terça-feira, 17 de setembro de 2013

ESTUDO DO OBJETO


Uma lição de poesia - de Zbigniew Herbert

1
o mais belo
é o objeto que não existe
ele não serve para carregar água
nem para preservar as cinzas de um herói
não foi acalentado por Antígona
nem nele um rato se afogou
de orifício, nenhum resquício
pois é completamente aberto
visto
de todos os lados,
quase não é
antevisto
os feixes de todas as suas linhas
confluem num jato de luz
nem
cegueira
nem
morte
podem roubar o objeto que não existe

2
marque o lugar onde ficava
o objeto
que não existe
com um quadrado negro
ele será
um mero réquiem pela bela ausência
vigoroso lamento
aprisionado
num quadrilátero

3
agora
todo o espaço
dilata-se como um oceano
um furacão fustiga
o veleiro negro
a asa de uma nevasca
circunda o quadrado negro
e a ilha submerge
sob a disseminação salina

4
o que se tem agora
é espaço vazio
mais belo que o objeto
mais belo que o lugar que ele deixa
é o antemundo
um paraíso branco
de possibilidades
lá você pode entrar
gritar
vertical-horizontal
relâmpagos perpendiculares
golpeiam o horizonte nu
podemos parar aqui
de todo modo você já criou o mundo

5
oriente-se
pelo olho interior
não se renda
a murmúrios sussurros estalidos
é o mundo não criado
impresso nos portões da paisagem
anjos ofertam
chumaços rosados das nuvens
por toda parte árvores implantam
filamentos verdes desalinhados
reis celebram a púrpura
e comandam trompetistas
auricolores
até a baleia pede um retrato
oriente-se pelo olho interior
nada aceite além

6
extraia
da sombra do objeto
que não existe
do espaço polar
das inflexíveis quimeras do olho interno
uma cadeira
bela e inútil
como uma catedral no deserto
ponha sobre a cadeira
uma toalha de mesa amarrotada
adicione à ideia de ordem
a ideia de aventura
que seja uma confissão de fé
diante do vertical em combate com o horizontal
que seja
mais silenciosa que anjos
mais orgulhosa que reis
mais verdadeira que uma baleia
que tenha a face das últimas coisas
pedimos que a cadeira desvele
as dimensões do olho interno
a íris da necessidade
a pupila da morte

Tradução: Rogério Bettoni

"Pacto de Sangue"

"Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.

Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.

Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar, eu quero!

A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos."

(Ruy Cinatti -  da obra "Timor amor")

sábado, 14 de setembro de 2013

Apenas um vício

Bufões transvestidos de poetas
burocráticos arrogantes,
pedantes pregoeiros
vós sois os porta-flâmulas
brandindo insígnias desbotadas.
Ser poeta não é um título de glória.
Apenas um vício natural.
Um fardo que por medo
amarramos mal.

(...)

Mas há quem

Potius mori quam fiedari*
eis o sentido ilibado
da vida que me transmites
em mensagens cifradas.
Mas há quem não compreenda
e prefira o mundo
assim como é: imerso na imundície.


*antes morrer que macular-se

(...)

Mortais

Não possuímos a cognição
da futuração.
Nossa previsão é limitada.
Quanto ao livre-arbítrio
faço algumas exceções.
Não há bifurcação, mas
percurso obrigatório.

(...)

A conjetura de que o mundo
seja uma burla, nem mesmo assim
resolve o puzzle fundamental.
Se queres a minha opinião
a única via de saída é a ilusão,
porque a vida supera a cada dia
os limites que impõe.

(...)

É com a tentativa desastrosa
de explicar todos os significados possíveis
que o fino declamador acaba naufragando
nas praias supersabidas do banal.

O que poderá importar a um inepto ouvinte
ser um éon decaído* ou um homem
que por medo acabou ficando mudo.


