segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
A morte épica do leão
Em seu bonito poema sobre a morte de Tolstoi, Mario Quintana errou por dois anos a idade do defunto (que já tinha 82), mas acertou no fundamental: o “grande Velho” talvez tenha morrido feliz, por haver concretizado, enfim, um sonho de infância: fugir de casa. O Conde Leão Tolstoi apagou de vez sob o teto do chefe da estação de trem da modesta Astapovo, que há 90 anos leva o nome de quem a tornou mundialmente conhecida. Fugia de casa, da mulher, dos adulões, em busca de uma reclusão monacal, mas não viajou nem morreu sozinho, abandonado num dos “bancos lustrosos” da gare, aludidos por Quintana. Com ele estavam seu médico particular e Sasha, a filha caçula.
Seria impossível ao mais célebre e cultuado russo daquele tempo desaparecer discreta e solitariamente. Muito menos em meio a uma fuga que, tão logo iniciada, dez dias antes, transformara-se numa épica caçada internacional, com a participação de jornalistas de toda a Europa. Tolstoi sucumbiu às consequências de uma pneumonia, ao raiar o dia 20 de novembro de 1910, às 6h05, hora que para sempre ficou congelada nos relógios da gare de Astapovo. Uma multidão acompanhou o velório, o cortejo, o enterro e, antes disso, a tumultuosa chegada de Sofia, a esposa abandonada, a quem só permitiram ver de perto o marido quando ele já estava inconsciente.
A morte de Tolstoi foi o primeiro grande evento midiático da Rússia acompanhado por câmeras fotográficas e cinematográficas, relatado por telegramas e imagens de cinejornais, as primeiras das quais chegaram a Paris em apenas 48 horas, com o selo da Pathé Films. Até hoje o circo que se armou em Astapovo é motivo de curiosidade e inspiração para historiadores (vide The Death of Tolstoy, de William Nickell, lançado em maio) e até ficcionistas, que o consideram o marco divisório entre a Rússia czarista que então definhava e a Rússia moderna que sete anos depois surgiria no rastro da revolução bolchevique.
Em 1917, o correspondente em Moscou do New York Times atribuiu a sublevação comunista aos “tolstoístas”, fanáticos seguidores das ideias vagamente “de esquerda” do escritor, tolice só em parte desculpável pelo pouco que se conhecia dos bolcheviques, ainda vistos por observadores de fora como uma malta de mujiques ripongas. O czar Nicolau pôs o escritor sob a vigilância de seus secretas, tentou censurar seus escritos e boicotar seu funeral, Lenin viu em sua obra um reflexo dos ideais revolucionários comunistas, mas a influência de Tolstoi e sua morte sobre os acontecimentos que culminaram com a tomada do poder pelos bolcheviques foi sobretudo (ou apenas) simbólica.
Em sua notável estreia na ficção, The Comisariat of Enlightment: A Novel (O Comissariado das Luzes: Um Romance), Ken Kalfus reconstitui a Revolução de Outubro e a posterior doutrinação em massa do povo russo por Lenin e Stalin a partir do frenesi jornalístico que sacudiu a mansidão de Astapovo, na terceira semana de novembro de 1910. No mesmo vagão de um trem, Kalfus alojou um cinegrafista russo, Kolya Gribshin, subordinado a Georges Meyer, o verdadeiro cameraman encarregado pela Pathé de cobrir a chegada de Sofia a Astapovo, o correspondente de um jornal britânico e o anatomista Vladimir Vorobev, a quem mais tarde caberia embalsamar Lenin e Stalin.
O romance, lançado em 2004, é uma tragicomédia com personagens reais e imaginários, na qual Sofia, rompendo com o clichê, não é reduzida a uma mulher impossível, a uma louca insuportável que Tolstoi já deixou tarde. São grandes as suspeitas de que ela, sra. Tolstoi durante 48 anos, tenha sido injustiçada pelos que se ocuparam de manter o escritor, imaculado, num pedestal messiânico. Ambos tinham defeitos, mas por que tanta intransigência com uma mulher que afinal pariu 13 filhos do conde, serviu-lhe de copista e resignou-se a aturar o isolamento rural, o estilo de vida espartano e o vegetarianismo por ele impostos ao casal, mais as hostilidades de Chertkov, assistente e xodó do escritor, e as constantes romarias de tietes até o retiro de Iasia Poliana?
