terça-feira, 14 de janeiro de 2014
trecho de "Canto da Serpente de Nuvens ou da Via Láctea (Azteca)"
Ela vem das Sete Cavernas,
Vem da região das Árvores e Espinhos.
Eu desci, eu desci e trouxe comigo o meu dardo
Feito com uma vara de árvore de espinhos,
Desci e trouxe o meu dardo
Feito com uma vara de árvore de espinhos.
Desci com o meu laço.
E lacei-a, lacei-a
E lacei-a, lacei-a
E está laçada.
Vem da região das Árvores e Espinhos.
Eu desci, eu desci e trouxe comigo o meu dardo
Feito com uma vara de árvore de espinhos,
Desci e trouxe o meu dardo
Feito com uma vara de árvore de espinhos.
Desci com o meu laço.
E lacei-a, lacei-a
E lacei-a, lacei-a
E está laçada.
Trecho da "canção (indonésia)"
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar?
E se até vós subir o movimento da morte,
Querereis um com o outro vos banhar?
versão de Herberto Helder
querereis um com o outro vos banhar?
E se até vós subir o movimento da morte,
Querereis um com o outro vos banhar?
versão de Herberto Helder
A Carta
Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim ,
Aí de ti , ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios.
Mário Quintana
"A cultura se banalizou, se trivializou muito. Em grande parte,
devido a uma intenção muito generosa, que era a de democratizar a cultura, a de
tornar a cultura acessível a todo mundo, para o que foram baixando os níveis
culturais até praticamente desaparecerem. Por outro lado, existe uma
frivolização da cultura. A cultura se tornou uma espécie de entretenimento, de
diversão. Em grande parte devido à intervenção dos meios de comunicação de
massa foram desaparecendo os valores, as hierarquias de importância dos fatos
culturais, das criações artísticas. Houve, por outro lado, um movimento
intelectual para desvalorizar o antigo sistema de classificação de obras
importantes e obras menos importantes e de obras sem importância, ao ponto de
que hoje vivemos uma grande confusão em relação a isso. Em alguns campos, isso
é mais evidente do que em outros. Talvez o campo em que se chegou a uma
confusão maior foi o das artes plásticas."
- Mario Vargas Llosa
"Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa."
- Cruz e Sousa
http://www.elfikurten.com.br/2012/02/cruz-e-sousa-o-cisne-negro.html
Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa."
- Cruz e Sousa
http://www.elfikurten.com.br/2012/02/cruz-e-sousa-o-cisne-negro.html
"Numa democracia, nenhuma obra supera a de
educação. Haverá, talvez, outras aparentemente mais urgentes ou imediatas, mas
estas mesmas pressupõem, se estivermos numa democracia, a educação. Todas as
demais funções do estado democrático pressupõem a educação. Somente esta não é
conseqüência da democracia, mas a sua base, o seu fundamento, a condição mesmo
para a sua existência."
- Anísio Teixeira.
http://www.elfikurten.com.br/2011/02/anisio-texeira-o-inventor-da-escola.html
- Anísio Teixeira.
http://www.elfikurten.com.br/2011/02/anisio-texeira-o-inventor-da-escola.html
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
(Manoel de Barros)
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
MANIA DE SOLIDÃO
Como um leve jantar posto à clara janela.
Já está escuro no quarto e se vê pelo céu.
As estradas tranquilas lá fora conduzem,
em um breve percurso, aos campos abertos.
Como e olho pro céu - quiçá quantas mulheres
fazem o mesmo a esta hora - e o meu corpo está calmo;
o trabalho atordoa o meu corpo e as mulheres.
Terminado o jantar, as estrelas virão passear
sobre a vasta planície da terra. As estrelas têm vida,
mas não valem sequer as cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sabendo que em meio aos telhados
umas luzes já brilham e, por baixo, começam ruídos.
Com um trago o meu corpo degusta esta vida
das florestas e rios e se sente isolado de tudo.
Basta um curto silêncio e as coisas se assentam
em seu lócus real, como assenta o meu corpo.
Meus sentidos isolam as coisas que tocam
e as aceitam impassíveis: rumor de silêncio.
Sou capaz de entender cada coisa no escuro,
como sei que o meu sangue percorre estas veias.