*alusão à gnose e ao neoplatonismo

(...)

poemas de Eugenio Montale, do Diário Póstumo
trad. Ivo Barroso



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


(Sophia de Melo Breyner Andresen)
Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Miguel Torga
agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


valter hugo mãe

A NEVE E O AMOR

Neste dia de calor ardente, estou esperando a neve.
Sempre estive à sua espera.
Quando menino, li Recordações da Casa dos Mortos
e vi a neve caindo na estepe siberiana
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Amo a neve porque ela não separa o dia da noite
nem afasta o céu das aflições da terra.
Une o que está separado:
os passos dos homens condenados ao gelo escurecido
e os suspiros de amor que se perdem no ar.
É necessário ter um ouvido muito afiado
para ouvir a música da neve caindo, algo quase silencioso
como o roçar da asa de um anjo, caso os anjos existissem,
ou o estertor de um pássaro.
Não se deve esperar a neve como se espera o amor.
São coisas diferentes. Basta abrirmos os olhos para ver a neve
cair no campo desolado. E ela cai em nós, a neve branca e fria
que não queima como o fogo do amor.
Para ver o amor os nossos olhos não bastam,
nem os ouvidos, nem aboca, nem mesmo os nossos corações
que batem na escuridão com o mesmo rumor
da neve caindo nas estepes
e nos telhados das cabanas escuras
e no casaco roto de Fiódor Dostoiévski.
Para ver o amor, nada basta. E tanto o frio do inverno como
[o calor escaldante
o afastam de nós, de nossos braços abertos
e de nossos corações atormentados.
Fiel à minha infância, prefiro ver a neve
que une o céu e a terra, a noite e o dia,
a ser a presa indefesa do amor,
o amor que não é branco nem puro nem frio como a neve.

Lêdo Ivo | Mormaço
"As mais severas críticas à vida moderna têm a imperiosa necessidade de recorrer ao modernismo, para nos mostrar em que ponto estamos e a partir de que ponto podemos começar a mudar nossas circunstâncias e a nós mesmos. Em busca de um ponto de partida, retornei a um dos primeiros e grandes modernistas, Karl Marx. Voltei a ele não tanto por suas respostas, mas por suas perguntas. O que de mais valioso ele nos tem a oferecer, hoje, não é um caminho que permita sair das contradições da vida moderna, e sim um caminho mais seguro e mais profundo que nos coloque exatamente no cerne dessas contradições. Ele sabia que o caminho para além das contradições teria de ser procurado através da modernidade, não fora dela. Ele sabia que precisamos começar do ponto onde estamos: psiquicamente nus, despidos de qualquer halo religioso, estético ou moral, e de véus sentimentais, devolvidos à nossa vontade e energia individuais, forçados a explorar aos demais e a nós mesmos para sobreviver; e mesmo assim, a despeito de tudo, reunidos pelas mesmas forças que nos separam, vagamente cônscios de tudo o que poderemos realizar juntos, prontos a nos distendermos na direção de novas possibilidades humanas, a desenvolver identidades e fronteiras comuns que podem ajudar-nos a manter-nos juntos, enquanto o selvagem ar moderno explode em calor e frio através de todos nós.”

 – Marshall Berman (1982)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Глаза - зеркало души!

Os olhos são o espelho da alma!

LEITODEMORTE BLUES



Charles Bukowski 

Se não aguenta o calor, diz ele, saia da
cozinha. sabe quem disse isso?
Harry Truman.

Não 'tou na cozinha, digo eu, eu 'tou no
forno.

meu editor é um cara difícil
às vezes ligo pra ele em momentos de dúvida.

olha, responde ele, você vai acender charutos com notas de dez,
vai pegar uma ruiva num braço e uma loira
no outro.

outras vezes, ele vai dizer: veja bem, acho que vamos contratar o VK
como editor associado. temos que garimpar uns cinco poetas
nalgum canto. (VK é um poeta bem criativo, que acha que eu
apunhalei ele pelas costas de Nova Iorque até a costa norte do Havaí)

Olha aqui, meu garoto, respondo pro meu editor: você fala alemão?
Não, diz ele

Bom, de qualquer modo, digo eu, 'tou precisando duns bons pneus novos,
então, sabe onde consigo um jogo de pneus novos, baratos?
Eu te ligo em meia hora, diz ele, vai estar em casa
daqui a meia hora?
Não tenho um centavo pra sair, digo eu.
E ele: me disseram que você 'tava bebaco na leitura
de poesia no Oregon.
Fofoquinhas, respondo eu. -- ´tava ou não ´tava? -- Não lembro.

