quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Corpo a corpo com a linguagem

"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz."


- Ferreira Gullar, em artigo "Corpo a corpo com a linguagem", publicado em 1999.

Un populu
mittitilu a catina
spughiatilu
attuppatici a vucca
è ancora libiru.

Livatici u travagghiu
u passaportu
a tavula unni mancia
u lettu unni dormi,
è ancora riccu.

Un populu
diventa poviru e servu
quannu ci arrubbanu a lingua
addutata di patri:
è persu pi sempri.

Diventa poviru e servu
quannu i paroli non figghianu paroli
e si mancianu tra d’iddi.
Mi nn’addugnu ora,
mentri accordu la chitarra du dialettu
ca perdi na corda lu jornu.

Mentre arripezzu
a tila camuluta
ca tissiru i nostri avi
cu lana di pecuri siciliani.

E sugnu poviru:
haiu i dinari
e non li pozzu spènniri;
i giuelli
e non li pozzu rigalari;
u cantu
nta gaggia
cu l’ali tagghiati.

Un poviru
c’addatta nte minni strippi
da matri putativa,
chi u chiama figghiu
pi nciuria.

Nuàtri l’avevamu a matri,
nni l’arrubbaru;
aveva i minni a funtana di latti
e ci vìppiru tutti,
ora ci sputanu.

Nni ristò a vuci d’idda,
a cadenza,
a nota vascia
du sonu e du lamentu:
chissi non nni ponnu rubari.

Non nni ponnu rubari,
ma ristamu poviri
e orfani u stissu.
______________

Un popolo
Mettetegli la catena
Spogliatelo
Chiudetegli la bocca
È ancora libero.

Levategli il lavoro
Il passaporto
Il tavolo dove mangia
Il letto dove dorme
È ancora ricco.

Un popolo
Diventa povero e servo
Quando gli rubano la lingua
Datagli dal padre
È perso per sempre

Diventa povero e servo
Quando le parole non creano parole
E si mangiano tra loro
Me ne accorgo ora
Mentre accorgo la chitarra del dialetto
Che perde una corda al giorno

Mentre rammendo
la tela rovinata
che hanno tessuto i nostri avi
con lana di pecore siciliane

E sono povero:
ho i soldi
e non li posso spendere;
i gioielli
e non li posso regalare;
il canto
in gabbia
con le ali tagliate

Un povero
Che ciuccia nel seno vuoto
Di madre putativa
Che lo chiama figlio
Per soprannome.

Noi ce l’abbiamo la madre
non ce l’hanno rubata;
aveva il seno pieno di latte come una fontana
e ci hanno bevuto tutti
ora ci sputano.

C’è rimasta la sua voce
la cadenza
una nota bassa
del suono del lamento:
questi non ce li possono rubare

Non ve li possono rubare
ma restiamo poveri

e orfani lo stesso.


Ignazio Buttitta__________________
(Bagheria, 19 settembre 1899 – Bagheria, 5 aprile 1997)

Pasión del movimiento,
la tierra es tu caballo.
Cabálgala. Domínala.
Y brotará en su casco
su piel de vida y muerte,
de sombra y luz, piafando.
Asciende. Rueda. Vuela,
creador de alba y mayo.
Galopa.
MIGUEL HERNANDEZ
The latter days of fall are often cursed,
But as for me, kind reader, she is precious
In all her quiet beauty, mellow glow.
Thus might a child, disfavored in its family,
Draw my regard. To tell you honestly,
Of all the times of year, I cherish her alone.
She's full of worth; and I, a humble lover,
Have found in her peculiar charms.


Alexander Pushkin (1799-1837)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A escritora recita poemas




Semana literária SESC e feira do livro 


Lavoura arcaica

“... rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando aberto para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.”
 

- Raduan Nassar, in: Lavoura arcaica, 1975.






Um outro Poema de Amor


No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"







Amor como em Casa


Regresso devagar ao teu 
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que 
não é nada comigo. Distraído percorro 
o caminho familiar da saudade, 
pequeninas coisas me prendem, 
uma tarde num café, um livro. Devagar 
te amo e às vezes depressa, 
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, 
regresso devagar a tua casa, 
compro um livro, entro no 
amor como em casa. 

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Pastores da Noite

“E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume – como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas.”


- Jorge Amado

RELAÇÃO ÍNTIMA

 «Todos os impulsos, as emoções, as manifestações de vontades imagináveis, todas estas contingências da alma humana lançadas pela razão na imensidade negativa da noção de «sentimento», podem ser expressas por meio da multidão infinita das melodias possíveis, mas sempre exclusivamente na generalidade da forma pura, sem a substância, sempre somente como coisa em si, e não como aparência, de algum modo como a alma da aparência, incorporalmente. Esta relação íntima, que existe entre a música e a verdadeira essência de todas as coisas, explica-nos também por que, quando com pretexto de uma cena, de uma ação, de um evento, de um ambiente qualquer, ressoa uma música adequada, esta parece revelar-nos a significação mais secreta e afirmar-se como o mais exato e mais luminoso dos comentários; compreendemos igualmente como é que aquele que se abandona sem reservas à impressão produzida por uma sinfonia julga ver desenrolar-se perante os seus olhos todos os acontecimentos imagináveis da vida e do mundo.»

