sábado, 19 de maio de 2012

Linhas de força de um gênio

A chegada às livrarias da Ficção Completa de Bruno Schulz (1892-1942), em tradução direta do polonês, renova o interesse por sua obra, que discute a preservação da ordem do mundo

18 de maio de 2012

UBIRATAN BRASIL – O Estado de S.Paulo

Mago que sabia transformar tudo em poesia, o polonês Bruno Schulz deixou uma obra curta mas intensa o suficiente para provocar a sensação de deslocamento e de falta de chão. As observações são de Henryk Siewierski, professor do Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília, mestre em filologia polonesa e doutor pela Universidade de Cracóvia, responsável pela tradução de Ficção Completa, volume lançado pela Cosac Naify no qual estão reunidos Lojas de Canela e Sanatório Sob o Signo da Clepsidra, livros de contos editados pela Imago nos anos 1980, além de quatro textos curtos inéditos no Brasil.

Escritor absolutamente original, além de inspirado desenhista, Schulz consegue vencer, na visão de Siewierski, a comparação com Kafka, autor de quem se distancia pela exuberante prosa poética, que contrasta com o estilo menos ousado do ficcionista checo. Fiel à investigação da palavra, Schulz construiu uma obra nutrida por um triângulo de culturas, a polonesa, a judaica e a alemã, com as quais conviveu intimamente até ser morto por um oficial nazista, em 1942. Sobre a difícil, mas fascinante, tarefa de traduzir direto do polonês o conjunto de escrito, Siewierski conversou com o Sabático.

A ficção de Schulz é muito comparada à de Kafka, como se observa em muitos ensaios. Você considera justa essa comparação? Como distingui-los?

Essas comparações resultam mais da vontade de situar Bruno Schulz num determinado contexto histórico e geográfico do que de uma análise da sua ficção. Porque apesar de certas convergências temáticas, são os universos e estilos artísticos bem diferentes. A exuberância poética da ficção de Schulz e seu riquíssimo imaginário divergem do estilo protocolar da prosa kafkiana. Se procurarmos as convergências, elas podem ser encontradas sim, mas no plano que aproxima os escritores cujas obras têm caráter universal, pela intensidade com que enfrentam o mistério da vida humana e sua inserção no drama da história. No seu posfácio à primeira tradução do Processo em polonês, o próprio Schulz sinaliza em que poderia consistir o parentesco entre os dois, quando fala que as obras de Kafka são uma realidade autônoma que, além das alusões místicas e religiosas, tem a sua própria vida poética, polissêmica, impenetrável, que nenhuma interpretação pode esgotar.

Existe algum aspecto da ficção de Schulz que você acredita não ser suficientemente enfatizado?

A obra de Schulz é muito estudada, principalmente na Polônia, mas não só. Por exemplo, um dos mais significativos livros sobre ela foi publicado na Suécia, On the Margins of Reality – The Paradoxes of Representation in Bruno Schulz’s Fiction, de Krzysztof Stala. Seria difícil apontar um aspecto da sua prosa que até agora não tivesse despertado o interesse da crítica. A cada dois anos é organizado em Drohobycz, cidade de Schulz, hoje na Ucrânia, um festival e um congresso que reúne os tradutores e estudiosos da sua obra do mundo inteiro. Tive a oportunidade de participar dos dois últimos e observar como é amplo o leque temático e problemático dos estudos schulzianos. Para o congresso deste ano, que ocorrerá em setembro, os organizadores propuseram como tema o pensamento crítico e teórico de Schulz, sua “filosofia da literatura”, considerando este aspecto da sua obra ainda pouco estudado. A “teoria” ou “filosofia” da literatura, embora por ele mesmo nunca sistematizada, pode ser reconstruída, principalmente a partir da sua obra ficcional. Existem também outras fontes como seus ensaios críticos e cartas, sem esquecer dos desenhos que se correspondem com a prosa. Já foi apontada a familiaridade da sua concepção da literatura com a tradição do realismo mágico e/ou maravilhoso. Mas ela talvez merecesse ainda um olhar mais preciso.

O que o senhor diria do senso de humor de Schulz que não é imediatamente evidente, mas que está presente em sua prosa?