Um dia ele me liga: Você não 'tá mais acertando a bola. só entornando
o caneco, e briga com todas essas mulheres...
Sabe que tem um garoto no banco de reservas, não sabe? ele ´tá louco
pra entrar, ele bate de direita e de esquerda, cata todas,
é treinado por Duncan, Creeley, Wakoski
e ele consegue rimar, sabe? conhece imagens, símiles, metáforas,
retórica, chistes, assonâncias,
aliterações, métrica, é sim, métrica,
tipo, você sabe --
iambos, troqueus, anapestos, espondeus,
ele domina cesura, denotação, conotação, personificação,
dicção, paradoxo, voz, tom e coalescência...
Putaquepariu, digo eu, desligo e mando uma golada de
uísque escocês. Charlie ainda está vivo,
dizem os jornais. mas decido que em vez de
um jogo de pneus novos preciso de mais
luz nos retrovisores.

trad: Ivan Justen Santana

ALLENDE



Para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que congregar todos los odios
y además los aviones y los tanques
para batir al hombre de la paz
tuvieron que bombardearlo hacerlo llama
porque el hombre de la paz era una fortaleza

para matar al hombre de la paz
tuvieron que desatar la guerra turbia
para vencer al hombre de la paz
y acallar su voz modesta y taladrante
tuvieron que empujar el terror hasta el abismo
y matar más para seguir matando
para batir al hombre de la paz
tuvieron que asesinarlo muchas veces
porque el hombre de la paz era una fortaleza

para matar al hombre de la paz
tuvieron que imaginar que era una tropa
una armada una hueste una brigada
tuvieron que creer que era otro ejército
pero el hombre de la paz era tan sólo un pueblo
y tenía en sus manos un fusil y un mandato
y eran necesarios más tanques más rencores
más bombas más aviones más oprobios
porque el hombre del paz era una fortaleza

para matar al hombre de la paz
para golpear su frente limpia de pesadillas
tuvieron que convertirse en pesadilla
para vencer al hombre de la paz
tuvieron que afiliarse para siempre a la muerte
matar y matar más para seguir matando
y condenarse a la blindada soledad
para matar al hombre que era un pueblo
tuvieron que quedarse sin el pueblo.

(Mario Benedetti)


En el camino de regreso, caminando sierra arriba, Carlos siguió leyendo. No podía desprenderse de esta historia de horror y de bravura. El personaje central del libro era un hombre que había sabido cumplir su palabra. Al llegar a la aldea, Carlos anunció, eufórico: -¡Por fin tenemos nombre! Y leyó el libro, en voz alta, para todos. La tropezada lectura le ocupó casi una semana. Después, las ciento cincuenta familias votaron. Todas por sí. Con bailares y cantares se selló el bautizo. Ahora tienen cómo llamarse. Esta comunidad lleva el nombre de un hombre digno, que no dudó a la hora de elegir entre la traición y la muerte. -Voy para Salvador Allende dicen, ahora, los caminantes.


Eduardo Galeano .
Memorias Del Fuego

Yo pisaré las calles nuevamente.



Yo pisaré las calles nuevamente 
de lo que fue Santiago ensangrentada 
y en una hermosa plaza liberada 
me detendré a llorar por los ausentes. 

Yo vendré del desierto calcinante 
y saldré de los bosques y los lagos 
y evocaré en un cerro de Santiago 
a mis hermanos que murieron antes. 

Yo unido al que hizo mucho y poco 
al que quiere la patria liberada 
dispararé de las primeras balas 
más temprano que tarde sin reposo 
retornarán los libros las canciones 
que quemaron las manos asesinas 
renacerá mi pueblo de su ruina 
y pagarán su culpa los traidores. 

Un niño jugará en una alameda 
y cantará con sus amigos nuevos 
y ese canto será el canto del suelo 
a una vida segada en La Moneda. 

Yo pisaré las calles nuevamente 
de lo que fue Santiago ensangrentada 
y en una hermosa plaza liberada 
me detendré a llorar por los ausentes.

Pablo Milanés.


Nós devemos

Nós devemos trazer
nossa própria luz
para a
escuridão.

Ninguém irá fazer
isso por nós.

Como os jovens garotos
que esquiam montanha
abaixo.

Como o cozinheiro
que recebe o seu
pagamento.

Como o cão
que persegue
outro cão.

Nós devemos trazer
nossa pŕopria luz
para a
escuridão.

Ninguém irá fazer
isso por nós.

Como o solitário telefone
de alguém
em algum lugar

Como a grande fera
que estremece com
os próprios pesadelos.

Como a estação final
que entra no foco

Ninguém irá fazer
isso por nós.

(Charles Bukowski - Tradução: f. Koproski)


Deseo



Sólo tu corazón caliente,
y nada más.

Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.

Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.

Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo
de miradas rotas.

Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.

Y tu corazón caliente,
nada más.

