quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

1935: Nazistas retiram a cidadania alemã de escritores e oposicionistas


INSTANTÂNEOS: NAZIFASCISMO E 2ª GUERRA MUNDIAL1933: Brecht foge da Alemanha 1933: Repressão ao Partido Comunista da Alemanha1933: Aprovação da Lei Plenipotenciária 1933: UFA demite funcionários judeus1933: Grande queima de livros pelos nazistas1933: DVP e DNVP se dissolvem 1933: Hitler controlava a imprensa falada1933: Alemanha deixa a Liga das Nações1934: Hitler manda executar Ernst Röhm 1934: Nazistas assassinam ditador da Áustria1934: Regime nazista intervém na Justiça 1935: Nazistas retiram a cidadania alemã de escritores e oposicionistas1936: Abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim1936: Constituição do Eixo Berlim-Roma1936: Thomas Mann é expatriado1938: O pogrom da "Noite dos Cristais" 1939: Assinado o Pacto de Não-Agressão1939: Eslováquia torna-se independente1939: Alemanha invade a Polônia1939: Programa nazista de extermínio1939: Soviéticos invadem a Polônia1939: Primeiro atentado contra Hitler1940: Alemanha inicia ofensiva ocidental1940: Armistício de Compiègne1940: Estreia do filme "O judeu Süss"1940: Crianças alemãs refugiam-se dos bombardeios1941: Selada aliança entre Londres e Moscou 1941: EUA decidem construir a bomba atômica 1941: Aberto o campo de concentração de Theresienstadt 1942: A Conferência de Wannsee1942: Genocídio dos judeus poloneses 1942: Judeus proibidos de ter animais domésticos1942: Ofensiva dos Aliados em El Alamein1942: Anne Frank inicia seu diário 1942: Batalha de Tobruk1942: Panfletos da resistência antinazista "Rosa Branca"1942: Pedagogo Janusz Korczak é deportado para Treblinka1942: Fracassa desembarque dos Aliados na Normandia1942: Tropas alemãs invadem o sul da França1943: Goebbels declara guerra total
Em 8 de junho de 1935, o Ministério do Interior do Reich divulgava a quarta lista com nomes de pessoas que perdiam a cidadania alemã, incluindo nomes famosos como Bertolt Brecht e Erika Mann.
 Brecht foi um dos primeiros intelectuais a deixar o país em 1933
Brecht foi um dos primeiros intelectuais a deixar o país em 1933
A quarta lista de desnacionalizados pelo regime nazista foi divulgada em 8 de junho de 1935. Nela constam os nomes de 41 pessoas, entre elas personalidades como os escritores Erika Mann e Bertolt Brecht e o jornalista Karl Höltermann. Todas foram declaradas indignas de manter a cidadania alemã.
Em outras palavras: desde aquele 8 de junho elas não eram mais cidadãs alemãs.
A base para a retirada da cidadania de pessoas contrárias ao regime havia sido estabelecida já meio ano após a ascensão dos nazistas ao poder, com a Lei sobre a revogação da naturalização e a privação da nacionalidade. A lei retirava todos os direitos políticos dos atingidos, e a pessoa que perdia a cidadania alemã não era mais protegida pelo Estado.
Entre as primeiras vítimas da desnacionalização promovida pelos nazistas estavam os escritores Heinrich Mann e Kurt Tucholsky (que se matou no exílio, na Suécia), Erich Weinert e muitos outros. Todos foram condenados ao expatriamento. A justificativa para a lei era que as pessoas por ela atingidas haviam faltado ao "dever de fidelidade ao Reich e ao povo."
Na prática, a cidadania era cassada mesmo sem justificativas concretas. No caso de políticos e escritores, bastava estar no exterior. O patrimônio dos cassados era, naturalmente, confiscado – uma boa oportunidade para o enriquecimento dos seguidores de Hitler.
Até 1938, os nazistas divulgaram mais de 80 listas, contendo 5 mil nomes de expatriados. No total, a expatriação atingiu 40 mil pessoas – um número que não inclui, entretanto, os judeus deportados pelos nazistas. Todas puderam voltar a requerer a cidadania alemã depois da Segunda Guerra Mundial. Atualmente, o artigo 16 da Lei Fundamental Alemã proíbe a cassação da cidadania.

