quarta-feira, 16 de setembro de 2009
NA MONTANHA III
"O homem não vive sòmente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência, e que dá ideia de as criticar tão objectivamente quanto o bom do Hans Castorp – até uma pessoa assim pode fácilmente sentir o seu bem estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades: mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço – então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades, e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável."
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
"O homem não vive sòmente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência, e que dá ideia de as criticar tão objectivamente quanto o bom do Hans Castorp – até uma pessoa assim pode fácilmente sentir o seu bem estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar numerosos objectivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas actividades: mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz consciente ou inconscientemente, mas em todo caso se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda a actividade e de todo o esforço – então tornar-se-á inevitável, precisamente entre as naturezas mais rectas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afectar a própria parte física e orgânica do indivíduo. Para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapassa a medida do que é usual fazer-se sem que a época saiba dar uma resposta satisfatória à pergunta «Para quê?», é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades, e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente louvável."
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
Sentado debaixo do grande terebinto XVI
"Apre! – exclamou o guia, sempre montado, arrebitando o queixoi que lembrava um fruto redondo r olhando por cima do ombro aquele que caminhava a seu lado. – Não – acrescentou depois de uma pausa. – Diz o que quiseres. Esta geração é repelente, bebe a injustiça como água e há muito que merece o dilúvio, mas sem a barca da salvação.
[José] - Quanto à injustiça, concordo. Mas repara que neste mundo tudo existe aos pares. Há sempre dois objectos opostos, para se poderem distinguir, e se ao pé de uma coisa não existisse a contrária, nem uma nem outra existiriam. Sem vida não haveria morte. Sem riqueza não haveria pobreza. E se a estupidez desaparecesse, de que serviria falar de inteligência? Dá-se o mesmo com a pureza e a impureza, é claro. Diz o animal impuro ao puro: «Agradece-me, porque, se não fosse eu, como saberias que és puro e quem te chamaria assim?» E o perverso diz ao bondoso: «Cai aos meus pés, porque sem mim, onde estaria a tua superioridade?
- É assim mesmo, tal qual – conveio o desconhecido. – Por isso é que eu desaprovo este mundo de dualidade e não compreendo a vantagem de conservar uma estirpe à qual só se pode atribuir pureza relativamente e por comparação. Mas tem que se pensar e tornar a pensar, contìnuamente, numa coisa e noutra, e sabe-se lá que mais se nos depara, ligado a um mínimo de futuro, como esta agora de eu ter que ter mostrar o caminho para que chegues ao teu fim. Não, é enfadonho de mais!"
Thomas Mann, "O Jovem José".
"Apre! – exclamou o guia, sempre montado, arrebitando o queixoi que lembrava um fruto redondo r olhando por cima do ombro aquele que caminhava a seu lado. – Não – acrescentou depois de uma pausa. – Diz o que quiseres. Esta geração é repelente, bebe a injustiça como água e há muito que merece o dilúvio, mas sem a barca da salvação.
[José] - Quanto à injustiça, concordo. Mas repara que neste mundo tudo existe aos pares. Há sempre dois objectos opostos, para se poderem distinguir, e se ao pé de uma coisa não existisse a contrária, nem uma nem outra existiriam. Sem vida não haveria morte. Sem riqueza não haveria pobreza. E se a estupidez desaparecesse, de que serviria falar de inteligência? Dá-se o mesmo com a pureza e a impureza, é claro. Diz o animal impuro ao puro: «Agradece-me, porque, se não fosse eu, como saberias que és puro e quem te chamaria assim?» E o perverso diz ao bondoso: «Cai aos meus pés, porque sem mim, onde estaria a tua superioridade?
- É assim mesmo, tal qual – conveio o desconhecido. – Por isso é que eu desaprovo este mundo de dualidade e não compreendo a vantagem de conservar uma estirpe à qual só se pode atribuir pureza relativamente e por comparação. Mas tem que se pensar e tornar a pensar, contìnuamente, numa coisa e noutra, e sabe-se lá que mais se nos depara, ligado a um mínimo de futuro, como esta agora de eu ter que ter mostrar o caminho para que chegues ao teu fim. Não, é enfadonho de mais!"
Thomas Mann, "O Jovem José".
POESIA
Epopeia de Guilgamesh (c. século XXV a.C.) – Suméria
Quando os deuses criaram Guilgamesh
Shamash o Sol no zénite dotou-o de beleza incomparável
Adad, a tempestade, deu-lhe força invencível.
O toque do seu corpo não tem igual
A sua altura chega a onze côvados
O largo do seu peito são nove palmos
O longo do seu membro é três vezes mais nobre.
Nos terraços de Uruk, a das altas muralhas, o seu passo é soberbo
O embate das suas armas não encontra inimigo
Mas, ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem
Este Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai
Não respeita nenhuma donzela, seja filha de herói ou noiva prometida
Diante destas queixas intermináveis
Os deuses, os grandes deuses do céu
Falaram contra o senhor Guilgamesh
Criámos em Guilgamesh um touro desenfreado
O embate das suas armas não tem inimigo
Ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem
Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai
Ele, o pastor do seu povo, está a massacrá-lo
O Rei não respeita nenhuma donzela
Seja filha de herói ou noiva prometida.
Agora o grande Anu chama Aruru,
Senhora da Fertilidade:
Tu, Aruru, deixaste gerar Guilgamesh
Cria agora um que lhe seja igual no combate
Que lutem um com o outro e deixem Uruk em paz
Ouvindo isto Aruru invocou um soldado de Anu
Mergulhou as mãos na terra, colheu argila, escarrou nela e lançou aos desertos.
Assim nasceu Enki-Du, criatura do silêncio, parcela do Deus Ninurta,
O corpo rugoso o cabelo comprido luxurioso como o da mulher.
Um abundante velo espesso como o trigo
Era o seu pêlo, como o do Deus Samukan
E não conhecia cidades nem homens, nem terra cultivada
Com o onagro comia a erva da estepe
Com a gazela bebia a àgua da mina
Com a horda habitava o deserto
Esta era a sua única alegria.
