«O amor e a política são as duas grandes figuras do
engajamento social. A política é o entusiamo com o coletivo. O amor é a
possibilidade de, por meio de diferenças as mais profundas, fazer algo que é
uma visão compartilhada do mundo. O amor é o comunismo mínimo.» Alain Badiou,
em "Petrogrado, Xangai" (Ubu)
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Sabemos que a vida não é uma coisa e a poesia outra. Sabemos
que a política não é uma coisa e a poesia outra.
Procuramos o coincidir do estar e do ser. Procurar a
inteireza do estar na terra é a busca de poesia.
Por isso rejeitamos o uso burguês da cultura que separa o
cérebro da mão. Que separa o trabalhador intelectual do trabalhador manual. Que
separa o homem de si próprio, dos outros e da vida.
E porque desalienar, conquistar a inteireza de cada homem é
a finalidade radical de toda a política revolucionária, o projeto de uma
política real é por sua natureza paralelo ao projeto da poesia. Mas olhando com
atenção vemos que a tarefa específica da política é criar as condições em que a
desalienação é possível. Em rigor, a política não cria a desalienação, mas sua
possibilidade.
É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que
estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a
vida, com o mundo e com as coisas. E onde não existir essa relação primordial
limpa e justa, essa busca de uma relação limpa e justa, essa verdade das
coisas, nunca a revolução será real."
Sophia de Mello Breyner Andresen
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
INSTRUÇÕES PARA CHORAR
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta
de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não
insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou
comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado
de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente
se assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe
for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense
num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais
não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza,
usando ambas as mãos com a a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando
a manga do casaco na cara e, de de preferência, num canto do quarto. Duração
média do choro, três minutos.
JULIO CORTÁZAR - in (História de Cronópios e de Famas)
A Regra Fundamental de Vida Quando nós dizemos o bem, ou o
mal... há uma série de pequenos satélites desses grandes planetas, e que são a
pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedicação... No
fundo é disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de
debilidades... Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma
importância, é importante ter como regra fundamental de vida não fazer mal a
outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupação de respeitar esta
simples regra de convivência humana, não vale a pena perdermo-nos em grandes
filosofias sobre o bem e sobre o mal. «Não faças aos outros o que não queres que
te façam a ti» parece um ponto de vista egoísta, mas é o único do género por
onde se chega não ao egoísmo mas à relação humana.
José Saramago, in "Revista Diário da Madeira, Junho
1994"
Fonte: O Citador
"Onde pus a esperança, as rosas / Murcharam logo."
Álvaro de Campos
A literatura não é autoajuda, pilulas de otimismo ou lições
de auto-superação. A literatura, como ela se delineou na modernidade, é a procura
do estranhamento, da alteridade, da exotopia (olhar-se a si mesmo como que de
fora). Isso não sgnifica que a literatura não possa ajudar, mas ajudar num
sentido mais amplo, complexo, dialético. Parafraseando a linguagem dos
místicos, se para atingir a iluminação é preciso antes esvaziar-se das ilusões
(o véu de Maya), a literatura é aquela que produz o vazio. Aí, neste vazio,
neste oco, neste nadir, neste zinzum (pra falar como a cabala) pode quem sabe
brotar a luz.
Otto Leopoldo Winck
BLUSA FÁTUA
- Maiakóvski
Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.
Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"
Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!
Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!
(Tradução: Augusto de Campos.)
Carta a Meneceu
"Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não
significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que
não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não
estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos,
já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.
(...)
O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de
viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal."