Sim, o senso de humor é sem dúvida um dos traços característicos da prosa de Schulz. O humor faz com que a prosa ganhe uma boa dose de poesia. Não foi Edmond Jabès que disse “o humor é poesia, o cômico é prosa”? Vejamos, por exemplo, o conto O Segundo Outono, em que é apresentada uma teoria climatológica do Pai, segundo a qual, o outono tardio, que se prolonga até ao inverno, é o resultado da contaminação do clima pela arte barroca, acumulada nos museus da região. Não deixa de ser uma tentativa de aproximação entre a ciência e a poesia, mas ao mesmo tempo sentimos aqui um piscar de olho do narrador a dizer que este casamento não pode ser tomado muito a sério. Schulz foi um observador atento da ciência contemporânea, e percebia como os físicos e os filósofos do novo século iam aos poucos desmanchar a visão coesa e familiar do universo, situando o homem numa realidade fragmentada e caótica. Mesmo sabendo que não há retorno ao passado, ele procurava, assim como os neognósticos do século 20, reconstruir, unir o que foi desintegrado pela ciência, unir de novo numa estrutura mítica, universal, homens, coisas e signos. Porém, seria difícil considerar Schulz mais um representante da gnose contemporânea, justamente pelo seu distanciamento da seriedade dessas ambições holísticas e pelo caráter não confessional de suas ideias. A sua opção pelo sentido e contra o absurdo parece ter a ver com a convicção de que para salvar o sentido da sua vida, o homem tem que se desprender da seriedade paralisante e mortífera das teorias, e com um senso de humor – que é a poesia -, com uma boa dose de ternura, tentar religar as partes separadas do seu universo. O humor de Schulz tem várias faces, coexiste com o patético e o burlesco, leva ao limite da paródia, é lírico, mas também interage com a ironia tão presente na sua obra. Numa carta ao colega Stanislaw Witkiewicz, ele diz que nos seus livros reina “um clima próprio dos bastidores, atrás da cena, onde os atores, tirando os seus trajes, morrem de rir ao pensarem no patético dos seus papéis”.

Quais são os perigos e as armadilhas da tradução de sua obra em português? Qual o risco de perda de um tradutor?

Mais do que as armadilhas semânticas que aparecem, porque elas sempre aparecem na tradução literária devido às diferenças culturais e linguísticas, neste caso específico foi preciso ficar especialmente atento ao ritmo. Os períodos sintáticos longos compostos de orações subordinadas, ramificadas, emaranhadas mantêm-se unidos não só pelos recursos da sintaxe, mas também pelo ritmo, pela musicalidade, e perdê-los seria perder a alma dessa prosa. Outro perigo pode vir da ousadia e da originalidade das construções metafóricas. Elas podem parecer muito estranhas para o leitor da tradução, parecer até um tropeço do tradutor e, ele, pode sucumbir à tentação de domesticar o que é estranho. Mas a graça da tradução não seria justamente levar o leitor a outras regiões do imaginário, mesmo as que cheirassem heresia, fazer com que ele esteja surpreendido assim como é surpreendido o leitor do original? Porém, quando a questão não é só surpreender, mas também encantar, como o faz o original, não há como recorrer aos métodos ou roteiros preestabelecidos, tem que entrar em jogo a intuição e aquilo que é chamado a arte de tradução. Os perigos não faltam, por isso também a dívida que o tradutor tem com os revisores, os verdadeiros parceiros de tradução.

O que seria mais duradouro e convincente da ficção de Schulz?

O mundo desta ficção, bem ancorado na tradição da mitologia e da cultura, se apresenta ao leitor como uma variante própria e inconfundível desta herança. Ela resulta da uma transfiguração dos modelos e poéticas existentes num processo de criação de uma mitologia pessoal, bastante divertida, poeticamente exuberante, repleta de humor e de ironia, mas em que está em jogo a preservação do sentido do mundo diante dos processos de sua desintegração. É o que talvez torne esta ficção duradoura e se não convincente, pelo menos sedutora.

É possível explicar o motivo de Schulz escrever em polonês e não em iídiche?

