segunda-feira, 8 de agosto de 2011

dizem que a mentira


tem pernas curtas



(nunca reparei se é verdade)



...agora, a saudade

afirmo sem medo de errar



tem pernas lindas

Rogerio Santos

malandro que é poeta


decanta sua terra

mesmo sufocada

por cimento e asfalto

...

usa chapéu de amianto

pra não esquentar a cabeça

e vira o pescoço

quando a gostosa passa



pulmão fiél depositário

de todo tipo de rata

fuligem e fuleragem



fígado acebolado

no balcão do boteco

copo americano

de cerveja gelada



barata



Rogerio Santos

http://www.youtube.com/watch?v=JVRNDJU5GQY


O Nacionalismo Crítico de Lima Barreto

Quando o modernista mário de Andrade colocou nos lábios de Macunaíma o bordão "muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são" , estava estabelecendo o diálogo (intertextualidade) com Lima Barreto. o "Herói sem nenhum caráter", metonimização do povo brasileiro, formado pela miscigenação do branco europeu com o negro africano mais o índio brasileiro, desmistificava a homogeneidade étnico-cultural apregoada pelo convenientemente ingênuo nacionalismo romântico, retomado do ufanismo com que a literatura de informação tingia a terra brasilis, em inconfessável intenção de colonização da terra recém-descoberta(!). Macunaíma, paráfrase antiética de Iracema, e um composto de sensualismo, preguiça e retórica política, antecipa o proverbial "jeitinho brasileiro ' e personifica o oportunismo casuísta que se tornara encalacrado em certas esferas. Policarpo Quaresma, por sua vez, é a cáustica encarnação dos ideais românticos, num personagem-caricatura excessivamente visionário e acrítico. Seu idealismo se choca contra os impedimentos de uma máquina político-administrativa emperrada , e seu pueril patriotismo adentra as raias do picaresco e absurdo. Suas propostas de reforma agrária acabam erodindo numa terra que não confirma o "...em se plantando , tudo dá " , e as formigas que lhe comem as plantações serão , mais tarde, retomadas pelo bordão de Macunaíma.

Entretanto, Lima Barreto, com policarpo Quaresma, tematiza a necessidade de reavaliar o ingênuo nacionalismo romântico.Pelo processo especular que posiciona o autor ante o narrador, este vai assumir uma caracterização irônica, evidenciando-se, assim, o nacionalismo crítico. Desse modo, Lima Barreto cria situações , na esfera da narrativa, se tornam cõmicase, na esfera do referente real, trágicas. na cegueira deste nosso Dom Quixote Tupiniquim, denunciam-se tragédias nacionais: a falta de uma política agrária, a conivência do generalato, os oportunismos eleiçoeiros, os casuísmos políticos, o paternalismo de um Brasil recém-egresso doImpério. essa tragicidade transparece também na proposta de Quaresma, quando defende a adoção do tupi como língua oficial do Brasil. se a proposta de Policarpo nos parece picaresca, não é cõmica a crítica à adesão aos padrões sócio-culturais europeus. a crítica de Barreto consta na própria escolha da linguagem, que, por retratar a língua viva com seus solecismos, lhe granjeou os ataques dos lusófilos.

O mulato Lima Barreto, sintomaticamente, nasceu em 1881, ano em que o também mulato machado de Assis introduzia o realismo em nossas letras, com Memórias póstumas de Brás Cubas, e Aluísio de Azevedo introduzia o naturalismo com , vejam só, O Mulato. Sintomaticamente, ainda faleceu em 1922, ano em que marca o início do Modernismo. Qualificar lima Barreto como pré-moderno, portanto, é mais do que uma simples inserção cronológica; é, na verdade, aquietar a necessidade de enquadramento de um autor que é atemporal, aquele que pôde "inaugurar revolucionariamente a fase do romance moderno no Brasil", conforme Francisco de Assis Barbosa.

Adão de Araújo.
Professor de Literatura Brasileira UFPR.

Fonte:"O Grito " número 3.Janeiro de 1999.CaHis.UFPR

Morte do coração

O inverno brada
forçando as portas...
oh que revoada
de folhas mortas
O vento espalha
Por sobre o chão...
(É tua mortalha,
coração !