Os diários de Sofia, só há pouco divulgados, e as recentes biografias escritas por Rosamund Bartlett (sobre Tolstoi) e Alexandra Popoff (sobre Sofia), nos revelam uma mulher bem diferente daquela a quem até já acusaram de haver envenenado o marido. Em outro expressivo début literário, The Possessed: Adventures with Russian Books (Os Possuídos: Aventuras com Romances Russos), publicado no início deste ano, a americana de origem turca Elif Batuman levanta a tese de que Tolstoi teria sido assassinado, mas não incrimina Sofia. Os “possessed” do título são uma referência aos “demônios” de Dostoievski, que na canônica tradução de Constance Garnett para o inglês viraram “possuídos”.
Batuman concentra suas suspeitas nas ameaças por carta que Tolstoi recebeu, em 1897, por haver defendido os religiosos de uma seita camponesa. Mas, a despeito das perseguições que a Igreja Ortodoxa e o czar lhe moveram, a tese de assassinato não se sustenta sob o peso da idade e do histórico cardíaco do escritor. Se não morreu feliz, tranquilo desta Tolstoi se foi, pois já se sabia imortal. Um mês depois, segundo Virginia Woolf, “o ser humano” mudou e o modernismo nasceu. Tolstoi desdenhava os modernistas, que no entanto muito lhe devem. Seus monólogos interiores anteciparam o fluxo de consciência de Joyce. Também em suas obras brotou o distanciamento crítico de Brecht. O leão do realismo literário fechou um passado e abriu um futuro.
Sergio Augusto
Prosa de Sábado-O Estado de S.Paulo
O elogio puro da beleza fugaz
Baudelaire vê o artista ”em meio à multidão”
Daniel Piza
Fonte : O Estado de S.Paulo
Se a crítica fosse apenas uma atividade de frustrados que procuram defeitos nos outros, o maior poeta francês do século 19 não teria sido também o maior crítico. E Charles Baudelaire (1821-1867) foi ambos. Além de ter sido o primeiro a dar o devido valor a Edgar Allan Poe, o poeta, contista e crítico que os EUA ainda não sabiam valorizar, Baudelaire foi fundamental na crítica de arte. Fundamental, no sentido puro: ele foi aos fundamentos da atividade, de seu papel na interpretação da arte e, por extensão, na interpretação da vida, que a arte recria, critica e enriquece. “Por sorte”, escreve Baudelaire, “surge de tempos em tempos quem coloque as coisas no devido lugar: críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos.”
A frase está no livro O Pintor da Vida Moderna, escrito por ele em 1863 e só agora digno de uma bela edição brasileira, da editora Autêntica, por iniciativa da dupla Tomaz Tadeu (tradução e organização) e Jérôme Dufilho (posfácio e organização). O Homem na Multidão, o célebre texto de Poe, foi sabiamente acrescido ao volume, que é todo ilustrado a cores, tem capa dura e papel cuchê. Curiosamente, depois de tanto tempo ignorada, esse é o terceiro livro produzido nos últimos três anos no Brasil com a crítica de arte de Baudelaire. Em 2008, um trabalho de 1992 de Plínio Augusto Coelho, a tradução dos Escritos Sobre Arte, foi relançado pela editora Hedra. Em 2010, graças a Daniela Kern, a Sulina publicou Paisagem Moderna, com as resenhas dos salões de arte por Baudelaire, acompanhadas de outro material inédito em português, os ensaios de John Ruskin sobre Turner e outros artistas.
E quem era o pintor da vida moderna referido no título? Era Constantin Guys (1802-1892), aquarelista e ilustrador, cronista visual do Segundo Império francês, que provavelmente estaria esquecido hoje se não fosse pelo ensaio de Baudelaire. O autor de As Flores do Mal (1857), porém, não estranharia o fato: ele mesmo se encarrega de dizer que Guys não era um gênio, um Rafael a falar com toda a posteridade, mas um grande talento voltado a seu tempo. “O prazer que extraímos da representação do presente”, diz Baudelaire logo no começo, “deve-se não apenas à beleza de que pode estar revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente.” E então ele se põe a analisar as maneiras como Guys captou a essência do presente que vivenciou.