Epicuro
Picasso morreu com 91 anos. Saramago com 87. Drummond com
84. Victor Hugo com 83. Manuel Bandeira com 82. Machado de Assis com 69.
Hemingway, aos 61, se suicidou com um tiro de espingarda na boca. James Joyce e
Guimarães Rosa, dois inventa-línguas, morreram com 59 anos. Clarice Lispector
morreu um dia antes de completar 57 anos de idade. Mário de Andrade morreu aos
51. Marcel Proust também. Fernando Pessoa morreu aos 47, de cirrose hepática.
Paulo Leminski também morreu de cirrose hepática, mas aos 44. Não se sabe ao
certo se Edgar Allan Poe morreu de cirrose, mas com certeza a bebida teve sua
culpa na sua morte aos 40. Rimbaud morreu com 37 anos mas parou de escrever aos
20. Maiakovski se matou com um tiro na cabeça aos 36. Florbela Espanca também
morreu aos 36, no dia de seu aniversário. Causa: ingestão de barbitúricos. Cruz
e Souza foi outro que morreu aos 36. Tuberculose. Fagundes Varela morreu com a
idade de Cristo. Augusto do Anjos aos 30. De pneumonia. Torquato Neto se matou
no dia de seu 28º aniversário, ingerindo gás, e deixou escrito num bilhete: pra
mim chega. Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Kobain e
Amy Winehouse morreram todos aos 27 anos. Overdose ou outras causas suspeitas.
Noel Rosa, sambista que tinha uma vida muito rock’n’roll, morreu aos 26.
Lautréamont morreu aos 24. Castro Alves também morreu aos 24, mas depois de
dar, literalmente, um tiro no pé. Junqueira Freire, outro romântico, morreu aos
23. Casimiro de Abreu aos 21. Álvares de Azevedo esperou menos ainda: morreu
aos 20. Raymond Radiguet, autor de Com o diabo no corpo, também morreu aos 20.
Já Sid Vicious, do Sex Pistols, foi mais longevo que esse último: morreu dois
meses antes de completar 21 anos, de overdose de heroína. Oscar Niemeyer, por
sua vez, morreu com 105 anos, 11 meses e 20 dias – e disse que a vida é um
sopro.
Otto Leopoldo Winck
Os mortos
(Ferreira Gullar)
os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos
eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias
Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
FIGURES
(Jules Supervielle)
Je bats
comme des cartes
Malgré moi
des visages,
Et, tous,
ils me sont chers.
Parfois l'un tombe à terre
Et j'ai beau le chercher
La carte a disparu.
Je n'en sais rien de plus.
C'était un beau visage
Pourtant, que j'aimais bien.
Je bats les autres cartes.
L'inquiet de ma chambre,
Je veux dire mon coeur,
Continue à brûler
Mais non pour cette carte
Q'une autre a remplacée :
C'est nouveau visage,
Le jeu reste complet
Mais toujours mutilé.
C'est tout ce que je sais,
Nul n'en sait d'avantage.
ROSTOS (Jules Supervielle / trad.: Carlos Drummond de
Andrade)
Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.
As Coisas Transitórias
Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.
A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Elaine Nohra Simões
sexta-feira, 27 de setembro de 2019
Lições de sociologia política para leigos
Burguês é o detentor dos meios de produção. No popular, é o
patrão. Mas não o dono da vendinha ou da loja da esquina não. É principalmente
a entidade anônima que comanda as transnacionais. Proletário é aquele que de si
só tem sua força de trabalho e por isso é obrigado a vendê-la no mercado. Mas
tem também o 'prole-otário'. É o cabra que é proleta também mas se acha burguês
e por isso vive defendendo os privilégios da burguesia. Se liga, meu irmão!
Otto Leopoldo Winck
"O fascista fala o tempo todo em corrupção. Fez isso na
Itália em 1922, na Alemanha em 1933 e no Brasil em 1964. Ele acusa, insulta,
agride como se fosse puro e honesto. Mas o fascista é apenas um criminoso, um
sociopata que persegue carreira política. No poder, não hesita em torturar,
estuprar, roubar sua carteira, sua liberdade e seus direitos".