(trad. Mário Cesariny).
in "ROSA DO MUNDO 2001 POEMAS PARA O FUTURO", Lisboa, Assírio & Alvim, 2001.
Epopeia de Guilgamesh (c. século XXV a.C.) – Suméria
Quando os deuses criaram Guilgamesh
Shamash o Sol no zénite dotou-o de beleza incomparável
Adad, a tempestade, deu-lhe força invencível.
O toque do seu corpo não tem igual
A sua altura chega a onze côvados
O largo do seu peito são nove palmos
O longo do seu membro é três vezes mais nobre.
Nos terraços de Uruk, a das altas muralhas, o seu passo é soberbo
O embate das suas armas não encontra inimigo
Mas, ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem
Este Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai
Não respeita nenhuma donzela, seja filha de herói ou noiva prometida
Diante destas queixas intermináveis
Os deuses, os grandes deuses do céu
Falaram contra o senhor Guilgamesh
Criámos em Guilgamesh um touro desenfreado
O embate das suas armas não tem inimigo
Ao som do seu tambor, fechados em suas casas, os homens não comparecem
Guilgamesh não deixa nenhum filho ao seu pai
Ele, o pastor do seu povo, está a massacrá-lo
O Rei não respeita nenhuma donzela
Seja filha de herói ou noiva prometida.
Agora o grande Anu chama Aruru,
Senhora da Fertilidade:
Tu, Aruru, deixaste gerar Guilgamesh
Cria agora um que lhe seja igual no combate
Que lutem um com o outro e deixem Uruk em paz
Ouvindo isto Aruru invocou um soldado de Anu
Mergulhou as mãos na terra, colheu argila, escarrou nela e lançou aos desertos.
Assim nasceu Enki-Du, criatura do silêncio, parcela do Deus Ninurta,
O corpo rugoso o cabelo comprido luxurioso como o da mulher.
Um abundante velo espesso como o trigo
Era o seu pêlo, como o do Deus Samukan
E não conhecia cidades nem homens, nem terra cultivada
Com o onagro comia a erva da estepe
Com a gazela bebia a àgua da mina
Com a horda habitava o deserto
Esta era a sua única alegria.
(trad. Mário Cesariny).
in "ROSA DO MUNDO 2001 POEMAS PARA O FUTURO", Lisboa, Assírio & Alvim, 2001.
Na montanha IV
"Receio que exista no senhor uma tendência que ameaça tornar-se um traço do seu carácter, se não for combatida. Por isso sinto-me na obrigação de corrigi-lo. O senhor opinou que a doença reunida à estupdez era a coisa mais triste que havia no mundo. Estou de acordo. Também eu prefiro um doente espirituoso a um imbecil tuberculoso, porém não posso deixar de protestar quando o senhor se põe a considerar a enfermidade num plano igual ao da tolice como uma espécie de falta de estilo, um acto de mau gosto praticado pela Natureza, ou um «dilema para o sentimento humano», conforme lhe aprouve exprimir-se , e quando o senhor julga a doença tão nobre e – como dizia? – tão digna de respeito que não pode harmonizar-se com a estupidez. Tal foi a expressão de que se serviu. Pois bem, não! A doença não é nobre, de modo algum, nem digna de respeito. Essa concepção é de si mesma mórbida, só conduz à doença. Talvez consiga despertar o seu horror de modo mais eficaz, dizendo-lhe qie ele é velha e feia. Tem a sua origem em épocas cheias de superstições, nas quais a ideia do humano estava degenerada e privada de toda a dignidade; a épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar como coisas suspeitas e diabólicas, ao passo, que a enfermidade equivalia aum passaporte para o Céu. Mas, a Razão e o Século das Luzes dissiparam estas sombras que pesavam sobre a alma da Humanidade – não completamente: a luta dura ainda hoje. Esta luta, meu caro senhor, chama-se Trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da Humanidade. E retemperadas, dia a dia, por essa luta, estas forças acabarão por libertar definitivamente o Homem e por conduzi-los pelos caminhos da Civilização e do Progresso, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais doce e mais pura.
«Meu Deus! – pensou Hans Castorp, estupefacto e confuso. – Mas isto soa como uma ária de ópera! Como é que eu provoquei isto? Parece-me, aliás, um pouco árido. Por que fala o homem constantemente do trabalho? Isso parece-me também um pouco deslocado aqui». E disse:
- Muito bem, sr. Settembrini. É notável como o senhor sabe falar. Ninguém poderia exprimi-lo mais… de maneira mais plástica, quero eu dizer…"
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
"Receio que exista no senhor uma tendência que ameaça tornar-se um traço do seu carácter, se não for combatida. Por isso sinto-me na obrigação de corrigi-lo. O senhor opinou que a doença reunida à estupdez era a coisa mais triste que havia no mundo. Estou de acordo. Também eu prefiro um doente espirituoso a um imbecil tuberculoso, porém não posso deixar de protestar quando o senhor se põe a considerar a enfermidade num plano igual ao da tolice como uma espécie de falta de estilo, um acto de mau gosto praticado pela Natureza, ou um «dilema para o sentimento humano», conforme lhe aprouve exprimir-se , e quando o senhor julga a doença tão nobre e – como dizia? – tão digna de respeito que não pode harmonizar-se com a estupidez. Tal foi a expressão de que se serviu. Pois bem, não! A doença não é nobre, de modo algum, nem digna de respeito. Essa concepção é de si mesma mórbida, só conduz à doença. Talvez consiga despertar o seu horror de modo mais eficaz, dizendo-lhe qie ele é velha e feia. Tem a sua origem em épocas cheias de superstições, nas quais a ideia do humano estava degenerada e privada de toda a dignidade; a épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar como coisas suspeitas e diabólicas, ao passo, que a enfermidade equivalia aum passaporte para o Céu. Mas, a Razão e o Século das Luzes dissiparam estas sombras que pesavam sobre a alma da Humanidade – não completamente: a luta dura ainda hoje. Esta luta, meu caro senhor, chama-se Trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da Humanidade. E retemperadas, dia a dia, por essa luta, estas forças acabarão por libertar definitivamente o Homem e por conduzi-los pelos caminhos da Civilização e do Progresso, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais doce e mais pura.