Autoria Sabine Ochaba

1936: Thomas Mann é expatriado


INSTANTÂNEOS: NAZIFASCISMO E 2ª GUERRA MUNDIAL1933: Brecht foge da Alemanha 1933: Repressão ao Partido Comunista da Alemanha1933: Aprovação da Lei Plenipotenciária 1933: UFA demite funcionários judeus1933: Grande queima de livros pelos nazistas1933: DVP e DNVP se dissolvem 1933: Hitler controlava a imprensa falada1933: Alemanha deixa a Liga das Nações1934: Hitler manda executar Ernst Röhm 1934: Nazistas assassinam ditador da Áustria1934: Regime nazista intervém na Justiça 1935: Nazistas retiram a cidadania alemã de escritores e oposicionistas1936: Abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim1936: Constituição do Eixo Berlim-Roma1936: Thomas Mann é expatriado1938: O pogrom da "Noite dos Cristais" 1939: Assinado o Pacto de Não-Agressão1939: Eslováquia torna-se independente1939: Alemanha invade a Polônia1939: Programa nazista de extermínio1939: Soviéticos invadem a Polônia1939: Primeiro atentado contra Hitler1940: Alemanha inicia ofensiva ocidental1940: Armistício de Compiègne1940: Estreia do filme "O judeu Süss"1940: Crianças alemãs refugiam-se dos bombardeios1941: Selada aliança entre Londres e Moscou 1941: EUA decidem construir a bomba atômica 1941: Aberto o campo de concentração de Theresienstadt 1942: A Conferência de Wannsee1942: Genocídio dos judeus poloneses 1942: Judeus proibidos de ter animais domésticos1942: Ofensiva dos Aliados em El Alamein1942: Anne Frank inicia seu diário 1942: Batalha de Tobruk1942: Panfletos da resistência antinazista "Rosa Branca"1942: Pedagogo Janusz Korczak é deportado para Treblinka1942: Fracassa desembarque dos Aliados na Normandia1942: Tropas alemãs invadem o sul da França1943: Goebbels declara guerra total
Em 2 de dezembro de 1936, o escritor Thomas Mann, sua esposa e os filhos mais novos foram expatriados da Alemanha nazista.
 Casal Mann chega a Nova York em setembro de 1939 com a filha Erika (ao centro)
Casal Mann chega a Nova York em setembro de 1939 com a filha Erika (ao centro)
No jornal Völkischer Beobachter (Observador Popular), os nazistas publicavam as chamadas listas de expatriados. Os nomes de Thomas Mann, sua mulher e seus filhos mais novos constavam da lista de número 7. Dos mais velhos – Erika e Klaus – já havia sido confiscada a cidadania alemã.
Ascensão nazista não causou supresa
Para Thomas Mann, a situação não causava surpresa: "Certamente eu desafiei a cólera dos detentores do poder. Não apenas nos últimos anos, através da minha distância e da expressão de meu horror a eles. Muito antes disso, eu enfrentei esse desafio porque precisava; pois, antes da burguesia alemã desesperada de hoje, eu já havia percebido há muito quem e o que subia ao poder".
Thomas Mann sabia exatamente do que falava, por ter ele próprio apoiado por muito tempo ideias conservadoras, nacionalistas e antiparlamentares, tendo passado a defender posições democráticas somente durante a República de Weimar (1919–1933).
Em 1930, Thomas Mann fez em Berlim um discurso, apelando "à razão alemã" e também para que a burguesia e as forças socialistas rejeitassem o fanatismo fascista. Suas palavras foram interrompidas por tumultos organizados pela polícia nazista e o escritor foi obrigado a abandonar o recinto pela porta dos fundos.
Decisão de não voltar ao país
A tomada de poder por Adolf Hitler surpreendeu Thomas Mann durante uma viagem de palestras pela Holanda, Bélgica e França. Ele decidiu então não mais voltar ao país. Ali começava seu exílio duradouro. "Não sonhei e não cantaram em meu berço que eu acabaria passando meus melhores dias como emigrante, banido de casa e condenado a um indispensável protesto político. Nasci mais para ser um representante do que para ser mártir", confessou.
Por muito tempo ainda, Thomas Mann continuou tentando através de seu silêncio evitar uma ruptura definitiva com o país e a quebra do contato com o público alemão. Apenas em 1936 ele tomou uma posição clara em relação ao regime. A gota d'água foi um texto publicado pelo diário suíço Neue Zürcher Zeitung, que tentava imprimir a Mann traços antissemitas.
Silenciar perante o mal irreparável?
Somente então Thomas Mann quebrou definitivamente seu silêncio: "Um escritor alemão, acostumado à responsabilidade através da língua, deve agora silenciar? Silenciar absolutamente perante o mal irreparável, que no meu país foi e é praticado em corpos, almas e espíritos, no direito e na verdade, na humanidade e na pessoa? Não foi possível. E assim vieram as manifestações de minha parte contra o programa nazista. Minhas posições contrárias a ele ficaram inevitavelmente claras, tendo levado ao absurdo e ridículo ato de meu expatriamento".
Após ter perdido a nacionalidade alemã em 2 de dezembro de 1936, Thomas Mann permaneceu no início na Suíça, emigrando mais tarde para os Estados Unidos. O Ministério de Esclarecimento Popular e Propaganda do regime nazista anunciava em janeiro de 1937: "Thomas Mann deve ser apagado da memória de todos os alemães, por não ser digno de carregar o nome de alemão".
Indignado, o escritor declarou a respeito dos nazistas: "Acusam-me de ter insultado a Alemanha, ao ter-me declarado contra ela? Eles têm a incrível ousadia de querer se confundir com a Alemanha. Talvez não esteja longe o dia em que o povo alemão vá preferir qualquer coisa menos ser confundido com eles".