Sim, é possível, mas se ele escrevesse em iídiche, também não seria difícil explicar o motivo. Na cidade de Lvov, próxima a Drohobycz, havia um meio literário judaico muito dinâmico que antes da 2.ª Guerra produziu muitas obras em iídiche. Por exemplo, a escritora Debora Vogel, amiga de Schulz, escrevia em polonês e em iídiche, e até em hebraico. Havia também escritores judeus que escreviam só em polonês. Schulz participava desse meio, identificava-se com ele, publicava alguns dos seus textos nas revistas judaicas. Ele nasceu e até os 16 anos viveu no império austro-húngaro, numa cidade pequena, mas cosmopolita. A irradiação de Viena fazia com que ele fosse bem familiarizado com a literatura da língua alemã. Falava tão bem alemão como polonês. Mas a identificação com a língua polonesa deve ter sido mais forte, não só porque em sua casa paterna se falava essa língua, mas contavam também a iniciação na sua literatura e cultura e, depois, as intensas relações com o meio literário polonês. Escrever em polonês não o impedia de lembrar e parafrasear o que na tradição judaica era mais significativo e mais universal, como o culto do Livro, como a autoridade do Pai. O trabalho do artista era uma tarefa messiânica que dava continuidade ao Livro. A última obra de Schulz, que se perdeu na guerra e até hoje não foi encontrada, tinha o título de O Messias.

Retorno ao sentido mítico

A gramática particular de Schulz é uma montagem de fragmentos de histórias eternas
18 de maio de 2012

LUIS S. KRAUSZ – O Estado SP

A publicação da obra completa de ficção de Bruno Schulz, que consiste das coletâneas de contos (que também podem ser lidas como romances) Sanatório sob o Signo da Clepsidra e Lojas de Canela, além de quatro contos avulsos, é um acontecimento da maior importância no cenário literário brasileiro. Venerado por escritores como Philip Roth, J.M. Coetzee, Cynthia Ozick e David Grossmann, que a ele dedicaram ensaios e reflexões, Schulz é um dos poucos nomes incontornáveis da literatura do século 20, ao lado de Franz Kafka, James Joyce e Marcel Proust. Mas sua estatura só foi reconhecida fora da Polônia postumamente. Para o pesar de todos que gostam de literatura, seu maior romance, intitulado O Messias, no qual trabalhava quando foi confinado pelos nazistas no gueto de sua cidade natal, Drohobycz (então Polônia, hoje Ucrânia), perdeu-se sob os escombros da 2.ª Guerra Mundial.

Sobreviveram, ainda, uns poucos ensaios, cartas e resenhas – que continuam inéditos em português.
No gueto de Drohobycz, Schulz foi protegido por um oficial alemão, para quem pintava afrescos – pintou, inclusive, um grande painel que decorava o clube da SS. E um rival desse oficial o matou, na rua, como ato de vingança. Seu prematuro desaparecimento representa, portanto, uma dupla tragédia: para além da vida humana que se perdeu da forma mais estúpida, o tiro disparado por este oficial também cravou uma lacuna profunda na literatura universal.

A prosa luminosa de Schulz partilha do poder inefável das antigas fórmulas encantatórias: as palavras, em sua obra de um lirismo absoluto, tornam-se signos de realidades esquecidas, numa poética de alta voltagem, concebida por alguém que partilhava de crenças cuja origem está nas antigas cosmogonias do Oriente Médio – como as cosmogonias bíblica e do antigo Egito – segundo as quais o mundo surgiu a partir da pronúncia de palavras.

Num breve ensaio intitulado A Mitificação da Realidade, Schulz postula que o ofício do escritor é reconduzir as palavras de volta ao seu sentido original, mítico. “A vida da palavra consiste no fato de que ela se espicha, em busca de milhares de associações, assim como o corpo esquartejado de uma serpente lendária cujos pedaços buscam um pelo outro, no escuro”, escreveu este autor de narrativas construídas a partir de pontas e de pedaços de mitos díspares, que criou uma bizarra mitologia do bricabraque, de um grande mercado de pulgas em que elementos das tradições bíblica, clássica, cristã e cabalística se confundem com episódios da vida cotidiana para desvelar realidades surpreendentes.

A mitologia particular de Schulz, então, é uma assemblage de fragmentos de histórias eternas – ou de pedaços de estátuas de deuses. Sua estética barroca, de demolição e de reagrupamento, lhe assegura o caráter sempre moderno, calcado na efemeridade dos significados, na desconstrução de todas as certezas e no movimento constante do princípio poético, representado entre uma forma e outra. O dinamismo inerente a cada palavra, que Schulz liberta, restituindo seu fulgor e vitalidade originais, transforma a leitura de suas obras num retorno ao intangível e ao misterioso, banidos do mundo numa época de amesquinhamento da consciência – que ele denomina nossa “era da pequenez” e à qual contrapõe a perdida “época da genialidade”.