«Meu Deus! – pensou Hans Castorp, estupefacto e confuso. – Mas isto soa como uma ária de ópera! Como é que eu provoquei isto? Parece-me, aliás, um pouco árido. Por que fala o homem constantemente do trabalho? Isso parece-me também um pouco deslocado aqui». E disse:
- Muito bem, sr. Settembrini. É notável como o senhor sabe falar. Ninguém poderia exprimi-lo mais… de maneira mais plástica, quero eu dizer…"
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
Sentado debaixo do grande terebinto XVII
"José reflectia: «Mas porque me guia ele, este espirra-canivetes, se lhe custa tanto? Não deixa de ser estúpido, armar em pessoa amável e depois amuar. Decididamente, o seu objectivo é aproveitar a minha Hulda. [mula] Bem, ele agora já podia descer. Tínhamos combinado revezar-nos. Fala como homem» - pensava José sorrindo para consigo do costume que os homens têm de dizer mal da espécie humana e julgar o seu semelhante, como se constituíssem uma excepção. Por isso objectou:
- Achas mal a espécie humana, mas tempo houve em que, até aos filhos de Deus, o homem não pareceu de tão má matéria, visto que lhe entregaram as filhas e daí nasceram gigantes e poderosos.
O guia, com a sua maneira afectada, volveu a cabeça por cima do ombro oposto a José.
- Que de historietas conheces! – comentou com ar zombeteiro. – Para a tua idade, não há dúvida, estás em dia com os acontecimentos. Na minha opinião, desde já te digo, essa história não tem pés nem cabeça. Mas, admitindo que seja verdadeira, vou dizer-te a razão por que os filhos da Luz assim procederam, porque procuraram as filhas de Caim. Foi por desprezo, sim, por um grande desprezo. Sabes até que ponto chegara a corrupção das filhas de Caim? Andavam com as partes pudendas à mostra, e homem e mulher eram como animais. A libertinagem tinha ultrapassado todos os limites, não sendo possível ver-se aquilo sem ficar escandalizado. Não sei se estás a compreender. Faziam coisas incríveis. Chegavam a ir nuas ao mercado. Se não soubessem o que é o pudor, enfim… não dariam tanto nas vistas aos filhos da Luz. Mas sabiam, e Deus até as fizera muito púdicas. A sua lascívia consistia precisamente em calcar aos pés o pudor. Não era de perder a paciência? O homem fornicava pùblicamente, pelos caminhos, com a mãe, com a filha, com a mulher do irmão, não tendo, em suma, outra coisa em mente senão o gozo abominável do pudor ofendido. Não devia tudo isto causar horror aos filhos de Deus? Procederam assim por desprezo, percebes? Tinham perdido todo o respeito por aquele género humano que eles deviam estimar em atenção a um empenho superior. Acharam que o homem fora criado apanas para a lascívia, e o desprezo tomou neles um carácter fornicador. Se não entendes estas coisas, não passas de um vitelo."
Thomas Mann, "O Jovem José".
"José reflectia: «Mas porque me guia ele, este espirra-canivetes, se lhe custa tanto? Não deixa de ser estúpido, armar em pessoa amável e depois amuar. Decididamente, o seu objectivo é aproveitar a minha Hulda. [mula] Bem, ele agora já podia descer. Tínhamos combinado revezar-nos. Fala como homem» - pensava José sorrindo para consigo do costume que os homens têm de dizer mal da espécie humana e julgar o seu semelhante, como se constituíssem uma excepção. Por isso objectou:
- Achas mal a espécie humana, mas tempo houve em que, até aos filhos de Deus, o homem não pareceu de tão má matéria, visto que lhe entregaram as filhas e daí nasceram gigantes e poderosos.
O guia, com a sua maneira afectada, volveu a cabeça por cima do ombro oposto a José.
- Que de historietas conheces! – comentou com ar zombeteiro. – Para a tua idade, não há dúvida, estás em dia com os acontecimentos. Na minha opinião, desde já te digo, essa história não tem pés nem cabeça. Mas, admitindo que seja verdadeira, vou dizer-te a razão por que os filhos da Luz assim procederam, porque procuraram as filhas de Caim. Foi por desprezo, sim, por um grande desprezo. Sabes até que ponto chegara a corrupção das filhas de Caim? Andavam com as partes pudendas à mostra, e homem e mulher eram como animais. A libertinagem tinha ultrapassado todos os limites, não sendo possível ver-se aquilo sem ficar escandalizado. Não sei se estás a compreender. Faziam coisas incríveis. Chegavam a ir nuas ao mercado. Se não soubessem o que é o pudor, enfim… não dariam tanto nas vistas aos filhos da Luz. Mas sabiam, e Deus até as fizera muito púdicas. A sua lascívia consistia precisamente em calcar aos pés o pudor. Não era de perder a paciência? O homem fornicava pùblicamente, pelos caminhos, com a mãe, com a filha, com a mulher do irmão, não tendo, em suma, outra coisa em mente senão o gozo abominável do pudor ofendido. Não devia tudo isto causar horror aos filhos de Deus? Procederam assim por desprezo, percebes? Tinham perdido todo o respeito por aquele género humano que eles deviam estimar em atenção a um empenho superior. Acharam que o homem fora criado apanas para a lascívia, e o desprezo tomou neles um carácter fornicador. Se não entendes estas coisas, não passas de um vitelo."
Thomas Mann, "O Jovem José".
Na montanha V
"Mas o dilema, senhor, a tragédia começa onde a Natureza foi bastante cruel para romper, ou para impedir desde o início, a harmonia da personalidade, associando uma alma nobre e disposta a viver a um corpo inapto para a vida. Conhece Leopardi, meu caro engenheiro? Ou o senhor, tenente? Um poeta infeliz da minha terra, um corcunda enfermiço, com uma alma primitivamente grande, mas diminuída sem cessar pela miséria do seu corpo e arrastada aos abismos da ironia, mas cujos lamentos dilaceram o coração. Ouçam isto!