Federico García Lorca

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Umbigo dos Limbos



Lá onde outros propõem suas obras, eu não pretendo fazer outra coisa senão mostrar meu espirito.
A vida é de queimar as questões.
Eu não concebo nenhuma obra separada da vida.
Eu não gosto da criação separada. Eu não concebo tampouco o espirito como separado de si próprio. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim mesmo, cada uma das florações glaciais de minha alma interior baba sobre mim.
Eu me reencontro tanto em uma carta escrita para explicar a contração intima de meu ser e a castração insensata de minha vida, quanto em um ensaio que é exterior à mim mesmo, e que se me aparece como uma gravidez indiferente de meu espirito.
Eu sofro porque o Espirito não está na vida e porque a vida não seja o Espirito, eu sofro por causa do Espirito-orgão, do Espirito-tradução, ou do Espirito-intimidação-das-coisas para fazê-las entrar no Espirito.
Este livro, eu o ponho em suspensão na vida, eu quero que ele seja mordido pelas coisas exteriores e, em primeiro lugar, por todos os sobressaltos em cisalhas, todas as cintilações de meu eu por vir.
Todas as páginas se espalham como pedras de gelo no espirito. Que me desculpem minha liberdade absoluta. Eu me recuso a fazer diferenças entre qualquer dos minutos de mim mesmo. Eu não reconheço plano em meu espirito.
É preciso acabar com o Espirito assim como com a literatura. Eu digo que o Espirito e a vida comunicam em todos os graus. Eu gostaria de fazer um Livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e que os levasse lá onde jamais consentiriam em ir, uma porta simplesmente aberta para a realidade.
E isto não é mais prefacio a um livro do que todos os poemas, por exemplo, que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.
Isto não é mais que uma pedra de gelo, também mal engolida.

(Antonin Artaud)


"Para gerenciar uma nuvem é preciso um sistema de monitoramento que controla o seu funcionamento, e este sistema é, por definição, escondido dos usuários. Quanto menor e mais personalizado o item (smartphone) que eu tenho em mãos, e mais fácil de usar, mais sua configuração tem de confiar no trabalho que está sendo feito em outro lugar, num vasto circuito de máquinas que coordena a experiência do usuário. Quanto mais a nossa experiência é espontânea e transparente, mais ela é regulada pela rede invisível controlada por agências estatais e grandes empresas privadas, que seguem suas agendas secretas."

Slavoj Žižek no Blog da Boitempo.

domingo, 8 de setembro de 2013

Sete de Setembro em Curitiba


Possibilidades

"Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade de que a existência tem sua própria razão de ser."

 Wislawa Szymborska

sábado, 24 de agosto de 2013


...o autor escreve em sua liberdade ou por ser destinado a tal função? André Breton conjugava, em seu acaso objetivo, a relação entre a liberdade e o destino. Tal concepção remete, talvez, à tarefa do poeta/escritor, que escreve por ser destinado, mas também pelo desejo de que as palavras alcem voo. Talvez, o poeta/o escritor não tenha muita escolha em escrever ou não: ele escreve por uma pulsão. A escritura então estaria além do destino, além da liberdade, mas numa recorrência da vida, à qual todos nós aceitamos nos unir.

Eclair Antonio Almeida Filho | Roberta Tostes Daniel

Tu és pressionado a escrever,
como se tivesse em atraso com a vida,
a vida inexprimível, a única no fim das contas à qual
aceitas te unir.

René Char

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ASISTIMOS A UNA ÉPOCA EN QUE LA HUMANIDAD SE ESTÁ VOLVIENDO SALVAJE"

Hemeroteca. Entrevista a Jacques Vergès realizada en marzo de 2006, tras su fallecimiento

Jacques Vergès se ha apagado para siempre. Clarividente e inflexible, comprometido e indiferente a la vez, sensible al sufrimiento de las personas débiles y vencidas, Jacques Vergès fue durante toda su vida el blanco de aquellos que se dedican a arrojar el oprobio sobre cualquier testigo lúcido y rebelde. Nunca flaqueó. Rendimos aquí homenaje a este personaje fuera de lo común volviendo a difundir la entrevista que nos concedió en marzo de 2006 durante un encuentro que nos resultó inolvidable. 

"El Tribunal Penal Internacional para la antigua Yugoslavia es una institución ilegal"
Creemos que son importantes voces como la de Jacques Vergés en el momento en que tantas personas tratan de entender el silencio de sus autoridades ante las víctimas que en Iraq, Afganistán, Palestina y también en casa se dejan sin protección. 