Schulz nasceu há 120 anos, a 12 de julho de 1892, e sua Drohobycz natal era então uma cidade da Galícia, província do Império Austro-húngaro. Foi estudante universitário em Viena e filho de uma geração que acreditava na integração dos judeus no ecúmeno da monarquia habsburga – e que por isso mesmo rompera os laços com a tradição judaica. Forçado a abandonar os estudos de arquitetura por causa da 1.ª Guerra Mundial, tornou-se professor de desenho num colégio da cidade natal. Sua obra pictórica, hoje também bastante divulgada, retrata um universo sinistro cuja origem remonta ao imaginário de Goya.

Mesmo depois do desmembramento do império, em 1918, e da incorporação de Drohobycz à recém-criada república da Polônia, a cidade e boa parte de sua comunidade judaica continuaram como lugares cercados pela efígie do imperador Francisco José I. O império permaneceria na memória de sua família como signo de uma ordem inflexível, portadora de segurança, que foi rapidamente destruída no período entreguerras, tanto pelo desaparecimento das instituições monárquicas quanto pela descoberta de petróleo naquela região, que resultou num boom e colocou em xeque formas consagradas de vida e de sociabilidade. O crepúsculo da velha ordem coincidiu com a falência do comércio de seu pai, incapaz em adaptar-se às novas regras do jogo, precipitou a família na pobreza e levou o pai à loucura. Entrava em cena uma nova classe social, cegada por um projeto econômico tacanho e as consequências disso foram a vulgarização, a reificação e a banalização das relações sociais, bem como a transformação dos rituais solenes da velha classe mercantil num sistema de mero trânsito de mercadorias.

O desaparecimento do caráter na ordem social e sua substituição pelos simulacros vazios delineiam a perturbadora realidade subjacente às narrativas de Schulz onde, não por acaso, os manequins, as aves empalhadas e as figuras de cera são presenças constantes enquanto o pai que definha constela a impossibilidade do retorno das coisas à origem de suas existências. Os expedientes manipulativos que substituíram a dignidade das antigas instituições são por ele contrapostos aos restos de um universo desaparecido, onde cada atividade humana tinha um significado cósmico, isto é, em que cada trabalho era também um “estado”, uma atividade misteriosa, reservada a iniciados e, como tal, um ritual de comunhão com o invisível.

Na estética expressionista de Schulz, a dilatação do tempo e a dissecação dos mínimos gestos são recursos narrativos frequentes. Em suas mãos, um instante transforma-se em metáfora de uma estação inteira. É o que ocorre, por exemplo, no conto Outono, uma meditação sobre os presságios que pairam no ar quando a falência do verão já se torna irreversível, uma memória da era em que a vida transcorria em harmonia com as épocas do ano, e uma constatação da impossibilidade de se capturar o tempo. Em República dos Sonhos, outro dos contos inéditos no Brasil, Schulz contempla o território metafísico que é a fonte de sua poética – um universo cravado às margens do mundo, que é também uma terra prometida e uma cidade celestial, a partir da qual se relativizam todos os termos da realidade. O Cometa, que recorda a passagem do cometa de Halley, em 1910, se volta com ironia mordaz (como Lojas de Canela) sobre o universo da casa paterna, perpassado pelos encantos de uma civilização que não parece ter contradições com a natureza rebelde, mas que está prestes a sucumbir à era dos milagres da tecnologia e ao barateamento dos valores, quando “o condutor elétrico passa a abrir caminho ao coração das mulheres”. A Pátria, de estrutura bem mais tradicional do que as outras narrativas conhecidas de Schulz, tematiza o exílio dos egressos de mundos em extinção e antevê a náusea do assim chamado “mundo desenvolvido”: o protagonista, que subitamente ascende dos porões da nave social para as altas esferas, respira, até enjoar-se, a atmosfera sobrecarregada da prosperidade.

Assim, as diferenças entre a vida sob o signo do mito e a vida profana, sob o signo da moeda, estão no cerne das narrativas de Schulz. É sobre essas disparidades que ele constrói um dos episódios mais queridos de Lojas de Canela, ao comparar a mal-afamada Rua dos Crocodilos, com seus gestos vazios, seu caráter ambíguo e suas fachadas que são caricaturas de si mesmas, aos remanescentes do comércio secreto de um outro tempo. Já as províncias distantes, presas ao imobilismo da sociedade de raiz medieval, descritas em tom nostálgico em O Sanatório sob o Signo da Clepsidra, são signos de uma existência que espelha uma ordem superior, determinada pela experiência do sagrado e por hierarquias imutáveis.