E Settembrini começou a declamar em italiano, deixando as sílabas fundirem-se na língua, agitando a cabeça, e fechando os olhos, sem se preocupar com o facto dos seus companheiros não entenderem nenhuma palavra. Esforçava-se, visivelmente por saborear a sua memória, e a sua pronúncia, realçando-lhes o valor perante os seus auditores. Finalmente, disse:
- Mas os senhores não compreendem. Ouvem sem perceber o sentido doloroso dos versos. O doente – Leopardi – compenetrai-vos bem disto – foi privado sobretudo do amor das mulheres, e foi isso, antes de mais nada, o que o tornou incapaz de impedir a desagregação da sua alma. O esplendor da glória e da virtude empalidecia ante os seus olhos; a Natureza afigurava-se-lhe má – de resto é realmente maldosa, estúpida e má; neste ponto concordo com ele – e desesperou, é terrível dizê-lo, desesperou da Ciência e do Progresso. Aqui é que principia a tragédia, meu caro engenheiro. Aqui é que o senhor encontra o seu «dilema da alma humana», mas não nessa mulher, renuncio a sobrecarregar a minha memória com esse nome… Não me fale da «espiritualização» que pode resultar da doença, por amor de Deus, não faça isso! Uma alma sem corpo é tão desumana e atroz como um corpo sem alma. O primeiro é, aliás, uma rara excepção, e o segundo, é regra. Regra geral é o corpo que tem supremacia, açambarca toda a vida, toda a importância, e emancipa-se da maneira mais repugnante. Um homem que vive como doente é corpo e nada mais, e nisso está o anti-humano, o humilhante… Na maioria das vezes não vale mais do que um cadáver..."
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
"Mas o dilema, senhor, a tragédia começa onde a Natureza foi bastante cruel para romper, ou para impedir desde o início, a harmonia da personalidade, associando uma alma nobre e disposta a viver a um corpo inapto para a vida. Conhece Leopardi, meu caro engenheiro? Ou o senhor, tenente? Um poeta infeliz da minha terra, um corcunda enfermiço, com uma alma primitivamente grande, mas diminuída sem cessar pela miséria do seu corpo e arrastada aos abismos da ironia, mas cujos lamentos dilaceram o coração. Ouçam isto!
E Settembrini começou a declamar em italiano, deixando as sílabas fundirem-se na língua, agitando a cabeça, e fechando os olhos, sem se preocupar com o facto dos seus companheiros não entenderem nenhuma palavra. Esforçava-se, visivelmente por saborear a sua memória, e a sua pronúncia, realçando-lhes o valor perante os seus auditores. Finalmente, disse:
- Mas os senhores não compreendem. Ouvem sem perceber o sentido doloroso dos versos. O doente – Leopardi – compenetrai-vos bem disto – foi privado sobretudo do amor das mulheres, e foi isso, antes de mais nada, o que o tornou incapaz de impedir a desagregação da sua alma. O esplendor da glória e da virtude empalidecia ante os seus olhos; a Natureza afigurava-se-lhe má – de resto é realmente maldosa, estúpida e má; neste ponto concordo com ele – e desesperou, é terrível dizê-lo, desesperou da Ciência e do Progresso. Aqui é que principia a tragédia, meu caro engenheiro. Aqui é que o senhor encontra o seu «dilema da alma humana», mas não nessa mulher, renuncio a sobrecarregar a minha memória com esse nome… Não me fale da «espiritualização» que pode resultar da doença, por amor de Deus, não faça isso! Uma alma sem corpo é tão desumana e atroz como um corpo sem alma. O primeiro é, aliás, uma rara excepção, e o segundo, é regra. Regra geral é o corpo que tem supremacia, açambarca toda a vida, toda a importância, e emancipa-se da maneira mais repugnante. Um homem que vive como doente é corpo e nada mais, e nisso está o anti-humano, o humilhante… Na maioria das vezes não vale mais do que um cadáver..."
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
Sentado debaixo do grande terebinto XVIII
"- Posso, com certas reservas, compreendê-las - replicou José.
- Ora, onde foi que as aprendeste?
- Será que perguntas a Eliezer onde aprendeu as que te ensina? Sei desses casos tão bem como ele, e de outros mais. Quando se é mensageiro, guia, guarda, corre-se mundo e aprende-se muito. Posso assegurar-te que o dilúvio veio apenas porque o desprezo dos filhos do Céu pelo homem já se tornara lascivo. Foi o motivo decisivo, de contrário talvez nunca tivesse vindo. Mas posso acrescentar que da parte dos filhos da Luz já havia a intenção de exigir o dilúvio. Infelizmente, veio depois a arca da salvação, e o homem meteu-se lá dentro.
- Alegremo-nos com isso - disse José. - Se assim não fosse não iríamos aqui palrando a caminho de Dotan e não nos serviríamos da mula ora um, ora outro, conforme combinámos.
- Tens razão! - retorquiu o desconhecido, fazendo mais uma vez girar as pupilas dos olhos em redor e mirando de esguelha. - A conversar esqueço tudo. No entanto devo guiar-te e velar por ti, para que chegues aonde estão teus irmãos. Mas qual é mais importante, quem guarda ou quem é guardado? Embora me custe, devo dizer: quem é guardado. Por causa dele é que está aqui o guarda, e não o contrário. Portanto, agora apeio-me e tu montas na mula ficando eu a caminhar no pó, ao teu lado. (...)
De súbito, um solavanco e uma queda. O mal estava feito. Hulda introduzira uma das patas anteriores num buraco do terreno, curvara-se e não podia erguer-se. Partira-se-lhe um jarrete.
- Está quebrado! - disse o guia após um curto exame feito pelos dois. - Olha que belo presente! Eu não te dizia que há jarretes fracos de mais?
- Diante desta fatalidade, não devias alegrar-te de teres aparentemente razão. Neste momento, nem sequer devias pensar em tal. Quem conduzia eras tu e não reparaste que ela se metia desastradamente no buraco.