Norberto Bobbio
"O discurso do Bolsonaro na ONU é a prova da grave
falência educacional e cognitiva de várias instituições brasileiras. Não é
possível um ex-oficial intermediário, um ex-parlamentar e presidente ilegítimo
ser tão ignaro e ainda ter apoio de setores da magistratura, da diplomacia e de
grupos empresariais tão analfabetos e retrógrados. Vergonha internacional. Os
finlandeses têm uma palavra especial para esta situação - myötähäpeä, a imensa
vergonha sentida por conta da vergonha ainda maior produzida por outra pessoa
tola!"
Ricardo Costa de Oliveira
quando é proibido estar descontente
Sou só descontentamento e desassossego, com esta baleia
franca agonizante e entalada dentro de mim:
Lélia Almeida.[1]
Si miramos la realidad, las mujeres son más sólidas, más
objetivas, más sensatas. Para nosotros, son opacas: las miramos, pero no
logramos ir adentro. Estamos tan empapados de una visión masculina que no
entendemos. En contrapartida, para las mujeres, nosotros somos transparentes.
Lo que me preocupa es que cuando la mujer llega al poder pierde todo aquello.
Hay tres sexos: femenino, masculino y el poder. El poder cambia a las personas.
José Saramago.[2]
Ai! Esta baleia franca agonizando na praia
de Itaperubá, em Laguna (SC), agonizando frente à nossa impotência, resistindo
e sobrevivendo a um coquetel de medicamentos para a eutanásia. Ai! Esta baleia
franca entalada dentro de mim, virada numa metáfora de coisas grandes e
sagradas, maravilhosas e que parecem que não tem mais lugar e nem cabida neste
mundo. Resta-nos observá-la, mirar-nos, bravamente, na sua capacidade de
resistência mesmo sabendo que estamos assistindo a sua morte. Passo horas
pensando na baleia, tentando adivinhar-lhe as dores, os movimentos impossíveis,
a respiração difícil. A baleia levo-a entalada por aonde vou, nestes dias,
presa dentro de mim, e um sentimento aterrador se instala sem remédio.
Sinto-me
como o protagonista do filme do Bela Tarr, As Harmonias de Werckmeiser, quando
a vida de uma pequena cidade do interior da Hungria é transformada com a
chegada de uma baleia gigante empalhada. E da sua incompreensão, ao ver a
baleia, quando se pergunta sobre como Deus pôde conceber uma criatura daquelas
e ainda por cima fazê-la viver no mar!
A baleia é
mítica, é sagrada, é um símbolo também, e na sua grandeza é a metáfora que
escolho para expressar, neste momento, o meu desassossego e o meu profundo
descontentamento. Lembro das muitas vezes ao longo da minha vida que tive de
mergulhar muda e só no descontentamento, na paralisia da baleia encalhada, como
uma criança que ouve da mãe, engole e choro e não reclama, para aquelas
situações quando as nossas sábias e pragmáticas mães sabem como ninguém que não
nos resta mais nada além de obedecer e aceitar. E calar. E sempre que não pude
expressar o meu descontentamento, a minha discordância, o desassossego
comprometeu os meus movimentos mais espontâneos e a minha fala mais verdadeira
e por isso a minha alma adoeceu. A minha alma que era um mar, um mar que já não
podia conter uma baleia. A baleia que mal respira e que não desiste sob os
nossos olhos atônitos.
Tenho
convivido com um profundo sentimento de frustração e de estar vivendo uma
oportunidade única que está sendo desperdiçada. A minha geração de mulheres
sonhou e lutou por muitas coisas lá na origem dos movimentos de mulheres deste
país. Digo nas origens porque me filio a uma linhagem de outras mulheres, anteriores,
que pensaram e me ensinaram tudo o que me faz, ainda hoje, me perceber como
cidadã, mãe, profissional e mulher no mundo. Ensinaram-me, antes de tudo, que o
movimento de mulheres sempre reivindicou a autonomia das mulheres, de forma
mais importante ainda do que a igualdade com os homens. Permanece soberana, em
algumas de nós, a raiz de toda esta luta que tem sido, historicamente, uma luta
por autonomia. E eis que temos, neste momento, a possibilidade de duas
candidatas mulheres à Presidência da República. E nunca o debate foi tão vazio,
de tão baixo nível e as mulheres nunca ficaram tão caladas. A baleia agoniza,
mas resiste, sinto sua respiração, sua alma que não se entrega. Ai baleia
calada!