Baudelaire fala das “gravuras de moda” como vinhetas de época animadas pela sensibilidade poética de Guys, que encontrava nessas roupas um “imortal apetite pelo belo” em constante metamorfose e, mais importante, um pretexto para o artista manifestar sua curiosidade sobre o mundo, com suas variáveis morais, políticas e estéticas, com sua diversidade de hábitos, gostos e semblantes. “Imaginem um artista que estivesse sempre, espiritualmente, em estado de convalescença”, continua, “e terão a chave do caráter do Sr. G.” Como uma criança, estava sempre alerta para as novidades, sem preconceito de gênero ou classe, e isso se expressa em linhas ágeis, tintas coloridas, registros sem acabamento, urgentes, de poucos mas significativos detalhes.
Olhando os desenhos e aquarelas reproduzidos no livro, vemos justamente essa vitalidade de Guys, que, como um Daumier mais lírico e menos satírico, prenuncia o impressionismo de Degas ou Lautrec. Na Mulher com Lenço Amarelo, ele ignora as demais cores e não se detém em definir os limites do amarelo a uma peça de roupa; por isso mesmo, nos sugere todo o movimento, a graça, o caráter transeunte e transitivo da cena. Baudelaire defende o gosto feminino por moda, para “pairar acima da natureza”, não para “rivalizar com a juventude”, e Guys como seu cronista civilizado. Ele parece “inebriado”, quase “anárquico”, mas essa velocidade é seu trunfo, porque associada ao dom da contemplação – tanto que suas cenas de guerra ou de sua viagem à Turquia refletem a mesma preocupação com a explosão de luzes e a riqueza de detalhes. No Brasil, intelectuais diriam que isso tudo não passa de frivolidade; não espanta que não vejam o talento gráfico de um Millôr Fernandes.
Quando escreveu sobre um pintor maior, Delacroix (que foi para ele o que Turner foi para Ruskin: a síntese pictórica de todas suas inquietações estéticas), Baudelaire destacou também essa qualidade “mundana”, lembrando a frase dele de que um artista deveria ser hábil o bastante para “fazer um croquis de um homem que se atira pela janela durante o tempo que ele leva para cair do quarto andar ao solo”. Ou seja: a rapidez da percepção, a aptidão gráfica, não faria de um pintor um grande artista, mas seria necessária para um artista moderno, urbano, interessado em renovar as linguagens. Não existe apenas a beleza clássica, das formas gerais; existe também a beleza passageira, das formas particulares – e a modernidade é indissociável dessa atenção ao que é fugaz e móvel.
Não por acaso a centena de poemas de As Flores do Mal é o que é: um mosaico clássico composto de pastilhas modernas – ou, como disse João Cabral de Melo Neto, “está tudo ali”. Não por acaso foi em Baudelaire que Walter Benjamin examinou a figura do flâneur, do observador que caminha pela metrópole e se relaciona com o mercado de consumo, em meio à multidão, e como o homem de Poe passa a ver “com particular interesse as inumeráveis variedades de acessório, roupa, aparência, andar, rosto e expressão facial”. E não por acaso, em 1895, um famoso dândi se baseou em Baudelaire para elogiar Guys numa comparação com Whistler, ainda que este hoje seja reconhecido como melhor pintor – e esse dândi se chamava Robert de Montesquiou, modelo para o Barão de Charlus de outro escritor e crítico de arte, Marcel Proust, admirador e tradutor de Ruskin. Os grandes artistas modernos, enfim, não são nada senão críticos, amantes da arte, espíritos inquisitivos
Fonte : O Estado de S.Paulo
Ana de Amsterdam
Composição: Chico Buarque/Ruy Guerra
Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana
Sou Ana de Amsterdam
Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar
Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente, das Índias
Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos
Sou Ana de Amsterdam
Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar
Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, da vacas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam
Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, das trocas de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, sacana
Sou Ana de Amsterdam
Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar
Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente, das Índias
Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos
Sou Ana de Amsterdam
Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar
Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, da vacas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam
O Tango
Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.
Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?
Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?
Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.
Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?
E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?
Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.
Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.
Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.
Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.
Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,
Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.
Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)
O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,
Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.
Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.
Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?
Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?
Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.
Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?
E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?
Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.
Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.
Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.
Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.
Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,
Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.
Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)
O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,
Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.
Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.
Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47
sábado, 4 de dezembro de 2010
Soneto
Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu própio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.
Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!
Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!
E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento.
António Botto
António Boto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
Editorial Presença
Tudo perdi e eu própio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.
Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!
Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!
E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento.
António Botto
António Boto
Aves de Um Parque Real
As Canções de António Botto
Editorial Presença
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Amorosa antecipação
Ni la intimidad de tu frente clara como una fiesta
ni la costumbre de tu cuerpo, aún misterioso y tácito y de niña,
ni la sucesión de tu vida asumiendo palabras o silencios
serán favor tan misterioso
como el mirar tu sueño implicado
en la vigilia de mis brazos.
Virgen milagrosamente otra vez por la virtud absolutoria del sueño,
quieta y resplandeciente como una dicha que la memoria elige,
me darás esa orilla de tu vida que tú misma no tienes,
Arrojado a quietud
divisaré esa playa última de tu ser
y te veré por vez primera, quizá,
como Dios ha de verte,
desbaratada la ficción del Tiempo
sin el amor, sin mí.
Jorge Luis Borges in Luna de enfrente(1925) -Versión transcripta por José Ignacio Márquez.,pp 9.
Amorosa antecipação
Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,
nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,
nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios
serão favor tão misterioso
como olhar o teu sono envolvido
na vigília dos meus braços:
Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,
serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,
dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.
Entregue à serenidade,
divisirei essa praia última do teu ser
e ver-te-ei acaso pla primeira vez
como Deus te verá,
já dissipada a ficção do Tempo,
sem o amor, sem mim.
ni la costumbre de tu cuerpo, aún misterioso y tácito y de niña,
ni la sucesión de tu vida asumiendo palabras o silencios
serán favor tan misterioso
como el mirar tu sueño implicado
en la vigilia de mis brazos.
Virgen milagrosamente otra vez por la virtud absolutoria del sueño,
quieta y resplandeciente como una dicha que la memoria elige,
me darás esa orilla de tu vida que tú misma no tienes,
Arrojado a quietud
divisaré esa playa última de tu ser
y te veré por vez primera, quizá,
como Dios ha de verte,
desbaratada la ficción del Tiempo
sin el amor, sin mí.
Jorge Luis Borges in Luna de enfrente(1925) -Versión transcripta por José Ignacio Márquez.,pp 9.
Amorosa antecipação
Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,
nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,
nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios
serão favor tão misterioso
como olhar o teu sono envolvido
na vigília dos meus braços:
Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,
serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,
dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens.
Entregue à serenidade,
divisirei essa praia última do teu ser
e ver-te-ei acaso pla primeira vez
como Deus te verá,
já dissipada a ficção do Tempo,
sem o amor, sem mim.
Una furtiva Lacrima
Una furtiva lagrima
Una furtiva lagrima
negli occhi suoi spuntò
quelle festose giovani
invidiar sembrò
Che più cercando io vo?
Che più cercando io vo?
M’ama, si m’ama lo vedo;
lo vedo.
Un solo istante i palpiti
del suo bel cor sentir!
I miei sospir confondere
per poco ai suoi sospir!
I palpiti, i palpiti sentir
confondere i miei coi suoi sospir!
Cielo, si può morir;
di più non chiedo.
non chedo!
Cielo si può, si può morir!
di non chiedo
non chiedo!
Si può morir!
Si può morir!
d’amor.
Une larme furtive
A jailli dans ses yeux…
Elle paraissait envier
Ces joyeuses jeunes filles…
Que puis-je désirer de plus ?
Que puis-je désirer de plus ?
Elle m’aime, je le vois.