- Não reparei. E recriminas-me por isso? Aí está a verdadeira índole do homem, que sempre quer atribuir a culpa a alguém quando qualquer coisa corre mal, como se podia prever.
- É também verdadeira índole do homem desejar absolutamente prever a desgraça e depois procurar nela um triunfo inútil. Dá-te por muito feliz que eu te acuse apenas de falta de atenção. Poderia acusar-te de muito mais. Não devias ter-me aconselhado a viajar durante a noite. Não teríamos fatigado tanto a Hulda, e o inteligente animal já não teria posto o pé em falso."
Thomas Mann, "O jovem José".
"- Posso, com certas reservas, compreendê-las - replicou José.
- Ora, onde foi que as aprendeste?
- Será que perguntas a Eliezer onde aprendeu as que te ensina? Sei desses casos tão bem como ele, e de outros mais. Quando se é mensageiro, guia, guarda, corre-se mundo e aprende-se muito. Posso assegurar-te que o dilúvio veio apenas porque o desprezo dos filhos do Céu pelo homem já se tornara lascivo. Foi o motivo decisivo, de contrário talvez nunca tivesse vindo. Mas posso acrescentar que da parte dos filhos da Luz já havia a intenção de exigir o dilúvio. Infelizmente, veio depois a arca da salvação, e o homem meteu-se lá dentro.
- Alegremo-nos com isso - disse José. - Se assim não fosse não iríamos aqui palrando a caminho de Dotan e não nos serviríamos da mula ora um, ora outro, conforme combinámos.
- Tens razão! - retorquiu o desconhecido, fazendo mais uma vez girar as pupilas dos olhos em redor e mirando de esguelha. - A conversar esqueço tudo. No entanto devo guiar-te e velar por ti, para que chegues aonde estão teus irmãos. Mas qual é mais importante, quem guarda ou quem é guardado? Embora me custe, devo dizer: quem é guardado. Por causa dele é que está aqui o guarda, e não o contrário. Portanto, agora apeio-me e tu montas na mula ficando eu a caminhar no pó, ao teu lado. (...)
De súbito, um solavanco e uma queda. O mal estava feito. Hulda introduzira uma das patas anteriores num buraco do terreno, curvara-se e não podia erguer-se. Partira-se-lhe um jarrete.
- Está quebrado! - disse o guia após um curto exame feito pelos dois. - Olha que belo presente! Eu não te dizia que há jarretes fracos de mais?
- Diante desta fatalidade, não devias alegrar-te de teres aparentemente razão. Neste momento, nem sequer devias pensar em tal. Quem conduzia eras tu e não reparaste que ela se metia desastradamente no buraco.
- Não reparei. E recriminas-me por isso? Aí está a verdadeira índole do homem, que sempre quer atribuir a culpa a alguém quando qualquer coisa corre mal, como se podia prever.
- É também verdadeira índole do homem desejar absolutamente prever a desgraça e depois procurar nela um triunfo inútil. Dá-te por muito feliz que eu te acuse apenas de falta de atenção. Poderia acusar-te de muito mais. Não devias ter-me aconselhado a viajar durante a noite. Não teríamos fatigado tanto a Hulda, e o inteligente animal já não teria posto o pé em falso."
Thomas Mann, "O jovem José".
Na montanha VI
"Segundo os pontos de vista de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a Força e o Direito, a Tirania e a Liberdade, a Superstição e a Ciência, o princípio da conservação e o do movimento: o Progresso. Podia chamar-se a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da Luz, a do aperfeiçoamento guiado pela Razão. Pois a Humanidade arrastava incessantemente novos povos pelo seu caminho brilhante, ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões, até naqueles países que, na verdade, nunca tinham vivido o seu século XVIII nem seu ano de 1789. – Mas esse dia há-de chegar, dizia Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegar pelos pés das pombas, chegará sobre as asas das águias. Nascerá com a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da Razão, da Ciência e do Direito. Trará a santa alinaça da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal, o inimigo pessoal foi o avô Giuseppe, numa palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objectivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, o princípio do servilismo e da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar a desforra das suas façanhas do passado, e depois para preparar o caminho, o reino da justiça e da felicidade sobre a Terra."
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
"Segundo os pontos de vista de Settembrini, havia dois princípios que disputavam a posse do mundo: a Força e o Direito, a Tirania e a Liberdade, a Superstição e a Ciência, o princípio da conservação e o do movimento: o Progresso. Podia chamar-se a um o princípio asiático e ao outro o europeu, visto ser a Europa a terra da rebelião, da crítica e da actividade transformadora, ao passo que o continente oriental encarnava a imobilidade, o repouso. Não existia a menor dúvida quanto à questão de saber qual das forças terminaria por triunfar; só poderia ser a da Luz, a do aperfeiçoamento guiado pela Razão. Pois a Humanidade arrastava incessantemente novos povos pelo seu caminho brilhante, ganhava cada vez mais terreno na própria Europa e estava a ponto de penetrar na Ásia. No entanto, faltava ainda muito para que a sua vitória fosse completa, e grandes, magnânimos esforços eram exigidos dos homens de boa vontade, dos que haviam recebido a luz, até que raiasse o dia em que desmoronassem as monarquias e as religiões, até naqueles países que, na verdade, nunca tinham vivido o seu século XVIII nem seu ano de 1789. – Mas esse dia há-de chegar, dizia Settembrini, esboçando um fino sorriso sob a curva do bigode. Se não chegar pelos pés das pombas, chegará sobre as asas das águias. Nascerá com a aurora da confraternização geral dos povos sob o signo da Razão, da Ciência e do Direito. Trará a santa alinaça da democracia dos cidadãos, em esplêndido contraste com aquela três vezes infame aliança dos príncipes e dos gabinetes, cujo inimigo mortal, o inimigo pessoal foi o avô Giuseppe, numa palavra, a República Universal. Mas, para alcançar esse objectivo final era, antes de mais nada, necessário ferir o princípio asiático, o princípio do servilismo e da inércia, no centro e no nervo vital da sua resistência, que era Viena. Tratava-se de vencer, de aniquilar a Áustria, primeiro para tirar a desforra das suas façanhas do passado, e depois para preparar o caminho, o reino da justiça e da felicidade sobre a Terra."