A criação poética de Schulz, assim, é também um ritual de recolha dos escombros gerados pela marcha da história, e um retorno ao mito como forma de reparar aquilo que a humanidade arruinou com o sonho do progresso e a obsessão pelo futuro. Ao preservar o legado de um cosmo intocado pelas forças que acirraram a condição de alienação da humanidade, ele criou antídotos para a malaise de seu tempo – talvez também a do nosso tempo.

LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E AUTOR DE RITUAIS CREPUSCULARES: JOSEPH ROTH E A NOSTALGIA AUSTRO-JUDIACA (EDUSP) E DESTERRO: MEMÓRIAS EM RUÍNAS (TORDESILHAS), ENTRE OUTROS TÍTULOS

An die musik de Schubert

Dietrich Fischer Dieskau

Du holde Kunst, in wieviel grauen Stunden
Wo mich des Lebens wilder Kreis umstrickt,
Hast du mein Herz zu warmer Lieb entzünden,
Hast mich in eine bess’re Welt entrückt,
In eine bess’re Welt entrückt

Oft hat ein Seufzer, deiner Harf’ entflossen,
Ein süsser heiliger Akkord von dir
Den Himmel bess’rer Zeiten mir erschlossen,
Du holde Kunst,ich danke dir dafür,
Du holde Kunst, ich danke dir!

Español

¡Oh, arte benévolo, en cuántas horas sombrías,
cuando me atenaza el círculo feroz de la vida,
has inflamado mi corazón con un cálido amor,
me has conducido hacia un mundo mejor!

Con frecuencia se ha escapado un suspiro de tu arpa,
un dulce y sagrado acorde tuyo
me ha abierto el cielo de tiempos mejores.
¡Oh, arte benévolo, te doy las gracias por ello!
O amor-próprio é coisa fácil: resultante do instinto de conservação, os próprios animais o conheceriam se fossem um nada pervertidos. O que é mais difícil, aquilo que só o homem é
capaz: o ódio por si próprio.

(Emil Cioran; "A tentação de existir")

terça-feira, 8 de maio de 2012

"Que maravilha em nossa linda Guanabara
tudo enguiça, tudo para
todo trânsito engarrafa
quem tiver pressa
seja velho ou seja moço
entre na água até o pescoço e
peça a Deus pra ser girafa "

Moreira da Silva (Kid Morangueira )

Canção em trezenas

Letícia Palmeira – Escritoras Suicidas

Dispa-me no escuro. Em disparate do absurdo. Sangra em minha boca de amor e fé. No escuro nada vejo, mas sinto em lampejos o que posso alcançar. Mapeio em linhas transversais seu corpo que me quer. Corpo do homem cuja fera é tão cega que a ausência de luz não faz corar. E eu me alegro tenra de temor por não ver e por querer tão completamente sem razão sua mão sobre a minha em toda escuridão. Roubaram-me a visão e o dia é escuro e é triste e quase negro de pavor. Eu amo tanto e choro em pranto e tateio em busca da criatura que me rodeia e me faz abrir a vida em flor. Que será dor? Que será cura? Que será luz para a mulher que enfim enxerga o nocivo efeito de um homem sem amor?

Letícia Palmeira é graduada em Letras com Licenciatura em Língua Inglesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu na cidade de São Paulo, onde passou boa parte de sua infância e agora reside em João Pessoa, cidade em que leciona Língua Inglesa na rede privada de ensino. Cronista e contista, trabalha com prosa poética. Escreve os blogues Afeto Literário e Lírica Subversiva. Publicou Artesã de Ilusórios (EDUFPB – 2009)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

EL PLEBEYO (VALS PERUANO)