Silvia Cattori : Usted conocía a Milosevic. ¿Qué sintió al conocer su muerte? 
Jacques Vergès: Soy uno de sus abogados. ¿Qué sentí? Sentí indignación porque a todas luces es una muerte que se ha querido. Desde este punto de vista es un asesinato. Milosevic estaba muy enfermo. Le impusieron unas sesiones agotadoras que terminaban después de la hora de su paseo cotidiano, que consistía en recorrer los cien pasos del patio de la cárcel. Estuvo muy enfermo a principios de este año y pidió que lo atendieran en Rusia. Ya no estamos en los tiempos de la Guerra Fría. Los rusos habían prometido mantenerlo en manos de la justicia, no permitirle escapar. El Tribunal Penal Internacional para la antigua Yugoslavia (TPIY) denegó que se le tratara en Rusia. Se le denegó a este hombre que necesitaba un tratamiento urgente, con el objetivo de que muriera.
Hoy la autopsia afirma que murió de infarto, lo que es una muerte natural. No es cierto. Se puede provocar la muerte natural. Durante la guerra de Argelia las nietas de un hombre al que acabaran de detener me nombraron su abogado. Les dije que iba a intervenir ante las autoridades para que no lo torturaran y ellas me contestaron: "Pero, no se trata de torturas, se trata de su vida, es diabético y necesita una inyección diaria de insulina, sin la cual muere". Murió de muerte natural.
En el caso de Milosevic, aunque no se encuentren restos de veneno, ha muerto de muerte natural, pero una muerte natural provocada. Me preguntan: pero ¿por qué? Porque, en primer lugar, era un hombre valiente, que se defendía solo ante el tribunal y querían quebrarlo, aún a riesgo de matarlo. Pues buen, lo han matado. Por eso afirmo que este tribunal es un tribunal de asesinos. 

Silvia Cattori: Por consiguiente, ¿ha cometido un fallo Carla del Ponte al no conceder al acusado el respeto al que tiene derecho todo preso? 
Jacques Vergès: Sí, se le ha negado a Milosevic el respeto al que tiene derecho todo preso. En Francia tenemos un exministro, Maurice Papon, que fue condenado por crímenes contra la humanidad. Se sintió enfermo. Los médicos lo constataron y se le puso en libertad. Se le trató humanamente. 

Silvia Cattori: ¿No siente usted consideración alguna por el Tribunal Penal Internacional para la antigua Yugoslavia? 
Jacques Vergès: Este Tribunal Penal Internacional es una institución ilegal que ha sido establecida por el Consejo de Seguridad, el cual no tiene ningún poder judicial. No se puede delegar un poder que no se tiene. La Asamblea era la única que podía decidirlo.
En segundo lugar, este tribunal carece de ley. En Francia, cuando una persona acude ante un tribunal, existe un código de procedimiento que se aplica. En el caso del TPIY, no hay código de procedimiento. El procedimiento del TPIY cambia según sus necesidades. En lo que concierne a Milosevic, se ha cambiado el procedimiento veintidós veces.
En tercer lugar, este tribunal se ocupa de hechos anteriores a su creación, lo que es ilegal. Eso se llama "retroactividad de la ley penal", procedimiento que es perfectamente contrario a todas las reglas democráticas. Este tribunal admite que unos testigos puedan dar testimonio ocultos. ¡¿Cómo es posible que haya un debate?!
Este tribunal afirma que en algunos casos el rumor público bastará como prueba. Ahora bien, sabemos hasta qué punto el rumor público está repleto de errores y de manipulaciones. Finalmente, como colofón a todo esto, el tribunal acepta donaciones: el 14 % del presupuesto del TPIY proviene de donaciones. Por ejemplo, George Soros, que es un adversario de Serbia, contribuye al pago del salario de los jueces. ¿Qué diría usted si tuviera que comparecer ante un tribunal pagado por una cadena hotelera o por una cadena de tiendas de alimentación? 

Silvia Cattori: ¿Acaso ya no existe la legalidad internacional? Por consiguiente, ¿qué confianza pueden tener todavía en la justicia las personas débiles? 
Jacques Vergès: ¿Legalidad internacional? ¿Ha oído hablar de Guantánamo? ¡¿Qué legalidad?!? Aún se ha sabido algo que es todavía peor que Guantánamo: que unos servicios secretos estadounidenses tienen en Europa prisiones a las que se envía a personas para que sean torturadas en ellas sin que se sepa. Se han barajado nombres como Polonia y Rumanía. 