Thomas Mann, "A Montanha Mágica".
MARGUERITE YOURCENAR
LES TRENTE - TROIS NOMS DE DIEU
[Os Trinta e três nomes de Deus]
Essai d'un journal sans date et sans pronom personne
[Tentativa de um diário sem datas e pronomes pessoais]
1. Mer au matin
[ Mar pela manhã ]
2. Bruit de la
source dans
les rochers
sur les parois de pierre
[ Murmúrio da
nascente nas
rochas
sobre os muros de pedra ]
3. Vent de mer
la nuit,
dans une île
[ Vento de mar
a noite,
sobre uma ilha ]
4. Abeille
[ Abelha ]
5. Vol triangulaire
des cygnes
[ Voo triangular
dos cisnes ]
6. Agneau nouveau-né
beau bélier
brebis
[ Cordeiro recém-nascido
formoso ariete
ovelha ]
7. Le doux muffle
de la vache
le muffle sauvage
du taureau
[ O terno focinho
da vaca
o focinho selvagem
do touro ]
8. Le muffle
patient du
bœuf
[ O focinho
paciente do
boi ]
9. Le feu rouge
dans l’âtre
[ O rubro fogo
na lareira ]
10. Le chameau
boiteaux
qui traversa la
grande ville encombrée
allant vers sa mort
[ O camelo
coxo
que atravessa a
grande cidade atravancada
a caminho da morte ]
11. L’herbe
L ‘odeur de l’herbe
[ A erva
O odor da erva ]
12. ‘ ‘’’’’’
13. La bonne terre
Le sable
et la cendre
[ A boa terra
A areia
e a cinza ]
14. Le héron qui a
attendu toute la
nuit, à demi gelé,
et qui trouve
à apaiser sa
faim à l’aurore
[ A garça real que
esperou toda a
noite, quase gelada,
e pela aurora encontra
com que aplacar sua
fome ]
15. Le petit poisson
qui agonise
dans le gosier du
héron
[ O pequeno peixe
que agoniza
nas goelas da
garça real ]
16. La main,
qui entre en
contact
avec les choses
[ A mão,
que entra em
contacto
com as coisas ]
17. La peau —
toute la surface
du corps
[ A pele —
toda a superfície
do corpo ]
18. Le regard
et ce qu’il regarde
[ O olhar
e o que ele vê ]
19. Les neuf portes
de la
perception
[ As nove portas
da
percepção ]
20. Le torse
humain
[ O torso
humano ]
21. Le son d’une
viole ou d’une
flûte indigène
[ O som de uma
viola ou de uma
flauta indígena ]
22. Une gorgée
de boisson
froide ou
chaude
[ Um trago
de bebida
fresca ou
cálida ]
23. Le pain
[ O pão ]
24. Les fleurs
qui sortent
de terre au
printemps
[ As flores
que despontam
da terra
na primavera ]
25. Sommeil
dans un lit
[ Sono
em um leito ]
26. Un aveugle
qui chante
et un enfant
infirme
[ Um cego
que canta
e uma criança
enferma ]
27. Cheval qui
court
en liberté
[ Cavalo que
corre
em liberdade ]
28. La femme —
aux — chiens
[ A mulher —
os — cães ]
29. Les chameaux
qui s’abreuvent
avec leurs petits
dans l’oued
difficile.
[ Os camelos
que se banham
com seus filhotes
no difícil oued ]
30. Soleil levant
sur un lac
encore à demi
gelé
[ Sol nascente
sobre um lago
ainda meio
gelado ]
31. L’éclair
silencieux
La foudre
bruyante
[ O relâmpago
silencioso
O trovão
fragoso ]
32. Le silence
entre deux amis
[ O silêncio
entre dois amigos ]
33. La voix qui vient
de l’est,
entre par l’oreille
droite
et enseigne un chant
[ A voz que vem
de levante,
entra pelo ouvido
direito
e ensina um canto ]
22 mars 1982
[22 de março 1982]
Tradução de Mário Rui de Oliveira.
LES TRENTE - TROIS NOMS DE DIEU
[Os Trinta e três nomes de Deus]
Essai d'un journal sans date et sans pronom personne
[Tentativa de um diário sem datas e pronomes pessoais]
1. Mer au matin
[ Mar pela manhã ]
2. Bruit de la
source dans
les rochers
sur les parois de pierre
[ Murmúrio da
nascente nas
rochas
sobre os muros de pedra ]
3. Vent de mer
la nuit,
dans une île
[ Vento de mar
a noite,
sobre uma ilha ]
4. Abeille
[ Abelha ]
5. Vol triangulaire
des cygnes
[ Voo triangular
dos cisnes ]
6. Agneau nouveau-né
beau bélier
brebis
[ Cordeiro recém-nascido
formoso ariete
ovelha ]
7. Le doux muffle
de la vache
le muffle sauvage
du taureau
[ O terno focinho
da vaca
o focinho selvagem
do touro ]
8. Le muffle
patient du
bœuf
[ O focinho
paciente do
boi ]
9. Le feu rouge
dans l’âtre
[ O rubro fogo
na lareira ]
10. Le chameau
boiteaux
qui traversa la
grande ville encombrée
allant vers sa mort
[ O camelo
coxo
que atravessa a
grande cidade atravancada
a caminho da morte ]
11. L’herbe
L ‘odeur de l’herbe
[ A erva
O odor da erva ]
12. ‘ ‘’’’’’
13. La bonne terre
Le sable
et la cendre
[ A boa terra
A areia
e a cinza ]
14. Le héron qui a
attendu toute la
nuit, à demi gelé,
et qui trouve
à apaiser sa
faim à l’aurore
[ A garça real que
esperou toda a
noite, quase gelada,
e pela aurora encontra
com que aplacar sua
fome ]
15. Le petit poisson
qui agonise
dans le gosier du
héron
[ O pequeno peixe
que agoniza
nas goelas da
garça real ]
16. La main,
qui entre en
contact
avec les choses
[ A mão,
que entra em
contacto
com as coisas ]
17. La peau —
toute la surface
du corps
[ A pele —
toda a superfície
do corpo ]
18. Le regard
et ce qu’il regarde
[ O olhar
e o que ele vê ]
19. Les neuf portes
de la
perception
[ As nove portas
da
percepção ]
20. Le torse
humain
[ O torso
humano ]
21. Le son d’une
viole ou d’une
flûte indigène
[ O som de uma
viola ou de uma
flauta indígena ]
22. Une gorgée
de boisson
froide ou
chaude
[ Um trago
de bebida
fresca ou
cálida ]
23. Le pain
[ O pão ]
24. Les fleurs
qui sortent
de terre au
printemps
[ As flores
que despontam
da terra
na primavera ]
25. Sommeil
dans un lit
[ Sono
em um leito ]
26. Un aveugle
qui chante
et un enfant
infirme
[ Um cego
que canta
e uma criança
enferma ]
27. Cheval qui
court
en liberté
[ Cavalo que
corre
em liberdade ]
28. La femme —
aux — chiens
[ A mulher —
os — cães ]
29. Les chameaux
qui s’abreuvent
avec leurs petits
dans l’oued
difficile.