Alphonsus de Guimarães
O céu não ficou logo claro; mas o vento amainou,
e era de esperar que o sol se desfizesse enfim
do seu capote de nuvens.

Machado de Assis

domingo, 7 de agosto de 2011

POEMAS SÃO COMO VITRAIS PINTADOS

Poemas são como vitrais pintados !

Se olharmos da praça para a igreja,

Tudo é escuro e sombrio;

E é assim que o Senhor Burguês os vê.

Ficará agastado ? – Que lhe preste !...

E agastado fique toda a vida !





Mas – vamos ! – vinde vós cá para dentro,

Saudai a sagrada capela !

De repente tudo é claro de cores:

Súbito brilham histórias e ornatos;

Sente-se um presságio neste esplendor nobre;

Isto, sim, que é pra vós, filhos de Deus !

Edificai-vos, regalai os olhos !


Johann Wolfgang von Goethe
Tradução: Paulo Quintela

ESCADAS

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas; conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
– o peito
estreito –
o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror !
Mas de que jeito,
Mas como pode ser.
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso ?
Além disso não têm, pelo dizem nenhuma acústica...
Oh ! Não há como as escadarias daqueles antigos
edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
– nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em
direção ao teu quarto
E 'sabes' que é um fantasma chamejante e fosfóreo
– o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes !
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
– o quanto antes !
Naquelas podres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada a baixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vem descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não ! Este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse !?
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...
 
Mário Quintana

ARQUITETURA FUNCIONAL

Para Fernando Corona e Antonieta Barone




Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas.
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas.
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma... tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje !
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não tem porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho ?
O sonho é sempre um hospede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas ?)
É preciso ocultá-lo das outras pessoas da casa.
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras cousas...)
E as casa novas não tem ao menos aqueles longos,
intermináveis corredores
Que a lua vinha às vezes assombrar !




Mário Quintana


Fonte: Revista Viver Cidades
Era desejo?-credo!De tísicas ?
Por histeria...quem sabe lá ?
A dama tinha caprichos físicos
era uma estranha vulgívaga
Ao pobre amante que a queria,
se furtava sarcástica
com uns perjurava, com outros fria,
Com outros má.

Manuel Bandeira

Envelhecer

Antes todos os caminhos iam
Agora todos os caminhos vêm
A casa acolhedora, os livros poucos
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mário Quintana

Pudor

A teus dotes qual mais encantador
tu ajuntas, amável criatura
Um para mim de todos o maior,
e que até embeleza a formosura:
o pudor.

Safo
Esta iglesia no tiene campanarios votivos
no tiene candelabros, ni ceras amarillas
no necessita el alma de vitrales ogivos
para besar las hostias y rezar de rodillas.

Pablo Neruda
Eu sou carvão !
e tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina patrão.

José Craveirinha
Graniza tánto, como para que yo recuerde
y acreciente las perlas
que he recogido del hocico mismo
de cada tempestad.

Cezar Vallejo

Sobre a morte

Morrer é um mal.Os deuses
que estabeleceram esta lei morreriam também
se morrer fosse um bem.

Safo

The Wast Land

Deixando atrás de mim a árida planície
terei ao menos minhas terras posto em ordem ?
A ponte de Londres está caindo, caindo, caindo
Pois s'ascose nel foco che gli affina
quando fiam uti chelidom ó andorinha, andorinha
com fragmentos tais foi que escorei minhas ruínas
pois então vos conforto. Jerônimo outra vez enlouqueceu.
Datta.dayadhvam.damyata
shantih shantih shantih

T.S.Eliot

sábado, 6 de agosto de 2011

Chopin Waltz L'adieu Opus 69 No. 1 in A flat Major by Tzvi Erez, HQ

A outra

Quem é voc , íntima outra ? As horas do seu corpo
fazem a eternidade.
                            Juan Gelman
"Um poema es una entidad vital mucho más orgánica que un ser orgánico en la naturaleza. A un animal se le amputa un miembro y sigue viviendo; a un vegetal se le corta una rama o una sección del tallo y sigue viviendo ; e a un poema se le amputa un verso , una palavra , una letra , un signo ortográfico, muere . "

Cesár Vallejo