Un seul instant sentir
Les palpitations de son beau coeur
Confondre un moment
Mes soupirs avec les siens
Ciel, on peut mourir, je n’en demande pas plus.
Je ne demande rien de plus.
Ciel, si je peux mourir, si je peux mourir, je n’en demande pas plus.
Je ne demande pas d’amour si je peux mourir, ah oui !
[Ciel, on peut mourir... d'amour !
Una furtiva lagrima
negli occhi suoi spuntò
quelle festose giovani
invidiar sembrò
Che più cercando io vo?
Che più cercando io vo?
M’ama, si m’ama lo vedo;
lo vedo.
Un solo istante i palpiti
del suo bel cor sentir!
I miei sospir confondere
per poco ai suoi sospir!
I palpiti, i palpiti sentir
confondere i miei coi suoi sospir!
Cielo, si può morir;
di più non chiedo.
non chedo!
Cielo si può, si può morir!
di non chiedo
non chiedo!
Si può morir!
Si può morir!
d’amor.
Une larme furtive
A jailli dans ses yeux…
Elle paraissait envier
Ces joyeuses jeunes filles…
Que puis-je désirer de plus ?
Que puis-je désirer de plus ?
Elle m’aime, je le vois.
Un seul instant sentir
Les palpitations de son beau coeur
Confondre un moment
Mes soupirs avec les siens
Ciel, on peut mourir, je n’en demande pas plus.
Je ne demande rien de plus.
Ciel, si je peux mourir, si je peux mourir, je n’en demande pas plus.
Je ne demande pas d’amour si je peux mourir, ah oui !
[Ciel, on peut mourir... d'amour !
Victoria (1930)
Saraca, Victoria;
Planté de la noria,
Se fue mi mujer!
Si me parece mentira…
¡Después de seis años
volver a vivir!
Volver a ver mis amigos…
Vivir con mama otra vez…
¡Victoria,
cantemos victoria,
yo estoy en la gloria,
se fue mi mujer!
Me saltaron los tapones
Cuando tuve esta mañana
La alegría de no verla más;
Y es que, al ver que no la tengo,
Corro, salto, voy y vengo
Desatentao. ¡Gracias a Dios,
Que me salvé de andar
Toda la vida atao
Llevando el bacalao
De la emulsión de Scott!
Si no nace el marinero
Que me tire de esa piolita
Para hacerme resollar,
Yo ya estaba condenao
A morir crucificao
Como el último infeliz…
¡Victoria,
saraca, Victoria;
pianté de la noria,
se fue mi mujer!
Me da mucha tristeza el panete
Chicato inocente
Que se la llevó…
¡Cuando desate el paquete
y manye que se ensartó…!
¡Victoria,
cantemos victoria;
yo estoy en la gloria
se fue mi mujer !
Planté de la noria,
Se fue mi mujer!
Si me parece mentira…
¡Después de seis años
volver a vivir!
Volver a ver mis amigos…
Vivir con mama otra vez…
¡Victoria,
cantemos victoria,
yo estoy en la gloria,
se fue mi mujer!
Me saltaron los tapones
Cuando tuve esta mañana
La alegría de no verla más;
Y es que, al ver que no la tengo,
Corro, salto, voy y vengo
Desatentao. ¡Gracias a Dios,
Que me salvé de andar
Toda la vida atao
Llevando el bacalao
De la emulsión de Scott!
Si no nace el marinero
Que me tire de esa piolita
Para hacerme resollar,
Yo ya estaba condenao
A morir crucificao
Como el último infeliz…
¡Victoria,
saraca, Victoria;
pianté de la noria,
se fue mi mujer!
Me da mucha tristeza el panete
Chicato inocente
Que se la llevó…
¡Cuando desate el paquete
y manye que se ensartó…!
¡Victoria,
cantemos victoria;
yo estoy en la gloria
se fue mi mujer !