[ Os camelos
que se banham
com seus filhotes
no difícil oued ]
30. Soleil levant
sur un lac
encore à demi
gelé
[ Sol nascente
sobre um lago
ainda meio
gelado ]
31. L’éclair
silencieux
La foudre
bruyante
[ O relâmpago
silencioso
O trovão
fragoso ]
32. Le silence
entre deux amis
[ O silêncio
entre dois amigos ]
33. La voix qui vient
de l’est,
entre par l’oreille
droite
et enseigne un chant
[ A voz que vem
de levante,
entra pelo ouvido
direito
e ensina um canto ]
22 mars 1982
[22 de março 1982]
Tradução de Mário Rui de Oliveira.
ABBAS KIAROSTAMI — UN LUPO IN AGGUATO (Um Lobo ao Ataque). POESIE. EINAUDI TASCABILI 2003.
Una linea rossa sul bianco della neve,
Una preda ferita
Che zoppica
[Traço vermelho sobre o branco da neve,
preda ferida
que coxea]
Un puledro bianco
è nato
da una cavala nera
alle prime luci dell’alba
[Um potro branco
nasceu
de uma égua negra
ao alvorecer]
Il vento porterà con sè
i fiori di ciliegio
sino al biancore delle nubi
[O vento levará consigo
flores de cerejeira
até à alvura das nuvens]
Ogni onda alta
tre onde basse,
ogni tre onde basse
un’onda alta
[Por cada onda alta
tres ondas baixas,
por cada tres ondas baixas
uma onda alta]
Ho accompagnato
la luna
sino al cuore di una nuvola scura,
ho bevuto del vino e ho preso sonno
[Acompanhei
a lua
ao coração de uma nuvem escura,
bebi vinho e adormeci]
Quando tornai al mio paese natale
la casa paterna
non c’era piú e neppure la voce di mia madre
[Quando regressei à terra natal
a casa paterna
já não existia nem a voz de minha mãe]
Il cielo
mi appartiene,
la terra
mi appartiene
come sono ricco!
[O céu
pertence-me,
a terra
pertence-me
como sou rico!]
Un mendicante
è sveglio sulla riva di un ruscello
un assetato
è sveglio sopra un tesoro
[Um mendicante
acordou sobre a margem de um regato
um sedento
acordou sobre um tesouro]
Tradução de Mário Rui de Oliveira.
«UN LUPO IN AGGUATO» (Um Lobo ao Ataque), ed. Einaudi Tascabili e a tradução do texto persa é da responsabilidade de Ricardo Zipoli.
Una linea rossa sul bianco della neve,
Una preda ferita
Che zoppica
[Traço vermelho sobre o branco da neve,
preda ferida
que coxea]
Un puledro bianco
è nato
da una cavala nera
alle prime luci dell’alba
[Um potro branco
nasceu
de uma égua negra
ao alvorecer]
Il vento porterà con sè
i fiori di ciliegio
sino al biancore delle nubi
[O vento levará consigo
flores de cerejeira
até à alvura das nuvens]
Ogni onda alta
tre onde basse,
ogni tre onde basse
un’onda alta
[Por cada onda alta
tres ondas baixas,
por cada tres ondas baixas
uma onda alta]
Ho accompagnato
la luna
sino al cuore di una nuvola scura,
ho bevuto del vino e ho preso sonno
[Acompanhei
a lua
ao coração de uma nuvem escura,
bebi vinho e adormeci]
Quando tornai al mio paese natale
la casa paterna
non c’era piú e neppure la voce di mia madre
[Quando regressei à terra natal
a casa paterna
já não existia nem a voz de minha mãe]
Il cielo
mi appartiene,
la terra
mi appartiene
come sono ricco!
[O céu
pertence-me,
a terra
pertence-me
como sou rico!]
Un mendicante
è sveglio sulla riva di un ruscello
un assetato
è sveglio sopra un tesoro
[Um mendicante
acordou sobre a margem de um regato
um sedento
acordou sobre um tesouro]
Tradução de Mário Rui de Oliveira.
«UN LUPO IN AGGUATO» (Um Lobo ao Ataque), ed. Einaudi Tascabili e a tradução do texto persa é da responsabilidade de Ricardo Zipoli.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
blogs
Os blogs não eram mais do que simples diários onde as pessoas engavetavam emoções neste emaranhado virtual e etéreo da web,que por sua vez principiara para atender as demandas academicas e militares.
Em curto espaço de tempo esta nova mídia foi ensejando um novo tipo de meio-mensagen ,onde os domínios do subjetivo, íntimo, privado foram se espraiando para uma nova forma de sub-literatura,fora dos cânones acadêmicos, mas ainda amadora .