Letra de Felipe Pinglo Alva

El verdadero nombre de este vals peruano lleno de contenido social es “Luis Enrique, el Plebeyo” su contenido poetico y sus ricos matices armonicos lo hacen muy popular en la decada de los cuarenta hasta nuestros dias, pasando a ser junto con la “Flor de la Canela” de la inolvidable Chabuca Granda los valses peruanos de mayor difusion en el mundo. Su autor y compositor lo crea en 1930, y fallece en 1936 a la edad de 35 años sin llegar a conocer la importancia de su obra, y su difusion mundial que empezo despues de su muerte…entre sus obras musicales se cuentan “El Espejo de mi vida”, “El huerto de mi amada”, “Bouquet”, “La Oracion del Labriego”, “Pasion y Odio” entre otros de su copiosa produccion, hechas en el genero de vals peruano. Aqui le presentamos la letra completa con su segunda parte muy poco difundida porque en los inicios de las grabaciones en discos de 78 rpm se mutilaban las letras por los tres minutos de grabacion, en la acualidad y con los discos compactos recien muchos cantanes y conjuntos graban sus obras completas. En el Peru María de Jesus Vasquez fue la interprete pinglista mas reconocida con el trio Los Morochucos, en la argentina existen grabaciones importantes de Héctor Stamponi y su orquesta, Miguel Calo y su orquesta, Argentino Ledesma y recientemente Ana Medrano…En Mexico el idolo de multitudes Pedro Infante lo tiene en su discografia con el Trio Argentino…una
Joya!…Las Hermanas Lago de Cuba, Palmenia Pizarro de Chile, Julio Jaramillo de Ecuador,Carmita Jimenez y Daniel Santos de Puerto Rico, Luis Alberto Posada y Elenita Vargas de Colombia, Luis Alberto del Parana de Paraguay son los que han homenajeado a este poeta musical del Peru…Felipe Pinglo Alva es considerado el Maestro de los Autores y compositores del Peru con con toda justicia.

Letra:

La noche cubre ya con su negro crepón
de la ciudad las calles que cruzan las gentes
con pausada acción.
La luz artificial con débil proyección
propicia la penumbra que escondde en su sombra
venganza y traición.

Después de laborar vuelve a su humilde hogar
Luis Enrique, el plebeyo,el hijo del pueblo,
el hombre que supo amar
y que sufriendo está esa infamante ley
de amar a una aristócrata, siendo plebeyo él.

Trémulo de emoción dice así en su canción:
El amor siendo humano tiene algo de divino,
amar no es un delito porque hasta Dios amó
y si el cariño es puro y el deseo sincero
Por qué robarme quieren la fe del corazón?
Mi sangre aunque plebeya también tiñe de rojo
el alma en que se anida mi incomparable amor;
ella de noble cuna y yo humilde plebeyo,
no es distinta la sangre ni es otro el corazón
Señor, por qué los seres no son de igual valor?

Así en duelo mortal, abolengo y pasión
en silenciosa lucha, condenarnos suelen
a cruento dolor,
al ver que un querer porque plebeyo es,
delinque si pretende la enguantada mano
de fina mujer.
El corazón que ve dhestruído su ideal
reacciona y se refleja en franca rebeldía
cambiando su humilde faz;
el plebeyo de ayer es el rebelde de hoy
que por doquier pregona la igualdad en el amor.

El interés y El plebeyo

Vals

Autoría: David A. Suárez

Es el oro el que ablanda corazones,
es el oro el que ablanda corazones
¿Por qué soy pobre y humilde como soy?
En este mundo todo se avalora
y los sentimientos nada valen hoy;
en este mundo todo se avalora
y los sentimientos nada valen hoy.

Si te hablo de mi amor no me haces caso
porque soy pobre y humilde como soy;
espera pues que yo me vuelva rico,
entonces sí, me brindarás tu amor;
espera pues que yo me vuelva rico,
entonces sí, me brindarás tu amor.

La propuesta del pobre no es propuesta,
la propuesta del pobre no es propuesta,
la del rico dichosa ha de ser;
“no hay derecho de amar en la pobreza”
fue lo que llorando me dijo una mujer;
“no hay derecho de amar en la pobreza”
fue lo que llorando me dijo una mujer

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O malandro arrependido

Georges Brassens

Ela tinha uma cintura bem torneada
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.

Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.

Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,

Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.

Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.

Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?

Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.

Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.

Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!

Georges Brassens, 1952

LE MAUVAIS SUJET REPENTI

Elle avait la taille faite au tour,
Les hanches pleines, Et chassait le mâle aux alentours
De la Madeleine…
A sa façon de me dire: “Mon rat,
Est-ce que je te tente?”
Je vis que j’avais affaire à
Une débutante…

L’avait le don, c’est vrai, j’en conviens,
L’avait le génie,
Mais sans technique, un don n’est rien
Qu’une sale manie…
Certes, on ne se fait pas putain
Comme on se fait nonne.
C’est du moins ce qu’on prêche, en latin,
A la Sorbonne…