Silvia Cattori: ¿Cómo es posible que Francia o Europa no den un puñetazo en la mesa ante la gravedad de las violaciones a las que asiste el mundo? 
Jacques Vergès: Lo que me gustaría en este sentido es que países como Francia se opusieran pero, por desgracia, no es el caso. Creo que el que [Francia] se haya opuesto a la guerra contra Iraq ya es gran cosa, es algo inesperado.
Estados Unidos mantiene presas a personas en Guantánamo fuera de toda legalidad. Estos presos ni siquiera dependen de la ley estadounidense. También se ha visto en la cárcel de Abu Graib como la tortura ya no era un instrumento del interrogatorio, sino un instrumento de humillación de la dignidad humana. En Argelia los franceses afirmaban que cuando torturaban, lo que era innoble, era para obtener informaciones. Pero cuando, como hemos visto, una joven estadounidense se ríe arrastrando de una cadena a un hombre que agoniza, esto no se hace para buscar documentos, es para asimilar a ese hombre a una bestia. Asistimos ahí a una época en la que la humanidad se está volviendo salvaje. 

Silvia Cattori: Al no condenar a Estados Unidos y Gran Bretaña durante los años en los que, violando la ley, estos países bombardearon en Iraq la zona llamada "de exclusión aérea" [No fly zone], ¿no se hizo cómplice la ONU de los preparativos de esta guerra? 
Jacques Vergès: Por supuesto que sí. Ninguna instancia condenó verdaderamente los malos tratos a estos presos. Sin embargo, la ONU no votó esta guerra. Los estadounidenses emprendieron esta guerra con una mentira. Todo el mundo sabía perfectamente que Saddam Hussein no tenía armas de destrucción masiva. Y, a pesar de ello, la guerra se llevó a cabo con este falso pretexto. Y nadie condena a los agresores.

Por otra parte, hubo un embargo [en Iraq] entre ambas guerras, un embargo que provocó la muerte de quinientos mil niños y niñas. Es la OMS quien lo afirma. Cuando se le preguntó a [la entonces secretaria de Estado estadounidense] Madaleine Albright qué opinaba de ello, respondió: "Es el precio de la democracia". ¿Acaso un régimen, sea el que sea, merece el sacrificio de quinientos mil niños y niñas? Donde se encuentra a los criminales contra la humanidad es entre las grandes potencias occidentales 

Silvia Cattori: La gente recuerda la época en la que los medios de comunicación le calificaron de "nazi", de "terrorista" por haber defendido a Barbie y Carlos. ¿No le molesta cuando le arrastran por el fango? 
Jacques Vergès: No. 

Silvia Cattori: Y cuando le tratan de "antisemita"; ¿le deja indiferente? 
Jacques Vergès: Mire, desde el momento en que no es verdad, me deja indiferente. 

Silvia Cattori: ¡Pero el rumor puede destruir carreras! 
Jacques Vergès: Vivo en un país que se llama Francia. Existe una tradición en Francia: el francés tiene tendencia a sentirse solo contra la clase dominante. Está a favor de d'Artagnan, de Mandrin. 
Un día salía de la sala de lo criminal de Aix. Atravesé el mercadillo que se forma en la inmediaciones del Palacio de Justicia. Un colega me dijo: "No me sorprende cuando la gente te reconoce, lo que me sorprende es la manera como te saludan: no saludan a un notable, saludan a un cómplice. Sigamos, pues, maestro". 

Silvia Cattori: Aparte de usted, hay muchas personas a las que se acusa de "antisemitismo", de ser "antijudías", que es un delito que ¡pesa más que la acusación de "racismo", de ser "antiárabe"! 
Jacques Vergès: Ahora no se me trata de antisemita. Mi alegato de defensa se editó y difundió en la televisión; se vio claro que yo no había mantenido un discurso "antisemita". Usted sabe cuál es el problema de los medios de comunicación: los medios aúllan con los lobos. Consideran que es su función. Durante el proceso a Barbie le dije a un periodista de la televisión: "El servicio que usted podría hacerme es el de publicar todos los días mi foto en su telediario y decir «este hombre es un cabrón». Los franceses no son tan brutos y descifrarán su mensaje, y se dirán: si se le insulta tanto es que es un buen tipo". 

Silvia Cattori: ¿Cree usted verdaderamente que las personas sometidas al bombardeo mediático saben tener en cuenta todos los factores? 
Jacques Vergès: A la larga, sí. 