Contudo hoje em dia convivem meros rascunhos , como quartos de dormir mal arrumados diante de uma porta escancarada para um olho imenso que a tudo devassa enquanto cegos enquanto se tropeça nas roupas , espalhadas pelo chão.
Com efeito podemos discorrer sobre a sociedade de fim de século, época de transição , de grandes transformações marcada por uma diversidade de formas e camadas de relacionamentos inusuais á poucas décadas, onde o ciber-espaço cumpre o papel de ponte fantasma entre a inconstancia,o delírio e a pseudo profundidade dos contatos que em certo sentido aboliram a interação física;relações superficiais na contradição a abertura total a desinibição,incluindo a intima e a erótica em níveis não do experienciado mas do imaginado.
Quanto ao blog em questão nos remeteremos a sociedade vídeo- adicta , onde o tempo é variante adversa daquela empregada na leitura do livro,o lead e a informação direta, não necessariamente objetiva predominam ,isso em parte já ocorria na literatura ,as shorts -stories e as crônicas, os minicontos nos jornais; estórias ligeiras.Embora seja platitude ficar-mos nesse argumento.Não esqueçamos do fenomeno dos e-boocks.As questões que se apresentam :1) os leitores dos e-books são os mesmos que cultivados pela leitura dos livros de celulose e seus filhos herdeiros de tais acervos culturais, lêem os dois meios ou não?2)Como ficaram as editoras nesse processo ?
Penso que haverá uma multi- coexistência de maneiras de absorver literatura e cada geração resgatará no espírito de sua época as cores , as paisagens de suas letras,como fora no passado e assim é no presente.
No que se refere ao efêmero do postado,digerido ou não apenas mantém a força breve das breves lembranças,profundidades não trazem a tona o que a juventude busca.Tempestade e ímpeto.Um tiro de uma frase certeira , um conciso veneno ou elixir, bastam, não é a demanda do santo Graal.revelações profundas ainda são o continente de um bom livro ou de um e-book, talvez.
Com relação ao ocorrido com o referido blog, então denominado Pó&teias sou de opinião, que as repetições nas postagens, tem mais a ver com o caráter pré-profissional que induzem seus colaboradores a erro por mero esquecimento do que fora postado, creio que se houvesse algum mecanismo que lembra-se que tal ou qual texto já fora publicado, não haveria tal fato.Uma questão de ordem técnica.
De outra ordem é a qualidade dos textos e a Leitura que deles se fazem pelos leitores “virtuais’,o primeiro pode ser lapidado , filtrado, quanto aos leitores que ora também podem vir a se tornarem colaboradores, está muito ligado a alguns fatores de proximidade seja de comunidades de relacionamento virtual de perfil literário ou participes de grupos poéticos e de escritores em sua maioria freqüentadores dos mesmos espaços culturais urbanos boêmios ou não, e sim os anônimos presos nas teias do ciber-espaço.
Wilson Roberto Nogueira
Em curto espaço de tempo esta nova mídia foi ensejando um novo tipo de meio-mensagen ,onde os domínios do subjetivo, íntimo, privado foram se espraiando para uma nova forma de sub-literatura,fora dos cânones acadêmicos, mas ainda amadora .
Contudo hoje em dia convivem meros rascunhos , como quartos de dormir mal arrumados diante de uma porta escancarada para um olho imenso que a tudo devassa enquanto cegos enquanto se tropeça nas roupas , espalhadas pelo chão.
Com efeito podemos discorrer sobre a sociedade de fim de século, época de transição , de grandes transformações marcada por uma diversidade de formas e camadas de relacionamentos inusuais á poucas décadas, onde o ciber-espaço cumpre o papel de ponte fantasma entre a inconstancia,o delírio e a pseudo profundidade dos contatos que em certo sentido aboliram a interação física;relações superficiais na contradição a abertura total a desinibição,incluindo a intima e a erótica em níveis não do experienciado mas do imaginado.
Quanto ao blog em questão nos remeteremos a sociedade vídeo- adicta , onde o tempo é variante adversa daquela empregada na leitura do livro,o lead e a informação direta, não necessariamente objetiva predominam ,isso em parte já ocorria na literatura ,as shorts -stories e as crônicas, os minicontos nos jornais; estórias ligeiras.Embora seja platitude ficar-mos nesse argumento.Não esqueçamos do fenomeno dos e-boocks.As questões que se apresentam :1) os leitores dos e-books são os mesmos que cultivados pela leitura dos livros de celulose e seus filhos herdeiros de tais acervos culturais, lêem os dois meios ou não?2)Como ficaram as editoras nesse processo ?
Penso que haverá uma multi- coexistência de maneiras de absorver literatura e cada geração resgatará no espírito de sua época as cores , as paisagens de suas letras,como fora no passado e assim é no presente.
No que se refere ao efêmero do postado,digerido ou não apenas mantém a força breve das breves lembranças,profundidades não trazem a tona o que a juventude busca.Tempestade e ímpeto.Um tiro de uma frase certeira , um conciso veneno ou elixir, bastam, não é a demanda do santo Graal.revelações profundas ainda são o continente de um bom livro ou de um e-book, talvez.
Com relação ao ocorrido com o referido blog, então denominado Pó&teias sou de opinião, que as repetições nas postagens, tem mais a ver com o caráter pré-profissional que induzem seus colaboradores a erro por mero esquecimento do que fora postado, creio que se houvesse algum mecanismo que lembra-se que tal ou qual texto já fora publicado, não haveria tal fato.Uma questão de ordem técnica.
De outra ordem é a qualidade dos textos e a Leitura que deles se fazem pelos leitores “virtuais’,o primeiro pode ser lapidado , filtrado, quanto aos leitores que ora também podem vir a se tornarem colaboradores, está muito ligado a alguns fatores de proximidade seja de comunidades de relacionamento virtual de perfil literário ou participes de grupos poéticos e de escritores em sua maioria freqüentadores dos mesmos espaços culturais urbanos boêmios ou não, e sim os anônimos presos nas teias do ciber-espaço.
Wilson Roberto Nogueira
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