João e Maria
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Balada para mi muerte
Moriré en Buenos Aires
será de madrugada
Guardaré mansamente
las cosas de vivir
Mi pequeña poesía
de adioses y de balas
Mi tabaco mi tango
mi puñado de spleen
Me pondré por los hombros
de abrigo toda el alba
Mi penúltimo whisky
quedará sin beber
Llegará tangamente
mi muerte enamorada
Yo estaré muerto en punto
cuando sean las seis
Hoy que Dios me deja soñar
A mi olvido iré por Santa Fe
Sé que en nuestra esquina vos ya estás Toda de tristeza hasta los pies Abrazame fuerte que por dentro
Oigo muertes viejas muertes
Agrediendo lo que amé
Alma mía vamos yendo
Llega el día
No llores Moriré en Buenos Aires
Será de madrugada
Que es la hora en que mueren
los que saben morir
Flotará en mi silencio
la mufla perfumada
De aquel verso que nunca
te pude decir
Andaré tantas cuadras
y allá en la plaza Francia
Como sombras fugadas
de un cansado ballet
Repitiendo tu nombre
por una calle blanca
Se me irán los recuerdos
en puntitas de pie
Moriré en Buenos Aires
Será de madrugada
Guardaré mansamente
las cosas de vivir
Mi pequeña poesía
de adioses y de balas
Mi tabaco mi tango
mi puñado de spleen
Me pondré por los hombros
de abrigo toda el alba
Mi penúltimo whisky
quedará sin beber
Llegará tangamente
mi muerte enamorada
Yo estaré muerto en punto
cuando sean las seis
de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer
será de madrugada
Guardaré mansamente
las cosas de vivir
Mi pequeña poesía
de adioses y de balas
Mi tabaco mi tango
mi puñado de spleen
Me pondré por los hombros
de abrigo toda el alba
Mi penúltimo whisky
quedará sin beber
Llegará tangamente
mi muerte enamorada
Yo estaré muerto en punto
cuando sean las seis
Hoy que Dios me deja soñar
A mi olvido iré por Santa Fe
Sé que en nuestra esquina vos ya estás Toda de tristeza hasta los pies Abrazame fuerte que por dentro
Oigo muertes viejas muertes
Agrediendo lo que amé
Alma mía vamos yendo
Llega el día
No llores Moriré en Buenos Aires
Será de madrugada
Que es la hora en que mueren
los que saben morir
Flotará en mi silencio
la mufla perfumada
De aquel verso que nunca
te pude decir
Andaré tantas cuadras
y allá en la plaza Francia
Como sombras fugadas
de un cansado ballet
Repitiendo tu nombre
por una calle blanca
Se me irán los recuerdos
en puntitas de pie
Moriré en Buenos Aires
Será de madrugada
Guardaré mansamente
las cosas de vivir
Mi pequeña poesía
de adioses y de balas
Mi tabaco mi tango
mi puñado de spleen
Me pondré por los hombros
de abrigo toda el alba
Mi penúltimo whisky
quedará sin beber
Llegará tangamente
mi muerte enamorada
Yo estaré muerto en punto
cuando sean las seis
de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer
Uma emocionante versão do melhor conto de Chekhov
Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo
Um dos mais delicados contos de Chekhov, A Dama do Cachorrinho (1899), ganhou há 50 anos uma versão para o cinema quando se comemorava o centenário do escritor russo. O mínimo que se pode dizer dela é que se trata de uma transposição feita de pequenos gestos e filigranas. Seu diretor, Iosif Kheifits (1905- 1995), deu mais de uma vez provas de sua competência como artesão, realizando outras adaptações de grandes escritores, entre eles Turguêniev, de quem filmou Ásia, também uma história de amor impossível como A Dama do Cachorrinho.
Esse conto de Chekhov – que Gorki adorava e Tolstoi detestava (por razões morais) – exige mesmo do leitor uma tomada de posição, o que explica principalmente a elipse final que dá ao texto um caráter de obra aberta. Tolstoi, então, acabara de lançar seu último livro, Ressurreição, quando leu A Dama do Cachorrinho e, talvez por se reconhecer na figura do adúltero Dimitri Gurov, tenha sentido certo desconforto com o conto de Chekhov. Compreensível. Alheio à moral conservadora russa da virada do século, o autor ousou contar uma história de amor entre duas pessoas casadas e entediadas.