Quando a
então Ministra Dilma Roussef anunciou publicamente que tinha câncer fiquei
estarrecida da maneira como os seus colegas de Esplanada e de partido
expressaram publicamente o tanto que este fato podia ajudá-la a crescer nas
pesquisas como candidata à Presidência da República. Os comentários foram
absurdos e não ouvi nenhuma grita de indignação sobre este tratamento
dispensado à Ministra, já naquele momento precisávamos ser pragmáticos, outra
vez pragmáticos e batendo o martelo, ali já começava a se gestar o que temos
como a estratégia urgente de todos estes meses, a pressa desenfreada, o vale
tudo porque ela tem de vencer, doa a quem doa, danem-se as baleias, dane-se o
meu desassossego. Falava-se da maneira como a doença podia render-lhe uma
imagem de lutadora, de sobrevivente e a então Ministra tinha deixado de ser uma
mulher e tinha se transformado numa candidata, ia capitalizar com a doença e
com outros episódios também. Não vi ninguém questionar estas declarações
desastrosas, perversas, mas parece que nada disso é importante e que minhas considerações
sabem a um sentimentalismo inoportuno e incorrigível, devo dizer, a esta altura
do campeonato.
Lembro de
um livro clássico que muitas mulheres da minha geração leram com atenção, Os
seis meses em que fui homem, um texto canônico da Rose Marie Muraro[3] onde ela
conta do estresse absoluto vivido quando teve de exercer um cargo de alta
responsabilidade, e repetir assim os gestos irrefletidos, como chamo os gestos
das mulheres que assumem o poder, porque só conhecemos este jeito de exercer o
poder, o jeito masculino de fazê-lo, e ai de nós se não for assim, já que é
este jeito que nos mantém ou destitui da coisa toda. A coreografia dos gestos
irrefletidos, frutos da consciência embargada, valeu-lhe um câncer de útero.
Foi uma das poucas narrativas sinceras que vi sobre o assunto.
Outro
clássico que vale a pena lembrar é O cálice e a espada da americana Riane
Eisler[4], onde ela estuda, ao longo da história do mundo, as relações entre os
homens e as mulheres. Atenta para o fato de que não haveria nenhuma evidência
consistente, depois de tantas tentativas de prová-la, da existência de um
matriarcado na história do mundo. Um matriarcado, que em exata oposição ao
patriarcado seria uma sociedade onde as mulheres dominariam os homens. Para a
autora isso não aconteceu e esclarece que sim, o que criou uma cultura da deusa
ao longo da história do mundo e que é a que sobrevive na nossa memória, seriam
momentos em que as mulheres, em comunidades matricêntricas, tinham um lugar de
destaque e eram valorizadas num patamar de igualdade aos homens que
simplesmente exerciam funções diferentes das delas. Aponta Creta como um
momento de excelência desta evidência e propõe que estes momentos da história
do mundo se constituíram em momentos de grande florescimento cultural,
espiritual e de pacificação.
A teoria
de Eisler, que é muito mais inteligente e abrangente do que eu possa contar
numa crônica, propõe que para que entendamos as complexas relações de dominação
entre os homens e as mulheres, é necessário um olhar diferenciado sobre estas
relações através do que ela chama de uma teoria da transformação cultural, a
partir de uma perspectiva holística e que reflete sobre os dois modelos básicos
de sociedade que subjaz à grande diversidade superficial da cultura humana. Um
seria o modelo dominador, popularmente chamado de matriarcado ou patriarcado,
onde uma metade da humanidade exerce a supremacia sobre a outra, e o outro
modelo chamado de parceria, baseado num princípio de união e onde a diversidade
não é equiparada à inferioridade ou à superioridade.
