los prestamistas se había encontrado dentro de un
arca, no lo sabía. El magistrado, oyendo estas cosas y divirtiéndose mucho con
ellas, a la criada y a Ruggeri y al carpintero y a los prestamistas las hizo
repetir muchas veces. Al final, conociendo que Ruggeri era inocente, condenando
a los prestamistas que robado habían el arca a pagar diez onzas, puso en
libertad a Ruggeri; lo cual, cuánto gustó a este, nadie lo pregunte: y a su
señora gustó desmesuradamente. La cual, luego, junto con él y con la querida
criada que había querido darle de cuchilladas, muchas veces se rió y se
divirtió, continuando su amor y su solaz siempre de bien en mejor; como querría
que me sucediese a mí, pero no que me metieran dentro de un arca.
FIN
Cuarta Jornada – Narración décima,
El decamerón, 1353
DE GIOVANNI BOCCACCIO
Biblioteca Digital Ciudad Seva
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