Gurov (Aleksei Batalov) trabalha em um banco, apesar de sua formação como filólogo – o que informa à futura amante Ana (Iya Savvina) logo no primeiro encontro. Ana é a dama do cachorrinho que conhece numa cidade de veraneio, Ialta, balneário de encontros fugazes no Mar Negro. Logo na primeira sequência do filme, o passeio de Ana com seu lulu da Pomerânia à beira-mar é comentado como o grande acontecimento do dia no bar em que Gurov entra. Lendo o jornal, ele a observa de longe para em seguida ver a linda mulher sentar a seu lado. Conquistador, Gurov atrai a atenção do cachorrinho para chegar ao seu verdadeiro objeto de desejo.
O que era para ser uma aventura passageira acaba em caso amoroso sério. Assustada, ela volta à cidade onde mora ao receber uma carta do marido pedindo sua volta. A sequência da despedida na estação ferroviária subverte o clichê das separações cinematográficas: Gurov fica com a luva de Ana nas mãos e, no lugar de guardá-la, abandona-a na grade da plataforma.
Kheifits segue rigorosamente a progressão do caso no conto de Chekhov, acentuando o tormento de um homem mais velho, casado e com três filhos, ao se apaixonar por uma mulher casada e quase 20 anos mais nova. Ele tenta esquecê-la, mas a irrelevância de seu cotidiano o conduz à casa de Ana – a cena mais tocante do filme de Kheifits, todo ele feito de silêncios reveladores como o da sequência final, em que o banqueiro-filólogo não tem palavras para exprimir seu desamparo. Dificilmente o cinema alcançou um tom emocionado como esse epílogo. Para ver e rever várias vezes.
A DAMA DO CACHORRINHO. Direção: Iosif Kheifits. Elenco: Iya Savvina e Aleksei Batalov. Cult Classic, R$ 34,90
Antonio Gonçalves Filho – O Estado de S.Paulo
Um dos mais delicados contos de Chekhov, A Dama do Cachorrinho (1899), ganhou há 50 anos uma versão para o cinema quando se comemorava o centenário do escritor russo. O mínimo que se pode dizer dela é que se trata de uma transposição feita de pequenos gestos e filigranas. Seu diretor, Iosif Kheifits (1905- 1995), deu mais de uma vez provas de sua competência como artesão, realizando outras adaptações de grandes escritores, entre eles Turguêniev, de quem filmou Ásia, também uma história de amor impossível como A Dama do Cachorrinho.
Esse conto de Chekhov – que Gorki adorava e Tolstoi detestava (por razões morais) – exige mesmo do leitor uma tomada de posição, o que explica principalmente a elipse final que dá ao texto um caráter de obra aberta. Tolstoi, então, acabara de lançar seu último livro, Ressurreição, quando leu A Dama do Cachorrinho e, talvez por se reconhecer na figura do adúltero Dimitri Gurov, tenha sentido certo desconforto com o conto de Chekhov. Compreensível. Alheio à moral conservadora russa da virada do século, o autor ousou contar uma história de amor entre duas pessoas casadas e entediadas.
Gurov (Aleksei Batalov) trabalha em um banco, apesar de sua formação como filólogo – o que informa à futura amante Ana (Iya Savvina) logo no primeiro encontro. Ana é a dama do cachorrinho que conhece numa cidade de veraneio, Ialta, balneário de encontros fugazes no Mar Negro. Logo na primeira sequência do filme, o passeio de Ana com seu lulu da Pomerânia à beira-mar é comentado como o grande acontecimento do dia no bar em que Gurov entra. Lendo o jornal, ele a observa de longe para em seguida ver a linda mulher sentar a seu lado. Conquistador, Gurov atrai a atenção do cachorrinho para chegar ao seu verdadeiro objeto de desejo.
O que era para ser uma aventura passageira acaba em caso amoroso sério. Assustada, ela volta à cidade onde mora ao receber uma carta do marido pedindo sua volta. A sequência da despedida na estação ferroviária subverte o clichê das separações cinematográficas: Gurov fica com a luva de Ana nas mãos e, no lugar de guardá-la, abandona-a na grade da plataforma.