O trabalho
de Eisler que começa com estas considerações, no início dos anos 80, teve
desdobramentos importantes e o livro que trata sobre o Poder da parceria[5] fez
da autora uma importante ativista pela paz. Ela, recentemente, em entrevista ao
GNT, disse que o Brasil, através do Bolsa Família, se constitui num exemplo a
ser seguido pelo mundo, como uma prática de economia solidária e de pareceria.
Ela, portanto, propõem sim, uma alternativa ao que temos no poder, um poder de
parceria, onde o lugar das mulheres seja outro, diferenciado, e que sua maneira
de estar no poder seja inovadora, negando, entre outras coisas, uma cultura da
hierarquia burra, do mundo da guerra e da violência desmedida.
A baleia
mal respira dentro de mim, sinto-lhe as ganas de mover-se com força e
agilidade, dar uma rabanada com a cauda, mover-se, mas suas forças se esvaem.
As minhas mais sinceras esperanças vão-se junto com elas.
A sensação
é a de estar vivendo uma oportunidade única e, ao mesmo tempo, a de estar
presenciando um irreparável desperdício histórico. O que para mim, na metade da
jornada da vida, me abate sobremaneira, sabedora de que não temos muito mais
tempo assim para erros incorrigíveis. A oportunidade única deve-se ao fato de
que temos, neste momento, duas mulheres candidatas à Presidência da República
do País. O desperdício histórico é porque a sociedade brasileira decidiu não
pensar sobre este assunto, fazer de conta de que isto não está acontecendo e de
onde podemos concluir que se as respostas têm sido imbecis, infantis,
senso-comunsíssimas, é porque há uma ausência absoluta das perguntas
importantes. E, portanto, a impossibilidade de um debate que não pode ser feito
às pressas e nem sob censura.
Fala-se do figurino e do penteado das candidatas, fala-se de
sua orientação sexual, falam-se banalidades e superficialidades. A candidata
Dilma foi elevada a uma condição de Magna Mater, ao lado do Presidente Lula,
que por sua vez, foi elevado a um patamar de líder intergaláctico ou a uma
espécie de vice-Deus, coroados agora pelo nascimento de um menino chamado
Gabriel, que nasceu abençoado como um anjo, o que nos faz lembrar, uma fábula
outra, muito antiga, tão antiga como a existência das baleias, este bicho tão
inconveniente a me triturar as vísceras de angústia e agonia.
A
propaganda eleitoral do Partido dos Trabalhadores, ao criar esta tríade de
presépio, repetida à farta nos comícios, nos discursos e nos palanques, de
diferentes maneiras, nega, na prática, o próprio trabalho da Secretaria
Especial de Políticas das Mulheres do governo Lula, que as coloca, às mulheres
brasileiras, em seus projetos e programas, como protagonistas autônomas e
empoderadas sem fazer este uso reacionário e ideológico da figura da mamãezinha
terna, coadjuvante, subserviente e subalterna que tem de cuidar do mundo. E
trata, assim, o povo brasileiro como um bando de debilóides. Cala a boca
baleia, morre baleia!
Continuo
sem respostas para as minhas perguntas. As mulheres querem o poder? E chegando
lá como querem exercê-lo? Da mesma maneira que os homens? Há outro jeito das
mulheres estarem no poder? Como é esse jeito? E os homens, como vão lidar com
as questões propostas pelas mulheres? E se elas não concordarem? E se elas se
rebelarem? E se elas não obedecerem? Qual o significado do desinteresse de um
grande número de mulheres para que se lancem como candidatas? E qual o
significado do voto feminino para tal ou qual candidato? E da rejeição deste
mesmo voto para tal ou qual candidato? Baleia preguiçosa, burra, esqueceu de
pensar, vai pagar caro por isso, pela inconsciência, baleia burra, morre baleia
burra!