Silvia Cattori: Usted ha conocido a personalidades como Tarek Aziz, al que muchas personas respetaban. Hoy se les trata como a perros, se les tortura. ¿Cómo vive usted, en su fuero interno, esta violencia de los Estados hecha en nombre "de los derechos humanos y de la democracia", y que ya ha causado tantas víctimas y tanto sufrimiento? 

Jacques Vergès: Como la gran impostura. Vivimos un periodo de salvajismo y de impostura. Saddam Hussein era un aliado de Occidente y después un día se pensó que era demasiado fuerte y se decidió abatirlo. Y a continuación, se le abatió a base de mentiras. Hoy se reconoce eso.
Y también se nos dice que se está luchando por los derechos humanos, pero nunca se ha humillado y pisoteado tanto a las personas como en las cárceles estadounidenses, en Iraq y en Guantánamo. Se fue a Afganistán para vencer a los talibán y el resultado es que la producción de opio se ha multiplicado por diez.
Se amenaza a Irán afirmando que Irán no tiene derecho a tener la bomba atómica. Ni siquiera debe haber la sospecha de que tenga medios de fabricar la bomba nuclear, aunque Irán tiene dos vecinos que ya la tienen: Pakistán por una parte e Israel por otra. ¿Por qué estos dos países tiene derecho a tener la bomba e Irán no? No busque respuestas. Son decisiones de los poderosos del momento. 

Silvia Cattori: ¿Imagina usted que se pueda modificar el curso de las cosas? 
Jacques Vergès: En 1941 en Europa se podía prever que las cosas cambiarían si Hitler hacía una locura. La hizo: atacó la Unión Soviética y fue derrotado.
Creo que todo esto va a terminar por medio de una locura y, desgraciadamente, de una gran masacre. En ese momento se pondrá fin a este estado de hipnosis en el que vive el mundo. Por ejemplo, se sabe muy bien que si Estados Unidos ataca Irán asistiremos a una confrontación extremadamente grave en todo Oriente Próximo, que incluso tendrá consecuencias para los países occidentales, con el precio del petróleo. ¡Por eso dudan tanto! 

Silvia Cattori: Por consiguiente, las llamadas "guerras preventivas", defendidas incluso por personalidades que se consideran humanitarias, como Pascal Bruckner y Bernard Kouchner, por ejemplo, ¡no llevan al mejor de los mundos! 
Jacques Vergès: No. No hay más que ver actualmente esta supuesta "guerra contra el terrorismo". ¿Qué es el "terrorismo"? No es una entidad. Yo hice la guerra en la armada francesa, era artillero. La artillería no era una entidad. No había una artillería contra una infantería. Había una artillería alemana y una artillería francesa.
Los "terroristas" son diferentes entre sí. Los miembros del IRA y los de Al Qaeda no son los mismos, ni los de ETA y los corsos son los mismos. Pero en nombre del "terrorismo" se justifica todo. 

Silvia Cattori: ¿No existe un derecho internacional para los pueblos bajo ocupación o agredidos, para que se defiendan? 
Jacques Vergès: Eso se llama resistencia. En Francia la palabra terrorismo la utilizaron por primera vez los alemanes, durante la ocupación. 

Silvia Cattori: Entonces, ¿cómo explicar que, con el acuerdo de todos los partidos, desde la extrema izquierda a la derecha, el Parlamento Europeo haya inscrito al movimiento Hamas en la lista de "organizaciones terroristas" a petición de Israel y de Estados Unidos? 
Jacques Vergès: Porque, en mi opinión, se vive en un equívoco. Durante el juicio contra Barbie yo decía que cuando se examinan los crímenes de la Alemania nazi, "antes de juzgar, hay que tratar de barrer ante la puerta de casa". La Gestapo cometió menos crímenes en Francia que los que cometió Francia en Argelia, o que los que cometieron los rusos en Afganistán o los estadounidenses en Vietnam. Y se me responde: "No, nosotros somos una democracia".

Pero una democracia es capaz de crímenes. Existe este equívoco: ¡la democracia no sería capaz de crímenes! Al contrario. Cerca de Nueva Zelanda tiene usted una isla que es mayor que Suiza: Tasmania; ya no existe Tasmania. La última tasmana murió en 1977, destruida por los colonos ingleses. Tomemos el caso de los pieles rojas, de los incas, de los aztecas, ¡todos fueron destruidos!; eran civilizaciones florecientes.
Por consiguiente, las democracias son tan capaces de crímenes como las dictaduras. Con circunstancias agravantes en el caso de las democracias: la opinión pública es conocedora. Se me dice que existe la libertad de prensa. Entonces, esto agrava la responsabilidad de la opinión. 