DW.DE

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. ... Viver nem não é muito perigoso?"

- João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: veredas.
http://www.elfikurten.com.br/2013/05/joao-guimaraes-rosa-o-demiurgo-do-sertao.html

domingo, 1 de dezembro de 2013

Hiroshima, August 6th, 1945. The mushroom cloud, photographed approximately 1.6 miles from ground zero.


"Those of us who experienced all these hardships, we hope that such suffering will never be experienced again by our children and our grandchildren. Not only our children and grandchildren, but all future generations should not have to go through this tragedy. That is why I want young people to listen to our testimonies and to choose the right path, the path which leads to peace."


~ Yoshito Matsushige

os navios que nunca construí
aguardam

que desenhes o mar.

Kha Tembe.

sábado, 30 de novembro de 2013

Boy destroying a piano


Wales, Great Britain, 1961
Telefonaste para lembrar-me
de eu haver dito que o Nobel
devia ser recusado, porque
nem sempre é dado ao melhor.
Forgive me, aceito-o por medo.
Uma recompensa conspícua não ofende
ao contrário preserva das insídias
da desvalorização. Não esperes
um gesto de coragem de um velhote.
Os reconhecimentos chegam
sempre com atraso, quando parece
inútil até mesmo um título cobiçado.
O tempo dos eventos

é diverso do nosso. 


(Eugenio Montale - Diário Póstumo)


 

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente onde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não onde penso.
Só me posso sentar onde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra cousa,
E somos vadios do nosso corpo.


- Alberto Caeiro [Heterônimo de Fernando Pessoa], In Poemas Inconjuntos - In Poesia, Assírio e Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001


Confissão


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!


- Mario Quintana, in: Velório sem defunto, 1990.

O ofício de viver

O ofício de viver
Vou sempre além de mim mesmo
em teu dorso, ó verso.
O que não sou nasce em mim
e, máscara mais verdadeira
do que o rosto, toma conta
de meus símbolos terrestres.
Imaginação! teu véu
envolve humildes objetos
que na sombra resplandecem.
Vestíbulo do informulável,
poesia, és como a carne,
atrás de ti é que existes.
E as palavras são moedas.
Com elas, tudo compramos,
a árvore que nasce no espaço
e o mar que não escutamos,
formas tangíveis de um corpo
e a terra em que pisamos.

Se inventar é o meu destino,
invento e invento-me. Canto.

- Lêdo Ivo, in "Poesia Completa", 2004.
http://www.elfikurten.com.br/2013/04/ledo-ivo-uma-aventura-poetica.html

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

na szczęście
rodzice dali mi łatwopalne ciało
wystarczy odrobina benzyny
w lekkich fałdach sukienki

H. Poświatowska


Felizmente, meus pais me deram um corpo inflamável 
só um pouco de gasolina em dobras de luz vestidos


h. Poświatowska 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Talves poesia

Poemas e cores do sertão e do agreste
Contrastes de verticalidade gótica e de volúpias rasteiras,
rudezas do alto sertão e do agreste,
maciços de catingueiras
salpicadas
nos tempos de chuva de vermelhos
que são ao sol como pintas de sangue fresco,
e de amarelos vivos,
de roxos litúrgicos.
No verão chupadas pelo sol de todo esse sangue e de toda
[essa cor,
quase reduzidas
aos ossos dos cardos.
Paisagem animada de tantos verdes
tantos vermelhos, tantos roxos, tantos amarelos
em tufos, cachos, corolas e folhas
como os cachos rubros em que esplende a ibirapitanga e
[arde o mandacaru,
como as formas verdadeiramente heráldicas em que se
[ouriçam os quipás,
como as folhas em que se abrem os mamoeiros
e as manchas violáceas das coroas-de-frade.