Nietzsche, 1872
in A Origem da Tragédia
Guimarães Editores, p.130

ESTUDO DO OBJETO


Uma lição de poesia - de Zbigniew Herbert

1
o mais belo
é o objeto que não existe
ele não serve para carregar água
nem para preservar as cinzas de um herói
não foi acalentado por Antígona
nem nele um rato se afogou
de orifício, nenhum resquício
pois é completamente aberto
visto
de todos os lados,
quase não é
antevisto
os feixes de todas as suas linhas
confluem num jato de luz
nem
cegueira
nem
morte
podem roubar o objeto que não existe

2
marque o lugar onde ficava
o objeto
que não existe
com um quadrado negro
ele será
um mero réquiem pela bela ausência
vigoroso lamento
aprisionado
num quadrilátero

3
agora
todo o espaço
dilata-se como um oceano
um furacão fustiga
o veleiro negro
a asa de uma nevasca
circunda o quadrado negro
e a ilha submerge
sob a disseminação salina

4
o que se tem agora
é espaço vazio
mais belo que o objeto
mais belo que o lugar que ele deixa
é o antemundo
um paraíso branco
de possibilidades
lá você pode entrar
gritar
vertical-horizontal
relâmpagos perpendiculares
golpeiam o horizonte nu
podemos parar aqui
de todo modo você já criou o mundo

5
oriente-se
pelo olho interior
não se renda
a murmúrios sussurros estalidos
é o mundo não criado
impresso nos portões da paisagem
anjos ofertam
chumaços rosados das nuvens
por toda parte árvores implantam
filamentos verdes desalinhados
reis celebram a púrpura
e comandam trompetistas
auricolores
até a baleia pede um retrato
oriente-se pelo olho interior
nada aceite além

6
extraia
da sombra do objeto
que não existe
do espaço polar
das inflexíveis quimeras do olho interno
uma cadeira
bela e inútil
como uma catedral no deserto
ponha sobre a cadeira
uma toalha de mesa amarrotada
adicione à ideia de ordem
a ideia de aventura
que seja uma confissão de fé
diante do vertical em combate com o horizontal
que seja
mais silenciosa que anjos
mais orgulhosa que reis
mais verdadeira que uma baleia
que tenha a face das últimas coisas
pedimos que a cadeira desvele
as dimensões do olho interno
a íris da necessidade
a pupila da morte

Tradução: Rogério Bettoni

"Pacto de Sangue"

"Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.

Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.

Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!

A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos."

(Ruy Cinatti -  da obra "Timor amor")

sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas um vício

Bufões transvestidos de poetas
burocráticos arrogantes,
pedantes pregoeiros
vós sois os porta-flâmulas
brandindo insígnias desbotadas.
Ser poeta não é um título de glória.
Apenas um vício natural.
Um fardo que por medo
amarramos mal.

(...)

Mas há quem

Potius mori quam fiedari*
eis o sentido ilibado
da vida que me transmites
em mensagens cifradas.
Mas há quem não compreenda
e prefira o mundo
assim como é: imerso na imundície.


*antes morrer que macular-se

(...)

Mortais

Não possuímos a cognição
da futuração.
Nossa previsão é limitada.
Quanto ao livre-arbítrio
faço algumas exceções.
Não há bifurcação, mas
percurso obrigatório.

(...)

A conjetura de que o mundo
seja uma burla, nem mesmo assim
resolve o puzzle fundamental.
Se queres a minha opinião
a única via de saída é a ilusão,
porque a vida supera a cada dia
os limites que impõe.

(...)

É com a tentativa desastrosa
de explicar todos os significados possíveis
que o fino declamador acaba naufragando
nas praias supersabidas do banal.

O que poderá importar a um inepto ouvinte
ser um éon decaído* ou um homem
que por medo acabou ficando mudo.


*alusão à gnose e ao neoplatonismo

(...)

poemas de Eugenio Montale, do Diário Póstumo
trad. Ivo Barroso



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


(Sophia de Melo Breyner Andresen)
Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Miguel Torga
agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


valter hugo mãe

A NEVE E O AMOR

Neste dia de calor ardente, estou esperando a neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem aboca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como
[o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve.

Lêdo Ivo | Mormaço
"As mais severas críticas à vida moderna têm a imperiosa necessidade de recorrer ao modernismo, para nos mostrar em que ponto estamos e a partir de que ponto podemos começar a mudar nossas circunstâncias e a nós mesmos. Em busca de um ponto de partida, retornei a um dos primeiros e grandes modernistas, Karl Marx. Voltei a ele não tanto por suas respostas, mas por suas perguntas. O que de mais valioso ele nos tem a oferecer, hoje, não é um caminho que permita sair das contradições da vida moderna, e sim um caminho mais seguro e mais profundo que nos coloque exatamente no cerne dessas contradições. Ele sabia que o caminho para além das contradições teria de ser procurado através da modernidade, não fora dela. Ele sabia que precisamos começar do ponto onde estamos: psiquicamente nus, despidos de qualquer halo religioso, estético ou moral, e de véus sentimentais, devolvidos à nossa vontade e energia individuais, forçados a explorar aos demais e a nós mesmos para sobreviver; e mesmo assim, a despeito de tudo, reunidos pelas mesmas forças que nos separam, vagamente cônscios de tudo o que poderemos realizar juntos, prontos a nos distendermos na direção de novas possibilidades humanas, a desenvolver identidades e fronteiras comuns que podem ajudar-nos a manter-nos juntos, enquanto o selvagem ar moderno explode em calor e frio através de todos nós.”

 – Marshall Berman (1982)