Kheifits segue rigorosamente a progressão do caso no conto de Chekhov, acentuando o tormento de um homem mais velho, casado e com três filhos, ao se apaixonar por uma mulher casada e quase 20 anos mais nova. Ele tenta esquecê-la, mas a irrelevância de seu cotidiano o conduz à casa de Ana – a cena mais tocante do filme de Kheifits, todo ele feito de silêncios reveladores como o da sequência final, em que o banqueiro-filólogo não tem palavras para exprimir seu desamparo. Dificilmente o cinema alcançou um tom emocionado como esse epílogo. Para ver e rever várias vezes.
A DAMA DO CACHORRINHO. Direção: Iosif Kheifits. Elenco: Iya Savvina e Aleksei Batalov. Cult Classic, R$ 34,90
Poema para não ser lido no teu casamento
Poema para não ser lido no teu casamento
Beth Ann Fennelly – Poesia & Ltda
POEM NOT TO BE READ AT YOUR WEDDING
You ask me for a poem about love
in lieu of a wedding present, trying to save me
money. For three nights I’ve lain under
glow-in-the-dark stars I’ve stuck to the ceiling
over my bed. I’ve listened to the songs
of the galaxy. Well, Carmen, I would rather
give you your third set of steak knives
than tell you what I know. Let me find you
some other store-bought present. Don’t
make me warn you of stars, how they see us
from that distance as miniature and breakable,
from the bride who tops the wedding cake
to the Mary on Pinto dashboards
holding her ripe red heart in her hands.
(tradução colectiva PoesiaIlimitada)
POEMA PARA NÃO SER LIDO NO TEU CASAMENTO
Pedes-me um poema sobre o amor
em lugar de uma prenda de casamento, tentando que eu poupe
dinheiro. Por três noites estendi-me sob
estrelas que-brilham-no-escuro colei-me ao tecto
sobre a minha cama. Escutei as canções
da galáxia. Bem, Carmen, eu preferiria antes
dar-te o teu terceiro jogo de facas de carne
a ter de te contar o que sei. Deixa que te descubra
algum outro presente de loja, comprado. Não
me faças avisar-te das estrelas, de como nos vêem
à distância, tão diminutas e quebráveis,
desde a noiva que encima o bolo de casamento
até Maria, no tablier de um Ford Pinto
segurando seu coração rubro e maduro entre mãos.
Fonte : Poesia & Ltda
Beth Ann Fennelly – Poesia & Ltda
POEM NOT TO BE READ AT YOUR WEDDING
You ask me for a poem about love
in lieu of a wedding present, trying to save me
money. For three nights I’ve lain under
glow-in-the-dark stars I’ve stuck to the ceiling
over my bed. I’ve listened to the songs
of the galaxy. Well, Carmen, I would rather
give you your third set of steak knives
than tell you what I know. Let me find you
some other store-bought present. Don’t
make me warn you of stars, how they see us
from that distance as miniature and breakable,
from the bride who tops the wedding cake
to the Mary on Pinto dashboards
holding her ripe red heart in her hands.
(tradução colectiva PoesiaIlimitada)
POEMA PARA NÃO SER LIDO NO TEU CASAMENTO
Pedes-me um poema sobre o amor
em lugar de uma prenda de casamento, tentando que eu poupe
dinheiro. Por três noites estendi-me sob
estrelas que-brilham-no-escuro colei-me ao tecto
sobre a minha cama. Escutei as canções
da galáxia. Bem, Carmen, eu preferiria antes
dar-te o teu terceiro jogo de facas de carne
a ter de te contar o que sei. Deixa que te descubra
algum outro presente de loja, comprado. Não
me faças avisar-te das estrelas, de como nos vêem
à distância, tão diminutas e quebráveis,
desde a noiva que encima o bolo de casamento
até Maria, no tablier de um Ford Pinto
segurando seu coração rubro e maduro entre mãos.
Fonte : Poesia & Ltda
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Nesta última tarde em que respiro
Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro
António Franco Alexandre
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro
António Franco Alexandre
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