- Gilberto Freyre, do livro “Talves poesia”, 1962.
http://www.elfikurten.com.br/2012/02/gilberto-freyre-o-mestre-de-apipucos.html
"A educação corrente e formal, simplificadora das realidades do mundo, subordinada à lógica dos negócios, subserviente às noções de sucesso, ensina um humanismo sem coragem, mais destinado a ser um corpo de doutrina independente do mundo real que nos cerca, condenado a ser um humanismo silente, ultrapassado, incapaz de atingir uma visão sintética das coisas que existem, quando o humanismo verdadeiro tem de ser constantemente renovado, para não ser conformista e poder dar resposta às aspirações efetivas da sociedade, necessárias ao trabalho permanente de recomposição do homem livre, para que ele se ponha à altura do seu tempo histórico."


- Milton Santos.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vietnã

 Wislawa Szymborska

Mulher, como você se chama? - Nao sei.
Quando voçê nasceu, de onde voçê vem? - Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra?- Nao sei.
Desde quando está aqui escondida?- Nao sei.
Por que mordeu meu dedo anular?- Nao sei.
Nao saber que nao te vamos fazer nenhum mal? - Nao sei.
De que lado voçê está? - Nao sei.
É a guerra, voçê tem que escolher.- Nao sei.
Tua aldeia ainda existe? - Nao sei.
Esses sao teus filhos? -Sao.


Traduçao: Regina Przybycien.

Los Adioses

"El sabía, porque yo se lo había dicho. Todos, los sanos y los otros, los que estaban de paso en el pueblo y los que aún podían convencerse de que estaban de paso, todos los que se dejaban sorprender por las fiestas como por un aguacero en descampado, los que habitan los hoteles y las monótonas casitas rojiblancas, todos adoptaban desde el atardecer de ambas vísperas, una forma de locura especial y tolerable. Y siempre las fechas les caían encima como una sorpresa; aunque hicieran planes y cálculos, aunque contaran los días, aunque previeran lo que iban a sentir y lucharan para evitar esta sensación o se abandonaran al deseo de anticipar e irla fortaleciendo para asegurarle una mayor potencia de crueldad. Tenían entonces algo de animales, perros, caballos, mezclaban una dócil aceptación de su destino y circunstancia con rebeldías y espantos, con mentirosas y salvajes intenciones de fuga.

(...)


Sabía que iban a estar gimiendo sin sonido bajo la música, los gritos, las detonaciones, teniendo sus orejas hacia supuestos llamados, de machos y hembras, de supuestas almas afines que se alzarían al otro lado de la selva, en Buenos Aires, o en Rosario, en cualquier nombre y distancia." In Los Adioses, JUAN CARLOS ONETTI, p. 58-59.

AINDA PENSO NAQUELA NOITE



pássaros se revoltam
o gavião ataca
Afonsina atravessa o mar
um pouco antes
ao anoitecer
Violeta dispara sua arma
a quietude se instala
em La Reina
mas os poetas não desistem
apesar do tiro no peito
apesar do cheiro de gás
apesar do mergulho
apesar do tamanho da queda
os pássaros ainda sobrevoam
o mundo
e o silêncio pesa
ao amanhecer

Lalo Arias


FUGA


Poema de Lera Auerbach

Estou coreografando

meu próprio descontentamento.

Os dias se acumulam

em vaidade seca e frugal,

complicando manobras

de mãos sempre em movimento,

pêndulo oscilante

do suicídio ao sacrifício,

do êxtase à gratidão

em todos os tons de cinza.

A fuga se acelera:

ainda lembro seu tema principal,

mas seu contra-sujeito me deixa

sem ar.

Esse contraponto é venenoso

em maiores quantidades,

e não tenho um antídoto

para essa música infecciosa.

Minha febre está subindo.

As pontas quentes dos meus dedos tocam

o corpo intocável da fuga —

ela não pode ser totalmente capturada

nas redes de notas e compassos,

ela foge, selvagem,

pelo riso indomesticável

de deuses e demônios, quem quer

que esteja vigiando as portas do som,

as quimeras lamuriantes

do céu e do inferno.

Olho para a chama negra.

Logo ela consumirá meus dias,

já congela meu coração,

e toma tudo o que ainda chamo de “meu”,

transformando em colheita seca

que queima — oh, tão intensamente —

até que já não seja

até que seja só cinzas,

até que retorne ao pó,

vire aquela nota silenciosa

depois do fim, mas logo

antes do aplauso

enquanto as mãos do maestro ainda seguram

as asas de uma frase musical

e a audiência segura a respiração

como que para não perturbar a mágica;

exceto por ninguém estar esperando

por mim do outro lado, não há

nenhum aplauso ou cumprimento, nem bravi,

mas apenas aquele momento de infinita

solidão

quando o som morre.


Tradução de Sofia Mariutti.