Me sentant rempli de pitié
Pour la donzelle,
Je lui enseignai, de son métier,
Les petites ficelles…
Je lui enseignai le moyen de bientôt
Faire fortune,
En bougeant l’endroit où le dos
Ressemble à la lune…

Car, dans l’art de faire le trottoir,
Je le confesse,
Le difficile est de bien savoir
Jouer des fesses…
On ne tortille pas son popotin
De la même manière,
Pour un droguiste, un sacristain,
Un fonctionnaire…

Rapidement instruite par
Mes bons offices,
Elle m’investit d’une part
De ses bénéfices…
On s’aida mutuellement,
Comme dit le poète.
Elle était le corps, naturellement,
Puis moi la tête…

Un soir, à la suite de
Manoeuvres douteuses,
Elle tomba victime d’une
Maladie honteuses…
Lors, en tout bien, toute amitié,
En fille probe,
Elle me passa la moitié
De ses microbes…

Après des injections aiguës
D’antiseptique,
J’abandonnai le métier de cocu
Systématique…
Elle eut beau pousser des sanglots,
Braire à tue-tête,
Comme je n’étais qu’un salaud,
Je me fis honnête…

Sitôt privée de ma tutelle,
Ma pauvre amie
Courut essuyer du bordel
Les infamies…
Paraît qu’elle se vend même à des flics,
Quelle décadence!
Y’a plus de moralité publique
Dans notre France…..

El mal sujeto arrepentido

Tenía la cintura redondeada,
Las caderas llenas,
Y cazaba al varón en los alrededores
De la Madeleine …
Desde su manera de decirme: “Mi ratoncito,
¿Te tiento?”
Vi que tenía que ver con
Una debutante …
Tenía el don, es verdad, estoy de acuerdo,
Tenía el talento,
Pero sin técnica, un don no es nada más
Que una maldita manía …
Claro, una no se hace puta
Como se hace monja.
Por lo menos esto es lo qué se predica, en latín,
A la Sorbona …
Sintiéndome lleno de piedad
Para la doncella,
Le enseñé de su oficio
Los pequeños trucos
Le enseñé la manera de hacer
Pronto fortuna
Sacudiendo el lugar donde la espalda
Parece la luna
Porque, en el arte de hacer la calle,
Lo confieso,
Lo difícil es saber bien
Jugar de nalgas …
No se menea el pompis
De la misma manera.
Por un especiero, un sacristán,
Un funcionario …
Rapidamente instruida por
Mis buenos oficios,
Me invistió de una parte
De sus beneficios …
Nos ayudábamos recíprocamente
Como dice el poeta.
Ella era el cuerpo, por supuesto,
Y yo la cabeza …
Una tarde, a consecuencia de
Maniobras discutibles,
Ella se cayó víctima de una
Enfermedad vergonzosa …
Entonces, en todo bien, en toda amistad,
Siendo una muchacha honesta,
Me pasó la mitad
De sus microbios …
Después de inyecciones agudas,
De antiséptico,
Abandoné el oficio de cornudo
Sistemático …
E aun si ella suspiró mucho,
Y berreó a pleno pulmón.
Ya que yo no era nada más que un cabrón
Me hice honesto …
Apenas privada de mi tutela
Mi pobre amiga
Corrió a padecer del burdel
Las infamias …
Parece que ella se venda incluso a los polis,
¡Qué decadencia…!
No hay más moralidad pública
En nuestra Francia

Me hice chiquito

(Georges Brassens)

Quitarme el sombrero: eso jamás ante una dama.
Hoy le hago piruetas y mucho más cuando me llama.
Fui un perro feroz, me da de comer en su manito
y mis dientes largos los convirtió en dientecitos.

Por una muñeca me hice chiquito
al acostarla cierra los ojos.
Por una muñeca me hice chiquito,
dice mamá cuando la toco.

Yo fui un desalmado y me transformó
esta mosquita, caí calentito doradito en su boquita,
dientes de pequeña al sonreír y cuando canta colmillos
de loba, si se enoja a mí espanta.

Yo acepto su ley y me porto bien bajo su imperio
aunque sea celosa que es de temer y no hay remedio.
Una lolita que me pareció mucho más bella,
la pobre lolita hasta ahí llegó, la mató ella.

Los magos que leen el porvenir, ya me lo han dicho:
sus brazos en cruz serán el altar de mi suplicio.
Mejores las hay, peores tal vez, al fin y al cabo.
Que me cuelgue aquí, que me cuelgue allá, moriré ahorcado.