Silvia Cattori: ¡Yo no creo que la opinión pública sea conocedora! 
Jacques Vergès: Durante la guerra de Argelia denunciamos la tortura. En el caso de Abu Graib, todo el mundo sabe lo que pasa, aparecieron las fotos en las televisiones. 

Silvia Cattori: La opinión pública estuvo precondicionada: ¿acaso no se le presentó la guerra como el "mal menor"? 
Jacques Vergès: Pero la historia del "mal menor" no excusa esta inhumanidad gratuita y la opinión pública lo sabe, y la opinión pública no reaccionó. 

Silvia Cattori: ¿Se imaginaba usted hace quince años que las cosas serían así? 
Jacques Vergès: Sí, a partir de la caída del muro y de la caída de la URSS, cuando Estados Unidos se encontró con que era el único amo y a la cabeza, unos dirigentes incultos. 
No es sorprendente que los dirigentes alemanes y franceses hayan estado en contra de la guerra en Iraq. Francia y Alemania no son islas. Chirac tiene una experiencia del mundo árabe. Fue oficial en Argelia, sabe qué es una guerra de liberación.
Los estadounidenses no lo saben. Estados Unidos es una isla. Puede que lo sepan la capa culta de la costa oeste y este, pero el Estados Unidos profundo, desde Nebraska a Arkansas, lo ignora. En Belgrado les decía a unos serbios: "¿cómo quieren explicar a un tipo de Arkansas que Kosovo es la cuna de su nación? Ellos no tienen naciones. No tienen historia". 

Silvia Cattori: ¿Quiere usted decir que han vuelto los bárbaros? 
Jacques Vergès: Si, desde luego. Creo que la humanidad no ha vivido una época tan salvaje como esta. En Europa había ciertas reglas; hoy ya no se respetan. 

Silvia Cattori: ¿Quién puede hacer de contrapeso de la superpotencia estadounidense? 
Jacques Vergès: Desde el punto de vista militar, nadie. Pero desde el punto de vista económico, muchos países pueden. Hoy la guerra ya no es solo militar, está fuera de las normas. Basta con que dos torres se desmoronen en Nueva York, con un atentado de una organización que no tiene territorio, para que las compañías aéreas estadounidenses se declaren en quiebra. Basta con que haya unas maniobras chinas en el estrecho de Formosa para que se hunda la Bolsa de Taipei. 
Al final, incluso estando sometidos, la televisión y los periódicos tendrán que decir ciertas cosas. La opinión pública es muy lenta en cambiar de punto de vista, pero se despertará. Un día cambiará de punto de vista. 

Silvia Cattori: ¿Quiénes son hoy los propietarios de las democracias occidentales? ¿Quién manda realmente? ¿A quién pueden acudir todavía los pueblos oprimidos? 
Jacques Vergès: En nuestras democracias, son los directivos de las grandes empresas. El ejemplo es típico: cuando los fabricantes de galletas "LU" despiden a su personal, los huelguistas se dirigen a Lionel Jospin, que entonces era el primer ministro francés, y este les responde: "¿Qué puedo hacer?". Efectivamente, en el sistema actual no podía hacer nada. 

Silvia Cattori: Así pues, ¿la gente ya no puede cambiar nada? 
Jacques Vergès: Sí, pero para cambiar se necesitarán verdaderamente grandes conmociones. 

Silvia Cattori: Actualmente el relator Especial del Consejo de Europa, el fiscal suizo Dick Marti, encargado de aclarar la existencia de "prisiones volantes" de la CIA, lucha con los gobiernos reticentes a suministrarle información. ¿Cree usted que va a poder ir hasta el final de la investigación? 
Jacques Vergès: Si quiere puede lograrlo. Cuando uno se empeña la verdad acaba siempre por resplandecer: siempre hay testigos. Lo conseguirá a condición de que acepte estar aislado y ser insultado. Le deseo mucha suerte.

Silvia Cattori
www.silviacattori.net

Traducido del francés para Rebelión por Beatriz Morales Bastos.
Esta entrevista se publicó el 14 de marzo de 2006: 
http://www.silviacattori.net/article141.html

Fuente: 
http://www.silviacattori.net/article4705.html