A planície é um grande regato entre a relva,
um repasto de todas as coisas. Imóveis as plantas
e os minérios existem. Escuto o alimento nutrir
minhas veias de tudo o que vive no vale.
Não importa essa noite. O quadrante do céu
me sussurra uma cópia de sons, e uma estrela miúda
se debate no vácuo, distante dos pastos
e das casas, discorde. No escuro, sozinho,
o meu corpo está calmo e se sente supremo.
27-29 de Maio de 1933
Cesare Pavese, Trabalhar cansa.
Tradução: Maurício Santana Dias
Ó garrafada das ervas maceradas
Do breu das brenhas
Se adonai de mim
E do meu peito lacerado.
Ó senhora dos remédios
Ó doce dona
Ó chá
Ó ungüento
Ó destilado
Ó camomila
Ó belladonna
Ó phármakon
Respingai grossas gotas
de vossos venenos
Ó doce dona
Ó camomila
Ó belladonna
Serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
Ó senhora dos sem remédios
Domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
Que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos
Se desprendem dos trapézios
E, tontas, buscam o abraço fraterno
E solidário dos espaços vácuos.
Ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
Adonai-vos do peito dilacerado e do lenho oco que ocupo.
[Wally Salomão | Feitio de Oração]
"Costuma-se dizer que ninguém conhece verdadeiramente
uma nação até que tenha estado dentro de suas prisões. Uma nação não deve ser
julgada pelo modo como trata seus cidadãos mais elevados, mas sim pelo modo
como trata seus cidadãos mais baixos”
(NELSON
MANDELA – Long Walk to Freedon, Little Brown, Londres: 1994)
O CONCEITO DE CULTURA
O CONCEITO DE CULTURA
LESLIE WHITE
A diversidade de comportamento dos seres humanos sempre foi
um enigma. Todos os outros seres, existentes na natureza, apresentam
comportamentos de espécie, repetitivos, limitados, com possibilidade quase nula
de variações individuais. O homem é o único que, ao nascer, pode viver mil
vidas diferentes. Qualquer um de nós poderia ser Mozart, qualquer um poderia
ser Hitler. A criação de sinfonias e a perpetração de genocídios são
possibilidades inscritas em nossa mais íntima constituição.
As primeiras tentativas sistemáticas para compreender a
nossa diversidade buscaram explicações no corpo dos indivíduos, no contexto da
antropologia física. Sua culminância foi a construção do conceito de raças
humanas, o mais importante e mais desastrado empreendimento das ciências
sociais europeias no século XIX. Ecos desse desacerto nos assombram até hoje.
A superação desse caminho, pela antropologia cultural, teve
como ponto de partida a constatação de que o homem não apenas age, como os
demais animais, mas interpreta a sua ação. Todas as ações humanas têm origem em
alguma interpretação, e ao mesmo tempo são ações interpretadas. Compreender o
comportamento humano exige compreender os sistemas de interpretação construídos
pela imaginação do próprio homem, o que nos remete aos universos simbólicos,
constitutivos da nossa existência tanto quanto os nossos corpos físicos.
Objetos materiais, crenças e atitudes estão imersos nesses
universos simbólicos que são transmitidos entre indivíduos, povos e gerações
por meios não biológicos. Cria-se assim uma ordem suprabiológica e
extrassomática de coisas e fatos, que flui no espaço, de um grupo a outro, e no
tempo, de uma época a outra. É o mundo humano por excelência, que precisa ser
descrito e analisado a partir de seus próprios princípios e leis. Estamos
falando de cultura, o conceito-chave da antropologia e uma das mais importantes
aquisições conceituais das ciências sociais em todas as épocas.
Leslie White (1900-1975) dirigiu por muito tempo o
Departamento de Antropologia da Universidade de Michigan e foi professor também
nas universidades de Chicago, Yale, Colúmbia, Harvard e Califórnia (Berkeley).
Em 1961, no auge da carreira, foi convidado pela Universidade do Colorado a dar
oito aulas a professores, para fornecer uma visão de conjunto de sua
disciplina. Gravadas, transcritas e revisadas, elas formam este pequeno e
precioso volume que trata, justamente, do conceito de cultura.
César Benjamin
sábado, 11 de janeiro de 2014
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