Fiz-me muito pequeno

Je me suis fait tout petit – Georges Brassens

Je n’avait jamais ôté mon chapeau
Devant personne
Maintenant je rampe et je fait le beau
Quand elle me sonne
J’étais chien méchant elle me fait manger
Dans sa menotte
J’avais des dents de loup, je les ai changées
Pour des quenottes!

Nunca tinha tirado o meu chapéu
para ninguém
Agora rastejo e faço habilidades
quando ela me chama
Era um cão vadio agora ela faz-me comer
com as suas algemas
Tinha dentes de lobo e mudei-os
para dentes de leite
Je me suis fait tout petit devant une poupée
Qui ferme les yeux quand on la couche
Je me suis fait tout petit devant une poupée
Qui fait Maman quand on la touche.

Fiz-me muito pequeno face a uma boneca
Que fecha os olhos quando a deitamos
Fiz-me muito pequeno face a uma boneca
Que diz mamã quando a tocamos

J’étais dur à cuire elle m’a converti
La fine mouche
Et je suis tombé tout chaud, tout rôti
Contre sa bouche
Qui a des dents de lait quand elle sourit
Quand elle chante
Et des dents de loup, quand elle est furie
Qu’elle est méchante.

Eu não era pêra doce mas ela converteu-me
a velha raposa
e caí quente e pronto a comer
contra a sua boca
que tem dentes de leite quando sorri
quando canta
e dentes de lobo quando está furiosa
quando é maldosa

Je subis sa loi, je file tout doux
Sous son empire
Bien qu’elle soit jalouse au-delà de tout
Et même pire
Une jolie pervenche qui m’avait paru
Plus jolie qu’elle
Une jolie pervenche un jour en mourut
A coup d’ombrelle.

Respeito as suas leis, sou cordeiro manso
sobre as suas ordens
Mesmo que ela seja ciumenta acima de tudo
e mesmo pior
Uma bela murta que me havia parecido
mais bela que ela
Uma bela murta um dia morreu
a golpes de guarda-chuva

Tous les somnambules, tous les mages m’ont
Dit sans malice
Qu’en ses bras en croix, je subirais mon
Dernier supplice
Il en est de pires il en est de meilleures
Mais à tout prendre
Qu’on se pende ici, qu’on se pende ailleurs
S’il faut se pendre.

Todos os sonâmbulos, todos os mágicos
disseram-me sem malícia
que nos seus braços em cruz
passarei meu ultimo suplício
Há piores, Há melhores
mas já que é preciso
que nos enforquemos aqui, melhor aqui que ali
se é mesmo necessária a forca

terça-feira, 10 de abril de 2012

Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.

Ana Cristina Cesar

A teus pés, Editora Brasiliense, 1997 – São Paulo, Brasil

domingo, 8 de abril de 2012

Vorstellung(alemão ) : disfarce, dissimulação, fingimento; a representação no sentido psicológico como teatral.
"O medo é um sentimento que nos inspira a possibilidade real de sermos afetados por um mal real, por um mal que conhecemos pela experiência . "

Thomas Hobbes

sábado, 7 de abril de 2012

Atento às linhas do horizonte
ao alfabeto casual das árvores
o camponês lê as ovelhas
arrancando vírgulas da tarde
Um pássaro de papel
Sofre no canto do quintal
Malfeitas as dobraduras
asas não levam a nada
A lavadeira aproveita
a tarde vagarosa e triste
com as mãos na água
lava suas mágoas.

Fernando Paixão . Portugal
Hoje um flato mal disfarçado, amanhã um ligeiro transbordamento de humor bilioso, em seguida uma cólica desmoralizadora, e em breve o marido já não se esforça por esconder os seus calos e a sua dispepsia.

Aluísio de Azevedo.
O Livro de uma sogra
"Um homem com um espelho
enterrado no corpo
na verdade não dorme:reflete
um voo.
Enfim, esse homem
não pode falar alto demais
porque os espelhos só guardam
(em seu abismo)
imagens sem barulho. "

Ferreira Gullar
O Espelho do Guarda Roupa.
Gift(Dinamarquês): Casamento, veneno.

Amor e Morte

Guiei meu orgasmo contra todos os silêncios
e ressuscitei nos altos de uma encantação explodida
nos meus inumeráveis túmulos abertos
entre as abertas coxas da mulher amada.

Moacir Felix
Penúltimos Poemas