A poucas
semanas da eleição sinto uma imensa frustração, já entrei na pressa da coisa
toda, tomara que termine logo, tomara que termine de uma vez. Morre baleia,
morre. Vai morrer na praia, seu bicho burro!
Mais uma
vez o debate foi negligenciado. Mais uma vez o debate que envolve os desejos,
os direitos e as reivindicações específicas das mulheres foi negligenciado, o
mundo avança e a história das mulheres encalha como a baleia franca. Muito
provavelmente a candidata Dilma será a próxima presidente do país. Pagaremos um
preço alto pelas perguntas que deixamos de fazer, das vezes que deixamos de
questionar com senso crítico e autonomia de pensamento, das vezes que deixamos
de dizer não, de dizer que assim não nos serve, que não se pode tratar uma
mulher de determinadas maneiras, como um ser sem vontade e de todas as vezes
que compactuamos mudas com este tratamento e com a conivência e passividade de
determinadas condutas, das vezes que nos omitimos, das vezes que calamos frente
a impossibilidade de alguns tipos de alianças, das vezes que esquecemos que
mais cedo ou mais tarde vamos ter de responder às nossas filhas, às nossas
leitoras, às nossas alunas, pelas nossas próprias escolhas.
A baleia
agoniza, mas não morre, a desgraçada!
Do outro
lado do mundo, também numa praia, no final de junho, onze mulheres israelenses
levaram mulheres palestinas para passear em Telavive e Jaffa, sem pedir
autorização do governo do premiê Benjamin Netanyahu - em desafio à rigorosa lei
de entrada em Israel, conforme nos conta Viviane Vaz[6] em matéria publicada no
Correio Braziliense. "Nós comemos num restaurante, tomamos banho de mar e
nos divertimos na praia". A jornalista Ilana Hammerman conta que os
passeios entre palestinas e israelenses têm se repetido cada vez com um número
maior de mulheres e se transformado num ato espontâneo de desobediência civil e
pacífica já que elas não reconhecem a legitimidade da ocupação, dos muros e dos
postos de controle instalados por Israel no território palestino da
Cisjordânia.
A baleia
sente um frêmito, um frêmito como um raio, como uma faísca, um esboço de
resposta, quem sabe.
Enquanto
as nossas reivindicações não forem claras, enquanto não modularmos o discurso
de maneira inteligente e veemente, enquanto não dissermos a nós mesmas e ao
mundo qual é a maneira que queremos exercer o poder e se de fato queremos
fazê-lo, enquanto não articularmos a conduta, o gesto e a voz, só nos restará o
expediente da desobediência, prática feminina tão antiga esta, que nos projeta
para a margem do mundo, para fora da institucionalidade, transformadoras e
revolucionárias algumas vezes, inoperantes e esquecidas, quase sempre. Que é
como voltar sempre ao começo, ao começo do mundo, ao começo dos tempos. A
baleia estertora dentro de mim, uma ânsia, sinto cólicas de angústia nestes
últimos dias, o peso e a dor enorme de carregar esta baleia moribunda, as
minhas esperanças maltratadas, e essa tristeza sem fim, uma oportunidade
histórica desperdiçada, quanto retrocesso! Baleia burra. Vai morrer encalhada,
vai morrer na praia, baleia burra!
1- Lélia Almeida é escritora.
http://mujerdepalabras.blogspot.com/
2-
http://www.escribirte.com.ar/destacados/5/saramago/noticias/864/saramago:-me-preocupa-la-mujer-en-el-poder.htm
3- MURARO, Rose Marie. Os seis meses em que fui homem. Rio
de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993.
4- EISLER, Riane. O Cálice e a Espada: Nossa História Nosso
Futuro. Imago: Rio de Janeiro, 1989.
5- EISLER, Riane. O Poder da parceria. São Paulo: Palas
Athena, 2007.
6- http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/07/mundo,i=211808/GRUPO+DE+MULHERES+EM+ISRAEL+DESAFIA+TABUS+PARA+SE+APROXIMAR+DE+PALESTINAS.shtml
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